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História

Corinthiano apaixonado

História de: Francisco Carlos da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento emocionado, Fran discorre sobre as dificuldades de sua mãe para criar sozinha os dois filhos em São Paulo. Recorda a infância no bairro de Itaquera e as brincadeiras de futebol com os amigos. Fala sobre a paixão pelo Corinthians e pela seleção brasileira. Lembra como começou cedo a praticar esportes, tendo fascínio pelo futebol. Narra como conheceu sua esposa e como teve a ideia de criar a Associação Esportiva e Cultural Kauê, em homenagem ao seu primeiro filho.

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História completa

Meu nome é Francisco Carlos da Silva, nasci em 31 de agosto de 1971, tenho 42 anos, nasci em Potengi no estado do Ceará. Sou filho de Francisca Rodrigues da Silva, nascida em Potengi, no Ceará também, Francisco José da Silva, que nasceu no estado de Pernambuco, numa cidade chamada Bodocó. Meu pai é falecido e minha mãe ainda está viva. O meu pai era caminhoneiro e a minha mãe era dona de casa e com a separação, aos dois anos de idade, minha mãe teve que se ver numa cidade como São Paulo, que nós chegamos aqui muito cedo e ela teve que trabalhar. Conheci meu pai aos 18 anos de idade, porque eu fui atrás, porque eu tinha essa vontade. Minha mãe é analfabeta, saía para trabalhar e a única coisa que ela me pedia era que estudasse. Nós morávamos num cômodo de cozinha que o meu tio construiu, uma rua asfaltada, onde nós jogávamos bola até três, quatro hortas da manhã, não tinha o problema do tráfego. Eu brinco que foi lá que eu aprendi a não ter medo da bola, porque a gente jogava bola no asfalto eu e os meus amigos, alguns começaram a mudar de caminho e eu sempre tive no esporte a questão de querer mudar a minha vida. Com o passar do tempo, nós construímos um campinho de terra e desse campinho de terra, só que no campinho de terra a gente podia jogar só até às seis horas da tarde por causa da luz. Acabava o jogo no campinho de terra, a gente ia jogar na rua e ficava madrugada a dentro jogando bola, e conversando e compartilhando sonhos.

Eu sempre fui corintiano, desde garoto. Tinha uma pessoa no bairro, nós ficávamos jogando bola, fazia os rachões, inclusive, essa pessoa é padrinho do meu filho hoje, do Kauê, e ele foi uma pessoa que foi assim, muito presente na minha vida. E o meu sonho era jogar futebol no Corinthians. Eu me lembro quando eu devia ter uns dez anos de idade, que a seleção de 82, que foi uma seleção assim, que encantou o mundo e eu como todos os meus amigos, a gente colecionava figurinha. A gente colava, na época, chiclete vinha com as figurinhas do jogador, a gente comprava aquele monte de chiclete, ou ia no bar, um amigo arrumava os chicletes para gente. Você ia comprar dois chicletes, ele dava dez, porque ele gostava de ajudar a garotada. E a gente ficava colando as figurinhas nos álbuns. E quando o Brasil perdeu a Copa, foi eliminado em 82, eu falava assim: “Poxa, um dia eu vou ser um goleiro e o Brasil nunca vai perder uma Copa do Mundo”, coisa de criança assim, sabe, porque eu achava que o goleiro que era o culpado por ter perdido, por ter tomado os gols. Eu lembro o jogo que o Brasil foi eliminado, que a gente chorava muito, a garotada assim, quando perdemos, poxa. Eu estava na casa da minha tia, porque a televisão em casa pegava muito ruim, era preta e branca, e eu fui assistir na casa da minha tia, com os meus primos, e quando o Brasil perdeu assim, foi aquela choradeira.  O Sócrates como um cara a frente da geração dele. Mesmo com a pouca idade que eu tinha, dez para 11 anos de idade, eu falava assim: “Poxa, o doutor Sócrates”, que era a esperança de todos nós assim, e é uma geração.

Eu comecei a jogar com oito, nove anos de idade nos rachão da rua. Só que eu era o menor da turma, então o menor vai para onde? Vai para o gol. Os caras me colocavam no asfalto para pegar no gol e eu me jogava, ralava, arrancava o dedo do pé, a cabeça do dedo do pé, ralava o joelho, cotovelo. E um dia, surgiu a oportunidade para ir no São Paulo.  Estava com 15 para 16. Pegava um ônibus às quatro horas da manhã, porque não tinha metrô, pedia para o cobrador para deixar a gente passar por baixo no ônibus, escondido da minha mãe, para poder ir no São Paulo. Eu fiquei alguns dias no São Paulo. Primeiro, começou com um teste, chegamos, tinha mais de 500 garotos, chegamos de manhãzinha. Eu fiquei no último time, porque eu era o menorzinho. Quando começou o teste assim, a molecada do meu time era muito boa, muito boa e começou vim bola no gol e eu comecei a pegar. O cara me chamou e falou assim: “Poxa, mas você é danado, né?” e eu fiquei um período no São Paulo e no dia que o cara me chamou para me mandar embora, ele falou assim: “Olha, Fran, eu nunca vi um goleiro tão ágil assim debaixo dos três paus como você”, porque eu tinha jogado minha vida inteira com adultos, eu ia jogar com os caras da minha idade, para mim era muito fácil, “Só que assim, goleiro é como jogador de basquete, se não crescer, não tem como, você já está com 15 para 16 anos de idade”. E fui mandado embora, aquilo ali para mim foi como se eu abrisse um buraco no chão porque todo o meu sonho foi embora, acordei, falei: “Não quero mais saber de futebol, não quero mais saber de nada”, e fiquei quase quatro meses, cinco meses sem querer saber de jogar bola. Um dia os amigos me chamaram para jogar futebol de salão. As coisas começam a acontecer assim, porque eu fui jogar futebol de salão num time de garoto na Igreja da Penha, e tinha um time que treinava, que disputava o campeonato paulista. E os caras me viram jogando e o dono do time me chamou e falou: ‘Quantos anos você tem?” eu falei: “Vou fazer 16 anos”, ele falou: “Pô, estou montando um juvenil, você não quer vir jogar para o meu time? A gente vai disputar a federação”, eu: “Federação?” não sabia nem o que era federação. Cabral Piratininga, o nome do time. Eu falei assim: “Legal” “A gente treina aqui toda terça e quinta, e a gente vai disputar o campeonato”. “É, mas o juvenil a gente está montando, enquanto não monta o juvenil, você vem treinar aqui como principal”, que era o time de adultos. E comecei a treinar com os caras, eles me davam tudo. Quando os caras viraram para mim e falaram assim: “Olha, juvenil, não vai ter mais o juvenil, nós não vamos entrar mais com o juvenil, vai ter o principal”, eu falei: “Tá, mas e aí?” falou: “Não, mas vamos te federar, você vai ficar jogando com a gente no principal”, sabe? Aquilo ali para mim passou 30 dias, ele veio com, o envelope, deu na minha mão assim, tinha dinheiro dentro, eu falei para ele: “Mas o quê que é isso aqui?”com um agasalho bonito para caramba da equipe, falou assim: “A gente te federou, agora você vai começar a viajar com a gente, vai nos jogos com a gente, você vai ser o terceiro goleiro, porque você é juvenil” e tal, e eu: “Não, mas não precisa cara, eu quero jogar por prazer, eu não preciso disso”, porque eu tinha medo de pegar o dinheiro e as coisas, e os caras me mandarem embora, porque eu não tinha quem me orientasse. Mas foi aonde eu comecei a desenvolver dentro do futebol. A minha mãe me viu jogar na final do campeonato paulista em 2003, porque ela não tinha coragem de ir.

Eu me lembro que aos 12 anos de idade, eu já saía assim, gostava de correr, vivia correndo, saltando na rua. Um dia o cara da Eletropaulo parou e ficou olhando, disse: “Garoto, eu quero falar com a sua mãe” “Mas eu não fiz nada! Eu não fiz nada, eu estou brincando”. “Eu quero falar com a sua mãe, porque eu sou da Eletropaulo e eu vi que você salta muito bem e eu quero te levar para o clube da Eletropaulo”. Tinha 12 para 13. Eu via no esporte a chance de mudar a minha vida, então eu queria fazer de tudo. Eu fiquei seis meses nesse mesmo período, eu ia todo dia para uma academia, sentava e ficava olhando os caras treinar e os caras ficavam treinando, com dez para 11 anos de idade. Um dia, o professor virou para mim e falou assim: “Escuta aqui garoto, o que é que você vem fazer aqui todo dia?”, eu falei para ele: “Não, eu só venho assistir” “Mas por que é que você não treina?” “Porque a minha mãe não tem dinheiro para pagar academia para mim” “E seu pai?” “Cara, eu não tenho pai” “Então, você vem treinar amanhã” “Mas eu não tenho grana, cara. Minha mãe não tem condições de pagar academia para mim treinar”, professor Simbah, mestre de capoeira. O Simbah virou para mim e falou: “Olha, Francisco é assim: existe um tipo de coragem que a gente nunca imagina ter. Até chegar um dia que ela é a única coisa que nós temos. Se você tem coragem para em seis meses ficar vindo aqui todos os dia, ficar observando, tenha coragem para começar a treinar com a gente”. Na academia de capoeira eu virei o “Borracha”, que era o cara que tinha abertura negativa, fazia saltos perfeitos, e comecei a fazer capoeira e da capoeira comecei a correr, depois dessa frustração de ter ido para o São Paulo, ter sido mandado embora, acertado com o futsal, comecei a viajar com os caras, comecei a pegar experiência.

Então, quando foi 18 para 19 anos, que eu conheci a mãe do meu filho, nessa época, assim, eu participei de um programa chamado Osen. Era um programa da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, que procurava levar a gente para fazer o catecismo. O Cifa dava o café da manhã, dava o almoço, e nós tínhamos as atividades dentro: artesanato, esporte, teatro, assim, eu ia para lá, não só eu, mas acho que 99% da garotada ia para comer. Porque tinha a bolacha, tinha o Toddy. A macarronada, o frango, coisas que muitas de nós não tínhamos em casa. De 18 para 19 anos, eu fiz parte desse projeto e de 18 para 19 anos eu voltei para dar aula lá. Dava aula de esportes e de artesanato. De 18 para 19, eu conheci a minha esposa, que trabalhava numa loja em frente ao Osen. Ela me paquerava, porque eu ficava dando aula, acho que ela gostou das minhas pernas, que ela dizia que eu tinha as pernas bonitas. A gente está junto há 23 anos. Nessa época eu continuava jogando e trabalhava, treinava e jogava. Eu comecei a fazer as artes marciais, me formei faixa preta. Tinha Vinte anos. Minha última luta que foi encerramento de carreira foi em 2011.

O Kauê é meu filho. Nasceu em 19 de julho de 95. Nos casamos num domingo cinco horas da tarde, final do campeonato paulista, 1994. Corinthians e Palmeiras. Fui para o casamento com a bandeira dos gaviões no bolso do paletó, abri a bandeira dentro da igreja, na mesma igreja do padre, onde eu fiz parte no projeto, no Osen. Eu estava desempregado e um amigo me chamou para jogar no time da Unimed, um campeonato que ia ter e todo jogo eu ia. Um dia eu faltei no jogo, Celso Ricardo falou: “Pô, mas o goleiro não veio por quê?” “Pô, está desempregado, foi fazer um bico” e tal “Pô, o cara está desempregado, e ninguém me fala nada? Manda ele vim segunda feira na Unimed”, me contratou. Para trabalhar no cadastro.  

Depois fui para Unicsul. Cheguei na Unicsul, informática. Fiz a inscrição, fiz o vestibular, fui aprovado. O Celso Ricardo falou para mim assim: “Olha, Fran, já vou dar entrada no pedido para você mudar de departamento”. Eu não tinha um ano de empresa. Os caras me adotaram no departamento de TI da Unimed, sempre aprendi muito rápido as coisas. Pisei na Unicsul para fazer o matrícula, vejo uma faixa gigante assim: “Atletas, bolsa de 100%, faça a sua inscrição para avaliação”. Foram os dois meses mais difíceis da minha vida. Quatrocentos e oitenta atletas no Futsal. Meu nome está entre os 15. Dez vagas de jogadores de linha, duas vagas para goleiro, nós estávamos em três. “Eu preciso definir os doze atletas”, o treinador falou assim: “Meu, eu nunca vi um goleiro tão maluco igual a você, meu, vai lá e assina o contrato”. Foi a época que eu dormia duas horas e meia da minha vida. Depois eu comecei a viajar muito pela área de TI, os caras começaram a me pagar por hora para implantar nas Unimeds, implantei acho que em 50, 60 cidades diferentes, só que o meu filho tinha três anos de idade, eu não via o meu filho, assim, desenvolvendo. Isso foi 1998, já era faixa preta, já lutava, já tinha competido, e eu falei assim: “Parei, chega!” comprei a minha casa. Então assim, o corpo já não aguentava mais, 26, 27 anos de idade, achava que estava na hora de parar, 1998. Eu falei: “Vou montar um time de futebol para reunir meus amigos, para brincar de vez em quando”. Do time de futebol, nasceu a Associação esportiva e Cultural Kauê. Eu não parei de jogar em 98, joguei até 2008, competi durante mais dez anos. Então, assim, competi por mais dez anos até 2008, fui campeão paulista, campeão metropolitano, campeão da taça cidade de São Paulo, campeão paulista universitário. Joguei em Mogi, em Suzano, no Internacional, no Cabral, que foi onde eu comecei aos 16, depois peguei seleção paulista, seleção brasileira da bola pesada, da bola fifusa, lutei campeonato paulista, campeonato brasileiro.

A menina dos olhos da Associação, do projeto é a pista de atletismo que eu pintei no asfalto. Ela tem cinco raias, 200 metros, onde tem revelado os garotos que são promessas para Olimpíada de 2016. A pista é na Rua Nicolino Mastrocola, a rua mais famosa do Brasil. Chegou eu e os meus amigos, tinta, um parto para conseguir dez latas de tinta vermelha e duas latas de tinta branca, junta SEME – Secretaria Municipal de Esportes.  Eu e mais quatro amigos pintamos a rua. Começamos às quatro horas da manhã de um dia, fomos terminar às nove do outro, de sábado para domingo. Quatro horas da manhã de sábado, terminamos às nove de domingo, paramos um pouquinho à noite, total deu 16 horas de trabalho, assim, se for contar horas trabalhando, cinco raias, 180 litros de tinta vermelha, 18 litros de tinta branca, um sonho na cabeça e um monte de promessas. São duzentos metros de pista.

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