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História

Craque a peso de ouro

História de: Formiga (Francisco Ferreira de Aguiar)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Depoimento de Francisco Ferreira de Aguiar, o Chico Formiga, para o Museu do Santos F. C. em 1999. Formiga narra sobre sua infância em Araxá (MG), a vida na fazenda, as brincadeiras e a família. A paixão desde cedo pela bola, acompanhando o futebol pelo rádio e nas peladas de escola. A ida para Belo Horizonte e o ingresso no juvenil do Cruzeiro, a resistência do pai pela profissionalização e a contratação pelo Santos. As mudanças de vida na cidade praiana, o acolhimento e cativação pela cidade e pelo clube. As conquistas no Santos, como o Paulista de 55 e a campanha de 62, a rápida passagem pelo Palmeiras (57-59) que na época foi a transferência mais cara do futebol brasileiro. As lesões e o encerramento da carreira de jogador. A carreira como técnico, a conquista do título Paulista de 78 como comandante dos "Meninos da Vila" e a passagem por outros clubes nacionais e no exterior.

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História completa

 

P/1 - Boa tarde. R - Boa tarde. É um prazer enorme estar aqui. Sinto-me muito à vontade, muito tranqüilo pra falar assim, das coisas do Santos, daquilo que a gente viveu aqui. Portanto eu estou à disposição de vocês. P/1 - Muito obrigada. P/2 - Formiga, a gente queria começar perguntando seu nome completo, local e data de nascimento. R - Pois não. Francisco Ferreira de Aguiar. Nasci na maior cidade do mundo, Araxá, lá no interior de Minas, no dia 11 de Novembro de 1930. Eu gosto sempre de falar de Araxá porque Araxá quer dizer lugar onde primeiro se vê o sol. P/2 - É indígena esse nome? R - É indígena, é da tribo que vivia ali, dos Araxás, e a cidade ficou sendo Araxá. E eu como não sou nada fã da cidade... (risos) mas realmente a cidade é agradável. P/2 - E o senhor nasceu numa fazenda ou na cidade mesmo? R - Não, eu nasci na cidade, agora, o meu pai era fazendeiro, o meu avô... Por parte do meu pai eram todos fazendeiros e por parte da minha mãe, comerciantes. Então era uma família muito grande, uma família enorme e eu tive uma infância muito boa, muito tranquila. Me lembro perfeitamente do grupo escolar, aonde eu fiz o primário lá. É diferente das coisas de hoje. Então, por exemplo, o grupo escolar lá, Delfim Moreira, que está lá até hoje, firme, a diretora era minha tia, entende? (risos) Mas ela não dava nenhuma canja pra gente não, sabe? Respeito absoluto, brava! Mas foi uma época muito boa da infância. Foi quando eu comecei a tomar gosto pelo futebol. Foi nessa época aí do grupo, seis anos, sete anos, que eu comecei a me entusiasmar com o futebol. P/2 - Formiga, vamos só voltar um pouquinho, a gente quer pegar desde o início. A família... Qual o nome dos seus pais, completo? R - José Antero de Aguiar e Edná dos Santos Aguiar. P/2 - E a fazenda do seu pai era de que? O que vocês plantavam lá? R - Não, era criação de gado. Engordava bois, tinha vaca leiteira, fazia queijo, entende? Explorava esse setor aí. Plantava muito café na época, todas as plantações: arroz, feijão, café... Naquele tempo se trabalhava muito a meia. A meia quer dizer o seguinte, você dava um terreno para o fulano, ele plantava e a colheita era dividida, entende? Então era uma fazenda grande, o meu avô era um homem de posse e a fazenda dele era enorme. Muitas mil cabeças de gado. Então era tranquilo por esse lado. Para o lado da minha mãe, comerciantes, uma família assim, muito bem colocada na cidade, então quanto a esse aspecto aí eu me senti sempre muito tranquilo com relação aos meus pais, à minha família toda. Isso me deu uma retaguarda também mais tarde. Foi que eu sempre segui aquilo, frente a frente. Mas foi, acabou. No grupo escolar quando eu comecei a ver futebol, bola... Eu me lembro de uma passagem em que eu tinha uma bola de couro e nós fomos para a fazenda e a bola esvaziou. Enquanto eu não fui encher esta bola eu não dei sossego ao pessoal, sabe? Aí eu senti realmente que eu gostava de futebol. E assim foi. P/1 - E isso com essa idade mesmo, de seis, sete anos, esse caso? R - Seis, sete anos. Foi quando eu comecei o primeiro ano primário. Na cidade ainda tinha o clube da cidade. E eu, menino, ficava junto ali, assistindo as conversas. Jogadores da cidade me chamavam atenção. Já eram meus ídolos, entende? Interessante isso. Eu, com oito anos me encostava neles para escutar o que eles estavam conversando a respeito do jogo, essas coisas. E o técnico da equipe, ele formou um time de infantil. Eu me lembro que eu tinha um prestígio com a molecada! Eu tinha muito prestígio com o resto dos meninos, e lá no treino ele me colocou no time reserva, entende? E aquilo foi um reboliço, por que... Me chamavam de Chico. "O Chico no time de reserva." Também ele não conhecia, não sabia que eu era o bom. Não me escalou não. Ficou gravado isso. P/1 - E você tinha prestígio com os meninos porque você era bom? R - É. E eles não acreditavam que eu estava na reserva, entende? Mas foi coisa rápida, assim. E ele era o técnico do time da cidade, que era um respeito máximo com ele. Lógico, pô, o treinador! E isso começou naquela época. Eu me lembro que eu escutei a Copa de 38, 1938, a Copa do Mundo, no rádio, a gente ouvia no rádio. Eu ouvi toda a Copa do Mundo, de 38, na França. Ali já estava..., entende? Meus tios tinham umas revistas de esporte, no Rio, aí foi que me deixou apaixonado por futebol. Eu sempre fui um apaixonado pelo futebol. Tem jogadores de futebol, colegas meus, jogavam, mas não... Eu não, eu sempre fui apaixonado, eu sempre gostei de jogar. Ah, o futebol pra mim... É primeiro, é a minha família, entende? Tranquilo, depois o futebol. E eu tive, por parte do meu pai, naquela época... Ele não gostava, não gostava. Não entendia bem aquilo. Já por parte da minha mãe, o pessoal, meus tios acompanhavam e gostavam. E eu mais tarde fui ter problemas pra poder jogar, porque o meu pai impedia, sabe? Se ele pudesse ele impedia. Mas foi... Você, veja que desde essa época, de 38, oito anos. Eu era tão fanático que eu acompanhava o campeonato carioca. Eu sabia a escalação de todos os times. Eram 11 equipes, escalação delas todas. Sabia do Corinthians e do São Paulo... Então era uma vida excelente, que tinha fazenda, diversão, o colégio lá, que era o bom, que foi o grupo escolar, os professores excelentes, uma seriedade absoluta, e o futebol. Quer dizer que para mim foi ótima a minha infância. P/2 - E os seus outros irmãos gostavam de jogar bola ou só o senhor? R - Jogavam, mas não tinham esse fanatismo não. Porque mais tarde um pouco, quando eu passei para o ginásio, o Colégio Dom Bosco, dos padres salesianos, todo mundo tinha o campeonato do colégio, normalmente, todos os domingos tinham os jogos lá. Eu jogava com eles, eles também jogavam, os meus irmãos, dois. Mas eles não tinham aquela... entende? Pra mim aquilo era festa. A prova é que eu, depois à tarde... No colégio tinha o, tinha uma reunião de garotos pobres que os padres reuniam, ensinava religião para eles, segurava os meninos ali, dava refeição pra eles e bola, futebol. Eu voltava à tarde pra jogar com eles, enquanto os meus irmãos, por exemplo, iam para a matinê, o cinema, eu já ia para o futebol novamente. Essa foi a diferença. P/2 - E o senhor estava falando que a família do senhor é grande. Quantos irmãos exatamente? R - Na minha casa quatorze irmãos, quatorze. P/1 - Dava pra formar um time de futebol. R - Eu sou o segundo. Infelizmente agora, ano passado perdemos dois, mas a família sempre... E gozado que a diferença é assim, muito pequena, sabe? Ano, ano e meio, assim... Eram 14! Foi uma infância maravilhosa! Família grande é muito bom, sabe? Tem as dificuldades maiores também. E eu com o futebol... Depois as coisas modificam, né? O tempo vai mudando, e nós tivemos que sair de Araxá. Começou a crescer, precisava de ginásio e o da capital era melhor... Porque quando o meu pai - coisas da vida - resolveu vender a fazenda dele, foi para Belo Horizonte, aí encontrou outras dificuldades, outra forma de viver, sabe? Foi quando eu comecei a jogar já visando o profissionalismo, sabe? Foi em Belo Horizonte, tempos mais tarde. P/1 - Mas o senhor, nessa época, quem eram os seus ídolos assim, qual era o seu time, os seus ídolos? R - O meu maior ídolo de todos os tempos, desde menino, foi o Pádua Lima, que mais tarde veio aqui ao Santos e eu trabalhei com ele ali. Ele jogava no Fluminense. Foi o maior ídolo que eu tive como menino. Então o meu número de camisa era igual ao dele, eu queria fazer como ele fazia as coisas, e passei a ser Fluminense por isso, sabe? Ver um timaço, o Fluminense tinha um time muito bom. E eu então... em 38, a Seleção Brasileira... e eu pensei comigo: "Puxa vida." A primeira vez que joguei contra ele... joguei uma vez contra ele, ele veio pelo Botafogo e eu pelo Santos, em 50. E joguei contra ele. Eu me senti perturbado, porque eu via nele o meu ídolo. Eu ficava olhando pra ele como quem diz: "Puxa vida, eu, aquele menino que batia palmas pra ele estou aqui jogando contra!" E essa sensação tive também quando ele veio pra técnico. Eu era auxiliar dele. Aí que eu senti como ele era, a personalidade dele, um cara frio, durão, assim, frio. Aí eu disse pra ele uma vez: "Olha, eu sou seu fã desde menino." "Perdeste teu tempo." (risos) Quer dizer... entende? Ele era frio, ele não dava valor a essas coisas. Agora, era uma pessoa muito boa, extraordinário como pessoa, como treinador.  P/1 - Bom, aí o senhor estava contando que vocês foram para Belo Horizonte. R - É, lá eu fui para um colégio, o Colégio Marconi. E jogava futebol também. E nós jogávamos lá e tinha um colega que jogava no Cruzeiro, jogava no juvenil do Cruzeiro. E ele jogou comigo lá no colégio e ele me convidou: "Não quer ir para o Cruzeiro?" E eu morava perto do campo do Atlético, entende? Eu morava a duas quadras do Atlético. Às vezes passava lá, eles estavam treinando, parava pra ver... e o rapaz me convidou pra ir para o Cruzeiro. Mas já fiquei satisfeito: "Ah, eu vou sim, tal." Tinha minha chuteirinha, preparei a minha chuteira, engraxei a chuteira, preparei, fiquei preparado. E fui lá para treinar. Eu disse a ele assim: "Olha, eu só vou te pedir um favor, quando nós chegarmos lá você não fala Formiga não, sabe? Eu não tenho nada com Formiga. Você fala Chico, fala Ferreira, mas não fala Formiga." "Não, não. Tá bom." Aí chega lá, o italiano... O clube Cruzeiro são italianos, é igual o Palmeiras. Então: "Eu trouxe aqui um colega pra treinar e tal. Muito bem." Ele falou: "De que você joga?" Eu falei: "Na meia." Aí eu saí de lado, daí a pouco o rapaz esqueceu e falou: "Oh, Formiga, vem cá." (risos) E o apelido está aí até hoje, ficou o apelido até hoje. P/1 - Mas de onde vem o apelido? R - O apelido veio do colégio, porque eu até a idade de 16 anos eu não era alto, eu era baixo. E perto dos outros eu ficava... então: "Oh, Mosquitinho. Oh, Formiguinha." E eu fiquei com esse apelido. Eu falei: "Puxa vida, pegou." Aí fui jogar lá, me convidou pra jogar, mandou eu assinar a ficha... Primeiro dia! Cheguei, tive uma sorte tremenda! "Preenche aqui a ficha, a assinatura do seu pai..." Eu falei: "Ih... Vai até quando?" Aí fui embora, levei a ficha, cheguei em casa falei para a minha mãe: "Olha, eu fui treinar no Cruzeiro, me convidaram para ir para lá. Tem que assinar a ficha, o papai tem que assinar." " Eu assino pra você." "Então tá bom." Ela assinou, eles aceitaram e eu assinei lá em 1946. Quarenta e seis, 47, 48, 49. Eu era o menorzinho do time. Em 49 eu já era o jogador para jogar na equipe principal. Eu era o único juvenil que era profissional, sabe? Recebia. Porque a vida atrapalhou, mudou, a minha família voltou para o interior. Eu ia ficar sozinho lá? E eles não deixaram eu voltar, me seguraram. Me deram um ordenado para pagar o colégio, me deram casa para morar, a refeição por conta deles, essa coisa toda. E foi uma época muito boa pra mim, foi muito boa a época do Cruzeiro porque eu fiz boas amizades... Então fui jogar na equipe principal, indo me colocar e jogar, e eu treinava com eles, sabe, com os profissionais. A gente ficava sentado na arquibancada no dia do treino coletivo. Fazia de propósito. Ficava sentado lá. O treinador foi um ex-jogador, famoso lá, mas não me chamava de Formiga de jeito nenhum, só falava Mosquitinho. (risos) Então eu ia lá e falava: "Mosquito, vem!" Entende? E eu pegava minha chuteirinha, entrava e treinava com eles, e eu escutava o comentário: "Pô, esse rapaz pode jogar na equipe. Esse cara vai jogar na Seleção Brasileira." E eles falavam e eu ficava todo cheio. Mas achavam que não, a direção. Até que apareceu a Seleção Mineira dos Juvenis. E eu fui convocado, no Rio-São Paulo joguei. O vice-presidente do Santos era mineiro e eles estavam querendo modificar a linha do Santos, colocar jogadores novos, aí perguntaram pra Seleção Mineira de Juvenis: "Quem é o número tal? E o número tal?" Aí aqui no Santos tinha um treinador de basquete, disse: "Não, o número tal é fulano de tal, joga no do Cruzeiro, assim, assim, assim." Me convidou pra vir pra cá. Doutor Aflávio Filho, doutor José Aflávio Filho, era vice-presidente de futebol. Passagem e tudo. E eu estava com um contrato de profissional lá pra assinar e não assinei. Fiz um papelão, confesso que fiz um papelão, mas eu fiquei na dúvida, sabe? Eu estava com o contrato na mão, um mês, quando chegando do Clube, um meu amigo, ex-jogador: "Tem algum problema, Formiga?" Eu digo: "Eu estou tendo problema." "Então deixa o contrato aí, não assina, depois com calma você vê isso." E ele falou aquilo, eu deixei o contrato em cima da mesa e saí. Mas já quando eu saí dali eu já sabia que eu vinha pra cá, sabe? Aí vim para o Santos. Em princípio fui com... Perguntou quanto eu queria pra vir pra cá. Eu pedi 40 mil cruzeiros. Lá eu ia ganhar dez. Pedi quarenta. Ele falou que estava bom. Eu digo: "Oba!" Mas a minha vinda pra cá foi uma epopéia. P/1 - Mas antes do senhor contar essa epopéia tem uma coisa que eu acho importante a gente falar. O senhor contou que o seu pai era contra, mas aí o senhor não contou o que aconteceu quando o seu pai descobriu. R - Eu vou te contar. Os jogos do Campeonato Mineiro de juvenis eram às 9:30 da manhã. Às oito horas tinha uma missa do colégio Santo Agostinho. Então essa missa, esse colégio ficava a umas dez quadras da minha casa. Então o meu pai se arrumava: "Cadê os meninos?" Tinha que ir à missa com ele lá no Santo Agostinho, a missa das oito. Ele ia naquele passo tranquilo. Assistia a missa e eu ficava olhando no meu relógio: 8:30, 8:35... E eu tinha que voltar com ele em casa. Mas eu já deixava..., eu tinha minha chuteira do clube. Eu tinha o meu calção, minha chuteira, tudo meu embrulhado na garagem, escondido, sabe? A minha mãe sabia, lógico. Ia lá, deixava lá no chão, lá. Ia à missa com ele. Quando nós voltávamos que ele entrava na casa eu ia na garagem, pegava a chuteira e corria até o clube pra dar tempo do horário. Eu cheguei uma vez a chegar e o time estar entrando em campo. Chegava transpirando, molhado. "Não, entra pra jogar, tal." Isso era um problema, ele não sabia. Na hora do almoço: "Cadê fulano?" Entende? Eu estava atrasado. Até que teve um jogo, decisão de campeonato, na preliminar de um jogo internacional. Era preliminar. Então eu avisei a minha mãe: "Olha, amanhã eu tenho que sair cedo, preciso almoçar mais cedo, tem um jogo assim, assim, assim. É lá no campo do América, jogo internacional, tem muito público, amanhã nós vamos jogar na preliminar decidindo o campeonato, é importante." Não, fiz o mesmo trabalho. Quando eu estava jogando que terminou o jogo eu olho assim, olha quem vem vindo lá: o meu pai. Eu falei: "Agora pronto!" Já tinha jogado, já. Aí ele veio, eu pensei que ele fosse zangar comigo, passou a mão na minha cabeça: "Tudo bem? Comprei laranja pra você" Comprou laranja. Aquilo me deu uma emoção tremenda, sabe? Porque eu esperava uma coisa... "Meu filho, como é que foi? Eu comprei laranja pra você." Aí não teve jeito, aí não proibiu mais. Já estava com 17 anos, 18. Mas foi duro, viu? Não gostava. Esse dia ele ficou bom. Aí eu vim pra Santos, ele me recomendou muito. Se eu podia vir, ele não queria deixar. "Não, posso?" "Pode, meu filho, em Santos é assim. Santos é uma cidade perigosa. Todos os jogos são abertos lá, os cassinos. Comunismo! A cidade que tem mais comunismo no Brasil é Santos, por causa do porto de Santos. E a noite lá é perigosíssima, a noite. Mulherada..." Quer dizer, eu vim bem recomendado. E isso me preocupou no começo porque eu falei: "Bom, eu não posso dar nenhum furo." Esse doutor Aflávio foi muito bom pra mim. Ele me arrumou uma casa de uma família aqui da Vila Belmiro, na Rua Guararapes. Era o seu Molina, dona Teresa e os dois filhos. Arrumou uma vaga pra mim morar com eles. Santistas roxos. Então eu vim a ter um ambiente de casa, sabe? Muito bem tratado, bem cuidado! Dona Teresa fazia mingau pra mim, sabe? Me tratava como filho mesmo dela. Eu fiquei muito grato a eles e sempre fui grato a eles por isso. Mas o doutor Aflávio, eu disse a ele: "Olha, eu não posso ficar aqui em Santos..." O Santos treinava uma vez só por dia, sabe? "Eu não posso ficar aqui, ficar aqui o dia todo livre aí, me arruma um emprego aí, tal." Me arrumou no Sesi, num ambulatório médico e dentário lá no Canal 4. Eu era escriturário, fazia inscrição da moçada lá, às vezes dava até uma camaradinha, porque eu não tinha muito direito, mas eu ficava com pena. Depois eu falava com o meu chefe. "Olha, eu inscrevi aquela senhora lá, mas ela não..." E ganhava ali e pagava a dona Teresa, entendeu? Então meu dinheiro do futebol... Naquele tempo minha família já estava numa fase difícil, então eu mandava pra eles, jogando. A minha chegada aqui em Santos foi... A minha expectativa foi, sabe? Eu vim com um tio meu. Passou aqui, quando chegou no... ali, pensei que o campo do Santos era aqui, eu queria saber aonde era... Fui ficar aqui na Praça Washington, no hotel Washington, que é ali. Três dias, ninguém falava comigo. Comuniquei ao Santos: "Olha, cheguei." "Oi, chegou? Pode ficar aí." (risos) "Escuta aqui, eu não vou ter nada? E o contrato?" Fui lá com o doutor Aflávio, ele falou: "Não, eu vou ver aqui." Telefonou e disseram: "Olha, o contrato está aí pronto, tal, não tem problema." Não saiu o contrato, eu falei para o meu tio: "Olha, eu vou treinar sem contrato. Ah, vou treinar." Aí eu fui lá pra Vila. Cheguei lá, era o amador que estava treinando. Eu falei: "Amador não, estou cansado de amador. Eu vim pra jogar na equipe profissional." Eu até hoje não sei como eu consegui falar isso para o senhor, o senhor que me recebeu. "Ah, eu não vou jogar no amador." Eu não sabia, eu não falava “não”! Mas uma coisa me teve... Hoje eu sei que foi ele que estava encaminhando. Falei: "Não, eu não vou. Eu vou para o profissional, mas para o amador eu não vou. Lá em Minas eu estava com contrato profissional, eu vim aqui pra jogar no profissional." "Ah, então não tem problema, o senhor vem amanhã." Eu digo: "Ótimo." Fui treinar no profissional, era treino físico, lá, tem... geralmente às vezes vinha do clube, o pessoal: "Mais um." R - Fiquei de lado lá, estava fazendo a física, o Artigas era o treinador. Era o treinador, tinha assumido aqueles dias, mas ele não era oficial mesmo. "Você é de onde?" "Eu sou de Minas." "Ah, mineirinho?" Ele tinha sido jogador, o Artigas. Era famoso. Aí ele falou assim: "O treino coletivo é amanhã, às 15:00 horas." Às duas e meia eu estava lá, eu no vestiário, o seu Rocha, mais tarde ficou grande amigo meu, o maior mordomo do futebol que eu já vi, o seu Rocha, sabe? Ele pegou uma chuteira e falou: "Se o senhor vai jogar com essa o senhor não joga bola. Essa chuteira joga sozinha." Eu perguntei: "Por que?" Ele falou: "É do Anestounio, o Antoninho Fernandes." "Tá bom." Eu estou sabendo quem é o Antoninho? Pra mim o Antoninho era um jogador como outro, mas o Antoninho não era um jogador, o Antoninho era o dono do time, era a estrela, era figura. Aí eles formam o time lá pra treinar, olha quem eu vou marcar: o Antoninho. Eu falei: "Puxa vida!" Eu já conhecia, eu conhecia o Antoninho, eu sabia que ele era o bom, mas pra mim ali agora ele era um jogador como outro qualquer. Formaram o time de aspirantes... Olha, foi Deus que estava treinando. Ele que estava... O que eu fiz no treino foi brincadeira, entende? Eu fiz o que eu queria fazer. Com 20 minutos o Artigas me encostou e perguntou: "Escuta, você já assinou o contrato? Precisa ir lá, quando terminar aqui você vai lá." Aí eu pensei comigo: "Agora estão correndo. Fiquei cinco dias aí parado, aí." E foi assim, assinei o contrato, o Santos cumpriu comigo tudo direitinho, eu assinei a proposta de sócio, sou sócio até hoje... quer dizer, sou sócio de carteirinha, pagava cinco reais. Sócio de carteirinha, e mais tarde comprei título do Santos, de um tempo pra cá não pago mais porque.... Até tive perguntando ao Alfredo qual é o meu número de sócio lá, por curiosidade, sabe? Não sei se... Mas eu devo estar ali, na velha guarda. Então comecei ali uma caminhada, sabe? P/1 - Qual era o time nessa época? R - O time jogava o Leonídeo, Élvio, Expedito, Dinho, Nenê, Telesca, Pascoal, Alemãozinho, Antoninho, Paulo, Odair. Um ou outro jogador entrava aí. Entrava o Zeferino, no time de aspirantes tinha o Nando, eram uns jogadores assim, que sabiam sair. Então era uma equipe que não... chegava o quinto, sexto, sétimo lugar o Santos, no campeonato. Era um time médio. Jogadores já com 25 anos acima, sabe? Vinte e seis, 27, 28... Eu cheguei com dezoito, e eles me protegiam, sabe? Eles me protegiam. O cara fazia uma falta violenta: "Olha, se tocar no garotinho..." Entende? Eu achava aquilo uma coisa formidável, é por isso que eu adoro aqueles caras. Os que foram, os que estão aí. Eles me ajudaram barbaridade! Teve um jogo contra o Corinthians que eu fraturei o pé numa jogada com o Baltasar, um jogo amistoso, aí. Logo de início, o meu segundo jogo do Santos. O primeiro eu não joguei nada, foi contra a Prudentina. Eu estava nervoso, eu fiquei nervoso no jogo, joguei mal. Aí teve esse do Corinthians, a noite, aí na Vila e eu estava jogando muito bem. Eu fui fazer uma cobertura, o Baltasar chutou a bola e pegou meu tornozelo, fraturou meu tornozelo. Quando eu fiquei bom eu voltei a jogar contra o Corinthians. Coincidência. Aí também. Então a hora em que eu entrei em campo eles vieram me ameaçar, sabe? "Olha, o Baltasar vai te quebrar outra vez. Toma cuidado que não sei o quê." Me intimidando. E os jogadores do Santos viram e ouviram isso e partiram para a revanche. "Se encostar no garoto..." Aí eu ficava em vantagem. (risos) Mas foi uma época boa por isso. O Santos tinha um time muito bom, as pessoas muito boas, sabe? Um clube muito bom. Aí na Vila as famílias, naquele tempo não tinha televisão, reunia na calçada, as cadeiras na calçada. Então a gente conhecia todo mundo, a gente convidava pra almoçar... sabia que era de fora: "Vem almoçar aqui em casa com a gente." Então tinha muito disto. É um clube que cativava a gente, a mim principalmente, sabe? Eu me sentia bem aí toda a vida. Sempre me senti bem. A sede era na cidade, depois passou para a Vila. A sede era em Itororó. P/1 - Que lembranças o senhor tem lá da Itororó? R - A Itororó? A Itororó é o seguinte, era naquele prédio ali que tem até hoje, no primeiro andar parece que era uma casa de jogos, de carteado, no segundo andar a sede do Santos. Simples, sede assim pra... o pessoal trabalhava lá, mas eu nunca vi um lugar tão limpo como aquela sede, um casarão daquele. Depois é que a gente percebe as coisas, sabe? Eu conheci o seu Anestounio que trabalhava lá, que era o responsável por aquilo, um espanhol, aí que eu vi que era por ele. Era um espelho, a sede. Eu gostava de lá porque às vezes os meninos ofendiam, eram meninos, e tinha os outros lá que trabalhavam. Eu gostava de lá, a gente era bem tratado, então é só lembrança boa que eu tenho da Itororó. Tinham dois ou três jogadores que estavam querendo vale, queriam o vale. Então ficavam lá embaixo no bar, o bar Mundial. É Mundial hoje aquele bar debaixo? Chamava bar Mundial. Eles ficavam ali até o cobrador vir: "E como é que é? Como é que foi hoje?" "Hoje tá fraco." Os caras queriam morrer. (risos) "Não, hoje tá bom, hoje tá bom." Então ele levava o dinheiro, eles iam lá e faziam vale, sabe? Mas isso era todo dia! Então é a lembrança que a gente tem. Naquele tempo o programa era difícil, ganhava pouco, não podia gastar muito não que... E Santos também me chamou a atenção o comércio, o centro. Totalmente diferente lá de Belo Horizonte. Totalmente! O centro de Santos, tal, a forma de viver aqui. Tudo diferente, sabe? O falar... A primeira coisa que eu senti aqui foi a pronúncia. O pessoal falando aí, isso é típico mesmo. E da mesma forma o pessoal comigo, o sotaque mineiro. Eles comentavam isso. P/1 - E as recomendações que o seu pai fez? R - Ah, cumpri à risca. Se não foi totalmente à risca pelo menos acho que ficou ali. Porque, vou te contar, eu tive problemas, porque eu frequentei muito o Gonzaga naquela época... o Gonzaga era como se fosse cidade do interior, tinha a praça no centro, fazia o footing. Era ali. As moças passeavam na calçada e os rapazes ficavam na rua. Então aos domingos, por exemplo, a gente ia pra lá e era como se fosse uma cidade do interior. O que diferenciava mesmo era o mar. O mar... eu com 18 anos nunca tinha visto o mar. Que vergonha, viu? Fiquei com uma vergonha! Mas a sensação. A gente se sente mesmo. Vocês são daqui e tal, nascidos com o mar aqui, vocês não sentiram isso, mas quem vem de fora, que nunca viu e que já tem assim uma consciência e vê ele, sente, sabe? A pessoa sente. E até hoje, o respeito que eu tenho pelo mar, a beleza que é. Então Santos é uma cidade que me cativou pelo povo, pela forma que me trataram sempre, pelas amizades que eu fiz, pela simplicidade do pessoal... Naquele tempo tinha muita... na Vila, as ruas ali na Vila eram todas sem asfalto, era areia. E tinha os chalés, chalés muito bacanas, chalezinhos. Todo mundo ia no chalé, até pouco tempo, até está escrito chalé ainda, de madeira, o pessoal, muitos amigos meus moravam ali. "Vamos embora." Eu boiava com o negócio de... tudo que era do mar eu boiava. Não sabia, só acompanhava. Mas aproveitei bem, também. Caranguejo... Entende? As barracas nas pedras dos rios, interessantes também, me chamou atenção. Você vai nos lugares... Santos é tradicional. O porto..., enfim, era uma cidade muito boa e que o Santos pra mim passou a ser o primeiro... Eu era Fluminense e Cruzeiro e passei a ser Santos, Fluminense e Cruzeiro, sabe? O que mais me cativava no Santos e o que mais me pregava era o uniforme do Santos. Branco, todo branco. Sempre foi lindo, sempre foi uma coisa... Eu sentia pureza, sabe? Pode ser que os torcedores assim, não comentem isso, mas eu sentia isso, sabe? Eu estudei no... quando eu cheguei, além de me arrumarem emprego... "Ah, eu preciso estudar." "Então vamos para o colégio Santista." Fui lá. Aí me apresentaram o irmão Acácio. O irmão Acácio era doido por futebol, ele me perguntava: "Agora o meu time está bom e tal." Ele não queria saber de nada. Vários colegas meus que estão aí até hoje eram colegas meus de sala, mas eu não pude continuar o estudo lá, porque no primeiro mês o Santos se concentrou. Ficamos 20 dias fora. "Como é que eu vou acompanhar." Não dava pra acompanhar. P/1 - Pra onde a excursão? R - A excursão? Longe pra chuchu. Nós fomos a Juiz de Fora, Belo Horizonte, de ônibus. O ônibus saía da Itororó. De ônibus fomos à Juiz de Fora, eu joguei contra a Seleção de Juiz de Fora, fizemos três a um, me lembro como se fosse hoje, três a um, e eu joguei no lugar do Tedesca. Aí foi pra Belo Horizonte. Quando eu cheguei a Belo Horizonte o Cruzeiro me impediu de jogar porque o passe não era do Santos, mas naquele tempo não tinha isso. Eu vi... e eu assinei contrato de profissional, e o Santos pagou 1500 cruzeiros pelo passe, depositou. Então era fácil o jogador passar de um clube para o outro, o amador. Mas o treinador me falou: "Olha, não joga. Fica fora. Vai criar problema com eles." Eu digo: "Ah, tá bom." E não joguei. Só joguei em Juiz de Fora. Quando nós voltamos fui lá no colégio: "Irmão, como é que eu posso estudar?" "Não, dá jeito, tem jeito, tal, tal." E aconteceu o seguinte, o irmão Acácio ficou com um amigo meu, ele era muito conhecido do resto da turma, alguns jogadores do Santos, do Aspirantes estudavam lá. Então numa das excursões do Santos eu trouxe pra ele uma caneca de chope da Alemanha, que eu vim da Alemanha, grande assim, e trouxe pra ele de presente, e ele tinha que ir para o Paraná, lá no interior do Paraná, não me lembro bem qual a cidade agora. E ele fez uma rifa da caneca, apurou o dinheiro e construiu numa praça um chafariz, sabe? E trouxe fotografia pra mim... "Olha aqui a caneca, o que deu." (risos) Nós fizemos uma festa lá. E eu fiquei contente porque serviu a caneca, o presente. Os colegas aqui do Santos, gente boa. Eu estou falando e vocês estão caladinhas. (risos) P/1 - A gente está ouvindo. R - O que eu vou falar agora? P/1 - Agora o senhor vai falar dessas campanhas do Santos, das suas campanhas. R - O Santos foi um time que teve uma diretoria muito boa, todos eles, não só como pessoas, mas como administradores também. Falam: "Ah, o Santos foi mal administrado." Não foi não. As dificuldades eram enormes, entende? Agora tem o time, o time tem muito dinheiro. E o Santos vivia pedindo ao comércio, café, entende? Era coisa desagradável. E aos poucos nós fomos reformulando a equipe. O seu Rômulo chegou e começou a reformular a equipe, porque quando eu cheguei veio o Tite. Um ano depois, um ano e pouco veio o Zito, já tá reformulando. Depois veio o Urubatão, sabe? Quer dizer, aqueles mais antigos foram ficando fora e foi reformulando sem sentir. Depois veio o Vasconcelos da Portuguesa Santista, da mesma idade nossa na época. Trazia o Walter lá do Ipiranga, trouxe o outro treinador que veio a ser o Aymoré Moreira. Foi o homem que eu senti que ele ia... ele tinha muita sensibilidade, conhecia de futebol, ele falava muito, então ele era conhecido em São Paulo por falar muito, por falar muito, mas aqui no Santos ele caiu num clube pra ele, sabe? Um clube que estava pra ele. E começou a reformular. Veio o Manga, sabe? Até que o Aymoré foi embora e o Lula assumiu. Nesse meio tempo aí teve um treinador italiano que foi colocado aí pelo seu Puccina, chamava-se José Puccina. Não sei se já ouviram falar. Seu Puccina esteve aqui, mas ele não deu sorte, tal. Queria comparar o Santos com aqueles clubes italianos, não deu sorte por isso. Até que assumiu o Lula. E o Lula era uma pessoa que tinha um relacionamento conosco, bom com todo o grupo, ele era treinador, brincalhão, tal... O primeiro jogo dele nós fomos jogar contra o São Paulo no Pacaembu, um jogo à noite e o time estava todo desfocado. E nós fomos jogar, ele falou: "Não tem problema." Numa tranquilidade! Ganhamos o jogo de um a zero. Ele falou: "Tá vendo? Tem que acreditar, eu sou tranquilo." E com essas brincadeiras ele foi ganhando a amizade e a confiança dos jogadores. Subiu Del Vecchio, subiu o Pepe, contratava jogadores novos, o Pagão foi um dos casos, veio o Coutinho depois... Então foi reformulando aos poucos, de repente o Santos já é um grande time e eles não estavam sabendo, porque em 55 o Santos já era do Esquadrão, foi Campeão Paulista. Em 54 já era time de alto nível, em 55 foi campeão... Em 54 não foi porque, já pensou, o Santos ser campeão no IV Centenário de São Paulo?! Não ia dar certo. E em 55 foi bom o time, em 56 foi a melhor equipe do Santos. Aí você vai me perguntar: "Puxa vida, mas como é que foi a melhor equipe? Não tinha Pelé, não..." Não tinha não, não tinha Pelé, mas eu digo equipe, não individualmente. Em conjunto, sabe? Se jogava assim, sem olhar. Na época era Élvio, Ivan... O Ivan era um dos jogadores, uma sumidade. O Ivan foi o melhor lateral-esquerda do Brasil. Ele não tinha prestígio aí porque eu não sei o que aconteceu com ele, eu não vou nem comentar isso, eu não tenho esse direito, mas ele foi excepcional jogador. Então formava Élvio e Ivan. O Ramiro, que era aqui do Guarujá, irmão do Álvaro, tinha ido para o Fluminense e voltou para o Santos a convite do Lula. Foi jogar na meia-direita, não deu certo. E um jogo que nós estamos disputando aqui contra, se não me engano, a Ponte Preta, o Sávio era lateral-direita, o Ramiro meia-direita. A Ponte Preta faz três a um no primeiro tempo e o Sávio brincou com o ponta-esquerda da Ponte, e o juiz expulsou. E agora? Naquele tempo você não tinha aquele banco de reserva, jogava com 11 só. Aí ele colocou o Ramiro de lateral, nós com dez viramos o jogo para cinco a três no segundo tempo. Aí apareceu o lateral-direita que precisava, foi o Ramiro. Formou comigo e com o Zito a intermediária que eu escalava aí. A imprensa, os torcedores do Santos badalavam... porque aqui em São Paulo, que eu considero, considerei o melhor. Então uma pessoa com Ramiro, Formiga e Zito, um santista achava que antes estava melhor. E realmente essa intermediária sustentou a equipe uma boa parte do tempo, sabe? Em 56 veio o Jair, já tinha o Álvaro, Delvecchio, Tite, Pepe subiu... era uma equipe excepcional, a de 56. Aí o Santos em 57 entrou o Pelé. Aí veio a fase, outra fase, Pagão-Pelé, que foi maravilhosa. Neguinho chegou todo... Inclusive eu tenho uma passagem, eu tenho uma mágoa desse assunto aí, não sei se a gente deve falar isso, uma mágoa que eu tenho, sabe? Bobagem. Hoje eu chego à conclusão que isso aí foi - eu vou falar - foi mais vaidade minha. A gente não devia fazer isso não. É o seguinte, apareceu uma... tinha uma revista de esporte e ela quis fazer uma reportagem com o Pelé, tá? E pediu para nós jogadores tirarmos duas fotos... Pelé driblando um, Pelé chapelando o outro, Pelé passando a bola no meio das pernas de outro e fazendo gol. Existia naquela época um companheirismo excepcional. Nenhum de nós se negou a fazer. Eu me lembro como se fosse agora, trocando de roupa, foi para o campo e eu não sei que revista, uma revista... O Esporte. E houve a jogada. O Pelé veio e pó, pó... Formiga ele pó, pó... Élvio ele pó..."Ótimo, muito obrigado, tal, tudo bem, tudo bem." A revista sai. Então o cara da revista, ficaram assim. No primeiro treino do Pelé da Vila ele deu um passeio e não foi bem, ele esculhambou a moringa. Eu era profissional, entende? Não tinha acontecido isso. Eu era profissional. "Pô, ele é teu parceiro, hein?" Entende? E aquilo foi me machucando, foi me machucando. Eu também tenho... Não aconteceu. Passou tudo que eu falei dava pra ele, Pelé. Ele nem percebeu, nem percebeu isso. Não, eu acho que ele percebeu. Outro dia ele deu uma declaração, ele comentou isso. "É, foi mesmo. Foi nada, isso tá esquecido." Mas então o tempo passa. Aí vem o cara filmar como era a vida do Pelé, primeiro filme aí na Vila: "Fulano, me ajuda aqui, colabora aqui, 100 dólares. Pagão, pô, 100 dólares eu estou pagando, tal. Fulano, beltrano, cicrano..." Pode ver o filme, eu não apareço no filme. Ele perguntou pra mim: "Oh, Formiga, tudo bem?”. R - "Oh, coopera com a gente aí, eu não quero de graça não, eu estou pagando 100 dólares." "Nem se você me der um milhão de dólares eu não faço, porque é isso, por isso, isso, isso", expliquei. E eu vou confirmar. Não faz falta pra mim, tem outros caras aí que fazem. Eu não sei se eu estava certo ou se eu estava errado, mas eu não participei do filme. Tem coisas que a gente tem que viver. Vitórias... Beleza! Televisão, com tudo, o Santos jogando na Europa, porque em 56 nós não fomos pra lá, em 56. P/1 - Você não tinha feito nenhuma excursão pra fora ainda? R - Fizemos, tinha feito uma excursão pra Argentina em 53. Jogamos bem lá pra chuchu, mas ninguém soube. Cinquenta e não sei que no Peru. Ganhamos de todo mundo, ninguém soube. Até que veio para a primeira excursão em 59, depois da Copa do Mundo. Aí todo mundo soube, todo mundo viu. No ano seguinte novamente pra lá, até que a partir do jogo dos Champs Elysées, do Santos com o Benfica... que no dia seguinte o jornal traz: "O rei do futebol." Até, aquele dia o francês disse: "O Pelé é o rei do futebol." Aí pegou o apelido: "O rei, o rei, o rei." Foi ali naquele jogo. E nós andamos lá, era o cartão de visita, entende? Aonde ia, portas abertas, ele não tinha sossego, ele não podia sair do hotel, essas coisas todas. A gente tem que dar valor, à figura dele como jogador... como companheiro foi excelente. Eu, por exemplo, não tenho queixa de ninguém. E dele muito menos. A gente às vezes escuta aí... mas eu particularmente, eu acho que ele está na dele. Todo mundo tem a sua chance de jogar, de aparecer, uns mais, outros menos. Eu, por exemplo, tive oportunidade de jogar, eu sei a minha condição qual era, entende? Eu sei o que eu fui. Eu poderia ter sido muito melhor, sabe? Se não tivessem sido alguns erros que cometeram comigo, de tratamento, sabe? Porque eu era muito magro, tinha problema nasal, sempre fui tratado como débil, fui operar o septo muito mais tarde... eu operei o septo, engordei seis quilos rapidamente. Então, essas coisas tinham que ser vistas antes. Mas naquele tempo não tinha os olhos pra isso. Hoje não, você vê que os jogadores juvenis já começam a ver as deficiências deles pra corrigir. E eu poderia ter sido muito melhor. E outra coisa também, nunca fui de querer aparecer, sabe, de sair na foto... se eu voltasse a jogar hoje eu ia ser assim, cara de pau. (risos) Ia voltar, tá aqui, olha. Entende? "Cheguei." E eu não era disso, eu me escondia, não saía na foto, sabe? Mas tá errado, o cara, profissionalmente, ele tem que lutar de todas as formas. Profissionalmente ele tem que buscar. E desse aspecto aí eu falhei muito. Agora, eu tive uma fase no Palmeiras, o Santos vendeu o meu passe, foi o passe mais caro do futebol brasileiro... P/2 - Foi quando isso? R – Cinquenta e sete, foi. Palmeiras se interessou, o Santos... Eu estava com problema no joelho, ia operar o joelho, de São Paulo, não queria que me vendesse, mas o Santos achou que devia vender, o seu Rômulo disse que tinha que vender. Eu ia ser operado, eu acho que ele pensou assim: "Pô, ele vai ser operado..." Aí o Palmeiras, dois milhões, o Jair e o Laércio. Foi de todas as somas, mais cara do futebol brasileiro naquela época. Pra mim o meu contrato foi o maior contrato da época. Foram 700 mil... eu não sei mais, acho que cruzeiros, de luvas, sabe? Era uma importância muito grande. Aí eu fui para o Palmeiras. Operei o joelho. O ano de 57 quase todo ele eu fui recuperando. Eu tinha muita atrofia no joelho de uma perna porque eu joguei muito tempo com o joelho machucado, então atrofiou bem. Eu fazia recuperação lá, essa coisa... foi um trabalho muito difícil. Então, em 57, eu quase não joguei. E os palmeirenses ficaram com bronca comigo, que eu fui lá pra me tratar, que eu não joguei, que eu não queria jogar lá... não foi nada disso. Eu fiquei dois anos lá, tenho as fotos, pode ver, era capitão da equipe, mantive a minha posição sempre, em 58 continuei jogando no Palmeiras, fui convocado para a Seleção Brasileira, Copa do Mundo, Sul Americano, tudo isso aí jogando no Palmeiras. Mas não tive sorte. Lá o time não era bom, muita confusão, sabe? Muito diz-que-diz, um jogador querendo sobressair mais do que o outro, o clube uma potência. Naquela época então! Dinheiro é que não faltava, sabe? Eles se reuniam... "Ah, fulano, então reúnem..." E assim foi. No segundo ano eu joguei bem lá, mas quando terminou o contrato eles já estavam com a idéia de vender o meu passe. Eu senti isso depois. Eu fiz a proposta deles, eu achava que o Júlio Botelho tinha levado o contrato, e do Palmeiras, na Seleção, era só o Júlio e eu. Então eu falei: "Não, eu faço contrato igual do Júlio, o Julinho." Aí o doutor Mário Friginelli disse que não tinha dinheiro pra isso. "Tudo bem então. Não se faz contrato?" Aí apareceu Corinthians e Santos. O Corinthians veio aqui em Santos, antes do Santos falar comigo, que eu via o Santos. E o Corinthians veio falar comigo também. Mas o Corinthians veio de uma forma violenta, o Corinthians. Ele colocou, o vice presidente do Corinthians ficou rodando a manhã toda no Canal 3, ali aonde eu morava, até me encontrar. Trouxe o repórter, a camisa do Corinthians, enfiou a mão no bolso, tirou o talão de cheque e falou: "Pode pedir." Olha! Eu falei: “Puxa vida, hein? Fui dar a palavra para o Aristóteles...” Tinha dado a palavra para o seu Aristóteles, estava noivo aqui, sabe? No Corinthians ia... Era a minha redenção! (risos) Mas aí eu comentei. Falei: "Não, infelizmente eu dei a minha palavra ao Santos, vou consultar ao Santos amanhã, se ele estiver com a mesma idéia ainda, tudo bem. Se não estiver eu lhe procuro." Mas o Aristóteles disse: "Não, vamos te contratar, tal, pá, pá..." Fizeram uma cera tremenda, abaixaram o preço do meu passe, compraram até o Estação. Grande diretor, viu? Grande figura! E eu voltei para o Santos assim. Eu também queria voltar para o Santos. Eu ia me casar aqui, tudo... Ficava em casa. E realmente isso aconteceu, vivo feliz da vida. P/1 - O senhor vai contar pra gente como é que foi que o senhor conheceu a sua esposa, então. R - Eu conheci lá na Vila. Quer dizer, eu a conheci. (risos) Ela me conhecia como jogador. Ela tem diferença de idade, naquela época era grande, dez anos. Ela era menina lá, tal. Mas o tempo vai passando, passando, foi me chamando atenção, até que eu procurei, fui falar com ela. Aí a família muito boa, gente boníssima. Ela estudava no colégio São José, e assim foi. São 40 anos de casados. Temos quatro filhos, dois homens e duas mulheres, todos formados, todos exercendo as suas atividades aí, e eu continuo com o futebol, porque fiz muito no futebol, mas eu acho que ainda tenho pra fazer, sabe? O grande mal do Brasil é o seguinte, é que às vezes as pessoas menosprezam o que a outra pessoa pode fazer, sabe? Eu estou com 68 anos. Eu nunca liguei pra isso: "Eu estou com 68 anos, puxa vida!" Entende? No meu tempo, quando eu era garoto uma pessoa com 50 anos estava velha. Então nossos tempos mudaram. O nível de vida hoje é muito elevado pra você. Tanto aqui como em outros países de primeira linha. Pô, eu estive no Japão no ano passado e no Japão uma pessoa de idade é mais respeitada ainda, e aqui no Brasil você encontra dificuldade. Eu acredito que às vezes eu tenho dificuldade de trabalhar por causa disso, sabe? Depois que eu estou velho... Então ainda... Daqui a pouco eu descanso. Graças a Deus eu tenho uma saúde boa, então tenho que trabalhar para o futebol que é o que eu sei fazer. Outros meus colegas estão trabalhando ainda, e eu também quero. Eu estou conversando aqui, eu não sei se eu pulei alguma coisa. P/1 - Não, a gente vai voltando. P/2 - A gente vai voltar. O senhor voltou para o Santos. R - Agora? P/1 - Não, o senhor voltou em 59... A gente estava conversando aquela hora sobre 59. R - É, eu voltei para o Santos, voltei a jogar na equipe, o time estava bom ainda, o time estava muito bom, e eu com o problema no joelho. De vez em quando eu tinha problema, sabe? Então a minha atuação não era constante. Muitas vezes parava, tinha... Quando tinha jogos no meio da semana eu tinha que ficar fora, porque o joelho inchava muito e não dava tempo de recuperar, então eu ficava fora. Mas o Santos tinha um outro bom jogador na posição, o Calvet, que veio jogar depois. E eu talvez por este motivo acabei, depois de 62, a começar a desanimar um pouco, sabe? Porque eu sentia dores no joelho e isso me prejudicou no final. Mas o ambiente do Santos continuou o mesmo, não teve problema nenhum. Mudança de diretoria, sempre mudando... P/2 - Conta pra gente um pouco sobre a campanha da Libertadores e do Mundial de 62. O senhor participou? R - Eu participei da Libertadores. Participei dos jogos da Libertadores, essa coisa toda, joguei... só não joguei a final lá em Lisboa, jogou o Calvet. Até naquele jogo houve uma surpresa com relação ao Olavo, que o Olavo não estava escalado. Estava escalado o Lima e o Mengálvio na meia. No dia do jogo tiraram o Mengálvio, colocaram o Lima na meia e colocaram o Olavo de lateral. Na hora do jogo! Mas a diferença de equipe era muito grande, sabe? O Santos era muito melhor que o Benfica, o Benfica era bom, mas normalmente não daria pra jogar. E a Copa do Mundo de 58 eu fui convocado. P/1 - Ah, isso que eu ia perguntar. Eu ia perguntar da Seleção. R - Eu fui convocado e era titular. Tive uma passagem até interessante aí. Eu, quando fui convocado que nós nos apresentamos em Poços de Caldas, a Comissão Técnica da Seleção Brasileira, inclusive o doutor Paulo de Carvalho, eles se reuniram dentro do hotel e mandaram me chamar que queriam falar comigo. Fui lá. Falou: "Olha, você é um jogador que nós contamos na Copa, então aqui em Poços você não vai jogar futebol não. Você vai só fortalecer o joelho lá nas Clínicas e não vai treinar aqui, mas não se preocupe não." Porque eles faziam a escalação, saía a escalação na véspera do treino, primeiro, segundo e terceiro time, sabe? Então houve dois treinos aí em Poços, aí nós fomos para Araxá. Aí disseram pra mim: "Olha, você vai começar a treinar agora." "Tá bom. Minha terra, minha gente!" Eu estava feliz da vida, sabe? Porque minha mãe morava em Belo Horizonte com as minhas irmãs, foram todos pra Araxá, cheio de parente pra me ver. Eu estava satisfeito, pô. E o psicólogo da Seleção preocupado: "Olha, o seu pessoal tá aí, mas você não fica nervoso não." (risos) Eu falei: "Eu estou tranquilo, rapaz, pode deixar." Nós fomos para o estádio, então fazer aquecimento. Estava um dia, um dia que caiu a temperatura um pouco e eu olhei aquilo lá e falei: "Que coincidência. Coincidência não, o estádio que eu treinei lá a primeira vez na reserva." Aquele mesmo campo, eu vi construir aquilo! Aí eu falei: "Puxa vida, estou com a Seleção Brasileira aqui. O que a minha mãe deve estar pensando ali." Bom, acontece que eu estava fazendo o aquecimento, entra o Prefeito de Araxá - era meu primo, o Prefeito. E ele veio de Araxá prestar homenagem, sabe? Queria prestar uma homenagem. Aí ele chegou lá e eu parei de aquecer. Fiquei ali parado feito um dois de paus. E ele fez o discurso, aí a moça me deu as flores, tudo bem, puxa vida, agradeci... quando eu olho os times estão formados pra começar o treino e eu estou frio. Me deu uma distensão na virilha, bem em cima. Uma chave. Fez "pá" - um barulho assim, sabe? E eu falei: "Puxa vida, olha aí." Mas segurei. Aí quis correr, doeu, eu chamei o paramédico: "Vai, tem esse problema aí, tal." Aí ele vem: "Não foi nada, não foi nada..." "Não foi nada mas eu estou sentido dor." E eu não podia me movimentar, segurei por um tempo todo, meio tempo, assim, só... Aí lá falei para o doutor, no vestiário: "Aconteceu isso, isso, isso, isso." Me cresceu um ovo aqui na perna assim, um ovo, sabe? "Sai, tal." Aí eu não saí. Dali nós fomos embora para o Rio e tratamento, tratamento, tratamento. Houve um jogo amistoso na Seleção, houve outro, dispensaram uma turma de jogadores, e eu estou lá. Ninguém tocou em mim. Aí teve outro jogo, e eu nada de melhorar. E eu olhava aquele ovo, aí eu falei para o doutor: "Olha, eu estou com problema na perna, doutor. Eu faço tratamento duas vezes por dia e não melhorou. Olha, me dispensa, vai." Pedi dispensa, sabe? Um risco enorme, maior risco que eu já fiz... Acho que foi a maior que eu já fiz até hoje. "Não, Chico, fica aí." "Não, me dispensa. Eu faço tratamento e não adianta nada, me dispensa." Aí quando foi à noite me dispensaram. Eu era jogador do Palmeiras. Aí eu fui lá. Eu falei para o Brandão... O Brandão era o treinador: "Eu estou com um problema aqui na perna, tal, eu pedi dispensa." "Pô, você é louco? Pedir dispensa? Olha, vai com o massagista do Corinthians e fala com ele que eu te mandei lá." É, o Osvaldo me mandou ir falar com o..., porque ele tinha trabalhado no Corinthians, ele tinha trabalhado no Corinthians, tinha sido campeão lá, uma pessoa respeitada. E a Seleção ia jogar com o Corinthians dois dias depois. Nós estávamos na Segunda-feira. Quarta-feira ia jogar contra o Corinthians no Pacaembu. Peguei e fui lá na casa do camarada. Ele ainda brincou comigo: "Eu não vou te atender porque é Palmeiras." Aí me atendeu. Ele colocou aquele ovo, na hora que esticou a mão, fez aplicação quente ali e falou: "Passa a mão." Passei a mão, não tinha nada. "Doeu?" Ele falou: "Pode me xingar. Passa a mão. Você mora em Santos?" "Moro." "Então amanhã é Terça-feira. Vai na praia, põe um pouco de areia aí, úmida, deixa o sol bater aí, não faça exercício, quarta-feira pode ir treinar no Palmeiras." "Ah, você está brincando?" "Quarta-feira feira pode treinar no Palmeiras." Vim pra Santos, fiz o que ele mandou. Fui na praia ali no Canal 3. Areia, sol quente... Não sentia nada, não sentia dor nenhuma, não tinha nada de anormal, tudo normal. No outro dia de manhã estava ok, peguei o ônibus, Parque Antártica: "Ah, eu vou treinar." Eles estavam treinando, dando dois toques. "Eu vou treinar, dar dois toques." Não senti nada. Aí eu entrei em parafuso, sabe? Eu falei: "Puxa vida, eu estou bom. Porque é que eu fui pedir dispensa? Eles vão jogar amanhã. Hoje à noite, aliás, Quarta-feira. Eles vão jogar à noite, eles estão lá no hotel... perto da Federação, aquele hotel..." P/2 - Danúbio? R - "Danúbio. Eu acho que eu vou lá. Ah, eu não vou, eu fico com vergonha. Ah, mas poxa..." Eu queria ter ido, sabe? Se eu tivesse um amigo que falasse comigo: "Vamos lá, rapaz. Chega lá, se apresenta. O cara pergunta, você fala: 'Eu já estou bom.' Eles te voltavam, pô." Entende? Eu não falei pra ninguém. À noite escutei o jogo pelo rádio, Corinthians e Seleção, eu bom e dispensado, tá bom? Se foi uma tristeza que eu tive no futebol foi essa aí. E depois quando foi na Inter Clubes, dos clubes, eu estava fora também. Eu fiquei machucado, me recuperando, fui na reserva. Toda decisão grande assim no fim acabei ficando fora. Isso me chateou muito. Até que foi um dia que entornou o caldo. E eu parei de jogar antes da hora. Mas foi bom, foi uma carreira boa, limpa, entende? Com colegas, com os diretores, com torcida, nunca tive problema com ninguém... Ganhei algum dinheiro, perdi dinheiro. Perdi! Não tenho nada que falar. Em negócios, perdi. As luvas do Palmeiras foram perdidas em negócio, entende? Eu estava numa situação boa, tinha condições. Mas o que vale é o seguinte, é você ter feito com prazer, com alegria, ter feito bons amigos. Eu, por exemplo, tenho uma família maravilhosa, minha mulher é um encanto, entende? Meus filhos... Quer dizer, não tem problema nenhum. Ainda mais na época atual, que a gente vê problemas, famílias com filhos aí tendo problemas e tal. Eu, graças a Deus não tive nada disto. Me sinto bem, me sinto à vontade, gostando do Santos cada vez mais. Meu filho mais novo entra em casa de joelho. (risos) P/1 - Por quê? R - Agradecendo, quando o Santos ganha. Chega de joelho! É assim, sabe? E eu já não sou fanático, porque a gente que joga, você passa a ser um pouco crítico também. É lógico. Você já viveu aquilo, você sabe que é aquilo, então você... Às vezes... Ah, pô. P/1 - Você falou pra gente uma grande tristeza do futebol e eu queria que o senhor contasse pra gente uma grande alegria do futebol. Ou umas, mais do que uma, duas. R - Eu realmente tive muitas alegrias. E algumas delas assim, muita responsabilidade. O jogo de 78 com o Santos, como técnico. Foi uma alegria estonteante porque eu era treinador da equipe, em certa altura eu senti que não iríamos a lugar nenhum, foi feita uma comunicação à direção do clube, nós tomamos algumas providências... tinham duas providências a tomar. Ou contratávamos novos jogadores ou lançávamos os do juvenil. Essa foi a idéia que eu dei. "Olha, lança os dos juvenis porque nós não temos condições de contratar. O clube está sem dinheiro, nós não temos condições, pode dançar os juvenis e nós vamos te dar retaguarda." "Ah, tudo bem." Você sabe muito bem que essa retaguarda é relativa. Pode ter intenções de dar retaguarda, mas se a coisa não sai bem, e a torcida como era, vai exigir. Eu fui obrigado a fazer modificações. Mas eu mesmo não senti dessa forma, eu falei: "Não, tudo bom." Eu já conhecia o juvenil, então foi feito isso, de um momento para o outro. R - Nós tínhamos perdido no nordeste, quatro à zero do Náutico, e o Zito que era vice-presidente de futebol, ele foi junto, eu pedi pra ele ir, o que eu falei pra ele aconteceu no campo. Na volta, na segunda-feira dispensaram aqueles jogadores todos. Mas nós tomamos uma atitude muito correta ali. Em primeiro lugar não deixaram nenhum jogador ali no clube treinando lá. Não deixaram se resolver a situação dele. Por exemplo: "Ah, você quer o seu passe pelo Fundo de Garantia?" "Quero." "Então paga." Entende? Foi... Por exemplo isso aí. E eu coloquei os juvenis. E nós íamos jogar contra o Santa Cruz que era o líder do campeonato brasileiro. E ali começou a batalha dos Meninos da Vila, porque naquele jogo nós empatamos um a um, mas perdemos quatro, cinco gols, e a torcida sentiu que estávamos ficando. E ela apoiou. E eu como falo "meninos". Mineiro fala muito "meninos": "Oh, menino. Oh, menino." Eu falava: "Os meninos..." E o cara: "Meninos da Vila." Pegou também. Tudo o que falava naquela época pegava. E começou a ganhar o time, começou a Vila lá, tinha ido de fora o Batata, sabe? Célio entrou de centroavante, não estava bem, umas modificações lá atrás também, o Clodoaldo estava fora, estava o Zé Carlos, que era bom, o Zé Carlos. E aí com o negócio do Zé Carlos eu quase cometi a maior burrice. Eu tinha colocado o Pitter e Antoninho Vieira, e deixei o outro goleiro, o antigo, o Carlos Roberto... Carlos Roberto? Roberto Carlos, aí na concentração eu falei: "Puxa vida, se eu estou modificando porque eu não faço a modificação logo do outro jogador?" Aí expliquei pra ele, dispensei ele da concentração e coloquei o Zé Carlos do Nascimento. Empatamos esse jogo um a um, com moral, fez uma boa campanha, e quando nós entramos no campeonato paulista aí estava tranquilo. Contratou um goleiro bom, que foi o Vitor, nós tínhamos dois laterais já experientes e o meio de campo da frente era bom. O jogador que tinha sobrado - quase eu falo isso - era o Lira. O Santos, Palmeiras, sobrou o Lira. "Ah, o Corinthians só quer dar dois milhões por ele, é muito pouco." Eu falei... eu tinha intenção de colocar ele: "Deixa ele aí." Ele treinava a semana toda. Chegava Sexta-feira eu falava pra ele: "Pode ir pra Araras, Segunda-feira de manhã." Foram dois meses e meio, três meses assim. E ele segurou as pontas, não falou nada. Aí um dia nós íamos jogar com o América do Rio, amistoso, aí oportunidade para o Lira. Fiz a chamada na tela e coloquei o dedo no nome dele em último lugar. Chamei o Lira e falei: "Você está vendo o time jogar?" "Estou." "Você faz o que os meninos estão fazendo?" "Faço." "Então você está escalado. Se perguntarem pra você, você não sabe de nada. Você vai jogar amanhã." "Ah, tá, tá." Foi embora. Os jornalistas perguntaram, aí eu disse: "Não, é que está faltando um jogador, eu coloquei o Lira. Tá aí, pô." E no dia seguinte ele jogou. Ele numa meia, o Pitter na outra. Batata, Joari e João Paulo. Você precisa ver que espetáculo de jogo, viu? Que coisa bonita! E o João Saldanha estava assistindo o jogo e disse: "É, realmente o melhor time do Brasil." Aí ganhei o campeonato Brasileiro, mas eu tinha certeza de que a gente ia ganhar, sabe? O último jogo lá engrossou, né, porque nós ganhamos o primeiro de dois à um, o segundo nós estávamos ganhando, o Zé Roberto, o ponta-esquerda empatou o jogo em cima da hora, aí foi para o terceiro jogo, o São Paulo fez dois à zero. Nós seguramos, tal, não interessava, fomos pra prorrogação. Nosso time era bom, muito bom. Eu tenho muita saudade daquela equipe, sabe? Um time assim, alegre, treinava muito, os jogadores, todos eles assim, dando o melhor de si. Foi muito bom, foi. E tinha um goleiro lá, o Taís, que era um goleiro que o Santos tinha, chegava atrasado pra tomar o ônibus. Eu falei para o rapaz: "Isso não é possível, dessa forma. Da outra vez você vai ficar aí." "Não senhor, não vou chegar tarde não." "Tá bom." Próxima concentração: "Quem tá faltando?" "Taís." "Pode tocar o ônibus, Cláudio. Toca o ônibus." Quando eu olho assim vem vindo ele correndo lá na rua, embaixo, na rua. Correndo. Ele entrou no ônibus: "Oh, seu Chico, desculpa, hein? Sabe o que acontece? - e o ônibus andando. É que o meu relógio, é esse aqui que me perturba, é esse que não anda direito, nunca tá certo." Jogou o relógio no Carnal. (risos) O Carnal: "Uh." Pra justificar a falta dele dizia que o relógio é que não marcava certo, tal. Jogou o relógio fora. Tem umas passagens de futebol gozadíssimas naquele tempo do Santos, era um time alegre. Os menininhos desciam na chácara, lugar lindo, a chácara do Nicolau Barreto, quando ela está arrumadinha é um lugar muito bonito. O Santos não concentra mais lá, muito bom aquilo! Sabe, a gente descia tranquilo, vinha cantando, descida da serra... É, a alegria que eu tive boa foi essa equipe dos Meninos da Vila. P/1 - Mas vamos voltar um pouquinho pra falar do encerramento da sua carreira. Assim, antes de falar da coisa do técnico, falar do encerramento da carreira como jogador. R - Como jogador? Como jogador foi um pouquinho perturbado. Eu tinha assinado meu contrato com o Santos e o pagamento feito na hora, o contrato, os números, sabe? Porque lá o outro contrato que eu fiz quando eu vim do Palmeiras, o Santos não tinha dinheiro. Então o Aristóteles esperou um pouco de tempo e eu assinei um contrato quando eles me deram as luvas. E falou para o Ciro Costa: "Olha, paga o Formiga." O Ciro falou: "Olha, não tem dinheiro, quando voltar da excursão eu te pago." Voltou da excursão, nada. Fui pra outra excursão. Voltou daquela excursão, nada. E eu voltei com o tornozelo... Eu tinha torcido lá na Inglaterra o tornozelo, voltou com a perna bastante roxa, sabe? Estava em tratamento. Aí fiquei em tratamento, sem treinar, nada... um belo dia me chamou: "Você podia me ajudar hoje em Guará? - o time ia jogar em Guará. Eu vou levar o time em Guará e o outro vai jogar no Rio contra a seleção da Rússia." Eu falei: "Bom, eu estou sem treinar, como é que faz?" "Não, não tem problema, nós já somos campeões mesmo." Foi lá, tá bom. Fomos pra Guará. Quando nós chegamos lá ele me coloca no meio de campo. Ao invés de colocar de quarto zagueiro eu falei com ele, ele disse: "Não, fica aí, tal." Estava um calor muito forte e estava jogando do meu lado um garoto que estava estreando. E o garoto sentiu o jogo. Falou: "Olha, eu não aguento, tal." Pô, ele não aguenta com dezesseis anos, eu devia estar com 30, com 31. Mas eu estava indo regularmente. Não estava jogando bem não. Aí, no segundo tempo, tinha pedido pra ele: "Olha, deixa eu ficar na quarta zaga e põe o Maneco lá no meio de campo." Mas ele não fez isso. Aí me deu uma cãibra, tá? Cãibra, qualquer cidadão pode ter e eu tive no jogo. Nunca na minha carreira toda eu tive cãibra até aquele dia. E estava sendo televisado o jogo. Aí 35 do segundo tempo, o cara vem, tal, eu saí... Aí no vestiário eu estou vendo lá, o cara metendo a marreta em mim, sabe? Televisão, com detalhes! Nós perdemos o jogo de dois a um. Até o Pagão jogou esse jogo, o Dalmo jogou... Muitos jogadores do time principal jogaram. Perdemos de dois a um, mas não valia nada. Eu não escutei ninguém falar para os jornalistas: "Olha, o rapaz estava machucado. Olha, nós jogamos para cooperar." O treinador não falou: "Fui eu que pedi para ele jogar." Ninguém falou nada. Quer dizer, só o Formiga que recebeu a crítica. Recebi a crítica sem receber o dinheiro. Aí cheguei em casa e falei pra minha mulher: "Você assistiu o jogo?" "Eu vi na televisão aí, falou muito mal de você." Eu falei: "Pois é, eu sei disso." Por isso é que eu falava: "Eu vou parar de jogar, tal." Ah, faz o que você achar." "Então amanhã eu vou lá me despedir deles." Fui lá no Santos e falei para o Mourão: "Olha, não sou mais jogador. De agora em diante não quero jogar mais, não recebi o meu dinheiro, estou machucado, ninguém falou nada, amanhã estou saindo. Eu quero falar com o treinador só." Falei com ele, ele não falou nada. Fui embora, parei de jogar, ninguém perguntou porque eu parei, porque eu deixei de parar... um belo dia eu comecei a trabalhar com madeiras, com o meu sogro, representações, comprava e vendia madeiras, construção e tudo... Trouxe uma cabana, retirando uma madeira de um vagão, entrou lá o Moreira com o Lula me convidando pra voltar para o Santos, tal. Mas desse dinheiro que eu tinha para receber eu recebi 30% só. As luvas mesmo ele não me pagou. Pagou só 30%. Aí eu resolvi parar. Você vai fazer o que? E depois me chamou pra ser diretor. "Eu trabalho aqui na madeira  pra ser diretor. Diretor tem que estar com a cabeça tranquila." Dois meses depois veio me chamar pra ser auxiliar dele. Falei: “Olha, eu não vou porque você não vai deixar eu trabalhar. Vai se meter e tal, então é preferível não ir.” Mas estava me chamando por outro motivos. Até que chegou uma hora que eu fui para o juvenil. E foi a melhor coisa que eu fiz, viu? Porque trabalhei com uma rapaziada boa, muitos jogadores. Fui bem lá, ajudei a muitos e foi uma época muito boa para o Santos. Por exemplo, Fito, Memé, Léo, Fitico, Jacaré, Orlando Amarelo, Osni, Picolé... Vou lembrando assim, hein? Até o Clodoaldo treinou comigo lá. Núria... estou lembrando aí, jogadores que jogaram... Djalma Duarte... que jogaram comigo no juvenil e que foram para o profissional. Então foi um trabalho muito bom. Levei dois para o México: o Roberto, que era o melhor quarto zagueiro do México, era meu juvenil, e o Luís Anestounio, mineiro também. P/1 - Em que ano foi isso? R – Setenta e dois, setenta e três. A equipe de 70, do Santos, tinha muito jogadores na Seleção. E aqui tinha a Taça São Paulo: Santos, São Paulo e Palmeiras, parece. É. E um dia eu cheguei na Vila de manhã, o Antoninho me falou: "Olha, uns dos rapazes estão voltando da Copa e não querem jogar. Como é que eu vou fazer?" Eu falei: "Olha, abre a porta do vestiário, eles estão todos lá fora. O juvenil tá lá, pode chamar." “O que é isso?” Eu digo: "Pode chamar." Aí ele chamou. Colocou no time o Orlando, o Léo, o Nenê, o Djalma Duarte, se não me engano o Osni... contra o São Paulo! A equipe do São Paulo completinha na Vila, o Zezé Moreira no banco, o São Paulo veio completo. Quatro à um para o Santos. Esses meninos fizeram... só não fizeram chover. Djalma Duarte, Léo, Nenê... jogavam muito! Vitor... todos eles foram bons jogadores. Então o trabalho não foi em vão, foi bom, no juvenil. P/1 - E aí, depois do juvenil? R - Do juvenil teve a fase de 78 que eu te falei. Que é a dos Meninos da Vila. Depois seguimos e eu trabalhei com a equipe de 83, que foi vice-campeã brasileira, mas não tinham muitos jovens não. Não era um time velho, mas já 24, 25 anos. Perdemos lá do Flamengo, mas foi equipe boa. Gostei muito de trabalhar. Uma equipe que sabia jogar futebol. Porque a equipe que eu treino, que eu dirijo, tem que jogar bola, sabe? Tem que saber jogar. Esse negócio de marcar, ficar com quatro defensivos, não sei o que mais, retranca... eu acho que tem que jogar. Tem que tomar cuidados. Não vai... tem que tomar cuidados, mas procurar jogar ofensivo, jogar rápido. O público gosta disso, então você tem que fazer o que o público gosta. Esses treinadores ficam aí... o que adianta o Palmeiras jogar com três pivôs na trave, não sei quantos na... eu não acho bonito aquilo. Eu gosto mais do futebol do Corinthians, é mais aberto. Gosto mais do futebol do São Paulo, joga, não é? Preferência. Gosto. P/2 - E essa experiência na Arábia Saudita? O senhor teve dois times que o senhor cuidou deles lá, treinando? R - Foi ótima. A primeira vez que eu fui eu fiquei meio assustado. O árabe veio aqui, a minha família não queria ir, depois resolveram ir, aí nós fomos. A vida lá é muito difícil. A preocupação era essa aí, a vida lá. Sabe, você ter pouco... Os seus direitos são poucos. Você tem que obedecer a religião deles. A religião é que é importante. Você tem que obedecer. Mas eu confesso que eu tive sorte porque essa equipe que eu fui dirigir não ganhava nada há cinco, seis anos, não ganhava nada. Mas depois que nós fomos para a Espanha, ficamos um mês e meio só para treinar a equipe. Treinamos a equipe, voltamos, ganhamos o campeonato invicto, em primeiro. Ficou uma loucura! Uma loucura! O bicampeonato foi uma coisa de doido, eu não podia sair na rua, na Arábia. Era uma coisa. E é uma boa cidade, sabe? Quer dizer... Depois ainda ganhamos a Copa, no segundo ano. E a Copa do Rei é muito importante. Então o trabalho foi bom. A rivalidade com o Nasser é grande demais, sabe? É de família. E os presidentes dos clubes são primos, mas não tem esse negócio, são inimigos. E o Nasser ficou por cima. No segundo ano então, quando ele ganhou, pô! Tinha grandes treinadores lá, o time do Rivelino, do Zagalo, o Didi estava lá, o Mineli... Um treinador alemão, que me fugiu o nome dele agora, tinha um inglês também. Então tive a sorte de ganhar o bicampeonato. P/1 - E a adaptação lá? R - Foi boa. Foi boa porque nós fazíamos o que era preciso fazer, sabe? Lá não tem cinema, não tem bar, não tem música, não tem nada. Tem muito shopping e supermercado. O que você faz? Você tendo uma televisão boa, vai lá compra uns filmes, aluga e põe lá, pô. Assiste filme em casa. Eu fazia isso. Os meninos tinham . Pra eles foi muito bom porque eles aperfeiçoaram o inglês lá e voltaram falando francês também. Falam inglês e francês bem. Lado a lado, entende? P/2 - Eles estudavam em escola inglesa? R - Não, uma professora particular. Porque os mais velhos não tinha escola pra eles. Lá a escola é até um certo ano. Daí pra cima não tem. Mas tinha uma senhora, uma francesa, ela era professora deles. Voltaram... eles falam bem. Foi muito bom pra eles a abertura que deu também pra ver as coisas. Na volta também pra eles foi bom. Eu passeei o máximo possível pela Europa e tudo. Daí que eles conhecem tudo hoje, entende? Foi bom. E foi ter o segundo ano, voltando do... o clube e a cidade de praia. Praia... Você vai à praia lá você não vê uma pessoa na praia, uma mulher na praia. Elas não usam maiô, umas roupas todas aqui, sabe? (risos) Então é difícil. A praia dos estrangeiros era separada. Separada, a praia dos estrangeiros. Mas só pelo fato de ser praia a gente já estava achando bom. Um lugar quente! Nesse local aí construíram uma ponte que vai da Arábia Saudita pela ponte. São 28 minutos de ponte, 28 quilômetros. Porque antigamente você descia, subia e descia da Arábia, tá? De avião. Agora não, você desce, lá você vai pela ponte. Construíram a ponte Rio-Niterói... (risos) E eu vi isso lá. Tem muita coisa pra ver lá. Muita coisa, muito ouro. As casas comerciais. Ouro, ouro mesmo, não é brincadeira não. Tudo aberto. Ai Brasil lá! (risos) P/1 - E o senhor teve uma experiência também no México? R - No México foi bom também. Foi por um clube de potência. Universidade Autônoma, tem um clube muito bom, tem um estádio de 30 mil pessoas dentro da Faculdade aonde têm os jogos, mas não tem muita... a direção do clube não leva muito à sério. Lá é a coisa da vaidade deles, não com a condição de ganhar campeonato, não tem nada disso. Mas é um clube bom. A cidade é excelente. Então foi bom ter trabalhado lá. E eu trabalhei no América Mineiro, fui campeão lá no América, em Belo Horizonte. O América há 22 anos que não ganhava e fomos ganhar o titular, como treinador. E o América conseguiu jogar na China. Estivemos um mês e meio lá. Foi muito interessante também passar pelo América. E esse jogador que está na Seleção aí era meu jogador lá, o Adilson. Ele era meu jogador lá. Então foi outra passagem boa. E a última foi o Japão. O Japão é primeiro mundo, e não tem conversa, coisas maravilhosas que a gente vê, de cultura, de... nós estamos muito atrasados ainda, infelizmente. Eles nos tratam muito bem, fora o tratamento eles agem com uma forma correta com todo mundo, sabe? Eu passei um ano muito bom no Japão. Um time fraquinho, mas o time correspondeu no todo, chegamos a um resultado bom. Pra você ter uma idéia... o meu filho foi comigo. Agora eu pedi para ele puxar pela Internet a colocação do clube. Quando eu fui lá ele era 14º, nós saímos de lá ele caiu para sexta. Sabe que lugar que este clube está? Primeiro lugar. É o primeiro da vaga. Então alguma coisa eles captaram. Eu fiquei satisfeito quando o meu filho falou isso. Falei: "Que bom, puxa vida! Que alegria!" E japonês é sensacional. No comércio, tratamento... Que mais tem pra falar? P/1 - Antes de começar a entrevista a gente estava meio que conversando e eu notei que é uma unanimidade, digamos assim, todos os jogadores falando sobre o clima que era o Santos e que o Santos é uma grande família. E eu estava meio querendo saber o que o senhor acha disso. Por que o Santos era assim? Todas as pessoas que vêm pra cá não vão embora, eles querem ficar, eles criam raízes aqui. R - É, realmente. É aquilo que eu disse pra você, quando eu cheguei aqui era uma coisa. Maravilha, o tratamento que eles nos davam, o povo também, o pessoal, e aquilo foi pra dentro do clube... eu acho que todos os jogadores mais ou menos do mesmo nível, mesma idade, mesmo nível de cultura pode ter ocasionado isso, sabe? Eu não sei se é isso mesmo. Mas é impressionante. A gente conversava com jogadores de outros clubes, a gente sentia a diferença. Realmente foi a grande arma do Santos. Não sei se continua assim, porque eu nunca mais fui lá. Eu não entro lá no Santos desde 86, lá nos vestiários... Nunca mais voltei lá. Já estive nos jogos, lógico, mas na arquibancada lá... Então a gente não sente o que está se passando, qual é o ambiente de hoje. Mas no nosso tempo era realmente maravilhoso. Uma família! Excursionava, ficava um mês, um mês e meio fora, era muito bom. P/2 - Essas excursões que vocês faziam pela Europa, tem algum episódio assim interessante que você gostaria de contar aqui pra gente, que você se lembra? R - Fatos, assim, tiveram vários. Muita coisa que aconteceu. Eu não estou lembrando assim, no momento, uma coisa que possa ser... Me pegou de surpresa assim. P/2 - Tudo bem. E o senhor teve quatro filhos. R - Quatro. P/2 - E o senhor tem netos? R - Não. P/2 - Não? Nenhum? R - Não tem nenhum casado. Todo mundo solteiro lá em casa. P/2 - E o seu filho quis jogar futebol, o senhor estava falando... R - O mais novo. P/1 - Conta um pouco pra gente. R - Ele jogava bem. Inclusive lá na Arábia, quando ele ficava fazendo embaixada lá para o Príncipe ver, o Príncipe... Tudo doido com ele. Jogava na Portuguesa Santista, infantil. Ele era bom. E o pessoal que acompanha aí: "Não, poxa, o seu filho..." Mas ele voltou da Arábia comigo da segunda vez e ele foi brecado pra não jogar, entende? A minha mulher não queria que ele jogasse. Ficou falando pra ele: "Não joga, deixa pra lá." E ele perdeu o interesse, não jogou. Aí encerrou. O outro não, o outro... e as meninas também não gostam de esporte, gostam só de ver, sabe? Mas foi ótimo. P/1 - Bom, a gente está encerrando, estamos caminhando para o final, e a gente faz sempre uma pergunta para as pessoas que estão aqui. O que o senhor achou de dar essa entrevista pra gente e dessa iniciativa do Santos de fazer um museu? R - Eu confesso que fiquei muito feliz de estar aqui, de ter a oportunidade de falar. Eu falo muito. (risos) Então eu acho que para mim foi gratificante e essa iniciativa do Santos é realmente muito boa, fica marcada aí a passagem das pessoas que trabalharam no clube, que já passaram, dando exemplos para o futuro, inclusive para outras pessoas que vierem, tomar conhecimento daquilo que foi feito. Então de todas as formas foram medidas acertadas. E é um ascenso. Eu quero deixar aqui o meu melhor agradecimento pela acolhida, por tudo, por ter me deixado tão à vontade. E peço desculpas também por ter amolado vocês aí. (risos) P/1 - De jeito nenhum. R - Muito obrigado. P/1 - De jeito nenhum, foi um prazer pra gente. P/2 - Obrigada o senhor.
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