Busca avançada



Criar

História

Correspondência que desnuda relações

História de: Mary Lucy Murray Del Priore
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2014

Sinopse

Em sua história de vida Mary Lucy Del Piore, nascida no Rio de Janeiro, relata uma infância marcada por muito esporte, viagens e leitura, os livros e a palavra escrita a fizeram muita companhia. Até hoje se recorda do tempo em que brincava de pique-esconde pelos corredores vazios do Louvre. Durante sua adolescência estudou em um colégio interno na Suíça e o hábito de escrever e receber cartas sempre fez parte de sua vida. Foi professora da USP [Universidade de São Paulo] por muitos anos e como historiadora e especialista em história do Brasil estudou as mais diversas trocas de correspondências que permeiam a história do Brasil. Na entrevista, Mary fala de suas publicações e conta muitas histórias dos bastidores da família imperial brasileira.

 

Tags

História completa

Meu nome completo é Mary Lucy Murray Del Priore, eu adotei Mary Del Priore, porque eu achei o resto do nome muito complicado, então ficou Mary Del Priore. Eu nasci no Rio de Janeiro em 16 de outubro de 1962. Meus pais se chamam Sidney Robert Simonsen Murray e minha mãe Maria Isabel Barcelos Dias Murray e meus avós, por parte de pai, Charles Robert Murray e Lucy Simonsen Murray, e, do lado de minha mãe Paulo Barcelos Dias e Niuná Simões Lopes Barcelos Dias. Como toda família brasileira, é uma família muito misturada. Do lado do meu pai eles vieram em parte da Inglaterra, da Escócia, mas também de Londres. Do lado da minha avó Lucy Simonsen, eram judeus, ela é irmã de Roberto Simonsen, são judeus que migraram da Inglaterra para o Brasil e que, chegando aqui no final do século 19, acabaram se misturando aos brasileiros.

E pelo lado do meu avô, o meu bisavô John Murray veio também para o Brasil em uma época em que as ferrovias inglesas estavam se instalando no Brasil e ambos atuando como engenheiros, ou como técnicos de engenharia vindos da Inglaterra, acabaram tendo uma atividade grande no Porto de Santos e no do Rio de Janeiro como exportadores de café. A casa de meus pais sempre foi muito habitada por leitura e o hábito de escrever era permanente. Do lado da minha mãe eu também tenho uma relação, eu diria genética, com a questão da escrita e o amor das palavras, porque o meu tio bisavô é o Simões Lopes Neto, que é um imenso escritor regionalista, autor de contos gauchescos como o Negrinho do Pastoreio.

E a família da minha mãe, em particular da minha avó, era uma espécie de grande casa de mulheres, podemos pensar até em um romance, um pouco de surrealismo mágico, em que as mulheres enviuvavam, quem sabe matavam os seus maridos, se a gente fosse pensar em uma versão mais ficcional, e escreviam. Durante minha infância e juventude meu irmão e eu tivemos vidas muito distintas, éramos semi-internos, nos víamos pouco. Apesar de ser semi-interna no Sion, papai me acordava muito cedo, porque eu tinha que montar cavalo ou fazer esqui lá na Baía de Guanabara, que naquela época era de uma limpidez maravilhosa, a gente via cavalo marinho, via peixes.

Eu tinha essa vida realmente muito estrita e, chegava do colégio, ainda tinha aulas particulares, de desenho, de piano, de violão. Eu estudei no Colégio Sion a vida toda, tenho as melhores lembranças de meu colégio, adorava ir para o colégio, é uma belíssima casa no Rio de Janeiro, com árvores centenárias. E eu gostava do contato com as freiras, eu gostava daquela missa obrigatória, eu era, provavelmente devia ser incentivada pelas leituras. Era aquela vida ali que me permitia inclusive transgredir, porque eu fui uma aluna muito indisciplinada, difícil de acalmar, exatamente porque talvez eu não tivesse a vida como mortais naquela época. Nós viajávamos muito para o exterior, meu pai tinha negócios na Europa, as férias todas ao invés de passar com amigos, eu estava sempre na Europa.

Eu diria uma vida de uma criança mais solitária do que exatamente envolvida com vida social. Nós voávamos ainda em aviões que faziam Rio, Recife, Recife, Dakar, Dakar, Paris. Nós íamos eu, meu irmão e a governanta, que era uma senhora alemã e, naquela época não havia nenhuma preocupação com a infância, o que fazer com as crianças, o nosso território de brincadeiras eram os museus. E eu me lembro de correr e brincar de pique-esconde dentro do Louvre, do Museu do Louvre, com meu irmão, em uma época que não tinha ninguém no museu.

Aos 16 anos eu fui para o colégio interno na Suíça em Lausanne, que é um colégio muito prestigioso. O internato é um mundo para uma menina que sai de um ambiente familiar tão restrito. Porque ali todas as possibilidades existem, as janelas você salta, você escapa pela porta da frente, o controle noturno é mais ou menos e você vai ter contato com gente do mundo todo. Eu lembro que eram os anos 70, rock, drogas, era um mundo no qual eu me movimentava com muita vontade de conhecer, mas também com muito receio de fazer coisas erradas, não vamos esquecer que foram muitos anos de colégio de freira. E tinha essa coisa fantástica em que você podia frequentar grupos de rock, ir para Montreux assistir os festivais. Escrever era muito comum. Escrever, escrever para os amigos, troca de cartões postais, cartas mesmo, cartas com desenhos.

Não havia carta que não fosse decorada com coraçãozinho, sorriso. Eu não desenvolvi isso, mas eu tinha alguma habilidade para pequenas caricaturas e desenhozinhos, as minhas cartas eram sempre muito decoradas, lógico que quando eu voltei para o Brasil eu mantive ainda correspondência com os meus amigos na Europa, então as cartinhas iam sempre muito desenhadinhas, tinha na época uma coisa de você fazer uma frase, depois fazer um desenho. “O que é que você fez essa semana?”, então, “Fui à praia”, aí você desenhava uma praiazinha, tinha essa mistura de desenhar e de escrever. No regresso eu fiz o vestibular, passei, seis meses depois eu estava me casando e naquela época casamento, trabalho e estudo, para alguém com a minha formação era praticamente impossível. Eu fui me dedicar ao lar, a casa, ser doninha de casa, administrar a casa. E nós nos casamos, seis meses depois mudamos para São Paulo.

Aqui foi o desafio de conhecer a nova cidade, eu sempre fiquei muito impactada pelas possibilidades da cidade em termos de galeria, de livraria. Depois os filhos foram nascendo, quando eu estava grávida da minha terceira filha, eu realmente quis voltar a faculdade, eu quis voltar a estudar. Fui estudar na PUC-SP [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]. Tive excelentes professores, adorei meu curso e antes de terminar o quarto ano da PUC comecei a frequentar os cursos de Pós-Graduação da USP [Universidade de São Paulo]. E eu acabei sendo convidada por uma professora a quem eu devo muito, que é uma pessoa absolutamente encantadora, Maria Luiza Marcílio, para ser aluna dela de Pós-Graduação. Eu não fiz Mestrado, eu fui direto para o Doutorado com uma tese de quase 800 páginas, foi aprovado com dez pelo Fernando Novaes, por todas essas figuras que na época eram muito importantes. Eu ainda não tinha defendido o Doutorado e teve um concurso na USP para professor de Brasil Colônia.

Aí comecei dar aula, nunca tinha dado aula na minha vida, adorava os alunos, eu sempre fui uma pessoa muito informal, dentro de uma faculdade extremamente formal, eu acho que isso também aproximou muito os alunos de mim. Foi um período muito bom e eu fiquei lá acho que dez, 11 ou 12 anos. Escrevendo muita história, indo muito para a Europa, rapidamente entendi que a publicação de livros acadêmicos ia se esgotar, ninguém mais compra uma tese de doutorado por melhor que seja, você compra quando você é professor, você tem que ter uma biblioteca profissional. E eu achava que aqui no Brasil faltava um nicho de história, para o que chamo de história para o grande público. Ninguém estava escrevendo, fazendo boa história, nós temos excelentes jornalistas, mas historiador escrevendo história para o grande público não tinha. Comecei a escolher um pouco os meus personagens, nada foi gratuito, não foi, “Ah, caiu do céu. Inspiração maravilhosa”, não, isso deu um tremendo trabalho.

No meu segundo livro, estudando a paixão que o Imperador Dom Pedro II teve pela Condessa de Barral eu comecei a trabalhar com correspondência, eles se escreviam muito. No livro A Carne e o Sangue eu trabalhei com a correspondência do Dom Pedro I com a Marquesa de Santos e a correspondência terrível da nossa Imperatriz Leopoldina com a Europa. Ali me dei conta realmente de como a correspondência, mais do que traduzir beijinhos e carinhos e saudade, pode traduzir também sofrimento, isolamento, humilhação, são cartas absolutamente terríveis. Tudo isso me conduziu a olhar a possibilidade de escrever um livro sobre a Princesa Isabel, a história dela com o Conde d’Eu. A correspondência é sensacional porque desnuda esses dois personagens, mas desnuda as relações que eles têm também com a família. Na vida pessoal eu realmente sou uma pessoa muito centrada nos meus filhos, nós temos uma família belíssima, eu sou muito ligada neles e, temos realmente uma relação construída de compartilhamento de interesses comuns, livros, leituras, música, cinema.

A gente troca muita figurinha, eles estão todos casados, eu sou avó de duas lindas netinhas, a Maria e a Sofia. Eu vivo muito para o meu trabalho e para a minha família. Eu tenho um excelente casamento, o meu segundo marido continua viajando muito, isso também me proporciona deslocamentos. E eu tenho o privilégio de morar fora de uma cidade grande, onde eu moro eu crio galinhas, eu tenho horta, eu tenho um belíssimo jardim, eu gosto muito de jardinagem, eu mexo muito com terra, um milagre eu estar de unha feita, em geral eu estou com as mãos todas bastante machucadas, mas eu gosto muito de jardim. Eu escrevo uma hora e vou até o jardim, vou podar um pouco, vou mexer um pouco com terra, depois escrevo mais uma hora. Disciplina é uma companheira de todo tempo, além da minha família que eu adoro e da história que eu considero também, enfim, parte dessa trajetória. Me considero uma pessoa bastante realizada, isso é muito bom.

 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+