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Cooperação Latino-Americana

História de: Maria Cristina Juarez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/05/2007

Sinopse

Em seu depoimento, María Cristina Juárez conta sobre sua origem no povoado Juan Bautista Alberdi, na província de Tucumán, na Argentina, vinda de uma família de trabalhadores rurais, função na qual seguiu. Como a influenciaram na luta pelos seus direitos através da educação e do trabalho. A participação em diversos grupos, como, cooperativas e associações que visava reunir mulheres do campo em busca de seus direitos na Argentina em meio a repressão durante a Ditadura. Fala como conheceu a Rede LAC e os encontros em outros países da América Latina, o Enlac, para compartilhar conhecimentos e novas propostas para a resistência feminina rural. Conta sobre suas experiências em outros países e as dificuldades, como a limitação de verba, para poder viajar com esse objetivo.

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História completa

P - Immaculada Lopez

P - Danilo Eij

R - María Cristina Juárez

P - Cristina, para começar gostaria que você dissesse seu nome completo, a data e o lugar onde você nasceu.

R - Eu me chamo María Cristina Juárez. Minha data de nascimento é 26/12/1956. O lugar de nascimento é um povoado próximo de onde moro, que se chama Juan Bautista Alberdi, dentro da província de Tucumán, no país Argentina.

P - Em qual lugar da Argentina?

R - Eu moro em...no norte da Argentina. Nordeste.

P - E como é?

R - Para nós, é um lugar muito belo, particularmente a minha província, que é o “Jardim da República”. Temos uma variedade de climas, é uma maravilha.

P - E sua família é dessa mesma região?

R - Sim, meu pai é oriundo de uma localidade próxima de onde a gente morava, El Sacrifício. Fomos nascidos e criados ali, que é Los Arroyos.

P - Como é o nome do seu pai?

 

R - Francisco Cristino Juárez.

 

P - E o da sua mãe?

R - Octavia Elena Montenegro.

 

P - O que você sabe sobre a história da família do seu pai?

R - A história da família de papai é que ele ficou órfão; órfão, a gente diz. Morreu sua mãe quando ele tinha só quatro anos. É o terceiro membro de quatro irmãos que foram, e ele se criou com vovô, onde não pôde ter acesso à escola primária. Não tem instrução, não estava nele escrever, como ele dizia. Sempre trabalhou com vovô nos trabalhos rurais, nos trabalhos do campo, particularmente. Tucumán é uma província onde, naqueles momentos, a cana-de-açúcar estava no auge, e meu avó era trabalhador na cana, ou seja, ele trabalhava com mulas. E meu pai trabalhava também.

P - E você conheceu seu avô?

R - Graças a Deus, sim; e era uma neta, digamos, preferida de vovô [paterno]. E dos avós maternos – como nós chamamos, pelos da mãe – meu avô era oriundo de Tucumán e minha avó de Santiago del Estero, uma província vizinha de Tucumán. Eles vinham trabalhar na cana-de-açúcar e ela se conheceu com o vovô e casaram. E daí nasceu mamãe, integrante de mais onze irmãos. E, bom, quando casou com papai, dizem que meus avós gostavam muito de mim. O vovô [materno] eu não conheci, a vovó [materna] sim. Tenho as melhores lembranças, porque a vovó morreu de 107 anos e eu já era grande, eu já viajava e a vovó estava muito feliz. Sempre fui muito mimada pela minha avó.

P - Voltando um pouquinho à família do seu pai... qual era o nome do seu avô?

R - Antonio Juárez; e a vovó morreu quando papai tinha só quatro anos. Se chamava Rosario, Rosario Toledo.

P - E eles tinham terra própria?

R - Não. A gente vem de família, assim, sempre de assalariados, de diaristas, meus avós paternos. Os maternos sim tinham terras próprias, como que era uma economia diferente a do papai, mamãe pôde fazer seus estudos primários. Estava começando a ir na escola secundária e daí o vovô já não permitiu que ela continuasse; então, ela casou com meu pai. Então, eles sim tinham vacas, outra situação econômica, diferente de papai.

P - O que mais seu pai contava sobre sua juventude, sua infância?

R - O papai contava que uma irmã mais velha foi a mãe deles, que o vovô era muito severo, muito forte no seu trato, que exigia deles, protegia eles. Então, era ela que preparava a comida deles, porque, depois, o vovô casou com outra senhora, para nós era a "vovó gorda", que se chamava María Aredes. Diz que ela preferia seus filhos. Então, ele sofreu um pouco; papai tinha adoração por ela e eu vejo isso. Me faz lembrar que tinha uma cesta – aqui é um enfeite, mas lá era para que guardem o pão – e aí dizem que tinha um irmão, o papai, que saía para roubar. Eles diziam...fazia isso para que tivessem o que comer. E desde bem pequenos começaram a trabalhar, muito pequenos.

P - Como era essa rotina de trabalho do seu pai?

R - Dizem que vovô tinha um carro com mulas. Então, ele costumava ir nesse carro; depois, o papai chamava as mulas, veste a parte traseira dos animais, a garupa, e aí andava. Depois, quando papai voltava, o vovô voltava do engenho para onde levavam a cana, porque era um meio de transporte da cana. E diziam que ele costumava ficar na palha, que são os restos do que fica da cana, e era aí que ele dormia. Comia e chupava muita cana, porque como que essa era a comida que tinha, e assim foi sua infância. Muita mortificação, muita adversidade. Até que foi crescendo e, na sua juventude, também diz que saía, que eram outras as recreações, as diversões a que ele sabia ir. Não tinha tanta festa como agora: eram os carnavais, a festa de fim de ano, o Natal... Estou falando disso, algumas reuniões familiares...e que saía mais com vovô.

P - Em um povoado próximo...

R - Em um povoado próximo. E depois, papai, quando era jovem, diz que tinha feito umas “comparsarias” de baile, que chamavam de “comparsarias” de índios. Sabe como é, viu, com plumas, assim, como usavam os índios, e cantavam “vidalas”, canções, serenatas nas casas dos amigos, a cavalo. Papai gostava muito do cavalo para andar.

P - Cantavam?

R - Cantavam e tinham instrumentos: caixas, dizia papai, bombo, violão, tudo.

P - E saíam para cantar...

R - Saíam para cantar. Às vezes, tinham casamentos, aniversários, serenatas...e eu imagino que tenha feito alguma para mamãe.

P - E como ele conheceu sua mãe?

R - Foi nesses lugares. Mamãe morava no mesmo povoado naquele tempo e papai era amigo dos irmãos de mamãe; era amigo porque participavam juntos das “comparsarias”, por isso digo que ele deve ter dado uma serenata. Então aí eles se conheceram.

P - Como era a vida na casa da sua mãe, um pouco diferente...?

R - Sim, um pouco diferente, porque mamãe diz que vovó fazia queijo de vaca, os derivados do leite. Tinham porcos próprios, então faziam charcutaria – todas as coisas que se fazem derivadas do porco. Escolhia o que iam comer. Tinham pomar, então faziam as geleias, os doces, tudo isso. E, por ela ser a irmã mais nova de dez, era muito bem tratada: vovó fazia suas roupinhas, penteava-a, ia à escola, tinha outra infância. Outra infância, mas também trabalhavam, porque trabalhavam nessas coisas com vovó: colhendo as frutas, juntando os ovos, iam para a horta com vovô. O vovô, Segundo se chamava.

P - E seu avô trabalhava em que? Como é que ele sustentava a casa?

R - Era nisso, no território que eles tinham; e também trabalhavam nas fazendas, para outros, na cana-de-açúcar. Por isso ele (se) conheceu (com) vovó.

P - Qual era o trabalho com a cana?

R - Era isso que eu queria te contar. Naquele momento, o trabalho era manual, não como hoje, que é com máquina. Então, primeiramente, era plantar com as mulas. Os bois preparavam o chão, sulcavam o chão e depois plantavam a cana, iam botando em linha; isso é um cultivo que se faz, se chama carpir, e, depois, crescia. E os canaviais, como nós chamamos, cortavam eles com machetes e descascavam a cana – descascar era cortar a palha que tem na cana – e depois empilhavam. Fazer pilhas era fazer pacotes, amontoados para que depois se possam levantar nos braços e levar para o carro. Isso era o que fazia papai junto com o vovô: transportar até o carregador onde esses pacotes de cana eram levados em caminhões para o engenho onde se fazia o açúcar, o melado, todos os derivados da cana...o bagaço, que a gente chama, que é o que depois se leva para as fábricas de papel, para que façam o papel.

P - E depois queimam o campo?

R - Naqueles momentos, sim, queimavam, para que voltasse a brotar de novo, porque é um cultivo que tinha mais ou menos quatro ou cinco anos e daí queimavam. Hoje não se faz mais isso, para preservar o meio ambiente, porque tem sido muito destruído com a queimada do canavial. Então, não tinha luz elétrica. Hoje já os fios da rede elétrica estão por cima disso tudo, então a gente sofre as consequências, porque fica afetada por essas linhas elétricas.

P - E sua mãe era a mais nova de dez irmãos... Muitas mulheres?

 

R - Sim, a mamãe [estava] entre as menores, porque depois da mamãe, tem mais uma irmã e um irmão. Ou seja, que são cinco e seis, assim mais ou menos.

P - E como era essa convivência, essa divisão de irmãos e irmãs, homens e mulheres?

R - Dizem que a vovó era muito severa; então, sempre teve um bom trato, porque o vovô não tinha diferenças, homens e mulheres eram bem acolhidos, bem tratados.

P - Todos estudaram?

R - O primário.

P - Meninos e meninas?

R - Meninos e meninas, sim, o primário sim. Minha mãe, sim; ela teve a possibilidade.

P - E também trabalhavam muito?

R - E trabalhávamos também, cada um nas suas tarefas. A mamãe bordava muito bem. Essas coisas, diziam que os homens não tinham que saber, mas, contudo: a vovó mandava igual, que também o homem tinha que saber fazer suas costuras, dizia ela; lavar sua roupa. Ou seja, que a vovó era uma mulher que sempre defendia seus direitos. Vou contar uma história que a mamãe contou da vovó. Uma vez, tinha uma localidade que se chama Santa Ana, perto do lugar...porque eles vão [se] mudando: termina a colheita em um canto, vão para outro. Aí, era o engenho Santa Ana. Tinham uns capatazes – diz a mamãe que a vovó contava – que eram muito severos, muito malvados. As contas, eles faziam sempre favorecendo o patrão e quando o operário ia reclamar que pagavam de menos, ele fazia que se calasse, que isso não era verdade e que como é que ele ia saber; se era tão ignorante, que como ia perceber. E um dia, um homem tinha se rebelado e disse para ele que isso ele ia cobrar. Então, os capatazes tinham amarrado ele pelas mãos, batiam nele e exigiam que ele subisse no cavalo com as mãos amarradas...e para subir no arreio, não é tão fácil com as mãos amarradas. E a vovó, que estava com vovô na fila para que também pagassem eles pelo seu trabalho, saiu da fila e se enfrentou com esses capatazes, e disse a eles que tipo de homens eram eles para tratar assim outro humano, que sejam mais dignos. Disse a vovó, usando outra frase: “Que sejam mais machos e que tirem ele dali e arrumem ele...ou eu mesma vou amarrar as mãos de vocês e vou exigir que subam”. E diz que o vovô tinha muito medo, porque quando alguém se rebelava, mandavam castigar; e que ele temia pela vovó. E a vovó disse que se eles eram valentes, que viessem enfrentar ela. Então, o capataz disse: "Cala a boca, mulher." "Não vou calar." Que respondeu, a vovó: "Até que não se acabe esta injustiça". Eles desataram as mãos, dizem... Ela conseguiu. Porque acontece que a vovó sempre era muito rebelde.

P - Era a mãe do seu pai ou da sua mãe?

R - Era a avó materna. Então, sempre me disseram de que eu parecia com ela. Boca pequena, palavra grande, dizia a vovó. Assim contam.

P - Então, na sua casa já havia essa noção de...

R - Essa noção de defender da injustiça.

P - E o tratamento entre homens e mulheres, como você vê naquela época?

R - Naquela época, muita submissão para a mulher. Muita, muita submissão.

P - Seus pais se conhecem em uma “comparsaria”, não é?

R - Sim, sim.

P - Como é o casamento? Onde eles vão morar?

R - A minha irmã sempre lembra como papai...a gente sai do campo para a cidade e uma das minhas irmãs ia com ele – e papai disse a ela: “Nesta paróquia eu casei com sua mãe.” E, depois, eles foram morar em outra fazenda. Trabalhadores rurais vão para onde tem trabalho. Você se arrancha nessa fazenda, em outra; e aí temos morado. E daí já se mudaram para El Sacrifício.

P - Como é El Sacrifício? 

 

R - É uma região onde temos planície, onde tem montanha. No pé, que nós estamos, se fazem diferentes tipos de cultivos. Temos escolas, só que longe: cinco, sete quilômetros, íamos nós para a escola. Os postos sanitários e centros assistenciais de saúde também estão longe, sete a dez quilômetros. O povoado mais próximo, onde eu nasci, está a quinze, vinte quilômetros, dependendo da região. Há – nós chamamos de armazéns – lugares onde dá para fazer as compras do que a gente não produz: macarrão, arroz, farinha, essas coisas; carne, o argentino consome muita carne.

P - E eles vão para El Sacrifício e vão morar onde?

R - Na fazenda de um dono, de patrão, como nós chamamos. E foi aí que me criei, porque já tinha ido, eu, quando tinha um ano, nesse lugar; e começam a nascer minhas irmãs. Nesse lugar, mudaram para outra fazenda, no ano [de] 59. Três anos, já tinha eu quando nasceu minha outra irmã e nos arranchamos em uma fazenda onde nasceu tudo, onde nos criaram, onde começamos a praticar nossa educação.

P - O que contam do seu nascimento?

 

R - Dizem que mamãe estava muito gorda, extremamente gorda. E dizem que o veículo que a gente tinha para nos levar era um “sulky” (carreta), não sei como se chama aqui, mas era um “sulky”, um carrinho muito bonito para nós, com um cavalo. E o irmão mais novo da mamãe, quando chegou a hora, dizem que corria, porque a mamãe dizia...bom, que já tinham pressentido [que iria nascer], para fazer o transporte [até o hospital]. Quando chegou nesse centro assistencial onde eu nasci – que hoje é um hospital, antes não tinha tudo isso – dizem que era ele que corria com a maca, porque a mamãe já estava pronta para ter. Depois, o papai desceu a mamãe do “sulky”, chegaram e assim eu nasci. Diz que tinha muito alvoroço, todo mundo estava ansioso para saber. Então, me deram o nome de María pela vovó, porque a vovó se chamava María Elena, mas não iam me chamar María Elena, porque meu pai era Cristino. E ele diz: “Vamos chamar de María Cristina.” Assim surgiu a ideia do meu nome. E, a mamãe, dizem que era algo que ela viveu, porque não podia me amamentar ao nascer. Então, diz que as enfermeiras ajudavam, porque a mamãe era gordinha e, assim...

P - Era uma parteira?

R - Parteira! Parteira, se chamava. Penso que lá, no hospital, como que já estavam facultados para atender, mas meus outros irmãos, os outros partos de mamãe, ela já pariu em casa.

P - Em casa...

R - Em casa. Então, aí já são as “sábias”, que nós chamamos, as que sabem, as mulheres mais velhas que fazem os partos nas casas, porque não é só a gente, mas muitas, muitas outras mulheres que fazem os partos dos seus filhos nas casas.

P - E você lembra de ter visto algum parto dos seus irmãos?

R - Você sabe...não vi, não; mas sim, via mudanças, de que faziam esquentar água para que tenham água quente. Via mamãe preparar a roupa, porque fraldas descartáveis têm hoje, mas, antes, a mamãe era que fazia. Ela dizia que fazia roupa para as bonecas, não explicava para nós que estava prenhe e que ia parir. Isso tem sido como uma coisa que mamãe... Eu vejo que ela conservou sempre como que falar de sexo, falar da gravidez...considerava que éramos muito novas, que não tínhamos idade.

P - E dessa casa, dos primeiros anos da sua infância, o que mais você lembra?

R - Me lembro que íamos visitar meus avós com o papai e a mamãe no “sulky”, todos no “sulky” que a gente tinha.

P - Como é o “sulky”?

R - É...como posso te dizer? Eu ia gostar de trazer uma foto, mas não tinha, para que você veja. Você viu um carrinho com duas rodas, assim, como esta cadeira, mas com duas rodas do lado, com boleia, que nós chamamos; onde você põe os pés, e umas varas onde vai o animal? Depois tem os arreios que vão segurando o animal, e as rédeas para você dirigir. Eu adorava andar nisso! A gente sabia dirigir tão bem!

P - Você fazia passeios?

R - A gente fazia passeios. Depois, o papai, quando éramos mais grandes, íamos visitar a irmã dele, a que criou ele. Se chamava Hermelinda e era alguém que nos tratava como rainhas. Eu era muito querida. (Seu primeiro filho, do papai?). Era muito bem querida, me criei sempre bem tratada.

O que você gostava de fazer quando menina?

R - Muitas vezes, a gente passava só brincando e eu gostava de andar de "sulky".

P - E brincando com quê?

R - Você faz tortas, coloca flores...tortas, quero dizer, as de papel.“Já vão fazer barro”, a mamãe protestava, porque... Como a gente manchava a roupa! Tudo assim desses jogos: pular amarelinha, pular corda... Mamãe pulava e nos ensinava a pular a corda, a brincar de “ta-te-ti”; isso, que é um joguinho nosso que nós chamamos “ta-te-ti”, onde nos ensinavam a caixa no meio...e fazíamos brincadeiras assim com a mamãe.

P - E a escola?

R - Ah! Tinham sete quilômetros para ir à escola. Todos os dias a gente tinha que ir.

P - E como vocês iam?

R - Caminhando, caminhando... Íamos e voltávamos caminhando. Só um dia por semana era que o papai passava para o povoado e, nos levava e nos trazia. Uma vez, minha irmã e eu não tínhamos feito bem uma prova, fazer um exame, e o papai não nos levou, nos deixou de castigo e fomos caminhando. Ou seja, que essa semana não tivemos o dia de descanso, porque precisava ser uma boa aluna. A gente já trabalhava, já íamos trabalhar, e a mamãe nos protegia e dizia que nós trabalhávamos, não é a mesma coisa que estudar, que tem seu tempo, a memória. É diferente. Nós saíamos para trabalhar duas horas pela manhã e, depois, voltar para terminar de fazer a lição, tomar banho e ir para a escola à tarde. Ou se é de manhã que a gente ia na escola, comer, voltar para trabalhar, tomar banho e fazer a lição, então...

P - Com qual idade?

R - Eu já tinha 10 anos.

P - E você ia fazer qual tipo de trabalho?

R - Nós já começamos com o trabalho nas hortinhas que se faziam. São canteiros onde se faz a horta. Era limpar, tirar a erva daninha e deixar só a planta, que a gente já tem identificada qual é e vai tirando a erva. Esse era o trabalho que a gente fazia.

P - E você começou a trabalhar com seu pai?

R - Com papai e com minha irmã mais nova. Primeiro sozinha, depois [quando] eu já tinha 12 anos, [com] minha irmã [de] 10, e fazíamos o trabalho...e, assim, já começamos a estudar e trabalhar. Terminei o primário e meus irmãos não podiam, pela distância que a gente morava. Ir estudar o estudo secundário, a gente já não pode.

P - E da escola primária, o que você lembra da escola?

R - Ah! Me lembro que eu sempre dizia poesias, desde que ia no jardim de infância. E os versos que dão para você memorizar, eu dizia.

P - Você lembra de algum?

R - Um verso à mãe, um pedacinho. Então, que dizia assim:

“No céu azul da minha existência
Há uma estrela que brilha sem parar
Ela é a essência que me deu a sua essência

Ela é a ternura do meu doce lar

É meu lar com minha mãe, doce ninho
Onde não chegam penas nem ambições
Ela conta até o último latido do meu pobre coração
Ela é o anjo que meus passos guia
Ela é minha luz, meu amor, minha glória e meu bem
E, mesmo sendo astro em seu ocaso, ela é minha vida
No prado da minha vida corre humilde, como próxima a expirar
Ai, quantas vezes te de chorei, perdida
Mas meu bom Deus ela tornou a me deixar
Não me deixes, meu Deus das estrelas, tenho medo de sem mãe viver
Longa seria minha vida sem ela
Minha existência seria um longo viver”

P - Que lindo! Desde criança?

R - Digamos que sim. De quando eu já estava terminando, já estava, como, pelo quinto, sexto ano. Já terminei de ir na escola, mas me convidavam para dizer versos na comunidade. Sempre gostei da poesia, mas nunca escrevo.

P - Você ia para...?

R - Para declamar. Me convidavam, me mandavam da escola para que eu memorize e diga a poesia. Quando a minha escola, a que eu tinha ido, fez suas bodas de diamante, 75 anos, me deram uma [poesia] para que eu falasse em nome da comunidade. Sempre me convidam para usar a palavra, para dizer poesias em nome da comunidade.

P - E como era sua escola? Uma única sala de aula para todos os alunos?

R - Não, você sabe que em 1945, na minha província, foram construídas escolas. Eu já fui a uma escola ampla, onde tem para todas as turmas – primeiro, segundo, terceiro...até sétimo, cada uma com sua sala de aula. Um pátio bem grande, uma galeria muito fresca, cozinha e copa, porque aí também te davam de comer. Muito bonita a nossa escola.

P - Era do governo?

R - Era do governo, sim; uma escola pública. E eu ia com meus irmãos. A gente sempre tinha bom comportamento. A mamãe dizia isso: bom comportamento. E tinha um espaço, na escola, onde ficavam os alunos que se destacavam. Então, eu ficava feliz. Hoje eu digo, para que fazer essas diferenças? Mas naquele momento, quando eu vivia aquilo, eu ficava contente, porque estava o nosso nome aí, diferenciado, por dedicação ao estudo, por limpeza, pelo comportamento...e eu tinha uma irmã mais nova, que ela diz: “Quem esteve nesse quadro foram vocês, porque eu era desobediente.” Essas são as coisas que me lembro da vida na escola.

P - E depois você foi crescendo, você se tornou uma moça no mesmo povoado...

R - No mesmo povoado.

P - Como era a vida da juventude?

R - Eu participava da cooperativa da escola. Se formou uma cooperativa escolar e eu participava dos preparativos das festas. A Festa da Primavera, que era a festa do estudante.

P - O que era a cooperativa escolar?

R - Era uma cooperativa de livros, onde [se] você tem algum livro, você doa. Fixa uma taxa: “Você quer ser sócia da cooperativa da escola?” “Sim.” “Está bem.” Então, você pagava uma taxa para que comprem os livros, ou se você tem um livro, pode trazer. E se você é sócia, pegava um livro, anotava seu nome, levava, lia e devolvia, com o compromisso de que não seja estragado, que seja reintegrado. Essas coisas. E, quando já terminei [a] escola, eu tinha 13 anos e logo começamos firme a trabalhar, de manhã e de tarde, já no trabalho com papai e com mamãe, que ela também nos ajudava no trabalho do tabaco. E daí começou uma etapa que você ia na festa familiar, viu, dos santos. A gente tinha no povoado uma virgem, a Virgem da “Merced”, que é a padroeira do Exército Argentino, e no nosso povoado, a gente rezava à noite...e jogávamos botão – um jogo que você tinha um botão juntava as mãos e o botão...

P - O botão da camisa...

R - O botão da camisa. A gente colocava nas mãos e brincávamos assim, passando as mãos e alguém ficava com o botão; e tinha que adivinhar: quem é que está com ele? Não! Paga uma multa! Tinha que pagar uma multa.

P - Qual era a multa?

R - Muitas vezes, ai, era muito perversa, porque tinha que dizer “eu quero casar com a...” e bem alto, para que servisse de exemplo... Isso foi nessa etapa e, depois, eu já queria ter a minha festa de 15 anos. Você sabe que eu gostava das festas, sempre gostei; mas meu pai teve um acidente, caiu de um carro onde a gente estava trabalhando e ficou doente, e não teve recursos para fazer a festa; não tive a festa. Meus irmãos, já tinham nascido seis. E, depois, eu já tinha 18 anos, passou um processo da época da ditadura, nesse tempo, no país e eu comecei a participar. Tive um convite de uma ONG que se chama Incupo.

P - Incupo?

R - Instituto de Cultura Popular, onde fui a uma reunião. Eu fui com minha madrinha, porque uma senhorita, que foi madrinha de crisma, foi pedir ao meu pai para que eu fosse nesse encontro, que era de 2 dias, na capital, a 120 quilômetros de onde eu morava; e eu nunca tinha saído sozinha, sempre com meu pai e com meus irmãos. Então, ela disse que ia com ela e o papai me acompanhou até Alberdi, o povoado mais próximo, onde a gente pega os trens; fui de trem e estive com minha madrinha no lugar do encontro. E era uma capacitação para ensinar pessoas analfabetas a ler e escrever  através do rádio, um programa. E assim eu comecei.

P - E essa vontade de participar na cooperativa escolar, de participar dessa ONG, como é que era isso? Foi tranquilo para sua família?

R - Não. Por isso eu te dizia que minha madrinha ia junto, porque nós sempre vivemos os seis irmãos, o papai e a mamãe. Então, nunca tínhamos nos separado. Eles viam como uma rebeldia, tinham medo pelo que se tinha vivido no processo militar, onde gente desaparecida, pessoas sequestradas, mortas; e eles temiam por mim.

P - Essa repressão chegava no campo?

R - No campo chegava a força da ditadura. Então, o papai tinha muito medo e a mamãe também; e como nunca tínhamos nos separado, sempre estávamos nós todos, então temiam.

P - E o que animava você?

R - Tinha essa ONG. Mas é uma coisa que eu gostava, porque quando eu termino meu estudo, minha escola primária: chorei muito, porque eu queria ser professora, ensinar as crianças, professora de escola, mas eu não pude; tinha que continuar estudando, mas o povoado era longe e o que o papai ganhava não dava para que eu vá estudar e para meus outros cinco irmãos, os mais novos, e para os que tinham que ir para a escola. Então, não pude continuar estudando.

P - E esse encontro foi uma nova oportunidade...

R - Esse encontro foi [a oportunidade de] fazer o que eu gostava: estudar. Então, eles te davam os elementos, escutar no rádio, e a gente colocava assim, como está aqui o microfone, e você já estava escutando o que dizia e explicava para a pessoa.

P - Não tinha televisão...

R - Não tinha televisão.

 

P - Era o rádio...

R - Era o rádio no meio rural, como chegava até o campo, até o interior, onde a gente morava. E era para pessoas adultas que não haviam tido a sorte que eu tive, porque, apesar de todas as minhas limitações, tive mais sorte do que outros, porque eles não tiveram o acesso à escola primária. E e fiquei com a alegria de quando por aí me encontram e dizem: me lembro que a Cristina me ensinou a ler.

P - Quando você volta desse encontro, já começa com o novo trabalho?

R - Já começo com o novo trabalho, mas era ad honorem. Nunca te pagam, viu? É porque você quer fazer. E, depois, saiu um jornal e eu distribuía pelas casas. E no jornal dizia quanto vale um salário, porque sempre te pagavam menos que o preço da diária. E havia alguns lugares onde as pessoas diziam ao patrão: “Este é o preço que eu devo ganhar.” Então já, como que começaram, não a me perseguir, mas era como se não gostassem de mim. Mas, do mesmo jeito, eu continuava levando.

P - Quem fazia esses jornais?

R - A ONG Incupo.

P - E como continuou o projeto?

R - Esse projeto se transformou em um trabalho para nós. Eu já tinha 22 anos, já iam passando os anos e começamos a trabalhar com o papai, com os meus irmãos. Vimos, então, o jeito de trabalhar para nós com outras companheiras que moravam na fazenda onde a gente trabalhava, amigas, vizinhas. Alugamos um hectare de terra e, daí, o que a gente fazia para o dono, para esse patrão, a gente fazia para nós com o apoio dessa ONG. Então, a gente teve crédito, contribuíamos com o que tínhamos...que papai tinha um cavalo, o arado. Outro companheiro tinha outra ferramenta, as ferramentas manuais, a pá, e trabalhávamos para nós.

P - Isso muda a vida de vocês?

R - Sim, porque teve uma liberdade de trabalho e de ver que era viável melhorar essa condição. Então, isso permitiu que a gente participasse em diferentes oficinas, encontros... até que começamos a formar a Cooperativa de Trabalho Agropecuário e Consumo El Sacrifício Limitada.

P - Em que ano surgiu?

R - No ano 84 a gente começou a experiência e, em 86, ela se constitui.

P - Quem participa?

R - Mulheres e homens, companheiros de trabalho, vizinhos. A gente era de Incupo, éramos nós, mas organizados. Recebíamos apoio de técnicos, de cooperativas, como, Campo Herrera, que era uma cooperativa muito importante no nosso país, de trabalhadores, e havia técnicas de outras ONGs que nos assessoravam. Nós convidávamos elas. Começamos a trabalhar para nós, mas aqui tem uma coisa muito importante para nós, porque a gente não tinha lugar de reunião. Era embaixo de uma árvore, era uma árvore grande, assim, na beira do caminho, assim, da estrada, porque não nos deixavam onde a gente morava, que esse técnico se reunisse com nós. Mas nas ruas ninguém pode nos proibir. E assim, começou: reunidas embaixo de uma árvore, mulheres de diferentes idades. Eu era um pouco mais ou menos entre a maior, tínhamos entre 18, 20, 21, 22, 24 anos.

 

P - Mulheres já participavam...

R - Mulheres já participavam: minhas irmãs, minhas vizinhas e também tinha um pouco de... como é que eu posso te dizer? O papai não estava contente, porque diz que as murmurações doíam nele, os comentários...e disso ele não gostava. E ter que participar nas reuniões, então, era uma luta. Mas nunca puderam tirar de mim esse desejo, essa vontade de participar, sempre me rebe... não é que me rebelei, é só que eu continuava com as minhas coisas.

P - E sua mãe?

R - A mamãe era uma pessoa muito submissa, mas com compromisso, com missões muito claras, que dizia ao papai: “Bom, é um jeito de aprender a...e de se formar também”. Isso ela dizia ao papai e a mamãe nos advertia; talvez, que o nosso modo de trabalho te deixa muito rude.

P - Te deixa muito...?

R - Te faz muito dura. Você fala muito forte, não senta direito... Modos, dizia mamãe, que não se podem perder. Isso é o que dizia a mamãe para o papai.

P - E havia uma relação entre a cooperativa e a igreja?

R - Eu interpreto que a igreja sou eu, então eu faço que ela seja boa ou ruim com meu jeito, com as minhas atitudes. Se eu tenho coisas ruins, se pego o que não é meu, se trato mal uma pessoa...eu posso acreditar ou não acreditar. Dentro da nossa administração, não é condição que você seja desta ou daquela religião, a gente respeita isso.

P - Mas você, particularmente, segue a igreja católica?

R - Sim. Isso tem sido um dos respeitos maiores que eu já senti decidir, porque se eu gosto de ir, ninguém me proíbe que eu faça. Por outro lado, o papai também é assim, o papai do seu jeito...cada um do seu jeito, pedindo a Deus a fé e a esperança de cada dia.

P - Você frequentava a igreja?

R - Sempre sim. Sim, sim sempre.

P - Qual igreja?

R - Era uma da Virgem da “Merced”, sempre a Virgem. E depois, quando a gente já se mudou...porque desde 1986 que a gente morava na fazenda do patrão, e quando fizemos a experiência, atingimos uma coisa muito importante para nossa família: ter um espaço próprio, ter a nossa casinha média construída. E daí, a igreja já ficava mais perto de onde eu moro hoje, uma que o padroeiro é do Sagrado Coração de Jesus, o coração mesmo de Cristo. Então, é muito mais fácil, porque podia ir todos os dias para participar.

P - Na missa?

R - Na missa, nas novenas, de nove dias, no mês do Sagrado, porque é o mês inteiro do Sagrado Coração de Jesus. Hoje, graças a Deus, já faz seis anos que eu me benzo e temos a capela do Santíssimo, em que está Cristo vivo. E tem uma leiga consagrada, [um] ministro extraordinário da eucaristia, e vamos levar a eucaristia para os doentes.

P - E naquela época da sua juventude havia um pároco?

R - Havia um pároco, sim, sim. Em um momento da minha juventude, foi muito importante o apoio recebido, assim, das confissões. Foi muito bom. Já morreu o pároco que me deu o sacramento da minha primeira comunhão.

 

P - Foi muito importante...

R - Para mim, foi muito importante. Assim como também o da crisma.

P - Como foi?

R - Você sabe que foi com o uniforme da escola? Guarda-pó e só um lenço para o cabelo, aqui, na cabeça.

P - Você foi fazer a primeira comunhão com o mesmo uniforme?

R - Com o mesmo uniforme, branco, como era o uniforme da escola. Quer dizer que isso foi muito importante.

P - A igreja é bonita? Como é?

R - Sim. É pequena, mas tem uma cúpula muito alta; é lá que está a capela do Santíssimo. Vitrais muito bonitos, onde está a vida de Jesus, quadros. Muito bela, muito bela...um piso assim como de granito, muito bonito.

P - Deixa ver se compreendi direito: começam a cooperativa e, anos depois, começam a construir a casa de vocês...

R - Exatamente, quase ao mesmo tempo, porque é de 86 que foi essa experiência, onde a gente trabalhou...

P - E o que vocês cultivam na cooperativa?

R - A gente continuava fazendo o que sabia, que era trabalhar no tabaco. Mas com muitos riscos para a saúde, porque os produtos que se aplicam na fumigação do tabaco são muito tóxicos, muito tóxicos. Então, em reiteradas oportunidades, meus companheiros, meus irmãos e eu estávamos no hospital, porque isso a gente ingere pelo poro da pele. É tão tóxico... e terminávamos mal, muito doentes, muito doentes e...

P - E se trabalha com que tipo de roupa?

R - Não tínhamos uma roupa especial. Nós só tivemos a idéia de uma camisa de manga comprida, chapéu amarrado na cabeça, por causa do sol. Faz muito calor em Tucumán, muito forte o sol e também muito intenso o frio. Nas estações de outono-inverno, muito frio e primavera-verão, a outra etapa do ano, muito calor, muito calor...e assim, a gente trabalhava desse jeito.

P - Hoje em dia acontece a mesma coisa?

R - Hoje está ficando muito mais difícil, porque hoje as terras, o solo, está contaminado. Quando andamos descalços, sem tênis, sem nada, aparecem feridas nos pés. Onde cai barro, porque isto fica molhado, então já se faz um barro que, se respinga na sua cara, faz uma ferida; respingou no braço, uma ferida. Geralmente, as partes que ficam descobertas: a cara, as mãos, os pés; então, isso faz uma ferida, isso começa a coçar.

P - Bom, e foi a primeira cooperativa do povoado?

R - Sim, foi a primeira organização no sul da província. Ou seja, é uma coisa que causava muitos comentários. Bons e ruins, mas isso também foi viável. Eu penso que, apesar do papai não querer, eu fui convencendo ele, meus irmãos e eu. Mas, ao mesmo tempo, quando eles compreenderam...é o apoio que eu tenho. É lógico que com os ciúmes próprios do papai e da mamãe, mas também, depois com o acompanhamento e, poderia se dizer, hoje já respeitando o que a gente quer fazer.

P - E foram vocês mesmos que construíram sua casa?

R - Com os meus irmãos; e se a gente tinha que pagar uma pessoa que sabia, o trabalho era a gente mesmo que fazia. Tínhamos que descer... Hoje ficamos surpresos, porque a gente levava no ombro um saco de cimento de 50 quilos e descarregávamos pedras, coisas muito rudes. Um trabalho muito forte.

P - E era uma casa bonita?

R - Para mim, sim, porque me custou muito esforço. Mamãe sempre nos dá valor pelo que possa ter, as comodidades, pelo esforço. Ela dizia que, como pais, cabia a eles nos brindar esse espaço; e foi ao contrário: nós fizemos para eles. Porque o papai ficou doente, morreu um irmão, mamãe ficou doente muito grave e, desde 1980, estão doentes os dois.

P - A doença tem relação com o trabalho no tabaco?

R - Não. Meu irmão, quando nasceu, aos poucos meses, teve uma doença que eu não sei como se chama aqui, mas lá é meningite. É uma doença que é como uma epidemia e meu irmão ficou com sequelas. Geralmente, as pessoas que padeceram essa doença é comum que se suicidam, tiram a própria vida, dizia o médico. E explicava para a mamãe que ele também perdeu um irmão assim, que havia tido essa doença. Isso marcou muito duro a nossa vida. Na nossa casa, minha família ficou quebrada, ficou uma espécie de vazio, que a gente não sabia como encher, encher... Mamãe é como que nunca conseguiu encher, sempre está no nosso coração. Então, isso doeu muito.

P - Você continua na cooperativa? Surge trabalho específico com mulheres?

R - Em 86, quando a gente construiu isto, nós continuamos trabalhando. Começa vindo da Nação um programa em que se começou a trabalhar com mulheres, particularmente, e somos convidadas: nós, mulheres da cooperativa. E nós e mais outras formamos um grupo de mulheres.

P - Quem convidou vocês?

R - Foi a Secretaria de Agricultura da Nação, é um programa da Nação que se chama a área “Mujer Campesina”, que hoje ainda continua no país, coordenado por Mira Diaz. E foi assim que começamos a trabalhar com a problemática concreta de mulheres, onde a gente falava do tema gênero, divergências que a gente já teve, dos sofrimentos, da saúde, a educação, a comercialização daquilo que a gente produz, as políticas, o meio ambiente...

P - Era um grupo grande, Cristina?

R - Podemos dizer que sim, grupos em várias províncias do país. Na nossa localidade, podemos dizer que pequeno, mas vai se ampliando no país, à frente da Rede TRAMA. Hoje, nestes dois últimos anos, estamos fazendo tudo com o desejo de criar esta organização que se chamava Mucaar – Mujeres Campesinas y Aborígenes Argentinas.

P - Quando surge, quantas mulheres havia no grupo?

R - Nós estávamos dez. Estou falando da organização local, de base.

P - E onde vocês se reuniam?

R - Nós já tínhamos a nossa casa, já nos reuníamos ali no prédio da cooperativa. Porque uma das coisas que conseguimos como primeiro desafio foi ter, comprar, uma superfície, um hectare e meio de terra. Éramos ricos: um hectare e meio de terra! Companheiras que viviam da cooperativa na beira dos canais do rio, dos canais de esgoto, já vieram morar aqui. E aí também foi outra coisa importante, porque surge um programa de melhora de moradias e construímos as nossas casas, dos sócios. Foi um trabalho de mulheres e homens onde se construiu nossas moradias. Tenho uma foto que estamos descansando em um momento de construção das nossas casas.

P - Que é essa casa que você nos contava?

R - Exato, sim.

P - Por meio de um programa?

R - Não, a nossa não. É um programa de moradia para os sócios da cooperativa. Você sabe os plásticos e as chapas de papelão, esses sacos de plástico de cor preta? Então, eram as paredes, o teto, era onde as pessoas moravam. Isso transformamos nas casas que temos hoje.

P - Moravam aí?

R - Sim, aí morava cada um na beira de um canal. Chegavam as tormentas e quanto sofrimento! A minha casa, quando eram os patrões que davam, era de refugos. E como ficam espaços vazios, mamãe enchia de papel o de trapos, para que não nos entrasse frio...e era assim que a gente vivia, de um jeito desumano. Antes de construir a nossa casa.

P - Era de madeira...

R - Sim, com aberturas muito amplas e no inverno, muito fria, que a mamãe se encarregava de encher com papéis, com trapos para que a gente não ficasse doente.

P - E o teto?

R - O nosso era de chapas, de papelão, mas muito frágil quando cai a pedra, o granizo, vem a tormenta, uuuuui...

P - Então, a casa nova é a primeira casa de cimento que vocês têm?

R - É a primeira de cimento, com chapas de zinco, que é como a gente chama, com forro de madeira. A coisa muda.

P - E com a cooperativa conseguem que outras pessoas...

R - Que outras pessoas tenham também, igual. Já construíram as casas... E a família foi mudando também: morreu um irmão, casaram dois, um irmão e uma irmã, que é a mais nova das minhas, ela tem uma filha em 92. Desde então, eu tenho uma filha, a primeira filha do coração.

 

P - Que se chama...?

R - Se chama Antonella. E, para ela, eu sou a “mamãe Cris”. Até hoje. Ela tem 14 anos, e mesmo assim me chama de “mamãe Cris”. Ela sempre diz que tem duas mães. E depois, minha outra irmã, que casou, tem dois filhos e são meus outros dois filhos do coração.

P - Como eles se chamam...?

R - Fanny de Los Angeles e Luis Ezequiel. Para eles, eu sou a Cris; eles moram longe. E Antonella, desde os 4 anos, íamos para a escola, eu acompanhava ela. Eu escapava na hora do trabalho, saía rapidinho porque tinha que ir buscar a Antonella. Quando eu volto das viagens, ela era pequena e a mãe tinha dito: “Você não fique interrompendo quando chega sua mãe”. Então, ela trepava no meu colo e tocava meu cabelo, a cara, me beijava. “O que foi que eu disse, Antonella?” “Não falo”, ela dizia. Claro que ela não falava, não me interrompia, só me beijava.

P - E como vai avançando o trabalho do grupo de mulheres?

R - Avança em diferentes instâncias, mais do que econômicas, de valores. Porque vemos como nossas companheiras, que também puderam ir melhorando sua condição de vida, na família, mas ainda nos falta conhecer parte dos nossos direitos: direito de educar, direito à saúde, a viver dignamente. Sabemos que é só o começo, que ainda nos faltam muitos direitos para conquistar, mas que estamos começando, isso é claro.

P - E quais são as atividades desse grupo de mulheres?

R - Há reuniões para tratar esses temas que eu já mencionava. Depois, a nível nacional, a gente se reúne duas vezes por ano para tratar esta problemática. Trazemos o grupo pequeno até o grupo grande, desde o nosso lugar de origem para o país.

P - Quando você conhece a Rede LAC?

R - Conheci em 94, quando uma companheira veio nestas reuniões. E daí se comenta que ia ter um encontro no Brasil para tratar destes problemas. Já não a nível nacional, mas a nível latino-americano e caribenho. E minhas companheiras deste grupo me dizem que consideravam que era eu que tinha que vir a esta reunião. E dizem que é para eu vir na reunião do país, para que a gente comece tratando os temas que iam ser tratados no encontro, o 1º Enlac. Depois, sou escolhida no grupo de base para vir na reunião nacional. Na reunião nacional, já decidem que eu ia ser a representante do país e participei da coordenação do 1º Enlac.

P - E esse encontro no país foi aonde?

R - Foi na capital do país, em Buenos Aires, em uma casa muito bonita; um paraíso muito lindo, verde, árvores, uma casa muito tranquila.

P - Como foi esse processo de preparação?

R - Voltamos cada uma para sua província. O que vocês sentem? O que estão vivendo as mulheres trabalhadoras rurais nesse lugar? Depois, voltamos ao nacional e explicamos o que a gente pensa e estes temas é o que vão tratar no 1º Enlac.

P - Por exemplo?

R - Por exemplo, a nossa identidade, o nosso corpo. Porque vamos tratar da identidade: este corpo, a quem pertence? Ao marido, ao filho, a quem? À mamãe, ao papai? Primeiramente o tema do corpo e, depois, a identidade. Quem somos? Trabalhadoras rurais, donas-de-casa, mulheres... esses trabalhos foram os que queríamos. Uma tomada de consciência para a gente ir se descobrindo, se valorizando.

P - Era uma discussão nova?

R - Não, tinha sido dado a nós o participar dessas discussões.

P - E você já tinha estado com outras organizações?

R - Claro, porque já formados como cooperativas, tínhamos começado o piso salarial de pequenos produtores. Então, eu já ia em reuniões de pequenos produtores para discutir a problemática que tínhamos como pequenos produtores, os preços baixos, a falta de mercado, a falta de política, a falta de apoio econômico, ou seja, já estava participando desses eventos.

P - Houve algum outro encontro nacional antes do 1º Enlac?

R - Sempre há encontros nacionais, mas não têm um número amplo de participantes. São 18, 22 pessoas.

P - Mas vocês se reuniram só uma vez?

R - Não, duas vezes por ano. Nos reunimos em 94, 95 e 96 duas vezes por ano para que assim possamos vir já preparadas.

P - E essas reuniões começaram a por causa do Enlac?

R - Sim, sim, por causa do Enlac. Foi a primeira vez que a gente se reuniu.

P - E qual é a importância de se reunirem com mulheres de outras regiões do país?

R - A gente conclui que como mulheres somos similares: a violência, os baixos salários... Porque estão as aborígines, estamos nós, as camponesas, e sofremos a mesma coisa. E se falamos da produção, baixos preços, falta de crédito; então, sofremos igual se é a vida pessoal ou familiar, porque, viu, que em uma casa tem que seguir o seu pai, sua mãe, seu irmão, seu marido...

P - E como foi vir ao Brasil?

R - Este processo demorou lá no nosso país, dois, quase três anos, quando se decidiu quem ia participar. Surge daí a representação minha para vir para cá. Nunca tinha andado em um avião. Superar esse medo, vir me encontrar com outras línguas, superar isso ou viver nisto. Daí, me permitiu ver como é importante viver entre diferenças, diferentes formas.

P - No Brasil, as mulheres já levam reivindicações aos políticos, aos deputados. E na Argentina, como estava isso?

R - Há uma diferença. Estou falando como camponesa, trabalhadora rural. Se existe isso, nunca fomos convidadas a participar. Foi a partir disto que nós começamos a ter esta possibilidade de participação. Porque os movimentos agrários eram mistos e desde aí começavam, surgindo esse transitar só com mulheres. No nosso país, movimentos de mulheres foram muito destruídos com o golpe de estado. Então, teve gente que teve muito medo...organizações que desapareceram, dirigentes que morreram.

P - Voltando ao Brasil, o que você lembra da chegada no Enlac?

R - Eu, o que mais me lembro é que a gente trazia uma fita, nós, do nosso país, de cor verde, na mala, aqui na mão; e já estavam as brasileiras nos esperando no aeroporto com a logomarca do encontro e o mapa. E vi que já não tinha medo, porque vi que, apesar de não ter esta facilidade de nos entendermos, tinha um calor humano que nos ficou gravado na mente e no coração. O bom tratamento com que nos receberam neste alojamento, desta forma. E começar a conhecer a Vanete, que é muito linda.

P - Por quê?

R - Pelo respeito que ela tem por nós, por esta grande capacidade que ela tem. Eu me identifico com ela, porque tem coisas que eu não posso dizer de um jeito, ou que não sei dizer, e que quando ela diz, diz as minhas também. Então, isto foi o que de mais belo me aconteceu, conhecer a Vanete, conhecer a Nazaré, que é uma mulher com tanta força, e tantas outras que estavam no encontro. Foi a primeira vez que eu estava em um encontro com tantas mulheres, participando da coordenação, onde tinha que discutir temas, onde havia a preocupação pelos horários, o tema da administração...

P - E as ideias, as discussões, o que você acha que foi importante neste primeiro encontro?

R - Este fato de ter esta articulação da América Latina, conhecer outros países, ver que sua problemática no Brasil ou a minha na Argentina ou no Peru, na Bolívia, é parecida. Cada um é um, mas se tornam comuns pela violência, o desrespeito ao trabalho, os baixos salários... Muitas vezes temos pouca participação de nós mulheres.

P - Isso te deu coragem?

R - Então, a mim fortaleceu, me beneficiou, me deu mais vontade para seguir. Me impulsiona. É um trampolim que te ajuda. Mas você assume mais compromissos. E o que me magoou um pouco, também, foi saber que pela primeira vez estava muitos dias fora de casa. Deixei a minha menina, minha filha do coração, que nunca nos tínhamos separado, que só quando tinha ela seis meses eu tinha me separado dois dias, porque acompanhava meu irmão, que estava no hospital pelo tema do veneno. E ela teve febre. Trazem ela e dizem: “Esta menina sente falta da sua mãe”. Então, dizem que como, que quem trazia ela era a mãe [adotiva]. Estava justamente a enfermeira que é minha prima e diz: “Doutora, acontece isto e isto. Ela vive com a mãe do coração e é essa pessoa que ela está sentindo falta”, porque ela tinha só seis meses e já faz uma febre. Quando teve o 1º Enlac, ela tinha 4 anos. Então, eu fiz o seguinte. Eu preparei na minha cama, no encosto, várias balinhas, uma para cada dia: “Oi, minha rainha”, para mim é minha rainha, eu chamo ela assim, “hoje é 15 de setembro, um beijo, Cris”. E assim cada dia até que voltei. A minha irmã disse que ela ia comer todas as balinhas de uma vez só, mas não foi assim que aconteceu. Quando já restavam só duas ela diz: “Se pegamos hoje as duas, a minha mãe vem hoje?” Então minha irmã diz: “Não, amanhã cedinho vamos pegar a última balinha, que ela já vai chegar”, porque ela sentia minha falta quando era pequena e eu pensava... Então, era uma coisa que eu não esperava, mas graças a Deus, que foi bom, ela não ficou doente.

P - Quando você volta para o seu país? De que forma serviu essa experiência do 1º Enlac?

R - A gente tinha a organização e aí foi o primeiro espaço, a família, a cooperativa e o grupo de mulheres. É a primeira possibilidade de contar tudo o que tinha vivido, tudo o que isto significava para nós como mulheres. E depois, o 1º Enlac foi em setembro, em novembro. Já temos nossa reunião nacional e aí podemos contar para as mulheres que não vieram e as que vieram para avaliar o que nos tinha “parecido”, como vivemos e como tínhamos que melhorar para o próximo.

P - Além de compartilhar o que você tinha vivido, de alguma forma, surgem coisas novas depois do 1º Enlac?

R - Claro que sim. Era como que começava florescer a ideia de ter a nossa própria organização, porque víamos como no Brasil tinha tantas organizações de mulheres, onde eram livres. A gente diz: “algum dia vamos ter na Argentina a nossa organização para que possamos falar nós mesmas disto”. Então, aí começou a ideia de como podíamos fazer.

P - De qual organização?

R - Ter uma organização nacional de mulheres camponesas, feita pelas camponesas e para as camponesas. Já começou a surgir em nós como era a ideia, que se consolidou com o 2º Enlac. Contávamos com assessoramento de técnicas que trabalham com mulheres camponesas.

P - Entre o 1º e o 2º Enlac, Cristina, o que acontece?

R - Ter aqui, na Argentina, uma organização que nos identifique e que seja 100% de promoção rural. Elas continuam em contato e esta comunicação passa para nós. Depois, a gente participa em Olinda, para elaborar já o estatuto da Rede. Fomos convidadas e participamos. Então, esses são os contatos que nunca deixamos de ter. E já iam os temas, também, para o 2º Enlac. Já voltava a se repetir, com maior experiência, porque nós já tínhamos feito uma base dentro do nosso país e já, em vez de serem reuniões somente na nossa província, eram encontros regionais. Tivemos quatro no nosso país, onde María Elena, eu e, dependendo da região, iam as companheiras, porque era uma visão de país. Socializando, avaliando, tendo o temário que a gente iria tratar no 2º Enlac.

P - Então tinha encontros regionais para preparar o 2º Enlac?

R - Exatamente. E para escolher a representante dessa região para o novo encontro.

P - Antes não faziam esses encontros regionais?

R - Antes da Rede LAC, para fazer este trabalho, não tinha. Desde 89, que se começa a trabalhar com as mulheres, houve um encontro nacional de mulheres, de 400 mulheres argentinas, que era um passo, assim, muito importante para a problemática da mulher e tentar ver como ficava.

P - O Enlac de alguma maneira estimula esses novos encontros, não é?

R - Correto.

P - Mas esses encontros servem somente para discutir o Enlac?

R - Não. Para tratar da problemática que há na região do nosso país, digamos que se aproveitam ao máximo. Mulheres novas que se integram, experiências que se vão contando, vivências, então, que se vão vendo, como vão aprendendo, transmitindo, articulando com a região. Tudo é um complemento.

P - Você falou sobre a comunicação. Eu gostaria que você contasse um pouco mais de como funciona essa comunicação entre o 1º e o 2º Enlac. Por telefone, por carta?

R - Essa é uma história que ainda não conseguimos superar, porque eu te mandei uma carta, não recebi, eu te telefonei e o número não era esse... Então, nossa comunicação não é direta com o Brasil, é com Buenos Aires. Ela manda para mim. Agora já aproveitei, já tenho um correio eletrônico. Então, este ano já me comuniquei com a Vanete, no Brasil.

P - E a discussão do 2º Enlac é diferente do primeiro?

R - Nós consideramos que sim, porque já havia outro conhecimento, outra preparação de base, sabíamos o que temos vivido, que experiência tivemos no Enlac.

P - Novos temas?

R - Novos temas, e fortaleceu os existentes. Mantivemos os temas, porque como tinha gente nova que estava se somando, sempre temos presente o tema de identidade e o tema da violência também. O tema dos tratados internacionais no nosso país, é menos conhecido, mas é importante conhecer nossos direitos. Neste evento, se tinha dito que em cada país estão os tratados internacionais e nós não sabíamos que tínhamos a possibilidade de conhecer isso.

P - De que você gostou no 2º Enlac?

R - Uma emoção sempre boa. Dizem: “Como vai ser?” “Vou para o México” [E aí] Dizem que tem muita contaminação, que tenha cuidado com isso. [Dão] As recomendações. Já sabendo que...já conhecia a Vanete e que vou me encontrar com a Vanete.

P - Muitos anos depois, não é?

R - Sim, “há nove anos que eu te vi”.

P - Tem algum momento do 2º Enlac que ficou forte em você?

R - Sim, como, coordenação internacional. Vi que quando acontecem estas coisas, que são acordos, você tem que equilibrar e fica marcada. Muito sofrimento, porque alguns estão relacionados com o problema econômico e já desponta isto. E digo: “Para onde eu vou, me perseguem os problemas econômicos”.

P - Não compreendi...

R - Eu vou te explicar. Nós, como trabalhadoras rurais, temos uma forte limitação econômica, muitas dificuldades econômicas. Então, quando vou para o México para organizar este evento, também tinha dificuldade econômica. Por exemplo, estava previsto um dia de passeio, no momento livre. Foi preciso tirar, porque não havia dinheiro para contratar os ônibus que levam as mulheres. E bom, isto gerou uma coisa...como, expectativa frustrada, porque a gente ia ver a Virgem de Guadalupe, que a gente queria chegar. E dizem: “Não vamos poder fazer, porque não tem dinheiro”. Então, eu me perguntei: “Sempre tem a mesma limitação econômica?” Então, isto é como que vai perseguindo você e que me acompanha aonde eu vá, esta limitação econômica. Por sorte, foi superado, mas não aconteceu como a gente queria então, o fato de não ter (limita?) você. É como se agora queremos ir a São Paulo e não temos, por exemplo. Isso me marcou muito. E, depois, a Vanete me ensinou a me desprender de algumas coisas humanamente vãs, porque sua mãe estava muito doente, muito grave, e ela sofria muito e teve que vir; então, essa dor da Vanete me doeu, porque eu não podia ajudar ela. Não conseguiu ficar até o final, mas tinha que ver, pois que era sua (Vanete) mãe. Mas também me ensinou que tenho que aprender a priorizar, que as organizações são importantes, sim, mas que há outros seres que estão próximos a partirem e que devo priorizar por eles. E me serviu para ver, também, que meu pai e minha mãe estão velhos também, estão doentes. Muito doente, mamãe. Então isso me marcou, me ensinou.

P - Você volta do 2º Enlac com qual proposta?

R - Há muito o que fazer na Argentina e aí já consolidamos a organização de Mucaar, já consolidamos nossa organização de Mucaar – Mulheres Camponesas e Aborígines da Argentina.

P - Surge no ano passado, em 2005?

R - Aí nós confirmamos. Já passamos a consolidar, porque eram ideias. Decidimos ficar com esse nome e já começamos.

P - E qual é a proposta de Mucaar?

R - Mucaar é para conhecer e defender nossos direitos, por exemplo, nossos direitos, nossa participação, nossa cidadania.

P - E depois, já chegando no presente, aconteceu alguma coisa que você considera importante nesta trajetória?

R - Com mais calor de vida, como que você está reafirmando isso na Rede LAC. A gente está assim, mais serena, não diria comedida, porque sempre fui comedida, mas sim fortalecida. E chegar agora à construção de uma história foi muito importante. Que eu teria gostado de ter uma foto da minha filha de coração comigo, com os filhos das minhas irmãs, com os filhos das minhas companheiras, isso é meu. Conto isto para que vejam como são importantes os filhos dos meus irmãos e dos meus companheiros para mim. Como vivemos no campo, não temos meio de transporte para vir até a capital. Então, no domingo, quando vinha para a capital para viajar para este encontro, os amigos dos meus companheiros dizem: “Não se preocupe, eu venho buscar você. Eu tenho uma moto, que é assim como uma bicicleta”. E foi me buscar.

P - Com a mala?

R - Com a mala. E como eu tinha demorado me deixou no coletivo; então, isto é uma emoção muito grande.

P - Qual é o trajeto que você tem que fazer para vir até o Brasil?

R - Da minha casa até o povoado mais próximo, pela estrada. São caminhos de terra, muito feio, muita terra, muito calor, pó. Daí, fui até o povoado mais próximo Alverde; de Alverde, até a capital, a Estação Central; da Estação Central até o aeroporto de Tucumán; depois, no avião, de Tucumán até Buenos Aires. E aí já fomos de carro, com María Elena, até a casa de uma companheira muito importante para nós, que é a Beatriz. E ela nos deu hospedagem essa noite, com um marido maravilhoso que ela tem. E no dia seguinte, de novo em carro até Ezeiza, o aeroporto internacional da Argentina. E de Buenos Aires até aqui. Esse foi o trajeto.

P - E o futuro? O que sonha para você? Para a organização?

R - Vamos começar pela organização. Eu gostaria, assim como todas as mulheres que temos a sorte de participar da construção, de continuar construindo a nossa organização como país. Na Rede, sinto que estamos avançando, que resta muito por fazer, mas, pessoalmente, sinto tranquilidade e muita confiança de que um dia isto vai servir para outras mulheres.

P - E o que você sonha para a Rede?

R - Que sejam muitas as que tenham a possibilidade de vir. Que nos próximos encontros tenha maior quantidade de mulheres, porque há experiências que eu não posso transmitir, é preciso viver. No plano pessoal, gostaria de chegar a ser como a Vanete, assim, com esse controle, com essa fortaleza, com essa segurança. Com certeza que um dia vou conseguir. E no plano pessoal, agradecer à vida por tudo que tem, pela minha família, pelos meus filhos de coração, pela organização, por tudo que tenho e pelo que não tenho. Particularmente, gostaria que meus filhos tenham o que eu tenho, muito respeito, muito apoio, mas que tenham a sorte de poder ter um título e que tenham um trabalho que seja menos duro que este que eu vivi, com menos limitações econômicas. E eu poder alcançar um dia uma pequena independência econômica, que quando eu quiser tomar uma água, ou um suco, tenha para fazer isso. Então, que seja independente, que tenha...que se eu quero vir a São Paulo para conhecer a cidade, não seja uma limitação, não tenho. Então, que possa fazer. Então, isso no plano pessoal, que eu possa ser, como é que eu posso dizer....não um exemplo, mas que sempre seja útil para alguma coisa, que o que eu digo sirva para algo. Que eu saiba transmitir para que o outro possa praticar o que está certo, que eu seja útil, que seja alguém a serviço do outro. No pessoal, é isso que eu gostaria. Com certeza eu vou ter, não é? Quando alguém precisar uma ajuda, que eu esteja pronta, disposta, que possa ajudar. No momento, como não tenho esses elementos, uso os que eu tenho.

P - E você continua trabalhando na terra?

R - Continuo trabalhando, assalariada.

P - Na cooperativa?

R - Na cooperativa, vendendo produtos e que só se pagarem você pode recuperar seu trabalho, se você não trabalhou, não ganhou. E trabalho assim, por dia, onde me dão trabalho. E gostaria que meus filhos, os filhos dos sócios, os sobrinhos, tenham um trabalho que permita que vivam com dignidade, que tenham uma moradia digna, que tenham a possibilidade de que seus filhos possam ir à escola, que se ficam doentes possam se curar. Porque minha irmã está doente e com essas limitações... minha mãe está doente e muitas vezes não tem [dinheiro] para o remédio ou para a alimentação que ela precisa. Porque, às vezes, você come o que tem, não o que quer; e as pessoas mais velhas, assim como as crianças, precisam de uma determinada alimentação. Então, isso, espero um dia poder alcançar.

P - Muitíssimo obrigada pela entrevista e gostaria de saber o que que você achou de contar um pouco da sua história.

R - Muito emocionante. E espero ter trazido uma mãe mais jovem, um pai. O saber que eram seis e hoje estamos cinco. E que uma irmã tem dois, um irmão tem cinco, uma irmã tem dez filhos...já temos 16; quer dizer que a família cresceu. Em uma parte diminui, mas em outra aumenta. Me permitiu trazer a esta entrevista os tempos, as personagens da organização. Saber tudo o que fui aprendendo e tudo o que me falta por aprender. E também ver que ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar, porque sempre tem alguma coisa para dar. Que ninguém é tão rico a ponto de não precisar de outro. Ver a atenção de vocês, de ver que não se cansaram, que estão atentos, me dá uma enorme felicidade.  Uma coisa que eu gostaria que ficasse registrada é o apoio tanto pessoal como na organização de base de ONGs como Teerro Alta, Incupo, Cadif, Cepru, Trama e nomes de pessoas: Mira Diaz, Tudy Noceti, Lily Santochi, María Elisa Rueda. São meu apoio. E lembro o caso de Lily, já falecida.

 

[Fim do depoimento.]

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