Busca avançada



Criar

História

Coração embarcado na Petrobrás.

História de: Fábio Braga de Azevedo
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 28/07/2021

Sinopse

Formou-se na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Passou em concurso público para trabalhar na na Petrobras em 1976. Contratação. Mudança para trabalhar para a empresa em Aracaju. Retorno para o Rio de Janeiro. Trabalho com águas rasas e depois águas profundas. Para de trabalhar embarcado e começa a trabalhar no órgão de engenharia que desenvolve projetos baseado nos dados fornecidos pelos ativos da Petrobras, também acompanhando a instalação.

Tags

História completa

Projeto Memória Petrobras Realização Museu da Pessoa Entrevista de Fábio de Azevedo Entrevistado por Eliana Santos Rio de Janeiro, 8 de março de 2005 Entrevista EDIHB número 04 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Sâmmya Dias P – Boa tarde. R – Boa tarde. P – Eu queria começar pedindo que o senhor nos fale o nome completo, local e data de nascimento. R – Fábio Braga de Azevedo. Eu nasci no Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 1953. P – Fábio, conta pra gente como que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi. R – Eu entrei na Petrobras dia 21 de janeiro de 1976, e foi concurso público. Naquela época ainda a gente era chamado na universidade. A gente estava lá na universidade, vinha um representante da Petrobras na universidade e fazia uma palestra convocando os alunos a fazerem o concurso da Petrobras. Foi assim que eu entrei, fiz o concurso e passei. P – Qual universidade que você estava? R – Universidade Federal Fluminense, em Niterói. P – Na UFF? R – Na UFF, é. P – E aí como que foi? Você foi trabalhar em que lugar? Como que você fez o curso? R – É. Aí eu entrei na Petrobras, fiz o curso de formação. P – Quantos meses? R – Foram nove meses, mais ou menos, o Curso de Formação de Terminais e Dutos. E terminado o curso tinha as vagas, que a gente escolhia as vagas em ordem de classificação. E eu escolhi, na época eu escolhi a vaga pra ir pra Aracajú. Na época era uma região que estava em desenvolvimento naquela época. Foi o começo do offshore do Brasil, primeiro foi na Bahia e depois Aracajú. E na Bahia era menos offshore que Aracajú. E aí fui pra lá, onde tinha um trabalho que eu estava achando interessante. P – E você falou que fez o curso sobre dutos, não é isso? R – Isso. P – E já era uma demanda da empresa trabalhar com isso ou você que escolheu fazer este trabalho com, esse curso sobre dutos? Como é que é? Todo mundo que foi lá escolhido na UFF estava indo pra essa área? R – Não, não. P – Como é que foi? R – Eu escolhi essa área porque eu gostava dessa área de transporte, de dutos, tubulações. Mas não, eu tenho meus colegas, eu tenho vários colegas da minha turma de UFF que entraram para a Petrobras também, que estão até hoje. E não. Eles escolheram outras áreas. Hoje eles estão em outras áreas. P – Era uma escolha de vocês. R – Era uma escolha da gente. Eu escolhi, eu fui o único a escolher essa área específica de dutos. P – O único da turma? R – Da turma da Fluminense. Tem outros na área de transporte, outros na área comercial, tem na área administrativa. Mas nessa área foi só eu. P – Aí você foi lá pra Aracajú. E conta pra gente os locais que você trabalhou, um pouquinho dessa sua trajetória profissional. R – Aí eu fiquei em Aracajú. Foi em final de 1976. E aí eu comecei a construção de plataforma, que era o que estava acontecendo na época. E aí justamente estava terminando o curso de plataformas para águas rasas, na época, 30, 40 metros de lâmina d’água, 50 até. E aí eu comecei, depois que a plataforma ficou pronta, fui acompanhar a instalação. Foi o começo dessa parte offshore de instalação. E aí a gente embarcava. Você ia pro mar, embarcava numa balsa e ia fazer a instalação da plataforma. O primeiro embarque meu foi em uma instalação de plataforma na área de Aracaju. E, na época, era uma coisa desafiadora. Eu me lembro que era uma jaqueta de robalo. Era uma plataforma grande, tinha 400 toneladas de peso. P – Que jaqueta é essa que você mencionou? R – Jaqueta é... P – Foi feita de robalo, que você falou. R – É. Jaqueta é uma estrutura que vai do fundo do mar até o nível do mar. Depois vem a plataforma em cima. P – Esse nome que eles dão é alguma coisa que difere das jaquetas, não? R – Não, é jaqueta convencional mesmo, o mesmo nome. E era uma coisa desafiadora porque era 400 toneladas de peso, 410, 420, uma coisa assim. E era já um peso assim absurdo, uma coisa super desafiadora. E aí começou assim, plataforma. E aí eu fiquei até nessa parte um pouquinho, nessa parte de montagem de plataforma. Tinha que construir, botar ela, cravar estaca e construir. E depois, e aí o quê que acontecia? Não adiantava ter a plataforma. Você precisava ligar a plataforma em alguma coisa pra produzir o óleo. P – E essa era a sua área? R – É. P – Também. R – Mas a minha área, foi aí que eu comecei também ver essa parte de dutos, lançamento dos dutos. Nesse momento só na parte de instalação dos dutos mesmo. A gente falava: “Ah, tem que lançar um duto daqui pra ali. O tubo é tal, é 12 polegadas, é 10 polegadas”. Eles vinham prontos, um projeto, vamos dizer assim. E aí a gente começou fazendo essa instalação, essa ligação dessa plataforma à outra plataforma, ou à terra, ou ao terminal em terra, uma coisa assim. Foi basicamente esse o início, tudo nessa região ainda, lá de Sergipe, próximo a Aracaju. P – E qual foi o maior desafio que você sentiu nessa área de dutos? O quê que você sentiu que era um desafio pra época? R – Pra época foi a instalação dessas plataformas mesmo. Inclusive logo depois teve a plataforma de Carmorí, que era uma jaqueta, uma plataforma grande. E eu me lembro até que esse foi, nessa época, já foi em 1977, 1978, por aí, 1978, 1979, já foi um pouco mais à frente. E o quê que aconteceu? Aí nessa época já tinham duas balsas no Brasil, que a gente, em 1986, 1987, não tinha nenhuma balsa. A BGL [Balsa Guindaste e de Lançamento], que é uma balsa da Petrobras, chegou no Brasil em 1977, final de 1977. Era uma balsa grande pra época, um guindaste de 600 toneladas. Hoje é mil, mas 600 toneladas era uma coisa assim enorme. E logo depois chegou uma outra balsa de uma empresa privada, Superpesa , que trouxe uma outra balsa também, semelhante à BGL. Então começaram a trabalhar essas duas balsas instalando plataformas e lançando dutos. Aí teve um acidente na BGL com um guindaste, que ficou inoperante durante um tempo. Então, ficou só a balsa dessa empresa, Superpesa, trabalhando para a Petrobras. E surgiu essa plataforma, essa PCN 5 [ Plataforma de abastecimento de petróleo] , para ser instalada. Era uma plataforma grande também, de 400 e poucas toneladas. E o guindaste 600. Isso em termos, no mar, é pouca margem, 400 para 600. Não é uma margem muito grande porque tem os movimentos, tudo isso. E eu me lembro, na época o pessoal estava todo mundo com muito medo, que já tinha tido um acidente com um guindaste da balsa da Petrobras. Então, ficaram muito tempo parados esperando o mar ótimo pra poder fazer essa instalação. Então foi assim um momento que todo mundo estava preocupado porque, se acontecesse alguma coisa com aquela balsa não teria como instalar a plataforma. Trazer uma balsa de fora sairia muito caro. Então, eu me lembro que ficou muito tempo, ficou várias semanas, o pessoal esperando uma condição de mar adequada para instalar a plataforma. Foi um momento assim crítico, delicado, naquela época. Hoje seria muito simples, mas naquela época foi bem importante isso. Depois a gente conseguiu instalar, instalou. Conseguimos. Montou a plataforma, lançou os dutos em volta, conectando essa plataforma. P – Deu tudo certo? R – Deu tudo certo. Foi tudo legal. P – Você ficou quanto tempo lá em Sergipe? R – Eu fiquei dois anos lá. P – Na mesma atividade? R – Na mesma atividade. P – E depois, pra onde você foi? R – Aí depois o que aconteceu? Aí essa atividade começou a crescer um pouquinho e aí foi justamente quando começou a Bacia de Campos. Foi lá por 1978, 1979, por aí, 1980, e começou nisso. E aí eu peguei, o que aconteceu? Surgiu, aqui no Rio, um grupo. Começaram a montar um grupo para instalações. E um grupo que seria, vamos dizer assim, seria para atender toda a costa Brasileira, e não só ficar focado na área de Sergipe. E aí eu vim pra cá. Eu e até um amigo meu que trabalhava também na Petrobras, o Marcos. Trabalhávamos juntos, e a gente veio pro Rio justamente para fazer parte desse grupo que estava sendo constituído aqui. P – Vocês que pediram pra vir? R – A gente foi, a gente soube. E foi convidado, perguntaram se a gente queria. E eu quis, porque era no Rio, a minha origem é do Rio. E então eu quis voltar. Aí eu voltei pro Rio pra ficar nesse grupo. A gente começou justamente a constituir esse grupo pra fazer instalações no mar. P – E tinha algum nome esse grupo, tinha algum... R – Tinha, mas eu não me lembro. P – Não tem problema. E quais eram as expectativas que vocês sentiam, nesse momento, pra Bacia de Campos? R – E aí justamente começou a Bacia de Campos. Aí a gente começou até a instalar manifold central de Garoupa, o template de plataforma, que aí começaram a instalar templates antes de montar a plataforma. Quer dizer, enquanto a plataforma estava sendo construída em terra, o pessoal ia, instalar um template, uma guia no fundo do mar e faziam os poços, adiantava os poços da plataforma para quando a plataforma ficasse pronta colocaria por cima dessa guia e se ligaria os poços rapidamente. Seria uma forma de adiantar a produção. Então a gente começou a instalar esses templates também, template de Enchova, template de Garoupa. Então essa foi a atividade que a gente começou a fazer naquela época na Bacia de Campos. E o desafio era águas profundas, porque naquela época 100, 150 metros já era profundo pra gente. Mas, é interessante notar, eu acho que pelo menos pra mim foi uma, hoje eu vejo assim, que tudo era feito muito como extensão do que a gente fazia no raso. A gente, por exemplo, a gente pegava: “Agora é 100 metros”. Mas então vamos adaptar aquilo que a gente fazia pra 20 metros em 100 metros. Era uma extensão. Foi um caminho assim, vamos fazer em 100 metros o que a gente fazia em 20, fazia em dez. Tudo era mais ou menos desse tipo, com essa linha de desenvolvimento. P – Isso no dia-a-dia de vocês, que vocês iam meio que adaptando? R – É, a gente ia adaptando as coisas para atender o que precisava ser feito, de instalação. P – Vocês tinham referência tecnológica, sei lá, no exterior, alguma coisa que pudesse auxiliar esse trabalho de vocês? R – Olha, não tinha muito não. A gente recebia algumas coisas, não tinha muito não. Era muito ruim até, não eram muito boas as experiências. Por exemplo, quando a gente, até voltando um pouquinho, quando a BGL chegou, essa balsa da Petrobras chegou no Brasil, ela trouxe pessoas, firmas de fora para tripular a balsa, para fazer os procedimentos de instalação, pra dizer, pra ensinar a gente como deveriam ser feitas essas coisas. E essa experiência foi muito ruim. Quer dizer, foi muito ruim entre aspas. A experiência não foi muito boa. P – O que vocês sentiram nessa experiência que foi ruim? R – Foi ruim, eu senti assim, a gente esperava que as pessoas soubessem tudo, que fossem assim os grandes mestres da gente. E não foi. A gente via que eles não sabiam muita coisa também. Foi até interessante nesse sentido porque foi um aprendizado de se perceber que eles não eram assim tão sabichões como se fala. Eles sabiam, mas não sabiam tão mais do que a gente. P – O quê que vocês fizeram pra tentar resolver esses problemas que eles não estavam conseguindo dar conta? R – Foi assim, trabalhar junto, estudar, parar, “peraí, vamos parar, vamos estudar isso, ver como que a gente vai fazer. Peraí. Calma. Vamos fazer isso com cuidado. Como que a gente vai fazer? Step por step. E isso, será que dá certo?” Se tinha dúvida, ia lá, fazia um teste, tentava, experimentava e voltava. Foi um aprendizado mesmo, estar juntos. Muitas vezes vieram pessoas. vieram muitas pessoas boas, muitas firmas muito boas, muito inteligentes, claro. Eram pessoas muito capazes, que realmente se aprenderam coisas também. Mas muito assim, eu acho que o passo maior foi no sentido de quando se começou a trabalhar junto. Começou a trabalhar mais, tentar. “Ah, vamos fazer junto. Como que a gente vai resolver esse problema?”. Discute e tenta fazer, tenta implementar uma coisa. Que no início desse trabalho com os estrangeiros foi muito assim. Eles chegavam “Eu faço tudo, eu sou bom e vocês ficam quietinhos aí”. Eles mesmo viram que não deu muito certo. Eu acho que a coisa melhorou quando se começou a trabalhar mais junto, já aí na Bacia de Campos, lâmina d’água de 100 metros, por aí. Mas ainda muito como uma extensão do que se fazia no raso. P – Ainda com essa idéia de extensão eu queria saber quais foram os maiores problemas que vocês enfrentaram à medida que essas lâminas iam ficando cada vez maiores? R – Sim. Quando eu falo de extensões é justamente por isso. Lâmina d’água de 10 metros, 20, é muito fácil. O mergulhador vai lá e vê como é que está. 100 metros pro mergulhador ir lá ver como é que está já é um pouquinho diferente. E a mentalidade da gente ainda era assim. Se fosse assim, o mergulhador vai lá, mergulho saturado, e resolve. “Pega lá manilha, prende aquele cabo, vê se está certo”. Era muito nessa idéia. Aí a gente começou a ver que isso não funcionava muito. E aí quando as águas começaram a ficar um pouco mais profundas, 200 metros, 300, foi colocado um limite para Petrobras. Não pode mais mergulhar acima de 300 metros. Proibido. Então, aí virou um marco, virou realmente um marco tecnológico que eu, pra mim, no meu ponto de vista, foi muito importante. Foi aí que a tecnologia mudou, porque quando você não pode mais ter o mergulhador, você tem que ter uma outra forma de trabalhar. Aí realmente a tecnologia mudou. P – E pra sua área? R – Também. P – Você destacaria alguma coisa assim que foi? R – Também, porque quando você tem que colocar um duto lá no fundo do mar sem mergulhador você tem que ter uma forma tecnológica de fazer isso. Por exemplo, você tem um cabo que bota um duto lá no fundo, você tem que soltar esse cabo sem mergulhador. Tem que ter uma ferramenta com um robô que vai lá e corta o cabo. Se você tem uma válvula, tem que ter uma ferramenta com o robô que vai lá e aciona a válvula para abrir ou pra fechar. P – E como que você sentiu essa necessidade? Como que vocês faziam pra superar isso? Que aí, a gente acompanhando hoje a gente acha que foi um momento. Mas como que vocês faziam? Por exemplo, agora era um limite, tinha 300 metros. E agora como que vocês fazem? Vocês estudaram? R – Exato, mas aí teve que realmente ser desenvolvido. Exatamente. Foi pra área nova, como é que vai ser? Tem que ser estudado isso, como que a gente vai fazer essa, qual e a solução que vai dar pra isso? Qual equipamento que a gente vai botar no duto lá, na extremidade do duto, para que ele fique operacional. E aí foram surgindo outras empresas especializadas nisso. Isso foi-se estudando junto, não só as ferramentas, os equipamentos, acessórios do duto, mas também a forma de se operacionalizar isso. E aí foi realmente um step que eu vi grande, um passo grande nessa barreira dos 300 metros. Que aí realmente começou, mudou. Que aí virou um equipamento, vamos dizer, um ROV [Veículo de operação remota, na sigla em inglês] ou um robô, um equipamento que tem que ter uma ferramenta. Ele tem que ser engenheirado, tem que ter uma tecnologia que seja capaz de ir lá e resolver o problema sem o homem. Com uma câmera, com televisão, com sistema de monitoração, tudo isso transmitido on-line para superfície pra você poder acompanhar. Você não pode dizer pro robô: “Vai lá e corta o cabo”. É outra abordagem do problema. P – Você começou a trabalhar em águas rasas, a maior parte? R – Eu comecei em águas rasas. P – Mas você conseguiu acompanhar essa forma de adaptar a tecnologia de terra pro mar ou não? Você sentiu isso? R – Não, eu não senti isso muito não, porque eu já cheguei, já existiam algumas plataformas de águas rasas. Por exemplo, em Aracaju é até bonito, que a gente via, chegava na praia e via aquela monte de luzinha na praia. Então, já tinha isso. Eu, praticamente, eu não peguei a parte da adaptação da terra pro mar. Eu não vivi muito isso não. Então eu não sei se foi uma extensão de terra pro mar ou não. Eu imagino até que tenha sido, mas eu não vivi isso muito, eu não vivi muito isso não. P – E quais foram os maiores desafios que você sentiu na Bacia de Campos? O quê que você achou que foi desafiador lá? R – Bem, um foi essa barreira, essa mudança tecnológica, que eu acho que foi um desafio grande, porque tudo passou a ser adaptado para o sistema robotizado. Então, com isso você muda completamente o enfoque do trabalho. Você tem que ter um estudo muito maior, uma tecnologia realmente que funcione. Não pode dar errado, porque se der errado você não faz. Você não pode chegar num lugar na hora e dar errado. Tem que dar certo. Se der errado você tem que ter uma saída, você tem que ter soluções, você tem que estudar todo o contexto, até se der errado. Se der errado, como que você vai resolver aquilo? Que outra forma? Então isso acho que foi um marco. E aí foi vindo os marcos subseqüentes, quando foi caminhando mais para águas profundas. Mas aí tudo dentro dessa linha, de ter que ter uma tecnologia que suporte. Por exemplo, instalar duto. Eu me lembro quando a gente instalou um duto em 900 e poucos metros, 930 metros, uma coisa assim. Foi um marco, foi um duto até em Marlim. Foi um marco legal. P – Quantos metros? R – 930, por aí. Foi uma coisa assim. Foi por aí. P – Você lembra mais ou menos quando foi isso? R – Quando foi isso? Foi até o Apart que instalou. Foi o navio contratado pela Petrobras. Já foi 1980 e tantos, 1990, por aí. Não sei, não me lembro muito bem não. Por aí. Mas já foi um marco assim. Foi no Campo de Marlim, quando estava sendo feito o desenvolvimento no Campo de Marlim. Foi interessante porque foi de pensar: “Será que vai dar certo? Será que vai conseguir?” Foi assim, na época foi o marco da Petrobras, vamos dizer, foi um recorde da Petrobras. Um duto de aço rígido em águas profundas, a 920 metros mais ou menos. E aí deu certo. Foi muito interessante, a gente ficou todo mundo. Foi assim, foi motivador. Um alegria. E tudo com a tecnologia também de ROV, de robô. Tudo feito sem intervenção, sem poder ir lá e mexer. Depois deu tudo certo, tudo ótimo. P – Quais são as principais tecnologias no seu trabalho, investidos hoje em águas profundas? R – Aí depois, seguindo até essa linha pra gente chegar lá. Aí o que acontece? Na verdade a gente, cada vez que vai mais profundo, você tem que ter um desafio de se aquele duto, aquela estrutura que você está projetando, vai suportar aquilo. Porque as cargas estão cada vez maiores, as extensões são cada vez maiores, os esforços são cada vez maiores. Você imagina você pegar um duto, um tubo, e botar lá a mil metros de lâmina d’água, dois mil metros de lâmina d’água. Então, um outro desafio que teve foi quando a gente instalou os dutos de Roncador, esses dutos que estavam. A gente instalou, ligou três poços à P36. E também foi desafiador. Foi um marco também porque foi, instalou. Até hoje é um duto de aço rígido que está em 1800 e poucos metros de lâmina d’água de profundidade. Isso foi outro desafio. Isso já foi agora em, mais recente, isso foi em 1999, 2000 por aí. Já foi bem mais recente. Mas foi um marco. E até hoje é um marco isso. P – O quê que muda, à medida que vocês vão chegando em maiores lâminas, o quê que muda de dutos, o que precisa para que ele...Tem que ser mais resistente? Como que é isso? A gente que não entende muito. R – Ele tem que ser mais resistente, ele tem que suportar. Por exemplo, é só imaginar que você tem um corpo embaixo, com 2000 metros de lâmina d’água, e ele tem que suportar o peso daquela coluna de lâmina d’água. São 2000 metros de água em cima daquele corpo. É um peso monstruoso, enorme, muito pesado, muito peso. Imagina você pegar … Pra você ter uma idéia, uma atmosfera que a gente vive aqui são dez metros de coluna de água. Quer dizer, hoje o peso que a gente sente aqui é dez metros de lâmina de água. Imagina 2000 metros de lâmina de água. É um peso enorme, muito grande. Então, aquela estrutura que você está projetando tem que suportar isso durante todo o processo, desde o momento que está instalando ele, colocando ele lá no fundo, até depois , no momento que ele vai operar, que são outras cargas. Aí entram cargas de pressões etc do posto de óleo, temperatura, tudo isso. São outros esforços que aquela estrutura, aquele duto, aquela estrutura, aquele equipamento, aquela válvula, o que quer que seja, tem que suportar. Então quer dizer, quando você vai rompendo essas barreiras, você tem que pensar nisso, se aquilo que você está colocando lá vai suportar. E muitas vezes é interessante, que uma estrutura que você coloca, um momento crítico, que às vezes eu acho que as pessoas não têm muito essa idéia, a parte, o momento mais crítico da vida daquele equipamento é no momento da instalação. Existem esses casos, no caso de dutos, no caso de dutos, e vamos dizer, as estruturas plents, os plats que são ligados ao duto. O pior momento é naquela hora da instalação. É a fase mais crítica, vamos dizer assim, daquela estrutura. P – Porque? O quê que? R – Porque, como que eu posso explicar? Primeiro que ele está vazio, vamos dizer assim, ele está cheio de ar. Então, com pressão atmosférica dentro, e externamente ele está sofrendo a pressão daquele peso todo de água. E porque? Porque eu tenho que, pra colocar ele no fundo, eu tenho que, as tensões são muito altas porque eu tenho que suportar, com embarcação na superfície, todo o peso daquela coluna. Então, por exemplo, um tubo, imagina um tubo de dois quilômetros, um tubo pendurado num ponto. É isso. É basicamente isso, dois quilômetros de tubo pendurado num ponto só de uma embarcação, segurando isso. Dois quilômetros. Só esse peso já é enorme, já é um peso considerável. Aí depois, ele começa depois no fundo do mar, ele tem que ser depositado numa certa geometria que ele não quebre, senão ele pode quebrar, ele pode romper. Então tudo isso são formas, você tem que controlar esse tubo, tem que fazer um controle, tem que fazer o estudo de como você vai colocar ele lá no fundo. Então, muitas vezes esse é o momento crítico de toda a... P – Você tem alguma recordação, em alguma instalação dessa, alguma recordação específica de uma instalação de duto que te marcou, que você achou que? R – Esse de Roncador foi um momento bem delicado, bem crítico. A gente estava preocupado, era 1800 metros de lâmina d’água. Realmente foi um marco. E teve, claro, sempre acontece alguns imprevistos. Aconteceu um imprevisto. O duto, na hora que a gente colocou, ele saiu da posição, ele deslizou um pouco no fundo. P – Esse de Roncador? R – Em Roncador. Ele teve um deslizamento que a gente não esperava, porque o fundo era muito inclinado, já começava. E vinha de 1800 metros até 1300 aonde, mais ou menos, era a posição da P36. Então tinha uma subida. Quando a gente colocou ele na subida, tinha um túnel, ele deslizou, escorregou. A gente não estava esperando isso. P – E aí o que aconteceu? R – Aí a gente teve que resolver esse problema. Retirou, voltou, e colocou umas aletas de suporte na estrutura pra gente ficar na posição. Mas foi uma solução no campo, no local. E aí, o que vai fazer? Não estava, ninguém pensava nisso. P – Não estava previsto? R – Não se pensava que fosse acontecer. E realmente o solo, vamos dizer, o solo teve um comportamento diferente do que a gente pensava, como sempre, muitas vezes acontece. E aí o duto deslizou junto, e a estrutura que estava na extremidade dele deu uma deslizada. A gente teve que corrigir essa posição e fazer com que ele não deslizasse mais. Mas foi... P – Como que funciona essa relação dos projetos, que você estava até comentando com a gente em off um pouquinho, essa questão de botar isso em prática, de projetar. Como é que vocês conversam com isso? Como é que há essa conversa? R – Era o seguinte. Basicamente pra gente, que a gente é um órgão de engenharia, é um órgão, vamos dizer assim, que a gente faz no momento. Como que a gente trabalha? A gente faz o projeto e faz a instalação também. Então, foi a fase até acontecer. A gente não é um. A gente não faz só um projeto e vai embora, entrega e vai embora. A gente sai, a intenção é ver como que ele foi implementado, ver se deu certo ou não. Isso eu acho super importante. Então, uma vez que surge essa necessidade de um projeto, vamos dizer, se for uma barreira tecnológica, hoje, agora, hoje como é que está? A gente trabalha muito com CENPES [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], com o Centro de Pesquisa, muito junto com eles. Muitas vezes o CENPES vem estudando alguma coisa, algum projeto, algum assunto específico. A gente às vezes junta com eles pra ver pontos críticos, pontos operacionais, vamos dizer assim, pra facilitar a instalação daquela estrutura, daquele duto. E aí a gente, por exemplo, desenvolve um projeto para isso, um projeto do equipamento em si, do duto em si. E depois a gente tem que desenvolver também um procedimento de instalação para a embarcação que vai instalar. E, o que acontece? Muitas vezes a gente faz isso e vai acompanhar, vamos dizer, as fases mais críticas, a gente vai, embarca e acompanha essa instalação. P – Mas você não fica embarcado com freqüência? R – Não, atualmente não. Atualmente a gente não fica embarcado. P – Mas já ficou mais? R – Já ficamos. Eu já trabalhei embarcado. No começo, eu trabalhava embarcado. Eu ficava embarcado um período, aí desembarcava e folgava. Aí depois, eu, realmente, a vida de embarcado ou a pessoa gosta ou não gosta, eu costumo dizer isso. É muito, é um estilo. P – Você gostou? R – Não, no começo eu não gostava muito. Gostei durante uma fase. Como aprendizado eu achei ótimo. Aí depois eu comecei a ficar meio cansado. É outro estilo de vida, a vida é diferente. Então, eu não me adaptei muito bem a essa vida, a esse estilo de vida. Aí o que aconteceu? Eu comecei a ficar mais, aí, quer dizer, aí até voltando um pouquinho. Quando a gente veio constituir aquele grupo no Rio, aquele grupo veio fazendo procedimento de instalação. E depois a gente construiu um projeto. Isso foi mais ou menos em 90. (Pausa) P – Bom, você estava falando a questão do grupo de pesquisa. R – Isso. Aí, nessa época, mais ou menos em 1990, foi criado um grupo de projeto mesmo, onde eu fazia parte. E aí a gente começou a desenvolver projetos mesmo de dutos. E fazia procedimentos de instalação e marcar, quando necessário, para acompanhar uma fase específica desse projeto. Isso eu achei uma forma muito boa de trabalhar, muito produtiva, porque você acompanha toda a seqüência. E aí a gente vem, quer dizer, basicamente vem trabalhando assim até hoje. Hoje as coisas mudaram um pouco com a criação dos ativos, coisa e tal. Mudou um pouco a forma. Mas hoje ainda existem diversos, vamos dizer, barreiras tecnológicas também que estão sendo estudadas para serem quebradas, vamos dizer, implementadas na Petrobras. Isso aí está sendo feito de uma forma bem mais ampla agora. O CENPES está muito envolvido, o OPP Petroquímica, e a gente de engenharia também. Então, todas essas tecnologias novas. O quê que são as tecnologias novas? São, por exemplo, tecnologias de produção em águas profundas… Por exemplo, colocar um riser tal, uma torre de riser, que é uma forma diferente de se produzir. Instalar uma SR em uma plataforma, que também é de grande diâmetro, uma tecnologia nova. Instalar um riser híbrido, como a gente chama, riser híbrido. Tudo isso são coisas que estão sendo estudadas agora. No momento, aqui a engenharia está produzindo uma concorrência para fazer a instalação de um riser híbrido na P52. Isso vai ser um marco tecnológico também. P – Em que consiste esse novo riser? R – Esse novo riser significa, é uma forma de você, novamente a questão, você imagina um duto, um tubo pendurado numa plataforma. Então, ele tem que ter mais ou menos dois quilômetros de tubo pendurado na plataforma em um ponto. Então, tem um peso muito grande na plataforma. Então, o quê que se fez? Está se tentando tirar esse peso da plataforma. Então, você coloca um riser em torre, preso no fundo do mar, apoiando. E esse, liga esse riser num tubo flexível da plataforma. Então, é uma forma de você aliviar o peso da plataforma e ter uma estrutura mais, vamos dizer assim, mais leve do riser. Isso é uma tecnologia que a gente está contratando agora para ser instalado. Deve ser instalada ano que vem. Está sendo feito o contrato agora. Já está terminando, está em fase de julgamento, esse tipo de coisa, pra assinar contrato. Aí vai ter uma fase de projeto e depois a fase de instalação. P – Esses projetos de vocês tiveram contato com o PROCAP [Programa Tecnológico da Petrobras em Sistemas de Exploração em Águas Ultraprofundas] ou não? R – Tem também. A gente tem contato com o PROCAP. Muitas vezes a gente participa do PROCAP também, dos grupos, tem diversos grupos. Vamos dizer, a gente participa desses grupos também, e muito desenvolvendo essas tecnologias. Esse projeto de riser foi uma decorrência disso. Um projeto PROCAP começou a estudar isso, foi desenvolvendo. Aí o EP até contratou uma firma pra fazer um estudo desse riser, que a gente participou também desse estudo. E agora está sendo contratada uma empresa pra fazer a instalação desse riser, quer dizer, essa empresa vai refazer o estudo, reavaliar todo o projeto e fazer a instalação depois. Já foi considerada como uma tecnologia disponível para instalação. Nunca foi feito ainda, mas já está considerada como disponível. A gente então vai fazer a instalação ano que vem. Claro que vai ter inúmeras questões, inúmeros desafios a serem solucionados, que a gente nem sabe ainda quais são. Mas terão, certamente terão esses desafios. Por exemplo, uma outra tecnologia que também está sendo estudada para Roncador também, é um pipe pipe. Pipe pipe é um tubo dentro de um outro tubo. Porque isso? Porque botar dois tubos, um dentro do outro? Por questões térmicas. Porque o óleo sai quente. Então o óleo, se ele escoar quente é melhor. O fluido quente escoa muito melhor do que o fluido frio. Até porque ele tem parafina dentro, então se ele esfriar a parafina começa a condensar e começa a fechar o tubo, começa a grudar no tubo e entupir, que nem uma artéria. Vai entupindo. Então, o objetivo é escoar esse óleo quente. Para escoar esse óleo quente tem que isolar o óleo, o tubo, da água fria. Aí você bota isolantes térmicos. Esse isolante térmico, uma forma eficiente de colocar esse isolante térmico é esse sistema que a gente chama de pipe pipe. São dois tubos, um dentro do outro, e você bota isolante térmico entre os dois tubos. P – Já está sendo usado esse sistema? R – Este já existe, no Brasil não. A Petrobras nunca usou. Está sendo feito um estudo agora para se instalar em Roncador, em dois poços de Roncador. P – É até isso que eu ia perguntar, Fábio. Na verdade vocês tiveram que fazer alguma adaptação para receber o óleo da Bacia de Campos? Ele era diferente? Como que era? Mais pesado, mais leve? R – Olha, o óleo varia muito. Quer dizer, o óleo de Roncador, nesse módulo dois da P52, é um óleo bom. Ele é leve, é um óleo bom. Tem alguns outros óleos, o óleo de Marlim 3, de Roncador, já é um óleo pesado. Quer dizer, o quê que significa isso? Significa que você tem que dispor de tecnologias um pouco diferentes. Nesse caso de óleo pesado, nesses casos de óleo com muita parafina, você precisa de um isolamento térmico muito grande, muito bom. P – Óleo pesado? R – Óleo pesado, e alguns óleos leves também, quando você quer aumentar a vazão. Então, isso já é outra tecnologia que você tem que desenvolver. Você tem que desenvolver um produto que seja isolante térmico e que funcione bem naquela condição lá embaixo. Isso não é assim de prateleira. Não é uma lã de vidro. Pega uma lã de vidro aí e bota lá. Não é assim. Então você tem que desenvolver isso e testar. Isso é um exemplo daquilo que eu falei no começo. Que hoje se faz muito assim, você pega, você foca numa tecnologia, estuda, desenvolve, faz um protótipo e testa, pra você ter certeza de que aquilo vai funcionar. P – Quanto tempo mais ou menos dura isso? R – Isso é muito variável porque depende muito de como está esta tecnologia. Se a tecnologia já existe, vamos dizer, até uma certa forma, madura, você tem só que pegar ela, adaptar, aplicar e testar. Muitas vezes não. Muitas vezes você tem que pesquisar ainda qual é a tecnologia que você vai usar. Aí demora mais. Até, posso falar um pouco melhor dessa área de isolamentos térmicos que é a minha área também, minha área de especialização. A gente escolheu, isolou diversos materiais que existiam no mercado, e aí começou a estudar pra ver se eles seriam possíveis de ser aplicados no tubo, servir de isolamento térmico para o tubo. Então, fizemos várias alterações. Isso se faz muito em parceria com empresas também. E se aplicou no tubo e se testou, simulou. Fez simulações das condições, por exemplo, de dois mil metros de lâmina d’água. E aí uma vez, passou em todos os testes, foi aprovado. Então a gente vai instalar ele, realmente usar ele em campo. Quer dizer, hoje eu acho que tem fazer isso, não pode chegar... P – Pra quando vocês pretendem essa? R – Essa mesmo que é uma tecnologia de isolamento térmico a gente, quer dizer, tem vários tipos. Algumas já estão até disponíveis para uso, a gente já usou. Esses tubos que a gente falou, em Roncador, foram isolados termicamente. Agora, no que está se pensando? Nessa tecnologia de pipe pipe, que é um isolamento um pouquinho diferente e que também já está bem estudado, mas não fez ainda uma instalação. Já fez até protótipos, já testou mas a gente não instalou nenhum tubo ainda. Deve ser usada agora para Roncador, pra P52. Tem dois poços lá, o P1 18 e o P1 21, que é necessário que exista esse sistema de pipe pipe. P – Mas você acha que isso é mais específico da Bacia de Campos ou não? Ou é diferente de campo para campo? R – Isso, quer dizer, no momento é específico da Bacia de Campos. Mas certamente vai ser necessário no Espírito Santo também, e toda vez que você tiver essa característica de óleo, que você precisa fazer escoar e mantendo a temperatura alta. Quando você tiver essa necessidade você vai ter que usar isso, em qualquer lugar que seja no Brasil. Então aí que águas profundas é um ponto importante. Porque? Porque em águas profundas a temperatura da água é muito baixa. Lá no fundo geralmente é quatro graus, três graus, nessa faixa. Então, muito frio. Quer dizer, água no Nordeste não, é água quente. Aí água a 27 graus, 26, 25, 28 graus. P – Mesmo a grandes profundidades? R – Não, à grande profundidade não. ________ para descobrirem um poço. Teve alguns poços, teve uma notícia que descobriram uns poços em Sergipe, mil metros. Aí já é frio também. E aí essa tecnologia vai ser usada lá, vai ter que ser usada, porque vai precisar. É a mesma questão, cai na mesma situação. P – A questão tecnológica influenciou vocês em relação a essa necessidade ambiental de vazamento e coisas do tipo, como que foi isso pra vocês? Que isso na verdade está ligado ao transporte, né? É uma preocupação da empresa. R – É. É uma preocupação da empresa global hoje. Hoje tem o cuidado, realmente existe um cuidado muito grande quanto a essa questão de vazamentos, de defeitos em equipamentos, válvulas, conexões, interligações, conectores, tudo isso. E a forma que a gente aborda isso é simular os testes em modelos reais exaustivamente porque, sabe, acho que a forma de abordar isso é ter muito cuidado com isso. Porque depois que está lá, está lá. Não tem muito jeito. Você vai fazer o que? Você pode ter situações para tentar contornar, mas não vai deixar o problema acontecer. Então uma forma é fazer isso, é tentar simular realmente as condições. Simular e testar os equipamentos, testar exaustivamente. P – E você acha que isso foi difícil em relação à profundidade, ou já era semelhante? R – Sim. Não, não é que seja difícil, tem uma maneira, claro. E o que acontece é que muitas vezes não é muito fácil você fazer uma simulação de algum equipamento em dois mil metros de lâmina d’água. Não é muito fácil. Não existem muitos equipamentos no mundo disponíveis para isso. Se você for fazer você precisa de uma câmera hiperbárica, uma câmara fechada onde você bota o equipamento lá dentro e pressurize com uma pressão de dois mil metros de lâmina d’água, que é uma pressão muito alta. Então esses equipamentos são muito grandes. Não é como, não existem muitos equipamentos no mundo. Então, quer dizer, fazer isso nem sempre é assim: “Ah, faz aí”. Não é simplesmente assim. Então, também não adianta você falar: “ah, faz aí”. Falar, “ah, faz aí”, é muito simples. Tem que se fazer, vamos fazer algo que seja razoável, algo que seja pensado, estudado e gerado para que o resultado seja um resultado bom, um resultado, vamos dizer assim, positivo. P – Vocês têm tido uma resposta satisfatória? R – Tem, eu diria que temos sim, temos muita resposta satisfatória. P – Você sentiu os desafios ou não? R – O único desafio que eu acho que é crítico hoje é o tempo. __________, vamos dizer assim. Porque uma coisa é o lado técnico, querendo testar e se assegurar de que os equipamentos estão bem. Outros são inerentes, cada um na sua função. “Não, peraí, eu preciso desse óleo escoando em tal ano”. Eu não tenho tempo pra fazer esses testes todos. Isso eu acho que são desafios, são desafios de adequar a tecnologia ao cronograma. Na verdade, nem um nem outro devem ser muito radicais. Os dois têm que ser um pouco flexíveis para que a solução seja satisfatória para a Petrobras e pro Brasil em termos gerais. P – O quê que você acha que significou a descoberta da Bacia de Campos, Fábio? R – Eu acho que significou, para o Brasil foi um marco muito importante. Nem só pra Petrobras, foi pro Brasil. Porque ela começou, a Bacia de Campos trouxe a Petrobras pra cá, pro Rio. Embora, é claro, a sede da Petrobras sempre foi no Rio, mas ela estava muito focada em Sergipe e Nordeste. A Bacia de Campos trouxe a Petrobras pra cá e trouxe uma produção realmente significativa de óleo. Foi quando os volumes começaram a ser maiores. Que até então se falava muito, tinha aquela história: “Ah, o Brasil não tem óleo, o Brasil não tem petróleo”. Aquela fala antiga que o Brasil não tinha petróleo. Acho que a Bacia de Campos tem esse marco, tem essa função, tem essa importância de mostrar pra Petrobras e pro Brasil: “Olha, assim não. Existe petróleo no Brasil”, e que está se mostrando hoje. Hoje a produção é grande e já tem... P – Você conseguiria avaliar um pouquinho em quanto está essa produção, não? R – Ah, eu tenho, o número que eu tenho é de 1 milhão e 800 mil barris, mas não tem esse número exato. Mas eu sei que está, a auto-suficiência está aí. Está marcado para 2006, 2007, por aí. Já está aí. E antigamente não. Quando eu entrei na Petrobras nem se falava em auto-suficiência. Imagina. Não tinha esse parâmetro, não existia. P – Vocês imaginavam que ia estar chegando essa profundidade toda aí? R – Não, isso nem imaginava. A gente, apesar de, sempre trabalhei nessa área offshore. A gente não imaginava que fosse instalar um equipamento e produzir petróleo em dois mil metros de lâmina d’água. A gente não imaginava isso. Vamos dizer assim, em 1980 a gente não imaginava isso. Água profunda era 100, 150, 200 metros. Era um marco. A gente não imaginava isso. Foi realmente muito rápido. Em 20 anos foi uma mudança muito grande, em termos até desse foco de ver hoje um Brasil, uma Petrobras com auto-suficiência já aí perto, e se ver, se pensar que está instalando poços, plataformas, dutos, equipamentos, em dois mil metros de lâmina d’água. Hoje tem barreiras, claro. Mas não é assim: “Ah, meu Deus, isso não é possível”. Não. É possível. Está se fazendo. P – Deixa eu te perguntar. Nesse tempo todo de empresa, tem alguma história marcante, engraçada, que você queira contar aí pra gente nessa vivência na Petrobras? R – Ah, não sei. Marcante e engraçada? P – Algo que você considera importante, que queira deixar registrado. R – Não sei. As histórias offshore são sempre, sempre tem as coisas muito peculiares, eu acho que o convívio com o peão, com o trabalhador, o peão trabalhador, que faz a coisa. É muito interessante, muito, tem os ditados, tem essas coisas. São muito interessantes. Não me lembro assim específico de nenhuma. Mas é muito bom isso. Eu acho. Porque é muito legal, é muito interessante você estar num lugar, numa plataforma é pequeno. Então você está convivendo com todo mundo, está junto, está conversando, está trocando idéia. E o pessoal conta tudo, conta. Você sabe a vida de todo mundo. Se você for uma pessoa então um pouco mais atenciosa, assim de ter um ouvido um pouco mais pra isso, você conhece. As pessoas são muito simples, muito abertas, está muito perto. Então você conhece as histórias de todo mundo, as histórias familiares, as histórias pessoais. Hoje mesmo, teve uma pessoa aqui que, é interessante isso, hoje teve uma pessoa que veio... Estava sentado na minha mesa, telefonou: “Ah, tem uma pessoa querendo falar com você”. Falei: “Ah, quem é? Ah, tá. Pode subir”. Aí eu fui conversar com ele, é uma pessoa que, quando eu embarquei em 1976 ele trabalhava embarcado também na mesma plataforma. E aí estava aí, sabe? Hoje está trabalhando em firma, está trabalhando, vai trabalhar mais nessa área comercial de empresa, de conseguir serviço, coisa e tal. Sempre ligado à Petrobras. Mas foi uma pessoa que está desde aquela época, 1976, que hoje eu encontrei com ele por acaso. P – Qual o nome dele? R – Edílson. Por acaso eu encontrei com ele hoje. Foi bom, é gostoso. E aí a gente ficou até conversando: “Ah, Aracajú, lembra daquela época, não sei o que. Fulano de tal e fulano de tal”. P – Atualmente você está em qual atividade, Fábio? Fala resumidamente pra gente um pouquinho dessa sua atividade hoje. R – Hoje a gente faz o que? Projeto de dutos. Então a gente recebe, vamos dizer assim, uma solicitação do ativo, vamos dizer assim, da Petrobras, dos ativos, para fazer um projeto. E a gente desenvolve o projeto baseado nos dados que esse ativo fornece. E você desenvolve um projeto e, dentro da engenharia, a gente faz a instalação também, a gente acompanha a instalação. Se faz o contrato de instalação também, que já não é o órgão que eu estou, mas é o órgão que trabalha do lado da gente, faz o contrato de instalação e a gente acompanha a instalação também. E testa e entrega de volta pro ativo pra ele operar. Então hoje é isso, a gente faz esse projeto. Basicamente, eu estou focado mais ou menos na área de dutos submarinos, projetos de dutos submarinos. Mas projeto dentro dessa área mais ampla, projeto, instalação, teste e entrega. P – Vocês acabam voltando a embarcar só pra testar? R – Isso, a gente acaba voltando a embarcar, vamos dizer, eventualmente, dentro das atividades legais, interessantes. Até porque hoje tem um problema de tempo, de serviço. Hoje é questão muito séria quanto a isso. Falta gente. Tem muito mais trabalho do que pessoas pra fazer o trabalho. P – Então acaba exigindo um pouco mais de vocês. R – É, acaba exigindo mais e acaba também não permitindo que você “Ah, embarca aí e fica dez dias embarcado”. Poxa, ficar dez dias embarcado significa mais vários dias de folga. Então não, por exemplo, esse ano. Férias também. Você tira férias, um pedacinho, depois você volta a trabalhar, depois tira outro pedaço. Hoje em dia, nesses últimos anos, está muito assim. Acho que não é só pra mim não. É pra todo mundo. Eu não sei as outras pessoas o que estão falando, mas certamente está muito, tem muito trabalho, muita coisa pra fazer. E é aquele negócio que eu falei. E a gente entra: “Ah, tem que estar pronto na data tal”. P – Tem prazo. R – Isso é complicado, isso é muito complicado porque falta gente e você, a gente nunca pode esquecer isso que eu falei, a gente tem que ter certeza que aquilo vai funcionar. Não era como antigamente, como em água rasa: “Ah, se não funcionar, fecha”. O cara vai lá, muda, tira. Não é assim mais. P – É questão de custo, é isso? R – Questão do custo. É muito caro. Uma vez instalado o equipamento em dois mil metros, você não tira mais porque pra tirar é caríssimo, caríssimo, caríssimo. Então, a gente tem que ter certeza que ele vai funcionar, que ele está de acordo. Isso requer teste, requer projeto, estudo, tudo isso. P – Requer que vocês tenham mais, estejam um pouco mais em terra para estar agilizando isso. R – Pra estar agilizando isso, exatamente. P – Então tá, Fábio. Na verdade estamos encaminhando pro final da entrevista. Eu queria saber o quê que você acha dessa iniciativa da Petrobras com o Projeto Memória e o quê que você achou de ter participado, contribuído com o seu depoimento. R – Ah, eu acho interessante esse projeto. Acho muito interessante porque até, de certa forma, é um ponto a ser levantado porque eu trabalho na Petrobras desde 1976. Eu acho que durante muito tempo isso foi meio deixado de lado. Não existia essa preocupação, você ter uma história, uma preservação do conhecimento, uma preservação dos dados, uma preservação do que aconteceu. Eu acho que existia uma certa “vamos deixar de lado um pouco isso”, durante muitos anos. Ultimamente eu vejo que isto está tendo mais importância, não só aqui como também no próprio trabalho, a preservação das coisas, dos documentos, da história, dos equipamentos, das instalações. E também com esse tipo de projeto também que são a história das pessoas. Eu acho super interessante. E acho muito bom. P – Você gostou de ter participado? R – Gostei, achei ótimo. Muito bom. P – Então tá. A gente que agradece. Obrigada pela entrevista. R – De nada. Obrigado.
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+