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Criada na guerra, agora em paz com o que realizou

História de: Maria Bobadilla Ballester
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/04/2019

Sinopse

Maria Bobadilla veio para o Brasil com Manolo, seu marido, porque este estava convencido de que o futuro estaria aqui. Deixaram as plantações de arroz, trigo, cevada, pimentões, lá na Espanha, para trás. Deixaram lembranças dolorosas da guerra civil. Aqui Manolo resolveu se aventurar: foi para o meio do mato vender de tudo, para todos. De arroz a bacalhau. Depois lidou com bar. Prosperou, comprou um pouco de terra, começou uma granja com 500 galinhas. Chegou a 60 mil. Deu certo. Todo o ovo vendido ali na região era proveniente da Granja do Manolo. Aquilo cresceu... Maquinário, instalações, espaço, tudo. Mas chegou também o dia de tudo parar. Não havia quem tocasse. Ninguém com espírito granjeiro.

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História completa

Meu nome é Maria Bobadilla Ballester. Nasci em El Lagar, Espanha, em 30 de agosto de 1929. Na região de Murcia. Trago comigo recordações bastante fortes, e muito tristes, dos tempos da Guerra Civil: os espanhóis contra espanhóis. Minha avó por exemplo, entre filhos e genro, chegou a ter cinco familiares lutando nessa guerra. A escassez de alimentos era então generalizada, obrigando as famílias a trocarem entre si tipos de alimentos que não havia à venda. Nós, como vivíamos do campo, da lavoura, no interior, íamos até uma cidade praiana, por exemplo, para trocar ovos e frango por pão e trigo. Lembro de ter ido com minha avó e de termos sido detidas, porque a prática era proibida. Na verdade, esse foi um período que coube às mulheres tomar a frente das decisões e das ações porque os homens, entre quinze e sessenta anos de idade, estavam todos nos campos de batalha. Elas tinham que criar os filhos, cuidar da plantação, prover todas as necessidades

 

Chamava-se a Quinta de la Cajado e a Quinta de La Mamadeira, porque não iam jovens e não iam velhos para a guerra.


 

Meu pai lutou, e lutou muito, nessa guerra. Por carta, relatava sofrimentos incríveis. Quando se encerrou, que ele foi para casa, ao chegar, ele largou as roupas todas no portão e foi tomar um banho. Contava minha mãe que, durante a noite, aquelas roupas se moveram, tal era a quantidade de piolhos que havia nelas. E um fato tocante desse período é que minha mãe, já casada e com filhos meio crescidinhos, permanecia analfabeta. Pois bem, ela contratou uma professora para ensiná-la a ler e escrever e ela poder se corresponder com o seu amor, distante.

 

E quando o avião bombardeava, a gente se escondia na trincheira para entrar para a terra. A gente se enfiava lá e esperava o avião passar. Escutava-se a bomba; às vezes se via cair (...) Eu ficava olhando, achava até que estava bonito, não sabia do perigo que estava correndo, não é?


 

E nós, crianças, não tínhamos do que ou com o que brincar por ali. Mas passávamos o dia na escola, oito horas por dia. De manhã, as matérias normais do curso; à tarde, habilidades como canto, declamação, crochê, desenho pintura, etc. Os que moravam mais distante almoçavam na escola mesmo; eu, apesar de não morar tão perto, preferia ir almoçar em casa. Meninos e meninas que assistiam aula juntos/separados - só se juntavam no recreio. E foi lá que eu conheci o meu primeiro namorado. Aliás, o primeiro, o segundo, o terceiro, o último, o único. O Manoel, Manoelito, Manolo. O meu marido. Quando ele foi prestar o serviço militar nós ficamos namorando por carta.


Uma festa muito bonita. O vestido, eu escolhi. A costureira fez. Muita emoção. Principalmente porque eu estava conseguindo casar com o Manolo. Quatro anos de namoro. As famílias tinham um trabalho comum, com o plantio do pimentão.


Recém-casados, o Manolo resolve vir para o Brasil. Tem aqui um tio, tem emprego garantido, tem a certeza de que aqui está o futuro. Eu digo: “Se ele vai, eu vou também”. Mas o Manolo não tem o dinheiro para a minha passagem. Meu pai, minha salvação: “Você não tem o dinheiro para pagar a passagem, mas eu tenho para pagar a passagem dela. Ela é sua, leva com você”. E que passagem meu pai pagou…


 

(...) com muito conforto, um navio transatlântico de luxo. Você saía assim em cima e vinha aquela gaivota voando, se jogava… Foi muito bonita a viagem.


 

E assim a vida foi indo. O próprio tio dizia que Manolo, muito atencioso e bonito, fizera a clientela dobrar. Nós acabávamos pagando as contas do mês só com as gorjetas que ele ganhava.


Até que um dia o Manolo me disse: “Vou mudar para o mato”. Mais uma vez eu refleti: “(...) quem veio da Espanha até aqui com ele, vai até aí também, não é?”. Ali, naquele meio do nada, Manolo começou a sua vendinha. Não foi bar, que bar foi mais adiante. Foi venda mesmo, daquela que tem de tudo: do bacalhau ao arroz a granel. Passado um bom tempo, compramos o terreno onde hoje está a nossa casa. De imediato, construímos um galinheiro - um galinheiro para abrigar as quinhentas galinhas. Ali começou a granja. Que chegou ao ponto de ter sessenta mil galinhas. E assim foi prosperando o negócio, aumentando o espaço, agregando maquinário, construindo depósitos, ampliando instalações. Fornecíamos ao mercadão que havia lá - todo o ovo que era vendido no mercado era da Granja do Manolo. Depois começamos a vender dúzias com uma embalagem tão bonita que não sobrou uma pra contar a história. Até chamavam o toureiro impresso na caixa, de Manolo.


E diante daquela produção toda, eu me sentia grande, me sentia realizada. Sessenta mil galinhas, “todas botadoras”. E a vida seguindo. Os filhos, e com eles novas alegrias, novas realizações. Os filhos aprendendo o serviço da granja. A vida social foi intensa, o Manolo fundou um clube aqui, ajudou muito a igreja com as festas. A Sociedade dos Amigos do Bairro, que o Manolo presidiu, que eu dei toda contribuição que pude. Novas realizações, com a chegada dos netos, com a vinda dos meus pais por um tempo, com as nossas idas para lá.

 

Depois da granja não aconteceu mais nada, porque tudo parou, não é? Ninguém quis ser granjeiro. A granja… Agora eu tenho vinte galinhas. Tive já sessenta mil, hoje não tenho mais nada, está tudo derrubado, está tudo quieto.


 


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