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Coragem para partir

História de: Lourença Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Lourença Soares relembra momentos marcantes de sua vida, desde sua infância quando seu pai de sangue a enviou para outra família por não ter condições de cria-la, o relacionamento com sua família de criação, cita também o momento em que teve que sair de sua casa, por divergências com a mãe da sua mãe de criação que não a aceitava como neta, por fim, fala sobre como se reergueu aqui em São Paulo e sobre sua carreira como técnica de raio x na Universidade de São Paulo.

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História completa

P/1 – Vamos começar lembrando da sua infância, né? Nome, onde você nasceu, nome da cidade, data de nascimento.

 

R - Eu nasci no Distrito de Santo Antônio de Lisboa a 12 km de Florianópolis, Santa Catarina. No ano de 1933, 14 de junho de 1933 para ser bem clara.

 

P/1 - E dos pais? Nome, local de nascimento.

 

R - O pai é Ricardo Soares de Oliveira e Almerinda Maria Soares, eles nasceram no mesmo distrito, agora data do nascimento deles não tenho lembrança.

 

P/1 - E os avós você se lembra?

 

R – Sim, o avô paterno era João Dias de Lima e Inaciana Maria de Lima do paterno, do materno era Maria Marciana de Lima eram primos e Ludovico Dias de Lima, era o avô materno.

 

P/1 – Conta um pouco como foi a sua infância.

 

R – Pouco eu tenho pra falar da minha infância porque ela foi, assim... Um pouco triste, não tenho muito pra lembrar da minha infância, não foi fácil (voz embargada). Não conheci minha mãe, meu pai vivia longe porque trabalhava em uma casa de comércio um pouco distante do local e vivi uns tempos com a minha vó e meu padrinho, depois fui viver com meu pai e meus três irmãos, quatro irmãos, eram quatro, eu era a única filha mulher, depois meu pai achava que eu não podia continuar morando com ele porque ele saia, voltava só uma vez por mês, a cada quinze dias, uma menina no meio de meninos não estava bem, então fui morar com uma madrinha de crisma, isso em Florianópolis, a 12 km próximo. O local que eu morava com meus irmãos era um tipo de um sítio, uma casa com árvores, com cascata, com tudo, mas um sítio simples, né? E fiquei com essa madrinha pouco tempo, não deu, voltei para a casa do meu pai. Aí ele conversando com um amigo juiz, que tinha outro amigo que era um médico veterinário paulista, como um casal de São Paulo, queria uma menina, adotar uma menina, eles conversando com esse amigo em comum dos dois, acertaram que me levariam para criar no Rio de Janeiro. O casal morava no Rio de Janeiro e o meu pai de sangue morava em Santa Catarina, então foi feito um documento, onde eles se comprometiam, se responsabilizariam por mim, criando-me, educando, dando toda a assistência que uma criança da minha idade, devia ter uns sete, oito anos por aí. Depois disso vivi com esse casal, morando na cidade perto de Florianópolis, chamava-se São Francisco e ficamos lá um tempo, depois fomos morar no Rio de Janeiro, no Flamengo, mais ou menos, 10, 12 anos eu já estava. Moramos lá durante dois anos no Flamengo, depois fomos morar mais dois anos em Niterói, Icaraí, na cidade de Icaraí, após esses dois anos voltamos para o Flamengo.

 

P/1 – E você estava sempre com esse casal?

 

R – Com esse casal que passaram a ser meus pais de criação?

 

P/1 – Qual era a diferença da sua vida entre a sua vida no seu lar de família e a sua vida agora com um casal no Flamengo?

 

R – Nessa época?

 

P/1 – Qual foi a diferença que você se lembra? Foi boa, não foi?

 

R – Foi boa porque eu saí de uma insegurança na infância, totalmente confusa, não tem como... Não me lembro alguma coisa positiva, era desalentador, era sem segurança, sem nada. Agora o casal deu a mim aquilo que eu não tinha, apoio, orientação, moral, um pouco disso tudo e um pouco de carinho, da maneira deles, eles foram muito bons. Meu pai de criação, que era médico veterinário era muito severo em relação a mim, ao meu comportamento, então ele trabalhava, viajava, quando voltava, como ele era funcionário da defesa sanitária animal, com sede no Rio de Janeiro, aliás, na época Distrito Federal, ele passava muito tempo fora de casa e ao voltar ele ficava assim “Cadê a Lourença, onde é que está a Lourença?”, a minha mãe deixava sair, mas quando ele chegava tinha que estar em casa naquele horário. Durante o período que morei em Niterói, ele trabalhava em Niterói, acho que dois anos, mais ou menos, então ele saia de manhã voltava 18 horas, nisso, eu já era mocinha, com meus 16, 17 anos, estava na esquina brincando, namorando, conversando com as outras jovens da minha idade, olhava assim e via ele em uma viatura expressa, era uma espécie de... Como eu posso dizer? Me foge. Era um micro-ônibus da época, eu avistava a careca do meu pai de criação, saia correndo, em vez de ir pela porta da frente pra que ele não me visse, entrava na porta de fundo, fechava a porta, ele já chegava e dizia: “Cadê a Lourença?”, eu respondia “Estou aqui”, então ele foi muito severo, muito correto, procurou dar a mim uma noção de moral, de decência e comportamento de bem.

 

P/1 – Você arranjou muitos amigos, nesse momento, como é que era sua vida, brincadeiras?

 

R – Não, nessa minha adolescência era aquela hora de brincar, de flertar, de conversinha de adolescente, mas de consequência, era só por aí.

 

P/1 – Tinha festas, brincadeiras, como é que era a escola?

 

R – Algumas, mas eu só ia com eles ou acompanhada. Sozinha eles não me deixavam muito sair, ele me controlava muito, eu poderia ir a um baile de carnaval, ou ir ao clube, alguma coisa, ou com ele ou com um casal, ou com a empregada. Sozinha ele não deixava, e se eu, às vezes, ia com uma coleguinha no Flamengo, ele ia verificar se eu tinha ido realmente com ela.

 

P/1 – Como é que você sentia esse controle?

 

R – Eu não gostava muito, mas achava que eles deviam ter uma certa razão porque eles estavam zelando por mim. Eu não gostava, eu achava um pouco, lá no fundo, eu achava que eles faziam aquilo porque eles não eram meus pais de sangue. Mas depois de uns anos, meus 25 anos, ele fazia isso para o próprio filho dele homem.

 

P/1 – Então eles tinham outros filhos?

 

R – Teve, depois dois filhos.

 

P/1 – Depois de você ir pra casa deles?

 

R – Depois de dois anos que eu já estava com eles, tiveram um filho homem. Dez anos depois do nascimento daquele primeiro filho, teve o segundo filho homem, eu fui a única mulher, com meus irmãos de sangue e com os meio-adotivos, agora, se ele se comportava severamente com o próprio filho. Ele sempre dizia... Ele tinha um comportamento de moral, um tanto exagerado, no modo dele, ele estava certo, para a época também, hoje eu acho que eles estava certo, em termos, mas como ele era severo com o próprio filho, eu aceitava em parte tudo aquilo e também, muitas vezes, eu já estava com meus vinte e tantos anos, 27, 28 anos, já morava sozinha em São Paulo, voltava a chácara, que eles tinham uma boa chácara, eu ia de vez em quando, naquelas datas bonitas de Dia das Mães, no fim do ano, nos dias de feriados, então eu ia para lá, e ele conversando comigo sempre dizia que a mulher é diferente dos homens, no conceito dele, há trinta anos, trinta e cinco anos, ele achava que a mulher era diferente do homem porque ela tinha que ter linha acima de tudo, ela tinha que ter dignidade, em certos lugares um rapaz entrava, uma moça não devia entrar porque a moça era diferente do rapaz e que no ambiente de estudante, como eu trabalhei na faculdade de medicina veterinária, era jovem, ele dizia pra mim “Tenha cuidado com os estudantes, estudantes são rapazes que são inconsequentes, você se preze, se cuide e se zele”, esses foram os conceitos que ele sempre incutiu em mim. Nessa época, eu achava que ele era meio exagerado, severo, hoje eu acho que ele tinha razão. Porque ele no fundo, ele zelou por mim, pelo meu comportamento, não sei se a minha conduta hoje é fruto daquilo que eu aprendi com eles, no meu convívio, eu acredito que sim porque nós somos, ao meu ver, 50% fruto do meio e 50% genética, porque a gente herda a genética, esse é o meu conceito, na minha idade, hoje, com meus 59 anos de idade, eu penso assim.

 

P/1 – E a sua escolaridade, como foi nesse tempo todo?

 

R – Foi confusa, muito confusa porque eu estudei um pouco no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Que era Distrito Federal.

 

R – Distrito Federal, no colégio Anglo Americano, depois meu pai de criação foi transferido para Belo Horizonte, lá foi a família toda para lá, durante três anos morei lá com eles. Estudei lá um pouco, nem tinha terminado, voltamos para o Rio de Janeiro, lá ficamos um tempo, depois fomos passar umas férias em Sorocaba, lá estudei o primário, na cidade de Sorocaba, completei lá o primeiro grau, antigamente era o primeiro, hoje é o primeiro grau.

 

P/1 – Você lembra em qual escola?

 

R – Colégio Porto Seguro, então, lá fiz meu primeiro grau. Depois voltei para o Rio de Janeiro, lá ficamos dois anos. Não quis estudar porque eu queria estudar de noite e minha mãe de criação dizia que não “De noite não, é perigoso, você quer estudar, estuda de dia”, quando a gente é jovem a gente não mede as consequências, não tem noção da coisa certa, então eu não quis estudar. Não estudei. Fiquei “Eu quero de noite”, “De noite você não vai”, então ficou por isso mesmo. Em 54, mais ou menos, ela perdeu o pai, aí ela, minha mãe de criação, foi cuidar dos bens, da parte financeira e cuidar da mãe, então eu fui para passar umas férias com ela lá também.

 

P/1 – Onde?

 

R – Em Sorocaba. Então, nós nos locomovemos do Rio de Janeiro, da Rua do Flamengo, onde nós morávamos e fomos pra Sorocaba, lá, ficamos um tempo, ela não pode mais regressar ao Rio de Janeiro, tanto que eu não levei roupa, não levei nada porque eu deveria voltar, mas o tempo que nós ficamos em Sorocaba, não foi um tempo de três, quatro meses, nós íamos morar por muitos anos porque ela tinha que morar lá, cuidar das mãe, cuidar dos bens financeiros porque tinha muita coisa que ela tinha que ver. Então, tudo bem fui me adaptando lá, frequentava o clube, ali pertinho, uma quadra da casa. Tinha a mãe dela que era uma senhora de idade, não me aceitava muito como filha de criação dela, nessas alturas já tinha nascido o menino, quer dizer, tinha o primeiro filho, que eu era a mais velha, nove pra dez anos, tinha o segundo filho que era mais novo que o filho legitimo, nove anos por aí, então já existiam dois meninos, um nove anos mais novo do que eu e um nenenzinho, esse nenenzinho tinha uma babá que cuidava dele. Então, ficamos residindo em Sorocaba, mas aí surgiu um problema, a mãe dela não me aceitava muito e começou a provocar desajuste, que eu saia muito, que eu não parava em casa, que eu estava fazendo sei lá o que com os jovens, eu estava próxima, era questão de meia quadra, em um clube onde tinha jovens, ouvindo música, dançando normal, a minha mãe de criação achava aquilo normal e acreditava. Mas na hora, ela não aceitava, a mãe dela, com isso, tivemos problemas, ela não gostava de mim, eu também não a apreciava pelo tratamento que ela me dispensava. Com isso, fomos entrando em atrito, eu em todo aquele tempo, havia uma amizade, uma camaradagem muito boa entre mim e a minha mãe de criação, mas o convívio com a mãe dela, na casa dela, o negócio começou a complicar porque a filha tinha que ouvir um pouco a mãe, e eu ficava meio de lado, ela me tratava bem, mas ela ouvia mais a mãe. Começamos a ter um pouco de atrito, esse atrito foi indo, tomando vulto, a ponto que eles tinham um documento oficial, de um juiz, amigo dos dois, do médico veterinário, do meu pai de sangue, onde determinava que eles tinham responsabilidades sérias com a minha pessoa, nessa época eu deveria ter uns 20 anos, um pouco menos, quase 20 anos, o meu pai de criação, um médico veterinário, ele estava viajando, então, encontravam-se na casa a mãe da minha mãe de criação, meus dois irmãos de criação e eu. O clima foi ficando tão difícil que eu fiquei confusa, atrapalhada, desorientada, tomei uma atitude... Bom, essa atitude até hoje ela me marca, tanto que eu me emociono (voz embargada).

 

P/1 – E gostaria de falar?

 

R – É, um pouco por alto, eu vou entrar rapidamente pra complementar a minha infância e adolescência que foi difícil... (silêncio). Em determinado momento, no fim da tarde, achei que não tinha mais condições de ficar ali, primeiro que minha mãe de criação não ia voltar mais para o Flamengo no Rio, segundo que ela iria ficar cuidando da mãe e eu não poderia continuar ali porque eu já estava um pouco consciente dos meus horizontes. Como é que eu ia viver assim? Dependendo de uma mesada do meu pai de criação para tudo que eu quisesse, aí resolvi levantar voo. Levantei voo no fim da tarde, vim para São Paulo, sem conhecer ninguém, sem condições financeiras, simplesmente, tinha um pouco de dinheiro para uma passagem de trem e para me manter por muito pouco tempo porque eu não estava em Sorocaba definido, eu estava lá para um período de emergência, mas a circunstância mudou, então eu vim para São Paulo, isso, mais ou menos, em 1953, quase 35, não me lembro que mês. Desci no Sorocabana, perdida, atrapalhada, conheci um casal em conversa com um jornaleiro e esse casal residia, perto da Sorocabana, foi aí que eu fui ficar com eles, contei meu problema, antes disso a relações pública da Sorocabana, queria me dar um ingresso para que eu voltasse pra Florianópolis, o que eu ia fazer em Florianópolis?

 

P/1 – Não tinha contato, nada?

 

R – Nada, nada porque quando eu morava em Niterói, Icaraí meu pai de sangue procurou minha mãe e minha mãe não deixou meu pai de sangue me ver e nem tampouco comentou comigo, meu pai adotivo sempre falava, o médico veterinário “Lourença, você não tem ninguém em Santa Catarina, a única família sua somos nós. Esqueça que você teve sua família e os seus irmãos lá”. Então, com essa mentalidade, com essa orientação, o que eu ia fazer em Florianópolis? Nada. Então, o melhor foi ir com o casal que eu sempre fui muito falante, comunicativa, das coisas que me ajudaram bastante, então conversei, como eu era uma jovem educada, com bom comportamento, com uma certa presença, inspirei confiança a eles, aí eles pegaram me acomodaram, fiquei com eles uma questão de uma semana, um mês, mais ou menos, depois eu fui trabalhar com uma senhora que tinha uma mãe de idade e que era dentista e não podia deixar a mãe sozinha porque era muito idosa e com problema de doença. Eu fui mais como uma companhia, como uma amizade, não ganhava nada, mas tinha tudo, casa, comida em um ambiente bom, uma dentista com uma mãe húngara, não era nem brasileira, mas falava português como eu. Fiquei um tempo com elas, questão de dois meses, aí através de um conhecido dela, arrumei um primeiro emprego em uma fábrica de brinquedos, então fui aprender como montar alguns brinquedos, Fábrica de Brinquedos Estrela. Então, como ajudante de montagem, eu comecei, mas eu não gostei do serviço. Não estava pra Lourença meio ativa, então eu disse pra essa dentista, que depois ela passou a ser, minha tia e vó (emoção) por afinidade. Se ela fosse minha vó e minha tia de sangue, não seria mais real, tamanho afeto que nos uniu (choro), onde eu encontrei apoio moral e orientação. Então, conversando com ela e com um rapaz conhecido dela me arrumou na fábrica Fiel, como ajudante de isoladora de fio, onde trabalhavam muitas moças da minha idade, então eu fui trabalhar, era um serviço simples, não tinha grande coisa, tinha que prestar atenção, então fui trabalhar como ajudante lá, auxiliar de isoladora de fio, fiquei lá uns dois meses. O chefe do escritório me achou muito esclarecida com pouco de expediente pra trabalhar no escritório, eu fui trabalhar no escritório, fiquei ali uns três, quatro meses como auxiliar de escritório, cujo dono da firma, o presidente se interessou por mim. Mas eu não tinha malícia, nem poderia passar pela minha cabeça que ele estava com interesse em mim, então ele me convidou se eu queria trabalhar no escritório em cima, no escritório central e eu aceitei e fui trabalhar como recepcionista e telefonista da firma, Fábrica Fiel LTDA, aí eu percebi, aí que uma jovem começa a sentir as sutilezas da vida. Bom, eu senti que ele estava com uma intenção, que intenção? Não me interessava, primeiro eu estava ali a fim de trabalhar e ganhar o meu dinheiro, única e exclusivamente, nada mais passava pela minha cabeça. Percebendo que ele estava querendo me conquistar, eu simplesmente, não me interessei mais por aquele serviço, a própria telefonista antiga, uma pessoa de bem, me arrumou outro emprego na Porcelanas Mauá na Conselheiro Crispiniano e lá fui fazer um teste, fui muito bem, aprovada, passei muito bem, fui escolhida em várias, o diretor que era o diretor comercial, que era um brasileiro descendente de alemão achou que eu estava ótima para o cargo. Questão de cinco, seis dias eu já comecei a trabalhar na nova firma, na Porcelana Mauá, lá fiquei trabalhando como recepcionista e telefonista durante quase quatro anos. Saí de lá porque a firma já estava com problema e estava reduzindo certas melhorias que eles tinham concedido aos funcionários, que se chamava gratificação, que tinha o salário fixo na carteira e mais aquela gratificação por fora. Eu não sabia que a firma estava iniciando uma dificuldade financeira, então eu não gostei de terem me tirado aquela gratificação, protestei de boas maneiras e pedi a conta. Aí eu fui trabalhar em uma outra firma como datilografa e telefonista.

 

P/1 – Continuava morando com a dentista e a mãe?

 

R – Morei muitos anos, depois vim morar na cidade, em casa de casal de idade durante uns cinco anos, eu sempre procurei morar ou com casal de idade ou com senhora. Onde não havia muita gente ou era eu só, ou mais uma ou duas moças, no máximo. Porque muita gente, eu não apreciava, eu gostava demais de sossego. Então, nessa época da Porcelana Mauá eu morava com um casal, na rua Pedro Táxi, na Consolação.

 

P/1 – E você continua com algum tipo de contato?

 

R – Sim, a amizade cada vez aumentando, ela era mantida com laços mais ainda afetivos, com a dentista e a mãe dela, que eu a chamava de vovó Suzana, a dentista chamava Anita Elza (Crainique?) (choro). Eu me emociono porque ela morreu. Bom, nessa parte da Porcelana Mauá eu só saí porque me senti injustiçada e como jovem, com direito a um futuro melhor, isso eu pensava na minha cabeça. Estudar não dava porque ou eu trabalhava oito horas pra me manter, não tinha ninguém que me desse nada porque a dentista também não podia dar nada ela tinha a vida dela, tinha a mãe dela pra sustentar e não era justo que eu aceitasse auxilio dela. Eu teria que contribuir, acho que era normal.

 

P/1 – E a sua mãe de criação não procurou você?

 

R – Não. Quando eu, em 53, vim pra São Paulo, eu soube depois que foi uma confusão muito grande quando meu pai voltou de viagem e que contaram a ele que eu tinha fugido de casa, esse era o termo grotesco “A Lourença fugiu, a Lourença foi embora pra São Paulo, nós não sabemos onde ela está”. Ele ficou aflito e apavorado porque eu não era maior de idade e ele tinha responsabilidade, como é que ele ia prestar conta com amigo e com o juiz? Que a menor de idade tinha abandonado a casa, a proteção dele, a tutela dele porque ele era um pouco tutor, ele tinha responsabilidade, tanto que ele agiu como tal.

 

P/1 – Quando você saiu?

 

R – Quando eu vim pra São Paulo no meu voo de libertação, eu quis seguir o meu caminho, caminhar sozinha, com as minhas pernas. Hoje eu digo, graças a Deus, que eu tomei essa atitude, foi para meu bem, a duras penas, sem condições financeiras, sem apoio, sem dinheiro e sem orientação. Eu não tinha nem orientação maliciosa, eu não sabia que existiam mulheres de vida fácil, prostitutas, ignorava isso. Eu fui criada em um ambiente fechado, onde não existia muito contato, onde não tinha muita maldade, naquele ambiente não tinha esse tipo de conversa, sabia alguma coisa de leitura, mas o que uma jovem com 20 anos lê há tantos anos, hoje é diferente, hoje os jovens de, 14, 15 anos eles sabem muito bem, mas eu com meus 20 anos não tinha muita noção, então foi um impacto. Quando ele tomou conhecimento disso, ele ficou apavorado, ele me procurou, ele revolucionou, ele foi à polícia, ele fez tudo, mas ele não conseguiu me localizar. Passou algum tempo eu não queria mais vê-los, mas tem o acaso. Não me lembro o porquê um amigo em comum, alguém, no Rio, que eu voltei ao Rio, falou-me deles. Existe aquela raiz, aquele afeto, afinal, eles foram bons pra mim, me deram amor da maneira deles porque eles também não tinham grandes... Eu observei depois de muitos anos, que para os próprios filhos deles, eles não tinha aquele... Eles queriam dar, mas não sabiam transmitir o verdadeiro amor. Ela dava pra mim tudo, me fazia um vestido, me comprava um sapato, passava a noite fazendo uma fantasia pro carnaval pro dia seguinte, me deixava o vestido lá pronto. Ela tinha atitudes de uma mãe de criação que queria bem, se o próprio filho de sangue ela não tinha aquela condição de transmitir o verdadeiro amor, que eles se queixaram comigo alguns anos depois, então pra mim, eu achei aquilo normalíssimo. Se o próprio filho... Se ela pudesse dar ao mais novo, o temporão, se ela pudesse dar a lua para ele ela daria, mas não deu o principal: o amor espontâneo, o amor necessário, o afeto, a segurança que a criança, o adolescente merece, precisa e deve receber de um pai, de uma mãe ou de alguém que cria.

 

P/1 – E namorados?

 

R – Tive vários.

 

P/1 – Enfeitaram um pouco a sua adolescência.

 

R – Sim, tive uma juventude, uma adolescência depois dos meus 18 anos. Enquanto eu vivia com meus pais eu tinha meus namoricos, mas corridos porque ele controlava. Normal, nada de inconsequência, namoro na janela, de ir no cinema pegar na mão, junto com a empregada sentada na cadeira adiante. Depois que eu completei meus 20 anos que eu andava com meus próprios pés, caminhava com a minha cabeça, então tive vários e vários namorados, mas tudo sem consequência, abraços, beijos, apertos, nada que eu possa me arrepender ou sentir vergonha. Nada, nada, nada. Então, aquela orientação de uma linha reta de decência, de moral, eu acatei, pesou muito pra mim. Mas eu acho que também entrou aí o meu caráter porque eu acho que o caráter de uma adolescente, de um jovem, de uma pessoa com seus 20 e poucos anos, ela se forma também por si, ela é fruto daquilo um pouco do que ela recebeu, eu não recebi quase nada na minha infância, mas na adolescência foi um pouco severo demais, talvez, um pouco radical, talvez. Hoje eu aceito 70%.

 

P/1 – Você fez até que curso na escolaridade?

 

R – Eu fiz o segundo grau e fiz o técnico de raio x, fui técnica de raio x na Universidade de São Paulo, onde eu trabalhei, depois que eu saí da Porcelana Mauá, meu pai de criação me arrumou uma carta para o reitor da Universidade de São Paulo que tinha sido conterrâneo dele, aí eu fui falar com o reitor, ele me enrolou simplesmente oito meses, eu chorava, ora ele mandava pra assistente técnico, ora ele não estava. Depois de oito meses, graças a um contínuo, um senhor de cor, distintíssimo que era continuo que atendia as pessoas antes de passar para a secretária do reitor, ficou com pena de mim e colaborou, devo a ele. Ele conseguiu uma entrevista com Doutor Gabriel Silvestre Teixeira de Carvalho, que era o reitor da época em 59, cujo governador era o Carvalho Pinto, depois de oito meses de espera e vai e vem, eu falei com Doutor Gabriel, como estou conversando com as duas senhoras. “O que você quer menina?”, 22 anos incompletos: “Doutor Gabriel, Doutor Macedo mandou essa carta pro senhor”, “O que você quer?”, “Eu quero um emprego, preciso me manter”, “Você não precisa, o Macedo pode te sustentar, ele é fazendeiro, ele é médico veterinário, existem muitas moças que precisam mais do que você”, “O senhor vai me desculpar, mas o senhor se engana, eu não conto com eles nem moralmente, quanto mais financeiramente”, ele olhou e disse: “Ah, é. Você está falando sério?” e comecei a chorar, ele disse: “Então o negócio muda de figura, tua nomeação vai sair”, quatro dias depois realmente fui nomeada para o cargo de auxiliar técnica, na faculdade de medicina veterinária. Trabalhei diretamente na secretária como auxiliar, com estágio probatório de dois anos, daí eu fiz um teste e fui aprovada.

 

P/1 – E era onde a faculdade?

 

R – Na Rua Pires da Mooca, 159, na Aclimação. Eu fiquei trabalhando, terminando os dois anos, Doutor Gabriel Silvestre Teixeira de Carvalho que não era mais reitor era o catedrático da cadeira de farmacologia de formular, na Cidade Universitária, me chamou na diretoria da faculdade de medicina veterinária e confessou, outra vez: “Menina, você quer trabalhar comigo lá na Cidade Universitária, ser secretaria do departamento lá, fazer serviço de escritório?”, eu falei: “O senhor está me convidando, eu aceito”, “Só que é na Cidade Universitária, trabalha de vez em quando sábado”, “Tudo bem, eu aceito, com muito prazer, eu lhe sou muito grata” e fui. Fiquei uns tempos com ele, onde ele sempre foi distintíssimo, em todo sentido da palavra. Trabalhei lá, tinha umas plantas muito bonitas, de vez em quando ele e a senhora dele iam visitar minhas plantas, depois tive um pequeno desajuste com uma assistente técnica. Aí voltei, nessas alturas o Doutor Gabriel já havia se aposentado, ficou o filho dele como catedrático, já era outra pessoa, outro comportamento, outra situação, voltei para Pires da Mooca, para a sede da faculdade, mas eu fui trabalhar diretamente como secretária do departamento de raio x, radiodiagnostico e fisioterapia, cujo o catedrático era um médico humano, um dos fundadores da faculdade. Quando a faculdade de medicina veterinária foi fundada, só pelos médicos humanos porque não havia médico veterinário, na época, preparado para aquele fim.

 

P/1 – Quem era você lembra?

 

R – Tinham vários... Tinha doutor Vila Nova... Olha, eu sei que haviam vários, tinha esse e o catedrático da cadeira de radiologia, de substância radioativa era o professor doutor Honorato Faustino de Oliveira Junior, esse que era o médico chefe, catedrático dessa cadeira, eu fiquei trabalhando com ele de 1965 a dezembro de 1970, neste período, eu trabalhei como secretária, fiz o curso de técnica de raio x, técnica de radiologia.

 

P/1 – Lá mesmo?

 

R – Na Secretária da Saúde, sobre orientação dele, ele dava aula também, além do atendimento de grandes, pequenos e médios animais, que era o departamento de raio x que atendia todas as clínicas da faculdade e todos os médicos, todos os profissionais de medicina veterinária particulares iam todos pra lá, esse departamento tirava raio x de todos os animais, desde um cachorro, gato, cavalo da força pública, leão do zoológico, um periquito, um canarinho, qualquer... Eu como técnica de raio x, tirei 12 mil e tantas radiografias em um período de cinco anos.

 

P/1 – De todos esses animais?

 

R – De todos esses animais que citei. Cavalos, as vezes de haras particulares também e tenho também foto tirando raio x de um leão com raquitismo, semi-anestesiado. E onças, tiramos várias vezes, eu atuei como técnica de raio x, fiz vários trabalhos com professor de peças, para o trabalho dele de tempo integral na universidade, ele conseguiu o trabalho, graças a, modéstia à parte, minha humilde colaboração e além dos trabalhos científicos, também nos fizemos trabalhos com fermur de boi e de cavalos do Jockey Club e de outros lugares com os alunos.

 

P/1 – E de lá pra cá, atualmente, você mora com quem?

 

R – Hoje, atualmente, eu sou dona do meu apartamento, tenho o meu conforto, aposentei-me em outubro de 85, após meu pedido, pedi minha aposentadoria com 30 anos e um mês e nove dias.

 

P/1 - E foi tudo bem, você está recebendo?

 

R – Tudo bem, mas eu me sinto um pouco injustiçada porque trabalhei na universidade, dei o melhor de mim com aquilo tudo, trouxe meu caso em 70, até a universidade cargo com verba e tempo integral pra secretaria da saúde, a meu pedido, atendido pelo secretario da fazendo da época, Doutor Arrobas Martins, cuja a doutora Palmira (Kusmak?) foi autora de todas as leis e decretos que me (relutou?) e que colaborou muitíssimo, eu devo muito à ela e ao professor Honorato Faustino de Oliveira Junior nesse sentido, quando veio meu cargo e eu completei meu tempo na secretária da saúde, trabalhando onde? No departamento de administração e gabinete do coordenador, da coordenadoria de saúde da comunidade, lá eu exerci a função de responsável por tudo que era verba de adiantamento, de material permanente, de pronto pagamento. A campanha de meningite de 1972, 73 ela deve muito, modéstia a parte, a mim e ao doutor Décio Pacheco Pedroso, que era o coordenador da época e muita gente da área técnica, da enfermagem, nós trabalhamos muito e na qualidade de responsável comprando todos matérias, desde uma caneta, uma seringa, tudo que era material. Depois dessa parte, desse tempo do gabinete do coordenador, eu fui trabalhar um ano e pouco no TRE porque eu fiquei muito doente.

 

P/1 – Mas aí você já se aposentou?

 

R – Não, antes de aposentar, depois que me aposentei não quis mais nada com serviço público.

 

P/1 - Mas atualmente você frequenta alguma associação?

 

R – Atualmente, faz sete anos que eu me aposentei, eu tenho me doado a ajudar pessoas de idade doentes que precisam de mim. Como? Amizade sem lucro, sem beneficio financeiro, só pelo fator de solidariedade humana, de ajudar quem precisa porque o idoso é muito deixado de lado, ninguém gosta muito do velho. O velho cheira mal, o velho incomoda, o velho fala demais, o velho faz chantagem... Eu tenho, nesses sete anos, me dedicado com apoio, com ajuda, toda e qualquer ajuda.

 

P/1 – Mas sem ganhar?

 

R – Não, voluntário, humano, sem fins lucrativos.

 

P/1 – Qual é o seu sonho?

 

R – Meu sonho é continuar o meu caminho, sem grandes pretensões e viver dentro do normal, com saúde, podendo ser útil, mas sem muita confusão a minha volta. Tenho várias relações de amizade, amizades de 40 anos, casais cujo filho vi nascer, tenho três irmãos que moram em Florianópolis, várias amigas de idade, uns quatro ou cinco idosos também ____. Não é isso que eu quero, pretendo programar uma coisa de útil pra mim e para os que me rodeiam.

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