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O dragão diminuiu seu vôo até pousar em minhas costas. O fogo de suas narinas e a força de suas garras rasgaram minha pele e eu gritei de dor até cair em um sono profundo, mal podendo me mexer. Acordei ouvindo seu ronronar. Ela saiu da minha perna e veio me lembrar que a caminhada precisava continuar. Explicou, pela última vez, que eu precisava lamber minhas feridas e seguir o meu caminho. E depois voltou a cheirar o vento, seu grande amigo. Já era noite quando me levantei. Uma lua vermelha arrombava o céu. Vermelha como o sangue, lágrimas que brotam da pele, tintura de sentimentos que nascem quando uma perda rasga o peito ou quando a criança, destemida, salta sobre o impossível e voa, voa até encontrar o chão e não perceber que sangra, tamanha sua alegria por ter conseguido. Peguei a lua nas mãos e ela se tornou três – aquela que cresce, a que míngua e a que reina. Guardei todas na mesma perna em que minha gata se agarrava.Ambas caminhariam comigo a partir de agora. Eu coleciono memórias no meu corpo. Marcas que escolhi ter e marcas que vieram sem pedir. De um joelho ralado na descida da rua, os roxos da teimosia sem fim, os arranhões doa amores, o osso deslocado no pega-pega com os primos e as marcas internas, invisíveis, daquilo que já se foi e daquilo que não vingou. Tudo deixa marca. O sussurro das folhas anunciava a presença do vento. Você já viu uma flecha de vento? Dizem eu carrego um propósito, mesmo sem saber de onde vem e para onde vai. Decidi ter uma para mim, colada em meu braço, ao alcance de quando eu precisar. A terra úmida da floresta sobre meus pés me levou à infância, aos amigos, às brincadeiras de quintal. Desde pequena criei histórias, inventei jogos, me perdi em aquarelas da minha imaginação: seres míticos, deusas, lontras, elfos, raposas, estrelas, florestas. Tudo sempre me inspirou e, estranhamente, parecia explicar meus sentimentos. Desde pequena queria todas essas criações em mim, meu mundo particular para onde eu pudesse olhar e fugir, olhar e lembrar, olhar e sorrir. Minhas tatuagens são as coisas que me inspiram e de que não quero esquecer: um dragão guardião das jornadas, minha gata companheira de vida, a flecha escondida nas folhas, a lua tríplice que nos lembra que tudo é vida, morte e vida. Dividindo espaço com os belos desenhos estão as cicatrizes de vida: a pele mais clara da catapora coçada inúmeras vezes, os queloides das feridas mais profundas, difíceis de contar, a textura diferente da carne crescida em exames mal feitos, o risco branco da costura emergencial. Em comum essas marcas carregam em si o poder de me traduzir; nesse corpo que carrega o tempo.

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