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História

Cresci como ser humano

História de: Cássia Daniele Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2014

Sinopse

Cássia é natural de São Paulo, onde passou toda a sua vida. Criada em família trabalhadora, viveu uma infância simples e feliz. Conheceu o pai aos 11 anos, em um encontro difícil e inesquecível que marcou sua vida. Seu primeiro emprego foi aos 14, em uma corretora de seguros, para comprar para si o que a mãe não podia dar. O trabalho de adolescência acabou se tornando carreira e depois de muita batalha e perseverança, hoje possui sua própria corretora, a New Providence. A depoente frequenta a Paróquia Santo Afonso de Ligório desde criança e atualmente trabalha como voluntária com as crianças e jovens da comunidade que estão no intervalo entre a Primeira Comunhão e a Crisma.

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História completa

Cássia Daniele Lima, nasci em 14 de dezembro de 1979, aqui em São Paulo mesmo, capital. Eu nasci no Hospital João XXIII, que hoje já não existe mais, o nome da minha mãe é Maria Celiba e o do meu pai, apesar de eu não ser registrada no nome dele, é Silvano Cunha. Minha mãe nasceu em São José do Egito, Pernambuco, e o meu pai nasceu em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais. Tenho duas irmãs de sangue por parte de pai, mas como eu não convivi com o meu pai eu não tenho contato com elas, então eu me considero filha única, vamos dizer assim.

Eu nasci na zona leste, fiquei um ano morando na casa da minha madrinha e aí depois eu vim pra zona sul de São Paulo, na Água Funda, na qual eu vivo até hoje, né? Então, já são 33 anos morando lá. Era uma casa super simples, eu venho de uma família muito humilde, né, eu morava, era um corredor que tinha várias casas. Era, eu lembro vagamente, assim, eu não lembro muito porque eu era muito pequenininha, era um cômodo só, eu morava com a minha mãe só num cômodo. Aí, depois eu mudei, fui pra uma outra casa, também num corredor, na mesma rua também, eram duas casas. Era muito legal porque, tipo assim, tinha muita criança, então a gente aprontava bastante, né, fazia brincadeira, coisas que hoje as crianças não fazem mais. Então, jogava muita bola, amarelinha eu pulava muito, jogava vôlei, pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, estrela nova cela, todas essas coisas eu fazia quando eu era criança, sempre, eu acho que foi muito legal a minha infância nesse sentido. Aí, depois eu fui mudando de casa, depois eu fui morar numa casa maior, né, já na minha adolescência. Aí, depois mudei, bem, com 28 anos de idade eu consegui comprar minha casa.

Eu tinha sete anos quando entrei na escola, eu acho que a minha professora, ela era um doce de pessoa, a professora Alice, já era velhinha, ela já tinha bastante tempo e era uma simpatia, era um anjo, uma professora maravilhosa, acho que foi ela da primeira série, marcou bastante. Eu sempre estudei em escola estadual e às vezes tinha merenda, e às vezes não tinha merenda, e às vezes eles serviam ovo cozido e eu odeio ovo cozido, mas minha mãe gostava e eu pegava ovo e levava pra minha mãe. E uma vez eu esqueci o ovo debaixo da carteira e aí ela guardou o ovo pra mim, ela guardou porque ela sabia que era meu porque ela sabia que eu pegava o ovo pra levar pra minha casa. É lógico que o ovo tava estragado no outro dia, eu não ia dar pra minha mãe, mas eu achei bonitinho porque ela guardou o ovo porque ela lembrou que fui eu.

Conheci o meu pai eu tinha... A história é assim, minha mãe namorou o meu pai e minha mãe ficou grávida e aí ele falou que ia casar com a minha mãe, tal, não sei o quê, e aí quando deu mais ou menos uns seis, sete meses que a minha mãe tava grávida ele sumiu, desapareceu. E aí minha mãe me teve e quando eu tinha mais ou menos uns três, quatro meses a minha mãe resolveu ir atrás do meu pai e conseguiu achar o local onde ele morava. Quando chegou lá, pra surpresa da minha mãe, minha mãe descobriu que o meu pai era casado e tinha duas filhas, aí minha mãe não quis mais saber dele, enfim, e me criou todo esse tempo sozinha. Quando eu tinha por volta de 11, 12 anos ela resolveu encontrar o meu pai pra eu conhecer o meu pai, porque ela queria que eu conhecesse o meu pai.

Eu tinha 11 anos, fui pra escola e aí eu saí mais cedo, eu não tive todas as aulas. E aí minha mãe jogava futebol, tinha quebrado a perna, tava em casa. Então, o pessoal vinha buscar ela do trabalho, trazia ela, ela tava em casa, eu passei em casa, falei: “Mãe, tô indo brincar de boneca na casa da Paula”, peguei minhas bonecas e fui pra casa da minha amiga brincar. Passou um tempo assim, uma hora, duas horas no máximo, minha prima foi atrás de mim e ela me chama pelo segundo nome, Dani. Ela falou: “Dani, vem aqui que a sua mãe tá te chamando”, eu falei: “Ah, mas eu tô brincando”, ela falou: “Não, vem aqui que a sua mãe tá te chamando, tem uma surpresa pra você”. Aí, eu olhei pra cara dela e falei assim: “É o meu pai?”, aí ela olhou pra minha cara, ela não sabia o que falava, ela não falou nada, ela ficou muda, a gente desceu a rua, porque era na mesma rua. E aí eu entrei no corredor, foi o corredor mais comprido da minha vida, né, enfim, aí eu entrei, quando eu entrei eu não tive qualquer tipo de reação, não tive. Ele que veio falar comigo, ele perguntou se eu podia abraçar, aí, tipo, eu fiz assim, tipo: “Tanto fez, tanto faz pra mim”, ele me abraçou, tal. E acho que eu me arrependo de não ter feito uma pergunta pra ele, porque filho é pra sempre, marido e mulher não é pra sempre e filho é pra sempre, e a pergunta que eu queria ter feito pra ele foi a seguinte: “Por que você me abandonou?”. Acho que isso complicou bastante a minha relação com o meu pai porque nesses anos que a gente viveu, dos 11 aos 18, ele dava muito o foco em dinheiro, né, só dinheiro. E eu não fui criada assim, minha mãe não me ensinou a dar prioridade ao dinheiro, minha mãe me ensinou a dar prioridade às pessoas, então a gente teve uma relação bem complicada. Aos 18 anos aí não deu, aí eu tive uma discussão bem feia com ele e a gente desfez os laços e eu nunca mais tive contato com ele.

Minha mãe não tinha, assim, pra gente ter uma condição de vida melhor, como eu te falei, eu nunca passei fome, tinha as vontades normais de uma adolescente, né, de criança, adolescente, tal. Queria tênis de marca, queria comer alguma coisa diferente, queria uma roupa mais bonita, alguma coisa do tipo, e minha mãe, eu entendia perfeitamente que a minha mãe não conseguia me dar tudo isso, que a minha mãe pagava aluguel, a gente morava de aluguel e tal e a minha mãe ganhava muito pouco. Então, quando eu tinha14 anos eu já comecei a procurar emprego, aí eu consegui arrumar o meu primeiro emprego aos 14 anos. Em corretora de seguro, eu trabalho com isso há 20 anos. Um amigo da minha mãe foi renovar o seguro dele e a mulher estava precisando de uma secretária, ela tinha mandado embora a funcionária dela, aí ele falou: “Olha, eu tenho a filha de uma amiga que precisa de emprego”. Aí, eu fui lá, fiz entrevista, ela gostou de mim e eu comecei a trabalhar.

Eu lembro que eu comprei uma geladeira pra minha casa, comprei um armário pra minha mãe. Na época não existia, assim, computador tão fácil como existe hoje e eu lembro que eu tinha uma máquina de datilografia que era o meu computador, que ela parecia um computador, era eletrônica a máquina. E aí comprava roupa, calçado, essas coisas assim que eu tinha vontade de comprar e às vezes me faltava grana por causa da minha mãe, que a minha mãe, né, só a minha mãe trabalhava, foi mais por isso mesmo, assim, mas sempre dei foco pra ajudar sempre a minha mãe, né?

Quando eu terminei o colegial eu realmente não tinha nenhuma vontade de fazer faculdade porque, não porque eu não tinha vontade, porque eu realmente não tinha dinheiro pra fazer faculdade. Era muito mais difícil naquela época, em 98, fazer faculdade, os estágios não te pagavam bem, e aí minha mãe queria porque queria, ela falou: “Ai, filha, vai”, eu falei: “Mãe, não vou fazer faculdade, a gente não tem dinheiro pra pagar”. Quando o meu, o meu último, o meu primeiro emprego, ela foi muito sacana comigo, ela não me registrou, ela não pagava os meus direitos nem nada disso, e aí o que que a gente fez? A gente, eu peguei e coloquei um processo nela, um processo judicial trabalhista nela, eu recebi um dinheiro e eu guardei esse dinheiro, eu deixei guardado, eu lembro que eu ia comprar o meu primeiro carro com aquele dinheiro, né? Eu deixei o dinheiro guardado, tal, e aí minha mãe falou: “Não, filha, vai fazer faculdade, vai fazer faculdade, a gente dá um jeito, a gente se vira”, enfim, eu falei: “Tá bom, mãe, vai”. Minha mãe que fez todas as pesquisas de todas as faculdades e tal, e eu gostava muito de informática na época, e aí resolvi fazer Processamento de Dados. E aí eu fui, aí minha mãe que fez a inscrição pra mim, eu trabalhava na época, tal, e eu sabia que eu não ia conseguir pagar a faculdade porque eu ganhava 400 reais na época e eu pagava 390 de faculdade, e aí eu tinha que pagar condução, tinha livro, tinha isso, tinha aquilo e aquilo outro. Só que eu tinha o dinheiro guardado, então eu usei esse dinheiro guardado pra começar a pagar os primeiros anos de mensalidade, os primeiros meses de mensalidade, depois a gente se virava e dava um jeito. Nisso a diretora da minha mãe gostava muito da minha mãe e saiu um cargo de direção e ela falou pra minha mãe que minha mãe tinha que ter esse cargo de direção, minha mãe merecia e ajudaria a pagar minha faculdade. E aí foi por minha mãe conseguir esse cargo de direção que eu consegui fazer minha faculdade até o final, realmente me formar. E aí eu terminei a faculdade, me formei, mas acabei não indo pra área, por quê? No seguro eu já tava melhor, eu já estava conseguindo ganhar o meu espaço na área de seguros.

Sempre trabalhei com seguro, aí nessa terceira e última corretora que eu trabalhei eu tinha um chefe muito inteligente, superinteligente, me ensinou muito, devo muito a ele, muito aprendizado, só que ele era uma pessoa muito difícil. Ele me ensinou muito, enfim, só que chegou uma determinada época que eu não aguentava mais trabalhar lá, eu tava sobrecarregada, eu já não tirava férias... E aí eu... Pra você ser corretora de seguros você tem que ter uma habilitação, né, um curso técnico, você tem que estudar durante um ano e tirar esse curso técnico, e aí eu consegui. Aí, me formei no finalzinho de 2009 e no final de 2009 esse mesmo chefe contratou uma pessoa pra mandar em mim, eu sabia tudo, conhecia todos os clientes da corretora, conhecia todo mundo, todo o pessoal de seguradora. O pessoal de seguradora me respeitava muito porque eu que tinha o contato, tudo o que eu pedia eles faziam, todos os problemas da corretora quem fazia era eu, quem resolvia era eu, apesar de estar sobrecarregada. E aí ele contratou essa pessoa e colocou essa pessoa como meu diretor. Então, naquele momento ele me passou uma rasteira porque eu estava dedicando a minha vida pra ele, trabalhava muito, trabalhava dez horas por dia pra ele, eu tava dedicando a minha vida pra crescer a empresa. Aí, nós tivemos uma discussão e ele me mandou embora da corretora, hoje o problema já está resolvido, enfim. Só que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido porque eu não ia conseguir pedir demissão e ele não conseguiria me mandar embora, eu já tinha uma amiga que já tinha trabalhado comigo e tinha o Gustavo, que trabalhava também nessa corretora, ele era sócio, entre aspas, desse chefe. E aí chegou uma hora que eu falei pra ele assim: “Gustavo, tô indo embora”, ele falou: “Ah, meu, eu vou embora com você”, eu falei: “Tá, eu tô montando uma corretora com a Pati, você quer vir junto?”, aí ele falou: “Tudo bem, vamos, vamos juntos”. E aí nós montamos a New Providence, que é a minha corretora hoje, a gente colocou ela pra funcionar em 26 de agosto de 2010, e aí eu tive a minha independência profissional aí.

Meus sonhos? Profissionalmente eu ainda quero chegar num patamar melhor, eu quero... Eu demorei três anos pra contratar uma funcionária, eu quero que a minha empresa cresça mais pra que eu consiga dar emprego pra outras pessoas, pra que eu transforme a vida de outras pessoas, que eu acho que uma empresa faz isso, né, na vida de uma pessoa. Eu consegui muitas conquistas nas outras empresas que eu trabalhei, então eu quero fazer isso, então eu quero que, profissionalmente, a minha empresa chegue num patamar maior. E realização pessoal, ter um filho, eu acho que isso é o que vai me deixar mais realizada do que eu já sou.

Nossa, vocês me fizeram lembrar de coisas assim, que eu, fazia muito tempo que eu não lembrava, tal. E vocês vendo, falando comigo sobre a minha infância, como era a minha infância, eu vi o quanto eu já cresci como ser humano, não só de bem material, mas como um ser humano. Porque eu morava numa casa de um cômodo e hoje eu moro na minha casa, eu tenho o meu próprio quarto, eu vim conquistar o meu quarto com 28 anos de idade, quando eu vim comprar a minha casa com a minha mãe. Então, o quanto eu já cresci, o quanto eu já passei por dificuldades na vida, e hoje eu sou o que eu sou, hoje eu tenho a minha casa, eu tenho o meu carro, eu tenho uma família que me ama, eu tenho amigos e eu tenho a minha empresa, da onde eu tiro o meu sustento. Então, assim, fez eu reviver tudo isso e saber o quanto eu cresci como pessoa, isso foi superbacana.

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