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História

Correndo nas vozes da Tradição

História de: Marco Haurélio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2020

Sinopse

Nascido da cultura popular da Bahia, com um bisavô rezador que exorcizava gatos de olhos de fogo e com uma bisavó e vizinhos contadores de histórias, aos sete anos já declamava cordéis imensos como “A lenda do Cachorro dos Mortos” de cor. Percebeu que não poderia deixar que gerações de conhecimento morressem na sua língua e, além de escrever dezenas de cordéis, passou a pesquisar no fundo dos interiores os contos populares na boca de contadores tradicionais. Ajudou a preservar esse patrimônio, se tornou referência no assunto, onde ministrou diversos cursos, publicou vários livros e é uma das pessoas que ajuda a preservar as vozes da tradição da cultura popular.

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História completa

Meu pai foi em busca da parteira e minha mãe... eu nasci sozinho, né? Com a minha mãe e Deus e mais ninguém. Então, quando ela chegou, eu já tinha nascido. Só pra cortar o cordão, né, que foi enterrado na igreja. O povo tinha mania de enterrar em frente. E meu pai costumava sair à noite. Então estavam os forrós e teve uma noite... eu sou o segundo filho, tinha apenas o meu irmão mais velho, Eda e eu e minha mãe disse que a candeia já estava acabando o combustível. O fifó – o fio de algodão que embebe no gás. O gás é o querosene – estava já acabando e ela no quarto com esses dois meninos. Quando a luz finalmente apagou ela diz que olhou e viu: o quarto foi tomado por uma luz roxeada e viu um monte de sombra e um samba batendo, aquele batuque, aquela coisa e ela começou a ficar agoniada e começou a rezar. De vez em quando olhava e via se a gente estava bem. Então, tem dessas coisas também. E à noite, quando a gente abriu a janela, noite que não tinha lua, não tinha nada e olhava assim e só via o breu, não via mais nada. Aquele breu, aquela coisa. E aí começava a ficar povoado. Não tinha nada, mas você via tudo. Você começava a ver umas cabeças voando, uns negócios esquisitos. Quem nasceu na roça, assim, conhece bem o que é isso. Olhava para o mato e tem uma coisa que eu me recordo, ainda bem menino também:  Começou a vir uma chuva, como a serra ficava perto, assim, era um clima muito bom o clima desse lugar, da Ponta da Serra, mas de vez em quando vinha uns ventos que dava a impressão que ia derrubar tudo, que tem um pé de coco na parte da frente, mesmo, entre a casa e a igreja, você o via dançando ao sabor do vento. Só que o vento vinha principalmente da serra, aquele vento que cantava, que conversava, dava ideia que estava aguando. Aí eu me recordo que uma vez minha mãe pegou um punhado... abriu a janela e, quando abriu, veio aquela lufada de água e tudo e jogou a farinha, e pouco tempo depois o vento se acalmou. Então, são retalhos das muitas recordações que a gente tem.

 

Meu bisavô era rezador e um dos maiores da região . E se tornou uma personagem, uma lenda na cabeça das pessoas. Mas esse fato específico, acho que foi início da década de 20, já tinha ido dormir o pessoal, ia dormir cedo, ia dormir com as galinhas e acordar com o galo e aí eu vi a batida na porta e a voz que ele reconheceu é de um certo Marcolino, tanto que ele disse: “Já vou, Marcolino”. Quando ele abre, pega a tranca, que abre, tinha um gato preto dos olhos de fogo prostrado na frente dele. Aí ele começa a bater com a tranca e o bicho tentando entrar: “Deixa eu entrar, deixa eu entrar, deixa eu entrar”. E ele batendo, batendo e rezando, ele não parava de rezar. Ele sabia que tinha que rezar. Quando acertava em uma reza boa, o bicho diminuía e depois voltava ao tamanho normal. Ou até maior. E o bicho cuspindo fogo: “Deixa eu entrar”. E aí, lá pelas tantas, ele acertou justamente a reza mais forte que tem, que o povo chama de Crê em Deus Pai, que é o Credo, né? 

“Crê em Deus Pai, todo poderoso, criador do céu e da Terra e em Jesus Cristo, seu único filho, que nasceu da Virgem Maria, padeceu...” 

Pá! E o bicho, poooooooou, explodiu, inchou, alastrou aquela catinga de enxofre. E depois eu fiz um cordel, muito tempo depois, com essa história. E aí contam-se muitas coisas a respeito dele: que foi o rezador mais famoso na barriga da mãe, ele já deu o vagido que o pessoal dizia antigamente e chorou na barriga da mãe.

 

A gente brincava de muita coisa. Tinha uma que a gente chamava de boca de forno. Que aí uma pessoa ficava sentada em um menino e os outros meninos e meninas iam cumprir. Você falava assim: “Boca de forno”. Todo mundo: “Forno” “Se eu mandar” “Tem que ir” “Se não for?” “Apanha” “Quantos bolos?” Aí escolhia: “Dois” ou “Quatro. Dois de pai e dois de mãe” “O rei senhor mandou você ir, não sei o que, pegar não sei o que e fazer não sei o que”. Aí, quem chegava por último, tomava bolo, mas era só... Boca de Forno, tinha uma chamada Mãe da Rua, que fazia um risco, podia ser em uma calçada. Um ficava em uma calçada baixa, ficava em uma parte em cima e a outra embaixo. Aí você ficava puxando. Aí, quem conseguia puxar todos, no final, ganhava. Aí tinha guarda e ladrão, que aqui é pique e esconde, né? Tinha uma chamada Bandeinha: “Bandeinha guerreou, o pinico da véia estourou”. Você pegava um pedacinho de pau, colocava aqui em um montico de terra, ali também e o objetivo é roubar aquilo ali, sem ser detido. Bastou tocar, você... e aí tinha também de jogar versos, tinha a do anel, o Passa Anel, Caiu no Poço, tinha um monte.  E eu viajava no cordel e com sete anos, eu já sabia de cor o João Soldado, já sabia o Juvenal e o Dragão.

 

Mais tarde, na adolescência, descobri o livro Contos Tradicionais do Brasil. Tinha a mulher torta e minha avó também contava, tinha um monte, o Sílvio Romero também. Eu falei: “Não, espera aí, eu conheço pelo menos umas 50 histórias que estão aqui nesses...”. E as pessoas continuavam a me contar. Meu avô, padinho Lô, contava; a Dinha também contava; meu pai fala: “E aí,  quer ouvir uma história?” Então meu pai também, tia Lili, todo mundo, eu falei: “Meu Deus do céu!”. Eu contava pros meus sobrinhos, mas não sei como é que vai ser essa... eu falei: “Eu tenho que registrar isso também”. E aí, em 2005, eu encontrei com um professor da Universidade do Algarve em João Pessoa, em um encontro internacional de cordel, o senhor José Joaquim Dias Marques. Me deixou contato e eu mandei os contos e já estava trabalhando na escola também, fui em busca de novas pessoas que também contavam, também narravam e falei: “Não posso deixar que isso morra”

 

Então a Lucélia gravou no celular sete histórias que estão no livro Vozes da Tradição, que vai sair. Sete. E quando eu fui, eu ouvi a voz por causa do gravador: “Oi, Dona Maria! Tem que fazer isso, Dona Maria?” Eu reconheci a voz imediatamente. E aí eu comecei a conversar com ele, ele começou a contar história, eu o ajudando a carregar as plantas da minha mãe, ele estava fazendo uma limpeza: “Vocês têm que ir em casa à noite, que aí eu vou contar muita história”. Contou mais de 30, um contador fantástico. O outro é o senhor Clóvis, da Tabua, que o professor Rogério, de Caitité, da Uneb, que é meu amigo de infância, hoje professor da Uneb, que batizou um grupo de estudos chamado Vozes da Tradição, em homenagem ao nosso trabalho, me apresentou. 82 anos. Uma voz calma, uma serenidade. Mas quando ele conta, se transforma. As outras, Dona Jesuína, Dona Rosa, já falecidas, que estão devidamente registradas no meu livro, e seu Zé Cabeça. Lucélia foi que registrou as histórias dele. Estava com 107 anos, quando ele contou. São tantos espalhados.

 

Nós achamos que nós já sabemos tudo e que o conhecimento daqueles que nos antecedem não é tão importante, não. Na verdade, eles são a base. A gente está fincado sobre essa base. Independentemente desse conhecimento estar fixado no papel ele está, ainda, vivo, correndo, nas vozes da tradição

 


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