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História

Convivendo com Walter Belian

História de: José de Maio Pereira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2006

Sinopse

José de Maio entrou para a Companhia Antarctica Paulista em 1938, como picão - o termo de então para designar os office boys. Dentre outras funções, também foi provedor da Fundação Antônio e Helena Zerrenner. Em seu depoimento encontra-se, além de sua trajetória profissional, um pouco da história da própria Companhia.

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História completa

A Antárctica empresa sofreu muito com a briga de inventário sobre o casal Zerrenner. Primeiro morreu o marido, depois morreu a mulher, e os inventários então depois foram processados em conjunto. Então uma briga tremenda porque tinha interesses alemães no meio. 

Foi o seguinte. O Comendador Zerrener faleceu e deixou no testamento dele uma fundação na Alemanha, mas no fim ele pôs uma virgula: “respeitados quaisquer direitos e última vontade da minha então viúva”, que é a Dona Helena. Quando a Dona Helena faleceu e deixou o testamento dela, ela disse uma fundação na Alemanha e uma em São Paulo. Porque o testamenteiro dela, com quem eu vim a trabalhar, que era o Dr. Walter Belian, que fui apresentado eu como o menino que fez o trabalho, eu fiquei trabalhando depois com ele, ele era o testamenteiro. Então ele me contou. Disse que: “Eu falei pra Dona Helena que não era justo o dinheiro ter sido ganho no Brasil e ser criada uma instituição beneficente na Alemanha. O certo seria, se a fortuna foi ganha aqui, então fazer o benefício aqui no Brasil.” E assim foi feito. Então ficou uma fundação aqui e uma lá. A de lá teria que viver com a metade das rendas líquidas da daqui. Só que o inventário não terminava. Tinha muita briga, o inventário não terminava, muitos interesses etc. Então foi feita, em 1939 se eu não me engano, uma composição geral entre todos os interessados no inventário, pra acabar, senão não acabava. Então foi feito um acordo e a fundação lá da Alemanha também entrou neste acordo, os responsáveis, que ela teria que começar as atividades dela dentro de um ano. Era uma obrigação por contrato, era por escritura pública. Mas aconteceu, nesse meio tempo arrebentou a guerra, em 39 exatamente, logo depois. E os alemães que tinham interesse na parte da fortuna, queriam, como se diz, logo receber o que lhes cabia. Ele disse: “Não, vocês têm um compromisso. Enquanto não começar a funcionar não recebe nada.” O Governo Alemão encampou a fundação de lá, passou pro Governo e começou a mover processos contra a fundação brasileira pelo consulado alemão aqui em São Paulo. Isso foi, foi, foi. Depois acabou muitos anos depois. A fundação de lá perdeu por inadimplência. Ela não cumpriu a condição a que se obrigara. Não começou a funcionar, não tinha direito a nada. E depois ainda houve mais processos dessa tal fundação alemã que no fim o nosso Supremo Tribunal Federal liquidou. O direito é da fundação brasileira e acabou. Nada mais. 

A fundação era a única e universal herdeira do casal. E havia muitas ambições no meio. Então ela sempre tinha brigas até com denúncias, dessas denúncias, vamos dizer assim, não esse denuncismo de hoje. Era denúncia, na época foi do Governo Getúlio quando foi... Um fato que eu me lembro bem foi logo quando eu entrei na Antarctica. Eu entrei em julho de 38, quando chegou em setembro, 16 de setembro de 1938 eu cheguei pra entrar na companhia e tinha polícia de todo lado, polícia especial do Governador. Na época era governador nomeado, não era eleito, era interventor. E o quê que houve? Ninguém sabia me explicar nada também. Fui na contabilidade onde eu trabalhava, tinha mesas, tudo desarrumado, mesas juntas que serviam de cama. “O que é que houve?” “Sei lá, deve ser uma denúncia aí que a Antarctica tinha bombas.” Só se era bomba de chopp, né? E não deu em nada, é lógico. Era tudo, foram golpes, vamos dizer assim. E isso se repetiu em 64, certo? Em 1964 eu estava na sala do Dr. Belian aqui, eu trabalhava aqui. A irmã dele trabalhava aqui ao lado também, um secretário dele. De repente abre a porta, é um pessoal da aeronáutica com metralhadora. “O quê que é isso?” Puxa, não sei o que. “O senhor da licença de eu telefonar?” Ele falou: “Não, você telefona.” “Dr. Belian, está acontecendo isso assim, assim aqui.” “Não se preocupe que eu já estou à caminho.” Aí ficamos lá esperando, o pessoal todo ali. Ele chegou dando bom dia, sorrindo: “Pois não, pois não.” Um coronel se apresentou: “Eu sou fulano de tal.” “Pois não, o que o senhor quer? O senhor quer ver? O senhor da licença.” Abriu a mesa, pegou uns papéis, pos na pasta dele, chamou um advogado mais um chefe de uma outra sessão, falou: “Tudo que o coronel quiser, pode entregar pra ele, o que ele quiser. Façam um termo, vocês assinam e ele assina e ele leva o que ele quiser. José, vamos embora. Todo mundo, vamos embora."

Saímos. Aí, no dia seguinte nos reunimos numa sala com os advogados e foi feita uma representação ao governo que começava assim: “A história se repete. Setembro de 38 houve isso, isso e isso. Agora setembro, 16 de 1964 tatata.” E pronto, deu em nada, acabou em nada. Sempre, como ele dizia, o fio vermelho é a maioria das ações da fundação, que ninguém se conforma que a fundação seja dona de uma empresa. 



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