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História

Costureira de mão cheia

História de: Juraci dos Reis Vanin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/03/2021

Sinopse

Infância na fazenda Santa Isabel, próximo a Promissão. A sua mãe a ensinou a costurar desde criança, aos 10 anos. Possui uma família grande, com 10 irmãos. Moravam todos em uma casa de colônia. Precisavam fazer longas caminhadas para chegar na escola. Seu pai aprendeu um pouco de japonês para conversar com outro sitiante. Haviam muitas festas de São João e Folia de Reis. As casas da época eram mais comumente de madeira, hoje de tijolos. Seu pai chegou a mudar com toda a família para uma fazenda no interior do Paraná. Houveram tempos de seca e outros de muita chuva com granizo que destruiu as colheitas. Anos depois, o seu pai falece de um acidente de trânsito. Irmãos precisaram trabalhar nos cafezais. Se casou e mudou para Bauru-SP. Era difícil as locomoções de uma cidade para a outra, lembra dos ônibus do Expresso de Prata e Reunidas, as "jardineiras". Contou sobre algumas músicas que dançava na época. Rio Bauru. Trabalhou próximo a Avenida Duque de Caxias, na Portable. Fez curso de costura no Sesi. Fazia roupas para balé. Família Reis. Balé. Fazia confecção de roupas, vestidos. Lembra dos materiais de tafetá, plissado e godê duplo.

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História completa

          Meu nome é Juraci dos Reis Vanin. A data do nascimento é 24 de janeiro de 1951, em Promissão. Meus pais são José dos Reis e Maria da Silva Reis. Eram trabalhadores rurais, e a gente morava no campo, num sítio. Tenho uma “frota” de irmãos, pois nós éramos em dez, e eu sou a terceira. É uma turma boa.

          Eu nasci no município de Promissão, bairro Saudade. Depois viemos pra uma fazenda, Santa Isabel, município de Penápolis, e eu já saí casada de lá. Mas era uma colônia de café de 30 casas. O meu pai era meeiro, e os filhos todos ajudavam, menos eu. Eu não fui pra roça, porque cuidava dos irmãos menores. E tinha uma escola num sítio vizinho, e aí eu descia com a minha professora – era de caminhão, não era carro -, porque ela dava carona pra mim até a escola. O caminhão vinha de Penápolis com a professora.

          Eu não continuei os estudos. O meu pai se meteu em uma aventura, no Paraná, uma terra vermelha, tudo diferente daqui de São Paulo. Ele vendeu tudo, todos os animais que ele tinha, pra ir pra lá. E foi uma desgraça. Quando meu irmão voltou pra Penápolis, pra pedir o emprego de volta, falou com o dono da fazenda que o meu pai trabalhou muitos anos, e o dono da fazenda falou: “O serviço é de vocês. Só que não é mais a meia, é quarenta por cento”. Foi uma loucura, né? Ele perdeu os cavalos, ele perdeu as cabeças de vaca que ele tinha e aquele mundo de porco de raça.

          Aí eu casei em Penápolis e vim embora pra Bauru. Eu aprendi a costurar lá no sítio, quando era criança ainda. Em Bauru, eu fiz um curso de oito meses, e aí eu comecei a costurar. Aí, eu trabalhei numa boutique, a Portable, que ficava na quadra 18 da Duque de Caxias. Eu fui trabalhar lá e eu já tinha a minha filha com cinco aninhos, a Vivian - levava ela junto. Entrava às sete e saía... fim de ano saia às 11 horas. Era uma loja de roupa sob encomenda. Costurava pra turma do Lions, costurava pra Dinda, aquela que tem o petshop e veterinária na frente. A gente costurava para aquela turminha daquela alta ali da cidade. Estava todo mundo ali.

 

          Eu trabalhei ali quatro anos, mas depois eu saí e vim pra casa. Aí não fiquei muito tempo em casa, porque uma amiga, que era freguesa de costura minha, abriu uma loja e falou: “Eu quero você, a pilota da minha loja”. E era na mesma rua minha aqui, uns dois quarteirões pra frente. Eu trabalhei com ela quatro anos também. Chamava Dalmax. Eu trabalhei com ela, éramos todas amigas: a dona, a sócia da dona, a overloquista. E aí era costura social de novo. Trabalhei mais quatro anos, chegando em casa 11 horas da noite, ás vezes.

          Depois eu fiquei em casa, não quis trabalhar mais fora. Esse ano mesmo, me ofereceram pra eu trabalhar nos Altos da Cidade, só de reforma. Eu falei: “Não quero”. Eu estou cansada, são muitos anos. Eu comecei a minha vida na cozinha com sete anos, na máquina com sete anos. Tem hora que eu falo: “Eu não quero cozinhar mais a vida inteira. Eu quero tempero diferente!”

          Quando eu comecei lá em 1972, era muito usada na época a seda javanesa, o tecido de seda javanesa. O linho também - o linho mesmo -, tinha muita roupa de linho. E tinha a viscose, mas não eram as de hoje, porque elas não encolhiam. Tinha o chiffon, que hoje nem se vê mais esse nome desse tecido. E tinha o crepe.

          Tafetá também tinha. Eu fazia tanta roupa de tafetá! E eu costurava para as noivas. As minhas irmãs, de noiva, fui eu que fiz os vestidos de todas elas.  Tudo o que vinha, as roupas sociais, eu estava pronta pra fazer. E tinha mais tecido que eu não lembro o nome. Hoje, não tem metade do nome dos tecidos que tinha antigamente. E os modelos, eu assinava Figurino a Manequim. Eu assinei mais de 30 anos, sabe?

          Desenhar, eu não desenhava. Era no figurino, passava no papel e passava no tecido. Pegava o molde e fazia na medida da pessoa - o modelo que ela quer eu passo no molde. Do molde, eu passo no tecido. É bem artesanal. É tudo arrematado na mão. Hoje, tem muitos que é só na máquina, mas antigamente era tudo na mão. Cada modelo, que eu vou falar pra você!

          Os tecidos a gente comprava na Tanger, na A Tropical, Casa São Jorge. Mas mais era na Tropical. A Tropical tinha uma desenhista que desenhava o modelo, ela já punha o meu endereço – foi na época que eu comprei o meu telefone de linha - e punha meu telefone, e vinha pra minha casa. Ela chamava Rose, essa desenhista da Tropical. E aí vinha a Tanger, né?  A Tanger tinha muito tecido. Eu aprendi a fazer calça de homem, camisa... tudo isso eu não aprendi no traçado, eu aprendi depois.

          Ah!!!! eu amava fazer os vestidos, né? Porque era cada modelo, que eu enchia os meus olhos! Os vestidos, até hoje eu gosto muito de fazer. Podia ser o modelo que fosse: com babado, sem babado, aquele godê. Eram quilômetros de tecido que eu fazia ali, de metro, metro, metro... eu não tinha preguiça!

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