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Costurando a história

História de: Eva Alves Machado Luiz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Gravada em primeiro de agosto de 2007, a entrevista de Eva Alves Machado Luiz, a Dona Eva, narra toda uma vida dedicada ao congado, e os preparativos dos festejos da festa de Nossa Senhora do Rosário na cidade de Chapada do Norte, Minas Gerais. Dona Eva dança e canta as músicas desta manifestação e descreve como as irmandades religiosas se preparam para celebrar, com muito batuque, a santa. Fala sobre como se tornou coordenadora de uma creche e se envolveu com a comunidade por meio da música e da costura, se tornando mestre do grupo de Congado e parte do Conselho do Patrimônio Histórico.

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História completa

Eva Alves Machado Luis. Nasci aqui mesmo em Chapada do Norte. E o dia 11 de novembro de 53. Os meus pais são Pedro Luis Machado e Maria Alves de Sousa. Eras lavradores também, no caso, não tinham leitura, não tinham nada. Sabiam mal assinar o nome. Era tudo na roça mesmo. Tenho quatro irmãos. Eu tenho por parte de pai só. Porque os irmãos assim mesmo eu nem sei se é vivo mais. Eles foram pra São Paulo e lá desertaram, não sei nem é se é vivo mais, não.

Onde eu morava era assim: gente cá lutando sempre com as lavouras mesmo, lavando areia, tirando ouro e do ouro trocava, substituía em outra coisa. Mas sempre era da lavoura e do ouro, lavoura e do ouro. Algodão também. A gente fiava muito algodão. Agora que eu não fio. O tempo não dá. (risos) O tempo não dá pra fiar, mas era muito gostoso fiar algodão.

Todo mundo junto fazia um mutirão, fazia um ajudava um, ajudava o outro, ajudava o outro. Era todo mundo da tapivaria, uai. Em geral, os que faziam mais: o meu pai, o vô Herculano, outros e outros fazia mais, mas todos faziam roça.

Aprendi a ficar com minha mãe porque ela fiava, fiava mesmo que a roupa, as roupas que o meu pai trabalhava era de algodão, porque meus irmãos usavam era algodão. Então tinha aquela roupinha mais ou menos pra sair, mas era algodão mesmo. Cobertor pra cobrir, não usava esse cobertor fino hoje. Cobertor pra cobrir era algodão. (risos) O pano de prato era de algodão, tudo era algodão até a toalha de mesa. Todas essas, chitão era algodão mesmo. Mas só que o pessoal deixou o algodão, eu não sei o que deu neles moda que apresentou o dinheiro que dá pra eles comprar o fino porque antigamente não tinha dinheiro, tinha de resolver era com algodão e com o que tinha. Hoje mexe daqui, mexe dali, apresenta o dinheiro eles compram o fino.

Colher a gente ia na roça. Colhia, depois levava o descaroçador pra descaroçar. O descaroçador sendo assim tem as duas moendas, então tocando de um lado outro de outro. Então a gente descaroçava ele, depois ia na “mofada” batia, e sentava fiava o pavio no fuso ou a linha na roda, então tinha a linha e o pavio que o pavio sozinho não tece e a linha sozinha também não tece. Então tinha que ter a linha e o pavio. E depois eu mandava tecer porque eu mesmo não teço. Nunca tive o tear. A gente tinha as “tecelonas” perto e mandava tecer.

Lavava a areia, tirava o ouro. O meu pai trocava, trocava assim por dinheiro, porque o ouro é um dinheiro mas é. Então trocava, ia nas vendas e trocava, substituía por outra coisa, por dinheiro mesmo. O dinheiro dava pra comprar outra coisa, alguma coisa que comprava também, porque as coisas tiravam da roça, toda coisa tirava da roça. Hoje que não está chovendo igual chovia, o povo perdeu os interesses da roça.

Chovia mais. Gente, qualquer lugar que a gente ia, a gente achava um ouro. Hoje os lugares que às vezes nós podemos achar um ouro, não tem água. Pode ter é no rio, no rio não acha mais ouro, não sei onde é que o ouro foi. Já sumiu tudo. Tem mais nada, não, sumiu tudo. Vê aí do lado da Chapada mesmo, se vocês chegaram a ver, tem um lado assim que é pedra, só tem pedra que lá era ouro, o ouro tinindo que o pessoal tirava lá. Parou de chover, parou tudo. O povo não tira mais ouro, mais nada. Acabou, acabou com tudo!

Quando eu nasci, esse pessoal, a maioria já morava aí, mas teve a ________________ aí e o Herculano Luis, que eles falam que conheceram eles aí mesmo. Agora, é com certeza que teve índio que veio primeiro. Teve índio que veio primeiro.

Quando nós começamos o Congado eu morei em São Paulo. Nós chegamos, nós pensamos de celebrar um culto na comunidade, eu fui dirigente. E aí foi indo, foi indo, foi indo. Depois nós conhecemos, ele já fazia os bailes nós juntos. Tinha uma visita, nós aí juntos. Então foi se conhecendo por aí fora e hoje estou dentro da casa, dentro da casa deles, eles dentro da minha casa. Vai levando. Eles ficaram bestas. Muitos falaram conosco: “Não sabia que vocês cantava! Não sabia que vocês sabiam assim, não, gente!” Uns ficavam traumatizados de ver nós sambando e cantando na rua, achava que a coragem não dava! (risos) Achavam que a nossa coragem não dava pra cantar e sambar no meio da rua assim todo mundo olhando, nós não estávamos nem aí. Nem, gente!

 

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