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História

Costurando sonhos

História de: Ana Maria Valente dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Em seu depoimento Ana Maria narra sua infância na cidade de Cametá, as brincadeiras e as festas folclóricas. Conta como conheceu seu marido aos 18 anos e como mudaram de várias cidades antes de se estabelecerem na Vila Planalto. Boa parte de seu depoimento ela recorda como surgiu a cooperativa de mulheres Agulhas Versáteis, da qual é sua presidente atual.

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História completa

Nasci na cidade de Cametá dia 28 de julho de 1965. É uma cidade do Pará, perto de Tucuruí.  Meus pais são de Cametá e todos os meus avós também. Eles trabalhavam na roça, apanhando pimenta do reino. O meu pai trabalhava na feira da cidade de Cametá. Ele era vendedor de café, de suco, vendedor ambulante. Minha mãe era só da casa. O nome do meu pai é Wilson de Oliveira Valente, e minha chamava-se Maria Adejar de Bahia Valente. Meu pai conheceu minha mãe numa festa que teve na casa dos meus avós, ele participava da música lá que tocava, ele era um dos músicos da banda lá. Ele era tocador de violão.

 

Eu cresci escutando música e nunca aprendi a tocar violão. Cametá tinha muita plantação de pimenta do reino, cacau. A cidade era muito assim pacata, era pouca população que tinha, eles trabalhavam com pesca. Nós somos sete. Eu sou a mais velha dos filhos dos meus pais. A casa era de tábua, coberta com telha, aquelas telhas de barro. Tinha dois cômodos só. A gente gostava muito de brincar de casinha, gostava de brincar de peteca, jogar essas brincadeiras de peteca, de pular corda também.  Eu tinha minhas coleguinhas também. Brincava com meus irmãos, com minhas irmãs e com meus colegas, vizinhos de casa. Tinha muita brincadeira de rua. Tinha brincadeira de dança de folclore também, aquelas de quadrilha. Nossa, antigamente, parece que era mais bonito! 

 

 Eu fiquei com meus pais só até uns 4 anos. Aí dos 5 anos eu fui criada por meus avós. Minha avó não tinha filha mulher e eu era a neta mais velha. Aí eles me pediram para os meus pais, meus pais deram para minha avó, do meu pai, paterno. Aí  me criei com eles, com meus avós. Eles moravam próximo de casa. A gente ficava tudo perto deles, porque eu ia lá em casa, ia na casa dos meus avós. Porque eu morava na casa dos meus avós, mas sempre ia na casa dos meus pais. Meus avós da parte do meu pai eles eram muito bons comigo. Meu avó, nossa! Nossa, eu gostava demais deles! Minha avó contava muita história.  Na minha família, dos meus pais, nós fomos católicos, sempre católicos, nunca passamos para outra religião. A gente participava das novenas da Nossa Senhora, a gente rezava os terços das novenas, a gente fazia procissão para os santos. Tudo isso a gente fazia lá. A gente participava das procissões com a santa, e quando chegava na capela a gente cantava, né, cantando, levando as velas, quando chegava lá a gente rezava e cantava. Lembro muito da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: (cantando): “Com minha mãe estarei. Na santa glória um dia. Junto a Virgem Maria. No céu triunfarei. No céu, no céu, com minha mãe estarei. No céu, no céu, com minha mãe estarei. A gente escutava muito isso daí. Eu até me emociono porque a minha mãe já morreu... (choro) Foi ano passado que ela morreu.Eu entrei na escola com 8 anos.

 

Era perto de casa. A gente ia a pé mesmo. A escola chamava Dom Romualdo de Seixas. Foi a primeira escola em que eu estudei lá em Cametá. A gente ia junto com meus irmãos, com minhas colegas também. Nós tínhamos uniformes, era tudo de camisa branca, de saia, daquelas saiazinhas que tem a prega. A gente gostava dos trabalhos que a gente fazia junto com os colegas. A gente fazia apresentação dos trabalhos, e das brincadeiras também que tinham.  Uma professora uma vez puxou a minha orelha, que eu não soube matemática, porque sempre fazia aquela tabuada. Aí lá, quando a gente não soubesse, eles puxavam a orelha da gente. Lá na nossa cidade a comida predileta é o nosso peixe, o mapará.  Nossa, ele é muito gostoso! Ainda tem até hoje. A gente come de todo jeito, é assado, é cozido, é frito, com açaí. A gente tem que ter a farinha também. O peixe, o açaí e a farinha. Eu ajudava a fazer. Ajudava minha mãe a limpar a casa, lavar louça, lavar roupa. Sempre ajudei  a minha mãe. Meu pai trabalhava na feira, quando ele chegava a gente ajudava. A gente ia para lá com ele também. Eu comecei a estudar com 10 anos, 12 anos. Eu estudava e ia para feira. Ele ia todo dia, ele ia todo dia, menos dia de domingo. Aos domingos ele não ia para feira, não trabalhava. Às vezes meu irmão que ia com ele também. Nesse tempo meu pai tinha que estar junto. A gente ia também.  

 

Ajudava ele lá a lavar os copos, atender os clientes dele lá.A gente participava do coro da igreja, de jovens, clube de jovens, a gente ia para os encontros da catequese, ia nos passeios. Logo apareceu o meu marido. Eu conheci meu marido com 18 anos, terminei o meu ensino médio, casamos, no mesmo dia da minha formatura foi o dia do nosso casamento, foi só uma festa que nós fizemos. Eu me formei em auxiliar técnica de contabilidade, só que quando a gente namora é uma coisa, depois quando a gente casa é outra. Meu marido não me deixou trabalhar. Tinha que ficar em casa para cuidar da casa. Aí depois com três meses de casado veio filho, um atrás do outro. Eu tenho 5 filhos. Casei com 21, com 22 eu tive a primeira filha. Depois da mais velha veio a segunda, com dois anos, quando minha menina, a bebê já estava começando a andar, aí veio o terceiro, aí da quarta já passou mais uns 3 anos, aí da quarta para o quinto passou cinco anos, já demorou mais. Primeiro a gente morava no Laranjal, que meu marido veio para Almeirim.

 

De Almeirim mudamos para Laranjal. Nós viemos de Cametá para Almeirim, porque a família todinha do meu marido é de Almeirim. Então ele chegou em Almeirim ele não conseguiu trabalho, a gente teve que vir para cá, para o Laranjal. Ele alugou um quartinho e nós ficamos lá com todos os nossos quatro filhos, porque nós viemos com quatro filhos de lá, já o quinto nasceu aqui. Ele conseguiu um trabalho em Monte Dourado, e nisso a gente morava no Laranjal. Ele conseguiu trabalho de mecânico. Conseguiu se fichar numa empresa. Nós passamos um tempo lá em Monte Dourado, aí mudamos para cá. Ele saiu da empresa. Viemos para cá para o Planalto. Já estamos aqui no Planalto há 9 anos. Ele tinha saído da empresa, teve que trabalhar autônomo, como ele trabalha até hoje. Quando a gente veio para Planalto tinha uma associação de mulheres, que existia aqui e uma vizinha que me convidou para participar desses encontros. Ela falou que eram encontros de mulheres. Era Associação de Mulheres da Vila do Planalto.

 

Eu vim participar, eles faziam os encontros, eles davam o sopão todo final de semana para todos os moradores da vila. Foi com o apoio da Fundação que veio fazer os encontros e formou o CEM - Centro de Excelência da Mulher. A gente fazia muitas capacitações, negócios de recursos humanos, era brincadeiras que tinha também, que eles faziam com a gente, e palestras também que eles davam para gente. Essas palestras eram sobre relações humanas, era sobre trabalho, eles faziam várias coisas. Foi através da Fundação Orsa que foi feita a pesquisa sobre o que as mulheres do Planalto queriam: “Não, vamos costurar. Vamos montar uma cooperativa”.  A gente via que a necessidade era bem mais aqui na região, porque tinha as empresas e eles compravam os uniformes fora. E a gente botando uma empresa de costura eles comprariam daqui da gente. Aí nós tivemos apoio das empresas pequenas, da NDR, para reformar aquela casa dali, as máquinas também foram doadas, tudo isso eles nos ajudaram.

 

Quer dizer que nós não entramos com dinheiro, assim, para comprar as máquinas, foi feito doação. Aí veio uma professora do Senai, uma técnica de costura e deu curso para gente. A gente já acabou aquele medo, já aprendeu mesmo a cortar, costurar, montar mesmo as peças tudinho. E essas máquinas aqui foi um pouco difícil para gente aprender, porque eram máquinas industriais, que a gente estava só acostumada com aquela máquina doméstica, pequena. Nosso primeiro cliente foi a NDR. Foi a NDR, a Marquesa, a Orsa , a Jari, que está sendo até hoje que para foram nossos primeiros clientes. E as outras empresas pequenas também, que chegaram até a gente.O nosso primeiro pagamento foi cinquenta reais, porque a gente tinha que pagar um monte de coisas e a gente não tinha mesmo, não sobrava nada mesmo para gente.

 

Aí sempre brigando, meu marido: “Não. Porque, não”, e brigava comigo para mim não vir, porque a gente tinha que vir todo dia, de manhã e de tarde, e até a noite a gente trabalhava. A gente tinha que cumprir a nossa meta de entregar os uniformes. Graças a Deus, agora não, agora ele já parou de brigar comigo, eu venho mesmo e ele não implica mais. Já consegue uma boa renda para ajudar. Eu ajudo com dinheiro em casa, a gente já consegue muita coisa. Inclusive eu estou com a minha filha que estuda em Belém, está morando em Belém, está fazendo a faculdade de farmácia e eu ajudo muito ela, esse dinheiro que eu ganho eu sempre ajudo ela a comprar uniforme, comprar apostila, plano de saúde também, que ela tem problema de asma.  Eu me tornei presidente  em 2010. Na época da Dona Marilene eu era a tesoureira.

 

Aí fiquei tesoureira sempre porque ninguém queria ficar como tesoureira, os dois mandatos eu fiquei como tesoureira. Depois ela saiu, disse que não dava mais para ela continuar, aí me elegeram como presidente. Eu acho que pela confiança que eles têm em mim aqui. Como tesoureira eu trabalhava na parte de compra, de pagamento, de fazer também as folhas nossas, das cooperadas, fazer pagamento daqui da cooperativa, recebimento, cobrança, tudo isso eu fazia. No ano passado que foi a eleição da cooperativa e eles estavam precisando de uma candidata a vereadora aqui do partido do PT. “Não, Dona Ana, a gente quer que a senhora seja candidata?”, “Não, eu não quero”.

 

Eles vieram aqui comigo. Eu disse: “Não, eu não quero”. Insistiram. “Está, tudo bem”, eu aceitei. Eu saí como vereadora e candidata pelo PT aqui de Monte Dourado. Aí foi uma briga lá em casa porque meu marido não gosta do PT, ele tem maior raiva do PT, e eu já gosto do partido PT, porque é o partido dos trabalhadores, e eu dou o maior apoio para os trabalhadores. Consegui até chegar no dia da eleição, ainda consegui cento e poucos votos, com muita luta. Mas nunca deixei de sair daqui da cooperativa, eu sempre vinha aqui, se não era de manhã, era à tarde. Nunca saí de largar assim, mas eu ia fazer meus trabalhos, as visitas, mas sempre eu estava aqui. Aí passou a política, eu consegui uma vaga para mim na escola, na secretaria, à noite. Aí, eu estou trabalhando à noite na escola, de dia eu trabalho aqui e à noite trabalho na escola na secretaria.  Meu sonho é ter minha casa, minha casa própria. Aonde, Deus que me dar, eu tenho muita vontade de ter minha casa própria e montar o meu próprio negócio ligado à costura também, porque aqui na cooperativa a gente já pega experiência já, a gente já tem uma experiência muito boa que dá mesmo para gente conseguir.

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