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História de: Helenice Andrade Nogueira
Autor: Helenice Andrade Nogueira
Publicado em: 13/05/2008

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História completa

Sempre tive dificuldade para decorar coisas. Recitar poesia na escola era um martírio e o pior, é que eu queria participar de todas. Tenho muitas histórias de esquecimentos. Olha que paradoxo Por ocasião da minha primeira comunhão, com sete anos de idade, me lembro que fiquei um bom tempo fazendo uma lista de pecados que eu deveria contar para o frei Silvério, um amor de pessoa. Tinha xingamento de irmão, desobedeceu mãe, cantou música de carnaval na quaresma, riu do bêbado do jardim, levantou os ombros para o pai, pensou mal de alguém e aí vai uma lista enorme, pois eu queria que fosse bem completa, já que seria a primeira. Só não saiu pecado intra –uterino porque, como eu disse, não sou boa de memória. Quando chegou o dia, fiquei na fila tentando decorar aquela infinidade de pecados. Chegando a minha hora, deu aquele branco costumeiro. O frei Silvério, amor de pessoa, percebendo a minha agitação, perguntou o que tinha acontecido e eu falei para ele da minha lista. Ele liberou a leitura naquele momento e isso foi um grande alívio. A primeira comunhão seria no dia seguinte. Acordei sobressaltada de madrugada pois me lembrei que não havia colocado na lista de pecados, que eu tinha faltado à missa três vezes, durante toda a minha vida até então, por pura preguiça. “Meu Deus, e agora? E a primeira comunhão?”. Esperei amanhecer, atormentada e ansiosa, e contei o meu drama para a minha mãe que muito tranqüilamente me disse que eu poderia comungar pois não tinha problema, e que, na semana seguinte eu podia contar o pecado das três missas. A cerimônia da comunhão foi linda, aquela roupa branca de fustão era linda, o véu branco de renda que pinicava o pescoço e as orelhas, era muito lindo e, eu tranqüila e pura, apesar das três missas cabuladas. Na semana seguinte lá fui eu cumprir o combinado e confessar o pecado esquecido. Dessa vez não tinha fila e tinha gente de todas as idades por ali. Uma amiga da minha mãe passou por mim e falou: - Fez a primeira comunhão a semana passada e já vai confessar? Fiquei com preguiça de explicar para ela todo o acontecido e deixei a ironia pra lá. Dessa vez também não era o frei Silvério, amor de pessoa, era um outro que não me lembro o nome. Eu já ia falar aquelas palavras ensaiadas no curso de catequese, quando ele me atropelou com uma outra pergunta que me atrapalhou um pouco. Afinal, agora eu era uma pecadora qualquer e não da turminha de formandos. Perguntou há quanto tempo eu não me confessava, e eu respondi “uma semana”. - E quais são seus pecados? Aí eu contei o pecado das três missas. O tal frei, ficou bravo, disse que três missas era muita coisa, e que não dava para perdoar. Pasmem Me mandou rezar não sei quantos pais-nossos e voltar na semana seguinte. Não me deixou explicar o esquecimento na lista da semana anterior e nem percebeu que em uma semana não dava para faltar três missas obrigatórias. Confesso que cheguei a sentir o calor do fogo do inferno. Se fosse hoje, acho que teríamos um processo semelhante aos dos casos de abuso de menores mas, naquela época, a minha mãe, mais sábia que a Igreja Católica Apostólica Romana inteira, me disse: - Vai lá e confessa com outro frei. E foi o que eu fiz. Procurei o frei Silvério, amor de pessoa, e burlei o santo sacramento da confissão, com a certeza de que, pelo menos nesse caso, eu era completamente inocente. Não fiquei contra a Igreja, até participei muito dela depois disso mas, peguei a mania de explicar muito as coisas antes de chegar ao ponto para evitar desentendimentos. 

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