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História

Cresceu junto com a Companhia

História de: Vander Nogueira da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/02/2021

Sinopse

Formação acadêmica. Trajetória profissional no Pão de Açúcar. Participação na implementação de inovações na companhia. Logística, tecnologia e transformação nos processos. Importância de registrar a história.

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História completa

 

P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Você poderia dizer o seu nome, data e local de nascimento?

 

R – Vander Nogueira da Cruz, eu nasci em vinte e dois do sete de sessenta e seis, e nasci em Barretos, no interior de São Paulo.

 

P/1 – Nome dos seus pais?

 

R – Emídio Nogueira da Cruz e Luzia Teodoro da Cruz.

 

P/1 – Para iniciar a entrevista, vamos falar um pouquinho da sua formação, você é formado em...?

 

R – Eu sou, eu sou formado em Administração de Empresas e Pós-graduação em Logística Empresarial.

 

P/1 – Então a sua área hoje é Logística, mesmo.

 

R – É Logística mesmo.

 

P/1 – E, aqui no Pão de Açúcar, quando você começou a trabalhar, o ano, onde?

 

R – Eu comecei a trabalhar no Pão de Açúcar em trinta e um do sete de oitenta e um. Eu entrei como office boy trabalhando na área de Administração Mercadológica e trabalhei até oitenta e oito na sede e depois eu fui para trabalhar no depósito, na época, depósito de Alphaville, depósito de mercearia.

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho antes de você ir para o depósito, o que você, exatamente, fazia nesse início de Pão de Açúcar?

 

R – Eu trabalhei na administração mercadológica como office boy e depois, em seguida, eu fui trabalhar como assistente administrativo na Santo Diniz Consultoria de Marketing, uma empresa coligada do grupo que fazia toda a parte de venda de informações para o mercado: relatórios de marketing, posicionamento das empresas e a gente fazia e elaborava esses relatórios de participação de mercado.

 

P/1 – Você trabalhava com os relatórios?

 

R – Isso.

 

P/1 – E aí, como é que foi a oportunidade de ter ido trabalhar...?

 

R – Eu já trabalhava, quando a companhia mudou para a Berrini, a Santos Diniz mudou lá para a avenida Morumbi e eu trabalhava lá e estava querendo arrumar uma outra área um pouco mais perto de casa. Eu trabalhava em Osasco, desculpe, morava em Osasco. E surgiu a oportunidade de ir trabalhar no depósito, na época depósito de mercearia, que ficava no Tamboré, na Castelo Branco, para lá e aí foi que eu consegui uma oportunidade, na época o Seu Paulo Lima e fui trabalhar com ele na parte de planejamento.

 

P/1 – E já te atraía essa parte de logística, você já tinha conhecimento?

 

R – Não, não, na época não era... A logística é muito nova. A logística é de noventa para cá. Quer dizer: o boom da logística é de noventa para cá. Lógico que existia a logística há muito tempo, mas a logística teve uma importância nas empresas de noventa para cá, tanto que, quando eu fui trabalhar no depósito de Alphaville, eu participei do teste de homologação do Palete PBR que hoje é o Palete padrão Brasil. Naquela época nem paletização a gente tinha. Então eu trabalhei junto ao pessoal do IPT num trabalho; junto ao pessoal da Abras, na época, para poder fazer a homologação do Palete PBR, que é o palete padrão.

 

P2 – Você pode explicar um pouco dessas atividades que são muito técnicas? Como é o dia a dia num depósito?

 

R – Na época eu cuidava da área de planejamento. Então a gente tinha toda a parte de... Naquela época, o depósito atendia somente as lojas Pão de Açúcar e as lojas Mini-Box, que existiam na época e a gente cuidava de toda a parte de recebimento dos fornecedores; cuidava do planejamento da operação das mercadorias, ou seja, a gente tinha na época embalados, a gente embalava produtos hortifrutis, a gente empacotava arroz, ou seja, recebia arroz a granel, empacotava o arroz. Então você tinha que ver como era aquela linha de produção! Você tinha que fazer, calcular o custo disso. Nós tínhamos na época frota própria, então, nós tínhamos uma oficina, uma oficina imensa. A oficina chegava a ponto de ter uma área só de retífica de motor. Então, você tinha de cuidar de toda essa estrutura monstruosa só para atender Pão de Açúcar e Mini-Box. Eu digo só, porque o volume não era tão grande. Era um depósito de cinquenta mil metros quadrados, porém, do que a gente faz hoje é… do que eu me lembro, era um volume muito pequeno. 

 

P/1 – E nesse depósito em Tamboré, os produtos que vocês armazenavam, eram todos os produtos?

 

R – Na área de mercearia sim. Nós tínhamos na lixeira Mackenzie, próximo da Marginal Pinheiros, um depósito de hortifrutigranjeiros, onde lá faziam o embalamento de legumes e fazia a distribuição de FLV [Frutas, Legumes e Verduras] para as lojas e lá a gente fazia, lá no Alphaville, nós tínhamos a parte de mercearia. E nós tínhamos, onde hoje é o nosso D1, nós tínhamos um depósito de eletrodomésticos que era o antigo Elétrico, que era da antiga Radiobrás e também tinha o depósito, que era o antigo depósito do Pegue e Pague que hoje é o D2, o depósito de refrigerados que é onde eu atuo, que está sob a minha responsabilidade, nós tínhamos a parte de bazar. Passado um tempo, o bazar mudou-se para o D1 em Alphaville e logo depois veio a crise do país e da Companhia, nós saímos de Alphaville, ou seja, juntamos todos esses três CDs, os três depósitos em um só que foi no D1, no antigo prédio da Eletroradiobraz, quando a Companhia se retraiu. Depois a gente começou a trabalhar, expandir, foi quando tiveram os Extras e quando a Companhia decidiu trabalhar firmemente com a centralização. Foi aí onde não tinha mais espaço. Começou a centralizar muita coisa, muita mercadoria e a gente foi saindo. Saiu o Eletro, depois saiu o bazar e foi saindo tudo... (tocou o celular) Desculpe. 

 

P2 – Para não perder a sua ida para o depósito, que eu acho bastante importante a tua área, antes você pegou a modernização, antes da modernização, como era a distribuição de toda esta mercadoria. Você pegou esta fase que não tinha esta tecnologia de logística?

 

R – Peguei. Quando eu fui para o depósito na Alphaville, eu me lembro que nós fazíamos a separação da mercadoria já com a Nota Fiscal impressa. Nós não tínhamos, a Companhia não tinha – e não sei se no mercado já tinha – a impressão remota, ou seja, você colocar uma impressora lá em Alphaville e imprimir com um programa aqui, instalado aqui na Brigadeiro. Então o que acontecia? Todo dia, como é hoje ainda, meio dia eu tenho o faturamento que a gente chama de... (e naquela época... aliás o nome faturamento que a gente usa hoje erradamente, hoje, o faturamento é para o processamento do pedido da loja. Antigamente não. Antigamente era o faturamento mesmo, o faturamento é quando você fatura, ou seja, você emite a Nota Fiscal.) Então todo dia, antigamente, ao meio dia, fazia-se o faturamento. Emitia-se todas as Notas Fiscais mecanicamente, lógico, imprimia numa impressora que tinha aqui na Brigadeiro. Feito isso, colocava-se numas caixas de formulários mesmo, colocava-se numa perua e essa perua ia lá para Alphaville. Chegava lá duas horas da tarde e aí a gente tinha que tirar todas estas caixas, tirava estas caixas, separava aquele monte de nota por loja e depois calculava na mão todos os pesos de todas a notas e depois ia somando, somando, somando e então mandava lá: Seis mil quilos? Ah, então é uma carga. Colocava lá. Depois, feito toda esta parte de programação, ou seja, ver quantos quilos e quais as notas que iam para cada loja, tirava-se, destacava a via. Primeira, segunda, terceira via; e a gente tinha até uma máquina, que na época era uma maravilha, que era uma máquina, uma descarbonadora. Então ela tirava o carbono entre as duas notas, as duas vias. Depois, feito isso, uma das vias ia para a separação e a outra via ia para a área de expedição. O separador catava aquela Nota Fiscal na mão e saía separando pelo corredor, pelo nome do produto. Então você tinha separadores exclusivos, eles tinham que ler o nome do produto. Imagine aqueles vinhos importados com descrição do produto, se tivesse algum problema com certeza saía algum erro lá na frente. Depois que ele separou toda essa mercadoria, ele colocava na doca e a pessoa da doca tinha uma outra via que confrontava para ver se estava certa a separação dele ou não. Quando não tinha o produto simplesmente se marcava lá para a loja fazer uma emissão de nota de falta contra o depósito. Depois disso, não. Hoje a gente não fatura mais. A gente processa o pedido. O separador trabalha com uma cartela de etiqueta onde é, o que a gente chama de romaneio de separação, ou seja, é um pré-faturamento. Então, se eu não tenho aquela mercadoria, eu consigo dizer: "Não, não tenho, você não separa, não vou ter essa mercadoria, eu não vou emitir essa nota com essa mercadoria". Eu só vou emitir aquilo que realmente está indo no caminhão.

 

P2 – E nessa etapa as mercadorias chegavam em tempo hábil nas lojas que vocês tinham que distribuir?

 

R – Chegavam. Mas a gente não tinha o requinte que nós temos hoje, de ter uma janela de entrega, ou seja, hoje nós temos aí janela de três, quatro horas para entregar, para colocar o pedido da loja. Então, hoje nós temos, todas as lojas têm janela de entrega com horário marcado para entregar o caminhão. Então, por exemplo, eu tenho uma loja, a loja 01 que recebe produtos das sete às nove da noite, ou seja das sete às nove da noite eu tenho que colocar um caminhão de mercadoria para ela aqui. Se eu não colocar, o meu amigo de serviço é afetado. Então, ou seja, eu não posso nem chegar antes do horário e nem depois do horário. Eu tenho que chegar no horário, hoje.

 

P/1 – E, hoje, toda essa tecnologia te garante essa agilidade. E naquela época que era tudo mais trabalhoso vocês, provavelmente demoravam mais para entregar?

 

R – Demorava. Você tinha naquela época… também tem a parte do fornecedor, nós tínhamos arroz que vinha do Sul em carretas; tinham carretas que ficavam para descarregar no depósito três, quatro dias na fila e aí o pessoal de Tamboré... a gente parava a rua porque enchia aquilo de caminhão. Hoje não. Hoje a gente tem agendamento também, de entrega de fornecedor. O fornecedor entrega hoje para a gente… ele tem janela marcada para entregar. Tem horário marcado com doca exclusiva para ele, para poder entregar. Então ele tem que agendar. Ele liga e faz o agendamento. É como se você fosse ao dentista. Isso melhorou muito o relacionamento, porque hoje sabe se a mercadoria está dentro do CD ou não está dentro do CD.

 

P2 – Como foi essa guinada da logística na empresa? Que marketing deu isso a você ou aos seus amigos da época? Como foi essa revolução? Porque é uma grande mudança, a logística, não?

 

R – Foi. Foi, eu acho que a grande mudança que houve na Companhia foi a estratégia da Companhia de trabalhar com mercadoria centralizada. De trabalhar com o sistema de depósitos, de CD, de Central de Distribuição. Foi depois que a gente tinha os Extras, isso foi em noventa e dois se não me engano, noventa e dois, noventa e três em que a Companhia disse: “Não, nós vamos trabalhar nesse sistema de depósito centralizado. Então teve um comprometimento muito grande da diretoria, principalmente da diretoria executiva, do Superintendente da época, do Senhor Luiz Antonio Viana em que a Companhia investiu. E aí ela começou a investir em tecnologia. Eu me lembro que a gente começou a trabalhar com o sistema de radiofrequência em 1995. Nós fomos a primeira companhia brasileira a ter o sistema de radiofrequência numa frequência de dois ponto quatro megahertz, que é a onda de frequência de rádio. Hoje eu acho que isso é comum, mas na época nós recebemos até um prêmio por trabalhar nisso, na qual o pessoal foi visitar e dessa vez eu não fui, foram visitar várias empresas fora para ver como trabalhava com logística lá fora, nos Estados Unidos, na Europa, ver como era isso lá fora, o que tinha de tecnologia lá fora e trouxe para cá conceitos que a gente foi implantando e fizemos uma solução caseira. Eu me lembro que na época existia um software de gerenciamento de CD, chamava-se Dallas e a gente até brincou que nós acabamos construindo o nosso Carapicuíbas. Então, todo o conceito que esse Dallas tinha, o pessoal nosso de Informática conseguiu construir um WMS para nós; um Sistema de Gerenciamento de Armazém e que é o que está funcionando até hoje e que é, na minha opinião, o que permitiu o grande crescimento da Companhia, porque, se a gente estivesse trabalhando com algum pacote fechado na época, o plano que a gente tinha de crescimento, aliás, o crescimento do Pão de Açúcar de 1997 até 2002, ele foi assim muito grande, numa velocidade muito grande. Então, se a gente tivesse algum pacote específico, eu entendo que a gente teria que pedir permissão, chamar analista para: "Vamos programar, vamos fazer isso". Pagando isso, com hora marcada, e não. O que aconteceu com a gente foi assim: Olha, comprou hoje, amanhã funciona. Então, o nosso pessoal de Informática ajudou muito, quer dizer, o pessoal trabalhou e a gente comprava num dia e no dia seguinte você tinha na nossa tela, no CD, já o nome das lojas e tudo mais, já para fazer a distribuição. Então, eu acho que essa guinada, quando aconteceu com esse sistema e aí começou o sistema de endereçamento, sistema de radiofrequência, a ampliação do D1, que nós tínhamos só vinte e nove mil metros e hoje nós temos oitenta mil metros dentro do D1. A ampliação do D1 em 1997 foi muito importante. E as aquisições, que elas estavam aí e a gente tinha que abastecer, ou seja, essa notícia, comprou hoje tem que abastecer amanhã. Então você tinha que ir atrás de mais área, de mais veículos para poder abastecer, a gente tomou a grande decisão em 1993, 94 de terceirizar o nosso transporte, ou seja, nós tínhamos toda aquela parte de transportadora, isso acabou tudo. Hoje a gente tem um nível de serviço muito melhor com um custo muito mais baixo. Isso é o que permitiu à Companhia estar onde ela está hoje.

 

P/2 – Esse sistema de radiofrequência que você fala que foi a primeira empresa a adotar esse tipo de serviço, explica um pouco isso?

 

R –  A radiofrequência... a gente chama de radiofrequência, mas na verdade ele é um terminal portátil com comunicação via radiofrequência. O que é isso? Você imagina você no meio de um CD, no meio de um depósito, um depósito tem trinta mil metros quadrados; então, você está a cento e cinquenta metros da sua sala e a sessenta metros da tomada mais próxima. Então seria a mesma coisa que você abraçar o seu terminal, o seu computador e falar: eu vou lá, resolver um problema no meio do depósito. Você abraça o seu terminal com um cabo de cento e cinquenta metros de comprimento, você vai arrastando ele na sua extensão, chega lá e fala: "Bom, eu vim aqui para resolver o meu problema". E resolve na hora. O sistema de radiofrequência, ele é um terminal, eu faço as mesmas coisas que faço no meu terminal. Ele é um terminal portátil com um scanner, que é um leitor ótico, no qual ele envia online, e essa é a diferença do nosso sistema para o sistema que tinha nas lojas antigamente e acho que ainda tem hoje, é que, o da loja, ele é (beg?), quer dizer, eu coloco ele num berço, do meu computador eu mando uma lista de atividades para ele, ele tira isso daqui e vai lá na loja fazer o inventário, vai fazer os pedidos. O nosso não. Tudo que eu faço no meu coletor, eu estou fazendo online, ou seja, ele por via, por comunicação via rádio, ou seja, eu não preciso de fio, pois eu estou com ele na mão, ele manda todos os dados e eu faço todas as operações como se eu estivesse no meu terminal. Então isso permite a gente fazer inventário. O nosso inventário, como a gente tem as prateleiras a sete metros e meio de altura, você coloca um separador dentro de uma gaiola ___ própria com toda segurança, com cinto de segurança e ele com o coletor, as nossas prateleiras, elas tem as etiquetas, os códigos de barra, a nossas mercadorias todas, os ___ , têm o código de barra e então ele já vai clicando todos os ___ que tem lá e o sistema já vai atualizando todo o inventário, ou seja, eu faço isso online. O tempo que... eu lembro que antigamente a gente colocava uma mesa no meio do depósito, colocava aquelas listagens de tudo que tinha no depósito e aí soltava uma ficha para cada um e aí todo mundo saía contando, voltava, aí você pegava o lápis com borracha: "Quanto você contou? Cem. Aqui tinha noventa e cinco, então está faltando cinco. Pega essa folha e vai lá contar de novo”. E a pessoa voltava... Então um inventário que a gente fazia, durava um dia inteiro para se fazer quarenta por cento do depósito. Hoje você faz ele online. Hoje eu faço uma rua, eu faço um inventário de um CD todo mês, só que eu faço uma rua a cada dia. Então… isso online, não tenho mais todo aquele trabalho; e a pessoa que ficava lá naquela mesa todo dia, que a gente perdia essa pessoa o dia inteiro, que geralmente era o encarregado administrativo, o chefe administrativo, hoje ele fica sentado em frente o terminal dele, continua trabalhando normalmente, normalmente, só que ele tem uma tela a mais em que ele está verificando o inventário. Então, ele está vendo o que está acontecendo no inventário e se tem um produto com uma diferença muito grande, ele marca aquele produto que ele quer uma contagem maior em cima daquele produto. Quando ele marca, que ele faz um X naquele produto lá na sala dele, o pessoal lá no depósito, lá na empilhadeira já sabe que tem de contar de novo aquele produto. Então é... isso é um trabalho que a gente foi fazendo. Aliás, esse trabalho começou porque um dia eu fui conversar com esse oficial administrativo, que eu precisava de uma outra coisa e eu perguntei: "Onde está o fulano?”. “Ah, o fulano está lá embaixo fazendo inventário". Eu cheguei lá, sentei do lado dele para pedir um negócio, para fazer um outro trabalho. Ele falou: "Um minuto Van". E aí ele começou a apagar. Eles levavam caixa de borracha, levavam caixa de lápis porque todo mundo usava, precisavam apagar um monte e eu fiquei olhando aquilo lá e ele fazendo continha de mais e menos, “tem tanto disso”, apagava, passava para outra, e eu fiquei olhando aquilo lá, ele é uma pessoa que já faleceu, também era uma pessoa que tinha muito tempo de Pão de Açúcar, o Augusto, e eu falei: "Mas Augusto, você tem que fazer tudo isso assim?”. “É.” Ele falou: “Eu tenho que fazer isso assim”. “Mas rapaz, porque a gente não faz isso na radiofrequência? Dá para a gente fazer um inventário sim, da para a gente... é só... o pessoal conta, e o sistema já vai fazendo essa continha que você faz de mais e menos, o sistema já vai fazendo.” Nós temos o cadastro. Naquela época ficava com a gente uma parte da Informática, um pessoal de Analítica ficava com a gente lá. Era o Edson que hoje está na Companhia ainda. Ele ficava com a gente lá e eu subi, e eu disse: "Oh Edson, a gente não podia fazer o inventário assim, assim, assim?". O Edson falou assim: " Pô, vamos fazer". E, aí, a gente começou a desenvolver e desenvolvemos o inventário. Lógico. Depois eu fui cuidar de regionais, o pessoal melhorou mais o inventário, mas hoje a gente faz o inventário com radiofrequência. Uma outra coisa que nós fizemos, foi assim, todos os caminhões que chegavam... a gente não tinha essa fila de caminhões. Tinha uma fila de caminhões, mas era uma fila assim: o motorista chegava, entregava a Nota Fiscal na portaria, a portaria carimbava a Nota naquele relógio que carimba horário e colocava... a fila era assim, a Nota ao verso uma da outra. Então, conforme ia chegando, se algum ventilador batesse ali, atrapalhava toda a fila, desmontava a fila e, de tempo em tempo, meia hora mais ou menos, o encarregado da recepção saía da plataforma, andava até a portaria, pegava esses bolos de Notas para saber qual era o caminhão que ele tinha que chamar. E um dia, eu disse a esse Edson, na hora do almoço... Nós estávamos passando em frente ao depósito. Estávamos indo lá para a portaria e o Teodomiro ia passando e eu falei: "Rapaz, o Teodomiro, anda demais, não anda? De tempo em tempo ele vai lá buscar aquelas notas. Eu não sei por que ele vai buscar aquelas notas para chamar aqui?”. Falei: “A gente podia montar um negócio diferente”. E aí foi. Conversei com o Senhor Jean, na época ____, falei: “Senhor Jean, nós precisamos melhorar aquela recepção. Vamos ver se a gente faz uma fila de caminhões”. E aí foi, e é o que existe hoje. Hoje nós montamos um sistema em que o encarregado da recepção, na tela dele, todos os caminhões que chegam, eles colocam, o caminhão, numa fila. Esse encarregado já enxerga qual o caminhão que ele vai dar entrada. Os caminhões hoje, se a mercadoria está em oferta, se a mercadoria está em ruptura, se a mercadoria é um produto de marca própria que precisa fazer análise, tudo isso é levado em consideração e dá-se o tempo. Então, essas coisas que foram ajudando muito a gente. E isso aconteceu aí, nessa década de noventa.

 

P/1 – Então, muitas dessas mudanças que foram ocorrendo com essa tecnologia, inovando, facilitando a vida de vocês foi muito também da observação de vocês e da própria criatividade...

 

R – Sim.

 

P/1 – Não necessariamente trazendo só ideias de fora, do que existe de mais moderno. Quer dizer, vocês atuaram, interferiram muito nessa...

 

R – A gente queria produtividade. Quanto mais a gente perdesse tempo… nós queríamos acabar com o tempo ocioso. Nós temos pouca gente e nós temos muita coisa para fazer. Então, quanto mais recurso você poder puxar de um sistema como esse, melhor você fica, mais fácil fica a vida de todo mundo lá dentro dessa operação, porque é uma operação muito... hoje nós trabalhamos com volumes muito... hoje não tem nenhum Benchmarking no Brasil ou na América do Sul que se compare com a operação que a gente tem na Companhia. A Companhia, nos volumes que a gente trabalha, nos números, nas variáveis que a gente trabalha, na variedade de produtos que a gente trabalha, não tem ninguém hoje. Nós tivemos nos Estados Unidos e na Alemanha, eles têm sim alguma operação igual a nossa, só que a diferença é que eles têm tecnologia. Eles têm acesso à tecnologia muito mais fácil do que a gente. Mas comparando volumes, guardadas as proporções, nós não perdemos para ninguém, hoje, em operação de distribuição nesse país.

 

P2 – Há quantos anos você está na empresa?

 

R – Eu estou há vinte e dois anos. 

 

P/2 – Na sua área, desenvolveu vários ____ de tecnologia, linguística. O que você observa em inovações fora a sua área dentro da empresa? O que te chama atenção no histórico da empresa, de inovações fora a sua área?

 

R – Olha! Eu acho que conscientização das pessoas de que isso é uma companhia e é uma companhia de ponta; eu acho que uma preocupação que a companhia tem com os seus funcionários, ela sempre teve, mas eu acho que nos últimos anos está muito mais aparente. Essa conscientização das pessoas que a gente é uma companhia só. Apesar das divisões, nós temos divisões de bandeiras. Nós da área de Logística não fazemos essa divisão. Nós somos da corporação. Então a gente trata todos por igual, mas eu acho que essa conscientização da companhia, de que é um time; de que é uma empresa de ponta; as pessoas que vêm, vêm para ajudar. Eu acho que não existem mais aquelas pessoas, pelo menos a impressão que eu tinha, sabe, de querer barrar alguma coisa, de querer dificultar alguma coisa. Não. Hoje eu acho que todo mundo trabalha num norte só. Acho que a companhia tem um norte e todo mundo trabalha junto voltado para ele.

 

P2 – E, nesses anos de empresa, que fatos que te marcaram, que te chamaram atenção?

 

R – Olha, eu participei nesses anos todos aqui da empresa. Eu que desmontei esse depósito de cinquenta mil metros. Esse depósito tinha oitocentos funcionários e eu via toda sexta-feira trinta, vinte funcionários serem demitidos. Toda sexta-feira tinha demissão de funcionário. Eu ajudava a montar a lista de funcionários que tinham de ser cortados. Depois, eu desmontei esse depósito de cinquenta mil metros e depois eu construí, eu ajudei a construir. Eu desenhei o layout de como ia funcionar, do D1 que ficou com oitenta mil metros quadrados. Eu trabalhei em 2000 nas regionais. Eu montei o CD de Brasília, de Fortaleza, do Rio de Janeiro, de Recife e do Paraná. Então o que me marcou foi isso, ou seja, eu passei junto à companhia. A gente não podia gastar um centavo. A gente tinha que fazer das tripas corações na época que a companhia estava ruim e vê hoje a companhia onde chegou. Hoje pela manhã, na plenária, o Doutor Abílio comentando com ... parabenizando o Seu Mascarelli pelos trinta e quatro anos dele, perguntou ao Senhor Mascarelli se ele se lembrava há treze anos atrás como é que a companhia estava e eu lembro de como a companhia estava há treze anos atrás e vendo esse crescimento, essa expansão da companhia, isso me orgulha muito.

 

P/1 – O que você achou de estar participando desse projeto Memória, dando esse depoimento, contando a sua história, um pouquinho da história da empresa?  

 

R – Olha, é muito bom. É a primeira vez que eu participo, assim. Lógico que a história a gente sempre conta, mas o registro dessa história eu acho que é importante. A gente não pode perder com as pessoas porque eu já vi muita gente indo embora. Muitas pessoas que se foram para outro plano e pessoas que saíram da companhia e que tinham muita história, tinham muita coisa dentro para contar que a gente não registrou. Alguns se lembram de histórias, porque o bom das histórias são os folclores que acabam surgindo de histórias. Mas eu acho que isso é fantástico. Acho que tem que guardar essa história.

 

P2 – Você gostaria de acrescentar alguma coisa?

 

R – Não, eu acho assim, eu acho... eu gosto muito dessa companhia. Eu costumo dizer que eu fui criado aqui nessa companhia. Eu entrei aqui com catorze anos de idade, então, eu fui criado aqui dentro. Tudo o que tenho na minha vida hoje eu devo ao Pão de Açúcar e vou continuar lutando, enquanto eu puder, como já lutei muito por essa companhia.

 

P/1 – Tá bom. Muito obrigado.

 

R – Obrigado.

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