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História

Cor da infância

História de: Vinicius Lelli
Autor: Vinicius Lelli
Publicado em: 19/08/2020

Sinopse

Diário de Vinicius Lelli, 17 de agosto de 2020. Jornada, dia 1.

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Não é constante essa prática em mim, lembrar ou tentar buscar memórias guardadas... perdidas. Nunca parei e pensei "hoje vou pensar o passado", pelo menos não me recordo, talvez o problema não seja a prática em si (de pensar em pensar lembrar), mas sim, o de esquecer as coisas imbricadas nas histórias já vividas. Pois quando penso em minha primeira memória, uma cor só me vem num tom: a cor da infância. E ainda nessa tarefa de escarafunchar, dentre muitas imagens, é-me familiar e tão somente uma lembrança, até parece um curta-metragem de fotos em movimentos: lembro de uma criança, magrinha, de braços, canelas e cabelos finos e pretos espalhados em toda a cabeça, quando digo em toda a cabeça digo em toda a cara, pois em minha meninice até cabelos no rosto tinha, parecia um maquinho cheio de pelo e de luz nos olhos igualmente pretos. Nessa época, contava com seis ou sete anos, pela primeira vez, depois de tanto tempo almejar, aprenderia me equilibrar em cima de uma bicicleta e finalmente sentir o gostoso do vento bater na cara, para depois assoprar meus cabelos. Era dia de sol, pela quantidade de gente que havia na rua, julgo ser um final de semana, portanto, o público estava a postos e eu, menino franzino, peralta e vívido, começava sentir a boca ficar seca e o gelo na boca da barriga me tomar, as pernas bambearem e minhas mãos pequeninas, provavelmente deviam estar gélidas ou molhadas, era muita pressão imaginar que ali estava eu com minha magrela bike (dos Cavaleiros do Zodíaco) prontos para uma jornada juntos e com muitos espectadores, lembro que apesar do sol quente beliscando minha pele, estava focado em uma única tarefa, a de subir e começar logo tudo aquilo, então subi na bicicleta, ajeitei meu corpo e pedalei afobado, querendo sentir apressado como era estar lá em cima, o coração latente apertava a respiração que deixava meu nariz ardente e de repente me recordo de quase bater em um carro parado, de cair, de ficar estático, de ralar as mãos, de quase chorar e de não querer mais me levantar, no chão permaneci, dali procurei encontrar olhares em minha direção, algumas pessoas me olhavam, mas percebi rápido, ligeiro que ninguém estava olhando, olharam após ouvir o som do meu tombo, apenas minha mãe me observava sorrindo e dizendo: "caiu, levanta, começa de novo filho", e de repente sorri, percebi de algum modo, que aquilo tudo valeu a pena, o sorriso e a voz dela me deram energia, foi a força motora que me impulsionou levantar, persistir e a cair mais vezes, de não parar mais, seguir, tentar, tentar e tentar, isso se repetiu, cai mais vezes do que pude imaginar, e me levantei com mais pressa ainda, quando percebi (talvez ainda em cima da bike e sentindo aquele afagar do ar no rosto), pensei: como é gostoso, cair levantar. Porque, aquele processo repetitivo de cai levanta, significava de fato o aprender, aprender era permanecer o máximo de tempo sem pisar o chão da rua e isso era o máximo e foi neste momento que senti que o domínio da bike já era quase todo meu e... sorri.

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