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“Coração, meu”

Sinopse

Eliana Maria Granado nasceu na cidade de Bicas em Minas Gerais no dia 08 de junho de 1952. Terceira filha de pai dentista e mãe dona de casa, foi criada para seguir carreira em Odontologia e assumir o consultório da família. No último ano do ensino médio decidiu prestar vestibular para Ciências Sociais. Ingressou na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Casou-se durante a faculdade, em dezembro de 1972, e se mudou para a região Sul para acompanhar o trabalho do marido. Concluiu a Universidade na UniSinos em São Leopoldo, onde influenciada por colegas se interessou por antropologia. Fez Especialização e Mestrado em Antropologia.

Quando morou em Petrópolis (RJ), já mãe de dois meninos e uma menina, começou a trabalhar com crianças na Escola Viva escondida do marido. 

Acompanhando o trabalho do marido novamente se mudou para Barra do Graça, onde teve contato com comunidades Xavantes e Bororo. Iniciou seu trabalho na FUNAI nesse local, convidada pelo então Presidente da Instituição Apoena Meireles. 

Se divorciou do primeiro marido neste período.

Na Funai, foi transferida para Goiânia, onde conheceu seu segundo marido e grande mentor. O relacionamento durou 5 anos. 

Logo após do rompimento do relacionamento recebeu o convite para trabalhar no projeto da construção da Usina de Serra da Mesa – FURNAS. Iniciou-se aí o grande trabalho da sua vida com contato com a etnia Avá-Canoeiro, que se considerava extinto, que já dura 35 anos.

Desse trabalho surgiram dois documentários, exibidos e ganhadores em diversos festivais de cinema, incluindo o Premio Kikito do Festival de Cinema de Gramado.

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História completa

Um pequeno excerto sobre a história de Eliana

Nesse momento, a mais velha reuniu todos os outros em torno dela, ela ficou no meio, organizou o grupo e também me botou na roda. Ela não falava português, pouquíssimas palavras, [...] Ela foi botando a mão em cada um, botava a mão na irmã e falava assim: Naquatia meu, batia no peito, Iawi meu, Tuia meu, Trumaque, que era o bebê, meu, e aí botou a mão em mim: “Eliana meu”. Aquilo para mim foi de um significado enorme [...]

 

Os Avá-Canoeiro são de tradição Tupi, são mais agricultores do que pescadores, eles caçam também, mas, em geral, os povos Tupi são mais agricultores. Eles eram numerosos e viviam em muitas aldeias localizadas ao longo do Rio Tocantins, mas, desde o século XVIII, eles começaram a ser perseguidos e foram dizimados. 

A notícia da última aldeia atacada dos Avá-Canoeiro remonta 1983. Eles contam que eles tinham feito o plantio de mandioca e de milho. À noite, se reuniram para cantar para terra, para ter uma boa colheita, fizeram um ritual e dormiram mais tarde. Normalmente, eles dormem muito cedo, dormem quando escurece e acordam muito cedo. Mas nesse dia dormiram mais tarde. 

Eles viviam em casas grandes, com famílias extensas, eram duas ou três casas. Essas ocas não tinham janelas, só a porta, armações de palha com a porta principal. Eles dormiram e, no meio da madrugada, não se sabe exatamente a hora, eles acordaram ao som de tiros, foram atacados e massacrados antes do amanhecer. 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Até hoje eu fico impressionada com a capacidade dos Avá-Canoeiro de se reinventarem. Esse grupo escapou do massacre, apenas quatro sobreviveram até o momento do contato espontâneo, que foi quando eu tomei conhecimento deles e passei a querer saber mais, a estudar tudo o que podia ter. E não tinha muita coisa registrada, só do passado mesmo, dos séculos XVI, XVII, praticamente nada contemporâneo.  

O grupo vivia na região da Serra da Mesa, Goiás, e foi feito um estudo de identificação, na verdade, foi realizada uma interdição de uma área, pois eles viviam ali e aquela área era considerada um território tradicional. Com a iminente construção da hidrelétrica, era necessário identificar um novo território para eles viverem. 

E nesse contexto eu passei a visitar o grupo. E o primeiro bebê que nasce, já após o contato, nasce prematuro, ele nasceu extremamente frágil, com 900 gramas, miudinho, sem respirar direito, com deficiência respiratória. Ele vai para Goiânia, para um hospital. E lá em Goiânia a minha gerente da FUNAI me chama e pede para eu acompanhar esse caso, tomar conta e tudo mais. Ele miudinho, na UTI, e o médico falou para a gente que ele tinha 10% de chances de sobrevivência. Eu pensei: é porque ele não conhece, ele é um Avá-Canoeiro. E ele saiu do hospital.

Ele foi hospitalizado duas vezes, e foi na segunda internação que eu me envolvi. Ele ficou no hospital, pegou uma infecção hospitalar, ficou muito mal, depois conseguiu reagir, sobreviveu, mas não podia voltar para aldeia porque ele tinha que tomar remédios, com hora marcada, para se recuperar, mas também não podia ficar no hospital toda vida, com risco de uma nova infecção. A FUNAI então perguntou se eu podia ficar com ele em casa, e eu me ofereci, claro, posso ficar. 

O bebê ficou comigo até cinco meses de idade, para ganhar peso. Ele só podia voltar quando tivesse pelo menos 5, 6kg, ele era muito pequenininho. E os meus filhos ficaram encantados com aquele miudinho em casa, eles achavam que era nosso, e eu sempre falava que não, ele era um Avá e tinha que voltar para a família dele.

Quando ele veio para o hospital, os pais chegaram a vir junto para trazê-lo, mas eles eram recém contatados, os barulhos dos carros, as pessoas se aproximavam, isso estressava muito eles. Eles não conseguiram ficar, estavam com muito medo, voltaram para a aldeia, então ele não foi amamentado, também por estar no hospital esse tempo todo. 

Até que chegou o dia de levá-lo embora, o coração apertado, as crianças chorando... Não, eu tenho que levar! Na época, a FUNAI fez uma divulgação sobre isso, porque ele foi a primeira criança a nascer depois de muitos anos, ele era a esperança de um grupo que já era considerado extinto. Havia todo um significado em cima desse nascimento, desse bebê, dele não ter morrido, ter conseguido sobreviver. 

A FUNAI articulou uma reportagem com o Fantástico para acompanhar o retorno dele. E lá fui eu levar o bebê junto com a equipe da Globo. Chegamos lá, na beirada do rio, e eu falei com o pessoal da equipe da televisão para que eles esperassem eu subir com o bebê, aguardassem eu falar com a família para somente depois eles aparecerem, porque o grupo não via o bebê há muito tempo e eles eram recém contatados, tinham medo de tudo que era diferente. Falaram que sim, mas não fizeram isso. Eu subi, eles subiram atrás. E quando eles chegaram, não deu outra, os índios correram e mergulharam no rio, num córrego que tinha atrás, e sumiram com medo. E eu sabia que isso ia acontecer, eu conhecia. 

À noite, quando todo mundo se recolheu, eles levaram o bebê para dentro da oca, com muita fumaça, muita fumaça, porque eles acendem fogueiras, cada uma de suas redes tem uma brasa embaixo, não um fogão, mas uma brasa acesa para esquentar, e faz parte de um ritual, tem um significado religioso, místico, de acordo com eles, o fogo protege das doenças e tudo mais. O conceito de saúde está ligado entre o calor e frio, então tem que ter esse fogo. E o menininho com problemas de respiração naquela fumaça, eu queria morrer, mas não podia interferir, é o costume deles. 

Felizmente, ele ficou bem, já estava recuperado, respirando normalmente e ele ficou lá. E eu também fiquei na oca, para ver, para sentir. Nesse momento, a mais velha reuniu todos os outros em torno dela, ela ficou no meio, organizou o grupo e também me botou na roda. Ela não falava português, pouquíssimas palavras, como meu, morrer, barriga pequenininha, que é quando está com fome, uma ou outra expressão assim. Nós chamamos de Inter linguagem, não é exatamente o que a gente fala, nem é o que eles falam, é um meio termo, uma forma de usar nossas palavras do jeito que eles conseguem. Ela foi botando a mão em cada um, botava a mão na irmã e falava assim: Naquatia, meu, batia no peito, Iawi, meu, Tuia, meu, Trumaque, que era o bebê, meu, e aí botou a mão em mim: “Eliana, meu”. 

Aquilo para mim foi de um significado enorme, uma emoção mesmo, ela estava me agradecendo, da forma dela, por eu ter cuidado do Trumaque, do bebê. E me considerava como alguém do grupo. Isso me marcou muito. E até hoje eu atuo junto aos Avá-Canoeiro, já são 34, 35 anos de trabalho junto a eles.




 

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