Busca avançada



Criar

História

Criação da vida

História de: Inácio Pereira Gurgel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/03/2015

Sinopse

Pernambucano, filho de lavradores, Inácio passou a infância na roça, casa de taipa. Aprendeu a ler aos 3 anos, tomou gosto por poesia e teatro. Suas brincadeiras preferidas eram: fazer teatro, rezados, folguedos, brinquedos de melancias e abóboras, caçar passarinhos com bodoques. Trabalhou na roça, ao mesmo tempo em que seguia com os estudos. Mudou-se para Alagoas, região do sertão com pouca água, posteriormente, para fazenda de algodão em Martinópolis (SP). Quando foi para Osasco (SP) trabalhou em firmas de fundição, aprendizado do ofício de macheiro: Sofunge e Cobrasma. Participou dos movimentos grevistas nos anos 60 e se engajou no movimento sindical, o que resultou na perseguição policial e prisão.

Tags

História completa

P/1 -  Gostaria que dissesse seu nome completo, onde e quando nasceu

 

R -  Inácio Pereira Gurgel. Nasci em Garanhuns, Pernambuco, aos 12 de agosto de 1934.

 

P/1 -  E também o nome dos seus pais.

 

R -  Manuel Pereira Gurgel e Júlia Francisca de Moura.

 

P/1 -  De onde eles são?

 

R -  Eles são de Garanhuns, Pernambuco, também.

 

P/1 -   Poderia  contar sua infância em Garanhuns?

 

R -  Ah, muito sofrida. Uma infância muito sofrida porque lá naquela época nós vivíamos da roça, não tínhamos quase nada. Mas é uma terra que as nossas raízes estão lá e ainda hoje a gente ama aquele pedaço. Porque foi lá que eu comecei a fazer poesias. Foi lá que eu comecei a fazer teatro. Aos sete anos de idade nós começamos. É evidente que não tinha um estúdio, não tinha um palco, como hoje aqui. Mas a gente fazia no mato. A gente cortava as árvores, fazia o palco. Quatro colegas representavam, cinco, seis assistia. E o nosso teatro era feito no mato. Uma vida muito sofrida, muito humilde, mas muito forte.

 

P/1 -  Como era a sua casa ?

 

R -  Eu não sei se você conhece a casa chamada de taipa, que as paredes são feitas de barro. A nossa casa era assim. Era grande, tinha cinco, seis cômodos, mas feita toda à mão. Com telhas feita à mão. Era assim.

 

P/1 -  Quantos irmãos?

 

R -  Cinco, comigo. Cinco irmãos.

 

P/1 -  Moravam todos lá?

 

R -  Todos juntos, na mesma casa.

 

P/1 -   Eles participavam do teatro também?

 

R -  Não, não. Quem mais participou fui eu. Porque aos três anos de idade, mesmo sem professor, eu já lia. Então, o pessoal por ali não sabia ler, e eu lia as cartas que vinham de fora para o pessoal. Era eu quem lia as cartas para eles.

 

P/2 -  Como aprendeu a ler?

 

R -  Essa pergunta eu não sei responder. É um enigma! Porque, de repente, eu estava lendo. Eu não sei como. Você me pegou! Eu não sei responder tudo. (riso) Essa eu não respondo, porque não sei.

 

P/1 -  Chegou a freqüentar a escola?

 

R -  Depois dos 7 anos de idade, sim.

 

P/1 -  Como era na escola?

 

R -  É, eu sempre fui bom aluno, mas só consegui lá em Garanhuns mesmo completar o primário. Depois nós mudamos para o estado de Alagoas. Estudei mais um pouqinho, e o resto dos estudos foram feitos aqui em São Paulo.

 

P/1 -  Como era a escola em Garanhuns?

 

R -  Era uma casa de taipa. A minha professora chamava-se Maria Lourenço. Muito humilde. Era na roça, a escola. Sabe, é até difícil descrever, sabe? Mas agora eu estou vendo como era a minha escola. Diferente das escolas de hoje.

 

P/2 -  Conta o que está vendo.

 

R -  Ah, eu estou vendo a casa. Eu estou me vendo lá. Eu estou vendo os amigos. Eu estou vendo o primeiro par de sapatos que eu pus, quando eu tinha 7 anos de idade. Estou vendo. Era preto.  Eu adquiri esse par de sapatos porque eu tinha um galo que eu amava muito. (choro) Vocês estão mexendo comigo. (choro)

 

P/2 -  Quer parar um pouco?

 

R -  Não, dá para ir. Eu tinha um galo que eu amava muito (riso), e esse galo eu tive que vender para poder comprar um par de sapatos. Eu fiquei sem o meu galo que cantava. Mas quando chegou em São Paulo, depois de vários anos, eu adquiri outro galo para me acordar. Era um despertador. (riso) Era um galo diferente. Então era assim. É assim a minha vida.

 

P/1 -  E sobre os seus pais? Como eles eram?

 

R -  Meu pai era pequenino de estatura, sabe? Muito trabalhador. Minha mãe sempre foi doente. Nós convivemos a vida inteira com  a pobreza e a doença. Foi muito, muito difícil. Mas nunca chegamos a passar fome, não. Sempre aparecia alguma coisa para a gente comer. E minha mãe sempre doente. Mas muito assim amável. Meu pai, pequeno no tamanho, mas grande, muito grande, muito forte. Um bravo! (choro)

 

P/1 -  E a educação que eles davam para os filhos?

 

R -  A educação é uma educação rígida, da parte da minha mãe. Muito rígida. E bem suave da parte do meu pai. Incrível. Meu pai nunca me deu uma surra. Nunca apanhei. Da minha mãe sim. (riso) Porque um dia eu estava brigando com o meu irmão e ela achou ruim. E tinha um formigueiro assim, eu peguei, assanhei as formigas e sentei nelas. Bicho ruim. (riso) Fiquei com a bunda toda inchada. (riso)

 

P/2 -  Além do teatro que outras brincadeiras vocês faziam?

 

R -  Tinha. Eu participava dos Reizados,os Folguedos. Folguedos chamados lá do Nordeste. E a gente dançava. Fazia uma fantasia. Os poetas lá da cidade compunham as músicas, e a gente cantava e dançava. São danças típicas do Nordeste. E as brincadeiras eram brincadeiras assim, a gente costumava quando chovia... Porque eu nasci no agreste de Pernambuco. Também é ligado ao sertão, é um pouco seco. Quando chovia, o mato criava copa por cima. O mato chamado velame. E por baixo ficava tudo vazio. E a gente brincava com as meninas lá embaixo. Era bom brincar com as meninas! A mulher sempre foi uma coisa muito forte na minha vida. Porque eu nasci de uma. Então eu sempre procurei honrar a mulher, dignificar a mulher. Até hoje. É difícil a gente não se emocionar na presença de uma mulher. Ela é doadora de amor. Eu faço parte disso porque todo homem é 50% mulher, 50% homem. (riso) Então, eu me sinto dentro desse contexto.

 

P/2 -  Tinha irmãs?

 

R -  Sim. Duas irmãs. Maria e Arlinda. Ainda tenho. São vivas.

 

P/2 -  Brincava com elas?

 

R -  Elas nasceram depois. A minha infância foi mais com os amigos. Elas nasceram bem depois de mim. Eu brincava, eu lembro que eu brincava com o meu irmão que nasceu logo depois de mim. Nós brincávamos muito. Não tinha os brinquedos que se tem hoje na cidade grande, mas a gente fazia boi de melancia. A gente brincava com abóbora. Fazia estilingue. Fazia bodoque, que é uma  madeira curvada com um barbante, para matar passarinho. Naquela época eu tinha coragem de matar passarinho. Para sobreviver. Hoje já não tenho mais. De jeito nem pensar. (riso)

 

P/1 -  O que a sua família achava desse seu talento de improvisar o teatro e ter aprendido a escrever tão cedo?

 

R -  Eles se sentiam muito orgulhosos de mim. É pena que não pude estudar a vida inteira, especialmente quando estava lá no Nordeste, porque não tinha escola. Não se tinha recursos. E eu vim aperfeiçoar isso aí já mais na idade dos meus pais. Mas eles sempre tiveram um orgulho muito grande da gente.

 

P/1 -  Se eles pudessem teriam incentivado o senhor a seguir essa carreira?

 

R -  Com certeza! Com certeza. Não tenho dúvida.

 

P/1 -  Falou que morava na roça.

 

R -  Morava.

 

P/1 -  Vocês faziam trabalho na lavoura?

 

R -  Sempre trabalhei na roça.

 

P/1 -  Que tipo de trabalho?

 

R -  Nós plantávamos. Plantávamos milho, feijão, mandioca. Isso era o trivial. Depois o que é que vinha mais, meu Deus? Batata-doce e algumas coisas mais. Porque lá era muito seco e nem todas as plantas davam lá. Mas a gente vivia mais de milho, feijão e mandioca.

 

P/1 -  De quem era a terra?

 

R -  A terra era nossa. Só que não tinha valor porque, quando nós viemos para São Paulo, nós vendemos aquela terra e só deu para pagar a passagem até aqui. E era muita, uma gleba enorme!

 

P/1 -  Foi para Alagoas?

 

R -  É. Depois dos dez anos de idade, mais ou menos, nós viemos morar em Alagoas. No sertão de Alagoas. Santana do Ipanema. Uma vida mais ou menos, uma realidade mais ou menos parecida com aquela de Pernambuco. Tudo muito difícil. Santana do Ipanema. Eu sei até os limites da cidade. Limita-se com o estado de Pernambuco, ao sul, Pão de Açúcar e Belo Monte a oeste, Mata Grande a leste e a outra cidade a oeste não lembro. Naquela época tinha, ainda tem, né, 3 mil 150 quilômetros e os habitantes eu não lembro mais. É uma cidade situada à margem esquerda do Rio Ipanema. Fica no sertão de Alagoas.

 

P/1 -  Vocês moraram onde?

 

R -  Nós moramos na roça, moramos no sítio. Se bem que nós tínhamos uma casinha na cidade que meu pai conseguiu fazer. Na cidade, na vila, que ficava ali próxima. E nos fins de semana... a gente morava na roça, trabalhava na roça, e nos fins de semana a gente ia para a vila. Tínhamos amigos lá. Ali também tem muito das nossas raízes. Santana do Ipanema, numa vila chamada Ouro Branco.

 

P/1 -  Quanto tempo ficou lá?

 

R -  Dos dez  mais ou menos aos 16 anos. Seis, sete anos nós moramos lá, antes de vir para São Paulo. Que eu vim para São Paulo com 16.

 

P/1 -  Foi à escola?

 

R -  Fui. Lá eu fui à escola. Lá eu completei o primário.

 

P/2 -  Era diferente de Garanhuns?

 

R -  A realidade era a mesma. Só que a escola já era na vila. Era uma casa feita de tijolos, diferente daquela de taipa feita lá em Garanhuns. A professora chamava-se Aída. É isso. Aída, dona Aída.

 

P/1 -  Lembra o que estudava naquela época? Gostava?

 

R -  Olha eu sempre fui... As professoras sempre me pegaram muito no pé para estudar matemática, porque eu nunca fui bom de matemática. Mas o que eu gostava mesmo era de língua portuguesa. Mas a gente começava com a cartilha. Tinha uma cartilha chamada O Be-a-bá. Então nós começávamos com o Be-a-bá. Be-a-bá, be-é-bé, be-i-bi, be-ó-bó, be-u-bu, assim por diante. Começamos com be-a-bá. (riso) Tem até música sobre isso.

 

P/2 -  Como era o seu cotidiano?

 

R -  Nós estudávamos de manhã e à tarde nós ajudávamos o pai na roça. A parte da manhã era para estudar. A tarde para pegar no cabo da enxada. Era isso.

 

P/1 -  O que plantavam e o que se fazia com a colheita?

 

R -  Ah, eu esqueci de dizer que nós plantávamos também o algodão. As outras coisas nós comíamos. Era para a sobrevivência. E o algodão nós vendíamos. Colhíamos o algodão e vendíamos.

 

P/1 -  Era uma grande quantidade, para quem era vendido?

 

R -  Não, pequena quantidade. Vendido também para pequenos, é... Como é que chama as pessoas que ficam na cidade, que compram? Intermediários. Pequenos intermediários. Algodão, lembrei do algodão.

 

P/1 -   As atividades de lazer, seja de Garanhuns, seja de Alagoas.

 

R -  Então, nós participávamos das brincadeiras, dos folguedos da vila, dos bailes do pé de serra, os forrós. A gente participava mesmo quando criança. Dos Reizados, que é uma das danças típicas lá do Nordeste.  Bumba-meu-boi não cheguei a participar. Mas existe. Mais Reizado. Fazíamos uma fantasia, à nossa moda. Coisas típicas. Era bonito, era bom.

 

P/2 -  Havia algum ensaio para os Reizados?

 

R -  Havia.

 

P/2 -  Quem dirigia esses ensaios? Que papel fazia?

 

R -  O mestre de cerimônias que dirigia. Existia o mestre de Reizado que dirigia como um ator ou um diretor conduz uma peça de teatro. Então ele ia ensinando os passos, ensinando as músicas, ensaiava. Ensaiava nas ruas, nos quintais, até chegar no ponto. Cantávamos à noite. Cantávamos nas casas, tipo Folia do Divino. É um pouco parecido. Mas com diversos temas, diversos motes. Lá no Nordeste o tema chama-se mote. Então, a gente fazia isso. Era muito bom!

 

P/2 -  Na época dos Reizados tinha assim alguma comida especial que se servia?

 

R -  Tinha. Farofa de frango. Nós tínhamos pamonha de milho verde, na época do milho verde. Embuzada, feita do embu. Tinha tantas outras coisas. refresco, todos feitos assim de frutos silvestres. Rapadura. Servia-se muita rapadura. Carne de bode. O frango, então, era o prato predileto, porque todo mundo criava um franguinho lá. E muitas outras coisas que não me lembro agora. O sarapatel. A buchada. A cachaça, apesar de nunca ter bebido. (riso) Mas muitos bebiam.

 

P/2 -  Quem oferecia essas comidas?

 

R -  Existia uma espécie de partilha. Geralmente quem oferecia era o dono da casa. Mas os vizinhos partilhavam. Quando a gente ia dançar em algum lugar os vizinhos já mandavam as coisas e ali a gente dividia. É uma das coisas muito fortes. É a partilha entre os pobres. Os pobres, sem querer fazer comparações e nem menosprezar ninguém, os pobres partilham mais do que os outros. Eles partilham tudo, tudo. Até a água, que lá muitas vezes não tinha, se partilhava, se dividia a água para beber, para tomar banho.

 

P/1 -  Quando tinha uma temporada de seca como era a vida?

 

R -  Eu cheguei a carregar água na cabeça com um pote de barro, com 7 quilômetros de distância. Nós saíamos à boca da noite e íamos, com 7 quilômetros de distância, num rio temporário que a seca já tinha esgotado toda a água. Cavava uma cacimba, um poço. A água fluía, a gente enchia o pote e voltava para casa. E a água era salobra. Não era água doce, não. Era ruim a água. Então era difícil na época da seca. E trazíamos água para a gente, para lavar, para comer, para beber, para os animais. Senão morria tudo. Você fez uma pergunta bem dentro do contexto mesmo. Era difícil. Andar 7 quilômetros. Eu lembro que uma vez eu andei os 7 quilômetros com o pote de água na cabeça. Quando faltavam uns 500 metros para chegar em casa o pote caiu, quebrou tudo. Lá se foi a água. Eu sentei, chorei. Lembro perfeitamente. Passagens fortes assim da minha vida. Incrível. (choro)

 

P/1 -  Veio para São Paulo aos 16 anos. Com quem foi, como foi, por quê?

 

R -  Nós viemos com toda a família, meu pai, minha mãe e os irmãos. Nós viemos porque lá em Alagoas a sobrevivência também não estava boa. Então, com medo da fome, fugindo da seca, nós viemos para cá. Meu pai vendeu também uma gleba que nós tínhamos em Alagoas. Nós tínhamos uma légua de terra. Uma légua deve dar 6, 7 quilômetros. Nós tínhamos isso. E aquela terra toda meu pai vendeu, só deu para pagar a passagem até a Estação Júlio Prestes. Porque de Júlio Prestes até o Interior... Que nós fomos para o Interior, em Martinópolis, aqui na Alta Sorocabana. Nós fomos num trem pago pelo governo. Então nós gastamos de lá para cá 20 dias de trem. De lá do sertão de Alagoas até Martinópolis. 20 dias.

 

P/1 -   O que acontecia durante a viagem?

 

R -  Ah, aconteceram coisas fantásticas! Inclusive a primeira surra que eu levei na minha vida foi no caminho. Que não foram poucas depois dessa (riso), mas a primeira foi no caminho. Nós estávamos  no trem... Foi um tapa que eu levei. Ainda hoje, eu já estou com essa idade, ainda hoje esse ouvido aqui desse lado, lado direito, de noite ele fica piando. Acho que foi esse tapa que eu levei que estragou meu tímpano até hoje. Eu estava sentado, o trem estava muito cheio. Eu sentei na janela do trem. E tinha uns tambores - isso foi o sul de Minas - uns tambores na estação, com água. E tinha um velhinho do outro lado. E uns meninos que estavam na frente, na outra janela, ergueram a mão e molharam o velhinho assim, com água. O cidadão que estava de fora pensou que era eu. O trem não corria. Quando ele foi saindo devagarinho, ele veio de lá e meteu-me a mão na orelha. Eu caí no colo da minha mãe. Então, coisas interessantes. O grande tapa da minha vida foi no sul de Minas dentro de um trem vindo para São Paulo. Levei outros. Caí muito. Mas faz parte. Faz parte da caminhada.

 

P/2 -  Do que lembra quando chegou em São Paulo?

 

R -  Minha mala era um saco e o cadeado era um nó. (riso) Não tinha nada. Tinha 20 centavos no bolso, 20 centavos. Eu lembro que nós comemos num lugar ali que recepcionava os imigrantes que vinham do Nordeste. Nós comemos num lugar ali. Nós comemos uma salsicha, e eu achei aquilo muito gostoso! Me marcou aquela comida. Antes de tomarmos o trem para irmos para o Interior. Foi uma coisa que me marcou em São Paulo, foi a primeira comida. Mesmo porque era o que mais eu estava precisando no momento. Era de comer. Foi isso. Bom, heim? Vocês estão fazendo eu lembrar de coisas incríveis.

 

P/1 -  Ficou um tempo em São Paulo?

 

R -  Nós ficamos um dia esperando o trem que nos levou até Martinópolis, numa fazenda para trabalharmos. Lá nessa fazenda nós ficamos um ano. Tocamos uma roça de algodão. E o que nós fizemos durante o ano, quando colhemos o algodão, não deu para pagar o que nós devíamos. Que foi a comida que nós comemos. Aí, uma noite nós fugimos para São Paulo. (riso) Saímos a pé, de noite. Andamos da vila aonde estávamos até Martinópolis. Dava uns 10 quilômetros. Andamos esses 10 quilômetros  a pé. E logo em seguida tomamos o trem de volta para São Paulo. Descemos em Júlio Prestes e lá achamos uma senhora que disse:“Ó, tem uma casa em Osasco. Eu vou falar com o homem.” Falou com o homem dono da casa. Era num cortiço. A casa ficava num cortiço. Aí nós viemos para Osasco. E lá estamos até hoje.

 

P/1 -  Seu pai veio para essa fazenda por quê?

 

R -  Daqui de São Paulo para essa fazenda para tocar a roça.

 

P/1 -  Como ele conseguiu achar esse lugar?

 

R -  É porque naquela época ficava o pessoal nas estações de trem acolhendo, entre aspas, os imigrantes que chegavam para levá-los para a terra para plantar e depois acontecia sempre aquilo. Você plantar o ano inteiro, colher e, no final do ano o que se colhia não dava para se pagar o que se gastou durante o ano. Então era aquele ciclo vicioso de exploração do homem pelo homem. Então foi isso que aconteceu conosco. E nós não tínhamos outra saída. Não tínhamos. Não dava para ficar aqui em São Paulo. Então a saída foi ir para o Interior mesmo. Depois a cidade de São Paulo, grandiosa como é, nos assustou também. Então primeira oportunidade que tivemos a gente, nós fomos embora.

 

P/1 -  Em Osasco, como foi?

 

R -  Em Osasco foi vida dura. No começo eu fui trabalhar ali no município de Barueri, num asilo de velhinhos. E lá eu tocava uma roça. Lá no município de Barueri tocava uma roça. Para poder sobreviver. Ganhava 40 centavos por mês. Mas lá eu dormia. Depois de muito lutar o meu irmão arrumou serviço em uma fábrica em Osasco. Aí nós fomos aos pouquinhos equilibrando a vida. Depois eu fui servir o Exército em Quitaúna, no quartel de Quitaúna. Acabei não servindo porque fui dispensado por excesso de contingente. Voltei para as minhas raízes e arranjei um trabalho numa fábrica, uma fundição de ferro aqui na Vila Anastácio, chamada Sofunge. Trabalhei dez anos lá. Foi aí onde nós equilibramos a vida. Nessas alturas eu já tinha meus 18 quando comecei a trabalhar na fábrica, 18, 19 anos de idade.

 

P/1 -  Terminou de estudar aqui em São Paulo?

 

R -  Foi. A maior parte dos meus estudos eu fiz aqui em São Paulo. Eu fiz inúmeros cursos. Eu trabalhava... Interessante! Eu trabalhava durante a noite, eu estudava de dia. Quando mudava o período eu arranjava outra escola. Trabalhava durante o dia, estudava à noite. Só que eu nunca parei de estudar. Sempre procurei estudar alguma coisa. E valeu! Valeu! Mas podia bem ter estudado mais, sabe? Nesse tempo ocioso devido às circunstâncias que fiquei no Nordeste até meus 18, 19 anos de idade. Eu sinto muita falta dele.

 

P/1 -   Como era a adolescência de um moço que tinha acabado de chegar em São Paulo?

 

R -  Minha adolescência foi queimada. (riso) Foi queimada. Hoje mesmo, agora, no momento atual, eu dou aula para adolescentes. E eu me identifico tanto com eles que eu fico um adolescente. Eu viro um adolescente. Aí a minha mulher diz:“Inácio, você não acha que você está muito criança, não?”. Eu falo: “Eu tenho certeza.” Eu acho que como a minha adolescência foi queimada por motivos como falta de recursos, falta de atenção dos pais - minha mãe doente, meu pai sem recursos - então foi queimada mesmo. Eu fui eliminado da minha adolescência. Então eu procuro vivê-la hoje. Eu procuro mesmo. Então eu me dou muito bem com a garotada assim. Lá em casa o telefone não pára. Minha mulher fica doida. Toda hora tem alguém, algum adolescente ligando para mim. É um caso muito sério. E é interessante porque essa convivência ela é muito fraterna, muito solta, é muito respeitável. Então a gente se entende. Nós falamos (fim da fita- A1) a mesma linguagem. Eles passam a experiência que eles têm para mim, e eu passo a minha para eles. Nos cursos de teatro eu não sou o professor. Nós somos. E alunos ao mesmo tempo. Então é bem assim, fraterno. Bem gostoso, bem... espetáculo bem lá para cima. Nada das coisas para baixo. Então a minha adolescência foi queimada, mas hoje eu a vivo! (riso)

 

P/1 -   Agora na Sofunge, como arrumou esse emprego e o que fazia?

 

R -  Eu arrumei esse emprego na Sofunge graças a uma greve. Teve uma greve, a fábrica ficou parada e, para substituir os outros, só para proveito dos outros, eu entrei no lugar de um que estava fazendo greve para quando ele voltasse eu ser mandado embora. Mas eu entrei trabalhando demais. E quando o outro voltou nós ficamos os dois. Que eu era bastante trabalhador. Eu sempre trabalhei muito na vida. Aí, ficamos os dois. Começou assim. Na Sofunge começou assim. Foram dez anos de serviço.

 

P/1 -   Que greve era essa?

 

R -  Eu entrei em 1961, foi na Sofunge. Meu Deus! Ainda estava naquela euforia que o Palmeiras tinha sido campeão das Cinco Coroas. Meu Deus, isso faz tanto tempo que eu nem lembro mais. Na década de 50, 1950 foi quando o Brasil perdeu do Uruguai no campeonato do mundo. Foi depois disso um pouco. Foi depois disso.

 

P/1 -   Qual  era o seu trabalho lá?

 

R -  Lá eu comecei a trabalhar em fundição. Foi lá que eu aprendi essa profissão que eu continuei na Cobrasma, de macheiro.  Foi lá na Sofunge. Essa profissão, eu trabalhei nessa profissão 23 com 9, 32 anos eu trabalhei nessa profissão. Sem esquecer o teatro, porque eu trabalhava na fábrica durante a semana, e nos fins - de- semana, e também à noite eu fazia teatro. Nunca parei de fazer. Nem hoje.

 

P/1 -  Mas na Sofunge ainda não era a profissão de macheiro?

 

R -  Não, não.

 

P/1 -   Como era o trabalho?

 

R -  Eu carregava areia para fazer os moldes. Eu carregava num carrinho de mão. Eu carregava areia para levar para... O macheiro estava bem lá em cima, porque já era uma profissão. Agora está quase em fase de extinção. Mas eu carregava areia. Eu era ajudante, carregando areia.

 

P/1 -  O tempo em que ficou na Sofunge só foi ajudante?

 

R -  Não. Aí chegou uma época, devido a eu ser muito esforçado, aí entrou um engenheiro lá que me deu uma chance para eu fazer os moldes. Aí eu fui aprendendo a fazer os moldes. E foi aí que eu aprendi a ser macheiro.

 

P/1 -  Na Sofunge chegou a macheiro?

 

R -  Cheguei, cheguei. Eu aprendi a ser macheiro lá. Quando eu entrei para a Cobrasma, em 61, eu já era macheiro.

 

P/2 -  Quem lhe ensinou a profissão de macheiro?

 

R -  Isso. Eu aprendi com os outros amigos. Eu não sabia de nada, mas eu sempre encontrei boas almas na minha frente que me ensinaram. Você tocou em outro ponto forte. (choro) Eles me ensinaram uma profissão. Porque o costume era não ensinar nada para os outros. Mas eu, eu tive mais sorte. Que eu encontrei amigos que com todo amor me ensinaram essa profissão simples, simples, mas que eu não sabia de nada. E eles me ensinaram a fazer os machos para fazer os furos das peças. Por exemplo, esse microfone tem um furo aqui dentro. Se ele fosse fundido aqui dentro iria um macho. Depois da fusão a areia se desfaz. Sai toda a areia, fica só o metal. Uma película assim. Senão o microfone ficaria muito pesado, o custo seria muito maior. É interessante. Eu estou falando de fundição.

 

P/1 -  Explica como é.

 

R -  Então você faz um macho. Você pega um  molde de madeira ou de alumínio e você faz o macho. Com areia misturada com óleo vegetal, ou o óleo de linhaça, ou amido de milho. Para dar liga na areia. Depois de misturado em um misturador você pega aquela areia, você joga dentro do molde. Você passa querosene no molde. Você joga areia dentro do molde. Você soca, depois você raspa e vira numa chapa. Você extrai, fica o molde. Aquela peça vai dentro. Se for o molde de um microfone, vai como é dentro do microfone. Vai colocado depois na caixa para fundir. Fechada a caixa, tem um canal por cima que vem o metal líquido. É a hora da fusão. Entra o metal por ali, forma o microfone. O machinho está lá dentro, se queima. Depois que se solidifica ele se queima. Tem um tempo para solidificar. Se queima, e o microfone fica com um buraco dentro das perspectivas que o cidadão quiser. De acordo com o molde, dentro da metragem certa, milímetro, etc e tal. É assim mais ou menos, entende? É um processo também interessante. Parece que se dá vida a uma coisa morta. De repente aquilo vira um microfone. De repente vira uma peça de trem, um vagão. Nós fazíamos tanto! Esses vagões da Fepasa a maioria foram fabricados, os truques, as peças de baixo, as rodas, foram fabricados por nós, na Cobrasma. Trabalhei a vida inteira nesse processo, 23 anos na Cobrasma.

 

P/1 -  Na Sofunge fabricava que tipo de peças?

 

R -  Fabricava blocos de motor Mercedes Benz. Foi quando começou, na época do Juscelino, quando começou o desenvolvimento do automobilismo aqui no Brasil. O Juscelino desenvolveu muito isso. Aí nós começamos. Fabricávavam outras peças também. Mas o mais forte era blocos de motor. Com ferro fundido. Na Cobrasma era diferente. Era com aço. Esse processo tem uma distinção muito interessante também. Fundir o ferro e fundir o aço é diferente.

 

P/1 -  O senhor pode...

 

R -  Para fundir o ferro você não precisa gastar muito. Por quê? O ferro você funde e ele não dá trinca facilmente. O ferro não trinca porque ele tem uma liga própria que entra lá, já solidifica sem trincar. O aço, não. O aço, devido ele ser muito forte, na hora ele trinca. Então tem que haver as pecinhas, nos machos, que se chama de resfriadores. Para os pontos mais quentes da peça, ele está resfriando tudo no tempo certo. Para quando resfriar essa ponta da peça resfriar a outra, resfriar o meio, para não haver a trinca. Então existe uma grande diferença entre fundir ferro e fundir aço. O ferro é muito mais fácil. A liga já vem, e só... Solidificou, está pronto. O aço não. O aço pode trincar. E é muito... Exige muito, muita técnica, muita coisa.

 

P/1 -  Na Sofunge foi a primeira vez que teve carteira assinada?

 

R -  Foi, na Sofunge. Primeira vez. Aos 18 anos mais ou menos,18 anos de idade.

 

P/1 -  Lembra de alguma greve?

 

R -  Ô! O segundo tapa eu levei na Sofunge numa greve. (riso) Porque eu furei a greve. Era greve, eu fui trabalhar. Aí veio um piquete para parar a fábrica e nós saímos. Fizeram uma filinha estreita assim. Eu com um chapeuzinho na cabeça. Até hoje eu procuro o meu chapéu. Levei um tapa tão grande que eu não sei aonde o chapéu foi parar. E saí de lá e fui parar as outras fábricas ali na Vila Anastácio, Alto da Lapa. Fui ajudar o pessoal. Nem lembro o ano, 60, já perto de 60. Eu saí em 61. Perto de 60, anos 60.

 

P/1 -   Por que saiu da Sofunge e foi para Cobrasma?

 

R -  Boa pergunta. Eu saí da Sofunge e fui para a Cobrasma porque o governo... Eu estava com nove anos, cinco meses e alguns dias. Com nove anos e seis meses eu tinha direito à estabilidade na fábrica, pela lei antiga. E naquela época o governo deu aumento do salário mínimo. Então antes de completar os nove anos, seis meses e um dia, a Sofunge me mandou embora para eu não ter direito à estabilidade na fábrica. Pagou uma bela indenização. Mas foi pequena, mas valeu porque foi dessa indenização que eu construí uma casinha que eu tenho lá no fundo da minha casa. Foi dessa indenização aí.

 

P/1 -  Logo arrumou emprego na Cobrasma?

 

R -  Logo. Porque aí eu já era macheiro. A Cobrasma naquela época não pegava nordestino porque não admitia nordestino, que o nordestino diziam tinha fama de briguento e que aprontava horrores. Mas eu cheguei lá, um engenheiro conversou comigo e falou:“Ó, eu vou falar com a direção da fábrica.” Falou com a direção da fábrica e me admitiu. Eu fui um dos primeiros nordestinos naquela época a entrar na Cobrasma. Porque não estavam admitindo nordestinos, não. A gente estava com a barra suja. (riso)

 

P/1 -  Quais movimentos ocorreram na Cobrasma?

 

R -  Meu Deus! Ah, se eu pudesse lembrar de todos! Foram tantos. Foram tantos. Desde movimentos religiosos. Nós tínhamos grupos até religiosos na Cobrasma. Nós nos reuníamos... Porque eu sempre fui rezador. Sempre fui rezador. Nós nos reuníamos todos os dias para rezar antes de começar o trabalho. Fazíamos as nossas orações. É, mas no meio de tudo isso aconteceu muita coisa! Os movimentos sindicais, os movimentos teatrais. Os grupos de teatro que saíram de dentro da fábrica. A Comissão, a chamada Comissão de operários, a Comissão dos Dez, que foi responsável por um diálogo muito aberto com a diretoria da fábrica. E aí nós conseguimos, através dessa Comissão, nós conseguimos um refeitório, almoço para todo mundo. Nós conseguimos prêmio de produção. Nós conseguimos prêmio de insalubridade. Nós conseguimos aumento de salário. E conseguimos, no tempo da greve, levar umas boas lambadas nas costas, que a polícia não deixou barato. Fizemos tudo isso e fomos pagos com umas boas cacetadas. Mas essas cacetadas valeu a pena porque as dificuldades também nos ajudam a construir. O mundo não é feito só de flores. E nem eu pensava em ser um dos melhores. Não! Eu sabia, eu já tinha consciência de que para se construir um Brasil melhor, um mundo melhor, a gente tinha que sofrer algum tempo. E nós levamos muitas cacetadas. Se você tiver uma idéia, mais para a frente, na famosa greve da Cobrasma, eu fiquei dormindo no mato 48 dias. Eu fiquei oito anos doente depois de tudo isso. Isso eu posso contar um pouco mais para a frente, se vocês assim o desejarem.

 

P/1 -  Pode contar agora.

 

R -  Então essa comissão de fábrica que tinha na Cobrasma, ela foi muito interessante porque nós formávamos a chamada Comissão dos Dez. Era feita por funcionários que atuavam no sindicato. Eu era um deles. Como foi que eu cheguei a isso? Eu cheguei através da igreja da comunidade onde eu rezava. Um dia o pessoal descobriu que se precisava de uma ação mais social. Não ficar só rezando atrás do altar. Aí eu fui designado para, na fábrica, me sindicalizar. E mesmo às escondidas, eu fiquei sócio do sindicato. E aí no futuro eu fui participar dessa Comissão dos Dez. Foi uma coisa fantástica que teve. Coisa mais forte que teve em todo o movimento sindical de Osasco. Foi essa Comissão porque nós conseguimos através do diálogo muita coisa. Levamos cacetadas mas nós conseguimos muitas coisas para o bem da classe. E até, porque não dizer, até para hoje. Transformar tudo isso, mudança de mentalidade. Nós participávamos da Comissão dos Dez lá dentro da fábrica mas fora da fábrica nós tínhamos núcleos de operários aqui, ali, acolá, que nós participávamos levando as mensagens para esse pessoal do que estava acontecendo na fábrica, de qual era a mentalidade do momento, atualizando o pessoal. Para assim, juntos, nós construirmos um mundo melhor. Esta era a intenção. Nos demos mal muitas vezes. Por quê? Porque a Comissão dos Dez era fracionada. Tinha muitas ideologias lá dentro. Eu era rezador. Mas tinha os marxistas, os comunistas, tantos istas, os trotskistas e tantos istas mais. E a gente não sabia do ideal de todos aqueles. A gente não sabia. E por fim a gente se viu perseguido por conta disso. Mas valeu a pena. Porque aqueles companheiros que tinham também esses ideais diferentes do nossos, ou do meu, ou seja, que eles não eram rezadores. Mas eles eram rezadores ao mesmo tempo porque eu acho que o trabalho não se faz só rezando, se faz também no temporal. E eles desenvolviam uma ação no social. Então talvez eles fizeram muito mais do que aqueles que ficaram na igreja rezando. Só Ave Maria, cheia de Graça, Pai Nosso e...

 

P/1 -  Por que ficou 48 dias no mato?

 

R -  É porque nós fizemos uma greve na Cobrasma que foi fundamental essa greve para a conquista de algumas coisas do operariado osasquense e lá de Minas Gerais, em Contagem. Que essa greve tinha uma ligação com Contagem. Então eu fiquei 48 dias assim porque nessa greve, não foi uma greve de dentro para fora. Foi uma greve de fora para dentro. Nós fechamos a fábrica. Nós prendemos todos os operários, todos os chefes. Eles ficaram presos um dia na fábrica. Então os chefes, os engenheiros, o diretor, eles comeram da comida que nós comemos. Até lembro de uma passagem que um engenheiro chegou em mim às 3 horas da tarde, e falou:“Inácio, você é responsável por isso aí. Eu estou com fome.” Falei:“Doutor, o senhor vai comer uma salada que eu como todo dia.” E dei para ele uma salada de almeirão. Ele comeu, falou:“Inácio, está tão gostoso! Se não fosse você, eu não sei o que seria de mim.” Mas coisas perigosas aconteceram naquele dia. Mas, graças a Deus, não houve mortes naquele dia. Houve depois da perseguição. Mas naquele dia não houve morte, não. Mas passamos assim raspando. Porque tinha uma bomba de gasolina lá dentro da fábrica e nós prendemos a maioria da chefia, nós prendemos num prédio que tinha uma porta só. E um dos rapazes que era... A gente não o conhecia bem, ele atuava lá junto com a gente mas a gente não sabia que ele tinha essas intenções. E ele quis tocar fogo na bomba de gasolina. Ia explodir tudo ali. Tinha a White Martins, tudo canalizado ali para a Cobrasma. E embora pela cidade quase toda. E nós tivemos a hombridade de segurar o rapaz e não deixá-lo tocar fogo na bomba. Ele tinha tudo prontinho. Até uma mecha já para tocar fogo. Mas foi muito forte esse dia. Saímos. Consegui escapar. Pulei um muro de três metros de altura, não sei como. Consegui escapar de noite. Naquela mesma noite nós fomos cassados, o nosso mandato na diretoria do sindicato. Entrou um interventor no nosso lugar. E aí começou a perseguição. Aí nós não voltamos à fábrica. Eu voltei à fábrica depois de 48 dias. A polícia ia todos os dias na minha casa me procurar. A minha mulher foi viúva de marido vivo. E eu fiquei escondido no mato, dormindo nos porões das igrejas e até nos bancos de jardim. Deixei a barba crescer, arranjei um travesseiro, um quepe. Eles pensavam, a polícia pensava que eu era motorista de ônibus. E fui em frente. Fiquei 48 dias nessa vida. Depois de 48 dias, como na fábrica eu tive uma sorte, eu fui pichado depois, mas eu tive sorte. Porque no dia da fábrica, da greve na fábrica, os operários queriam quebrar as máquinas. E como eu estava com um megafone eu fui instruindo:“Não, não quebrem nada. Não é para se quebrar nada. Vamos buscar o diálogo.” E eu fui buscando o diálogo, buscando, buscando. Não consegui muito. Quebraram algumas coisas. Mas eu fui visto fazendo esse trabalho. Porque eu fui visto fazendo esse trabalho, quando o DOPS foi me buscar na fábrica os engenheiros disseram:“Não, ele não. Ele fez um trabalho assim como ele fazia na Comissão. Ele não mudou de cara.” Agora, por causa disso os companheiros disseram depois que eu era pelego, que eu traí a classe. (riso) Mas hoje eles já entendem que não foi nada disso. Por “a+b”, por “n” coisas, “n” fatos, nós já provamos que não foi nada disso. E que na minha vida eu sempre busquei um diálogo. Eu acho que acima de tudo é por isso que eu estou aqui hoje. Se não fosse pela vontade de servir eu não viria para cá. Porque é muito difícil, gente, estar falando dessas coisas. Mas eu vim porque eu acho que tudo passa nessa vida. Porém, só o amor permanece. Então eu vim aqui hoje por amor. Foi por isso. E muitas outras coisas aconteceram, gente. Nossa! (choro)

 

P/1 -  Que mais quer falar?

 

R -  Tem tantas coisas, tantas coisas para falar. No desenvolvimento dessas coisas. Que existia um  movimento paralelo. O que acontecia dentro da fábrica, eu tinha uns amigos no teatro que eles procuraram escrever peças de teatro assim tipo Morte e Vida Severina. Parecida. Coisas parecidas. E nós ensaiamos uma peça de um autor de Osasco chamada Rede Seca e Fome. Era parecida com Morte e Vida Severina. E nós fomos por Osasco inteira levando a peça. E um dia nós cismamos de sair de Osasco e fomos para Minas Gerais, na cidade de Guaxupé, com essa peça. Chegamos lá, tivemos falta de sorte. Porque a mulher do Coronel Comandante de Quitaúna estava passeando por lá. E viu os cartazes da peça na cidade :“Peça de Osasco.” “Uh, Osasco é  minha cidade. Eu vou assistir.” Ela foi assistir e nós metíamos o pau nas Forças Armadas. No marido dela, que era Coronel Comandante de Quitaúna. A mulher saiu uma vara de lá do teatro, bateu o pé  no meio do teatro numa cena lá. Falou que nós éramos comunistas, passou a mão no primeiro telefone, ligou para Quitaúna. Chegamos em Osasco, no outro dia, todos presos no Quartel. Sorte que tinha um padre lá, quebrou nosso galho e soltou a gente. Mas olha! Só que suspenderam o nosso espetáculo, recolheram todos os textos, tudo.

 

P/1 -  Quando foi isso?

 

R -  Isso foi depois de 68. Isso já foi em 1970 mais ou menos, 69, 70. Rede Seca e Fome, de Rubens Pignatari. Eu lembro perfeitamente. Aí depois disso participei de muitas outras. Trabalhei no Morte e Vida Severina, no Teatro do Sesi. Ficamos em temporada quase um ano de temporada. Trabalhei em várias. Participo dos movimentos de idosos em Osasco. Dou curso para grupos de idosos. Dou curso para adolescentes. Eu tenho um grupo de adolescentes que tem 35 alunos. Eu tenho um grupo de idosos que tem 62 idosos. Eu montei um espetáculo até com bio -dança, o espetáculo A Moda dos Idosos. Muito bonito, em Osasco. Só que estamos parados no momento porque eu saí da prefeitura. Eu trabalhava na prefeitura de Osasco. Como eu não fui valorizado na prefeitura, eu fui oprimido, porque o trabalho fluiu e quando o trabalho da gente flui é perigoso. Em todos os ângulos. O trabalhou cresceu, então acharam de estar sempre me podando. E aquilo foi me cansando, cansando. Quando foi há dois meses atrás eu cheguei para a minha chefe e falei: “Estou pedindo a minha conta.” “Não, pelo amor de Deus.” “Não, eu vou embora.” “Não, você não vai. Nós não vamos dar a conta.” Eu falei:  “Não. Vocês não vão dar a conta, eu vou faltar 30 dias, vou provocar um abandono de emprego e vou embora.” E foi o que fiz. Depois de 15 dias eles viram que eu não voltava mais.

 

P/1 -  Qual foi a época que participou da direção do sindicato? O que fez lá?

 

R -  Eu participei em 1963, com Conrado Del Papa, que era o presidente. Só que em 1964 eu já fui, o Castelo Branco cassou o meu mandato e nem falou por quê. Na Revolução, na chamada Revolução. Isso em 64. Depois eu voltei à diretoria do sindicato em 1967, com José Ibraim. Que foi o protagonista, um dos protagonistas da famosa greve da Cobrasma. E o que foi que aconteceu de muito importante em tudo isso? É que nós queríamos um pedaço de pão a mais para as crianças e um copo de leite. Nós queríamos uma melhoria de vida. Outra coisa muito importante em tudo isso foi a formação dos núcleos de base, das comunidades de base nos diversos pontos da cidade. Aqui, ali e acolá, tinha sempre um núcleo se reunindo em dias diferentes, em horários diferentes para nos conscientizarmos da luta do trabalhador, entende? Da sua caminhada. Buscar novas saídas. Escrevermos livros juntos. Fazermos poesias. Fazermos teatro. Fazermos música. Participarmos de festivais de teatro, de música. Participarmos de teatro de rua. Muito importante na cidade de Osasco o teatro de rua. E tantas outras coisas mais. Tudo isso muito forte. Ah, se tivesse um computador na minha cabeça para eu estar dizendo para vocês do que a gente participou! Nossa! Só que, como eu me sinto? Eu me sinto realizado. Deito à noite e durmo que nem um anjo. Que durante essa trajetória... Inclusive eu tive a pachorra de ir na primeira e na segunda Auditoria Militar fazer um levantamento da minha situação. Falei:“Eu quero um levantamento da minha situação aqui.” “Volte daqui a 15 dias buscar.” Estava carimbado:“Nada consta.” Eu :“Puta merda! Até que enfim estamos melhorando.” (riso)

 

P/1 -  Gostaria que dissesse qual seria o seu sonho e como vê o mundo hoje.

 

R -  O meu sonho hoje é que vocês, os jovens... Eu já estou com 62 anos. Isso não quer dizer que eu fique de fora de todo esse processo. Mas é que vocês, os jovens, prossigam nessa caminhada juntos. Juntos, de mãos dadas. Construirmos um mundo melhor. Esse século 20 eu acho que nos chama a atenção para uma tomada de posição muito séria. É de entrelaçarmos as nossas mãos, o nosso coração, a nossa fé, a nossa força de vontade e a nossa energia para que esse Brasil de amanhã possa ser realmente um Brasil que dignifique todo mundo. Um Brasil aonde as riquezas possam ser melhor distribuídas. Em que o plano de ação do homem, no mundo de hoje, sirva para todos. Não só para uns poucos. E que a gente possa olhar nos olhos do outro e dizer :“Seja pobre ou rico, eu te amo.” Então é essa a minha mensagem. Que nós, juntos, de mãos dadas, num só coração, e numa só alma, construamos o homem e o mundo. É isso aí.

 

P/1 -  Obrigada.

 

R -  De nada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+