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Coragem e provações em busca de uma vida melhor

História de: Entrevista de Maria de Fátima Souza Lima
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 09/07/2021

Sinopse

O babaçu, a pesca e caça de animais eram o sustento da família de Fátima. Ela fala da família numerosa e da infância desafiadora. O desejo de viajar para o Sudeste. A oportunidade como copeira. Engravidou e, após o nascimento do filho, precisou buscar renda extra como faxineira para criá-lo sozinha. Aos 50 anos, ganhou uma festa surpresa na Petrobras.

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História completa

 

Projeto Memória Petrobras

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Maria de Fátima Souza Lima

Entrevistada por Márcia de Paiva e Sérgio Petrozzi

Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2008

Código: MPET_HV003

Transcrito por Vanuza Ramos

Revisado por Lilian Bueno

 

 

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Fátima, queria começar nossa entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Maria de Fátima Souza Lima. Eu nasci na cidade de Bacabal, Maranhão, no dia 22 de setembro de 1955.

 

P/1 – Fatinha, me diz o nome de seus pais.

 

R – Bem, pai eu não conheci porque naquele tempo meu avô não deixou minha mãe casar e aí meu pai sumiu e a minha mãe e meu avô que me criaram, né? Mas o nome da minha mãe é Sebastiana Souza Lima e do meu avô é Miguel Viana.

P/1 – Por que é que seu avô não deixou sua mãe casar?

 

R – Porque ele tinha muito ciúme da minha mãe. E aí a minha avó tinha fugido dele e deixado cinco filhos pra ele e minha mãe criar, minha mãe sendo a mais velha. E aí, devido a isso, ele não deixou minha mãe se casar. Mas cada vez que ela saía ela chegava com mais um e, assim, ela teve onze e ele criou todos os onze.

 

P/1 – Você tem onze irmãos então?

 

R – Tinha. Agora só tenho quatro porque Deus já levou os outros.

 

P/1 – Fatinha, como é que foi lá também, em Bacabal? Como é que era a cidade? Me conta um pouquinho de lá.

 

R – Olha, a minha vida em Bacabal, eu fiquei em Bacabal de zero ano até meus 20 anos. Com vinte anos eu deixei lá e vim pra cá. Mas nesses meus 20 anos a minha vida foi uma maravilha, né? Porque eu vivi com minha mãe até os sete anos, né? Como ela tinha muitos filhos e aí cada um criava um pouco. A família, muito grande, dava um pouquinho pra uma tia, pra outra tia, e assim espalhou todo mundo. E aí, com meus sete anos, eu fui morar com uma tia minha. E depois a minha tia morreu e aí eu passei ser criada pela minha avó. Que eu não conhecia a minha avó até aí, então. Porque quando ela fugiu do meu avô, foi embora pro Pará. Lá, ela arrumou outro, casou, teve uma outra família. E depois, quando o segundo marido dela morreu, ela voltou pra Bacabal novamente. E meu avô, injuriado da vida, não casou nunca mais.

P/1 – Mas, aceitou ela de volta?

 

R – Não. Porque ela ficou, assim, ficaram amigos, né? Mas, ela ficou na casinha dela e ele, com a minha mãe. Não largou minha mãe por nada nesse mundo. E minha mãe criou os outros, casou todas as minhas tias, que eram quatro, mais um tio meu. Eram cinco filhos. Casou e também a minha mãe não casou porque ficou com avô também. Meu avô não casou e nem minha mãe, né? Mas minha mãe tinha muita vontade de casar. Tanto é, quando meu avô morreu, aos 80 anos, ela com 61 anos se casou. E eu tô nessa esperança, quem sabe? 

P/1 – Fátima, me conta como é que era Bacabal. É uma cidade grande, pequena? Como é que ela é?

 

R – Bacabal é assim. É uma cidade pequena. Agora tá maior, né? Ela fica na BR-613. Eu acho que é 613. É uma BR grande, lá, que vai pra Imperatriz. Então, como São Luís é a capital, Imperatriz é a primeira cidade. Aí, vem Santa Inês, que é a segunda, e Bacabal é a terceira. Como é que vocês não conhecem Bacabal?

P/1 – Pois é, um erro terrível, né? Mas, eu vou procurar pra conhecer melhor.

R – E no meio da cidade de Bacabal passa o rio Mearim. O rio onde eu fui nascida e criada tomando banho, comendo peixe, lavando roupa. A minha casa ficava na beira do rio. Da porta da minha cozinha, jogava a vara de pescar e pescava o peixe. Ali mesmo tratava e comia. E era muito legal. De noite, assim, a minha mãe chegava. Nós vivíamos, o meio de sobrevivência era o coco babaçu. Aí, a gente ia, quebrava o coco babaçu durante o dia, de tarde vendia e comprava a mistura pra comer. E onde comprava roupa, calçado. Tudo era do coco babaçu.

 

P/1 – Como é que quebra o coco babaçu? Conta pra gente.

 

R – Coco babaçu é quebrado no machado com cacete. A gente chama cacete, né? Que aqui é outra coisa, né [riso]? Cacete é um pedaço de pau. Tudo indígena, né? Então, foram os índios que ensinaram a gente. Aí, tem o machado, bota o gomo pra cima, pega o pau, bate em cima do coco. Ele abre, tira os carocinhos que tem dentro. E é medido em litro, nesses litros de óleo. Então, cada litro daquele corresponde um quilo. E aí, eu quebrei até 15 quilos por dia. Eu era muito quebradora. Corta esses negócios aqui tudinho, da mão, o machado. Conforme quebra o coco, a mão desce, passa no canto do machado e corta.

P/1 – Entre os dedos, aqui, que vai cortando?

 

R – É. Vivia tudo cortado. Só que agora não tem mais marca não, faz 30 anos de Rio, né? Acabou tudo. E aí, assim, e a gente vivia da roça também, plantava, colhia, (cotava) arroz, milho, feijão ______.

 

P/1 – Mandioca?

 

R – Mandioca. Fazia farinha. Lá em casa tem foto, assim, de farinhada, de forno, beiju. E, assim, essas coisas. Então, a vida era assim. E como, assim, a gente ia pra o interior fazer essas coisas e Bacabal tem um mercado grande, a gente trazia nos jumentos. Jumentinho, jegue, né? Pra vender no mercadão de Bacabal, né? Como se fosse o mercadão de Madureira. Aí lá tem o mercadão e a gente trazia pra ali, botava a banca ali e vendia tudo, né? Então, a gente vivia assim, era da quebra do coco, da pesca, da piracema, né? Quando era no inverno, o Rio Mearim vinha muita piracema. E a gente pescava muito peixe, salgava e deixava (coer?) do ano pra o outro. Da caça, da capivara. Eu falo assim pra o meu filho, hoje em dia, que tudo que tem no zoológico, eu já comi tudo. Ele dizia "O Ibama não te pegava" [riso]. Não, que todo aquele... A cotia no campo de Santana, quando eu vejo aquilo, me dá vontade de comer aquelas cotias. 

P/1 – Cotia é gostoso?

 

R – É gostoso, você tira aquele courinho ali e aí você assa ela, faz no leite de coco. Tudo lá em casa comia no coco babaçu. Socava no pilão, o coco, né? Fazia aquele leite grosso. Comia macaco, comia. Pode falar, né?

 

P/1 – Pode. Era outro tempo.

 

R – O Ibama não vai me pegar, né?

 

P/1 – Não, era outro tempo, né? 

 

R – Era. Comia macaco, capivara, arara. Até o tucano. E cortava o bico do tucano, enfeitava as paredes, assim, com os bicos do tucano. É lindo, né? E aí comia aqueles pássaros, todinho. Tudo que tem no zoológico que você possa imaginar, a gente comia em casa. Da pesca, da caça.

 

P/1 – E o tucano era gostoso também?

 

R – Era. Tudo era. Assava, aquilo tudo comia assado.  Alambu, fazia...

 

P/1 – Alambu é o que?

 

R – É um pássaro grande, assim.

 

P/1 – É?

 

R – É. E fazia a arapuca. Armadilha, né? Pra pegar. Aí as bichinhas ia comer o arroz ali, enganada, a arapuca caía em cima. Quando a gente chegava, que tinha um alambu lá na arapuca, ai que maravilha. Já era uma janta garantida. E o peixe. Então, eu fui criada assim. E aí, quando eu fiz meus 20 anos, que eu fiz 18, né? Que eu não casei, eu digo: "Bem, vou ficar pra titia aqui. Não vou, né? Então, eu vou pra cidade grande". Porque, passou de 18, lá na minha época, não casava não. Que os homens lá só gostam de novinha, né? Até os 15 anos. Minhas irmãs casaram tudo com 15, 16 anos. E eu era muito raquítica, agora que eu desenvolvi. Mas, eu sempre fui muito raquítica, ninguém dava nada por mim. E aí, quando eu fiz 20 anos, eu falei pra minha avó assim: "Ah, eu tenho muita vontade". Olhando uma revista, aí, olhando a cidade de São Paulo, do Rio. "Ah, eu tinha tanta vontade de conhecer o Rio, São Paulo. Se um dia eu tiver a possibilidade de ir pra lá, eu vou embora pra lá". Mas, ali, eu comentando com minha avó, deitada no colo dela e ela matando cafuné, de noite, na lua bonita. Aí, com três dias, minha avó, as coisas todas de repente, com três dias chegou uma mulher lá que era nossa vizinha e morava aqui. Foi passar férias no mês de julho. Aí ela queria uma pessoa pra trazer com ela, pra morar com ela, pra ajudar a acabar de criar os filhos dela. Aí ela foi pedir logo quem? Minha mãe. Pra arrumar uma pessoa pra ela. Aí minha mãe, que é minha avó, né? Aí minha mãe falou assim: "Ah, a Fátima falou, tinha muita vontade de ir pra lá". Mas, eu trabalhava na casa da prima dela. Ajudava ela a fazer as coisas. 

P/1 – Da prima dessa vizinha?

 

R – É. Aí, ela falou assim: "Mas, ela trabalha na casa da Lourença". Aí tudo bem. Aí falou com a Lourença. "Não, você pode levar ela, que aqui fica mais fácil pra mim arrumar outra. Pra você levar pra lá fica mais difícil. E ela já quer, já é meio caminho andado". Aí ela falou assim: "Então, manda ela se arrumar, porque eu vou em São Luís e 15 dias eu passo aqui pra pegar ela, pra gente já ir pra o Rio". Eu não acreditei não. "Mas, que nada. Dona Madalena não vai me levar não. Tá me enganando". Aí tudo bem. Pois a mulher foi me pegar. Aí arrumei tudo naquelas malas de madeira. Arrumei tudo e ainda tinha mala lá em casa, até um dia desses joguei fora. Aí botei minha roupinha, que eu quase não tinha. A gente quase não tinha nada mesmo. Minha roupa e meu sapatinho. Botei e vim embora. Aí vim pra São Luís, pra poder pegar o ônibus, que em Bacabal não tinha ônibus, né? Aí veio pra São Luís. Aí passei mais três dias, foi quando eu conheci São Luís, que eu não conhecia, né?

 

P/1 – Deixa... Eu até quero chegar aí, mas deixa só eu explorar um pouquinho mais antes de você sair de lá de Bacabal. 

 

R – É, porque já tava saindo.

 

P/1 – De lá, Fátima, você chegou a estudar lá. Como é que era?

 

R – Não, nunca estudei, porque não tinha tempo e lá mais os homens que estudavam. Eu só tive dois irmãos homens, que estudaram. A mulher era preparada pra o casamento. E como não chegou a minha vez, só aprendi fazer as coisas mesmo de casa.

 

P/1 – E você era, na escala dos irmãos, você era?

 

R – Eu sou a quinta.

 

P/1 – A quinta?

 

R – É.

 

P/1 – Então, era uma mulherada?

 

R – Era seis mulheres, a gente. Nós éramos seis mulheres, era, assim, seis meninas mulheres. Que crescemos, né? Que outras nasceram mortas. E outras morreram pequenas. Ah, tem uma parte muito engraçada na minha vida, quando eu era pequena, eu fiquei muito doentinha, assim, bebê, assim, de um ano, um ano e pouco. E aí minha mãe teve outra, minha irmã. E aí minha mãe falou que eu fiquei, assim, entre a vida e a morte. E lá, quando a pessoa ficava doente pra morrer, fazia o caixão em casa. E como eu todo dia levava a vela na mão, né? Que tem o negócio de botar a vela na mão pra morrer na luz de dez. Que dizia, né? E aí, a minha mãe mandou fazer meu caixão, minha mortalha, tudo meu, eu botou, assim, na cumeeira da casa, guardado. Porque quando eu morresse já tava feito. Todo dia eu levava vela na mão pra morrer e não morria. E aí, nesse período, tinha uma irmã minha, assim, pequenininha, de seis meses, que era o xodó da minha mãe. Minha mãe, aí, só queria a minha irmã, né? Largou todos os filhos só por causa da minha irmã. E aí eu já tava ali pra morrer, ninguém nem ligava mais, já tava pedindo a Deus que eu morresse. E aí, quando foi um dia eu melhorei. Aí, minha mãe falou, tirou as velas, botou pra lá. E a minha irmã teve uma febre e essa bonitona, né? Que eu chamei ela bonitona. Que eu nem conheci, assim, direito.

 

P/1 – Que era uma bebê.

 

R – Era. A minha irmã ficou doente, né? Aí, diz que a minha irmã ficou três dias de febre e a minha irmã morreu. E aquilo tudo que era pra mim, minha mortalha, meu caixão, serviu pra minha irmã e eu fiquei boa. Sobrevivi, tô aqui contando a história e a minha irmã morreu e a minha mãe ficou muito chateada. Porque disse que era eu que tinha que morrer, né? E aí a minha mãe passou, assim, não me odiar, mas não gostar de mim, né? E aí me deu logo. Pra minha tia me criar pra tirar da presença dela. Que ela achou que Deus tinha feito uma troca muito ingrata, né? Levar a filha que ela mais amava e me deixar. E a minha mãe também não gostava de mim.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Ai, eu não lembro. Eu era pequena, tinha dois, três anos. Mas, eu mesmo não lembro disso. Minha mãe que conta, né? E como eu era filha de um homem casado, que deu muito problema pra minha mãe, minha mãe andou apanhando da mulher dele. E a minha mãe passou a ter a raiva que ela tinha do meu pai, passou pra mim, né? Mas, um problema dela de livrar de mim. E Deus ainda deu esse castigo pra ela, e aí eu fui morar com os outros e convivi muito pouco com a minha mãe.

 

P/1 – Aí você foi morar com a sua tia?

 

R – Aí foi morar com a minha tia, que demorei pouco também. Minha tia morreu e eu fui, acabei com minha avó.

 

P/1 – Aí a sua avó já tinha voltado.

 

R – Minha avó tinha voltado do Pará, porque o marido dela morreu. Aí voltou do Pará com a filha.

 

P/1 – Aí você foi conhecer a sua avó.

 

R – Aí foi que eu fui conhecer minha avó, uma pessoa muito... Uma santa. Ainda é viva. Fez 100 anos. Tá lá vivinha da Silva, pra contar toda essa história.

 

P/1 – Como é que é o nome dela?

 

R – Filomena.

 

P/1 – Filomena?

 

R – É.

 

P/1 – E aí dona Filomena foi a mãezona sua?

 

R – Foi a mãe que me criou, que eu conheci. Aí, eu fiquei todo esse tempo, resto da minha vida sem ver mais a minha mãe. Que a minha mãe foi embora pro interior, lá, da vida. E eu continuei em Bacabal com a minha avó.

 

P/1 – Aí ela foi pra o interior depois que o seu avô morreu?

 

R – Não. Depois que meu avô morreu, ela se casou lá no interior. Ela não morou mais com a minha mãe. Minha mãe não morou com minha avó. E aí, porque tem toda essa rixa do passado, minha avó abandonou a família. Tem aquelas coisas. Aí minha avó, quando a minha tia morreu, que morava perto da minha avó, a minha avó me pegou e acabou de me criar.

 

P/1 – E aí quando você foi pra São Luís, que é que você achou de chegar lá numa cidade, na capital e tudo?

 

R – Achei muito bonita, ainda mais que tinha mar, né? Eu era louca pra ver o mar. Aí quando eu cheguei no mar, que eu entrei no mar, eu pensei que era igual o igarapé, o Rio Mearim, que a gente tomava banho. Aí que eu fui tomar banho, veio aquela onda, me jogou pra fora. Aí eu fiquei: "Ai, não é igual ao rio lá de casa, não". Aí eu saí assustada, né? Aquela coisa. Aí depois, ___________ contar: "Não, tem as ondas, não sei o que". E eu queria pescar os peixinhos que eu via assim. Que São Luís tem o mar muito limpo. A gente viu os peixes, assim, eu queria pescar, queria botar comida pra os peixes igual lá no Rio Mearim, pra os peixes, pra pegar os peixes, mas aí disseram: "Não, aqui a gente não faz isso não, porque não pode pegar os peixes assim não". E aí já era tudo diferente. Mas, eu passei esses três dias lá e vim pra cá. Aí, quando eu vim pra cá, a primeira coisa que essa mulher fez foi me levar no mar. Aqui no Aterro do Flamengo. É a praia que eu gosto, tanto é que eu não gosto de outra praia, eu só venho pra aqui. Porque foi aqui onde eu tomei o meu primeiro banho e continuei. Só gosto do Flamengo.

 

P/1 – E aí, quando você chegou aqui no Rio, o que é que você achou também?

 

R – Ah, maravilha. Aqui, pra mim, eu tava, assim, no paraíso. Aí eu escrevi, naquela época não tinha muito telefone, só rico, né? Aí era só carta. Escrevia toda semana, tudo que acontecia pra mim, comigo, eu escrevia pra minha avó. E aí, eu fui ganhar dinheiro pra construir a casa da minha avó, que tava caindo. Aí, então, essa mulher, ela pisou na bola comigo. Que ela falou pra minha avó. Essa que me trouxe.

 

P/1 – Pois é, o que é que ela fez?

 

R – Ela falou pra minha avó que ia trazer pra cá, que eu queria ganhar dinheiro pra ajudar o meu pessoal de lá, né? Igual todos os paraíbas fazem. Não vim no pau de arara, não. Vim de ônibus. Aí, resultado, ela chegou aqui, ela só me dava roupa e calçado e comida, não me pagava. Aí, eu falei pra ela: "Dona Madalena, eu quero é ganhar dinheiro pra mandar pra minha avó. A senhora sabe o que é que eu fazia". A casa da minha avó, né? Aí ela falou: "Ah, mas eu não posso te pagar não. Só posso te ajudar assim". Falei: "Então, eu não quero ficar aqui não". Aí, no fundo da minha casa, do apartamento que eu morava, tinha uma casinha embaixo, que tinha uma moça que trabalhava na Petrobras. Aí eu contando pra ela um dia, que eu tinha vontade de trabalhar, assim, pra ajudar a minha avó, meus irmãos. Aí ela falou assim: "Olha, eu vou ver se lá tem uma vaga pra você. Mas, lá a gente serve café. Você se importa de servir café?" Eu digo: "Nunca servi não, mas eu, se eu aprender eu não me importo não".

 

P/1 – Ô, Fatinha, e esse apartamento dessa senhora era onde?

 

R – Era lá em Turiaçu, Madureira.

 

P/1 – Mora lá em Madureira?

 

R – É. Fica rente a Rocha Miranda e Madureira. Turiaçu. Aí, resumindo, né? Aí veio no mesmo dia, ela falou com o chefe dela e ele falou: "Traz essa menina aqui amanhã". Aí eu fui, mas quando chegou lá a vaga que era minha, o outro chefe já tinha dado pra outra pessoa. Que a vaga que era minha, não, que tava desocupada. Não era minha, senão tava lá, né? Aí já tinha dado pra outra pessoa que eu ia, era até na limpeza, que tinha vaga, né? Aí eu cheguei lá, o seu Ernesto, que já aposentou, falou assim: "Não, eu tinha uma vaga mesmo. Até de manhã tinha uma vaga, mas aí, já foi preenchida. Não tem mais". Aí ela pegou, falou assim, a Zezé, que aposentou também, falou assim... A maior parte já estão tudo aposentado. Falou assim: "Ó, leva ela lá no seu Nelson, de repente até tem pra o café, né?". Aí eu fui lá, seu Nelson. Mas eu era tão raquítica. Eu tinha 38 quilos. E era assim, ninguém dava nada por mim mesmo. Senhor Nelson olhou assim: "Você aguenta carregar uma bandeja com xícara?" Tudo "xicrinha", né? Falei assim: "Nunca experimentei não, mas de repente eu guento", que eu era forte. Eu comia muita coisa forte lá no Maranhão. Quer dizer, eu tinha força, eu só não tinha estatura de mulher. Aí, eu acho que por isso que eu não me casei, porque os homens não queriam mulher raquítica. 

 

P/1 – Você tinha mais corpo de criança?

 

R – Tinha. Eu era sempre, até hoje o médico falou pra mim que eu tenho o corpo de uma adolescente de 16 anos. Eu não correspondo à minha idade, muito menos minha altura.

 

P/1 – Mas isso é bom, né, Fafá?

 

R – É, de repente é, né? E esse jeito de me arrumar, tipo menininha, ninguém me dá 53 anos, só 35. 

 

P/1 – [Riso] Mas é mesmo. Mas, aí, conta. E aí?

 

R – Resumindo, aí eu fui lá, ele falou assim: "Olha, tem uma vaga. Eu vou fazer um teste com você, porque eu sou teimoso mesmo, né?" Aí, preencheu lá o endereço, mandou lá em São Cristóvão. "Você vai lá em São Cristóvão e entrega isso". Botou o nome do homem, pra o fulano de tal. "Entrega esse papel pra ele e aguarda o resultado. Você já conhece a Praça Tiradentes?" Eu digo: "Não conheço praça nenhuma. Tô vindo pra cá hoje". Aí ele botou o endereço, tudinho direitinho pra eu pegar o ônibus. Aí eu fui lá, né? Chegou lá o homem já me deu o uniforme, pediu minha carteira, que eu levei meus documentos. Pediu minha carteira, já assinou minha carteira, tudo no mesmo dia. Assinou minha carteira e mandou eu comparecer na Petrobras no dia seguinte, já pra trabalhar. 

P/1 – Tudo rápido?

 

R – Tudo rápido. Assim, pela... Diz que é a janela, né? Entrei tudo pela janela, não fiz prova, não fiz nada. Resultado. Aí quando a Paulene chegou de noite lá, falou assim: "E aí? Você falou com seu Nelson? O que é que deu"? Falei assim : "Seu Nelson não tinha vaga, mas o seu Nelson tinha. E me deu o uniforme aqui, ó. Já pra mim trabalhar amanhã". Ela disse: "Maravilha. Então, amanhã você vai comigo". A gente saiu cinco horas de casa. "Você vai comigo. Vem dormir aqui em casa".  E aí eu fui falar pra essa Madalena, que eu ainda tava na casa dela. Só que eu muito burra, né? Pensei assim, que ela ia me deixar ficar lá, eu trabalhar durante a semana e final de semana eu fazer as coisas pra ela. A mulher não aceitou. "Não, já que você vai trabalhar fora, você procura um lugar pra ficar. E aí?" Eu falei: "Ai, meu Deus do céu". Aí eu fui e falei pra Paulene, essa Paulene muito boa, graças a Deus. Deus dê tudo que ela precise, que ela foi muito boa pra mim.  

 

P/1 – Como é que é o nome dela?

 

R – Paulene.

 

P/1 – Paulene?

 

R – É. Hoje em dia ela é casada com um vigilante da Petrobras, com Jorge. Acho que você conhece o Jorge. Ele é chefe dos vigilantes contratado. Muito boa, a minha colega. Aí ela pegou, falou assim...

 

P/1 – Peraí, Fafá, que ano que era isso? Você lembra?

 

R – Isso foi no... Deve ser ano de 1978. Mas, aí, como já tava chegando as festas, eu fui, fiz o teste naquele dia e ele mandou eu voltar em janeiro, depois das festas. Já era vinte e poucos. Sabe dezembro, quando chega lá é só festa, né? Ele falou: "Agora você começa em janeiro". E aí eu fui pra casa, passei as festas e no dia dois de janeiro eu comecei. Já em 79, no caso. No dia 2 de janeiro  de 79. Aí eu comecei direto e nunca mais saí. 

 

P/1 – E aí como é que você resolveu, então, o problema lá da...

 

R – Aí, menina, mas foi assim. A dona Madalena mandou embora, porque eu já tinha arrumado emprego, não precisava mais dela. E eu peguei minha malinha, botei minhas coisinhas e fui pra o portão. E aí tava lá no portão, né? Pensando o que eu ia fazer da minha vida, onde é que eu ia dormir, que eu tinha que trabalhar no dia seguinte. Aí, eu tava pensando em levar a mala pra o trabalho e lá arrumava uma pensão, qualquer coisa pra ficar. E ela me deu 700 reais, que era pra pegar o ônibus pra ir embora pra casa. Ela falou: "Olha, eu já falei com sua avó, você não vai ficar aqui no Rio. Você vai voltar pra casa, que eu sou responsável por você". Então me deu o dinheiro do ônibus. Com o dinheiro do ônibus, eu falei assim "Eu vou alugar um lugar pra mim ficar. Vou trabalhar e vou me manter". Eu já era de maior, tinha 20 anos. Ia fazer 21, né? Aí, resumindo. Aí eu fiquei lá no portão, pensando. Sem conhecer nada, que eu nem conhecia, nem Turiaçu, ainda mais o outro resto, Rio de Janeiro, né? Aí fiquei pedindo uma luz ali. Aí a Paulene chega do trabalho. "Ué, pra onde tu vai com essa mala?" "A dona Madalena mandou embora". "Que é isso? Mas, tu não vai trabalhar amanhã?" Eu digo: "Pois é, mulher. E aí? Como é que vai ficar agora"? Ela falou: "Vem pra minha casa". Aí me levou lá pra o fundo. "Hoje você dorme aqui e amanhã a gente vê como é que faz. E amanhã você vai trabalhar comigo". E assim eu fiz. Eu fui pra lá, dormi lá. Ela me deu guarida, né? Aí, de manhã nós saímos. Aí eu fui trabalhar, né? Quando chegou lá, aí mulher do céu! Já contei até esse negócio. Meu primeiro dia de trabalho normal, né? Que no outro dia eu fui só olhar as meninas trabalhar. Mas, aí que foi normal, né? Mandaram eu servir uma reunião com mais de 300 pessoas. Aí, era tudo sala, não era (baia?), assim como você vê. Era tudo sala. Bati na porta, quando eu abri, aquele horror de homem. Tudo "empalitozado", opa, paletó e gravata ali, né? E eu com o carrinho cheio de xícara. Aquele meu carrinho, tu viu (eu empurrando?) ele, né? Aquele meu carrinho cheio de xícara, um monte de garrafa embaixo, pra servir aqueles homens todinho. Eu falei, comecei a tremer, eu digo "Ai, meu Deus. Agora, como é que vai ser?". Tinha que pegar a bandeja no braço, na mão, sem a estrutura de peso pra aguentar, né? Porque pesava, né? Aí eu falei assim, não podia entrar na sala com o carrinho e os homens tinham que ser servidos, né? Os homens tudo sentado. Aí eu perguntei. A minha colega foi burra, né? Foi até pra rua por causa disso. Não por causa disso, mas porque não me ensinou direito. Era pra ela ir lá me explicar como é que era que fazia. Ela me deu o carrinho e falou: "A sala é essa aí. Te vira". Aí eu cheguei lá, falei assim: "Como é que eu sirvo café?" O homem falou: "Ó, você..." Muito sacana, hoje em dia _________________. "Ó, você serve primeiro o chefe. Depois o resto é mole". Tudo de paletó e gravata. Que é que eu ia fazer? Eu cheguei pra um e "O senhor é chefe?" Ele disse "Eu não. É aquele". Aí eu fui pra o outro "O senhor é o chefe?" "Eu não. É aquele". E assim me fazendo de bolinha. Ninguém era chefe ali, né? Resumindo o caso. Ah, eu fiquei muito nervosa! Cada um que eu ia, ninguém queria assumir que era o chefe. Eu digo: "Quer saber? Vou dar pra qualquer um". Quando eu tirei a garrafa da bandeja, aquele horror de pires, pesado. Caiu tudinho. Os homens saiu tudo pulando, um por cima do outro. A garrafa quebrou. Foi aquele desespero. Aí eu fiquei mais nervosa ainda. Meu Deus do céu. E agora? As xícaras, os pires, tudo no chão. Quebrado. Café entornado e homens tudo, a maior parte sujo, né? Aí um homem lá pegou o telefone e ligou pra o meu chefe. Aí: "Tira essa menina daqui". Eu ouvi bem ele dizer assim: "Tira essa menina daqui que ela não serve pra servir café. Já quebrou tudo aqui. Me manda outra pessoa". Eu acho que ele que era o chefe, mas tava muito longe de mim. Aí, eu não ia chegar nele nunca. Resultado. Eu larguei tudo lá. Peguei só a bandeja, deixei tudo lá no chão. Peguei a bandeja, botei no carrinho e saí correndo igual a uma louca. Desesperada, correndo. Não sabia nem onde é que tinha elevador, desci pelas escadas.

P/1 – E o carrinho?

 

R – Ficou tudo pra lá. Eu fui procurar abrigo lá no meu chefe. Lá no segundo subsolo. Saí correndo aquilo tudo. Demorei chegar. Cheguei lá cansada, que eu fui de escada, né? Desci 26 andares de escada. Que era no 26 essa reunião. Desci 26 andares de escada correndo. Aí, desesperada, até chegar no meu chefe. Quando eu cheguei lá, claro que ele já sabia. Por telefone é bem mais fácil, né? Aí ele falou assim: "Já tô sabendo de tudo. Mas a Luzia que foi culpada, que ela é que era pra te ajudar. Você não era pra fazer sozinha, que você não sabia. Traz um copo d'água aqui pra ela". Aí eu bebi uma água, recuperei meu fôlego. "Senta aí. Por enquanto você vai ficar aí. Já tem outra pessoa lá servindo, fica calma". Seu Fernando é muito bom. Que Deus a tenha, morreu de (cana?). Mas foi o meu grande protetor durante todo o tempo, né? Aí, o resultado. Serviram pra lá e eu nunca mais fui lá pra o 26. Odiei essa Luzia. Depois de muito tempo que eu fui ver ela de novo. Mas tinha pavor dessa mulher. Que eu acho que hoje em dia quando chega uma pessoa nova pra mim explicar, eu tenho todo o carinho. Vou, explico. Quando a pessoa já tá firme mesmo, consciente do que tá fazendo, aí eu: "Dá pra você ficar sozinha?". "Dá". Aí, tudo bem. É diferente. Jamais faço que nem ela fez comigo no primeiro dia. 

P/1 – Foi meio maldade, né?

 

R – É. "A sala é aí. Vire aí se quiser", né? E aí, foi assim. Aí dali pra ali, seu Fernando me mandava pra fazer as coisas mais fáceis, ainda mais fácil. E aprendi a fazer café. Muito tempo lá, tinha esse negócio de chefe de copa, adquiri um cargo de chefe de copa por muitos anos. E aí, as meninas que trabalhavam comigo, graças a Deus. Tem aquelas polêmicas, que umas gostam, outras não gostam.

 

P/1 – Gostam de que? Peraí. Do serviço?

 

R – Das pessoas.

 

P/1 – Das pessoas?

 

R – Das pessoas. Uma odeia e as outras amam, né? E, porque umas querem ser mais do que as outras. E aquelas polêmicas de trabalho mesmo. No nosso meio sempre tem aqueles negócios, né? Aí resumindo, ficou tudo legal. Resumindo o negócio, né? E aí, daí pra lá, aí foi moleza, né? E aí eu já andei naquele prédio todinho, né? Trabalhei do 25 ao segundo subsolo. E aí parei na comunicação. Na comunicação eu fui no ano 2000, onde estou até hoje. E ano que vem saio aposentada, graças a Deus por isso.

 

P/1 – Ô, Fatinha, mas aí, quando você também começou a trabalhar, você tava na casa dessa moça que arranjou o emprego pra você.

 

R – É. Dona Madalena.

 

P/1 – E você ficou lá? Como é que depois, que você se virou?

 

R – Não, na casa da Paulene, né? Não, essa noite só, eu fiquei na casa da Paulene. Aí no dia seguinte lá falou comigo assim: "Olha, você pode ficar lá em casa até você receber o seu primeiro salário. Depois que você receber, você pega, aluga um negócio pra você, se você quiser. Se não, você fica lá em casa o quanto você quiser". Eu falei: "Não, eu quero viver a minha vida independente". Com o dinheiro que a dona Madalena me deu eu pedi a alguém pra me ajudar a alugar uma vaga, né? Vaga, assim, tipo homem, mulher, que aluga, né? E aí, lá no centro da cidade mesmo. No mesmo dia que eu saí de tarde, uma colega minha me levou numa vaga lá, que tinha 30 mulheres. Aí eu aluguei, lá na Mendes Sá, na Rua Mendes Sá.

 

P/1 – Fica lá perto, lá do trabalho, né?

 

R – É. Então, eu queria uma coisa que ficasse perto. Aí aluguei uma vaga lá. E aí eu fiquei lá, né? Porque eu só tinha a minha malinha lá, né? E aí, minha malinha, com minhas coisinhas. E a vaga ficou assim, quando eu recebia, era um salário mínimo. Aí eu dividia no meio, o dinheiro, pagava a vaga e o resto eu ficava. Aí eu mandava pra minha avó e a outra parte eu comprava comida, porque dava comida lá na coisa, dava aquelas quentinhas, né? Na minha firma. A Petrobras dava quentinha. Eu almoçava metade da quentinha e a outra levava pra jantar. Não fazia comida, né? Que mesmo não tinha, só pra dormir, né? E aí eu vivi assim por muito, muito tempo. Aí depois, quando eu achei que eu já tava ficando, já tava, assim, dona de mim mesmo, eu quis alugar um quarto pra ter minhas coisas, ter minhas coisas direito. Porque era 30 mulheres e a maior parte fazia a vida ali naquelas boates da Mendes Sá. Vocês sabem antigamente, agora tem pouca, né? Ainda tem algumas, ainda. E eu tinha uma colega que era muito legal por mim. Então, depois que eu fui descobri que aquelas mulheres que moravam ali, tudo era de viração. E eu virgem, eu era virgem.

 

P/1 – Aí você ficou assustada?

 

R – Eu era virgem, você acredita que eu era virgem morando com as mulheres da vida? Mas, se era lá em casa, no Maranhão, não vivia. Porque a gente nem tinha contato com essas mulheres.

 

P/1 – Aí você ficou muito assustada de saber que você tava ali no meio da...

R – Não, depois que eu fui vendo. Porque eu não via ninguém trabalhar, né? Eu saía pra trabalhar, ficava tudo dormindo. De noite desaparecia tudo. Eu dormia sozinha. Que elas ia pra boate fazer dança pelada lá. Fazer vida lá.

P/1 – Ô, Fatinha [risos]. Mas, elas também não te chateavam, não?

 

R – Não, elas eram muito boas pra mim. Muito boa.

 

P/1 – Bacanas com você?

 

R – Eu conheci a Ana, que era uma portuguesa. E a Gisele, e a Zilda. Que eu morava no quarto delas. Era três caminhas assim. E elas passaram ser minha proteção. E tudo que as outras queriam fazer de maldade comigo, elas não deixavam. Que aí elas sabiam da minha história, que eu era virgem, tudo. E a Ana, que era muito boa, essa portuguesa. Ela me levava pra as boates, passou a me levar pras boates da que ela fazia lá. Ela fala trabalho, né? E passou a me levar, pra ir em companhia dela. Mas, ela era minha protetora. E ela falava pra o chefe, me botava na mesa, me enchia de guaraná. Me botava na mesa e falava pra o chefe: "Ninguém mexe com ela, hein?". E eu ficava ali até. Aí ela ia lá, se trocava, vinha toda pelada, com aquelas... Calcinha e biquíni, né? E dançava, sentava no colo dos homens. E eu via isso tudo, mas virgem. Ninguém nunca fez nada comigo. E aí os homens não mexia comigo porque ela dava ordem, né? E eu também não queria aquela vida, né? Eu ia assistir o show. Ela dizia que era show, né? Assistia o show.

 

P/1 – Mas, tinha um showzinho, né?

 

R – É. E aí só ia homem nesse negócio. Só tinha homem lá. E depois, ela sumia. Acho que... Ela disse que ia completar o dinheiro. Eu não sei como é que é. Hoje em dia eu entendo tudo. Mas, naquele tempo não entendia nada não, mulher. Tinha vindo do Maranhão. Não sabia aquilo, não. E elas me achavam muito bobinha, assim. Eu acho que era por isso que ela fazia isso, né?

 

P/1 – E o teu primeiro namorado, Fatinha. Como é que foi? Foi aqui no Rio, foi lá? Você chegou a namorar lá?

 

R – Foi lá no prédio petroleiro, mulher. Aí eles não acreditavam que eu era virgem. Que correu a notícia que tinha uma virgem, né? Porque todo mundo ali, todo mundo veterano, né? Aí correu a notícia que no café tinha uma virgem. Todo mundo queria me ver, né? Eu não entendia o porquê. Porque eu era virgem. Mas, só dizia atrás de mim, na minha frente eles não diziam, né? Aí todo mundo ia lá no andar que eu trabalhava, pra me ver. Eu não entendia. Eu achava que era porque eu era do Maranhão, né? Mentira. Era porque eu era virgem. Aí todo mundo queria me namorar. Aí, o pai do meu filho, muito assanhado, né? Mas, o safado era casado. E mentiu pra mim que não era. Aí começou a me namorar pra pegar a confiança. Namoramos oito meses, bonitinho, assim. Me levava pra o cinema, de mão dada. Me levava pro teatro. Eu conheci essas coisas, tudo muito bom, assim. Aí depois, ele começou a me pedir as coisas que eu não ia dar pra ele, né? Aí eu falei: "Não, eu sou virgem". "Não, mas eu caso contigo. Mas, homem é safado. Desculpa vocês, mas homem é safado. Ele sabia que não podia casar comigo que eu era virgem e ele era casado. Naquele tempo, a virgindade lá no Maranhão valia muita coisa. Aqui não vale nada não. Lá valia. Aí ele: "Não, porque não sei o quê. Eu caso com você". Pediu os meus documentos. Foi a primeira vez que eu perdi os documentos. Pediu os documentos pra dar entrada no cartório pra gente casar. 

 

P/1 – Ele sumiu com os teus documentos?

 

R – Sumiu, que ele nunca foi no cartório dar entrada. Aí começou a pedir a prova, que ele queria provar mesmo se eu era virgem pra poder casar comigo. E eu bobinha, né? Acreditei. "Eu vou casar com ele". Já tinha pedido o documento, né? "Vou casar, tudo bem". Aí um dia nós fomos pra o cinema. Ali na Lapa. Aí, a gente foi pra o cinema, assistiu o filme. Aí depois, quando a gente vinha, ele falou assim: "Olha pra cima". Eu olhei, tá escrito hotel, né? Motel. Aí ele falou assim: "Nós vamos entrar aí". Eu digo: "Vou fazer o que"? "Tu sabe. Eu quero a prova, que nós já vamos casar. Eu preciso saber que você é virgem". Aí eu pensei assim: "Eu já vou casar mesmo. Então, não custa nada, né"? Fui lá. Dei, né [risos]? Dei, né? Aí, mulher. O miserável sumiu. Eu nunca mais vi ele. Ó, todo dia, toda hora ele ia lá me procurar, a gente saía pra almoçar, pra jantar. De noite, saía pra passear, né? Me deixava em casa. E aí o cara sumiu. Depois que ele pimba, né? Aí sumiu, não via mais ele. Passou mais de um mês sem ver ele. Quando tava fazendo, assim, uns dois meses, ele falou assim, ó o papo dele: "E a tua menstruação, desceu"? Eu falei: "Não, esse mês não desceu não". Ele disse: "Ih, será que tu não tá grávida"? Falei: "Não, por que eu tô grávida?" Aí ele falou assim: "A gente fez aquelas coisas, de repente tu tá grávida. Vamos no INPS, que tu vai fazer um exame, de urina, pra saber tu ta grávida". Eu era muito boba, mulher. Vim do interior do Maranhão. Aí, resumindo. Ele me levou lá no médico, fez o exame, tudo. Ficamos aguardando o resultado. No dia do resultado, foi muito engraçado. Aí eu fui pegar o resultado, ele falou assim: "Vê se tá mesmo, se você tá mesmo grávida". Eu peguei o resultado, assim, tô olhando, dizia assim: está grávida. Pra mim, que ia botar assim, escrito está grávida. Não era, era positivo, né? Aquele positivo bem grande, carimbado de azul. Aí, meio-dia, ele foi me pegar pra almoçar, "E aí, já pegou o resultado?" "Pegou o resultado do exame"? "Peguei". "E aí, tu tá grávida mesmo"? Eu digo: "Não. Não tem nada escrito lá não". "Então deixa eu ver". "Ih, tá sim. Tá aqui positivo. Esse positivo quer dizer que tá grávida". Mulher, ele me tirou a virgindade e me botou um filho. Aí ele falou assim: "Que é que tu vai fazer agora"? Eu digo: "E nós não vamos casar, homem"? Ele falou assim: "Tenho uma coisa pra te dizer. Eu não posso casar com você, que eu sou casado. Tenho até um filho". Aí, mulher, cadê o chão. Aí, naquela hora o chão sumiu, né? Fiquei toda desorientada. Mas, aí, tudo bem, né? Aí eu falei assim, ó: "Me deixa, eu não vou mais comer não. Eu vou voltar pra o trabalho". Aí voltei, fiquei, assim, "desanucinada", né? Mas não dei a entender a ninguém. Aí, fiquei. Tanto é que minhas colegas só veio perceber que eu tava grávida com cinco meses, né? Aí rolou esse tempo todinho. Ele sumiu de novo. 

 

(Troca de fita)

 

R – E o resultado, onde é que eu parei?

 

P/1 – Aí você tinha descoberto que você tava grávida, que você voltou lá pra o trabalho.

 

R – Ah, é. Aí foi assim. Aí eu voltei, entrei no banheiro e chorei muito, né? Mas, graças a Deus sou uma pessoa muito religiosa e rezei e pedi a Deus que me orientasse, o que é que eu ia fazer naquelas alturas, que eu não tinha nem casa, morava em vaga. E com o casamento, eu não ia mais casar. E aí, resumindo. Ele, graças a Deus, ele assumiu, né? Trabalhando lá mesmo, naquele prédio, mas não passava por onde eu vinha. E foi até bom assim, né? Porque assim eu não fiquei iludida, ele já me desiludiu pra sempre, que não ia casar comigo, né? E aí, eu sempre pedi a Deus: "Deus, se você me der um filho, você vai me ajudar a criar, porque eu não vou tirar". Porque lá em casa todo mundo é contra o aborto. Resumindo. E aí criei, fiquei meus nove meses com minha gravidez, seu Fernando, meu chefe, muito bom pra mim. Entendeu tudo, né? E as minhas colegas, com cinco meses de gravidez, como eu não tinha estrutura pra esticar a barriga pra frente, meu filho foi criado nas cadeiras, né? E as minhas colegas, com cinco meses, no quinto mês que vieram descobrir que eu tava grávida. E aí correu a notícia que a virgem estava grávida. Queria descobrir quem era o pai.

 

P/1 – Mas ele trabalhava lá também, no...

 

R – Trabalhava. E era petroleiro. Tinha crachá verde.

 

P/1 – Crachá verde e tudo?

 

R – É. Resumindo, né? Mas, aí eu não contei pra ninguém minha história, não. Até hoje ninguém sabe minha história. Vão saber agora, né? Tanto é que a própria (Chibeque?), a Sheila, né? Ela não sabe da minha história, ela.

 

P/1 – Você quer falar o nome dele?

 

R – Não, não, não. Continua morto.

 

P/1 – Continua morto. Mas ele te ajudou durante a gravidez?

 

R – Não. Não ajudou nem durante, nem depois. Eu nunca quis dele um centavo, nada. Que eu falei pra Deus: "Se você me der um filho, você vai me ajudar a criar, sem precisar dele pra nada". Porque mulher maranhense é assim. Tem opinião. Aí, resumindo, né? Aí, eu tive meu filho. Já pulando, pra não ficar muito. Aí passei minha gravidez toda, ele sumiu, não me procurou mais. E aí, eu só pedi ajuda de Deus. Aí quando eu fui ter um filho, eu tinha que sair da vaga, por causa da fiscalização. Não podia ter, ainda mais no antro de perdição que eu morava, né? Que eu não era perdida pelas aquelas mulheres, que eu era protegida. E as meninas, tudo, muito boas pra mim, foi quem me ajudaram, as meninas da vaga. E seu Fernando, meu chefe, também. E aí, o chefe da vaga, lá, falou pra mim: "Olha, você tem que procurar um lugar pra você morar, porque depois que o bebê nascer, você não pode mais ficar aqui". E quando eu era grávida, quando eu tava lá, quando vinha a fiscalização, eles me escondiam. Pra fiscalização não ver que tinha mulher grávida lá. Então, aí, todo mundo foi muito bom comigo. Tanto na vaga, como no meu trabalho, né? E aí, quando o bebê nasceu, essa Ana, portuguesa, que era minha protetora, ela alugou um quarto e foi morar comigo, pra me ajudar com o bebê, né? E aí, eu achei muito legal da parte dela, né? Que aí é uma maneira de me ajudar, porque eu sozinha, com um salário. Ganhava um salário mínimo. Não podia alugar. Aí ela morou um tempo comigo e depois ela foi embora pra, trabalhava. Ela saiu da vida, arrumou um emprego e foi trabalhar, quando inaugurou a Mesbla do Méier, ela foi trabalhar lá na Mesbla. Que hoje em dia nem existe mais, né? E depois dali ela voltou pra Portugal. E aí, eu fiquei e fui morar num quarto, com outra. Deixou outra menina comigo, né? E a menina foi morar comigo, mas uma pilantra, que não queria responsabilidade de me ajudar a pagar o quarto nem nada. E aí eu larguei lá e botei. Quando eu tinha que voltar pra trabalhar, três meses, né? E aí eu tinha que arrumar uma pessoa pra tomar conta do meu filho. Como? Mulher, foi um sacrifício. Eu fui em tudo o que é creche, mas naquela época não tinha. Aí eu tinha que voltar a trabalhar. Isso eu ganhando só um salário mínimo. Todo mundo só queria ficar pra ganhar dinheiro, né? E aí, eu deixei com a vizinha minha, e aí fui pagar, porque não arrumei creche, fui no juizado de menor. Aí veio a vontade dar meu filho pra uma pessoa que tinha condição, pra criar. Porque eu não tava podendo no momento. Ninguém quis, porque eu trabalhava. Se eu fosse uma que não trabalhava, talvez. Mas, como eu trabalhava, ninguém quis ficar com meu filho. Tudo bem. Aí, minha vizinha se ofereceu pra mim pagar ela, que ela tomava conta. E aí, assim, foi olhar uns tempos. Depois o juizado de menor, me inscrevi no Juizado de Menor, dali da Presidente Vargas, pra mim arrumar uma creche. Me mandaram pra de Botafogo, da Voluntários da Pátria, aqui perto. E dali, daquele internato ali, me arrumaram um internato lá em Minas Gerais. Para eu poder botar meu filho lá pra sempre, aí eu não quis assim, eu recusei. 

 

P/1 – Esse de Botafogo era aquele ali da...

 

R – Da Voluntários.

 

P/1 – Ah tá.

 

R – Aí, resultado. Eu falei que eu não queria. Tinha vaga só lá em Minas e eu não queria porque eu já peguei amor a meu filho e não ia botar meu filho no internato. Aí eu falei: "Não, eu quero uma creche, que é onde eu posso ver meu filho. Aonde eu posso pegar no final de semana. Aí me arrumaram uma lá em Nova Iguaçu, em Rosa dos Ventos. Não era na cidade de Nova Iguaçu. Lá ficava a semana toda. E aí, eu tinha que voltar pra trabalhar amanhã, hoje eu fui deixar meu filho lá. E aí eu levei meu filho lá e lá eu pagava um salário mínimo, né? Que é convênio daqui. Hoje em dia eu já entendo, é tudo aqueles negócios, quem ganha dinheiro por fora, né? Assim, né? Do internato. E eu deixei o meu filho lá por muito tempo, até uns dois, três anos. E aí, final de semana eu ia, pegava ele e ficava com ele. Eu ia na sexta, ficava com ele sábado e domingo, na segunda de manhã entregava. Aí, assim eu fui criando, né? Aí pedi, tinha uma irmã minha que era solteira, escrevi pra casa pra ela vir morar comigo, pra tomar conta do meu filho. Ela falou pra mim: "Quem pariu Mateus, que embale". Que eu embalasse meu Mateusinho, que ela não vinha.

 

P/1 – Como é que é o nome do seu filho? Mateus?

 

R – Flávio. Não, é Flávio. Isso é um dito popular, né? Aí, resumindo, me desenganou, aí, meu irmão que era caçula, que hoje em dia mora em Campo Grande. Ele quis vir, mas queria vir pra trabalhar. Mandei dinheiro pra ele vir. Não vai me adiantar muito, mas vale. Isso, quando meu filho tava fazendo cinco anos já, que a creche ia me entregar, pra botar ele na escola. Porque a creche não tinha escola. E aí, mais um dilema, que é que eu ia fazer com uma criança de cinco anos. Não podia parar. E nesse período, eu fui trabalhar, nesses cinco anos, eu mudei lá da Petrobras, do dia pra noite, porque tinha o horário de noite, pra ir pra casa de família, fazer faxina, pra inteirar o dinheiro pra pagar a creche lá. Que era um salário mínimo e eu pagava um salário mínimo de aluguel de quarto também. E aí só o meu salário não dava. Aí, na casa das madames, eu como diarista, eu tirava três salários mínimos por mês. Trabalhando assim, eu tinha 15 casas que eu trabalhava. Aí, ganhei muito dinheiro, já tava rica, né? Tava muito rica, né?

 

P/1 – Mas, aí, peraí, você trabalhava na casa das madames de noite?

 

R – Não, de dia. Não mudei lá pra Petrobras? Eu fiz uma mudança, mudei da Petrobras de dia pra noite. E, pra ficar com o dia livre pra trabalhar na casa das madames. E arrumei de lá mesmo, as petroleiras, tudo me ajudaram, dando emprego. E aí, eu tinha 15 casas. Que eu trabalhava durante o dia até as três horas e depois ia trabalhar, que eu pegava de cinco às onze da noite, lá na Petrobras. E aí, ganhava dinheiro pra manter, eu e meu filho, já tava com dinheiro, aluguei um quarto maior, né? Aí fui morar sozinha, não quis mais colega. Fui ser independente mesmo. Tudo que eu sonhei na vida é ser independente. Tanto é independência demais, que fiquei e esqueci de casar. Tô até hoje, independente, né? Aí, resumindo, meu irmão veio. Mas, meu irmão não ia, claro que não ia, olha menino, né? Arrumei um emprego pra o meu irmão, lá no coisa, eu tinha um conhecimento. E arrumei um emprego pra ele no Barra Shopping, naquele parquinho do Barra Shopping. Meu irmão ficou todo bobo. Mas, aí ele me adiantou, veio da Paraíba, lá, sem emprego, arrumar logo no Barra Shopping. Tudo que ele queria, né? E lá, ele pegava duas horas. E eu botei meu filho na escola, e de manhã. E aí, de manhã o meu irmão ficava com ele, levava na escola. Dava comida pra ele. E aí, duas horas ele deixava meu filho trancadinho lá no quartinho, com tudo baixinho, assim, e a televisão ligada, porque meu filho ficava sozinho, até a vizinha chegar seis horas, dava comida pra ele, botava ele pra dormir. Que eu, da casa da madame já ia pra lá e só terminava às onze horas, onze e meia, meia-noite, que eu chegava em casa. Pra cuidar de meu filho. E aí eu chegava, eu passei muito tempo. Eu saía de casa cinco horas da manhã, meu filho dormindo. Eu chegava meia-noite, meu filho dormindo. Eu ficava muito tempo sem ver ele acordado. Só final de semana, né? E aí, meu irmão tá comigo, estamos tudo feliz da vida ali. Meu irmão inventa de casar. Aí foi casar. Mas, aí, meu filho já tinha sete anos. Eu digo: "Senhor, mais uma proteção. Me ajuda de novo. Me dê uma luz". Aí eu tirei a chave da cópia, meu filho tinha sete anos, ia fazer oito. Eu digo "Seja o que Deus quiser". Dei na mão do meu filho. "A partir de hoje essa chave é sua, você vai pra escola sozinho e você vem, mamãe deixa a comida aqui, você chega, come. Seja o que Deus quiser." 

 

P/1 – Aí seu irmão casou e saiu, também.

 

R – Casou e saiu. Foi embora, foi morar na Rocinha. E eu morava onde? No Estácio, ali do lado do presídio, da Frei Caneca, que eu morava. Os presos, quando tava na janela e quando eu tava na janela, os presos tudo dava a mão pra mim, né? Na época, sabe de quem? Do Escadinha, preso ali. Eu vi a fuga do Escadinha, naquele helicóptero, tudinho. Assisti a um documentário, sou eu a testemunha [riso]. Eu vi tudinho da minha janela da minha casa, que eu morava ali do lado. Resumindo, e aí ficamos assim, meu filho estudava no Azevedo Sodré, que até lá, até hoje. A escola que o meu filho fez o primário, né? Quando entrou Collor de Melo, o aluguel ali era baratinho, eu morava numa quitinete, toda bem equipada, em frente ao hospital da Polícia Militar, que ainda tá lá hoje em dia. Collor de Melo entrou na política, votei nele, tudo bem. Só que aí veio aquele negócio, reajustar os aluguéis no seu devido preço. O meu foi além do meu salário, que eu não podia pagar. Aí eu tive que entregar, saí. Onde que eu fui parar? Na favela da Vila do João, um coisa que eu nunca. Conhecia de nome, mas de ver, assim, favela, nunca tinha visto na minha vida. Na época da construção da Linha Vermelha, disputa do tráfico de drogas ali. Só não matava a mãe de quem não passava ali. Mulher, me meteram lá dentro, uma colega minha tinha uma casa, me alugou lá dentro da Vila do João. Aí chamava na época Inferno Colorido. Que as casinhas era tudo, cada uma de uma cor. Era um inferno mesmo. De dia era uma maravilha, mas de noite era um inferno, era bala pra tudo que é lado. Mataram um cara em cima da minha laje. Minhas paredes, tudo furado de bala. E eu morava do lado do dono da boca de fumo e não sabia que o cara era o dono da boca, lá. O cara me chamava de tia, tia pra cá, tia pra lá. Eu vi um cara, eu nem sei mais o nome dele. E aí, o resultado. Eu só fui saber que o cara era o dono da boca lá, no dia que mataram ele, que eu cheguei em casa, a mãe dele tava tudo chorando e eu perguntei o que é que era. Aí, minha vizinha, "Mataram o Emerson". Eu digo: "Tudo bem, e daí? Por que tá todo mundo chorando e esse alvoroço?" "Ele era o dono da boca, Fatinha". Eu digo: "Que boca?" Não sabia nem que diabos era boca. "Que boca?" "Aqueles tiros que dava aí, era tudo pra matar ele, Fatinha. Hoje matou". E aí que eu fui saber, fiquei apavorada. Quis sair rapidinho. Aí, resumindo. Tinha uma colega minha também, que Deus já tem, me levou pra Vila Isabel. Aí na Torres Homem. Aí eu fiquei lá na casa dela uns tempos, que eu fiquei apavorada e que eu não queria ir mais pra lá. Porque depois que eu soube que eu morava do lado da casa do traficante, que o cara tinha morrido, que eu fiquei com medo. Que quando ele era vivo eu não tinha [risos]. Que eu não sabia. Digo que a pior coisa é quando tu sabe das coisas, né? Aí, depois que eu soube que o cara, "não quero mais ficar aqui, que os irmãos dele vão me matar". Também era tudo traficante. "Vão me matar, porque eu sei agora que eles são bandidos". Ih, menina, foi uma confusão. Aí eu saí de lá, né? E meu filho, na época, menina, como é que meu filho, graças a Deus, não deu pra nada. Meu filho, na época, tinha 11 anos já. Naquela época, os meninos era pego pra fazer aviãozinho. Hoje em dia eu entendo a tramóia toda, mas naquela época eu não sabia de nada, não. Deus me livre. Aí, eu fiquei com medo. "Não vou mais deixar meu filho sozinho aqui. Meu filho vai ser bandido". E medo de meu filho ser bandido. Aí foi que me deu medo. Aí minha colega: "Não, vamos pra minha casa. Lá tem uma quitinete. Aluga". Aí eu aluguei na Torres Homem, fiquei um bocado de tempo lá na Vila. Até comprei um apartamento. Aí, com o dinheiro que eu tava juntando, tudinho, comprei um apartamento. Lá no Morro do Macaco. Ah, mulher. Coitada de mim. Tava num paraíso. Foi a prefeitura que fez os apartamentos. Marcelo Alencar, chamava ele Marcelo, meu amigo. O apartamento que eu consegui comprar foi feito por ele. Aí, Marcelo, meu maior amigão. Só assim podia comprar um apartamento, da prefeitura, né? Morando ali, num mar de rosas. Morei muito tempo lá. Até meu filho casar, né? Quando meu filho fez vinte anos, inventou de casar, me deixar sozinha lá, no meio dos bandidos, mulher, de novo. Falei assim: "Deus". Aí, um dia acordei, minha filha, tinha matado um cara. Bem na minha porta, de novo. Na Vila de João mataram um, na minha laje. Lá no Morro do Macaco mataram outro na minha porta. Jogaram uma granada no cara, foi pedaço pra tudo que é lado. Eu cheguei, a desgraça fez lá. "Meu Deus do céu, quero ir embora daqui". Aí acabou meus nervos. Aí fiquei doente, você vê aquilo tudo. Fiquei doente, com o estado de nervos, só vivia no médico. "Se eu não sair dali eu vou morrer.” Na hora de voltar pra casa, era a coisa mais triste do mundo. Porque eu pensava que eu ia pra ali, tudo de novo. Resumindo, mulher. Isso não vai pra televisão normal, não né?

 

P/1 – Não.

 

R – Graças a Deus. Vai ficar só lá, né? Que se fosse normal, ia cortar isso tudo aí, do Morro do Macaco. Aí, resumindo, menina. Um dia, que eu fui sair pra o trabalho, seis e meia da manhã, um bandido me pegou. Aí, foi que foi ela, né? E me arrastou pra o matagal. Porque na subida do Morro do Macaco tem um pedacinho, assim, que é mato. Aí, me arrastou pra o matagal, com revólver no meu ouvido, pra eu dizer quem era o dono da boca de lá. Sem eu saber. Querendo que eu falasse quem era o dono da boca. E eu não sabia quem era, como é que eu ia falar? E o bandido naquele tal de "vou lhe matar", né? Vai me matar, eu digo: "Moço, você vai matar uma pessoa em vão, porque eu sou trabalhadora, eu tô saindo pra trabalhar. Eu trabalho, não vivo aí. Não sei quem é dono de boca. Não sei nem onde é a boca. Não sei onde tem boca". E ele: "Não, porque você vai dizer". O revólver iluminava, dentro do meu ouvido, mulher. Seis e meia da manhã, eu descendo para trabalhar. Ah, mulher.

 

P/1 – E aí, ele te deixou?

 

R – Com muito sacrifício. Aí, ele falou assim: "Olha, eu não vou te matar, mas você tem que fazer o que eu quiser". Eu digo: "Faço tudo que você quiser, mas me deixa viva, que eu tenho um filho pra criar". Mentira, meu filho já tá. Pra ver se ele me soltava. Filho já tava criado, graças a Deus. Aí abusou de mim. Abusou de mim, aí depois me deixou pelada. Mandou eu correr pelada, pra não olhar pra trás, pra ele não me matar. Saí toda, do matagal, caí na estrada. Aí depois, passou um carro, me juntou dentro, me deu... O Homem tirou a camisa dele, me vestiu. Aí me levou lá pra Rua Torres Homem, né? Aí, eu falei assim: "Me leva pra casa da minha amiga". Dessa minha amiga que eu morei uns tempos, enquanto eu comprava apartamento, né? 

 

P/1 – Teu filho já tava casado?

 

R – Já tava casado. Meu filho. Aí, que ele me deixou lá na casa da minha amiga. Minha amiga cuidou de mim, me deu banho, me levou no médico. Foi, deu aquelas coisas todas, né? Aí passou uns tempos, ainda fazendo esse negócio de teste de Aids, essas coisas todas. Foi a pior vida. Pra mim, foi a pior parte, foi essa aí. Até aí eu não conhecia o que era, assim, o coisa. Aí, entrei, não em depressão, mas em estado de nervos. Fiquei com os nervos muito abalados. Que até hoje faço tratamento. Tomo uma par de remédio, hoje eu já tomei três. Aí eu tomo uma par de remédios, tudo devido a isso, né? Aí, resumindo, só pra coisar, aí eu quis sair de lá. Botei o apartamento em venda, não ia mais ficar lá. Aí meu filho foi, casou, foi morar em Campo Grande, onde tá até hoje. Aí botei o apartamento em venda e fui, consegui vender, depois de muito tempo. E aí consegui, fui morar em Caxias, onde tô até hoje. Tenho uma colega que trabalha comigo, que ela diz que Caxias me curou, né? E lá ficou boa, porque lá...

 

P/1 – Mas você vendeu? Conseguiu vender, um dinheirinho bom.

 

R – Vendi, não. Dei. Tava avaliado em 50 mil, dei por dez. Que eu queria sair de lá. Com dez mil não deu pra comprar outro em Caxias, aí fui, aí eu digo: "Não quero também mais nada assim, que me prenda". Porque se eu tiver de sair de amanhã pra depois, né? Não tem problema. E aluguei uma quitinete na casa duma família muito boa, seu Divino. Onde tô até hoje, pago baratinho, né? E aí botei os dez mil na poupança e fui fazendo outras coisas. Sempre que eu posso boto mais um pouquinho e assim eu tô vivendo. Mas não pretendo sair de lá, porque essa pessoa é uma família pra mim, entendeu? Lá, vim conhecer uma outra família. E onde meu filho me visita, sabe que eu tô lá. Mas, meu trabalho nunca foi abalado por nada disso, né? Eu continuei lá, desde 1978 até hoje, tô lá. E mudo de endereço, acontece essas coisas. Não conto pra ninguém lá, ninguém sabe. Vão ver agora, né? Vão saber agora. Porque um dia tem que contar, pra desabafar, né? Também é muita coisa. E aí, resumindo, né? Graças a Deus hoje somos felizes. E voltando lá atrás, só pra pegar um gancho lá atrás. Quando eu fui ter o meu filho, eu estudava, né? Consegui fazer o primário, que eu cheguei aqui no Rio. E aí, quando eu passei pra quinta série, que eu engravidei, eu fui no colégio, tranquei a matrícula, pra começar depois que o bebê nasceu. Mas, aí, quando ele nasceu não pude. Eu já tive que trabalhar. O horário do colégio eu preenchi com outro emprego. E ficou presa até o ano passado, onde eu resolvi abrir agora e recomeçar. De onde eu tinha parado. Ainda continuei na quinta série, de novo, né? 

 

P/1 – Mas, Fatinha, onde é que você aprendeu a ler, também? Com quem que você aprendeu a ler? 

 

R – A ler, no que eu cheguei aqui no Rio, não fui estudar?

 

P/1 – Pois é, aí você chegou, estudou aqui no Rio antes?

 

R – Estudei, fiz a quarta série, até a quarta série. Que aí, quando eu engravidei...

 

P/1 – Onde você estudou?

 

R – No Azevedo Sodré. No Azevedo Sodré, não. Era Astolfo Rezende, não existe mais. Sumiu do mapa. Pra fazer a matrícula agora, no outro, não encontrei mais. Eu tive que fazer um provão. Porque não tinha mais o colégio. Não existe mais nem nos computadores. Porque agora é uma garagem lá, no lugar que era o colégio. Então, estudei lá. Mas, eu ainda tenho a carteirinha, até hoje, da escola. E eu mostro, mas nem assim, não conseguiu recuperar ele.

 

P/1 – Você tá com planos de continuar, agora?

 

R – Não, já tô continuando. Já voltei à escola e agora eu pretendo fazer muitos cursos, quando eu me aposentar ano que vem. Eu vou retomar minha vida, vou fazer tudo que eu queria fazer lá pra trás, que eu não consegui, né? E agora já com o meu filho criado, a minha neta. Eu tô ajudando a criar minha neta, maravilha.

P/1 – Como é que é o nome da sua netinha?

 

R – Michaella, com “c”, “h” e dois “l”. Eu sempre brinco assim, né? Porque muita gente escreve errado e esse negócio de nome errado dá problema, né? 

 

P/1 – Tem que falar.

 

R – É.

 

P/1 – Ô, Fatinha, queria também te perguntar. Você já deu outras entrevistas lá na Petrobras, desse seu trabalho, assim, me conta uma história lá de dentro também. Engraçada. Você me contou até a história do café, que era do primeiro dia, que foi uma...

 

R – Lá dentro tem muitas histórias engraçadas, de minhas colegas, da minha chefia. Sempre assim. Porque lá na Petrobras tem aquele negócio de contrato, né? De dois em dois anos. Então, eu acho uma coisa muito engraçada, porque em vez de a gente sair, os funcionários saem, né? Quando uma firma perde o contrato. Mas, graças a Deus, eu trabalho numa firma aonde é muito boa, a Luso-brasileira. Não tô querendo puxar a sardinha não, mas é realmente, né? Porque uma firma pra se manter tantos anos lá dentro da Petrobras, igual à Luso, tem que ser boa, né?

 

P/1 – E você tá na mesma, desde sempre?

 

R – Não, eu entrei na Grio Guanabara, que não existe mais. Faliu. E aí eu passei três anos na Grio e entrou a Luso, onde nunca mais saiu e eu também nunca mais saí. Porque sempre que tem mudança de contrato, sai algumas pessoas, né? E outras continuam e a chefia é que muda. O que eu acho engraçado é isso, é que a chefia é que muda. Os funcionários ficam, né? Aí já vem outra chefia, aquelas coisas. Porque sempre uns vai pra outro, renova, né? Aí depois, da globalização, então, né? Tudo é renovado. E aí, lá, a gente também tem cursinho, pra aprender, se modernizar. Agora, veio o curso obrigatório mesmo, da Petrobras de aprender a ler, né? Mas, eu não quis esse daí porque é por apostila e minha cabeça não dá, e tempo também não tem, né? Então, eu quis voltar pra sala de aula. De noite, com mais tempo, eu acho que aprende mais, né? E foi o que é que eu fiz. Mas, lá dentro tem muitas histórias assim, como meu primeiro dia de trabalho, aquele que eu derramei o café, do chefe. Que fiquei muito nervosa, né? E também, os empregados lá são muito legais comigo, que me ajudam. Sempre que eu tenho... Mas, eu mantenho essa minha história, que eu contei aqui, que minha vida pra trás, eu mantenho fora de Petrobras, que eu acho que esse negócio, assim, vida pessoal é uma coisa e trabalho é outra coisa. E eu procuro não misturar. Tanto é que tem muita gente lá, antigo mesmo, que nem sabe que eu tenho filho. Porque como eu sou, sempre fui uma pessoa sozinha, independente, né? As pessoas acham que eu não tenho família. Porque eu preservo a minha família. Meu filho não é de ir lá, entendeu, né? Não é de ir lá por causa daquele problema, do pai dele, porque eles não se dão, né? 

 

P/1 – O pai ainda tá lá trabalhando?

 

R – Aposentou, já, há mais de dez anos, graças a Deus. Mas, a gente é amigo. Essa semana mesmo, ele esteve lá, a gente se fala numa boa. Sem preconceito. 

 

P/1 – Ele vê o filho, às vezes?

 

R – Não. Ele conheceu o filho quando o meu filho tinha uns nove anos. Depois não viu mais não. E aí, essas coisas. Então, eu procuro manter fora essa minha vida de lá. Lá eu só trabalho. Eu costumo dizer, quando eu saio de casa, eu deixo a minha vida detrás da porta. E quando eu entro na Petrobras, lá só o meu trabalho interessa, né? Então, é assim.

 

P/1 – E as pessoas lá são simpáticas também ou só lá do...?

 

R – Demais, demais. Tem aquelas... Todo lugar tem o bom e tem o ruim. Tem o lado bom e tem o lado ruim. Mas, do meu lado, graças a Deus, tem mais gente boa, né? E como eu já trabalhei no prédio todo, conheço todo mundo, todo. Agora nem tanto, porque tem muito terceirizado, essa garotada nova. É mais difícil, assim, de conhecer, né? Mas as pessoas antigas, eu conheci tudo, gerais.

 

P/1 – Fatinha, e que é que mudou nesses quase 30 anos de trabalho lá dentro? Assim, de... Até do teu trabalho, lá do prédio, que é que foi uma coisa que você acha que mudou, desde que você entrou lá?

 

R – Olha, sobre o café, não mudou quase nada, porque o trabalho é o mesmo. Agora, mudou muito, assim, porque o prédio, quase todo agora, são poucos andares que ainda serve café. Mas, é à base da colocação de garrafa, entendeu? Mas, eu sempre tive o privilégio, que isso é um privilégio de trabalhar nos andares que servem café, que tem contato com o povo, né? Porque, esses que coloca, você não tem muito contato. 

 

P/1 – Tem aquelas máquinas lá? É isso que você tá falando?

 

R – Tem a máquina. Na época da máquina. 

 

P/1 – Andar que tem máquina não serve café?

 

R – Não, não é assim não.

 

P/1 – Como é que é, então?

 

R – Na comunicação tem máquina também.

 

P/1 – Ah, é? Então, como é que é?

 

R – É, porque, assim. Quando foi a máquina pra lá, foi há muito tempo, na época do José Wilson, José Vil... Não sei mais lá o nome do cara, que era chefe do quarto andar. Então, eles queriam acabar com a Luso, né? Com o serviço de café da Luso, colocando as máquinas. Porque foi na época que as máquinas estavam tomando conta dos prédios. Que você vê, tem prédio aí que não tem, né? E aí, foi pra lá nessa intenção, né? Mas, os funcionários não aceitaram, graças a Deus, acho que até com pena mesmo da gente, né? Que precisava do emprego. Então, aí, houve uma votação pra ver quem aceitava o café da Luso e quem aceitava o café da máquina. E eles, graças a Deus, votaram por igual. Eles queriam os dois e queriam igual. Votaram igual. Pra ficar os dois. E aí, na época, nós do café ganhávamos dois salários. E aí, com a "entração" da máquina, eles dizem que não, mas eu acho que eles dividiram nosso salário. Ficou um pra máquina e um pra gente. Porque aí, a gente passou a ganhar um salário e a máquina outro. Eu não sei que negócio foi esse, mas eles dizem que não. Eu acho que sim. Eu acho que sim. Se não, como é que tiraram meu outro salário e me deram só um? E eu fiquei com um salário, até um pouco tempo atrás. Aí que houve um negócio aí, aumentou mais cem reais, em cima do que eu ganho.

 

P/1 – Eles diminuíram o salário.

 

R – É. Eu ganho praticamente um salário e meio.

 

P/1 – Mas, eles diminuíram o seu salário?

 

R – É, diminuíram. Mas, aí, eu nunca mais ganhei os dois, não, sabe? Sempre um e uma coisinha, né? Mas, aí, como eu, graças a Deus, eu gosto de trabalhar lá, que as pessoas são legais, e também, aquele negócio. Time que tá ganhando não se mexe. Se eu tô lá... Antes o pouco, com Deus, de que o muito sem Deus, né? Nunca tive ambição de sair pra lá. E sou uma pessoa também que gosto muito do que eu faço. Tanto é que eu não quis, não tive ambição pra estudar, pra melhorar de vida. Porque eu sempre gostei desse serviço que eu faço. Eu falo assim pra algumas pessoas: "Se eu tivesse que mudar da minha profissão pra ali, talvez eu não saberia viver". Entendeu?

 

P/1 – Ô, Fatinha, e como é que foi aquela participação na outra entrevista?

 

R – Do Edson? 

 

P/1 – Não, aquela também, teve o dia... Foram duas?

 

R – Não, essa do Edson Celulari foi a mesma.

 

P/1 – Foi do dia das mulheres?

 

R – Foi.

 

P/1 – Então, me conta como é que foi.

 

R – Foi em 2003. Aí, eu fui convidada como eu, uma das copeiras mais velhas, que agora tem poucas. Todas já se aposentaram, né? Nós temos agora, somos oito, as mais antigas, que ainda vão se aposentar. E aí, naquele tempo tava procurando uma das copeiras mais velhas pra ser entrevistada. E como eu era muito popular, eu sou, de todas, eu sou a mais popular do prédio, que todo mundo me conhece, até os cachorros de lá me conhece, se tivesse assim. E aí, a dona Elza me convidou, nesse mesmo setor da Sheila, né? Me convidou pra fazer essa entrevista, que ela ia fazer uma homenagem às mulheres e queria me prestar uma homenagem também. E eu fui, né? Mas, foi muito legal, foi muito engraçado. E aquele contato que eu ia ter com o pessoal da Globo, porque eu sou fã de carteirinha da Globo. Na minha casa eu não vejo outro canal. É a Globo direto, né? Já era antes e agora, por causa dos meninos, que eu falo, os meninos da Globo, que eu tenho contato com eles lá na Petrobras, que vão, eu sirvo eles. E é tudo igual uns petroleiros lá, pra mim são todos iguais.

P/1 – Mas, aí, quem te entrevistou lá, foi o Edson?

 

R – O Edson Celulari, né? Que ele foi lá, fazer a entrevista, com nós mulheres. Ele sentou no meio, três pra cá, três pra lá. E aquele "gatão" ali, no meio da gente. Ele é um "gato", gente, mas ele... Antes de ser um "gato", ele é muito humano, humilde, pra classe dele, né? Muito humilde, assim, né? E ele brincava muito comigo, porque ele achava que eu tinha muitas histórias, assim, engraçadas pra contar. E ele trabalhou mais, assim, em cima de mim. Assim, todas as atenções voltadas pra mim. Eu acho que foi por isso que eu deixei, até, um pouco de inveja, pessoas mais famosas do que eu, né? Que até, chegou pra mim e falou que eu tinha roubado a cena. Eu falei: "Não, todas nós estavam lá, com a nossa cena". Agora, não sei porque todo mundo quis mais a minha, né? E ficou assim, né?

 

P/1 – Aí você foi o sucesso lá da filmagem.

 

R – É, foi um sucesso. Mas, foi legal, né? E depois, com a ida do Tony Ramos lá na comunicação, também foi outro sucessão, né? Eu tive três dias de glória na comunicação. Foi o dia da entrevista com o Edson, o dia da ida do Tony Ramos lá na comunicação.

 

P/1 – Que é seu ídolo, né?

 

R – É, que é meu ídolo em primeiro lugar, né? Que é Deus no céu e ele na terra. Não assim, assim, como namoro, né? Eu nunca tive intenção de namorar Tony Ramos, mas admiração pelo trabalho dele, pela pessoa que ele é, que eu tinha vontade conhecer ele. Depois que eu conheci, nossa senhora! Aí mesmo que ficou, se já era meu ídolo, aí mesmo que ele passou a ter um lugar definitivo  no meu coração, como meu ídolo, né? Que sem desmerecer, que meu ídolo maior é Deus, né? Mas, aqui na terra é o Tony Ramos.

 

P/1 – Tá certo. E aí, a terceira, que você falou?

 

R – E o terceiro foi quando eu fiz meus cinqüenta anos, na comunicação. Que eu consegui parar a comunicação pra comemorar meus cinqüenta anos junto comigo, né?

 

P/1 – Que beleza.

 

R – E foi muito legal. E eu tenho muita foto, que os meninos tiraram, né? De recordação, um álbum completo, né? E quando chegou quatro horas, a comunicação toda parou, pra comemorar o meu aniversário de cinquenta anos comigo. Então, essa foi a maior glória.

 

P/1 – Isso esse ano agora?

 

R – Não, já tem três anos.

 

P/1 – Ah, já tem três anos. Que beleza.

 

R – Eu tenho 53. Esse ano eu fiz 53. E foi muito legal. Então, eu agradeço muito a Deus por ter me colocado a Petrobras, assim, na minha vida. Porque mesmo sendo... Eu não sei se eu sou terceirizada ou contratada. Eu sou uma coisa lá, que eu não sou petroleira, né? Mesmo sendo essa pessoa que não sou petroleira, eu sou muito grata por trabalhar na Petrobras, naquele prédio, onde todo mundo comigo é maravilhoso. É claro que tem uns e outros que fecha a cara comigo, mas a maior parte, 99% são legais comigo. E eu só tenho que agradecer o meu bom Deus por isso. 

 

P/1 – Fatinha, infelizmente a gente vai terminando a nossa entrevista, queria perguntar o que é que você achou de ter vindo aqui e participar dessa outra entrevista também, pro Memória Petrobras.

 

R – Mais uma vez, eu achei maravilhoso. Eu agora, não sei porque fui mais uma escolhida, mas diz que Deus sempre tem um plano em nossa vida, né? Eu achei muito legal. Mais legal ainda de conhecer vocês, a Márcia e o...

 

P/1 – Sérgio.

 

R – E o Sérgio, e o câmera ali, que tá escondidinho, né?

 

P/1 – Como é que é seu nome? Fala... Carlos.

 

R – E o Carlos, que também é uma pessoa maravilhosa. Que nem sempre aparece, mas tá sempre colaborando. Então, foi muito bom.

 

P/1 – A gente que agradece você ter vindo aqui.

 

R – E eu que agradeço também, do fundo do meu coração. Prazer.

 

P/1 – Obrigada.

 

R – De nada.

 

--FIM DA ENTREVISTA--

 

 

 

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