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História

Craque na bola, craque na escola

História de: Adílio de Oliveira Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2019

Sinopse

Infância na Cruzada São Sebastião. Carinho e admiração pela mãe. Apoio que recebeu do Flamengo após o falecimento dela. Trajetória dentro do clube, desde as categorias de base. Campeonatos que jogou. Títulos que ganhou pelo Flamengo. Relação com os demais jogadores. Passagens marcantes no time. Clubes que trabalhou. Projeto que participa com o Zico: Centro de Futebol Zico, o CFZ. Atualmente trabalha como professor.

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História completa

P/1 – Bom dia Adílio.

 

R – Bom dia.  

 

P/1 – Eu queria iniciar a nossa entrevista pedindo pra você falar o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Bem, meu  nome é Adílio de Oliveira Gonçalves. Data de nascimento é quinze de maio de 1956, sou carioca da gema, assim, todo mundo fala, nascido e criado em Cruzada São Sebastião, no Leblon.

 

P/1 – E você podia falar o nome dos seus pais e qual a atividade deles?

 

R – Minha mãe, Laide Oliveira Gonçalves. Meu pai, Sebastião Peixoto Gonçalves. São falecidos os dois, meu pai faleceu quando eu tinha quatro anos idade, e minha mãe eu tinha quatorze anos de idade.

 

P/1 – E você tem mais irmãos?

 

R – Tenho, o meu irmão mais velho que também é falecido, chamava-se Paulo Roberto e abaixo dele vem o que é mais velho hoje, o Adilson de Oliveira Gonçalves, eu, o Adilson Oliveira Gonçalves, o Sebastião Benedito da Silva e o Ivan de Oliveira Gonçalves, falecido também e o caçula que é o Alexandre Benedito da Silva.

 

P/2 – E não tem menina? 

 

R – Menina não, só meninos (risos). 

 

P/1 – Qual a recordação mais antiga que você tem da sua casa? 

 

R – A recordação vive na minha memória até hoje, porque acreditar, o que nós sempre comentamos que nós éramos felizes, mas não sabíamos, né? E minha família era uma união total, minha mãe fazia, era até costume do pessoal antigo tomar café junto, almoçar junto, lanchar junto, jantar junto e dormir também no mesmo horário, quer dizer, então era aquela integração total familiar, onde a preocupação da minha mãe era formar assim, você um homem, dentro de casa, e uma das coisas que ficou marcado mesmo na minha vida e que até hoje eu fico feliz da vida, porque minha mãe uma vez, numa oportunidade, onde as pessoas que faziam até coisas caseiras em casa, minha mãe fazia licor em casa, ela chamou os três filhos que ela tinha que eram o Paulo Roberto, o Adilson e eu e mandou provar. “Prova um pouquinho disso aqui”, aí nós provamos o licor, aí pegou um cigarro e acendeu, nós fumamos e ela falou assim: “Ó, o dia que eu ver vocês bebendo uma bebida alcoólica e fumando cigarro eu mato vocês”. E por isso eu sou um cara realizado, que eu nunca fumei, nunca bebi, o que ela me deu eu sou muito feliz por isso, porque você sabe que o esporte que eu entrei, que é o futebol, são coisas que tanto a bebida e o fumo não acompanham, isso pra mim ficou na minha lembrança ali. A compaixão do pessoal da cruzada antiga também, que tinha aquela malandragem, o pessoal que era malandrinho andava de chapéu, todo de terno no passado, eles tomavam conta de mim ali e diziam que eu tinha que ser o garoto da cruzada, coisa que eu não entendia na época, eu era bem pequeno ainda, mais tarde que eu vim entender que realmente se não fosse eles, eu não teria sido o que eu sou hoje. 

 

P/1 – E Adílio, como era assim... Se você fechar o olho, você se recorda como era a sua casa quando você era pequeno? 

 

R – Recordo muito bem, na minha casa nós tínhamos sala, dois quartos, onde nós tínhamos beliche, vivíamos ali no quarto eu e os meus irmãos. Minha mãe era pai e mãe na época, porque meu pai faleceu eu tinha quatro anos de idade, até na época, nós velávamos em casa mesmo, foi quando eu vi meu pai pequeno engatinhando ainda ou semi engatinhando, porque antigamente... Hoje não, um garoto de quatro anos tá um garoto esperto, mas antigamente não entendia muito bem as coisas, quer dizer, aquilo ali foi muito importante e eu tenho a vivência até hoje, até hoje eu vou no meu local, eu sou um cara privilegiado, porque eu moro perto de onde eu nasci, que é a Cruzada São Sebastião, e volta e meia eu tô lá, sempre vou lá, onde eu nasci e morei e ainda bato papo com o pessoal que vive hoje lá na casa onde eu nasci, e isso tem sido muito importante para mim.

 

P/1 – E com seus irmãos, que brincadeiras de criança vocês tinham?

 

R – Até que eu brinquei muito pouco, a minha infância realmente eu fui adulto muito cedo. A ocorrência das coisas que aconteceu e eu por ironia do destino, minha mãe era uma pessoa maravilhosa, ela que me dizia até as coisas que iam acontecer comigo no futuro, coisa que eu desconhecia, minha mãe tinha uma visão muito boa, eu tenho até uns traços dela e usei pra me satisfazer até no campo também, a coisa de você antever o lance, você começar a trabalhar essa coisa de mente, você puxar uma coisa pra você positiva e a coisa acontecer, entendeu? Então isso veio até da minha mãe. Ela, antigamente, se reunia com as avós, batia papo ali, e eu ficava sempre do lado da minha mãe, que eu era o caçula e ela passava informações minhas, que, por exemplo, eu ia ganhar muito dinheiro, eu ia ser muito famoso e eu tinha seis anos de idade, que eu ia ter muitas mulheres bonitas, aquele negócio de (voz?), e tal. Eu ficava só... Aquele negrinho bem pretinho, bem feinho, ouvindo aquilo ali e eu comecei a buscar até a minha origem, o meu nome, comecei a perguntar: “Mamãe, pô, Adílio, é difícil ter um Adílio, faz tempo que eu não vejo Adílio”, aí ela começou falar: “Eu tinha um amigo que chamava-se Adílio, por isso que eu botei esse nome em você, é um nome único, então esse nome você tem que levar pra cima muito bem, você tem que fazer mais Adílio, você tem que ser uma pessoa assim, uma pessoa correta e nunca deixar de ser você mesmo, o principal é isso”. Então eu tive aquele seguimento, minha mãe é uma pessoa muito carismática, o pessoal da Cruzada todinho gostava dela, ela arrumava a vida de todo mundo, o pessoal tinha qualquer dificuldade, já ia lá: “Dona Laide, dona Laide”, ia lá, ela conversava, abraçava e uma das coisas que eu deixei ela muito feliz da vida foi… Quem fez a Cruzada São Sebastião foi [o] Dom Helder de Câmara, juntamente com a Marinha. Então o que ele fez lá? Ele fez uma igreja, um conjunto habitacional e um Colégio, Colégio Santos dos Anjos, nesse colégio eu estudava, nesse colégio eu era muito bom aluno, e teve até uma passagem que a diretora me chamou na sala dela e falou assim: “Quero que sua mãe venha aqui pra conversar comigo”, eu fiquei meio preocupado, nunca tinha acontecido aquilo, aí eu falei pra minha mãe: “Ó, a diretora mandou à senhora ir lá no colégio”. E ela: “O que você fez?”, logo né, e eu falei: “Não, não fiz nada não, também não sei, você tem que ir lá”, ela falou: “Olha lá, o problema que você vai me trazer”, aí ela foi lá, aí ela chegou lá no colégio, tava até meio assustada, ela falou assim: “Dona Laide não precisa assustar não, é que seu filho Adílio...”, é uma coisa até que eu falo assim, mais porque eu sempre tracei isso, craque na bola, craque na escola, que eu procuro passar até pras crianças, então ela falou assim: “O seu filho Adílio não pode mais estudar nesse colégio, porque é um colégio que não tá mais alcançando a inteligência dele, ele tem que ir pra outros colégios”, e tinham colégios vizinhos que eram só colégios de pessoas com a classe social mais elevada e tal, e minha mãe não tinha condição, “Mas seu filho tem que estudar lá, eu vou fazer um documento pra ele lá, e ele vai ter que estudar nesse colégio”. E nesse colégio eu fui e fui um dos melhores alunos do colégio, minha mãe passou até a ser servente do colégio também, e ter uma oportunidade que naquela época...

 

P/2 – Como era o nome desse colégio? 

 

R – (Henrique Doza?). E naquela época todo mundo ficava formado assim, pra poder subir, com bandeira do Brasil,_____, a gente cantava aquele Hino e tal, era de praxe isso. Aí a diretora falou pra mim: “Adílio, eu queria que você subisse lá em cima na Biblioteca”, eu fui e ela falou, ela contou minha história: “Ó Diretor, esse garoto veio pra cá, nós nunca recebíamos garotos que moravam na Cruzada, que nós tínhamos problemas, nós achávamos que tinha lá negócio de marginal, as coisas todinhas né, mas o Adílio... Ele é o melhor aluno do colégio, ele é o garoto mais disciplinado, ele é polícia escolar de segurança, aquele garoto que ficava com aquele negócio pra atravessar a rua, ele é o primeiro bibliotecário do colégio que arruma os os livros todinhos e tal, esse garoto é o melhor aluno do colégio” ________________________ prantos, chorando e tal... "E por felicidade nossa, ele também é um garoto que joga futebol, é dente de leite do Flamengo, todos os domingos têm  jogos dele e nós temos assistido, é um garoto que tá sempre ganhando bicicleta, premiação e tudo”. Quer dizer, então isso foi uma coisa muito boa pra mim, que ficou marcado e que eu vi minha mãe chorar, entendeu? Eu nunca tinha visto minha mãe chorar. Foi quando eu vi a minha mãe chorar e quando eu desci o pessoal batendo palmas e tal, minha mãe aos prantos me abraçando, quer dizer...

 

P/1 – Chorou de alegria.

 

R – De alegria e ela falou: “A partir desse momento, as pessoas que moram na Cruzada vão poder entrar no colégio”, aí foi uma coisa que foi muito importante na minha vida e acho que o pessoal do colégio, as professoras até hoje agradecem, que eu fui à pessoa que abri as portas.

 

P/1 – Adílio, vamos falar um pouquinho mais da Cruzada, pra quem não é do Rio, você podia descrever assim, o que é a Cruzada nesse contexto aqui do Leblon?

 

R – Sim, a Cruzada São Sebastião é uma comunidade muito boa, eu até já, eu era uma pessoa até me acho, hoje eu já entendo quando a pessoa é iluminada, eu dizia para os meus amigo: “Pô, nós temos aqui, nós moramos pertinho da praia, a quatro passos da praia, de um lado tem o monte Líbano do outro lado tem o Canecão, então quer dizer, nós somos pobres privilegiados, então nós temos que usar isso pra quê? Pra gente começar a conduzir isso.” Aí se criou até uma sociedade, até através de mim,  juntamente com o Padre Bruno Trombetta, que você deve conhecer, você foi pesquisador do Trombeta, foi o pastor lá da Igreja, então nós formamos uma Associação, colocamos ali, um posto policial, que antigamente nós sofríamos com os guardas, que entravam lá, batiam, arrombavam as portas e tal, e nós não sabíamos a lei e começamos a traçar, porque a tantos quilômetros da sua casa, nenhum policial pode pegar um documento seu, pode vir com a força que eles vinham, tentando marginalizar essas crianças, então a Cruzada era um conjunto habitacional que eles tentavam marginalizar a localidade e não era, tinham pessoas de bem, inclusive hoje tem lá professores, médicos, tudo, pessoas que eram meus amigos de infância, todo mundo foi e se formaram. Eu sou formado em Educação Física pela Castelo Branco, outros foram pra Medicina, advogado e assim se foi, quer dizer, tinha uma cabeça ali, tinha um grupo ali de garotos, de crianças que tinham uma cabeça boa e a Cruzada era muito boa porque era uma comunidade que todo mundo se conhecia e através do Futebol, que eu  até digo assim, que ela foi reconhecida mais na parte positiva e não na parte negativa, que ali viviam garotos que jogaram no Flamengo, como eu digo assim, que  eu era uma pessoa iluminada, porque eu fui parar no Flamengo, que o Flamengo é o melhor time do mundo na minha opinião, eu sou flamenguista doente e quem discutir comigo (risos) vai ter que ouvir. Então eu fui uma pessoa iluminada nisso, eu procurei até usar um pouquinho o Flamengo e o Flamengo até permitiu isso, para eu melhorar algumas situações lá que não tinham na época.

 

P/1 – E Adílio, antes de existir a Cruzada, o que era ali?

 

R – Bem, a Cruzada foi derivada, tinha a praia do ____, a favela da Praia do Pinto e tinham umas casinhas que chamavam-se Areinha, porque ali depois do Flamengo era tudo areia, da praia mesmo, a praia vinha até lá embaixo, areia mesmo, chamava-se Areinha, Morro do Urubu, que hoje é a Praia do Leblon que o pessoal falava Areinha, então quando Dom Helder de Câmera viu aquilo ali, ele fez aquele conjunto habitacional, o pessoal da Areinha foi pra lá, quer dizer, hoje eu tenho quase que a mesma idade da Cruzada São Sebastião, que são 44 anos, um negócio hoje que vem encaixando bem. Tiveram muitas pessoas que tentaram tirar o pessoal da Cruzada ali, pra outras localidades, conseguiram tirar as pessoas que moravam na Praia do Pinto e mandaram lá pra Cordovil, e através do futebol eu comecei a tentar mudar alguma coisa, jogando peladinha com a turma, eu ia muito na Praia do Pinto e minha estrela brilhou no dia que eu conheci - foi o meu melhor amigo, da minha vida - o Júlio César Uri Geller, que hoje todo mundo conhece ele como Uri Geller, que nós tínhamos o nosso time de futebol e tinha um time lá da Praia do Pinto e tinha aquele negócio de Pelé, Tostão, Evaldo, Dirceu Lopes, que eram nomes que mandavam, por exemplo, eu,  o pessoal me chamava de Pelé (risos) e tinha seis anos de idade, então o pessoal: “Pelezinho, Pelezinho”. Mas lá tinha um garoto que chamava-se Dirceu Lopes e você queria jogar mais do que o garoto, tinha essas rixazinhas e numa dessas o pessoal falou: "Pô, tem um garoto que mora lá na Praia do Pinto, lá na cidade alta”, que tinha uma cidade alta na Praia do Pinto, que chamava (Sobaba?), que é uma cidade que é alta, chamado Júlio César e “diz que joga mais do que você”, aquele negócio todinho. Aí eu fui lá, e quando eu vi era o Júlio César, eu falei: “Tinha até aquele negócio de garoto branco, preto, e esse Júlio César era branco, joga muito bem”. Foi quando eu conheci o Júlio César, nós marcamos uma pelada juntos, “Vamos marcar um duelo entre você e eu” quem ia jogar melhor e todo mundo aqui do meu lado, o pessoal do lado dele e aí foi quando nós traçamos a nossa amizade, foi uma coisa muito bonita, foi uma amizade que perdura até hoje. Hoje nós trabalhamos até no Centro de Futebol do Zico e a nossa história do Flamengo foi desde do futebol de salão, que nós ingressamos no futebol de salão até o profissional, nós fomos juntos, aí nós encontramos no Dente de Leite depois o Tita, aí depois no juvenil já encontramos com o Andrade e no salão já tínhamos o Júnior que jogava no infanto salão, tinha o Jaime também que jogava no salão, aí fomos conhecendo aquela turma todinha, que se juntaria. Aí chegou no time de cima e deu aquele problema pra todo mundo.

 

P/2 –  Adílio vamos voltar essas peladas, quando você ainda não chegou no Flamengo, onde você jogava?

 

R – Essas peladas... Você vê que ali na Lagoa tinha o morro da Catacumba né, lembra do Morro da Catacumba? E ali tinha parece que uns seis campos de futebol e o Rio de Janeiro antigamente tava cheio de campo de futebol de pelada mesmo, e até uma coisa  muito importante, que o pessoal até desconhece, a garotada, que pra você jogar contra um time (lá fora?) tinha que mandar um ofício pra você jogar contra o time da Catacumba e o time lá era muito bom, tinha garotos bons mesmo e vem aquela disputa e aí fizemos, mas só que quando nosso time ia lá, nós sempre ganhávamos, meu time de garoto era muito bom. Uma das coisas curiosas que tinha, porque quando você ia jogar na casa do vizinho, tinha já uma certa rixa, “Pô, a Cruzada veio aqui e ganhou”, não sei o que lá e tal e tinha sempre um problema, então eu não vou esquecer nunca mais disso, em uma das peladas um rapaz disse para a gente: “Ó, vocês ganharam o jogo, mas agora vocês vão ter que atravessar a lagoa a nado e vamos contar até cem e depois vamos enfiar pedrada em vocês” (risos) e foi uma das coisas que eu não esqueci também, fomos lá a nado, ele jogou pedra, mas mandava ofício nós voltávamos de novo pra jogar com eles, mesmo sabendo que tinha esse risco, coisa de garoto mesmo.

 

P/2 – E dava para nadar na Lagoa?

 

R – Dava. Dava para nadar na Lagoa. Criança tinha que saber tudo, sabe como eu aprendi a nadar? Aprendi a nadar porque um primo meu... Tinha um canal na Cruzada ______ e sempre entrava água da praia e ficava cheio, e todo mundo pulava, pulava e você não sabia nadar, aí um primo meu me pegou sem saber também e me jogou assim, vrup, dentro d’água, aí eu (alguns sons), ele: “Vai começa, cachorrinho, vai cachorrinho, agora cachorrinho, calma fica tranquilo, vai, dá a primeira braçada”, quer dizer, os pobres antigamente aprendia nadar assim (risos), mas bebia água primeiro. Então tu vê como são as coisas, meu filho, eu tive que botar na natação _____ e  tal, quer dizer, é outro comportamento, mas antigamente era tudo na marra mesmo, até a situação pra você ser um garoto que o pessoal tinha um pouquinho de medo, você tinha que brigar: “Você tem que brigar com ele” e você brigava, brigava, se ganhava tinha que brigar com outro e foi nesse ambiente da Cruzada que eu nasci, foi muito bom isso, muito importante mesmo porque ali eu tive uma aprendizagem muito boa e depois nós fomos só mudando os esquemas todinho.

 

P/1 – Como você virou Flamengo?

 

R – Eu sempre, o Flamengo sempre tinha uma rixa porque nós jogávamos pelada juntos, eu falei: “Ó, eu sou Botafogo, eu sou Fluminense”, eu sempre fui Flamengo, não sei, eu sempre fui Flamengo, porque eu vi, sabe, o Flamengo era ali, o meu sonho era jogar ali, entendeu? Eu ia para a Praia do Pinto, andava e via o Flamengo: “Eu vou jogar ali, um dia eu vou jogar ali”, várias vezes eu subia, pulava o muro e ficava olhando a escolinha do Flamengo jogar, via o Zico jogar. "Um dia eu vou jogar com aquele rapaz ali, ele joga muito bem, assim mesmo, assim mesmo", com esse sonho assim, e tinha até um garoto da Cruzada chamado Rui Rei, foi o primeiro jogador que foi pro Flamengo, assim, que despontou o nome, porque antes dele veio o Carlinhos, um dos primeiros jogadores da Cruzada, o Lourival também é da Cruzada, jogou no Flamengo, na época de Gerson, o Ditão… Então eles eram da Cruzada esse aí, veio até ser meu primo, que casou com uma tia minha, somos até parentes por causa disso. Depois eu sonhei mesmo em ser flamenguista, meu primeiro dia no Flamengo foi muito importante, foi um dia que o Julinho me levou, e me contou assim: “Adílio, eu jogo no Flamengo, só que não  pode entrar, só pode entrar quem é sócio, você tem que pular o muro”. Eu falei: “Pô, um muro desse tamanho, como eu vou pular esse muro, cara?" “Não você tem que pular o muro, pra entrar no Flamengo tem que pular o muro, escondido, escondido mesmo”. Aí eu já calejado de tanto subir aquele muro ______, isso não é problema pra mim, eu subi, pulei o muro, aí ele foi por dentro e me deu uma camisa lá do treinamento, foi lá, aí me apresentou o treinador que era até Seu Guilherme e Seu Rui, aí eu comecei a fazer a minha experiência ali no salão, aí tá, tá, tá, aí bastou uns dez minutinhos, Seu Rui pegou minha camisa, botou a camisa de titular e pegou minha camisa de reserva e deu pro Julinho (risos), ele: “Pô, eu trago você aqui e você fica no meu lugar”,___________ mas aí eu comecei a jogar, foi quando eu mudei de posição.

 

P/1 – Você lembra do ano e desse dia que você pulou o muro, aí?

 

R – Olha, parece que foi em 1967, porque eu me lembro que no Flamengo jogava-se Fio Maravilha, lembra? Fio, Ademar, essa turma, parece que foi em 1977 e 1978, foi assim, nessa data assim. Tinha o (Strique?) também, foi um dos treinadores que veio um ano depois pro Flamengo, eu lembro.

 

P/1- Então quer dizer, um dia marcante.

 

R- É, aí começou a minha história no Flamengo, aí depois eu voltei, nós tínhamos um time na Praia do Pinto chamado Sete de Setembro, foi o time que eu comecei a jogar mesmo. E meu irmão, Paulo Roberto, mais velho e que também jogava futebol, ele também jogava no Sete de setembro, só que Sete de Setembro, o pessoal era todo da faixa etária dele, o meu irmão era cinco anos mais velho que eu, que faleceu, e eu jogava no time e ele era reserva. Eu jogava num time e ele era reserva, time de adulto mesmo, eu pequenininho, mas eu era titular e ele era reserva, ele ficava ali no banco torcendo pra mim e tal. E todo o ano, o Sete de setembro, tinha uma data certa, nós íamos fazer jogos contra o Flamengo, o Flamengo fazia joguinhos assim, jogo pleno e num desses dias, eu com a camisa sete, eu era ponta direita, aí eu fui jogar contra o Flamengo e o professor do Flamengo era o professor Humberto, que foi jogador do Flamengo, meio campo. O senhor Humberto e tal, e o lateral esquerda do Flamengo, que eu joguei até quando foi o filho do Monsueto, lembra do Monsueto, aquele cantor? Desse tamanho o garoto, grandão e eu pequenininho, mas eu joguei muito aquele dia, foi aí quando o senhor Humberto me pegou e colocou no time e eu fiquei dois meses no Flamengo, aí o Doutor Humberto teve que ir pra Espanha, ele acabou com essa categoria lá no Flamengo, aí foi quando eu voltei e só fiquei no salão, aí fui Dente de Leite, (Fonte Juvenil?), Juvenil e aí fui embora.

 

P/1 – E no salão você ficou quanto tempo?

 

R – No salão eu fiquei três anos, sempre artilheiro, artilheiro muito mesmo, o pessoal do campo...

 

P/1 – E que bagagem o futebol de salão te deu?

 

R – O futebol de salão me deu muita habilidade, muita disciplina, muita parte técnica que nós tínhamos que fazer e na época, no Flamengo, eu e o Júlio César desequilibrávamos mesmo, os times só queriam marcar nós dois, tanto é que nós íamos para todas as seleções, nós íamos sempre, e na época, o melhor time era o Mackenzie, time do Doutor Rubens, muito bom o time do Mackenzie, mas nós estávamos sempre no mesmo nível do pessoal, e o Flamengo (juntamente?) até com o Jorge Elau, ele sempre ia no esporte amador pra dar uma olhadinha nisso aí, foi quando ele me viu, me descobriu e disse: “Não, você tem que jogar futebol de campo”. Aí foi quando eu fui pro Dente de Leite, só que no Flamengo tinham dois departamentos, o DJ que é o Departamento Amador e o Departamento do Campo, que é Departamento Amador agora, todos  eram interligados, mas não eram iguais. E aí eu fiquei impedido na época de jogar futebol de salão e futebol de campo, porque um não queria que eu jogasse, tá, tá, deu aquela briga interna. Deu aquela briga interna, eu me lembro até que tinha um jogo de futebol de salão na quadra e tinha um jogo de futebol de campo no campo e eu fui impedido de jogar. E nesse desenrolar a  minha mãe ainda não sabia que eu jogava futebol bem, minha mãe ficava ali e tal, vinha pra casa tudo escondido, ia até lá e voltava e tal, e não sabia. Então as pessoas comentavam: “Pô Dona Laide, seu filho joga muito bem, sei lá e tal, joga muito bem”. Aí marcamos um jogo aí de pelada na Cruzada, pra minha mãe ver eu jogar, foi quando ela viu eu jogar pela primeira vez, gostou e aí ela me deu todo apoio, aí depois ela casou também de novo com meu padrasto. Desse meu padrasto veio mais três irmãos, o Sebastião, o Ivan e o Alexandre que é o caçula, e uma parte curiosa aí, o meu padrasto era policial, então muito rígido, ele achava que jogador de futebol era moleque, não queria nada, era vagabundo, tinha que trabalhar e tal, então ele, às vezes, embarreirava um treinamento meu, jogar futebol, quer dizer, essas coisas às vezes complicava, mas teve uma coisa que ele me deu aquela liberdade, que foi quando eu fui jogar no corpo de bombeiro futebol de salão, de pelada, e o corpo de bombeiro aqui e a delegacia ali, fica ali na Gávea, o bombeiro e tem a delegacia ali. Nessa ocasião o meu padrasto tava ali, na polícia e tava todo mundo comentando: “Pô garoto, você joga muito e se você passar por todo mundo eu te dou uma coca cola” aquele negóciozinho, tal e tal, na época era (Tab?), eu gosto de (Tab, Taib?), um negócio assim, (Tab?), refrigerante Crush, “Te dou um Crush”, aí pegava a bola, passava pra todo mundo, aí marcava um gol. “E te dou mais um se tu fizer a mesma coisa”, aquele pessoal todo olhando, aí meu padrasto ficou curioso, quando ele olhou assim,  ele me viu jogando, aí ele deu aquele grito: “É meu filho” (risos). “Seu filho, que isso? Trás ele aqui”. Foi quando eu fui lá, ele me apresentou: “Meu filho tal e tal”, foi quando ele ficou emocionado, aí que ele resolveu me liberar, mas demorou bem, porque ele ficava assim: “Fica aí jogando bola, não sei o que lá, isso não vai dar pra nada, vai ganhar dinheiro jogando bola, isso não dá dinheiro pra ninguém, isso não é profissão”, quer dizer, aí depois ele liberou.

 

P/1 – Você sempre estudou? 

 

R – Eu sempre estudei muito e muito mesmo, fiz todas. Nesse colégio que eu te falei foram escolhidos cinco melhores alunos do colégio pra fazer Admissão no (André Monroe?), eu passei, eu e mais três amigos meus passaram, aí eu fui embora. Depois eu fui estudar no Manuel Bandeira, também onde eu fiz o científico, aí depois eu fiz o curso no Miguel Couto Bahiense pra passar no vestibular e a minha cabeça sempre foi formada pra Psicologia, porque sempre foi aquele negócio da minha mãe, que eu falei sempre, via uma pessoa com dificuldade orientava, batia papo, orientava e tal, eu fiz Cesgranrio para Psicologia e fiz a PUC pra Psicologia, passei na PUC pra Psicologia e fui até a minha madrinha - minha mãe já era falecida - e ela falou assim: “Ó, Psicologia não, você tem que fazer Educação Física porque eu tenho uma filha Psicóloga, ela é toda agitada, não é legal”, aí foi quando eu fui lá fazer Educação Física lá na Castelo Branco, lá na Faculdades Integrada Castelo Branco. 

 

P/1 – Isso enquanto você era  jogador?

 

R – Enquanto eu era jogador, tudo isso, eu estudava e jogava, eu sempre tive essa filosofia, craque na bola, craque na escola, não podia deixar, e a minha mãe sempre falou pra mim: “Deixe de fazer tudo, menos de estudar”.

 

P/2 – E seus irmãos mais novos?

 

R – Meus irmãos mais novos estudam também.

 

P/2 – Mas foi você que cuidou deles?

 

R – Foi sim. E depois quando minha mãe faleceu aí meu padrasto, como eu te falei, foi lá pra Aperibé, Baltazar, é uma cidadezinha. Aí levou meus irmãos e tem até uma história que eu contei pra ele, que quando meu irmão mais velho, Paulo Roberto faleceu, isso tudo jogando futebol ali, meu irmão mais velho faleceu ela ficou um mês, quase que um mês antes de dormir ela me botava no colo dela, conversava comigo, botava até um troço futurístico mesmo, dizia que eu tinha que investir na Barra, que a Barra ia ser o país do futuro e a Barra você sabe muito bem que era só mato, não tinha nada, e eu: “Mãe, como vai ser? Pô, só mato, não tem nada”, “Mas tem que investir lá, você vai ganhar dinheiro, você que vai tomar conta dos seus irmãos”, aquele negócio todinho, “Como eu vou tomar conta dos irmãos se nós temos um irmão mais velho?”, que era o Adilson, “Não, mas você é um cara mais equilibrado pra essas coisas, tal, tal e tal e eu vou te pedir um favor, pra mim agora, que eu vou morrer”, “Que vai morrer mãe?” “Eu vou morrer, e eu queria que você  falasse pro Brasil todo que meu nome não é Alaíde, que eu me chamo Laíde”, e eu dizia: “Mas como eu vou falar isso mãe? Vou abrir a janela e falar assim, o nome da minha mãe é Laíde”, aquele negócio todo, “Não, não vai ter o tempo certo, vai chegar o tempo certo que todo mundo vai saber que meu nome é Laíde e não Alaíde” e tudo isso ela foi colocando pra mim, e eu ali, todo dia, toda noite, ela me botava no colo dela e começava a contar as coisas pra mim, o que eu tinha que fazer: “Quando eu estiver morrendo você vai ser o único que não pode chorar, você vai começar a trabalhar, vai lá, trabalha, conversa com seus irmãos e tal” e assim ocorreu, um dia ela passou mal em casa, eu tava até jogando bola.

 

P/1 – Adílio, você tá dizendo que você tava conversando com sua mãe, que ela tava dizendo que você tinha que assumir a família, que talvez ela faltasse...

 

R – É exatamente, porque a minha mãe tinha pressão alta, até nós tínhamos que ter um certo cuidado com ela, que ela não podia comer muito sal e ela fazia comida pra gente com pouco sal, entendeu? E um dia ela saiu pra trabalhar, ela voltou pra dar almoço pra todos nós, eu lembro que eu tava até jogando bola lá na Cruzada, aí veio um pessoal correndo: “Pô, sua mãe tá passando mal, passando mal”, aí ela entrou no chuveiro pra tomar banho, parece que sentiu uma tontura, bateu, caiu e aí o médico era morador, nosso vizinho, foi lá e tentou reanimar e eu vendo aquela cena todinha, e meus irmãos em prantos, todo mundo chorando, aí ela já falecida, aí eu comecei a lembrar das coisas que ela contava pra mim, quando eu tiver passando mal vai começar uma vida nova pra você, mas você tem que começar a trabalhar, aí eu já fui lá, comecei a fazer café pro pessoal que ia lá em casa, cafezinho pra um, cafezinho pra outro e tal,  o pessoal, daqui a pouco, os adultos: “Tá todo mundo aqui chorando e ele é o  único que tá _____”. Aí foi quando uma tia minha, eu contei pra ela a respeito, e aí foi o dia que minha mãe foi pro hospital, para o Miguel Couto, eu fui saindo, andando, andando, fui parar em Copacabana andando e só pensando naquelas coisas que ela contou pra mim. Aí quando eu voltei em casa, voltei já com a cabeça feita, daquilo que eu tinha que fazer, aí chegou à notícia que ela tinha falecido mesmo e tal. Aí tive que ter aquele equilíbrio, eu já tinha quatorze anos de idade, tava ainda brincando. Tive que virar um pouquinho pra adulto, comecei já a traçar as coisas, consertar aqui, aquilo assim e tal, meu padrasto ainda morava com a gente, daqui a pouco nós dividimos o apartamento que era de uma sala e dois quartos, nós fomos mudar, dividir um apartamento que tinha uma sala só, tanto ele como meu padrasto dividimos, eu fiquei morando no segundo bloco, eu me lembro e meu padrasto ficou morando junto com os meus outros três irmãos, que eram filhos deles. Aí passou assim, uns seis meses, a gente sempre se falando, conversando, eu morando com meu irmão mais velho, que é o Adilson, aí foi quando minha madrinha me pegou: “Sua mãe faleceu, então eu tenho que tomar conta de você, tu vai morar comigo, você vai estudar, coisa que você sempre gostou, sempre quis ser médico”, porque meu padrinho é médico. “Então, vai estudar pra isso”. E eu fiquei com ela um mês, morando com a minha madrinha, aí chegou uma noite que eu falei assim pra ela: “Olha, eu tenho que cumprir a minha obrigação que minha mãe deixou pra mim, eu não posso ficar aqui e meus irmãos estão lá com o meu padrasto, o outro lá tá sozinho, eu tenho  que voltar para começar o meu trabalho que a minha mãe traçou pra mim”. Aí minha madrinha falou: “Você é demais”, aí eu voltei, o Flamengo me ajudou muito, muito mesmo, bancou tudo, o enterro da minha mãe e tal, alimentação, tudo, bancou tudo, quer dizer, pô, se eu era Flamengo na época, eu virei o dobro, até falava pro diretor na época que era o Jorge Elau e o Luís Carlos, que hoje é até do departamento amador, eu falei assim: “Eu vou fazer tudo pelo Flamengo, vou dar meu sangue pelo Flamengo, pelo que vocês fizeram por mim e pela minha mãe, pra família”. E aí fiz esse trato com o Flamengo e continuei o meu trabalho. Aí eu lembro que tinha dias que eu ia treinar levando esse meu irmão que tava no berço ainda, que é o caçula, dando mamadeira a ele, deixava ele lá no vestiário, ia treinar, aí depois chegava e pegava ele e ia pra casa, assim mesmo. E o Modesto Bria já sabia que eu ia chegar um pouquinho atrasado todo dia e assim foi minha vida, eu comecei a criar meus irmãos. Meu padrasto, na oportunidade ele se mudou, como eu te falei, foi lá pra Aperibé, no Baltazar, e minha mãe já tinha me falado: “Você tem que tomar conta dos seus irmãos, só você pode cuidar deles”, aí foi uma oportunidade, eu já tinha comprado um carro, que era naquela época um Passat, eu peguei o carro, fui lá pra Minas dirigindo, aí foi quando eu peguei o caçula, ele me viu tava com um olho desse tamanho já ali, aí eu tô vendo ele lá tirando água do poço, aquele negócio todinho, eu conversando com meu padrasto: “Eu vim aqui pegar ele que eu vou cuidar dele” aí meu padrasto: “Eu só deixo você cuidar, porque em você eu confio”, e foi quando eu botei ele no carro, quando eu pensei em colocar ele dentro do carro, ele já tava dentro (risos), aí eu trouxe ele, aí comecei a dar escolaridade pra ele, a boa vida, que eu já tinha, eu tava morando em Botafogo, aí trouxe os outros também, que eram mais adultos e ficaram os três morando comigo, aí eu fui embora e sempre ali lutando pelo Flamengo, suando a camisa do Flamengo e sempre pensando naquilo que o Flamengo tinha feito por mim. E eu acho até que a recíproca foi verdadeira, porque eu lembro que na época, quando eu subi pro time profissional do Flamengo, foi em 87, em 88, já  tinha sido o primeiro campeonato do Flamengo, ele foi campeão, depois bicampeão, tricampeão, aí o Flamengo começou a ganhar depois que veio eu, Júlio César, Andrade, o Tita, o Flamengo começou a ser essa história que vocês sabem aí.

 

P/1 – Tudo revelado pelo Flamengo?

 

R – Tudo revelado pelo Flamengo.

 

P/1 – Então Adílio, vamos contar um pouquinho da sua trajetória então, você saiu do futebol de salão...

 

R – Saí do salão, aí fui pro Dente de Leite, que era feito pelo Ivo Gorgulho, que fez esse Dente de Leite, tinha até uma frase lá, "craque na bola, craque na escola". A bola era aquela bola de borracha, você jogava com aquela bola de borracha, e todo domingo, eu passava não sei se era a TV ou Canal Tupi, uma coisa assim, passava e eu lembro que na época, os melhores times eram Flamengo, Pavunense também era um time muito bom, que eu vou dizer até os nomes que você vai saber quem são, o João Paulo, jogador dos Santos, Juary jogador do Santos, tinha o Babá que também foi pro Santos, o Fluminense tinha o Gilson Eugênio, o Edinho que vocês sabem que foi um grande jogador, no Botafogo tinha o Mendonça, o Bruno Ferretti o Tiquinho, quer dizer, você vê que eram todos garotos, naquela época, que subiram e foram faiscando seus clubes, e depois do Dente de Leite teve até uma passagem, que eu era um dos melhores jogadores do Flamengo, tá? E aí nós subimos pra escolinha que era o time que o Zico tava, depois que subiu e foi pro infanto juvenil, e na escolinha nós tínhamos um treinador chamado Zé Nogueira, que ficou marcada mesmo, Dente de Leite era Seu Zizinho, um grande treinador Seu Zizinho, não é o mestre Ziza não é o Seu Zizinho, ele foi muito importante na minha carreira de futebol também, ele ia na minha casa na Cruzada e me pegava, às vezes, ele me levava pra jogar umas peladinhas, “Pô, vou trazer um garoto aqui pra jogar, um garoto craque e tal” quer dizer, ele me deu uma formação muito boa, ele já apostava em mim ali, como se fosse um grande jogador e como eu falei pra você no início eu sempre fui uma... Hoje eu me acho um cara iluminado, porque até hoje quando eu tô dando conselho pras crianças eu falo: “Eu fui um jogador privilegiado, eu nasci do lado do Flamengo”. Porque tem gente que vem de longe, pega ônibus, dois ônibus e tal e pá e eu fui um cara privilegiado, eu andava e tava ali no Flamengo, mas eu usei isso aí como uma coisa forte pra mim e aí do Dente de Leite eu fui pra escolinha que chamava-se Zé Nogueira o treinador, na escolinha os garotos já trabalhavam, faziam musculação, já treinavam bem fisicamente, todos fortes e Dente de Leite a gente não fazia quase que nada, só nos encontrávamos no sábado, patrulhamento, jogos, não tinha aquele trabalho de atleta. E quando ele olhou assim, e eu lembro, tava eu, o Júlio César, Tita, tinha o Maurício e o Luís Otávio foram jogadores que foram escolhidos para ficar na escolinha. Aí ele olhou assim pra todos nós e falou assim: “Vocês têm que vir daqui um mês, porque vocês são muito fracos, franzinos, não dá, se eu colocar vocês pra jogar com esses garotos aqui, eles vão atropelar vocês e vão te machucar, então vocês vão embora, não pode não”. Aí falou de mim: “Eu sei que você era craque no Dente de Leite e tal, mas daqui um mês”. Aí o Farias que você deve conhecer que foi atleta Marrocos, trabalhou no Marrocos, o Farias que revelou aquele timaço do time do Marrocos, lembra o time do Marrocos na seleção? O Farias, ele trabalhava no Fluminense, ele já sabia que no Flamengo tinha eu, Tita, Júlio César Uri Geller, então jogadores bons, aí ele foi lá e nos pegou: “Não, vocês têm que jogar no Fluminense”, aí ele nos pegou e nós fomos jogar no Fluminense na época, foi até uma passagem que quase ninguém sabe, aí nós fomos treinando no Fluminense, aí o Fluminense fez uma excursão no Mato Grosso, aí nós fomos para o Mato Grosso junto com o Edinho, (Duflaeiro?), Wilson, Eugênio mais um amigo dele, lembra do (Duflaeiro?)? Essa turma todinha, nós fomos juntos lá, aí eu lembro que veio um diretor do Fluminense, eu com o uniforme todo branquinho com escudo do Fluminense, chegou assim e falou: “O uniforme ficou bonitinho em você” assim mesmo, “Ò, tu tem que assinar um documento aqui pra tu ficar aqui no Fluminense, que o Fluminense...”, mas eu tinha um negócio com o Flamengo no meu coração, aquele negócio, porque  ia jogar no Flamengo. Eu falei: "não, quando eu voltar depois eu converso com você”, “Não vocês têm que assinar agora”, aí eu lembro que conversando até com o Tita, “Tita, não vamos assinar nada não, não vamos não, que o treinador mandou a gente voltar daqui um mês, nós temos que voltar” “Não, mas o Fluminense, nós estamos aqui no Fluminense ___”, “Não, não vamos não, ________, siga meu conselho, não vamos não, vamos aguardar”. Aí nós jogamos, ganhamos o jogo, o pessoal mandou a gente voltar pra treinar, aí quando eu cheguei de excursão em casa, quem tava na minha casa era o Jorge Helal, ele tava lá em casa sentado...

 

P/1 – Na sua casa?

 

R – Na minha casa, Jorge Helal sentado, aí cheguei lá, ele: “Pô, meu filho, eu gosto tanto de você, eu sei que o treinador fica não, não, você tem... Vamos lá, não pode, tu assinou alguma coisa?” “Não, não assinei nada não”. Aí pegou nós cinco, aí voltou lá e falou: ”Esse jogador, esse, esse, esse, esse são patrimônio do clube, tem que ficar aqui, arruma um negócio pra você treinar eles, mas esses daqui não podem sair daqui mesmo”, Foi quando nós... Você vê que o Jorge Helal já apostava na gente naquela época, quer dizer, ele dali foi meu padrinho até em cima, o Jorge Helal, e até hoje, sempre quando eu encontro ele, eu agradeço ele, ele foi uma pessoa que marcou mesmo, ele pagava meu colégio, pagava meu dentista, bancava tudo, eu já garotinho, ele já apostava em mim naquela época. Aí depois dali eu comecei entrar no time da Escola do Flamengo com o Zé Nogueira, o que marcou também em mim foi que todo treinamento ele me deixava na reserva, tinha um jogador lá que jogava o tempo todo, “Ih, esqueci de você”, aquele negócio todinho. Aí uma vez foram fazer uma reportagem lá no Flamengo, saber qual jogador aqui da escolinha que ele apostava que ia ser, ia chegar no time de cima do Flamengo. Foi até uma surpresa pra mim, saiu no jornal assim: “O jogador que eu acho que vai chegar certo mesmo é o Adílio” e ele me deixava na reserva, nunca me botou, aquilo ali me deu uma... “Porque é um jogador paciente, às vezes, eu falo que eu esqueço ele, mas ele tá ali, na mesma... Vem, vai _______, ele vai, faz, tá sempre ali, ele sabe o que quer, porque se fosse eu já tinha ido embora há muito tempo, porque eu já testei ele em tudo quanto é jeito e ele tá ali prontinho, nunca se exaltou, sempre foi um cara disciplinado e quando entra em campo joga pra burro, nós sabemos que ele joga muito e eu sempre, pra não mascarar, porque todo mundo fala que ele joga bem, eu sempre falo: "'Hoje tu não vai jogar', ele sempre tranquilo, nunca abriu a boca pra nada e esse vai chegar". Foi até uma surpresa pra mim, ele foi uma pessoa que deu a formação pro Zico, todo mundo que passou no Flamengo passou na mão dele, o Joubert também foi uma pessoa muito importante na minha carreira quando eu subi pro Infanto Juvenil, ele foi uma pessoa que nos juvenis ele já ia lá: “Vem cá você, ______ vem aqui trabalhar comigo.” O Joubert sempre foi assim, aí jogava a bola assim pum, “Olha lá, pega lá, pega lá, você não quer ser rico? Vamos lá, pega lá”, corria e tal, às vezes jogava a bola numa poça d’água assim e mandava eu ir buscar e eu ia, quer dizer, foi mais assim no Flamengo. Uma vez o Flamengo fez uma excursão pra França no Infanto Juvenil e eu fui selecionado para ir para a França e eu tenho esses troféus até hoje em casa, foi o primeiro troféu que eu ganhei, eu fui o melhor jogador do torneio.

 

P/1 – Do torneio?

 

R – Do torneio da França, torneio de (Croix?), eu cheguei no Flamengo batendo foto, reportagem, chamando minha mãe, foi um troféu muito importante pro Flamengo e pra mim. Inclusive o Jorge Helal veio, nomeou, falou, aquele negócio todinho, então quer dizer, dali eu comecei a buscar as coisas mais, mais, mais e sempre pensando naquilo que minha mãe falou pra mim: “Você tem que ser você mesmo, sempre procurando suas raízes” e eu nunca deixei de procurar as minhas raízes e aí chegou uma época, que eu tava no juvenil do Flamengo, onde eu juntava meu dinheirinho, guardava bonitinho e minha vida era Cruzada, escola e Flamengo, Cruzada, escola e Flamengo. Quando eu falo a Cruzada é porque eu sempre ia pra igreja, tinha lá, trabalhava na igreja também, tinha uns coroinhas também na igreja e tinha um pessoal que cantava e eu participava desse grupo também.

 

P/1 – Você cantava?

 

R – É, participava desse grupo também, ficava ali, jogava bola no time, o padre vinha sempre conversava comigo, aí chegou na época, eu me lembro que o padre chegou para mim e falou: “Você vai ter que sair daqui da Cruzada”. “Eu não, eu vou ficar na Cruzada  eternamente.” “Não, não, você vai ter que sair daqui da Cruzada, porque o pessoal que mora ali" - que hoje é chamado de Favelão, aquele prédio em frente da Cruzada, aquele arranha céu é chamado de Favelão - "aquele pessoal ali não sabe que aqui mora o Adílio, então você tem que morar ali para você começar, a saber, que aqui existem pessoas iguais a você, que são legais, estudam, tudo certinho e tal, então tu tem que começar abrir espaço e aquelas crianças que tão subindo aqui vão tudo te acompanhar, vão ser alguém na vida. Então você tem que começar a sair”. Aquilo ali bateu na minha cabeça, foi quando eu fui morar em Botafogo, aí dali foi, aí o pessoal começou a... Aí eu já tive outra visão, porque a minha visão sempre foi aquela de ser um morador da Cruzada, mas acho que a gente tem que procurar buscar a se integrar à sociedade e fazer algumas coisinhas, e foi isso que eu comecei a fazer.

 

P/1 – E Adílio, nessa época em que você era juvenil, que ainda tava aspirando a chegar no primeiro time, quais eram seus ídolos em relação aos jogadores?

 

R – Eu sempre admirei o Pelé, desde o começo da minha vida, tinha foto em casa eu e o Pelé, eu busquei o Pelé, aí depois eu comecei a mudar o Pelé na frente e buscar outras pessoas também, até pra melhorar o meu futebol, porque você olhando você começa a aprender. Aí eu comecei a ver o Zico, o Geraldo, que pô, realmente o Geraldo, eu lembro quando ele jogava no juvenil do Flamengo, eu ficava na reserva, aí chegava assim, uns 38 minutos do primeiro tempo, ele: "ai, ai, ai", falava que machucou o tornozelo, só pra eu entrar, ele fazia isso só para eu entrar. “Não, não, tem que entrar o Adilson.” Ele vinha particularmente e falava para mim assim: “Você que vai ser o camisa oito do Flamengo.” Não sei por que ele falava isso, mas ele falava isso pra mim,  “Você vai ser o camisa oito do Flamengo.” Ele jogava o dobro de mim, a gente tinha o Geraldo como o futuro do Flamengo, vocês conheceram o Geraldo, mas ele chegava pra mim e dizia: “Você vai ser o camisa oito do Flamengo” e sempre ali, me dando moral, força, quer dizer, eu fui começando a pegar, além do Pelé, tinha como o Zico o meu ídolo, eu via ele jogar e ele sempre vinha também conversar muito comigo, sabia da minha história da Cruzada, da minha mãe e tal, a maioria das pessoas já sabiam a minha história: “Aquele ali é o Adílio, a história dele é essa e aquela”.

 

P/1 – Quer dizer, vocês todos já sabiam que o Zico ia estourar, ia ser um grande jogador?

 

R – Sabia, sabia, porque ele trabalhava muito, eu lembro que ele chegava no Flamengo lá de manhã, o treinamento era à tarde, mas ele chegava de manhã,  fazia musculação com o (Fantalas?), aí chegava da escola com a pasta do colégio, aí almoçava lá, aí voltava de novo, trabalhava, corria, natação, todo aquele trabalho em cima dele, de vez em quando ele me puxava também, me chamava para fazer a mesma coisa, chamava o Tita também, _________, o Júlio César não gostava, chamava o Júlio César, mas ele sumia, hoje ele tá musculoso, forte, hoje ele gosta de musculação, tá vendo? Antigamente que tinha que fazer isso, ele não fazia. Mas ele via o trabalho lá, era muito bom e nós sabíamos que ia chegar. E foi uma coisa que deu certo, porque quando nós chegamos ao profissional do Flamengo, nós nos conhecíamos, todo mundo, o Júlio César sabia da minha história, da história do Zico, sabia do Júlio César, do Andrade, do Tita, entendeu? Quer dizer, isso formou aquele grupo. Eu lembro que quando essa turminha, quando nós subimos, tanto eu, como o Tita, Júlio César, o Andrade. O Andrade até foi emprestado pra Venezuela na época, o Flamengo tinha até o Jorge ____ um bom jogador mesmo do Flamengo, mas o Flamengo preferiu ao invés de ficar com o Andrade ficar com o Jorge ______ e emprestou o Andrade pra Venezuela. Nós tínhamos também o Renato, que veio do juvenil com a gente também, um centroavante muito bom, e o Flamengo fazia pré-temporada fora, em Miguel Pereira. Eu lembro muito bem que o Flamengo sempre pegava o time da cidade e ganhava de dez a zero, daqui a pouco quinze a zero, jogo pleno e particularmente quando nós entrávamos, quando entrava eu , Júlio César, Tita, o Renato também, o primeiro tempo acabava assim, seis a zero pro Flamengo, no segundo tempo nós fazíamos mais dez gols, entendeu? Aí o Coutinho, malandro, começou a perceber isso, aí teve um jogo que ele trocou, ele falou assim: “Não, vou botar esses garotos primeiro”, aí foi quando me incluiu no time, entrou o Tita no time e o Júlio César no time, aí não saímos mais. Ficou aquele time ali, na época jogava Merica, ele era o meio campo, tinha o Dendê também que jogava, o Luís Paulo, que pegou o lugar do Júlio César e eu peguei o lugar do Dendê, que tinha ido junto com o Merica, aí o Coutinho botou para jogar e aquele time foi embora aí com a...

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – Isso foi em 77, 78, quando nós começamos no profissional. 

 

P/1 – Então o seu técnico no profissional foi o Coutinho? 

 

R – Primeiro foi o Fleitas Solich, que era o treinador do Geraldo, quando subiu o Geraldo, Zico, foi o Solich que foi o treinador e já sabia que tinha um jogador que era eu, que era o Adílio no juvenil do Flamengo. Até numa oportunidade, o Flamengo quando emprestou o Andrade, não sei qual foi o time, o Vasco me queria, a qualquer custo, um time de fora também tava me querendo, eu já no juvenil e o Flamengo foi fazer excursão em Santa Catarina e aí eu já estava com os documentos todinhos assim, na mesa pra eu assinar, pra eu poder ser emprestado, “Tem o Geraldo aqui, tem mais uns quatro meio campo ali, então eu vou emprestar o garoto pro garoto pegar, começar pegar a jogar”, aí quando eu ia assinar, aí veio o telefone, é o Freitas Solich: “Ó, esse garoto aí eu não quero que empreste não, esse garoto tem que ficar aí.” Foi quando eu fiquei, eu me lembro muito bem, até o ______________ que é o diretor junto com o Eugênio Valente que foi lá meu treinador no juvenil que me falou: “Ó, o Freitas Solich falou que você não vai sair daqui não, que ele vai aproveitar você, não sabe quando, mas vai aproveitar você na primeira oportunidade.” Aí foi quando eu fiquei, aí quando o Coutinho veio e convocou uma seleção de Juvenil de papa canjas, que é Cláudio Adão, Erivelto, Edinho, Júnior, Júlio César foi nessa, aí ele convocou do Flamengo no juvenil, na época, quem jogava comigo ali era o Júlio César, só convocou o Júlio César e aí o Júlio César começou a trabalhar: ”Pô, você me convocou, mas não convocou o Adílio?”, encheu o Coutinho e logo a seguir o Flamengo contratou, foi o campeão do mundo,  lembra que ele foi o campeão do mundo? O Flamengo contratou o Cláudio Coutinho, a primeira coisa que ele perguntou lá foi: “Vem cá, quem é o Adílio?”, “O Adílio é aquele ali.” “Então quero ver esse garoto treinar”, aí quando ele me viu treinar falou assim: “Não, você tá aqui”, aí foi quando ele me entregou no profissional, eu tava no juvenil, ele me puxou pro profissional e dali eu fiquei direto.

 

P/1 – Você lembra da sua primeira partida como titular?

 

R – Eu lembro, a minha primeira partida eu tinha até dezenove anos, foi até o Joubert que me lançou, o primeiro que me lançou no Flamengo foi o Joubert. Lembro que o Geraldo tava gripado, o jogo foi lá em Vitória, no Espírito Santo, e eu fui no lugar do Geraldo. O time era… Até o Vanderlei Luxemburgo jogava, o zagueiro era Jaime, Rondinelli, o meio de campo Liminha, eu e Zico, na frente jogou parece que não sei se foi o Caio, Doval e Arilson, eu joguei nesse time aí, foi o primeiro jogo, ali eu joguei bem, marquei gol.

 

P/1 – Marcou gol?

 

R- Marquei gol, fui o melhor jogador de campo, aí o Joubert falou assim: “Não, ele vai é descer lá pro juvenil, tá cedo ainda pra ele, deixa ele aí”. Aí minha partida oficial mesmo no Flamengo foi no brasileiro, foi Flamengo e Esporte, aconteceu também... O que aconteceu, o Zico não dormiu uma noite boa, aí o pessoal: “Não, tem que chamar, quem vai jogar?” Camisa dez do Flamengo, “Quem vai jogar?” “Adílio”, aí me botou na camisa dez, aí fui para o Maracanã, puxei, era o Esporte, um time que era muito bom, tinha o Vasconcelos, lembra disso? Vasconcelos meio campo, muito bom, o Esporte já estava muito forte e o Flamengo estreava também o Marciano.

 

P/1 – Marciano, lá do Ceará?

 

R – Lembra? Foi na estreia do Marciano que eu joguei, aí estreava eu, (Kiko?) no meio campo e estreava o Marciano, eu joguei muito bem, nós ganhamos de dois a zero, eu também fui o melhor jogador em campo, tinha que ganhar uma motorádio (risos), fui o melhor jogador em campo, o jornal todinho: “O novo ídolo do Flamengo parecido com Didi, Zizinho” começaram me dar nomes, Didi e tal, queriam botar nomes em mim, Didi, eu fiquei feliz da vida, aí foi quando o pessoal já começou a entrar no Flamengo, foi meu primeiro jogo, isso foi em 77.

 

P/1 – Maracanã cheio?

 

R – Maracanã cheio, lotado, foi o primeiro brasileiro que eu disputei onde nós fomos até  campeão, aí depois o Zico voltou, aí eu fiquei na reserva e fui entrando aos poucos, jogava no meio campo, também o Tadeu jogou no América, Tadeu aquele branco, o Tadeu Henrique, muito bom também, um cara que me ajudou bastante também. Era um que até, eu lembro que o Flamengo quando o Geraldo faleceu, o Flamengo tava efetivando ele, ele chegou lá e falou assim: “Eu quero sair do Flamengo, quem vai jogar no Flamengo é esse garoto aí, quem vai jogar é ele, eu tô saindo, mas quem vai jogar é ele”. Todo mundo apostava em mim, eu não entendia, todo mundo apostava em mim.

 

P/1 – E você tinha consciência disso, ou você ainda tava assim ...?

 

R – Não, eu era muito pra dentro, eu era muito humilde, eu comecei a aprender no Flamengo a me soltar mais, até as pessoas me cobravam muito: “Adílio, vamos falar mais, vamos puxar e tal”, eu era muito pra dentro mesmo, com aquele meu princípio familiar, "seja você mesmo", aí as coisas tavam vindo muito rápido e essas coisas estavam vindo na minha cabeça, àquilo que a minha mãe me contou, tudo o que minha mãe me contou aconteceu: “Sua vida vai mudar” e mudou mesmo. As pessoas começaram a me dar as coisas, toma, toma, toma, contrato, é isso e aquilo e tal, toma, toma, eu tive que ficar... Dar aquela freada pra não subir a cabeça, que o pessoal tinha até aquela preocupação comigo, mas eu tinha o pé no chão mesmo e uma das coisas que minha mãe falava: “Seja você mesmo” porque foi muito rápido, a minha ascensão foi muito rápida, minha mãe faleceu e um período depois já começaram a acontecer às coisas, comecei a subir, subir, quer dizer, melhor jogador na França, começou acontecer às coisas, tal, tal, tal ia ser emprestado, não fui, fiquei, isso tudo vinha na minha cabeça como coisa que minha mãe passava pra mim e a minha vida melhorou, melhorou a vida dos meus irmãos também, entendeu? Tudo bonitinho, saí da Cruzada pro Botafogo, do Botafogo fui pra Barra, daqui a pouco eu comprei casa na Ilha, aí eu fui embora e sempre a mesma pessoa, cheguei até a seleção brasileira.

 

P/1 – Vamos chegar lá, Adílio deixa só eu dar um intervalo pra trocar de fita. Tamo indo bem né...

 

R – É.

 

P/1 – Adílio, vamos falar então do campeonato carioca de 78, em que você ganha aí seu primeiro carioca pelo Flamengo. Você lembra um pouco dessa campanha?

 

R – Eu lembro muito bem, porque uma anterior nós perdemos até nos pênaltis e aí um negócio que ficou marcado mesmo, que nós perdemos o título para o Vasco, perdemos nos pênaltis, aí o Coutinho juntou todo mundo e ao invés de nós irmos pra casa, fomos todo mundo pra churrascaria, aí fomos pra churrascaria, Jorge Ben pode até te contar isso muito bem, o Jorge Bem foi e acompanhava o Flamengo em todos os jogos, aí todo mundo cabisbaixo e o Coutinho virou e falou assim: “Ó, a partir de hoje, nós nunca mais vamos perder o jogo pro Vasco, nunca mais.” Aí ele falou assim: “Então nós já sabemos como o Vasco joga, esse é um pacto que nós temos que fazer, nunca mais vamos perder um jogo pro Vasco”. Aí o Jorge Ben foi com o violão tocando, e no ano seguinte nós fomos campeões com esse gol do Rondinelli, e ali começou, se você for ter essa ideia, você vê que o Vasco foi cinco vezes, cinco anos  vice-campeão da gente, todo jogo nós ganhávamos do Vasco.

 

P/1 – E Adílson, como foi essa campanha? Você fez muitos gols inclusive, né?

 

R – É. Essa campanha foi muito boa, porque o nosso time era um time leve e o nosso rival mesmo era o Vasco e o Vasco era um time muito pesado, forte, e eles tinham um tipo de jogada, não sei se é um esquema de treinador, que toda vez que nós pegávamos na bola, eles tchuff, falta e naquela época não tinha cartão amarelo na primeira falta, então eles exploravam aí. O que nós fizemos? Nós começamos o treinamento de toque de bola, pegava a bola tocava, pegava a bola, tocava e saía, tocava e saía e aí nós começamos a superar o Vasco nessa ocasião, que um jogador do Vasco vinha pra pegar firme, mas tocava e saia. O time foi muito bom, a campanha foi excelente, aquele gol do Rondinelli foi uma coisa que já tava marcado mesmo, foi só coisa de Deus mesmo, foi onde um jogo, a gente já tava no final do jogo e já estava preocupado em não levar gol, para poder ir pra prorrogação, _______ ou coisa assim, e veio até uma voz falando assim: “Tem que ficar, tem que ficar”, o Rondinelli se lançou, o Zico, não era costume do Zico ir lá (bater corne?), ele foi lá e pegou a bola, bateu certinho na cabeça do Rondinelli, quer dizer, o Zico sentiu que ia acontecer aquilo e o Rondinelli a mesma coisa, quer dizer, deu tudo certinho, aí dali começou a campanha vitoriosa do Flamengo.

 

P/1- Na hora do gol você tava em que pedaço do campo?

 

R- Eu já tava dentro da área, porque eu ficava sempre ali, _______  mosca de padaria, porque o pessoal ficava preocupado com Rondinelli, o Zico e tal e eu ficava sempre ali, bem quietinho mesmo e a bola que sobrava eu ia lá e marcava gol e assim que eu marcava a maioria dos meus gols, sempre buscando a segunda bola, porque às vezes a primeira bola, ela chega, mas ela resvala pra outra pessoa e essa segunda bola é onde eu buscava ela, onde você pegava todo mundo já parado.

 

P/1 – E você tem alguma história que você se lembra desse campeonato, de bastidores ou de jogos desse campeonato de 78?

 

R – Esse campeonato foi importante porque foi um começo, e o pessoal já era dito como o Vasco era o grande vencedor, e o Orlando, que hoje tem um bom lugar, eu lembro que na época ele procurava até amedrontar a gente antes do jogo, o Júlio César, que vai te contar depois, mais tarde essa história. Ele ligava pra casa do Júlio César: “Olha, se tu vier com aquele drible assim, assim, eu vou te pegar”, já começava fazer aquele trabalho psicológico em cima da gente, que nós éramos garotos, eu, o Júlio César nós éramos garotos, estávamos começando a jogar profissional no Flamengo, então eles vinham com isso. Eu lembro até que um jogador do Vasco falou assim: ‘Ó, neguinho", falou assim mesmo, neguinho, "se você vier aqui assim, eu vou dar aqui em você”, aí eu lembro que deu uma coisa na minha cabeça e eu falei assim: “Ó, se você der aqui em mim, tá vendo aquele pessoal lá da geral ali, é tudo da Cruzada, vão dar é tiro em você”. Ele falou: “Ó pessoal, o neguinho é esperto”. “Então nem toca em mim, se tocar em mim vocês estão mortos”, aí foi quando: “O neguinho aí é esperto”. Eu lembro que quando terminou o jogo, um dos jogos contra o Vasco, o Marco Antônio veio e conversou comigo e tal, o pessoal da defesa: “Eu gosto muito de você, você tá jogando bem, continua assim”. A maioria tava começando, o pessoal gostava muito de mim, quer dizer, isso fortalecia mesmo e eu procurando sempre dar um pouquinho mais do que eu poderia pro Flamengo, porque o Flamengo, sempre quando vestia aquele monstro sagrado do Flamengo, aí pegava o time todo, nós éramos família, nós sabíamos que nós tínhamos que fazer a diferença, porque o Flamengo tinha muitos degraus pra subir. Porque eu lembro quando garoto, torcedor do Flamengo, o Flamengo perdia muito pro Botafogo, Jairzinho, o Manga ia fazer feira antes, entendeu, e nós tínhamos que reverter todo esse quadro e a oportunidade foi aquela ali. E tem até uma passagem nesse mesmo ano que o Flamengo foi campeão, no ano seguinte, onde nós pegamos o Botafogo, eu tinha uma coisa na cabeça, um amigo meu na Cruzada, ____________ chamado Sidnei, botafoguense doente, naquela época o Botafogo ganhou do Flamengo de seis a zero, eu fui obrigado a pagar um angu baiano pra ele que tinha uma senhora que vendia, paguei um angu baiano pra ele...

 

P/1 – Você fez uma aposta com ele?

 

R – Fiz uma aposta com ele. Flamengo e foi lá o Botafogo deu de seis a zero, o Jairzinho marcou gol de letra, aí o pessoal me encarando e eu falei assim: “Ó, o dia que eu for jogador do Flamengo profissional, eu vou devolver essa derrota aí, eu vou ganhar de seis a zero e você vai ter que me pagar uma feijoada.” Aí foi quando no ano seguinte aconteceu e fomos campeões também, ganhamos do Botafogo de seis a zero, aí eu fui lá, fiz questão de ir lá na Cruzada, como de praxe, acabava o jogo do Maracanã, eu pegava meu carro ia lá na Cruzada, ficava lá com o pessoal, pá, batia papo, aí depois ia embora, sempre foi assim, sempre assim. Daí depois veio o Ernani, que jogou no Vasco, Paulinho Pereira que jogou no Vasco também.

 

P/1 – Mas e aí você foi atrás do Sidnei?

 

R – Aí eu fui atrás do Sidnei lá, chamei ele: “Vai pagar agora a feijoada”, que eu sempre gostei de feijoada, aí ele pagou a feijoada e ficou tudo certo.

 

P/1 – E você fez até um gol nesse jogo?

 

R – Fiz o gol e joguei muito, participei da maioria dos gols do Flamengo naquela época, corri mesmo atrás do prejuízo, porque eu lembro que na concentração, o Zico até nos chamou e não sei se foi (Charles Borea?), dizendo que o Flamengo era time de papel higiênico, que ia levar papel higiênico pro Maracanã e tal, que o Botafogo era sempre... Beliscava o Flamengo, um a zerinho, ________ aquele jogo que nós estávamos invictos, o Renato Sá foi lá e marcou um a zero, aí o Zico falou assim: “Amanhã vai ser um jogo que nós temos que fazer um gol, dois, três, tantos gols forem, nós temos que fazer porque nós temos que devolver aqueles seis a zero do Botafogo” e assim aconteceu, o time já entrou com aquela determinação...

 

P/1 – Entraram já pra isso.

 

R – Entramos já com aquilo ali, já forte mesmo, sem bater papo com o time adversário, fomos afim mesmo. O juiz falou: “Pô, pera aí, já tão quatro já, vamos jogar?” “Não, não quero saber não, vamos lá.”.

 

P/1 – Ah, eles pediram ___________?

 

R – Sempre acontece isso, o time tá ganhando de quatro, eles vinham: “Pô, vocês estão com quatro já, dá um tempo aí, vocês já tão ganhando de quatro”, “Não, não, não, hoje nós vamos até o final”, e assim aconteceu.

 

P/1 – Você lembra do seu gol?

 

R – Lembro do meu gol, meu gol é como eu te falei, todo mundo na área, aquela faltinha, lateral do Zico, aí todo mundo preocupado com o Mozart, com o Marinho, com Nunes, aí eu fiquei lá pertinho do tempo quando ele tocou a bola eu fui lá e encabecei, já era costume meu de ficar ali e cabecear.

 

P/1 – E você tinha algum tipo de ritual antes de entrar em campo? 

 

R – Tinha, tinha. 

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente.

 

R – Isso aí deixa guardadinho comigo que eu uso até hoje e passo para os meus jogadores, porque você, às vezes, tem que antever o lance porque tem situações que você tem que puxar pra você e dá certo, entendeu? E o jogador de futebol hoje, se fizer isso consegue. Eu acredito até que o Romário faz muito isso, ele chega assim, e  fala: “Vou ali”, mas ele tá aqui, mas ele vai lá, porque ele sabe que a bola vai passar ali,  daqui a pouco nego procura Romário, ele tá ali marcando gol, acho que ele tem essas coisas aí, coisa que o Zico também tinha, o Pelé também tinha, o Maradona, esses jogadores que você sabe que tem uma coisinha dentro dele, que ele usa isso e dá certo. O Zico, por exemplo, quando os gols não saíam tá, tá, tá, “Pô, não tá saindo”, ele pegava a bola assim, na mão e jogava dentro da rede, aí ele já sabia que ia sair o gol e ia lá e fazia o gol, isso é coisa que cada jogador tem, uma coisinha. Eu tinha isso e o Zico era isso aí, ele sempre fazia questão de passar pra gente, jogava, não tá dando certo, ele pegava a bola aqui assim, e jogava dentro do gol, ele jogava dentro do gol e aí aconteciam as coisas e eu tinha isso, eu começava antever as coisas: “Vai acontecer isso” ia lá na bola, a maioria, eu até vejo jogos hoje, tem jogador que tá aqui, a bola passou ali, ele: “Ah”. Ele não acredita e se você... Porque tem uma parte até boa, até quem tiver ouvindo tem que guardar isso, nós temos uma valência que tínhamos sempre que usar, você... Falo de, como eu chamo? Você antever o lance? Tem uma palavra certa. Isso é uma coisa que é positiva e negativa também, positiva é quando você fala: “Pô, aquela bola vai passar ali” e você vai e você falar, vai lá e marca, e negativa é quando você fala: “Ih, o cara vai marcar o gol” e o cara marca contra o seu time, entendeu? Você vê um desenho da jogada, que a bola vai chegar num jogador adversário, aí você grita: “Fulano marca ciclano ali” aí cara vai lá, marca e tira essa bola, aí você fala: “Ah, não vai acontecer não, não vou nem mandar marcar”, o cara tá sozinho e você não mandou, a bola vai lá no cara e o cara marca. Você: “Puxa rapaz, tinha que ter falado” Entendeu? É tudo isso aí.

 

P/1 – Adílio, continuando aí, em termos de trajetória, de títulos, então em oitenta o Flamengo ganha aí o primeiro Brasileiro, você pode contar um pouquinho dessa campanha?

 

R – Essa campanha foi muito boa porque nós começamos a colocar, que até hoje o pessoal também segue isso, o raciocínio, que time grande não pode perder ponto pra time pequeno porque não chega, mas não chega mesmo, é muito difícil chegar e nós procurávamos sempre ganhar os times pequenos, mas ganhar mesmo, pra chegar no clássico são três resultados, você vence, perde ou você empata, entendeu? E o Flamengo nos clássicos a gente procurava sempre estar ganhando também, sempre beliscar e o Flamengo sempre ganhava do Botafogo, do Vasco, e o único time que era pedrinha na nossa chuteira na época era o América. O América era sempre um time que dava trabalho pro Flamengo, aí nós resolvemos o nosso problema, nós trouxemos o Reinaldo pro Flamengo, aí acabou o nosso problema, que o único que dava problema pra gente no América era o Reinaldo, que chutava bem, jogador bom, forte, jogava muito bem e nós buscamos o Reinaldo, além de outros jogadores que tinham no América bom, mas nós achávamos que o Reinaldo é que dava sempre trabalho, qualquer faltinha que ele batia era gol.

 

P/1 – E Adílio, a decisão foi com o Atlético, né?

 

R – É, com o Atlético. Você fala do Brasileiro?

 

P/1 – Brasileiro. 

 

R – Foi com o Atlético Mineiro.

 

 P/1 – Um jogo no Mineirão?

 

R – Foi o jogo no Mineirão, que o Atlético ganhou, até o gol do Palhinha e depois fomos lá pro Maracanã, foi o primeiro Campeonato Brasileiro nosso, em que o Coutinho achava que nós tínhamos que ser campeões de qualquer jeito, e assim nós fomos, todo mundo concentrado.

 

P/1 – Você lembra como foi o jogo e o placar?

 

R – Lembro, eu até entrei no segundo tempo, fiquei na reserva. [Quem] jogou no meio campo foi Andrade, Carpegiani e Zico, meio campo, eu fiquei no banco nesse jogo, foi um jogo que nós próprios treinamentos lá, o pessoal já: “É o primeiro Brasileiro, temos que ser campeões”, daí o Coutinho, com aquela filosofia dele que o Flamengo tem que ser campeão do mundo, tem que ganhar tudo, tudo, na parte psicológica trabalhando em cima da gente e nós também, nós tínhamos uma comissão muito boa, além do Coutinho, nós  tínhamos o Lazaroni, o professor (Carlesso?), o professor Fernando, nós tínhamos o professor Jaime, tudo trabalhando ali com o Coutinho. Quer dizer, então esses professores, por exemplo, ele me pegava, o Andrade e Júlio César, e trabalhava, pá, pá, pá, o professor (Carlesso?) pegava o Mozart, quer dizer, nós tínhamos tudo isso. E às vezes - eu até lembro muito bem - às vezes, ele me levava para a piscina para fazer um trabalho na piscina e o pessoal: “Pô, joga bola, trabalha na piscina?”, o pessoal não entendia isso ainda, mas o Flamengo já tava ó, tava na frente há muito tempo. Eu lembro que o Coutinho falava em termos de overlap, ponto futuro, o pessoal: “Overlap, ponto futuro?”, hoje todo mundo usando isso aí, até hoje e dá certo. Então o Flamengo tava na frente da maioria dos clubes ó, há muito tempo, na filosofia de trabalho. E eu digo que até o Vasco hoje faz um bom trabalho porque tem lá o preparador físico dele que é excelente, muito bom, por isso que o Vasco tá aí, sempre competindo, sempre nas finais, quer dizer, o Bebeto, que foi do São Paulo, muito bom.

 

P/1 – Adílio, voltando à final, você ia entrar no segundo tempo e teve um episódio lá que parece que o Coutinho pediu pra você ler uma carta do Rondinelli que tava machucado?

 

R – Ah, sim, foi uma carta lá, até uma _____ eu sempre gostei de escrever as coisas, e eu escrevi uma cartinha dizendo que nós teríamos que sair do Maracanã vitoriosos, porque nós, apesar de que o Atlético era um time muito bom, tinha jogadores ótimos, como o Cerezo, Reinaldo, Luizinho, só que o Maracanã era palco do Flamengo e dali nós tínhamos que ser campeões e outras coisas que eu também coloquei na carta, aí mexeu com o brio de todo mundo mesmo, o pessoal balançou mesmo, positivamente, que eu sempre procurei ser uma pessoa positiva, pode tá caindo um telhado na minha cabeça, eu falo: “Não, vai quebrar aqui, mas não vai quebrar o que é mais correto que é o meu coração”. Sempre pensei assim, sempre positivamente, então mexi com os brios de todo mundo, eu na reserva ali falei: “A hora que vocês... Se vocês não tiverem aguentando mais, olha aqui pro banco, que eu tô aqui, que eu vou entrar e vou dar continuidade do trabalho de vocês aí dentro campo, porque hoje aqui o pessoal que tá no campo e o que tá no banco é um grupo só,  nós temos que sair daqui vitoriosos”, e isso deu resultado.

 

P/1 – E você entrou no segundo tempo?

 

R – Entrei no segundo tempo, o jogo tava dois a dois, foi quando eu comecei a pá, pá, pá, começamos ali, o Zico já olhava. Eu lembro que o Zico, às vezes, quando eu tava no banco, o Zico já ficava olhando pro banco: “Como que não vai botar ele não?”, sabe? (risos). Porque eu me entendia muito com o Zico e eu assimilava isso na boa, até eu lembro que o Coutinho chegou pra mim e falou assim: “Você vai ser o meu homem bomba, vai jogar vinte minutos e você vai resolver meu problema”, assim que ele falava então tu vai ficar hoje aqui no banco, vinte minutinhos tu tem que resolver. Têm pessoas que entram: “Ah, pô, pô, pô”, eu já entrava já com uma força total e os vinte minutinhos pra mim era bonito e eu tinha uma certa velocidade, porque vinte minutos, tu pega o pessoal já e eu já entrava numa velocidade forte, quer dizer, aí ia embora, aí fazia tudo certinho, mas minha cabeça tava boa porque o Coutinho preparava bem, porque eu tava de reserva e dava tudo certo.

 

P/1 – E como foi o gol do Nunes aí três a dois ________?

 

R – O gol do Nunes é o aquele negócio que eu falei pra você, você tem que... Tivemos até depois umas duas oportunidades dessa. Uma delas o Nunes pegou a bola, quis até passar pro Zico, o Zico tava entrando, a bola bateu no jogador do Atlético, voltou pra ele, e aí tava todo mundo ali dentro da área, se ele toca ia acontecer alguma coisa também, ele deu aquele corte e fez o que ninguém esperava. Nós que conhecíamos o Nunes sabíamos que ele tinha aquela qualidade também de cortar e dar só um toquinho por cima foi o que aconteceu, aquilo ali foi... E aí começou a vida do Flamengo aí em termos de Brasileiro, o Coutinho já começou a falar: “Temos que ser campeões do mundo, temos que ser campeões do mundo, uma coisa que no Brasil aqui ninguém se liga no campeonato mundial, ninguém se liga nisso, temos que ser” e aí começou o nosso trabalho.

 

P/1 – Que aí vai ser a disputa da Libertadores?

 

R – Libertadores. 

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho da Libertadores, o time mudou?

 

R – É o time mudou pouco, mas a filosofia não continua a mesma, a nossa pegada era a mesma, o Flamengo era um time que tinha costume de ir pra Europa disputar torneios como Carranza, Três Herreras, ser campeão tranquilamente numa oportunidade dessas, nós fomos pra lá, eu lembro até que foi um jogo contra o Real Madrid, foi um jogo que me emocionou bastante mesmo, eu fico até arrepiado.

 

P/1 – É? Por quê?

 

R – Porque foi uma final contra o Real Madrid e antes de nós entrarmos em campo, a torcida começava a gritar: “Real Madrid, Real Madrid, Real Madrid”, pô, arrepiava aquela torcida todinha, aí o Flamengo chegou. Chegamos no estádio, como sempre todo mundo batucando, tum, chic tum, tum, chic tum, o pessoal da torcida, todo mundo não entendia aquilo, “Pô, Brasil”, entramos em campo, dez minutos depois que começou o jogo lá, aí dez minutos, a torcida do Real Madrid todinha levantou em pé e começou a bater palma pro Flamengo, tava já dois a zero pra gente, começaram a bater palmas, aí até veio um comentário lá: “Esse é o time de outro mundo, nós nunca tínhamos visto coisa igual”, quer dizer, aquilo ali emocionou todos nós, foi muito bom, o Flamengo ficou famoso lá, porque tu vê que a gente jogava no campo do Olaria que não era muito bom e lá naquele gramadinho bonitinho, o time do Flamengo era um time que tocava bola, então foi um show de bola mesmo. Pena que ninguém pode gravar aquilo ali, que na época não tinha isso aí para mostrar na televisão para os brasileiros, porque foi um show de bola mesmo.

 

P/1 – E aí ganhou o troféu?

 

R – Aí ganhamos o troféu Ramón de Carranza.

 

P/1 – Difícil de carregar esse troféu, né?

 

R – Difícil de carregar. Pô, muito, tu vê, pô, foi demais, demais mesmo. E por dois anos consecutivos, o outro ano, eles não, Flamengo não, aí levaram o Vasco e o Vasco foi campeão também, mas foi importante, aí já entramos na Libertadores com essa personalidade, sabíamos que tinham times sul americanos que usavam aquele antijogo, porque na época não tinha exame antidoping, não se usava caneleira.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, não se usava caneleira, quer dizer, era uma coisa de briga mesmo, tu pegava uns caras que vinham com não sei o que eles tinham, mas eles vinham com uma fome de bater em você e você tinha que superar aquilo ali na bola, porque o time do Flamengo é um time leve na bola e fomos superando até chegarmos a final com o Cobreloa, que também foi uma história aí, que eu nunca tinha visto um jogador do Cobreloa com o nome (Mário Souto?), que vocês hoje sabem, jogava com uma pedra na mão, jogava com uma pedra na mão o cara.

 

P/1 – E o juiz não via?

 

R – O juiz via, mas não fazia nada, Libertadores.

 

P/1 – Ele que abriu o seu supercílio?

 

R – É. Ele abriu o meu supercílio aqui.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Foi uma bola que eu parti pra cima dele, driblei ele, aí ele jogou assim a pedra, tuff, aí rasgou aqui todinho. Tive que na beira do campo lá, entrar pra dentro do campo todo ensanguentado, mas tô lá, em nome do Flamengo Nação Rubro Negro, tamo lá, vamos enfrentar esse cara aí. Foi quando eles fizeram um a zero, aí o Zico falou assim: “Vamos levar de um a zero, vamos segurar aqui, que vai ter outro jogo, um a zero”, aí eles ganharam de um a zero e teve outro jogo onde eu falei que eu ia às forras: “Não, vou às forras, vou pegar esse cara, não vou ficar no prejuízo não”, aí todo mundo: “Não pode, não pode”. Aí fomos pro segundo jogo, o juiz veio em cima de mim e falou assim: “Se você chegar perto dele, vou vai dar logo um vermelho em você”, já o Barreto, que é o primeiro jogo, já chegou pra mim e falou: “Eu quero que você revide” porque a intenção dele era expulsar mesmo, mas todo mundo ficou legal, apanhamos a bessa, tanto dentro do campo como fora também, porque fora lá, eu lembro que o (Adriano Araújo?), que era nosso diretor na época, os caras bateram muito nele, aí acabou o primeiro tempo lá, eu vi ele chorando assim, cheio de soco aqui na barriga, os caras bateram nele à bessa e aquele clima de Libertadores ____________ segurando ali, aí conseguimos levar a final pro Uruguai, aí foi outra história. 

 

P/1 – Como foi essa história?

 

R – Todo mundo com o sangue já na cabeça. “Hoje, aqui, nós vamos ganhar de qualquer jeito desses caras, não vamos perder mesmo, é Brasil, é Brasil”. Aí fomos pra cima deles, vencemos o jogo, golaço do Zico lá, aí vencemos deles e fomos campeões mundiais.

 

P/1 – E como foi à vingança lá com o (Mário Souto?)?

 

R – A vingança foi muito bonita, primeiro nós tínhamos colocado, falamos assim: “Ó, tem que ser um homem de frente, faltando assim uns minutinhos, alguém tem que dar um soco nele, alguém: “É o Nunes”, aí botamos o Nunes, ele que tinha que dar o soco nele, foi até um negócio até gozado. O jogo já decidido, dois a zero, tava tudo bonitinho, pô, somos campeões da Libertadores bonito, então já começamos a prestar atenção no que tinha que ocorrer, já tava tudo programado: “Nunes”, o Nunes só assim: “Calma”, aí dois minutos: “Ô Nunes”, ele: “Calma”, do lado do cara aqui pra dar um soco no cara bonito, aí o Zico: “Carpegiani aí ó, que vai dá não, ó o tempo aí”, foi quando eu fiz a cabeça do Anselmo, ele foi, eu não quis nem ver a bola, fiquei só olhando a cena, o Anselmo foi e encostou nele, pá, mexeu assim com o corpo, quando o juiz foi pra lá, o Anselmo deu mais um soco bonito, o Anselmo era forte, na barriga dele, futebol não se pode fazer isso, mas ele merecia, porque ele me cortou o supercílio, cortou a orelha do Lico e quase furou o olho do Tita com a pedra na mão e o juiz vendo aquilo e sem poder fazer nada, porque o juiz tava comprado mesmo, tava comprado mesmo, sem poder fazer nada.

 

P/2 – E vocês também tiveram os...

 

R – Aí foi quando ele levou o soco, ele caiu no chão, tentou levantar, não aguentou e caiu, aí saiu todo mundo correndo atrás do Manuel de Souza.

 

P/1 – Nocaute.

 

R – Nocaute. Aí os jogadores amigos dele depois reunidos falaram assim: “Ó, esse cara merecia mesmo, porque o único que estraga aqui no time é ele”. Depois, por ironia do destino, eu fui jogar no Peru - só pra englobar a história - aí decidimos fazer um amistoso contra o Valência da Espanha, aí jogamos lá, empatamos o jogo em zero a zero e o treinador do Valência me chamou: “Adílio, Adílio” e veio conversar comigo:  “Você me conhece? Eu era o treinador do Cobreloa”, aí ele contou a história, que tava tudo programado pra me tirar de campo, que ele viu os vídeos do Flamengo, ele viu todos os jogos, acompanhou e via que eu era o homem que passava a bola pro Zico, o homem que articulava a jogada do Flamengo, então ele quis neutralizar esse homem, e esse homem era eu, então ele fez de tudo pra me tirar de campo, aí ele falou: “ Você foi excelente, nós fizemos tudo pra te tirar de campo, mas você foi um cara, um profissional sábio, levou pancada, mas ficou na sua, não fez nada, não revidou nada” porque eu sabia que eles tinham essa intenção de tirar alguém do jogo, pro jogo ficar fácil pra eles, porque o time do Cobreloa era um time muito bom, e aí ele me contou essa história, eu falei: “Pô”. No Maracanã mesmo, o cara já tinha me dado umas cotoveladas já, tava me xingando: “Seu isso, seu aquilo”, tava me provocando mesmo e eu só na minha, não quero nem saber, então depois que tu engloba tudo, aí vem à história, quer dizer, então esse campeonato foi muito bom pra nós, foi excelente. O Coutinho foi a pessoa que incutiu na nossa cabeça que a gente tinha que ser campeão da Libertadores pra ser campeão mundial, lembro que quando nós voltamos, aí encontramos o Coutinho no Aeroporto, tinha vindo dos Estados Unidos, ele parabenizou todos nós: “Pô, campeões da Libertadores, agora tem que ser o mundial”, aí foi quando ele falou: “Pô, tô doidinho pra pescar”, isso aí nós ouvimos da boca dele, “Vocês têm que ser campeões do mundo, é isso que vocês têm que ser, pra ficar na história do Flamengo, porque vai ser difícil um clube ser campeão mundial, porque é muito difícil”.

 

P/1 – Adílio, você tava dizendo do Coutinho, como vocês receberam a notícia da morte dele? 

 

R – É, foi terrível, foi uma coisa que realmente tirou um pedaço da gente. Depois de ocorrer isso tudo com a gente, o nosso coração pelo Coutinho, aí veio à lembrança, o pedido dele: “Vocês têm que ser campeões do mundo” e aí nós falamos: "É, temos que ser campeões do mundo”, não por nós, nem pela Nação Rubro Negra, mas pelo Coutinho, porque foi ele quem formou aquele grupo ali, ele quem idealizou, foi ele quem fez todo o trabalho do Flamengo, estruturou todo o departamento de futebol do Flamengo e nós tínhamos, por obrigação, ser campeões mundial pelo Coutinho. Acho que isso foi uma coisa que teve um algo mais pra cada um, entendeu? Chegamos lá e...

 

P/1 – E como foi essa preparação lá pra Tóquio?

 

R – A preparação foi muito boa, como eu te falei, nós tínhamos uma comissão técnica muito boa, enorme, e nós tínhamos algum conhecimento do Santos, que foi campeão mundial, procuramos saber alguns detalhezinhos, comportamento, a imprensa sempre exaltando o time do Liverpool, que realmente era um time espetacular, o melhor time mesmo da Europa, muito bom o time, muito bom mesmo e nos passava que seria difícil nós ganharmos desse time, do lado de lá o Liverpool dizia que não conhecia o nosso time, só queriam saber deles mesmo e tal e essas coisas todas. Porque realmente eles eram o melhor time e aí nós nos preparamos, ficamos praticamente um mês trabalhando e faltando uma semana o pessoal foi para os Estados Unidos para fazer uma pré-temporada de dez dias, eu na oportunidade tive que ficar, tive que casar, foi o meu casamento.

 

P/1 – Ah, foi o seu casamento?

 

 R – Foi o meu casamento, eu tive que casar, eu fiquei aqui no Brasil, depois do meu casamento eu fui direto e encontrei com eles em Los Angeles e teve um detalhe aí, que quando tava a delegação todinha do Flamengo esperando o vôo pro Japão encontramos com o (Mário Souto?), a mulher e os três filhos (risos). Aí eu olhei bem pra ele aqui assim e falei: “Tá vendo como é o destino, eu podia fazer alguma coisa com você”, foi quando nós fomos embora, aí ficou só assim, a delegação do Flamengo todinha em cima dele aqui assim, ele, a esposa e os três filhos (risos), aí foi quando nós seguimos ele, ele tremeu (risos). Aí nós seguimos, fomos direto pro Japão, aí chegamos lá, com aquela alegria de sempre, aquele batuque, aquele carnaval e tal, começamos a conquistar o povo japonês, fomos pro campo, trabalho sério, tá, tá, tá, aquele friozinho que não era costume nosso, mas nós imbuídos de que nós  tínhamos que realizar uma grande partida, às vezes a gente se batia com o time do Liverpool, eles nem aí pra gente, a gente com nosso trabalho, aquela...

 

P/1 – Quem foi o time que entrou em campo?

 

R – O time foi Raul, Leandro, Marinho, (Mozer?) e Júnior, eu, Andrade, Zico, Tita, Nunes e o Lico, aí faltando assim um dia antecedendo o jogo, tivemos aquela reunião boa, forte mesmo, onde nós voltamos a falar do Cláudio Coutinho, voltamos a falar do povo brasileiro que tava nos assistindo, todo mundo torcendo, a  família e tal, sabendo da nossa responsabilidade, um quadro que tinha que ser pintado com os nossos pensamentos e não com o pensamento do Liverpool, tinha que ter um símbolo do Brasil ali e onde nós chegamos nós não podíamos falhar, era um compromisso nosso, não podíamos falhar de jeito nenhum. Então nós não podíamos esperar como é que seria o jogo do Liverpool, quem é o Liverpool, como o Liverpool joga, nada disso, nós tínhamos que mostrar o nosso jogo, independente de bola alta, cruzada, passada no fundo que eles jogam aqui, treinamento europeu, independente disso tudo, é o nosso futebol simples e objetivo. Coisa que hoje o pessoal fica preocupado, não, tem que mostrar o seu futebol e não podemos nos adaptar ao futebol deles, então temos que jogar o nosso jogo, eles que têm que estar preocupados com o nosso jogo.

 

P/1 – Conta um pouquinho do jogo.

 

R – Aí fomos pro vestiário, chegando lá mudamos de roupa, aquecimento direitinho, aí foi quando nós nos perfilamos assim, nós e o Liverpool, acho que foi ali que nós ganhamos o jogo (risos), quando nós nos deparamos aqui assim, na época, o nosso short era apertadinho, a camiseta apertadinha no corpo, o jogador tinha pernão e o europeu não, tinha aquele calção largão, aquela camisolona larga, totalmente ao contrário, coisa que até nós gostávamos, "Pô, short bonito" e tal, e eles tudo fortão, grandão, quando eles olharam pra mim, pro Zico, pro Tita, pro Lico, tudo magrinho, eles começaram a rir, mas riram  mesmo, eu nunca vi isso no futebol.

 

P/1 – Que isso.

 

R – Como ______. “Pô, esse aí que é o Flamengo que vai disputar com a gente? Ih, vamos atropelar esses caras”. Começaram a rir mesmo. O Nunes ficou... Mexeu com o brio dele, foi o primeiro a ter reação e falou: “Seus sem vergonhas, vocês vão ver só, nós vamos fazer isso com vocês” e a gente: “Calma Nunes, calma”. “Esses caras tão rindo da gente”. “Calma Nunes, “esses caras tão rindo da gente, vocês vão ver só”. O Nunes fez dois gols, aquilo ali, tá, pá, pá, mexeu com a gente mesmo, mas chegando no campo aí rapidinho marcamos três a zero, aí acabou, eles ficaram assim ó, acabou o jogo e eles queriam jogar de novo, mas já era, já tinha acabado, eles queriam jogar de novo, mas já tinha acabado e eles não acreditaram.

 

P/1 – O Nunes fez um gol rápido, né?

 

R – Gol rápido. Foi uma jogadinha até do meia ali, que se pegou e tabelou, o Zico mandou para ele, bateu cruzado e um a zero; o segundo foi uma jogadinha, correndo o campo todo, buscando o que o Flamengo queria, aí uma jogadinha ali, aí tocou pro Tita, falta em cima do Tita, aí o Zico preparou, bateu e aquilo que eu falei com você e volto a falar, eu ficava que nem mosca de padaria ali esperando, aí rebateu a segunda bola, eu fui lá e marquei lá, o segundo gol do Flamengo, dois a zero; o outro foi a jogada que eu busquei lá na defesa, vim trazendo, toquei pro Zico, o Zico de primeira tocou pro Nunes, o Nunes marcou o terceiro gol. ________, eles tentaram reagir, mas não tinham força mais....

 

P/1 – Eles não acreditaram, né?

 

R – Não tinha, porque o nosso time pegava a bola e tocava, não via. Bola aérea que todo mundo falava que eles pegavam a bola, eles vum, aí o ____, boom grandão, eu não vi nada disso, nem deu tempo deles fazerem que a bola ficou mais no chão do que no auto e aí nós fomos campeões mundiais. E a reação que nós tivemos ali foi de ser campeões do mundo mesmo, tá ali a camisa do Flamengo e por baixo a camisa da seleção brasileira mesmo, nossa cabeça foi lá no Brasil em termos de população, de torcida, não só do Flamengo, mas do Vasco, Botafogo, porque foi uma coisa muito importante pro futebol brasileiro. Depois dali veio o São Paulo, veio o Grêmio, aí todo mundo quis essa....

 

P/1 – Mas foi o Flamengo que abriu.

 

R – Isso, o Campeonato Mundial, exatamente. Tava escondido, depois do Santos ficou escondido. 

 

P/1 – Uhum.

 

R – Aí a gente sentiu essa vontade, até hoje o pessoal está buscando, que é difícil, eu vejo o pessoal: “Ah, o Palmeiras assim, o Vasco não conseguiu”, mas é difícil. 

 

P/1 – E como foi à volta pro Brasil?

 

R – À volta pra mim foi excelente, porque lá eu tava de lua de mel, foi minha lua de mel e tal, aí nós formamos um grupo e fomos pro Havaí, ficamos lá de férias no Havaí, ficamos um tempão lá, poucos vieram pro Brasil. Teve aquela festa aqui, aí nós chegamos, foi maravilhosa, foi maravilhosa mesmo, inexplicável, ali eu fiquei nas nuvens mesmo, ali eu falei missão cumprida: “Coutinho, missão cumprida”. Eu acho que um clube de futebol chegar a ser campeão mundial, ele tem que agradecer a Deus do nome dele ficar sempre marcado e pra mim, jogador de futebol não é dinheiro, não é grana, fama, é isso aí, você ficar marcado na história do Flamengo e é isso que vocês tão fazendo aqui, porque meus filhos, meus netos todos vão ver que realmente eu tive participação no time do Flamengo, que foi campeão mundial. Isso pra qualquer jogador, essa é a melhor coisa que tem, não é você passar no clube, é você fazer uma vida no clube e não só eu, como o Zico, Andrade, Júlio César, Rondinelli, o Jaime, o Marinho, esses jogadores, nós fizemos a vida no clube, porque nós viemos lá do futebol de salão até o profissional, que os clubes que hoje estão resgatando isso tão se dando bem. O Vasco tá buscando isso faz bastante tempo, é o Palmeiras que faz isso, o Flamengo.

 

P/1 – Adílio, como foi depois de você ter conquistado o mundial, sua primeira visita à Cruzada?

 

R – Poxa, foi o máximo. Foi uma realização, acho que os meus amigos, eu devo muito a eles mesmo, todos os jogos no Maracanã, eles iam lá geral, arquibancada, e tinha um irmão que sempre me acompanhou que é o Adilson, em todos os jogos, partidas minhas, até porque também eu tinha uma escolinha lá, porque eu acho que foi uma das primeiras escolinhas que foi aberta na praia, deve ter sido a minha, que eu abri lá, tem até (gidec?)____ Administrarão Desportiva da Cruzada e a garotada todinha, foi uma festa, foi uma festa mesmo, uma realização, um jogador, um morador da Cruzada São Sebastião chegar ao melhor time do mundo, do Brasil, a ser campeão mundial, foi muito importante. É uma coisa que eu buscava, eu dizia na reunião, eu sempre fazia reunião com esse meu grupo, “Eu vou buscar, vou ser campeão do mundial e vocês podem escrever, pode anotar que eu vou ser campeão mundial” e as coisas foram acontecendo assim, muito rápido, mas rápido mesmo, em uma velocidade talvez incrível e às vezes vinham com muita velocidade na minha cabeça, porque eu tinha o pé no chão, o pé no chão mesmo. Eu sempre ia e voltava pro lugar que eu nasci, para as coisas não ficarem muito assim, ali eu pegava energia, sempre quando estava faltando alguma coisa para mim, eu ia na Cruzada, ali eu pegava energia, que ali sempre foi o meu ponto de partida, ali na Cruzada e até hoje é, quando eu tô com algum problema na minha vida particular eu vou lá e aí eu converso com as amigas da minha mãe, converso lá com o pessoal que me conheceram lá de criança, aí eu busco coisas boas, aí eu saio dali e vou embora.

 

P/1 – O Sidnei mora lá?

 

R – O Sidnei mora lá também (risos). Aí eu busco... Quer dizer, então foi muito importante, o pessoal da Cruzada na minha vida foi muito importante, até pelas coisas ruins que aconteceram lado a lado, “Mas ó, você  não, você tem que ficar aqui, deixa que eu faço as coisas ruins, deixa que eu faço o mal, você não, você tem que ser homem”. E se não fossem eles, eu não chegava não, mas não chegava mesmo, porque era muita pressão em cima, entendeu? Eu tive até uma certa discriminação nos lugares que eu ia, e aí eu tinha aquele conceito de Cruzadense, eu abaixava a cabeça e ia em linha reta, aí daqui a pouco as pessoas reconheciam, “Não, o garoto ali, aquele alí é o Adílio”, aí eles vinham e eu da mesma forma que eles me tratavam mal, eles vinham e me tratavam bem depois, por saber que eu era o Adílio, eu tratava eles bem, eu nunca joguei pedra, sempre tratei bem, isso até engrandecia e eles falavam: “Pô, pensei que você fosse me tratar mal, porque eu te tratei mal”, eu falava: “Não, não, você não é culpado por isso, essas coisas acontecem porque a gente não pode abrir o sorriso pra qualquer um, a gente tem que primeiro conhecer e agora você me conheceu, agora tu sabe quem eu sou, então...”.

 

P/2 – Teve uma passagem também interessante no jogo Flamengo e Atlético Mineiro em benefício aos....

 

R – Ah sim, esse jogo foi muito importante, foi até um jogo que é aquilo que eu falei com você, eu sempre tive a vontade de conhecer o Pelé de perto, bater papo com ele assim, pô, dez minutos, aí veio essa _____ “Agora eu vou conhecer o Pelé, vou jogar com ele, vou tocar a bola com ele” só que o time do Flamengo tinha aquele plantão muito bom, aí eu falei assim: “Ó, alguém vai ter que sair pro Pelé jogar, o Pelé vai estar com a camisa dez, mas o Zico não vai sair, vai ficar o Zico, mas alguém tem que sair. Quem vai sair?”, todo mundo: “Eu não, eu não, o meu lugar não” (risos), aquela discussão. Aí fomos fazer um coletivo sem o Pelé, ele não havia chegado e ficou pá, pá, pá, aí teve uma jogada que eu dividi não sei se foi com o Manguito ou com alguém que eu dividi, aí eu caí e quando eu caí já tava me segurando o massagista, o doutor: “Pega ele, se machucou? Pega ele”, aí me pegaram aqui assim pela perna, correndo, botaram aqui: “Não, não dá para jogar não, não dá para você jogar (risos)”, me tirou, saí do jogo (risos), sai do jogo, cara, me tiraram do jogo (risos), fui eu (risos), eu falei: “Que é isso?” “Não, não,  tornozelo inchado, não dá, nós temos jogo no outro dia, tu não pode jogar esse jogo”, fui eu quem sai e o _____ entrou, o Zico veio _____, aí eu falei: “Doutor, tudo bem, eu sai do jogo, eu não vou jogar, mas coletiva eu vou treinar perto do Pelé, isso aí o senhor não pode me tirar não, eu vou ter que ficar na coletiva”. “Tá bom, eu sei a sua história que você quer conhecer o Pelé e tal”. Aí eu fiquei, eu lembro que o Pelé tava marcado para ele chegar três horas da tarde, aí meio dia e meio eu tava lá no clube deitado no meu carro esperando ele chegar assim deitado, acabei de almoçar e fiquei lá esperando ele deitado, aí eu lembro que ele chegou assim na minha janela e bateu, pá, pá, eu acordei, olhei assim: “O Pelé”, ele veio me abraçou, batemos um papo e aí não foi vinte minutos, foi meia hora batendo papo com ele e tal, aquilo ali pra mim foi o bastante, aquele meu sonho de criança foi realizado, conheci o Pelé, só não joguei com ele, mas coletiva eu joguei com ele (risos).

 

P/1 – E Adílio, você ficou jogando no Flamengo até que ano?

 

R – Eu joguei no Flamengo até 86, foi meu último campeonato no Flamengo, fomos campeões carioca em cima do Vasco, aí depois dali eu fui pro Curitiba. 

 

P/1 – Peraí, então no Flamengo ainda você ganhou três brasileiros?

 

R – Três brasileiros, tetracampeonato Taça Guanabara, tricampeão Carioca e vários outros títulos, fui 24 vezes campeão pelo Flamengo e eu passei no Flamengo 24 anos, dentro do clube do Flamengo, quer dizer uma vida, uma vida dedicada ao clube, coisa que hoje em dia é raro.

 

P/1 – Qual brasileiro foi mais difícil?

 

R – O mais difícil que eu achei foi aquele que nós jogamos contra o Grêmio, lá dentro, eu lembro que nós chegamos lá no Sul, aí fomos pro hotel, eu lembro que deu dez horas da noite, eles começaram a jogar fogos pra não deixar nós dormirmos, aí começaram a jogar fogo pá, pá, ti, pá, pow, ti, pow, pá, e você tentando dormir e nada, aí o ______ Bosco que realmente foi o grande supervisor do Flamengo, me chamou, desceu todo mundo, pegamos a nossa mala e fomos lá pra Gramado, aí nós concentramos lá em Gramado.

 

P/1 – À noite?

 

R – À noite. Aí no vestiário ainda, nós chegamos _______ umas três horas antes do jogo ainda tiveram alguns que dormiram no vestiário porque tava realmente cansado, eu fui um deles que também dormi à beça porque nós saímos de madrugada, aquele negócio da torcida _________ pra tentar fazer aquele trabalho, deixar a gente sem sono pra chegar dentro do campo e aí o Flamengo jogou muito bem, foi um jogo difícil, o Grêmio era um time muito bom e lá dentro era difícil ganhar do Grêmio, e nós fomos lá e ganhamos, gol do Nunes, um a zero, passo do Zico, aí foi à consagração pra todos nós, inclusive até o Júnior não jogou esse jogo, quem jogou esse jogo foi o Antunes, lateral esquerda que era o filho do Ferrugem, nosso roupeiro, foi um dos jogos mais difíceis que eu achei no final de brasileiro, o mais difícil. Outro que eu achei também paralelo a esse aí, acho que os três foram, mas esse foi um que foi lá no Grêmio, lá era uma rixa, os gaúchos fortes já tinham aquela tradição de jogador grandão, nosso time era todo mundo médio, a maioria tudo médio, quer dizer, era só na qualidade mesmo que nós poderíamos superar o time do Grêmio. E a melhor final minha também, que eu achei de Brasileiro, quando nós fomos tricampeão foi contra o Santos, ali pra mim foi a minha consagração, foi o melhor jogo que eu fiz com a camisa do Flamengo.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – Conta um pouquinho desse jogo então, Adílio. 

 

R – Esse jogo até mexeu um pouquinho com o meu brio, nós fomos jogar, o Santos aquele time com Pita, Serginho, Paulo Isidoro, João Paulo, excelente o time, excelente mesmo. Aí fomos jogar o primeiro jogo lá no Santos em São Paulo, aí eles ganharam de um a zero, aí eu lembro que eles diziam que o meio de campo do Santos era superior ao meio de campo do Flamengo, aquilo ali mexeu, aí mexeu (risos), aí eu falei: “Não, porque o Pita”, começou a enaltecer o Pita, os jogadores do Santos que eram melhores do que os do Flamengo nas posições, posição tal Flamengo ______, na posição meio campo Pita é melhor”, aquele negócio aí mexeu comigo e eu falei assim: “Não, hoje eu tenho que sair daqui sem uma perna, mas vou fazer tudo" e foi o que aconteceu. Mas foi um jogo muito bom, o Santos jogava pelo empate, aí rapidinho fizemos o primeiro gol com o Júlio César, foi ao fundo, o segundo gol também veio de uma jogada até minha também, uma faltazinha, o Zico bateu, o Leandro cabeceou, dois a zero e o terceiro foi aquela consagração que eu te falo, o jogo que eu tava buscando a todo momento um gol, tô buscando, aí o Robertinho pegou a bola e foi na linha de fundo e eu acreditei que eu dei o pique da defesa até lá no ataque, aí fui lá e fiz o terceiro gol, aí eu acabei com o Santos, dois a zero, o Santos marcando um gol ia pra prorrogação, entendeu?  Aí foi quando nós liquidamos, ali teve até uma confusão do  Serginho com o repórter, começou a brigar ali. Ali pra mim foi a consagração e foi o melhor jogo, porque eu devolvi tudo aquilo que o Flamengo me deu, aquele foi o meu pensamento.

 

P/2 – Eu tenho uma curiosidade sobre os jogos na altitude, o que acontece de fato? Você já jogou na Bolívia, na...?

 

R – Acontece o seguinte, o ar lá é rarefeito, a velocidade da bola é outra, a ideia... quando você chega, sua cabeça fica desse tamanho, ficava desse tamanho aqui.  Então é por isso que nós víamos lá jogadores do time boliviano até mastigando coca mastigando mesmo, tem chá de coca também e tem que tomar chá de coca para você fazer adaptação, chegar assim dois dias antes, começar andando lentamente e tal, e depois você fazer isso gradativo e precisa ter um certo tipo de velocidade. O Hélder, eu lembro quando saiu do avião, ele pisou assim no chão, ele caiu, caiu no chão e ficou fora do jogo por causa disso. Lembra do Hélder meio campo? 

 

P/2 – Lembro.

 

R – Ele caiu, caiu assim, tá, caiu no chão, por causa da pressão. 

 

P/2 – Antes do jogo ou optaram pela preparação?

 

R – É, optamos pela preparação, fizemos um trabalho na piscina, lá no fundo chu, subia uh, respirava. Começamos a trabalhar com ar residual, jogamos todo ar pra fora e ia pra baixo só com o ar residual, aí ficava, ficava, aí subia uh, jogava, descia, só trabalhando ar residual, que você não pode puxar o ar, ele tem que entrar automaticamente e às vezes, você puxa o ar e o ar não vem, aí o olho cresce e tu fica apavorado.

 

P/2 – E na hora do jogo?

 

R – Isso na hora do jogo, se tu puxar o ar, aí não entra e tu fica apavorado, então você tem que trabalhar com o ar residual, entendeu? Ar residual, como se tivesse debaixo d´água. 

 

P/1 – Adílio, vamos seguir então, agora a gente tá caminhando pro fim da entrevista, você passou, então você encerra sua carreira no Flamengo… Você fez uma despedida, teve o último jogo?

 

R – Não, eu não fiz despedida no Flamengo e nunca quis fazer. Porque eu acho que o Flamengo vai tá sempre no meu coração, eu não vou me despedir nunca do Flamengo, até hoje eu jogo pelo mastro do Flamengo, com a camisa do Flamengo, isso aí é consagração, não só pra mim, como pra Zico, nós estamos sempre reunidos, então quer dizer... Então eu não fiz, até porque quando eu saí do Flamengo eu sempre pensei em voltar para o Flamengo e essa oportunidade eu tive quando eu voltei, mas aí eu senti que o pessoal não me aceitava muito bem. Eu tive que fazer outras coisas, eu tive que mostrar que eu tava jogando bola ainda, aí dali eu fui pro Espírito Santo, joguei.

 

P/1 – Só um instantinho Adílio, só pra recapitular, a sua última partida?

 

R – No Flamengo foi em 86.

 

P/1 – Foi em 86.

 

R – Fomos Campeão Carioca.

 

P/1 – Você lembra com quem?

 

 R – Contra o Vasco a final e o treinador era o Lazaroni. 

 

P/2 – Quem ganhou esse jogo?

 

R – Fomos nós, ganhamos do Vasco e fomos campeões em cima do Vasco. No ano seguinte, o Lazaroni foi pro Vasco e o Vasco ganhou em cima do Flamengo, lembra disso?

 

P/2 – Lembro.

 

R – No ano seguinte.

 

P/1 – Aí você foi pro Coritiba?

 

R – Fui pro Curitiba disputar um Brasileiro pelo Coritiba, cheguei a jogar no Maracanã contra o Flamengo, perdemos o jogo de dois a um, aí depois fui lá pro Equador, aí depois joguei contra o Flamengo de novo.

 

P/1 – Que time era no Equador?

 

R – No Equador era Barcelona de Guayaquil, o melhor time de lá, Barcelona, onde tem os (Kiongs?), que vocês conhecem (Kiongs?).

 

 P/1 – (Kiongs?) final da Libertadores?

 

R – É, final da Libertadores e os melhores jogadores da seleção no Equador hoje são todos jogadores do Barcelona, é um clube também de massa, a minha sorte foi essa, porque todos os times que eu fui foram times de massa, Barcelona e Aliança de Lima.

 

P/1 – Aí depois do Barcelona que você foi pro Aliança?

 

R – Do Barcelona fui pro Aliança.

 

P/1 – E como foi essa passagem lá?

 

R – Foi boa, foi muito boa mesmo, porque lá os jogadores habilidosos esperando _____, (Perico Leão?) Galhardo, Bídias, pô, jogadores que eu tive contato assim, conversar com eles lá, eles sempre apaixonados pelo futebol brasileiro, adoram o futebol brasileiro. Na oportunidade joguei até com o (Reinoldo?), como eu te falei até parecido contigo o (Reinoldo?), não é isso? 

 

P/1 – ______.

 

R – É o cabeção, parece com ele, muito bom jogador, foi capitão da seleção uns três anos seguidos.

 

P/1 – (Kueto?) 

 

R – (Kueto?) também joguei com ele, que é um canhoto, esquerda, ele fala: “Surda”, jogador muito bom. E todos os lugares em que eu fui eu sempre fui bem aceito, eu sempre procurei até a escolaridade, sempre fazendo curso, essas coisas todas, procurando saber as coisas, passando informações boas, isso aí foi muito bom. Aí depois joguei num time pequeno aqui no Rio, o América Três Rios, até hoje eu até falo que fui quarto colocado do campeonato carioca, um time muito bom também, joguei contra o Flamengo, empatamos com o Flamengo de dois a dois, foi muito bom o jogo.

 

P/1 –_________

 

R – Sim.

 

 P/1 – Fizeram até uma boa campanha. 

 

R – Exatamente, ficamos em quarto lugar na campanha da carioca, foi realmente muito bom. Joguei contra o Flamengo, quando eu falo assim joguei contra o Flamengo é porque era uma coisa que não passava na minha cabeça jogar contra o Flamengo, sempre a favor do Flamengo, mas eu jogava, mas com o coração mesmo assim dolorido, machucado mesmo, só que eu não diminuía a minha força, aumentava mais ainda porque o Flamengo queria que eu jogasse bem também, antes de começar os jogos, eu ia lá no banco do Flamengo e o pessoal me abraçava, me cumprimentava, todo mundo: “Vamos lá e tal, você está jogando bem”, então aquilo ali, se eu falhasse, se eu não jogasse bem eles iam ficar triste e ao acabar a partida ____ Flamengo dois a dois, todos eles vieram me cumprimentar, me abraçaram, o Marquinhos, que hoje tá até na Portuguesa, veio me cumprimentar, disse que era meu fã; Djalminha na época também joguei contra ele, veio me abraçar também, o Marcelinho também na época jogou também, aquele timaço do Flamengo, Nélio junto com o Júnior. Até numa oportunidade o Júnior saiu rápido do campo eu ia até conversar com ele, não consegui, porque realmente o Flamengo perdeu um ponto ali valioso, porque o Flamengo não podia ter empatado aquele jogo, mas pra mim foi bom, porque eu tive que mostrar meu profissionalismo dentro do campo e só que eu fiquei chateado porque o Flamengo tinha que ter ganhado aquele jogo.

 

P/1- E depois do América, você foi pra onde?

 

R – Depois do América eu tive uma passagem lá em Goiás no Itumbiara, também foi muito bom, foi uma passagem rápida, mas foi muito bem. Eu saí de lá e deixei o time lá bem colocado e joguei também no time do Barrera, onde jogou eu, Andrade, Ernani, Cristóvão, jogadores de nomes também, foi o time que permaneceu na primeira divisão, joguei no time Friburguense da segunda divisão e fomos campeões da segunda divisão, e permanece na primeira divisão até hoje, caiu e depois levantou de novo e no Maranhão joguei lá também, e foi até um negócio legal, que o prefeito quando me contratou eu falei assim: “Ó, eu só vou se o Andrade for”, ele “Ah, o Andrade também tá disponível?" “Tá”. “Então vem os dois”, aí fomos nós dois lá pro Maranhão, _________ e pra nós, até na minha concepção, foi muito bom porque quando nós chegamos nesse clube, que é diferente do Flamengo, não existia muito profissionalismo, então você tinha que se adaptar, mas só que nós, tanto eu como o Andrade, nossa filosofia foi sempre de uma coisa grande, pra cima, aí nós chegamos lá e mudamos tudo, nós fizemos o time de Bacabal ser time grande e se classificou, foi lutar de igual pra igual com o Maranhão, o Sampaio Correia com todos esses times da capital e saímos de lá vitoriosos mesmo. Aí nós fizemos o nosso papel lá, classificamos o time e viemos embora, na oportunidade fomos para os Estados Unidos, que eu dava clínica também nos EUA, lá em Boston e na Califórnia, eu e o Júlio César Uri Geller, essa sempre foi nossa missão de ensinar também os americanos a jogar futebol, ficamos lá uns cinco anos seguidos antes de trabalhar com o Zico, também foi um trabalho que eu sempre desenvolvi, entendeu?

 

P/1 – Então Adílio, quer dizer, o seu último time foi o do Maranhão, o Bacabal? 

 

R – Praticamente sim.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu tava com 38 anos.

 

P/1 – Não queria parar de jogar bola?

 

R- É. Só o Zico mesmo me parou, agora você vai ter que trabalhar comigo e tem que parar de jogar futebol, aí eu parei de jogar futebol.

 

P/2 – E como aconteceu isso?

 

R – Aconteceu porque o Zico, com o All Star Zico, ele fez uma excursão pro Japão, ia fazer três jogos, aí foi eu, o Júnior, Jaime, Andrade, Pita, o Maurício também foi convidado que jogou no Botafogo, o Pintinho que jogou no Flamengo, garoto ainda, o Bahia jogador também do Flamengo, o Felipe jogador garoto do Flamengo também, o Zé Carlos, o Rondinelli também foi, o Júlio César Uri Geller, o Reinaldo, aí fomos fazer esses três jogos. Só que no contrato tinha que dar clínica de futebol e numa dessas clínicas, o Zico me relacionou pra dar aula e o Zico desconhecia essa minha parte de educador, coisa que eu já tinha um trabalho atrás lá nos Estados Unidos e eu dando aula para os japoneses, falando aquele inglês meu, pá, pá, pá, sem intérprete, porque nós tínhamos intérprete, mas eu até deixei o intérprete de lado e comecei falar inglês com o pessoal, ball, __________e os japoneses, todos que passavam ali na minha fila queriam trabalhar comigo, porque eu tinha e fazia. O Zico começou e o Zico narrando tudo, e só olhando pra mim, feliz da vida com aquele meu potencial que ele desconhecia, aí quando chegou no hotel, ele não aguentou, no ônibus mesmo ele falou: “Adílio pô, você tá demais, você quer isso? Deu um show, cara, você tem que trabalhar comigo, tem que parar de jogar futebol e trabalhar comigo”, eu falei, “Não, contigo eu trabalho em qualquer lugar” (risos). Aí tô lá até hoje com ele. Como eu falei com você, sempre fui fã do Zico, desde a minha vida de futebol que eu narrei aqui pra você,  sempre fui uma pessoa que sempre quis um conselho, ele sempre falava baixinho no meu ouvido e eu sempre seguia, quer dizer, é uma pessoa que pra mim... Até brincar com ele até hoje é difícil, que eu tenho aquele respeito ainda por ele, não só eu, como outros também que nós sempre éramos assim, o Júlio César, o Tita e o Andrade, a gente sempre assim, então foi muito importante trabalhar com ele e estar do lado dele trabalhando até hoje.

 

P/1 – Tem alguma passagem com o Zico que te marcou, alguma lição de vida que ele tenha te passado?

 

R – Ele me passou quando a minha mãe faleceu, como eu te falei. É uma situação que você fica meio perdido, aí ele chegou em mim e conversou comigo: “Tu tem mais um irmão, o que você precisar aí, vamos lá, eu te dou apoio total” e trabalhando sem eu saber também, sabe como é? Amigo é amigo: “Olha ali esse garoto, dá uma olhadinha nele”, ele nunca falou isso comigo, mas eu sei que esse trabalho ele fazia muito: “Puxa aquele garoto lá, vamos lá, vamos dar uma força pra ele”, eu sei que ele fazia muito isso, sem ele falar pra mim, mas eu sei que conscientemente… Eu sei que ele fazia muito isso, quer dizer, o agradecimento vem a toda hora e a todo instante.

 

P/1 – E Adílio, qual é a atividade que você desenvolve no dia a dia lá no CFZ?

 

R – No CFZ, hoje eu sou professor da escolinha do Zico, que é o Centro de Futebol dele, com garotos de faixa etária de seis a dezesseis anos e esse ano eu tive a oportunidade também de trabalhar com o juvenil dele, que é o CFZ Rio, e iniciei o trabalho com ele também quando ele fez do Centro de Futebol Clube, comecei como treinador dos juniores, cheguei até o profissional também do time dele. E hoje eu tô trabalhando com a equipe juvenil dele e trabalhando em cima do CFZ.  E ele ampliou também meu trabalho porque hoje eu sou coordenador lá de São Gonçalo, que é um  franchising, que ele tem e toda oportunidade que também tem quando abre alguma franchising, por exemplo, em Natal, eu vou lá dar instrução pros professores, como é a conduta perante os alunos, como faz um tipo de trabalho, fico uma semana ensinando os professores pra dar aula e foi assim em Natal, foi assim em Campo Mourão que é Paraná e foi assim também em Juiz de Fora. 

 

R – Ah, em Juiz de Fora também?

 

R – Também tem. Tem também em Manaus e Belo Horizonte, e tem outro que foi até recentemente, foi em Miguel Pereira, já tá espalhando muitos Centros de Futebol do Zico, dando oportunidade àqueles garotos que sempre foi o sonho do Zico trabalhar com as crianças, aquela coisa, aquilo que ele não tinha hoje ele está dando para as crianças aí. E hoje mais ainda tá criando um espaço junto com a prefeitura pra dar aula pra essas crianças carentes, que não tem condições de pagar uma mensalidade da escolinha dele, ele abriu esse espaço que é muito importante, onde tem garotos aí que tem os pais que trabalham e que não tem nem condições de dar assistência a ele, hoje tá lá como o Zico e ele sempre cobrando, essa sempre foi a nossa filosofia, sempre cobrar a escolaridade da criança, é muito importante isso. 

 

P/1 – Adílio e da sua família atual?

 

R – A minha família atual, como eu falei com você, naquela época em que o Flamengo foi Campeão Mundial, eu casei e tive um filho, Adílio Júnior, e tenho uma filha que é a Bruna, a maioria das pessoas conhece porque joga futebol de praia hoje, futebol feminino, tá no time do Roberto Dinamite, ele tem um time de futebol de praia onde podem perder até o treinador que jogou no Vasco.

 

P/1 – Qual a idade deles?

 

R – A Bruna é a mais velha e tem dezoito anos, e o Júnior fez agora dezessete anos, dia sete de maio e tem o caçula que é o (Soni?), que eu botei no Zico jogando bola, agora ele tá querendo ser ator, tá querendo trabalhar em televisão, trabalhar em novela, quer dizer, eu tô até buscando isso, e até abriu um espaço com a Angélica, abriu um espaço para novos talentos para trabalhar aí na Globo, eu tô tentando ajeitar isso aí, pra ele poder trabalhar que é uma coisa que ele quer e que ele gosta, porque ele faz teatro no colégio dele, ele estudava no CEL [Centro Educacional da Lagoa] da Lagoa, faz teatro, teclado, música, o que eu não tive eu tô dando tudo pra ele, e ele é o único filho que mora comigo, porque eu separei e hoje eu tô com a minha esposa que é (Sônia?), eu tô com a Sonia juntamente com o (Soni?).

 

P/1 – Quantos anos ele tem?

 

R – O (Soni?) tem onze anos.

 

P/1 – E como é o seu cotidiano hoje?

 

R – O meu cotidiano hoje é trabalho mesmo, eu acordo cinco horas da manhã, aí arrumo meu filho, deixo ele no colégio sete horas aqui na Lagoa, aí vou pro Recreio onde começo dar aula no Centro de Futebol do Zico, aí dou uma descansadinha de meia hora, que não dá nem tempo de vir pra cá, porque eu moro na Ilha do Governador, aí duas horas e meia tem que pegar o juvenil pra dar aula, e no meio disso tudo quando sobra um espaço, eu vou lá pra São Gonçalo, onde eu sou coordenador da minha escolinha que eu montei lá e quando tem um pequeno espaço, eu venho aqui pra minha escolinha aqui na Lagoa, eu tenho uma escolinha aqui, depois do túnel do lado direito, tem um campinho de futebol ali e ali é a minha escolinha, eu também vou lá, dou aula, tem professor lá.

 

P/1 – Então você tem uma escolinha...

 

R – Tenho uma escolinha, tem um sócio lá, que é o Zezinho, o Marcelo, tenho uma assistente também que é a Zilda, que trabalha ali e o professor que eu coloco ali, de vez em quando, eu vou lá pra ajeitar as coisas, dar algum tipo de treinamento, passar algumas informações e até esse ano a minha escolinha agora é Núcleo do Flamengo, agora faz parte do Flamengo, isso aí foi muito bom não só pra mim, como pro meu sócio, e pros alunos também, pra ensinar grandes revelações de jogadores pro Flamengo também.

 

P/1 – Adílio, você que encarna aí as cores do Flamengo durante toda sua vida, o que é ser Flamengo?

 

R – Ser Flamengo é estar bem contigo, na vitória ou na derrota, Flamengo até morrer, essa é a filosofia do Flamengo.

 

P/1 – E quais são as grandes alegrias que o Flamengo te deu?

 

R – O Flamengo me deu muita alegria, a primeira delas foi ter ajudado a minha família, na hora que eu mais precisei o Flamengo abriu a mão pra mim, isso aí eu fui grato. Aí eu falei que ia retribuir isso e como retribui? Dentro de campo, onde fui tricampeão Carioca, tricampeão Brasileiro, Campeão da Libertadores, Campeão Mundial e todas as categorias inferiores de bairros que eu passei eu fui campeão também, essa foi a minha retribuição pro Flamengo, que tá marcado pelo agradecimento do que o Flamengo fez comigo quando eu mais precisei.

 

P/2 – E qual foi o momento mais marcante da tua vida?

 

R – O momento mais marcante foi quando nós fomos campeões mundiais, que eu senti o que era realmente Nação Rubro Negra mesmo, porque quando a gente fala em Nação Rubro Negra, ela mexe com o torcedor do Vasco, com o torcedor do Botafogo, do Fluminense e mexe com a nação toda e o Flamengo realmente ele mexe. Até hoje, a gente é parado na rua e vem o vascaíno, o botafoguense e falam assim: “Aquele ali foi um dos melhores times que eu vi jogar e você jogou muito”. Esse reconhecimento pra um jogador não tem igual, isso aí é uma coisa que eu sempre relutei em usar meu nome porque esse princípio ponho para os meus filhos, que hoje eu tenho um filho, o Adílio Júnior, que tá lá no CFZ do Zico jogando, tem a minha filha que sempre foi uma coisa, porque eu botei ela pra jogar basquete, vôlei e ela chegou pra mim: “Papai, eu quero jogar futebol”, quer dizer, aquilo pra mim foi uma coisa que eu nunca ia tirar dela, e ela foi a primeira que tá federada, faz competições aí e joga. O (Soni?) que tá indo por outros caminhos, um caminho mais artístico, tá procurando isso aí, de vez em quando eu coloco vídeo lá em casa, ele vê, olha, mas diz: ”Papai eu quero seguir isso aqui, isso que eu quero ser, aquela pessoa que você também quis ser” porque eu também quis ser porque todo jogador é um artista, tá sempre lado a lado com o artista, volta e meia nós estamos jogando futebol com o pessoal da Globo, essa turma toda, viajando e tal, quer dizer, tá sempre dentro do esportista essa criatividade.

 

P/1 – E Adílio, você tá falando de Nação Rubro Negra, você que correu aí todo o Brasil, você sentiu essa presença do Flamengo também nos outros Estados? 

 

R – Pô, muito, muito. Uma coisa que até me encheu de lágrima foi quando eu tava na Arábia, eu passei um ano na Arábia lá em Baharem, um país lá do Golfo Pérsico, onde fiquei lá no (Monrad?) Club, um lugar que eu fui que não podia jogar estrangeiro e aí eu tive a minha maior aprendizagem como treinador, eu treinei lá o time de cima, foi o assistente técnico até do (Ralf?) que me levou pra lá e depois do Duque, fui treinador do (Chabab?) que o pessoal fala que é juvenil e do (Nashim?), que é lá embaixo, é a escolinha, criancinha mesmo árabe e foi onde eu tive um trabalho muito bom, coloquei árabe lá no time de cima, coloquei a garotada todinha pra jogar em peso e vinha todo mundo. Porque o árabe funciona assim: quando ele gosta do trabalho, ele vem em massa, quando ele não gosta não vai. E quando eu passei lá, tanto a escolinha com os juniores como o profissional, eles iam pra treinar mesmo, porque o árabe tem esse costume, até o Zagallo, Parreira, o pessoal pode dizer isso pra você, eles gostavam de ir só no dia do jogo: “Não rapaz, vocês têm que treinar, a preparação, fisicamente, o treinamento técnico”, mas aí tanto o Zagallo como o Parreira, o pessoal que iniciou ali,  o Joubert também foram. Eles colocaram isso na cabeça deles, esse tipo de treinamento, eles que moldaram o jogador árabe pra isso e o árabe é assim, quando ele gosta ele vai, não gosta não vai e eu consegui fazer lá um bom ambiente tanto que o sheik, cheguei até a conhecer o rei de (Harém?) também, conversei com ele bastante tempo, coisa que é difícil, até a minha mulher, a (Sônia?), conseguiu e eu lembro que passou assim na televisão: “Aquele que é o rei de (Harém?)?", “É o rei”, “Ainda vou conseguir falar com ele” e não é que a mulher conseguiu falar com o cara (risos). Até tem uma curiosidade que vocês não sabem, tem uma praia lá, a Praia do Rei, só que a praia dele só entra estrangeiro, meio dia assim, ele dá refrigerante, tudo de graça, aí depois ele escolhe um pra tomar chá com o rei, “Vem cá tomar chá com o rei, senta aqui” aí fica tomando chá, bate papo, quer saber da sua cultura, de onde você veio e tal, e minha família foi escolhida, foi eu, a minha mulher e o filho (Soni?), aí batemos um papo lá tudo em inglês bonitinho, certinho, porque como eu falei com você, eu nunca deixei de estudar, hoje eu faço Cultura Inglesa, que é muito bom e o país, o Brasil, tá mudando todo, tá todo mundo entrando pro curso de inglês, e hoje tá colocando inglês e espanhol, que realmente tem que fazer parte da nossa cultura, porque nós estamos resgatando aquilo que veio lá de trás.

 

P/1 – Mas Adílio, em relação à Arábia, você disse que tinha uma referência ao Flamengo lá?

 

R – Exatamente, mas eu lembro que o árabe, principalmente o clube que eu tinha lá, eles falaram: “Pô, eu lembro de você no Flamengo. E pô, camisa do Flamengo". E sempre passava os jogos do Flamengo e quando o Flamengo perdia eles choravam. Eu vi árabe lá chorando por causa do Flamengo, os caras eram fanáticos mesmo.

 

P/1 – Eles torciam pelo Flamengo?

 

R – Torciam pelo Flamengo, a maioria do meu time todinho de lá do (Monrad?) Club era tudo flamenguista e aqueles que tinham dúvidas passaram a ser, porque eu falava: “O Flamengo é o melhor, melhor”, eu sempre incutia isso.

 

P/1 – E tinha gente usando a camisa? 

 

R – Tinha usando a camisa do Flamengo. Quando eu mandava vim camisa do Flamengo, dava pra eles, até hoje essas clínicas que eu dou nos Estados Unidos, eu vou no Flamengo, pego bala, chaveiro, revista, tudo do Flamengo e começo a distribuir, todo lugar que eu vou assim, eu coloco e o pessoal vai vendo, vai ligando e hoje ficou mais fácil pela internet, hoje ficou mais fácil.

 

P/1 – Você é um autêntico embaixador do Flamengo.

 

R – É. Eu sou flamenguista desde garoto, isso faz parte até de um trabalho social que eu faço e o Flamengo entende isso também. Depois que eles fizeram o núcleo com a minha escolinha, eles entendem isso também.

 

P/1 – Um trabalho social?

 

R – O trabalho social, porque a gente pega pessoas carentes e começa integrar com a classe mais alta e formando um bolo só e fica todo mundo a mesmo a coisa, as pessoas, às vezes, enaltecem o trabalho e tal, aquela pessoa carente começa a ter outra visão, e aquela pessoa começa a ter outra visão das pessoas pobres também, quer dizer, faz aquela socialização e vai embora.

 

P/1 – Adílio, nós estamos no final do nosso depoimento, infelizmente.

 

R – Ah.

 

 P/1 – Você tem alguma questão que você queira colocar?

 

R – A questão maior eu acho é a família, eu acho que a família realmente é muito importante sempre como suporte do ser humano, eu acho que o Brasil também voltou a ver isso, eu digo que até a três anos atrás foi quando começou isso, a religiosidade, tá todo mundo indo pras religiões, começando a encher o peito de coisas boas e positivas, é o que levanta a gente pra cima e o pessoal tá dando mais ênfase na família que é à base de todo mundo. Como eu falei com você, eu já tive pai e mãe, algumas pessoas pensavam: pô esse garoto perdeu o pai e a mãe, não vai sobreviver. Mas tô aqui, minha índole sempre foi a mesma, nunca foi por falta da minha mãe, do meu pai que fui por outros caminhos, não. Fui pelo caminho correto, certo, sou feliz da vida por isso, a minha mãe até pra maioria das pessoas, como eu digo, faleceu, mas pra mim não morreu, ela tá sempre me dizendo alguma coisa, tanto ela como meu pai, como meus irmãos também, e isso que me impulsionou pra frente, porque a gente sempre tem um espaço nosso vazio, que a gente entra nele e começa a discutir as coisas boas e positivas, e quando eu vou para esse meu espaço vazio é onde eu peço forças pra Deus, que é o supremo, e aí vem junto meu pai, minha mãe, irmãos e as pessoas também amigas que se foram e que sempre deram força. E aí vamos pra frente e sempre criando alguma coisa pra quem vier de trás sempre buscar assimilar e copiar. Como eu falei pra você, esse caso é verdade, que na Globo fizeram pra mim, foi muito importante, abriu muito caminho pra muita gente, aquelas pessoas que tinham dúvidas, o que é você chegar aonde eu cheguei, as pessoas começaram a buscar na bola, na musicalidade, acreditar, porque às vezes o que faz um ser humano é ele começar a subir obstáculo e às vezes isso é muito importante, aquele que não tem obstáculo, às vezes, fica pra trás e quem tem ele sobe, ele vai embora mesmo. Um conselho que eu dou pra todo mundo é que tem que acreditar sempre nele e voltando aquilo que minha mãe falou: “Seja você mesmo, que assim você vai ser reconhecido por qualquer um".

 

P/1 –  Adílio, a gente sempre faz uma pergunta pra todo mundo que a gente entrevistou, como você se sentiu contando sua história pro Museu do Flamengo?

 

R – Bem, eu me senti realizado, uma coisa que eu sempre busquei, que eu sempre quis, independente do que eu ganhei em parte financeira, em valores e tal, mas eu consegui o meu objetivo, entrar na história do Flamengo e esse Museu do Flamengo tá dando espaço pra gente, não só pra mim, como vai dar pros meus amigos também, uma coisa que vai ficar na memória de todo mundo e às vezes tem pessoas que escutam aqui e acolá, mas quando você lê, você vê uma realidade... E vocês tão dando esse espaço pra todos nós de falar, discutir, botar em prática, o nosso pensamento, o nosso sofrer, a nossa felicidade, a nossa decepção, a nossa raiz, é muito importante a raiz, você estar com ela sempre ao seu lado. Como eu falei para você, eu sou um cara privilegiado porque a minha raiz tá ali do meu lado, á aqui no Leblon, na Cruzada São Sebastião, onde cada dia quando eu vou lá, quando eu piso lá pra ver, minha filha hoje que mora lá e meu irmão mais velho que também mora lá junto com os meus sobrinhos, um deles tá até jogando no time do Zico, ele joga muito bem...

 

P/1 – É?

 

R – Vai ser um excelente jogador, um garoto muito bom, o Pedrinho vai ser muito bom jogador, e aí eu me sinto muito fortalecido, revejo lá meus amigos, aqueles que me deram força, os que me ajudaram, os que eu ia pra casa deles tomar café, aqueles que iam na minha casa tomar café, aqueles que iam na minha casa almoçar e os que eu ia na casa deles almoçar também, isso pra mim é a realização e colocando tudo isso pro Museu do Flamengo, isso é muito importante. Eu sou um grande colecionador das histórias do Flamengo, eu tenho em casa livros antigos, coisas bem lá pra traz do Flamengo, eu guardo comigo ali a sete chaves e eu vou conseguir ver minha história num desses livros, isso aí pra mim é muito bom. Já tem muitas que o Flamengo foi Campeão Mundial, tô sempre dentro da história, mas isso é aí vai ser coisa que eu vou querer ter mesmo guardado comigo pros meus filhos passarem pros meus netos. E que todos eles sejam flamenguistas, até agora todo mundo é  flamenguista, minha filha é flamenguista, meu filho é flamenguista.

 

P/2 – Eu queria só perguntar se você tem algum sonho na vida?

 

R – Eu tenho. O meu sonho na vida, eu sempre tive esse sonho na vida de deixar meus filhos sempre em boa situação, realizados profissionalmente, sempre felizes e sempre tendo os espaços deles, isso aí vai ser uma grande realização pra mim, os meus filhos estarem bem. Enquanto eu tiver forças pra fazer isso, esse meu filho que é o Júnior, que são filhos separados, juntamente com a minha filha Bruna também, eu tô sempre com eles, sempre trazendo eles pra mim, conversando, eu quero ver eles sempre bem, isso aí é uma coisa que ninguém tira. Filho pra nós é tudo, pra mim eu sempre pensei assim: filho pra mim é a melhor coisa do mundo, você poder tá ali com ele, conversar com ele de igual pra igual, porque hoje eu já converso com o meu filho Júnior de igual pra igual, com a minha filha de igual pra igual, o meu filho (Soni?) ainda não, mas o moleque é muito inteligente, de vez em quando eu deixo ele: “Você tá certo”. Esse é meu sonho, ver meus filhos bem, sem fumar, sem beber, sendo boas pessoas, sendo admirado por outras pessoas e uma coisa que também me deixa feliz da vida é quando alguém fala: “Ah, você é filho do Adílio, pô o Adílio é isso, isso,” sempre coisa boa, nunca coisa ruim, isso é uma grande felicidade que eu tenho.

 

P/1 – Adílio, eu queria te agradecer a entrevista e espero que você poça colaborar com a gente no trabalho do museu.

 

R – Ah, pode ficar tranquilo, que se for pra colaborar tô aí, acho que eu tenho mais amigos que vão vir aqui, se quiser eu faço até contato com eles, vou mostrar pra eles quem são vocês, porque isso é muito importante pra um ex-atleta, para saber quais são as perguntas, como é esse negócio, pra se sentir à vontade, mas eu acredito que se você for ver o Júlio César, o Andrade, o Tita, vai ser a mesma coisa, eu acho que aquele grupo do Flamengo todo mundo tem praticamente quase a mesma cabeça, alguns, por exemplo, o Manguito, o Marinho, o Lico que tá lá no Paraná, todo mundo é humilde, legal, atento e sempre honrou a camisa rubro negra.

 

P/1 – Então tá, muito obrigado Adílio.

 

R – Muito obrigado.

 

P/2 – Obrigado.

 

R – Obrigado, arriba Aliança! 

 

P/2 – Arriba la Aliança (risos).

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