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História de: Valéria D'Onófrio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2019

Sinopse

Valéria nasceu em uma família pobre, que passou por muitas dificuldades financeiras. Quando começou a fazer o curso de Psicologia fez estágio em vários lugares diferentes, como um hospital psiquiátrico, um fórum de justiça e um programa social em uma área afastada dos grandes centros, o que a fez perceber que queria trabalhar com a população carente. Nesta entrevista, ela nos conta sobre sua atuação na Gol de Letra, que vai da formação de cursos até terapia comunitária. 

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História completa

 

P/1 – Vamos lá, Valéria. Primeiro, obrigada por você ter vindo. Para começar, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Valéria D’Onófrio. Nasci em São Paulo, em primeiro de julho de 1981.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – O meu pai chama Adilson Jorge D’Onófrio e minha mãe, Helenice Aparecida D´Onófrio.

 

P/1 – Você conheceu os seus avós?

 

R – Sim.

 

P/1 – O nome deles?

 

R – O meu avô paterno se chama Jesuíno, a minha avó Benedita; a minha avó materna se chama Alcídia, e o meu avô materno se chama Artur.

 

P/1 – Qual a atividade profissional dos seus pais?

 

R – O meu pai é professor e minha mãe se formou, trabalhou um tempo, mas hoje ela está em casa. Ela é do lar.

 

P/1 – Qual a formação deles?

 

R – O meu pai se formou em Direito, a minha mãe em Geografia.

 

P/1 – E a origem da sua família? É de São Paulo mesmo?

 

R – Minha família é de São Paulo. Os meus bisavós são filhos de italianos, que vieram no início do século. E eles, quando vieram para cá, vieram para o interior de São Paulo. Então os meus avós vieram para São Paulo, aí a família começou a crescer por aqui. A minha mãe nasceu aqui, depois a minha família, mesmo.

 

P/1 – Que lugar do interior de São Paulo?

 

R – Em Xavantes, perto da divisa com o Paraná, perto de Ourinhos. Acabei de ter uma notícia, que a casa que a minha avó nasceu, que é um sítio, ela nunca foi reformada, nunca foi mudada. E nesse sítio ainda vive um irmão da minha avó, solteiro, de 87 anos. Amanhã vai ter uma festa lá para tombar essa casa, vai ser tombada como patrimônio histórico porque é a casa mais velha daquela região. Ela tem cem anos ou um pouco mais de cem anos.

 

P/1 – Você conheceu essa casa?

 

R – Conheci, esse sítio...

 

P/1 – Descreva como é.

 

R – É um sítio em que eles plantavam café, milho. Há muito tempo eu fui lá, quando eu era criança, quando eu era bebê. A minha mãe, a última vez que foi lá, eu tinha seis meses. Depois fui com a minha avó, algumas vezes.

É uma casa de madeira, tem uma árvore muito grande na frente, tem uma varanda bem grande. É uma casa que tem dez cômodos, tem vários quartos. Tem fogão a lenha. Esse tio-avô, ele cozinha no fogão a lenha ainda. A rotina da casa é completamente como era há muitos anos atrás, ela não foi mudada. E a casa continua lá. Então tem uma cristaleira, com as xícaras da minha bisavó ainda. Tudo muito conservadinho lá, do mesmo jeitinho.

 

P/1 – E você tinha quantos anos quando frequentava?

 

R – Ah, eu tinha doze, treze anos quando eu frequentava lá. Acho que até menos.

 

P/1 – Você já morava em São Paulo e vocês iam visitar.

 

R – Já morava. A minha avó, ela ia. Porque ela tem... Os irmãos dela estão lá, e como ela já era mais velhinha, eu ia junto, com onze, doze anos, para acompanhá-la no ônibus, para que ela não fosse sozinha, para ajudar. Às vezes ia meu tio solteiro também para ajudar, porque era alguém... Mulher também, perto, do lado. Então eu ia junto para ajudá-la. E para passear também. Tenho primos lá, na idade parecida, então também era gostoso porque eu mantinha contato com essas pessoas de lá.

 

P/1 – Deixa eu só voltar uma coisa. Você tem irmãos?

 

R – Tenho irmãos. Tenho uma irmã mais velha, é Vanessa o nome dela, depois veio eu, a segunda filha, Valéria. Aí vem o Sérgio, que é um ano mais novo que eu, e o Fábio, que é quatro anos mais novo que eu.

 

P/1 – E o que eles fazem?

 

R – A Vanessa é advogada, tem um escritório, exerce. O Sérgio é segurança. E o Fábio é comerciário, ele tem um comércio.

 

P/1 – Agora eu vou voltar um pouco. A gente vai falar um pouco da sua infância, que você já estava até falando um pouquinho. A casa que você cresceu, como era?

 

R – Na primeira infância eu cresci numa casa pequena, que foi construída pelos meus pais, nos fundos da casa dos meus avós maternos. Essa casa existe até hoje.

Você quer saber como a casa era mesmo? A casa tinha dois quartos, um banheiro, uma cozinha e uma sala. A sala e a cozinha eram um pouco juntas, tinha só um murinho que separava. Num quarto eram os quatro filhos dormindo juntos, a gente dormia em beliche. Aí tinha o quarto dos meus pais.

Foi uma infância muito legal, porque tinha muita brincadeira. Só que a gente morava nos fundos da casa da minha avó... E a minha mãe, ela tem uma família de origem muito grande, eles são em seis. Eu tinha muitos tios, muitas tias. E tinha sempre muita gente. As casas meio que se misturavam, as pessoas se misturavam. Só que os meus pais não tinham muitas condições. Eles [se] casaram muito jovens.

A minha mãe engravidou depois de um ano da minha irmã. Primeira filha, primeira neta, foi tudo muito legal, muito bom. E aí ela deu um tempo. Então, três anos depois, ela começou a tentar engravidar, fez tratamento, estava com dificuldade. E aí ela acabou engravidando de mim. Só que ela já tinha uma menina. E família de italiano, eles queriam muito um menino.  Eu nasci e aí... Foi bom, criança sempre é bom, mas não foi um menino. Naquela época não tinha ultrassom ainda. Então ela não conseguia saber o sexo. Mas aí tudo bem, eu nasci.

Minha avó ajudou bastante a me criar, porque estava na casa que era da frente. E eu tenho uma ligação muito forte com a minha avó. Logo em seguida, a minha mãe engravidou, então eu sou de julho, e o meu irmão é de agosto do outro ano! Aí nasceu um menino!

Então já eram três filhos, aí a minha avó começou a ajudar mais, eu ficava mais com a minha avó. Mas era tudo meio ali misturado, tudo junto e misturado. E a gente brincava muito na rua.

Eu lembro que o meu pai era um grande articulador na rua. Naquela época, a gente fazia muita festa na rua, então era festa junina, era gincana, era festa de Natal. Meu pai se vestia de Papai Noel e saía entregando os presentes, ou então meu tio. Eu trouxe umas fotos que mostram um pouco isso. Então era sempre... Eu lembro muito que a minha família sempre foi uma família que mobilizava as pessoas e fazia muitas festas na rua. Isso é bem legal, acho que é uma marca bem interessante e importante da minha infância.

Outra coisa da infância que eu lembrei, até comentei com vocês, foi a história daquela casa, da rua. A minha tia se casou com o vizinho e a mãe desse vizinho era uma senhora mineira. Ela sentava numa cadeira que ela colocava na calçada, as crianças sentavam em volta e ela contava várias histórias. Ela contava histórias de terror... Até hoje eu me lembro das histórias de terror que ela contava.

Ela contava várias histórias e promovia grandes festas. Eu lembro, por exemplo, quando tinha festa de fim de ano, ela sempre fazia. Tinha sempre uma pizzinha que ela fazia e ela montava um presépio que não era um presépio tradicional. E todo mundo passava na rua e pedia para olhar. Ela colocava o presépio no quintal e deixava que as pessoas entrassem para olhar esse presépio. Tinha de tudo nesse presépio. Todo mundo chegava, trazia alguma coisa, ela já colocava no presépio, então era um presépio que era uma mesa muito grande, era uma cidade inteira de presépio. É uma lembrança bem legal, que marca bastante.  

A gente se juntava para cantar. Tinha muito samba, os meus tios tocavam. Então, nessa casa acontecia bastante coisa legal. Sempre tinha música e tinha jogos, pingue-pongue, a gente se reunia para jogar. Era com os mais velhos, mas as crianças estavam sempre ali. E aí ela ensaiava a gente, fazia jogral, música, teatro. As crianças participavam e depois apresentavam para a rua inteira, que ficava lá sentada para ver a apresentação. Era bem bacana.

 

P/1 – E tem alguma pecinha em particular que você lembra?

 

R – Eu lembro de uma que eu fiz chamada “A florista”. Eu era a florista, então eu lembro da roupa. Não lembro muito das falas, mas lembro com quem eu fiz a peça.

 

P/1 – Você tinha textinho?

 

R – Tinha. Tinha texto, tinha música, tinha ensaio, tinha tudo. Eu até falei para vocês... Eu brinquei que, olhando essas fotos, eu me dei conta que acho que foi o primeiro centro cultural que eu participei. (risos) Que foi a primeira coisa: “Puxa! Produção, né?” (risos)

Na verdade, a gente tinha na escola, mas não era nada assim. Meus pais tinham uma condição muito precária, então eu sempre estudei em escola pública. Já um pouco mais velha fui estudar em escola particular, quando a situação melhorou um pouco.

Foi muito legal, foi muito bacana toda essa vivência, mas teve partes mais complicadas também. Eu me lembro que os meus avós ajudavam bastante os meus pais com a questão financeira. Meu pai tinha que trabalhar muito, então era muito ausente, porque tinha um trabalho, aí... Tinha dois, três trabalhos para conseguir manter, porque já eram quatro filhos - depois que o meu irmão nasceu, minha mãe engravidou três anos depois, novamente, de mais um menino, que foi meio que um temporão. Eles não estavam esperando, mas ela engravidou. Aí meu pai acabou operando, porque já estavam em quatro, e mal dava para um comer.

A gente sempre ganhava coisas dos vizinhos. Os vizinhos davam comida, roupa. As minhas roupas novas eram as roupas que não serviam mais para a minha vizinha, então foi bem complicado. Meus pais contam mais: eu não tenho tantas lembranças assim, mas meus pais contam que às vezes tinha que dividir um ovo para quatro. Eles ficavam sem comer, porque tinha que deixar para as crianças. E no frio não tinha cobertor, colocava os quatro filhos na cama de casal, com o cobertor para a gente se aquecer.

A minha família sempre foi muito unida, ainda é muito unida. É interessante, eu estava outro dia comentando com a minha mãe que as festas da família… Família, hoje, o núcleo: eu, minha mãe, meus pais, meus irmãos, as minhas sobrinhas, minha filha, meus cunhados. Mas ainda tem uma parte muito grande da família da minha mãe: os irmãos dela, com as famílias deles. Quando tem festa, geralmente quem promove festa é a minha família, é o meu pai e a minha mãe. A gente não promove mais na rua, agora a gente promove festa para essa grande família. Porque, eu penso, sempre que tem festa é lá em casa. Dificilmente eu vou na casa de algum tio, isso nunca acontece. Eu falei: “Ué, esse ano, se eu for contar as festas que eu fui, a maioria foi aqui. Acho que uma ou duas não foram.”

 

P/1 – Mas moram todos próximos?

R – Moram próximos, mas não no mesmo bairro, não na mesma rua. Na mesma região. E me chamou a atenção isso outro dia, como eles mantêm isso.

Foi um percalço. Até o meu pai passar em concurso público, ele estudava muito, passava dias e dias rachando de estudar, se trancava no quarto. Minha mãe teve um papel muito importante, porque ela aguentou muita barra da família inteira, ela tinha que cuidar das crianças sozinha. E a gente não era muito tranquilo, a gente fazia muita bagunça, nossa!

 

P/1 – Quatro juntos!

 

R – Quatro juntos! Hoje eu vejo a minha filha, a bagunça que ela faz, eu penso: “Quatro!” Eu pergunto para ela: “Como você aguentou? Como você conseguiu?” Porque tem a bagunça dos quatro, tem roupa dos quatro, tem que comprar comida para quatro, quando sai, tem que sair com os quatro. (risos) Fica doente, um fica, os quatro ficam. E aí...

 

P/2 – Mas como era essa dinâmica da casa, com esses quatro filhos? Vocês acordavam a que horas? Vocês iam para a escola, como vocês se organizavam nessa “bagunça”, entre aspas?

 

R – Nós íamos para a escola... A gente acordava... Os quatro estudavam. Só que a gente acabava assim: um ia para uma escola, outro ia para outra, porque era onde tinha vaga. Então, desde cedo, a gente já começou a se virar um pouco mais sozinho, já tinha uma certa independência. porque não dá para ficar dependendo. Ainda mais porque eu era a segunda, eu tinha que cuidar dos mais novos. E a minha irmã, com sete anos, ela teve a primeira crise dela de diabetes, então ela começou a tomar insulina, ficava sempre muito doente. Tinha os mais novinhos, eu acabava ajudando mais a minha mãe nessa dinâmica. Até hoje as pessoas falam, quando eu falo a minha idade: eu sou muito jovem, eu tenho 28 anos, mas as pessoas falam que não parece. Também acho que é por conta de toda essa dinâmica.

A gente acordava. O que acontecia muito também é que a gente acabava usando muito o espaço da minha avó. Era uma casa maior, que estava sempre cheia de gente. O que acontecia também era que a minha avó, ela tem até hoje uma filha que tem deficiência séria, então ela é muito dependente para comer, para tomar banho, para se trocar, para tudo. E a gente ajudava... Eu lembro que ficava muito nessa casa, também ajudando a minha avó. Até para cuidar da casa, porque tinha hora que todo mundo saía, minha avó ia para a igreja, e eu tinha que ficar... Eu tinha que lavar a louça, cuidar da casa e dessa minha tia também, então eu acabava ficando bastante nessa casa.

Era muita brincadeira, muita bagunça, eu com os meus irmãos. A gente brigava muito também. Os meus irmãos era mais briga de lutinha, eu e minha irmã, a gente já era mais de se estranhar mesmo, porque ela era mais velha, queria que eu limpasse a casa sozinha, e eu não, achava que não era justo. Eu sempre tive um senso de justiça. (risos) Achava que não era justo, brigava com ela.

Era uma dinâmica bem assim... A minha mãe não trabalhava no início, ela voltou a trabalhar depois. Quando ela engravidou da minha irmã, ela deixou o emprego. Aí ela voltou a trabalhar, trabalhou mais um tempo. Quando eu nasci, ela deixou o emprego de novo, para cuidar de mim também. Ela voltou, contratou uma babá - até hoje eu tenho contato com essa babá -, e aí ela voltou para o trabalho depois. Conseguiu um trabalho num posto de saúde, que era um trabalho concursado.

Meus irmãos também eram muito agitados. Eu lembro de um episódio: eu estava na escola, minha mãe estava no trabalho, acho que a minha irmã também estava na escola. Eu estava na parte da tarde na escola, e os meus irmãos, acho que eles tinham ido de manhã. E aí eles brincando, correndo.

Na cozinha tinha uma porta de vidro, e o meu irmão que nasceu depois de mim saiu correndo, fechou a porta; o caçulinha veio correndo e não conseguiu parar. Enfiou o braço, estourou o vidro. Estourou e puxou. Quando ele puxou, rasgou daqui a aqui. [indica o local] E aí foi aquele rebuliço, levaram para o hospital. Tiveram que fazer um enxerto, tirar da perna, colocar no braço, porque a carne não deu para aproveitar. E aí a minha mãe largou o emprego de vez, falou: “Não, agora eu vou ficar em casa porque eu tenho que cuidar deles, não dá mais.” E aí ela acabou ficando de vez em casa. Não foi mais trabalhar para cuidar da gente, porque a gente dava muito trabalho. Então, eu lembro bem desse dia... Eu lembro bem desses dois dias, o dia que a minha irmã teve a primeira crise, e o dia que o Fabinho se machucou, sério.

 

P/1 – São duas lembranças que doem, né? Literalmente.

 

R – É, são duas lembranças muito fortes. Então eu lembro que... A minha irmã, quando ela teve a crise - ela tinha muitas crises - eu lembro que comecei a chorar, porque eu achava que ela ia para o hospital e não ia mais voltar. Ela ficava paralisada, enrijecida, a hipo deixa enrijecido. E ela toda dura, enrijecida, meu pai tentando colocá-la dentro do carro, aí eu comecei a chorar. Novinha, não entendia o que estava acontecendo. Para mim ela ia e não ia mais voltar, ia morrer.

O meu avô, italianão, filho de italiano, bem ‘grossão’, bem... Eu lembro que ele virou para mim e falou assim, para mim e para a minha avó: “Nossa, ela está muito mal. Eu acho que ela não vai conseguir, não vai sobreviver.” A minha avó: “Para de falar isso! Olha a menina chorando!” Ele era terrível. Ele morreu não tem muito tempo. Quando ele morreu, a minha filha já tinha nascido. Deve ter o que? Dois anos e meio que ele morreu. Não tem muito tempo, não. É isso.

 

P/1 – E da sua escola, que você até estava falando um pouquinho? Você se lembra da sua primeira escola? Como era?

 

R – Eu estudei em várias escolas, porque o meu pai foi transferido várias vezes. Eu lembro que saía de uma escola, ia para outra; eles já tinham passado aquela matéria que eu estava vendo ainda, então eu tinha que ficar correndo atrás da matéria. A primeira escola que eu estudei, o primeiro núcleo que eu estudei, no prezinho, jardim, foi o Golfinho Azul. Depois eu mudei para uma escola pública, que foi…

Nesse do Golfinho Azul, eu lembro... Tenho uma lembrança forte, tenho duas lembranças interessantes. A primeira, que eu estava com rubéola e a minha mãe não sabia, aí ela me mandou para a escola. Tinha uma professora grávida. “Olha, professora, a minha mãe falou para vocês olharem aqui para ver o que vocês acham.” Me tiraram de lá rapidinho, me mandaram de volta para casa.

Teve um outro dia que a minha mãe mandou a minha irmã me levar. Eu já tinha cinco, seis anos... Jardim, pré, cinco, seis anos. Se eu tinha cinco, seis, a minha irmã tinha... Ela devia estar na segunda, terceira série. E a escola dela era perto da minha. Uma escola pública, perto da minha escola, que era na rua de trás da escola dela. Tinha que atravessar uma avenida; era a uns cinco, seis quarteirões da nossa casa. Aí a minha mãe falou: “Você leva ela, que eu tenho que fazer...” Não sei o que, “Olhar o teu irmão... Você leva ela para a escola”. Acho que ela estava fazendo uma tentativa para ver se a minha irmã conseguia assumir um pouquinho, para ajudá-la. Chegou na esquina da rua da escola, falou: “Agora você vai, porque eu vou para a minha escola. Não vou mais te levar lá, não.” Aí eu fui.

A porta da escola estava trancada. Eu tinha cinco, seis anos, e só lembro que tinha um papel no portão da escola. A porta de aço, e tinha um papel no portão da escola. Eu não sabia ler, porque eu não tinha sido alfabetizada ainda. Eu fui ser na primeira série. Tinha uma mulher lá com uma criança no colo, lendo o papel. Eu falei: “O que está escrito, moça?” Ela: “Está escrito que não vai ter aula, que a escola está fechada”.

Eu falei assim: “Meu Deus, o que eu faço agora?” A minha irmã já tinha saído da esquina, ela me largou lá na esquina. Falei assim: “Eu vou voltar para casa.” Voltei para casa, tive que voltar. Aí fui tentando lembrar o caminho, voltando. Só que chegou na avenida. Quando chegou na avenida eu comecei a chorar, porque eu não conseguia atravessar. Não tinha faixa de pedestre, não tinha sinal e eu tinha cinco anos! Aí eu comecei a chorar, chorar. Uma vizinha lá da rua, uma conhecida, viu que eu estava chorando. Ela falou: “O que foi?” “Eu não consigo atravessar.” Aí ela me atravessou e eu consegui chegar em casa, porque ela foi para outro lugar também. Ela me atravessou e eu consegui chegar em casa.

Não lembro como foi quando eu cheguei em casa. Acho que a minha mãe deve ter ficado muito brava com a minha irmã, porque, eu penso... Hoje em dia, isso é um baita de um risco! Já pensou? Uma criança de cinco, seis anos atravessando uma avenida. E a minha irmã sempre foi meio porra louca, meio pirada das ideias. São lembranças fortes.

Mas aí, voltando para a escola, eu saí do Golfinho Azul, fiz o prézinho, entrei numa escola pública, mas não essa em que a minha irmã estudava. Entrei com seis anos na escola e era a única escola que tinha vaga. Hoje eu voto nessa escola. Eu fiz o primeiro ano nessa escola...

 

P/1 – Como é o nome dessa escola?

 

R – Não lembro. Eu passei por tantas, que eu não vou lembrar. Aí eu saí dessa escola, fiquei só um ano, mudei para a escola que tem o nome de Tereza, que era onde minha irmã estudava, onde todos os meus tios estudavam. Fiquei lá um pedacinho do primeiro ano, a segunda série e a terceira série.

Aí eu mudei para Poá. Fui estudar numa escola chamada Coteba [Colégio Técnico Batuíra]. Fiquei a quarta série lá no Coteba, aí voltei, porque... O que aconteceu lá em Poá? A gente morava lá... Lá é a cidade das águas, mas faltava água todo dia, então todo dia a minha mãe pegava os quatro filhos, colocava debaixo do braço, pegava uma trouxa de roupa, amarrava a trouxa de roupa, punha nas costas e pegava o trenzão até São Paulo, para lavar roupa na casa da minha avó.

 

P/2 – Nossa!

 

R – E aí o meu pai, depois que saía do trabalho, pegava a Caravan amarelo gema, e atravessava então. Saía lá de Poá, ia para São Paulo, para a casa da minha avó, para pegar nós quatro, colocar no carro, pegar minha mãe e voltar.

 

P/2 – A Caravan era o único carro que cabia os quatro?

 

R – É, era o único carro que cabia os quatro.

Fiquei um tempo lá no Coteba, em Poá, que sempre faltava água. Acabamos saindo de lá, por conta também do trabalho do meu pai. Mudei, fui estudar no Sesi, aqui em São Paulo. No Sesi estava eu, o Sérgio e a Vanessa.

No Sesi eu fiz a quinta série. Não tinha vaga no Sesi para o meu irmão caçula e o meu pai teve que colocar o meu irmão caçula numa escola particular. Eles acharam que era injusto deixar um na escola particular e os outros na escola que não era particular. Aí eles fizeram um acordo, conseguiram bolsa nessa escola particular, pegaram os três e colocaram na escola particular.

Mudei de escola mais uma vez, [para] o Colégio Futuro. Fiz até a oitava série nesse colégio. Na oitava série eu queria fazer... Eu já pensava em trabalhar, então eu queria fazer colégio técnico. Aí eu saí de novo...

Acho que eu já contei o que? Uma, duas, três, quatro, cinco escolas acho que eu já contei aí. Saí desse colégio; ele tinha ensino médio, mas eu queria fazer colégio técnico. E eu queria um colégio técnico que tivesse a disciplina de Psicologia, porque eu já sabia que eu queria fazer Psicologia na faculdade. Falei: “Bom, já que eu vou estudar Psicologia, eu já vou começar a estudar agora, que aí eu já me preparo um pouco.” Fui fazer técnico em Publicidade, no Liceu Camilo Castelo Branco, que é em Itaquera. E estudar à noite. Então também já foi um pulo, porque... Se bem que na época que eu estava nesse colégio Futuro, eu estava de manhã, que eu fiz sexta, sétima e oitava série, e os meus irmãos também estavam de manhã junto comigo.

Nessa época minha mãe voltou para terminar a faculdade. Ela parou com o curso de História, no início, depois ela mudou para Geografia, mas ela fazia História. Quando a minha irmã nasceu, ela parou a faculdade. E ela voltou muitos anos depois, quando eu já estava na oitava série. O problema era que ela estudava à noite, o meu pai dava aula à noite, e a minha irmã também estudava à noite. E eu e os meus irmãos de manhã, então era muito cedo. Aí eu levantava... Primeiro que à noite eu tinha que arrumar a casa inteira, lavar a louça, colocá-los para dormir. E eu ficava um pouco revoltada com isso, porque o Sérgio, ele é um ano mais novo que eu. Aí eu dizia: “Não, mãe, eles também têm que ajudar.” Ela dizia: “Não, mas você é mulher. Você tem que cuidar da casa.” Aí eu ficava muito louca da vida.

Minha mãe até hoje fala que nunca achou que eu fosse me casar, porque eu era muito feminista, de bandeira. Eu tinha que arrumar a casa inteira, colocá-los para dormir e no outro dia acordar, fazer o café para eles, colocar o uniforme neles, me arrumar, para depois ir com eles para a escola. Eu também ia estudar junto com eles. Teve uma vez que eu estava tão dormindo acordada, que ao invés de colocar açúcar no café, eu coloquei sal. Não sei também se foi alguma vingança que eu fiz. (risos) Mas aí eu coloquei sal no café. Percebi, não dei café para eles tomarem.

Acabei mudando, me formei, fui para essa escola para estudar à noite. E comecei a estudar um pouquinho da Psicologia, por isso que eu fui. Foi quando eu arrumei o meu primeiro emprego.

 

P/1 – Espera um pouquinho, só um paralelo. Você falou que já sabia que ia fazer Psicologia. Mas de onde você tirou essa ideia?

 

R – Eu não sei se foi... Eu lembro muito de uma atividade em sala de aula, na sétima, oitava série, que eu tinha uma professora de Português... Eu não lembro o nome, tive muitas professoras porque eu mudei de escola muitas vezes. Eu lembro que a gente estava meio que numa discussão lá na sala, essa professora comentou e foi falando de cada um, o que cada um era ali naquela sala. Quando chegou em mim, ela falou: “A Valéria. A Valéria é a psicóloga da sala.” Eu não tinha ainda... Sétima, oitava série, não tinha ainda compreensão. Aí eu comecei a me interessar mais; decidi que eu ia fazer Psicologia, porque eu gostava era de ouvir as pessoas, de ajudar as pessoas. Eu sempre fui uma boa ouvinte, então eu queria ajudar, queria escutar. Queria fazer o bem para o próximo.

Eu sempre tinha muito forte em mim que eu queria trabalhar, mas eu queria trabalhar para ajudar as pessoas, não para enriquecer algumas poucas pessoas e deixar outras tantas, que não tinham condição, sem auxílio. Acho que também porque eu vim de uma condição que não era muito... A vida da minha família começou a melhorar quando meu pai conseguiu comprar uma casa, eu já tinha quinze anos.

Foi mais ou menos nessa época do ensino médio, da oitava série, que eu comecei a estudar. Comecei já a trabalhar no primeiro ano do ensino médio. Eu já sabia que queria Psicologia e já estava confortável de dar o primeiro passo, porque eu tinha Psicologia na grade. Eu não gostava muito da professora, mas eu gostava da matéria. E eu sempre fui meio que uma locutora da turma, então, se tinha que eleger um representante de sala, eu participava da eleição. Se tinha que conversar com a direção eu estava lá. Então é uma coisa... Acho que também tem a ver um pouquinho com o jeito como eu sou hoje.

 

P/1 – E esse primeiro trabalho, o que era?

 

R – O primeiro trabalho não foi um trabalho registrado, nem nada. Tinha um comércio perto lá da região, e eles queriam fazer uma pesquisa com a população. Eles mesmos criaram o questionário. O meu pai conhecia a pessoa, aí eu fui lá, conversei com ele, ele ia pagar uns trocados. Mas era uma região grande, porque eu tinha que pegar ônibus para ir. Então eu ia com a pesquisa debaixo do braço, batia de porta em porta. Peguei uma amiguinha, falei: “Você quer ficar comigo, trabalhar também? Você faz sua pesquisa...” Aí eu e ela fomos.

Foi quando eu comecei a andar de ônibus mais por aquela região, para conhecer, bater de porta em porta. Era uma pesquisa de um shopping que eles queriam montar, uma pesquisa de opinião sobre aquele comércio. Enfim, fiz, foi a primeira experiência de emprego.

Depois continuei, fui contratada por uma consultoria de mercado para fazer demonstração de aparelho de som no mercado Carrefour. Mas era um mercado meio contramão, era um mercado novo. Perto de Itaquera, mas era contramão, tinha que tomar dois ônibus para chegar lá, e era à noite. E aí eu fui indo.

Foram essas as primeiras experiências de trabalho. Me formei, foi quando eu comecei a trabalhar como estagiária, já de Psicologia, no início da faculdade...

 

P/1 – Então você foi fazendo colégio e trabalhando?

 

R – Fui, sempre. E às vezes eu ficava irritada, porque era muito cansativo. Tinha que estudar, tinha que trabalhar. Quando eu começava a reclamar, o meu pai já virava e falava assim: “Mas você está fazendo isso porque você quer. Eu não te obrigo. Você não precisa trabalhar. Já passou, essa época já foi. Agora você pode muito bem estudar.” Aí eu dizia assim: “Não, eu quero, realmente.” Foi quando eu comecei a perceber que eu não podia reclamar tanto das coisas, porque se as escolhas eram minhas, eu não tinha porque reclamar. Eu tinha que mudar as minhas escolhas. E aí, foi indo. (risos)

 

P/1 – E você conseguiu terminar o colégio?

 

R – Terminei. Terminei o colégio, entrei direto na universidade, e continuei.

 

P/1 – Psicologia?

 

R – Psicologia. Eu entrei querendo, com vontade de permanecer na Psicologia, na área de Psicologia Jurídica, quando eu entrei. Era uma área nova, que tinha um pouco a ver com as áreas da minha família.

 

P/2 – Caracteriza: o que é Psicologia Jurídica?

 

R – Psicologia Jurídica é uma área que começou a surgir tem uns dez, quinze anos no Brasil, e é a atuação do psicólogo dentro de fóruns, para trabalhar com sistemas... Com varas da família, pessoas que querem... Vão em abrigos para conhecer crianças para fazer um trabalho de receber essas crianças e registrar essas crianças. Fazer estudos, por exemplo, com criminosos, estudar a mecânica da violência, tudo isso.

Na verdade, o que aconteceu foi... Eu continuei tendo muito interesse por essa área; me diferenciei dos meus irmãos, porque todos fizeram Direito. Quando eu fiz o vestibular, eu prestei para Psicologia, Direito e Fisioterapia, porque tinha que escolher outras opções. E aí eu passei nas três, mas eu ia ficar com Psicologia. Eu brinquei com o meu pai, falei: “Olha, passei em Direito. Eu quero fazer Direito.” Ele falou assim: “Não! Não faça Direito! Faz outra coisa, não faça Direito, porque tem muito advogado aqui já!” (risos) Falei assim: “Bom, na verdade eu vou fazer mesmo é Psicologia.” Depois os outros vieram e acabaram fazendo Direito, então é uma diferença.

De uma certa forma, eu sempre me diferenciei um pouco da minha família. Minha irmã, eu acho que até por conta dessa questão de saúde dela, ela sempre viveu como se amanhã fosse o último dia, então era porralouquice total. Os meus irmãos, já mais conservadores, mas seguindo muito a linha do meu pai, os dois. E aí eu saí um pouco dessa linha, fui fazer um curso que não tinha muito a ver com a linha deles.

Para mim era difícil, porque livro eu não tinha, eles já tinham todos. Contatos mesmo, profissional, também não tinha. Se você tem, claro, alguém na família que tem aquela profissão, é meio caminho andado para você. Eu não, eu tive que construir. Hoje a minha irmã tem um consultório que foi o meu pai que deu e que montou. Eu já tive que ir para um outro caminho, tive que dar uma sambadinha para conseguir chegar em algum lugar.

No tempo de graduação, fui fazer estágio na área de Psicologia. Estágio remunerado é em RH, é muito difícil encontrar estágio remunerado em outro lugar. Comecei com RH. Fui trabalhar com Consultoria, para contratar executivo top. Já era um ambiente que eu falava: “Eu não combino com isso. Isso aqui não tem a ver comigo.” Porque era todo o pessoal que morava numa região  muito rica de São Paulo. Então quando eu falava Penha, ninguém sabia onde era. [Zona] leste é uma região... Não é uma região que você fala... Hoje nós temos Tatuapé, Anália Franco, mas alguns anos atrás não tinha, não era assim. E as pessoas se relacionavam de uma forma muito fria.

 

P/1 – Você lembra de alguma situação?

 

R – Ah, eu tinha um chefe que era judeu. Ele era sócio da consultoria; ela era grande, uma das Big Five. E aí eu lembro que as pessoas se relacionavam... Não cumprimentava, a gente não podia cumprimentá-lo.

Eu já tinha percebido ali que não era aquele ambiente que eu queria. Que a gente tinha _____, tinha toda uma postura, uma coisa bem fria mesmo, bem distante. Então eu saí de lá, me formei...

 

P/1 – Deixa eu só voltar. Eu queria que você falasse da sua época de faculdade, se você tinha amigos. O que você fazia de lazer? Se você se recorda...

 

R – Na época de faculdade, eu não tinha muito tempo para o lazer. Eu sempre, na juventude, assim, mais nova - ainda sou jovem hoje, ainda não cheguei aos 29, então para a Unesco eu ainda estou na juventude - sempre trabalhei e estudei. Então ou estava estagiando... E eu estudava à noite na faculdade, porque o meu curso só tinha à noite.

Eu tinha uma coisa de me cobrar para trabalhar também, porque nunca gostei de depender muito do meu pai. E aí não tinha muito lazer, não. Eu tinha amigos, mas o meu grupo de faculdade era um grupo muito dividido, eram vários grupos. Não era uma coisa de uma sala, um grupão. Entrei muito nova na faculdade, entrei com dezessete anos na faculdade. Me formei com 22 para 23 anos.

Foi um período, foram cinco anos de grande aprendizado para mim, até a me relacionar com as pessoas. Tenho amigos com quem eu convivo até hoje. Tenho uma grande amiga. A faculdade ficava em Itaquera, então o que acontecia? Geralmente as pessoas que estudavam ali eram pessoas daquela região. Não eram pessoas da minha região, estou um pouco mais para a frente, eu estou na Penha, umas quatro, cinco estações de metrô para frente. E como é um grupo ali que está, geralmente… A maioria ia à noite para o curso, o meu curso só tinha à noite, eram as pessoas que saíam já do centro, tinham trabalhado o dia inteiro, iam para a faculdade - acho que isso ainda acontece, não tem tanto tempo assim - iam para a faculdade e depois iam para casa.

A maioria dos meus amigos eram pessoas que moravam em Itaquera, Guaianazes, moravam mais para lá, então já não tinha tanto... Só encontrava na faculdade mesmo. Faculdade à noite, Psicologia, a gente não podia nem ficar no barzinho. Se você perdesse uma aula, você já estava perdendo muita coisa. E ali não tinha muito barzinho também. Não tinha lanchonete, não tinha... Que nem esses barzinhos que a gente vê em faculdade de primeira linha, que tem muito barzinho bacana ali em volta, e horários mais tranquilos. Tinha que ralar muito.

O que eu guardei… Você perguntou de amigos. Eu tenho uma grande amiga da época do ensino fundamental, que eu tenho contato até hoje...

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Ela [se] chama Ana Paula. Eu tenho uma grande amiga que é da época do ensino médio, com quem eu mantenho contato até hoje. Com ela eu cheguei até a montar um pet shop, antes, na época da faculdade. E eu tenho uma grande amiga, que é a Fernanda, que se formou comigo em Psicologia. Então, das épocas, eu sempre guardei... Tenho, claro, conhecidos, amigos, colegas, mas de dizer: “Olha, ele vai no seu casamento, ele vai no seu velório”, são essas três que vão, que eu sei que vão. Que eu sei que se eu ligar e falar: “Eu preciso de um ombro”, pode estar onde for, vamos se encontrar, vamos tomar uma cerveja e vamos conversar.

A época da faculdade foi bem legal. Conheci muita gente, tinha muito contato com professores, fiz estágios interessantes. Eles até brincam comigo, porque...

 

P/1 – Que estágios que você fez que são marcantes?

 

R – Fora os que eu fiz por conta, em RH, para ter dinheiro... Eu tinha bolsa na faculdade, eu não pagava faculdade porque meu pai dava aula no curso de Direito da faculdade. Então, como filha, dependente, eu tinha bolsa. E aí...

O que você perguntou, Nádia? Não lembro.

 

P/1 – Os estágios que foram marcantes.

 

R – Os estágios que foram interessantes... Fiz um estágio, por exemplo, no Hospital Psiquiátrico Central de Guaianazes, que foi muito marcante. Eu fiz um estágio...

 

P/1 – O que você fazia nesse estágio?

 

R – São situações... Era um estágio na ala psiquiátrica. E a ala psiquiátrica do Hospital não tinha divisão. Então, ali tinha criança, tinha mulher, tinha homem, jovem, velho! Eu pegava os prontuários, fazia leitura, discutia os casos com os médicos, com o educador. Propunha oficinas para os internados. Mas o cara ali está internado, ele está numa condição... Ele está dopado ou está em surto. Para conseguir fazer uma oficina, era uma coisa que demandava muito jogo de cintura. Mas foi muito interessante esse estágio.

A gente não podia dar as costas para nenhum doente, porque o risco era iminente. Então, a gente saía... Enquanto eu estava entrando, tinha alguém tentando sair correndo, aí tinha que sair atrás. E ali tinha de tudo. Tinha uma jovem muito bonita, e ela estava com depressão pós-parto, ela tinha psicotizado. Era tudo muito misturado: tinha uma criança com depressão; tinha um jovem, acho que ele devia ter uns dezoito anos, e eu lembro muito, porque ele fazia desenhos para mim, e ele psicotizou por conta de uso de drogas. Ele fazia os desenhos para mim porque ele dizia que eu era noiva dele, e que ele ia matar o meu namorado. Então eu não podia ir de aliança, porque ele chegou a ameaçar, falou que ia matar. Era delírio dele; na verdade, ele que gostava de mim. Ele chegava a fazer alguns desenhos obscenos, desenhava e contava as histórias, que nós dois estávamos lá dentro da casinha, fazendo isso e aquilo. Então você tinha que ter... Ia indo. Foi um estágio interessante, mas deu para perceber a precariedade da saúde mental pública no Brasil.

 

P/2 – Para quem é leigo, o que é psicotizar?

 

R – Psicotizar é entrar em surto. Quando a pessoa fala assim: “Ele está louco.” Ele entrou em surto, ele surtou, ele está tendo delírio, está vendo coisas, está fora da realidade. Ele está numa realidade que é interna, não está conseguindo se relacionar com o mundo exterior.

 

P/2 – Conversa com seres...

 

R – Conversa com seres, vê coisas na parede, “tem umas aranhas subindo aqui”, “estão querendo me pegar”, “estão atrás de mim”, “eu preciso sair correndo”... Tinha de tudo. E aí tinha os delírios. Eu lembro que eu falava com muitas famílias, porque as famílias iam para visitar os internados. E os médicos não tinham muito tempo para atender, as conversas eram mais rápidas, as psicólogas também tinham muito trabalho.

Eu lembro que conversei com uma família; eles estavam muito aflitos, porque não entendiam o que era aquilo. E era um pai de família, que também tinha psicotizado. Ele falava coisas, achava que as pessoas estavam querendo fazer mal para ele. Ele chegou a pegar umas pedras, atacar as casas dos vizinhos, porque achou que os vizinhos queriam fazer mal para ele, prejudicá-lo. Eu lembro que eu atendi essa família, e a mulher e o filho estavam muito preocupados, porque eles não estavam entendendo o que estava acontecendo com o familiar deles. Aí eu perguntei: “Mas como foi que aconteceu? Como começou?” Ele dizia: “Olha, começou porque... Ele reclamou de dor de cabeça. Falou que estava com muita dor de cabeça, de repente ele começou a falar umas coisas que não tinham nada com nada.” E a gente lembrou que ele tinha batido a cabeça.  

Isso ficou muito gravado para mim, porque na verdade a ciência ainda não descobriu porque isso acontece. Não sabe se é um gene, o que é que faz com que as pessoas acabem tendo esse tipo de doença mental. E eu sempre fui muito interessada, aí eu fui estudar mais, então os estágios foram marcantes.

Eu fiz um outro estágio que também foi muito marcante; era um estágio novo, não era obrigatório. Mas lá em Itaquera tem um Fórum que é perto da universidade. Eles estavam com muito trabalho, procuraram a faculdade de Psicologia para pedir que alguns alunos fossem fazer estágio e eles tinham que escolher um aluno para mandar. A faculdade me escolheu. Fui fazer o estágio, depois de mim outras pessoas foram, mas eu fui a primeira.

Eu fiz estágio numa vara de família. E eram umas coisas doidas, uns processos enormes, o juiz [se] chamava Doutor Germano. Era um ambiente estranho, porque ambiente de Fórum é um ambiente estranho. Eu lia os processos e entrevistava as pessoas dos processos na clínica da faculdade, para fazer um parecer - um parecer que eu tinha um professor que supervisionava. Isso juntava no processo, então isso também foi muito interessante.

E eu lembro de situações assim: o juiz me chamava na mesa de audiência... Se fosse hoje, já profissional, eu faria diferente, porque foi uma primeira experiência... O juiz me chamava na mesa e já conversava comigo como se eu já fosse uma profissional, na frente das pessoas, pedia para eu ir fazer mediação. Eu fazia mediação entre as pessoas, para ver se dava para resolver o problema antes de chegar numa situação mais oficial, do juiz. E o juiz era muito... A função de juiz, né? Eu lembro de audiências que ele mandava o cara: “Tira a carteira agora do bolso, põe aqui em cima, eu quero ver tudo que você tem na carteira.” Porque o cara dizia que não tinha dinheiro para pagar pensão. Geralmente as disputas eram de pensão, disputa de guarda, revisão de pensão. Então tinha muita... Era muita carga emocional envolvida. Aí eu lembro que ele falou: “Tira a carteira, eu quero ver tudo que você tem aí.” O cara dizia que era autônomo, que não tinha dinheiro; a mulher dizia que na verdade ele tinha sim, que ele estava mentindo. Aí eu lembro que o juiz pegou, o cara tinha uns cheques de clientes. Ele pegou todos os cheques, falou assim: “Dá aqui esses cheques.” Deu para a mulher, falou assim: “Vai ficar com ela e ela vai descontar, esse dinheiro é para ela.” Eram umas coisas assim, eram fortes.

Lembro de uma mulher. [A audiência] já tinha encerrado, ela continuou lá e ficou chorando, pedindo para eu conversar com ela. Ela chorava, eu a levei para uma outra sala. Ela chorava e dizia: “Eu não posso voltar para minha casa, porque se eu voltar para a minha casa eu vou apanhar de novo.” Aí eu dizia: “Então a gente vai na polícia e dá uma queixa.” Ela falou assim: “Não vai adiantar porque eu já fiz isso, a polícia não vai me proteger. Ele vai me matar, ele vai me matar.” Ela já tinha o rosto todo quebrado, usava placa, porque o marido já tinha espancado, então ela já tinha feito cirurgia.

Eram casos muito pesados, eu saía cansada. Eu também me sentia muito amarrada. Porque se fosse a minha vontade pessoal eu tinha pegado aquela mulher e tinha levado para a minha casa! Mas eu não podia fazer aquilo.

Eu sempre lidei com situações muito difíceis. Até na minha carreira... Na minha vida de estudante, os estágios foram marcantes. Na clínica, tudo... Era uma clínica que atendia pessoas que não tinham condições de pagar... Mas todos os casos eram casos realmente relacionados à situação de pobreza extrema. Porque na clínica tem pessoas que têm alguma condição, contribuem. Eu só pegava casos que eu dizia: “Eu não vou pedir contribuição nenhuma.”

Eu atendi um ano e meio, quase dois anos, o caso de um menino num abrigo. Ele foi para o abrigo [quando] ele tinha um ano. Ele estava com sete anos, fez sete, fez oito anos comigo. Fiquei em trabalho terapêutico com ele quase dois anos. E a gente sabia que ele não tinha praticamente chance nenhuma de adoção porque ele estava muito velho. Então isso era difícil, isso era complicado. Então quando foi... Eu me formei, eu tinha que largar o paciente; o paciente vai para uma outra pessoa, um outro estudante. E aí eu conversava com ele. Ele ficava assim, abaixado, não olhava para mim, porque eu estava mais uma vez fazendo o que todo mundo fazia com ele, eu o estava deixando, estava indo embora.

Foi uma época muito gostosa, mas, a partir dessas pessoas que eu atendi, dessas pessoas que eu falei, eu atendi muita gente com depressão, muita dona de casa com depressão, situação de pobreza extrema. Foi a partir daí que eu comecei a falar: “Não vou trabalhar lá na Faria Lima para atender o executivo top, porque o cara não precisa de mim. Quem precisa de mim é aquela pessoa que está lá sem condição nenhuma.” Mas eu tinha que trabalhar também. Eu me formei, comecei a trabalhar numa rede de lojas, numa consultoria que fazia todo o RH da Tok&Stok; trabalhei dentro da Tok&Stok, eu era consultora trainee júnior. Tinha um salário muito bom, era bom para a época, para sete, seis anos atrás. E eu ainda com aquele incômodo muito grande, porque também era um ambiente... Era um ambiente assim, trabalhava direto com diretoria, presidência. E era uma empresa grande, na época tinha acho que umas dezessete lojas em todo o Brasil. O meu trabalho era mais relacionado a programa de trainee, programa de incentivo, programa motivacional, qualidade de vida. Também fazia seleção, fazia treinamento, integração, mas tinha ainda aquele incômodo muito grande dentro de mim.

Queria sair, também porque eu morava na Penha, trabalhava em Alphaville. Eram três horas na Marginal Tietê numa sexta-feira para voltar para casa, estava enlouquecendo. Aí falei assim: “Não, eu quero ter eu mais qualidade de vida e trabalhar com um outro público. Quero fazer um outro tipo de trabalho.” Foi quando surgiu a possibilidade de ir para a Fundação...

 

P/1 – Espera só um minuto, a gente vai para a Fundação. O projeto Rondon que você participou...

 

R – Foi na época da faculdade. Tinha o projeto que é do Governo Federal, a faculdade ia participar. Era o segundo ano que a faculdade ia participar. Fui participar de uma seleção para esse projeto; divulgaram o projeto, eu fui para a seleção.

O professor disse: “Olha, lá eles têm esses problemas. Eu quero um projeto para trabalhar com estas questões.” E uma das questões eram problemas dentro das escolas com as equipes de professores. Na época tinha uma matéria chamada Dinâmica de Grupo, então montei um projeto para trabalhar esse relacionamento entre os professores. E acabei estendendo isso lá, quando eu cheguei, para esses seguranças, vigias das escolas. Eu tive que adaptar muito, porque o professor tinha uma condição de entendimento, os vigias não eram alfabetizados, então o que eu tinha programado para fazer escrito, não conseguia. Tinha que adaptar.

Fui selecionada, fiz dois, três encontros com a turma que ia. Foram eu e mais nove, do curso de Odonto, de Veterinária, de Pedagogia, Direito, Educação Física e aí para diante. Fomos, ficamos um tempo lá, em São Feliz do Xingu.

Foi uma vivência também muito forte, porque... Primeiro que para chegar lá foi difícil; é bem ‘cantão’ do mapa. E a gente não tinha noção de como seria. Aí pega avião, desce em Marabá, de Marabá acho que são mais umas vinte horas de carro. Mas era uma van, uma estrada de terra, e nós tínhamos que descer… Quando tinha alguma ponte, nós tínhamos que montar as madeiras para conseguir passar pela ponte. A gente não conseguia passar. Então foi uma viagem cheia de aventuras.

Chegando lá… Era na época que estava Fernandinho Beira-Mar na mídia do Brasil. Eu tinha a proposta com educadores do trabalho com todos, que era um trabalho coletivo sobre prevenção de uso de drogas, lícitas e ilícitas. E o cara que era o braço direito do Fernandinho Beira-Mar era daquela região. Começamos o trabalho. Logo veio um aviso: “Olha, vocês parem todos de trabalhar, porque senão vocês vão voltar todos num caixão.” Pô, legal, porque estamos aqui, dez estudantes, todos aí com seus vinte aninhos de idade, o educador, o professor. E eu: “Bacana… Vamos fazer o seguinte: vamos fazer então essa abordagem de casa em casa.”

Foi bem interessante, porque lá era tudo andando a pé, pegando carona em charrete, cavalo. Lá, a gente ia bater na casa para entrar, a casa estava aberta, “entra aí!” Você atravessava a casa inteira para chegar na dona da casa. Era uma realidade muito diferente. No final, a gente acabava orientando a pessoa da casa não só sobre a questão da droga, mas da higiene, da saúde, de tudo. Virava uma orientação geral sobre direitos, então foi um trabalho que acabou tendo uma abrangência até maior do que a gente esperava que tivesse.

Vivemos muitas aventuras, como eu falei. Teve uma pessoa... Porque lá não tinha chuveiro, ou era rio ou era cano. E aí teve uma pessoa que ficou com pneumonia, de Pedagogia. Era um homem já, nos seus quarenta anos, ficou com pneumonia. Teve uma outra que pegou piolho, outra que pegou sarna, o rato mordeu o pé do professor... Porque era assim, as condições eram bem precárias.

Foi muito legal. O que nós fizemos? Esse cara que era da Pedagogia, que acabou ficando com pneumonia, ele também era da área de beleza, cortava cabelo. E falou: “Gente! Todo mundo pegou piolho. Então vamos ter que fazer uma coisa...” Eu não cheguei a pegar, mas acho que umas duas, três tiveram piolho. Porque a gente tinha muito contato. Aí... Até coça a cabeça de falar. Aí ele falou: “Olha, se tingir o cabelo o piolho não vem.” “Bom, então vamos tingir.” Ele cortou o cabelo de todo mundo, aí juntamos dinheiro, pegamos a tinta mais barata, que é uma marca que a gente nunca tinha visto, e aí todo mundo tingiu o cabelo. Passei meio louro, teve um amigo nosso que passou um vermelhão. Cortei bem curtinho e tingi. Todo mundo teve que fazer isso, menos ele, que era careca.

 

P/2 – (risos)

 

R – Foi bem legal, bem divertido. Teve tanto essa questão do trabalho mesmo, como a questão da convivência, a mudança. Você se desprender, ficar distante da família, conhecer um outro lugar, uma outra cultura. E graças a Deus voltamos todos bem, Não aconteceu nada com a gente, mas recebemos até mais de um recado. E eu despertei para o trabalho social. Eu falei assim: “Então eu quero fazer trabalho social”. É isso.

 

P/1 – Agora sim, a gente vai lá. Você ia começar a falar da Gol, mas antes de falar da Gol mesmo... Você já tinha uma ideia do que era a Gol de Letra? Já tinha ouvido falar?

 

R – Então, quando eu falei: “Não dá mais. Não quero mais trabalhar com RH, quero fazer uma outra coisa”, eu falei assim: “Quero trabalhar na área social.” E aí comecei a procurar, comecei a ir atrás.

Eu tive um professor na universidade, nos primeiros anos, que eu sabia, ele tinha comentado que a mulher dele trabalhava numa ONG. Voltei na universidade depois de formada, conversei com ele. Eu falei: “Olha, sua mulher ainda trabalha numa ONG? Será que ela não tem nenhuma dica de como eu posso arrumar um emprego nessa área?” No fim ele passou o meu currículo e falou: “Valéria, eu vou te indicar.” Eu sempre tive um bom relacionamento com os meus professores e com ele especialmente, eu participava bastante da aula dele. Ele falou “Eu vou te indicar para ela.”

No fim... Eu estava empregada ainda na Tok&Stok e surgiu uma vaga na Fundação Gol de Letra. Eu não sabia ainda o que era a Fundação, não conhecia direito. Só sabia que era do Raí, mas o resto eu não sabia. Acabei participando do processo, me desliguei desse outro lugar. Brinquei muito com as meninas lá, que eu ia trabalhar com o Raí, que eu ia mudar de chefe, então foi divertido.

Não tenho muito contato com essas pessoas. No que seria o meu último dia nesse lugar nessa consultoria, o meu tio, irmão mais velho do meu pai, faleceu. Eu lembro muito que era dia treze, eu ia começar na Fundação no outro dia... Eu ia começar acho que no dia doze, ele morreu no dia onze, eu comecei no dia treze na Fundação. Mudei um pouco as datas. Mas aí eu fui, firme e forte, falei: “Não, vamos lá, vamos trabalhar...”

 

P/1 – Encaminharam o currículo e te chamaram?

 

R – Eu fiz a seleção...

 

P/1 – Como foi a seleção, você lembra?

 

R – Lembro. Eu tenho essa memória muito viva, porque quando cheguei na Fundação era época de festa junina. A Fundação estava toda decorada e as pessoas estavam caracterizadas, os funcionários estavam todos vestidos. Era um ambiente de escola. Eu falei: “Nossa, que legal esse lugar! Muito bacana!” Fiquei muito impressionada de forma muito positiva. “Eu quero muito trabalhar aqui.” Porque era um lugar muito diferente do que eu estava acostumada. Foi um lugar que eu me apaixonei, que me encantou.

Vi aquela festa junina toda - que na verdade não era festa junina, porque a gente não faz festa junina lá, a gente faz festa “julhina”, em julho, porque... Mas eles estavam lá nessa época... Era junho, hoje a gente não faz mais desse tipo. Estava todo mundo lá vestido, falei assim: “Que legal. As pessoas entram na festa, no papel. Bacana.”

Quando eu fui fazer a entrevista, na seleção, tinha outras pessoas. A Olga que fez a minha seleção; a vaga era para ser assistente da área social, que era a área que ela coordenava. E ela queria uma pessoa formada em Psicologia. Tinha outras pessoas, acho que mais duas pessoas que ficaram comigo lá para a seleção. Eu acabei entrando. Foi muito interessante, porque rolou uma sintonia logo de cara. Uma olhou para a outra, gostou. Eu lembro que eu estava com uma blusa roxa, meio pink, e ela também. Eu lembro disso, muito bem, que as blusas eram bem parecidas. E de lá eu fui... Voltei, esse dia da seleção. Ela me ligou e falou: “Você pode vir, para começar.”

Aí tinha uma questão: eu queria qualidade de vida e queria trabalhar na área social. Eu tinha tido a experiência de São Félix do Xingu, então eu não era uma pessoa totalmente sem nada, sem experiência. Fora que eu tinha os atendimentos que tinha feito na faculdade, que eram todos relacionados a esse público, então não estava lisa. Mas ao mesmo tempo eles queriam uma pessoa que não tivesse tanta experiência, até porque eu larguei a Tok&Stok e larguei o salário que era 50% superior ao salário que a Fundação estava me oferecendo. Eu falei: “Eu vou ganhar metade do que eu ganho, mas eu vou trabalhar feliz. Eu vou.”

Eu fui. Nessa época eu já pensava em me casar, porque já tinha conhecido o Marcelo. Voltando um pouco na minha história, eu fui noiva cinco anos, namorei cinco anos com uma pessoa, aí no final não deu certo. Terminando esse relacionamento de cinco anos, eu conheci o Marcelo quando fiz estágio na Sabesp ainda, antes de fazer essa consultoria Big Five. Isso tudo foi muito rápido. Eu ia para a Inglaterra com uma tia que ia estudar fora, porque eu tinha um dinheiro guardado. Tinha uns dez mil guardado, porque o meu pai também tinha saído com o meu carro, sofrido um acidente, quase morrido, o carro deu ‘pt’, e eu fiquei com o dinheiro. Aí eu falei assim: “Bom, vou pegar esse dinheiro, vou viajar.” Olhei para a cara do Marcelo, o Marcelo olhou para a minha cara... “Você quer sair da tua casa, eu também quero sair da minha. Então vamos fazer outra coisa.” “Então eu vou ficar, não vou viajar. A gente dá entrada num apartamento, vai reformando e deixa ele lá.” Em um ano esse apartamento estava reformado, e em mais um ano eu me casei. Porque... A minha intenção não era de me casar, no papel, mas os meus pais queriam muito. Meus pais não gostariam que eu saísse de casa sem me casar. Aí eu falei: “Tá, então eu vou me casar”... Porque para mim, na verdade, o relacionamento não está pautado no papel em si. Claro que eu entendo que hoje o papel influencia sim, mas eu estaria com ele, independente de estar casada ou não estar casada.

No fim, acabei indo para a Fundação. Eu fui para a Fundação em agosto, em abril eu me casei. Foi o tempo que eu levei para arrumar tudo. Estou com a Fundação e com o Marcelo até hoje, está vendo? (risos)

 

P/1 – E quando você chegou na Fundação, como que começou a ser o seu trabalho? Como era esse trabalho?

 

R – Eu comecei como assistente de coordenação na área social. Eu tinha um projeto em especial que estava na área, que era o “Lazer aos sábados”. E eu tinha o outro projeto também, que era o projeto de agentes sociais. Mulheres da comunidade, líderes comunitárias que auxiliavam a fundação no desenrolar das atividades, no contato com as famílias.

Só que quando eu cheguei, e por isso a contratação, a Olga queria alguém que fosse da Psicologia para compor com a área dela, que é assistência social. E ela tinha um assistente que estava saindo, estava indo para outra área, mas ele era um jovem da comunidade. O grupo era muito heterogêneo, tinha várias idades,  homens, mulheres. Tinha mulheres bem mais velhas, meninos bem jovens, então ela precisava estruturar esse trabalho da capacitação dessas pessoas.

Eu sempre tive um olhar mais de diagnóstico de projetos, que eu desenvolvi bastante na fundação, mas eu já trazia muito isso de RH, e trazia muito de RH treinamento, ter esse olhar para desenvolver talentos. Então eu consegui adequar, juntar o útil ao que era preciso. Sei lá, nem lembro mais esse ditado, juntar o conhecimento que eu tinha...

 

P/2 – Juntar o útil ao agradável.

 

R – O útil ao agradável. O conhecimento que eu tinha, consegui usar bem nesse projeto.

No primeiro ano, eu tinha que cuidar do “Lazer aos sábados”. Tinha que trabalhar de sábado, então eu folgava na segunda. O “Lazer” é lazer para adultos e crianças. Lazer, recreação e esporte, uma área que eu não conhecia, então a Olga me ajudava no início. Aí pensamos assim: “A gente está com esse projeto, então a gente vai ter que fazer um curso, porque eu sou psicóloga, você é assistente social.” Fomos fazer um curso no Senac de recreação infantil.

Hoje eu faço recreação de aniversário. Se vocês quiserem contratar! (risos) Eu faço bexiga, eu faço maquiagem em criança.

O curso foi uns quinze sábados. Fiz o curso inteirinho, mas era um curso mais para quem ia aplicar a recreação. Terminamos o curso, mas não era bem isso que nós precisávamos. Aí eu acabei estruturando todo o “Lazer”. Então hoje o “Lazer” tem, por exemplo, os dados das pessoas que frequentam; eu separei o espaço para o adulto, o espaço para direcionar atividade para a criança. Criatividade para crianças menores, para as crianças maiores. E as agentes sociais eram as pessoas que iam... Que eu treinava, que iam mobilizar, que iam fazer essa atividade, do “Lazer”.

Fora isso, tinha a formação delas, que eu fazia, então no início... A formação delas é feita até hoje por voluntários. Eu criei a grade de formações, então tem aula de Português, aula de Informática, de Cidadania, de Direitos, tem aula de Sexualidade, Saúde. E no início não tinha voluntários, então eu dava essas aulas também,  ensinava a usar o computador, informática. E depois sai um grupo, entra outro.

Foi um trabalho bem legal, eu gostei bastante de fazer isso.

 

P/1 – Esse é um projeto, “Lazer aos sábados”?

 

R – O “Lazer aos sábados” era um projeto. As “Agentes sociais” era outro projeto que eu gostei bastante de fazer. E as “Agentes sociais”, elas iam saindo e muitas iam conseguindo emprego; outras conseguiam se separar do marido, porque elas apanhavam; outras conseguiam voltar a estudar, muitas conseguiram entrar na universidade, se tornaram professoras de criança, educadoras sociais...

 

P/1 – Aquele projeto que ela fica durante dois anos?

 

R – Esse! Eu estruturei esse projeto no início, eu o peguei bem no início...

 

P/1 – É 2005, isso?

 

R – É. O grupo já existia há um tempo, mas tinha um outro nome, chamado “Mulheres em ação”. Vocês lembram? Chegaram a pesquisar?

 

P/2 – Sim.

 

P/1 – Quando você entrou já não tinha esse nome?

 

R – Tinha. Eram dois grupos: eles criaram um grupo de “Agentes sociais”, que tinham bolsa, e as “Mulheres em ação” continuavam, mas elas não tinham bolsa. Aí eu falei assim: “Mas vocês criaram dois grupos iguais, e um tem bolsa, o outro não. Esse grupo que não tem bolsa está fadado a acabar.” Porque o interesse delas era entrar nesse outro grupo, que fazia a mesma coisa. No fim, esse grupo terminou, esse grupo do “Mulheres em ação”. A gente conseguiu absorver uma boa parte das que quiseram ficar nesse grupo de “Agentes sociais”. Mas eu estruturei uma seleção para entrar, uma capacitação. Criei apostila, organizei as ações sociais, que são os “gols”, o atendimento e as visitas nas casas. Porque quando eu entrei...

 

P/1 – Os “gols” que você fala são aqueles eventos? Os “gols” da cidadania?  

 

R – Quando eu entrei, as “Agentes sociais” não faziam visita domiciliar. Hoje elas fazem. Por que? Quem fazia visitas eram as estagiárias de Serviço Social. Aí eu dizia: “Não, gente, elas têm condição de fazer. Elas não podem fazer uma visita domiciliar oficial, mas elas podem fazer uma primeira visita, para entender qual esse problema, entender a gravidade desse problema. E trazer para a gente discutir.”

Eu batia um pouquinho de frente, porque tinha toda uma questão mesmo da formação. A fundação é uma ONG, mas é uma ONG que tem uma estrutura considerável, que tem muitas pessoas formadas, não é aquela coisa caseira. Ao mesmo tempo a gente tem que conseguir, entender e se aproximar do trabalho da comunidade, dos talentos da comunidade. E foi sempre isso que eu fiz. Então eu gastei muito do meu tempo ali dentro convencendo as pessoas de que as “Agentes sociais” tinham condições e capacidade, competência para fazer projetos, para fazer ações, para visitar uma casa. Elas tinham condição de fazer isso.

Então hoje elas visitam uma casa, hoje elas organizam uma ação. Hoje elas fazem projetos para a comunidade. Comecei a ensiná-las a escrever projetos sociais. Aí eu montava grupos, elas escolhiam um tema. Então tinha um grupo que resolveu fazer oficina de reaproveitamento alimentar. Tinha um grupo que fazia oficina, e até hoje tem, yoga. Tinha um outro grupo que fazia oficina de sexualidade.

Nesse meio tempo, o que aconteceu? A Johnson, que financiava a área social, sempre financiou, ela disse: “Olha, a Johnson está com uma linha agora, que é uma linha que está preocupada com a questão da saúde sexual das meninas. Então a gente só vai financiar projetos se for...” “Só vai” é modo de falar... “A gente quer financiar projetos que sejam projetos relacionados à saúde da menina.” Nós dissemos assim: “Olha, para a gente, só a saúde da menina não... Não é só a saúde da menina. Nós trabalhamos com meninas e meninos.”

Foi quando nós tínhamos que criar o projeto de sexualidade, e aí eu comecei com esse projeto. No início contratamos uma pessoa para dar a formação, e a Olga começou a organizar; começou a crescer, ela passou para mim. Essa pessoa que estava dando a formação não deu certo, então acabei assumindo. Nessa época, eu tinha passado o “Lazer”... Porque eu convenci, junto com a Olga, convenci a casa de que o “Lazer” e recreação tinha muito mais a ver com o projeto esportivo do que com a área social. Não era porque atendia a comunidade que tinha quer ser área social. Aí acabei passando o “Lazer”, já todo estruturadinho, bonitinho, para o Eduardo, que até hoje cuida do “Lazer”, que é educador na fundação, formado em Recreação. Assumi o projeto de Sexualidade, que hoje a gente tem um retorno muito bom, já tem uns quatro anos aí. Nós fomos medindo, começamos com treze meninas gestantes, caímos para oito, depois caímos para cinco. Acho que esse ano nós tivemos uma até agora.

 

P/2 – Gestante?

 

R – Gestante. Meninas gestantes, adolescentes gestantes.

 

P/2 – Das meninas que são atendidas já pela “Gol de Letras”?

 

R – É, que participam das oficinas. O que eu fiz? Eu comecei... o (Cápula?) foi nosso parceiro no início. Comecei a capacitar as meninas e supervisionar as “Agentes sociais”, meninas mulheres, para que elas dessem as oficinas de sexualidade para as crianças, para os adolescentes, para os jovens, e para a comunidade, até para os pais.

 

P/1 – Valéria, fala só mais um pouquinho desse projeto de sexualidade. Como é que ele funciona? São reuniões? Qual é a periodicidade dele?

 

R – Quando esse projeto começou, nós escrevemos para fazer oficinas. E a grande sacada era fazer oficinas, mas na verdade quem ia fazer oficinas seriam as mulheres da comunidade. Então você está usando o mesmo canal, o mesmo vínculo ali, que chega com mais facilidade, com mais força. Uma coisa interessante foi que as mulheres, as primeiras “Agentes”, até um tempo depois isso continuou, uma ou outra que não, elas quase todas foram mães com quinze, dezesseis anos. Então essa experiência também delas ajudou bastante.

Sempre foi muito difícil encontrar uma agente social, e ainda é difícil. Hoje tem outra pessoa que está fazendo esse projeto, que é a Roberta. Encontrar gente com perfil para fazer isso, porque o público de agentes é um público de mulheres mais velhas. Aí você chega para ela e fala: “Você vai ter que falar sobre sexualidade.” Era muito difícil, ainda é muito difícil, mas era muito divertido também, porque elas tiravam muitas dúvidas, elas estudavam. A gente estava no meio de uma supervisão, uma virava para mim e dizia: “Valéria, eu tenho orgasmo?” Eu falava: “Eu não sei se você tem orgasmo!” (risos) A gente brincava muito pra quebrar um pouco essa tensão de falar sobre sexualidade, falar sobre sexo. Eu pegava os modelos pélvicos, que são os pênis, as vaginas, brincava de microfone com elas, fazia entrevista, para elas se soltarem mais. Então foi um trabalho muito interessante no início. Ele continua sendo muito interessante.

Hoje ele está colhendo mais frutos. E ele começou assim: nós pegávamos um dia de atividades das crianças, crianças já com quatorze anos, a turma seis, treze, quatorze anos, e fazíamos uma oficina por semana com essa turma. No início, a gente entrava em alguns encaixes. Também fazíamos oficinas com jovens, encaixava quando dava, e fazíamos também para a comunidade, em outras ONGs, com outros públicos, na reunião de pais. Aí nós percebemos que seria muito importante se nós tivéssemos, dentro da grade de atividade oficial, a oficina, tanto para os jovens como para os jovenzinhos da turma seis, pré-adolescentes, treze, quatorze anos, adolescentes já. Conseguimos, acho que no segundo ano ou no terceiro ano do projeto, incluir na grade de atividade deles. Então hoje ele acontece, é uma atividade que acontece na grade de atividade deles, feita ainda pelas agentes sociais.  

P/1 – Então não é um projeto mais à parte, é uma coisa já inserida...

 

R – Já inserida, grande, e que tem bons resultados. É um projeto que deu certo na Fundação Gol de Letra. A primeira agente social que fez, que foi agente de sexualidade, ela conseguiu entrar na universidade, e hoje ela é estagiária da Fundação Gol de Letra. Hoje, ela cuida desse projeto.

 

P/1 – Quem é?

 

R – É a Marialba. Hoje ela é estagiária da Fundação Gol de Letra.

Muitas agentes sociais que estiveram comigo, elas foram contratadas até pela fundação. A Simone, que ajuda na portaria, ela é da Fundação; a Adriana, que está na secretaria, ela é agente social. Outras pessoas foram contratadas, acabaram saindo. A Mônica, que está na cozinha, também é uma agente social. E não deixaram de ter esse papel de disseminar informações, de orientar as outras pessoas que moram ali na Vila Albertina. Então elas, mesmo não sendo agentes sociais, continuam com o papel de líderes, ainda são procuradas pelas pessoas para ter orientação.

 

P/1 – Agora deixa eu só entender uma coisa: tem o “Virando o jogo”, enquanto programa, e aí tem a área social, certo? Programas da área social... Eu queria um pouquinho mais, para precisar a gente até nas definições, porque tem os programas e os projetos, não é isso? Esse projeto de sexualidade, ele pertence a algum programa?

 

R – Ele sempre pertenceu à área social. É que hoje... Tem um ano isso, um pouco mais que um ano... A área social definiu os projetos dela dentro de um programa, chamado Programa Comunidades. Então dentro do Programa Comunidades, a Olga tem o eixo das agentes sociais, o eixo das ações para a comunidade e o eixo do trabalho com famílias. O projeto da sexualidade está dentro do eixo das agentes sociais, porque quem faz são as agentes sociais. Se eu fizer essa oficina, se uma profissional fizer essa oficina, não teria o impacto que tem com elas, tanto para a vida delas, como para a vida das pessoas com quem elas trabalham. Eles estão vendo que ali tem uma igual. Não tem ninguém que mora longe dali, que mora na Penha. Quem está falando com ele é a pessoa que mora vizinha dele.

 

P/1 – Quando você entrou na Gol de Letra já tinha esse Programa Comunidades?

 

R – Não. A gente estruturou isso depois, na área social.

 

P/1 – Que época foi isso, mais ou menos?

 

R – A Olga pode precisar. Eu acho que estava ainda lá com ela, isso deve ter acontecido há uns dois anos. Eu estou na área pedagógica tem um ano, então isso aconteceu há uns dois anos.

 

P/1 – Antes você estava... Você entrou na área...?

 

R – Eu entrei na área social como assistente de coordenação. Quando eu entrei na área social como assistente, além de fazer assistência da coordenação da Olga, que era ajudá-la com todos os processos da área, eu fazia o “Lazer aos sábados”, o projeto de “Agentes Sociais”, depois eu comecei a fazer o de “Sexualidade”.

Estando isso tudo ali... Há um ano atrás houve uma mudança. Eu já estava há quatro anos na área social, fazendo esses projetos acontecerem, e ajudando a Olga na coordenação. Além disso, eu atendia os casos relacionados à saúde mental. Quando tinha casos de família relacionados à saúde mental, seja com criança, com jovem, ou a própria família, eu fazia, eu dava o apoio no atendimento.

 

P/1 – Eram pessoas da comunidade que iam até você?

 

R – Eram pessoas da comunidade que procuravam, ou eram pessoas que a gente percebia que precisavam, e a gente conversava, e explicava, encaminhava. Então os primeiros atendimentos eu fazia. Além disso, eu fiz um trabalho de terapia comunitária. Fiz porque eu estava fazendo o curso, eu ia de sábado para a fundação, voluntariamente, para atender um grupo de pessoas em terapia comunitária. Isso durou mais ou menos um ano.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Tinha pessoas que a gente sentia, percebia que precisavam de um atendimento diferenciado. A Fundação não tinha. Mas eu tinha que fazer as horas do meu trabalho, do meu curso de extensão. E aí, percebendo que existia essa demanda na comunidade, eu falei assim: “Bom, então eu vou estudar alguma coisa que eu possa atender grupo. E tenha início, meio e fim, que não seja um grupo de terapia.” Porque nós não temos a proposta de saúde, nós temos a proposta de educação.

Fui fazer terapia comunitária na PUC; durante um ano eu fiz esse curso lá, que é um curso de extensão, e montei um grupo na comunidade. Mas o que eu fazia? As pessoas não iam muito à fundação, aí eu pegava as agentes sociais e fazia terapia de tupperware. Olha só isso. Elas cediam uma garagem ou arrumavam alguém na comunidade que tinha um espaçozinho de quintal, eu ia ao quintal e fazia uma terapia de grupo. Porque a proposta da terapia comunitária é essa: ela tem início, meio e fim na mesma sessão.

Eu não sei se vocês conhecem alguma coisa da terapia comunitária. Ela trabalha muito com música... Com música, dinâmica. E ela é aberta, ao ar livre. Qualquer pessoa pode entrar e a gente consegue fazer com qualquer número de pessoas. Isso durou mais ou menos um ano, até que eu não conseguia mais fazer; algumas pessoas continuaram, outras não. Mas até hoje as pessoas ainda perguntam: “Você não pode vir aqui fazer uma terapia comunitária?” No fim, claro, não dá.

Cheguei a fazer em outras ONGs, fiz em alguns... Tem um Centro Espírita que participa da rede de obra social, chamado André Marcel, que eu cheguei a fazer lá com as mulheres deles. Eles fizeram um evento, a fundação levou o trabalho de “Sexualidade”, levou o “Lazer” e levou a terapia comunitária, todas feitas por mim e pelas agentes.

Fiz esses projetos que eu te falei: “Lazer”, “Agentes sociais”, “Sexualidade”, terapia comunitária, assistência da Olga, atendimento das famílias. Bastante trabalho, né? Nossa...

 

P/1 – Você falou que teve uma mudança depois.

 

R – É, aí eu mudei. Porque? Porque a Fundação passou por uma situação mais complicada, financeira. Eles tiveram que demitir metade do programa FAC, que hoje é programa de jovens. Isso foi há dois anos. E durante um semestre a Mônica, que era gerente pedagógica, ficou cuidando do FAC por um tempo, na gerência e na coordenação do programa.

Eu entrei e assumi um projeto do Banco do Brasil, que é o de Aprendizes. Nós temos uma parceria com o Banco do Brasil, fazemos uma formação, que é a formação em cidadania e educação básica. Fazemos a seleção do jovem, encaminhamos e acompanhamos esse jovem pelos dois anos que ele fica no banco como aprendiz. Eu peguei, não tinha ninguém para cuidar; estava lá esse projeto, aí a Mônica pediu para eu assumir. “Mas para eu assumir esse projeto eu vou ter que largar alguma coisa aqui, porque eu faço isso... Vou ter que largar.” No início foi muito complicado, porque não tinha ninguém para ficar no meu lugar na área. Depois a gente conseguiu dar um jeito. Eu fazia um pouco das coisas que já fazia e comecei a fazer o projeto do Banco do Brasil.

Fazendo esse projeto do Banco do Brasil com os jovens, que eu estruturei... Estruturar, tem alguma coisa errada... (risos) Porque em todo lugar que eu vou:  “Eu arrumo”, “Então eu vou arrumar aqui”... “Tem que fazer isso, aquilo, aquilo outro”... Foi quando precisavam de uma coordenadora para o programa de jovens.

 

P/1 – Aí já não era mais FAC?

 

R – Não... Era FAC ainda, mas estava tramitando essa coisa do nome. Aí a Mônica disse: “Olha, a gente precisa de uma coordenadora para o programa de jovens...” Fizeram a discussão, a equipe fez a discussão interna - eu não participava das reuniões, eu não era da coordenação ainda, era assistente da área social. Estavam procurando alguém, acharam que seria interessante oferecer para alguém de dentro da casa. E aí falaram: “Bom, a Valéria já está fazendo o Banco do Brasil. Então vamos dar o programa para ela, vamos ver se ela quer coordenar o programa”. Aí o _______ me ofereceu o programa. Na verdade, a gente tinha também uma necessidade na área de RH, na área de apoio, que hoje o Wagner é que coordena. Então o _______ chegou a conversar comigo sobre essa possibilidade. Aí eu disse para ele: “Olha, acho melhor eu não assumir essa área, acho melhor eu assumir uma outra...” Na verdade... “Acho melhor eu não assumir essa área. Eu continuo arrumando aqui, eu preciso de mais tempo para terminar esse trabalho.” “Então está bom.”

Logo em seguida perguntaram se eu não queria assumir o programa de jovens. Para mim foi diferente, porque eu trabalhava muito com as famílias. Eu estava lá quatro anos, muito com as famílias, as áreas eram bem separadas ainda, então era a primeira vez que alguém da área social ia migrar para a área pedagógica. Aí aconteceu, migrei para a área pedagógica, assumi... Continuei com o Banco do Brasil, assumi a Leroy Merlin, que é de marcenaria, e todo o programa de jovens, que são as oficinas e os dois eixos.

 

P/1 – Fala um pouco desse programa. O que é o programa de jovens?

 

R – O programa de jovens...

 

P/1 – Primeiro a mudança também. (risos) Quando vocês decidiram mudar o nome, você se lembra disso?

 

R – Quando eu assumi, tinha uma discussão no programa de jovens - no FAC na época, quando o FAC tinha mais oficinas culturais e artísticas, sobre o futuro do FAC. A gente entendia, a Fundação, uma parte da Fundação entendia... Eu não participava, porque eu estava em outra área, mas o que eu sei de história [é que] uma parte da Fundação entendia que os jovens precisavam de espaços de aprendizagem profissional, ou de projetos que os preparassem para o mercado de trabalho, profissionalizando ou não profissionalizando. Estava ali, tudo quanto era pesquisa, os jovens estavam saindo da oficina para ir para emprego sem carteira, subemprego. O cara que está na comunidade, ele não vai simplesmente ficar sem trabalhar até terminar o terceiro ano do ensino médio. Ele tem que ajudar em casa. É fato, é verdade. Não dá para o cara só estudar, fazer uma oficina artística, cultural, aqui, ali.

Gente, a ampliação cultural é necessária, é importante; o trabalho que a Fundação é um trabalho necessário, mas a fundação precisou discutir muito para entender como ela ia conseguir oferecer as duas coisas. Ela já tinha um projeto com o Banco do Brasil e tinha um projeto com a Leroy Merlin, mas nenhum dos dois era profissionalizante, feito pela fundação. Quem profissionaliza é o Banco do Brasil, não é a fundação. Mas existia essa discussão, mesmo porque nós estávamos num boom da Lei da Aprendizagem. O Raí é um grande idealizador da Lei da Aprendizagem, é um grande incentivador da aplicação da lei.

 

P/2 – Por que?

 

R – Porque ele fundou uma outra ONG, chamada Atletas pela Cidadania, que é uma ONG de defesa, e a bandeira atual dela é o cumprimento da Lei da Aprendizagem. É colocar dez mil aprendizes até 2010 no Brasil, nas empresas e na área pública. E aí essa discussão vinha, claro, tem que vir. A obra que não se revê não se renova, então já vinha na discussão.

O programa precisou ser revisto por uma questão orçamentária. Saiu a coordenação, saiu metade da equipe. Ficaram só aquelas pessoas que tinham um financiamento segurando a oficina. Ficaram três oficinas: ficou audiovisual, artes visuais e grafite. Grafite tinha financiamento por uma empresa; o áudio e artes, a equipe que fazia era a equipe que já era do VJ, então a gente conseguia manter. Aí a Mônica falou: “Valéria, você já está. A gente quer que alguém assuma. Queremos que seja você, então vai lá.” Então, assumi.

E como é que está hoje? Eu assumi em agosto do ano passado, para fazer o programa terminar de acontecer no ano que ele... No ano que mandaram metade da equipe embora. Esse ano já tinha uma escrita nova. Que escrita era essa? É a que eu estou aplicando hoje. O projeto tem dois eixos: eixo “Rumo à cultura”, que são as oficinas culturais, e tem o eixo “Rumo à empregabilidade”, que são duas oficinas de desenvolvimento pessoal, mais o pólo de informações.

As oficinas culturais continuam no mesmo modelo. A fundação tem projetos, então tem o esportivo, o das crianças e o cultural. Eles têm a mesma linha de trabalho: metodologia de projetos, interdisciplinaridade, naquela estrutura que vocês já conhecem dos outros projetos. O que eu tenho hoje? Eu tenho três oficinas culturais, eu tenho grafite, artes e áudio, tenho saraus e fóruns de discussão política, tenho intervenções na comunidade. Os jovens, uma vez por semestre, têm que bolar um projeto em conjunto, para... Fazer um grafite num beco, levar um pouco de arte, cultura, para um espaço ‘x’ daquela comunidade; revitalizar uma praça, limpar algum espaço. Eles têm que promover uma atividade que tenha função de trazer um benefício para aquele espaço. Ela é uma intervenção, tem que ser algo que fique. Isso é o eixo cultural.

Dentro do eixo cultural, a gente... Para todos os eixos nós ainda temos o núcleo de projetos. O jovem que tem um ‘quê’ mais protagônico, ele vai sair; ele continua nessa oficina [em] que está, mas pode ir para o núcleo de projetos e pode escrever um projeto. Ele aprende a escrever um projeto social para a comunidade. Aí eu falei assim: “Legal! Porque eu já fazia isso com as agentes, então não vou ter dificuldade.” Realmente, muito tranquilo.

Hoje nós temos um projeto que é um documentário - vocês devem ter ficado sabendo, um documentário sobre a história da comunidade, contado pelos moradores mais velhos, que os jovens estão fazendo. Eles estão captando as imagens…

 

P/1 – Isso está em processo?

 

R – Está em processo. Eles estão fazendo. E temos um documentário de cinema ao ar livre na comunidade também, que é um outro grupo de jovens, eles estão escrevendo esse projeto. Às vezes eles desmotivam... Eles pegam, dão um gás, aí um sai, o outro fica mais chateado, depois volta, entra alguém novo. E o projeto está seguindo.

Esse é o núcleo de projetos. É importante para que o jovem possa realmente pensar numa ação transformadora naquele local. E a gente vai agora passar para o eixo “Rumo à empregabilidade”. A fundação chegou à conclusão que profissionalizar não é a nossa praia. Nós fazemos muito bem educação e cultura, então acho melhor a gente não profissionalizar. Porque tem tanta gente também que profissionaliza.

Então vamos pensar assim: nós percebemos que às vezes o jovem sai da oficina porque está procurando emprego, ou vem algum parceiro, pede para a Gol: “Olha, eu tenho uma vaga, eu queria ir aí, você tem jovens. Eu posso fazer uma seleção aí?” A gente: “Claro”, né? É oportunidade. Esse jovem bombava nessa seleção. Por que? Ele ficava lá, falando no celular o tempo inteiro enquanto a pessoa estava explicando a seleção. Ele falava... Não sabia se comportar. Ninguém tinha contado para ele que ele não pode ficar com o celular no meio da seleção, batendo um papo. Aí, o que aconteceu? A gente... No ano passado foi escrito no projeto esse eixo, “Rumo à empregabilidade”. E aí eu coloquei em prática uma oficina chamada “Desenvolvimento pessoal”. Ela tem tanto a questão da orientação vocacional, como a questão de projeto de vida, cultura também, porque tem os passeios culturais, trabalha com higiene, saúde, cidadania. Nesse eixo tem a oficina de desenvolvimento pessoal e tem o pólo de informações, que foi inaugurado agora em maio.

 

P/1 – O que é esse pólo...?

 

R - Esse pólo de informações funciona da seguinte forma: nós queríamos muito retomar o contato com ex-alunos, com jovens que já passaram pela fundação. Deve ser em torno aí de uns 550. Eu estruturei um mailing, para conseguir o contato dessas pessoas que já passaram, para usar no pólo.

O pólo é um mural, que tem... Ele fica... Bem quando você entra na fundação, ao lado da biblioteca, na parede do lado de fora, do corredor, tem lá: vagas de emprego, trabalho, estágio, e vagas de bolsa, de estudo, informações sobre Enem, sobre ProUni, bolsas de inglês. São duas ações: ações na área de trabalho e ações na área de estudo, continuação dos estudos. Essas vagas são vagas de parceiros da Fundação: Nube [Núcleo Brasileiro de Estágios], Central do Trabalhador. Nós divulgamos as vagas para os jovens, porque muitos não conseguem sair dali para ir procurar um emprego. Divulgamos nesse espaço os espaços da comunidade que também profissionalizam, ou possibilidade de curso que dá bolsa, curso de profissionaliza e dá bolsa; programas do governo que são interessantes. A gente faz uma triagem, a gente procura conhecer a empresa, conhecer um pouquinho melhor essa vaga, procura divulgar vagas que são da região. Não dá para divulgar vaga de Osasco, porque o jovem não vai sair da Fundação para ir trabalhar em Osasco, ele não vai conseguir.

Tem esse mural, que é físico, e tem um jornal eletrônico que nós mandamos semanalmente ou de dez em dez dias, depende do volume de vagas que a gente consegue receber e filtrar. A gente manda para esse mailing, que é uma forma de se comunicar com esse pessoal que já foi, que já passou, e é uma forma de auxílio à comunidade também. Então a gente continua lá com a questão da cultura muito forte, mas também está auxiliando esse jovem a pensar no que ele quer realmente para a vida profissional, e a buscar, encontrar, conhecer possibilidades em que ele possa ter uma renda para começar a vida profissional dele. Porque a gente sabe que esse cara… Alguns conseguem, mas serão poucos que vão conseguir entrar na universidade pública sem ter trabalhado antes, só se dedicando a estudar. Porque aí ele tem… Para ele percorrer esse caminho, ele vai ter que arrumar um jeito de ajudar a mãe dele, porque eles são cobrados também. Muitas famílias me procuram: “Ah, porque o meu filho, não sei o que...” Muitas famílias se preocupam muito, elas precisam muito também. Isso é fato. E aí a fundação até, por exemplo, abre o espaço para esses parceiros fazerem seleções dentro da fundação, usando nosso espaço, para auxiliar esse jovem a participar. Isso é o que a gente tem hoje, no programa.

 

P/1 – No programa de jovens...

 

R – Isso é o que nós temos hoje no programa. Fora os passeios culturais... E tem outras ideias aí, que vão acontecer, se Deus quiser. Eu quero criar um eixo chamado “Rumo à universidade”. Eu quero criar um cursinho comunitário. Criando o cursinho comunitário, eu vou estar feliz. Eu vou ter cultura, trabalho e educação, realmente.

O cara que quiser realmente entrar na universidade, se esforçando, tem que ter um cursinho comunitário, então eu estou procurando um parceiro para desenvolver um cursinho comunitário. Vamos ver se para o ano que vem a gente consegue alguma coisa nesse sentido, mas ainda não está nem no papel.

 

P/1 - Valéria, desse tempo que você tem trabalhado com esse programa, você tem... Apesar de ser pouco tempo, você tem resultados?

 

R – Tem um ano...

 

P/1 – Tem resultados que você consegue apontar, o retorno que você tem sentido?

 

R – Ah, tem. Quando eu assumi o Banco do Brasil, a gente tinha uma preocupação muito grande com os jovens, porque eles terminavam os dois anos no banco e não conseguiam emprego. Hoje esse número é muito maior. Quando entrei, eu comecei a fazer um contato mensal com o responsável por esse jovem no banco para acompanhar esse jovem, a passagem desse jovem por essa experiência, para tentar mostrar para essa pessoa do banco que esse jovem tem condições de ser indicado para alguma empresa. Então a gente percebe que o número de jovens que tem conseguido se colocar é um pouco maior - eu não tenho esse dado, mas ele é um pouco maior.

O que eu fiz também foi incluir na grade do programa, uma vez por mês, a parte da sexualidade, que não tinha também. Então trouxe lá da área social, eu falei: “A gente tem que ter uma vez por mês.” Uma vez por mês uma pessoa vai ceder aula para fazer a sexualidade, que é importante. Nós conseguimos muitos resultados em relação à infraestrutura mesmo. Hoje o programa tem uma sala só para os jovens, uma sala que foi reformada para ter a cara do jovem - porque vocês conhecem a fundação. Quando você entra na fundação, é um espaço muito legal, mas ele tem muito a cara da criança, porque as salas são todas utilizadas pelas crianças.

O programa de jovens acontece à noite e no sábado, então ele não tem tanta visibilidade como tem o “Virando o jogo”. Quando vocês vão lá é o horário das crianças, e à noite é o horário dos jovens, então hoje eles já têm uma salinha para eles.

Entre o ano passado e esse o pessoal do audio[visual] conseguiu produzir vídeos interessantes. Eles produziram, por exemplo, um vídeo sobre a cachoeira, que é um esgoto a céu aberto, no ano passado, e esse vídeo passou no fórum de discussão sobre a questão do meio ambiente na Vila Albertina. Convidamos a Sabesp, então a gente percebe o interesse dos jovens; ele está ali, presente.

Claro que antigamente, no início do programa, nós tínhamos jovens muito mais velhos. Nós tínhamos jovens de dezoito, jovens de dezenove e até vinte anos. Hoje a gente priorizou o atendimento daquele menino que sai, daquela menina que sai do “Virando o jogo” com quatorze anos, para ela entrar no programa de jovens, então na turma seis a gente já fica bombardeando, na área social, faz um trabalho com as meninas para que permaneçam na fundação. Antigamente, eles só podiam entrar na Fundação com quinze, então a gente perdia aí uma janela de um ano. Para que perder essa janela de um ano se ele já está aqui? Vamos manter o cara aqui dentro, ele está protegido. Proteção social, não é? Então vamos manter o cara aqui dentro. Foi bom, porque a gente está atendendo um público continuamente: ele entra com sete, ele sai com dezoito anos de lá.

E [isso] puxou a idade do Programa para baixo: eu tenho um grupinho que tem entre quatorze, no máximo dezesseis anos. A produção cultural, a questão da discussão política, ela fica um pouco mais dificultada por essa questão. Mas resultado tem sim, resultados bem bacanas, bem interessantes. A turma de áudio fez um blog e divulga os vídeos nesse blog, então, também é bem legal, é bem interessante.

 

P/2 – Está ligado ao site da Gol de Letra ou...?

 

R – Nós vamos colocar… Ainda não conseguimos inserir, mas ele vai ficar ligado ao site.

 

P/1 – Seria legal.

 

R – É, muito legal. Eles colocam os vídeos...

 

P/2 – Como se chama o blog?

 

R – Facaudiovisual.spot.blog.br. Eles mesmo que escrevem, postam lá os vídeos e escrevem. A gente tem uma turminha que faz um jornal interno. Tudo isso são coisas bem bacanas, que acho que continuando, a gente conseguiu ter uma estabilidade, uma condição de orçamento que consiga atender. A gente consegue dar sequência ao trabalho. No ano que vem as coisas já vão mudar um pouco, porque eu vou trazer mais oficinas. Vou trazer o teatro, a dança e a música de volta para o programa. E aí a gente vai ter mais linguagens, que vão enriquecer cada vez mais.

 

P/1 – São todas as noites que funciona?

 

R – São todas as noites [em] que tem atividades. Na segunda tem o áudio, na terça artes, na quarta áudio, na quinta artes, na sexta-feira tem o núcleo, no sábado tem o grafite.

 

P/2 – O núcleo é o que?

 

R – Núcleo de projetos. Os jovens escrevem projetos para a comunidade e aplicam na comunidade.

 

P/1 – Perfeito. Sobre o Programa de Jovens está supertranquilo.

 

P/2 – Tem alguma coisa que você não falou?

 

R – Eu falei das oficinas, eu falei da formação comum, que são os fóruns e os saraus, dos passeios culturais, que acontecem uma vez por mês... Acho que eu falei tudo.  

 

P/1 – Eu queria que você falasse, se você lembra, dessas atividades que foram feitas, se teve alguma que foi muito marcante.

 

R – Marcante foi quando a polícia quis me levar embora porque eles estavam na praça! (risos)

 

P/2 – Como assim?

 

R – Teve uma coisa que gerou até uma discussão sobre a relação da pobreza naquele espaço. Aquele é um espaço... O IDH daquele espaço não é um IDH tão ruim, porque nós temos casas muito boas naquela região. A fundação está num bolsão de pobreza, vocês já devem ter ouvido isso. E quando a política pública começa, ela não chega primeiramente ali, porque ela vai atender aqueles espaços em que se tem uma faixa de pobreza maior. Até que quando as pessoas vão para a fundação, elas dizem: “Nossa! Onde é que está a população que você atende?” Porque ela está mais para o fundo, ela está mais escondidinha ali.

E aí o que acontece? Os meninos quiseram, tiveram a ideia de vitalizar uma praça. Educadores pensaram: “Então vamos pegar uma praça, revitalizar...” Revitalizar, na verdade, é função do...

 

P/1 – Do poder público.

 

R – Do poder público. Mas aí: “Bom, o que a gente pode fazer?” “A gente pode pintar as guias, a gente pode colocar uma balança, porque não tem, a gente pode recolher o lixo, a gente pode plantar uma árvore...” Falamos com o Horto, o Horto cedeu uma muda; pegamos uns sacos de lixo, organizamos, divulgamos o que íamos fazer. Tinha um educador responsável pela ação.

Fomos todos lá, num sábado à tarde. Encheu a praça, algumas pessoas vieram, as crianças vieram, aí nós plantamos a árvore, colocamos a balança, limpamos a praça, pintamos as guias. Só que a praça que nós escolhemos para fazer, que era a praça maior, era a praça que ficava justamente naquelas ruas daquelas casas bem bacanas. Tinha uma ou outra mais ou menos, mas... É uma população que até sabe que ali atrás do muro dela existe uma comunidade em situação de vulnerabilidade, mas até saber e realmente andar na viela existe uma grande distância.

A gente estava terminando a ação, recolhendo as coisas já, aí chegou a polícia, chegaram duas viaturas. Fui com meu carrinho para recolher o material, pegar, levar o lixo, aí eles disseram… Pediram, queriam ver quem era o responsável, queriam a autorização. Aí eu conversei, disse que tinha autorização, que nós tínhamos um documento da subprefeitura autorizando aquela ação naquele espaço e o que tinha sido feito ali. E... Estava na fundação o papel.

Eles disseram que um morador fez uma denúncia de que estavam fazendo arruaça na praça. Aquela praça nunca tem ninguém. Viram aquele movimento, não conseguiram entender a proposta, chamaram a polícia. Aí eu conversei com os policiais, eu falei: “Olha, vocês estão vendo...” Ele falou: “Estou vendo. Vocês estão fazendo bem para a praça. Vocês estão melhorando o espaço.” Eu falei assim: “Pois é, acho que houve um mal entendido...” Até o policial falou: “Essas pessoas não têm o que fazer, porque... Vocês estão fazendo um bem aqui para esse espaço.”

Na verdade, qual foi a nossa discussão? De quem é aquele espaço? Aquele espaço não tem a cara dos nossos jovens, porque eles não conseguem utilizar. Naquela praça tinha pessoas que ficavam, e eu soube depois, os moradores tiraram os bancos porque não queriam que ninguém ficasse ali. (risos) Então é uma...

 

P/2 – _______só de passagem.

 

R – E é uma praça enorme. É numa descida, mas é uma praça enorme. Eu fiquei muito feliz. A ação foi no sábado; no fim da tarde, quando a gente não estava mais lá, eu passei para ir embora de carro - acho que era uma seis e meia já da tarde, porque ainda era horário de verão -, e tinha muita criança brincando ali, na balança. Então eu falei assim: “Legal! Valeu! Deu certo.” Mesmo depois dos policiais terem ido embora. Depois discutimos, falamos com os jovens sobre aquilo. Porque é o preconceito. E é ali, a rua de trás da comunidade.

Isso é uma história que ficou marcada para mim. Bem interessante. E outras histórias… Proximidade, o jovem tem uma energia que é fora do comum, uma estabilidade que é fora do comum...

 

P/1 – Você chegou a ter algum problema com algum jovem?

 

R – Olha, eu tive alguns problemas, mais questão de postura, um pouco por conta da questão da idade, de limites. Com a passagem do programa, ele ficou sem uma pessoa coordenando, então os jovens percebem, eles sentem tudo isso. E aí para eu conseguir retomar, criar um vínculo...

Acho que meu vínculo com eles ainda está em construção. Tive, por exemplo, algumas questões com jovens no Banco do Brasil. Tive que rever a seleção, rever alguns jovens que estavam lá no programa, que não tinham comprometimento. Então tive jovens que… Situações que eu tive que contornar, que eu tive que desligar jovem do programa, porque a agência ligava, dizia: “Olha, tem duas semanas que ela não aparece, você sabe dela?” Aí eu ligava na casa, conversava com a mãe: “Ah, todo dia ela sai para ir para o banco.” (risos) Situações assim. Com jovem que estava realmente muito doente, que teve algumas crises, uma família que não tinha tanta funcionalidade e esse jovem estava com uma situação até de depressão forte. Eu não perdi essa coisa de atendimento de família.

 

(pausa)

 

P/1 – Bom, sobre a questão dos jovens, você estava fechando isso.

 

R – Ah, eu ia falar de uma coisa que aconteceu um pouco antes das férias. Tem uma jovem do programa que era da oficina de áudio. Ela continua na oficina de áudio e foi selecionada para uma vaga no programa de aprendizes do banco. É uma jovem que eu acompanha há muito tempo; eu já acompanhava a família dela quando ela estava no “Virando o jogo” e eu estava na área social, então muitos jovens eu conheço, conheço a família.

A mãe dessa jovem me procurou, ela não tinha contado nada para ninguém. A mãe dessa jovem procurou uma ex-agente social da minha época, e falou assim: “Olha, eu estou meio assim, mas eu quero conversar com a Valéria...” - ela sabe que eu coordeno o programa... “Porque Fulana saiu de casa e foi morar com o namorado. Fulana tem dezesseis anos. Nós brigamos, aí ela fugiu de casa.”

Essa ex-agente social me procurou, falou: “Valéria, fiquei sabendo de tal história. Você sabe de alguma coisa?” Isso já tinha uma semana que a fulana já tinha saído de casa. Aí eu falei: “Não, não sei.” Aí eu encontrei com a fulana no outro dia, com a jovem: “Então, tem que atualizar seu endereço. Preenche aqui essa ficha de novo para mim?” Aí ela preencheu. Eu falei assim: “Você continua morando no mesmo lugar, com a sua mãe?” “Não, continuo, está tudo normal.” (risos) Eu falei assim: “Ah, está bom então.”

Eu falei: “Bom, vamos dar um tempo para ela. Ela pode estar passando por uma situação que é temporária e vai voltar. Não quis falar nada, vamos respeitar.” Conversei com a educadora, com as duas que têm contato, falei: “Como é que está essa jovem? Como ela está na oficina? Ela tem comentado alguma coisa?” Ela falou assim: “Olha, ela não conta nada. Está tudo normal.” Eu falei assim: “Está bom, então.”

Dei um tempo. A mãe dessa menina me procurou, dessa jovem, falou assim: “Eu vim conversar com você porque está acontecendo isso: nós brigamos feio, ela saiu de casa.” Só que o dia que ela veio me procurar foi o dia que a jovem estava entrando na fundação para fazer a oficina, então elas se cruzaram na escada. Não se falaram, porque elas não estavam se falando. Aí essa mãe veio falar comigo...

A menina viu que a mãe tinha vindo me procurar, logo deve ter... Logo fez o link. A mãe tinha ameaçado: se ela não voltasse para casa, ela ia me procurar para tirar a menina do banco. (risos) Aí a mãe chorou bastante, contou a história, que ela brigou com a menina, que a menina tem um namorado, que ela não gosta do namorado, e que ela brigou com a menina e falou que era para a menina ir embora. Essas coisas de mãe: ou a mãe vai embora ou ela manda a gente embora, mas na verdade ela não quer isso. Aí ela saiu de casa: “Você quer que eu vá embora?” Fez a mala dela, para a casa do namorado. Já tinha umas duas semanas isso, uma semana e meia. Aí ela veio pedir ajuda: “Olha, eu queria que você conversasse com ela.” Eu falei assim: “Então eu vou conversar com ela, depois eu te falo. Não posso obrigá-la a voltar, mas eu quero ouvir o que ela tem a dizer.”

Chamei, conversei um tempo com essa jovem; entendi a situação, entendi também o lado da jovem. Porque a mãe tinha mandado ela embora de casa, afinal. E isso sempre acontecia, elas sempre brigavam muito, chegou uma hora que ela falou assim: “Eu vou. Você está mandando, eu estou indo, eu vou embora.” Só que essa mãe pensou: “Ela vai embora, vai ficar um dia fora e vai voltar.” Que nem eu fiz quando eu era adolescente. Não, ela não voltou. Duas semanas depois ela estava fora de casa, aí essa mãe se deu conta de que ela não ia voltar mesmo.

Conversei com ela, falei assim: “Então você saiu por esse motivo. Você quer ajuda? Você quer que eu converse... Você quer conversar com a sua mãe aqui na fundação?” No início ela ficou meio arredia, não queria, aí eu falei: “Então pensa um pouco. A hora que você quiser eu estou aqui, você pode vir e eu vou ajudar no que eu conseguir te ajudar.” Essa menina também estava chorando muito.

Uns dois, três dias depois, ela me procura e fala assim: “Olha, Valéria, eu pensei. Eu não quero voltar para casa, eu não vou voltar, mas eu quero conversar com a minha mãe. Porque eu quero voltar a falar com ela.” Falei assim: “Está bom, então eu vou chamar a sua mãe e aí vamos conversar nós três.” É difícil, porque eu ligava para essa mãe, falava: “Então, fulana quer conversar com você. Você pode vir aqui conversar com ela?” “Mas ela vai voltar ou não vai voltar para casa? Porque eu não vou aí para ouvir que ela não vai voltar.” Eu falei assim: “Você tem que ouvir o que ela tem a dizer.” Sempre uma postura muito rígida, muito fechada.

Eu [fiquei] trabalhando com essa mãe e trabalhando com essa jovem, aí uma hora essa mãe não podia vir. Essa mãe sempre colocava muito o trabalho em primeiro lugar, e o trabalho fazia com que ela ficasse indisponível para falar com essa filha à noite. Eu falei assim: “Olha, ela tem interesse, eu estou aqui para ajudar. Mas se você não vier, não vai acontecer, então você precisa vir. Você precisa conversar com a sua patroa - ela era babá -, e explicar para a sua patroa que você tem um filho. Assim como a sua patroa tem um filho, você também tem uma filha e você precisa conversar.” “Ah, não sei o que...”

Chegou o dia, elas ficaram na antessala esperando, e não se falavam. Eu deixei um pouco, para ver se alguma coisa ia começar a acontecer,. mas elas não se falavam. Não se olhavam, elas não se olhavam na cara. Tinha muita mágoa, né? Aí eu chamei, coloquei as duas, eu sentei... Eu sou terapeuta da família e casal; sou psicóloga, mas fiz uma especialização nessa área, dá para usar o conhecimento. E aí promovi ali a conversa.

Uma falou tudo que sentia para a outra, a outra também falou. No início, a jovem estava ainda super receosa, não queria voltar. E [ficou] aquela coisa muito legal: uma falou para a outra “eu te amo”, “eu te amo também”, e começam a chorar, aí eu começo a chorar também. Num dia eu faço tudo e mais uma coisa, além de também fazer um atendimento em terapia de família. Conversei com elas, as ajudei a definirem alguns limites e algumas regras para a convivência das duas, e hoje elas estão... A jovem disse que não ia voltar, mas depois disse que voltaria e realmente, alguns dias depois, ela voltou. E está tudo bem, tudo tranquilo.

Eu fico feliz, porque o trabalho vai além simplesmente do conteúdo, da arte, da reflexão, da crítica política. É um trabalho realmente que entra na casa da pessoa. E o meu trabalho é esse, é esse e mais um pouco, mais um monte! Então: “Tem que fazer tal coisa...” “Ah, eu faço.” “Tem que varrer.” “Eu estou varrendo.”

Tenho uma grande paixão, um grande amor pelo trabalho. E pela fundação. Sei que um dia eu sairei da fundação, como todo ser humano, um dia, tem que sair e ir para outros lugares. Mas são anos de muito crescimento pessoal, profissional; eu sei de lembrança de casos como esse, [em] que o trabalho é válido. Então eu fico feliz por ver isso acontecer.

 

P/1 – E como você vê, pegando até a questão da comunidade, como você vê... Como é que você acha que a comunidade vê a Gol de Letra? Você sente isso? Você consegue sentir isso no seu contato?

 

R – Sinto. Eu acho que uma coisa que eu sempre... Eu acho que ela vê com bons olhos, vê como algo que veio para melhorar, e reconhece que algumas questões melhoraram. Vê também como um certo porto seguro, porque a gente atende gente que é dali, gente que é atendido diretamente nos programas e gente que não é atendido nos programas.

Por exemplo, tem uma mãe... Uma vez eu estava no “Lazer” e essa mãe... Nessa época o “Lazer” tinha ambulâncias; a gente trabalhava com a Unimed, então ficava uma ambulância de plantão. Entra a mulher gritando, desesperada, que o marido estava tendo ataque cardíaco. Eu falei: “A ambulância vai levar.” “Não, mas só leva quem é daqui”. Eu falei: “A ambulância vai levar. Ela é da comunidade, a ambulância vai levar.” A ambulância levou, socorreu.

Outro dia eu estava entrando na fundação, era umas sete, oito horas. Uma senhorinha entrou desesperada junto comigo, procurando o Oliveira, que era o porteiro, era quem ela conhecia. “Ai, o meu neto está passando mal.” Aí toca a Valéria a sair correndo lá para os meios das vielas, entrar no barraco, entrar no quarto, atropelar todo mundo para socorrer o menino. O menino estava tendo uma crise epilética. Aí conversa com a família, explica da crise epilética, chama a ambulância. “Não vai vir a ambulância porque ele está melhorando, eles não socorrem.” Aí encontra alguém lá, vizinho, que pode carregar. E é assim. Essas coisas de saúde tem muito. Eu tenho muita história de saúde. Então...

 

P/1 – A Gol de Letra está fazendo parte da família mesmo.

 

R – Ela faz parte da família, porque você saber que se correr ali você consegue um atendimento, consegue um ombro amigo que seja. Acho que as pessoas do entorno, as famílias que já passaram por ali, que esperam passar e que estão lá, elas entendem, elas sabem que o trabalho é de qualidade. Elas sabem disso, reconhecem isso. Então eu acho que é isso que a comunidade entende pela Fundação.

Posso estar sendo… Estar dizendo uma coisa que eu não sei, mas é o que eu sinto e que percebo desses quase seis anos que eu estou ali. Tem quase seis anos, muitas coisas aconteceram. Eu sei que antes desses seis anos muitas coisas aconteceram também, então hoje tem gente ali que a história da vida daquela pessoa está muito relacionada à história da Fundação. Cresceu ali dentro, se desenvolveu ali dentro. Descobriu cultura, educação, lazer, descobriu atendimento de vários tipos. Acho que a comunidade reconhece o trabalho, entende o que é a Fundação.

 

P/1 – Só uma coisa que eu não peguei antes, quando você falou que entrou na Gol de Letras... Porque você mora na zona leste!

 

R – Sim.

 

P/1 – Como foi para você chegar lá? Você tinha uma ideia de onde você estava indo? Teve um choque? Foi tranquilo?

 

R – Eu tinha ideia, porque eu moro na zona leste, na região da Penha, mas eu sempre morei em bairros mais periféricos. Então não era uma coisa absurda. Não era uma realidade que eu não conhecia, foi uma realidade que eu vivenciei. Apesar de já ter uma condição mais estável, eu sei o que é passar fome um pouco, eu sei o que é usar roupa de alguém que deu.

 

P/1 – Teve uma identidade?

 

R – Eu me identifiquei, sim, claro. Isso ajudou também, porque eu não fui com aquele olhar assim: “Eu tenho que me dar completamente.” Porque a pessoa tem que fazer a parte dela. Eu não posso fazer escolhas por ela. Vou sentir, vou me frustrar, mas eu não tenho uma ideia de que eu tenho que oferecer o mundo, porque ele não tem o mundo. Ele tem o mundo, o mundo dele é válido, o mundo dele presta. Não é igual ao meu mundo, mas o mundo dele presta. É um mundo de verdade. Não é assim: “Ah, eu tenho carro, ele não tem, então eu tenho que carregá-lo no meu.” Não é assim. A minha história de vida mostra essa mudança, essa transformação. Então não foi difícil, não.

Eu lembro que tinha uma estagiária, ela morava ali perto, só que ela morava numa casa muito legal, aí ela dizia para as agentes: “Olha, eu moro lá naquela casa, mas ela é alugada, viu?” Quer dizer, ela tinha vergonha de ter uma condição um pouco melhor porque via que as pessoas ali não tinham.

Muitas vezes, é claro, eu com as agentes sociais, eu via que elas não tinham tanta condição. Eu dava cesta básica, quando eu precisava dar a cesta básica, por minha conta. Ajudava com roupa, as minhas roupas que não serviam eu levava, porque eram roupas que eram... Na época do trabalho anterior, eu usava terninho. Na fundação eu não uso terninho, gente, não dá para imaginar ali, então dei tudo. Falei: “Olha, gente, vocês vão precisar. Vamos lá. Vocês querem o que?” É isso, e aí que vai. O jeito de eu conseguir ajudar. E eu estou ajudando com o meu trabalho.

O que eu aprendi, o que continuo aprendendo na vida, eu estou levando para o outro. Acho que o trabalho da fundação é muito isso. Eu admiro, gosto muito da ideia... Admiro o Raí, porque eu acho que também tem um pouco disso, ele veio também de uma origem e teve um crescimento. Quantas pessoas têm o que ele tem e não fazem nada? Ele encarou o desafio. Acho que nós não teríamos um serviço de tanta qualidade se não tivesse tido tanto envolvimento de tanta gente.

 

P/1 – Você acha que do tempo que você está... Aliás, quando você entrou você tinha acabado de casar, não é isso?

 

R – Eu casei... Eu entrei em agosto, casei em abril do ano seguinte.

 

P/1 – E depois você teve sua filha...

 

R – Mas eu já entrei reformando o apartamento, que eu sabia que eu ia casar.

 

P/1 – E depois você já teve sua filhinha.

 

R – Em setembro nasceu a minha filha.

 

P/1 – E como é o nome da sua filha?

 

R – Maria Eduarda.

 

P/1 – E como é isso? Você está trabalhando ali, na Gol de Letra, com filho. Como você tem levado isso?

 

R – Ih, loucura! Loucura total. Porque antes eu tinha que trabalhar de sábado. Aí fiquei um ano de sábado, parei, fiz uma ou outra coisinha de sábado. Estava trabalhando das oito às cinco, então é um horário comercial normal. Por esse tempo consegui levar numa boa, tinha uma pessoa que me ajudava com a minha filha. Nós somos ONG.

Minha filha teve uma babá jovem, ela tinha 21... Ela tinha vinte anos quando começou a cuidar da minha filha; ficou um ano cuidando da minha filha. Era com ela que eu deixava a Maria Eduarda, porque o Marcelo trabalhava também, quarenta horas semanais. Essa jovem, ela engravidou de uma pessoa, de um namorado que estava com ela, foi morar com ele. E no pré-natal…

A minha filha não tinha nem um ano. Ela engravidou, eu falei: “Normal.” Eu a registrei, fiz tudo direitinho.

Ela fez consulta de pré-natal. Na primeira consulta de pré-natal ela fez os exames e descobriu que estava com HIV; [contraiu] de um cara que ela tinha saído há um tempo, que não era esse que ela estava. E aí, 21 anos, HIV, primeira gestação. A menina teve uma série de problemas, dificuldades, ela já vinha com uma saúde fragilizada. A gente não tinha percebido que poderia ser o HIV.

Ajudei, dei apoio. Ela teve que se afastar um tempo, porque ela começou a ter sangramento, ia perder o bebê. Era uma gravidez de risco, né? Teve que tomar coquetel. No fim ela acabou se desligando porque viu que não conseguiria.

Nessa época eu tive que correr um pouco, porque eu estava na fundação [e] de repente ela me ligava, estava tendo ataque de pânico dentro da minha casa, com a minha filha com um ano! Aí eu falei: “Tudo bem.” Ela acabou saindo. Eu falei: “Eu vou ter que me virar de outro jeito.”

Eu não queria uma outra pessoa, porque a Duda era muito pequena, aí eu falei assim: “Mãe, vai ter que ser você. Mãe, você vai ter que deixar um pouquinho a manicure, o cabelo. Vai ter que ser você.” Minha mãe, super solícita, falou assim: “Não, fica tranquila. Traz, eu olho.” Foi quando eu a coloquei na escola, ela já tinha um ano e meio. Eu estava demorando para colocar na escola, porque quando ela nasceu e eu voltei para a fundação, da minha licença-maternidade, eu já voltei indo para o Rio, porque tinha um PE [Planejamento Estratégico] no Rio. Eu estava no Rio, estava quase empedrando de leite. [e] ela aqui; fiquei uns três dias lá no Rio.

 

P/1 – No Rio, na fundação?

 

R – Na fundação, quando eu voltei para o trabalho.

 

P/1 – Você foi trabalhar lá?

 

R – Eu fui porque tinha um PE lá, tinha um planejamento estratégico. Fiquei três dias lá no Rio. Ela, muito novinha, com quatro meses, pegou um vírus de bronquiolite. Ela ficou internada uns cinco dias e ia para a UTI, não foi porque não tinha leito. Ela ficou internada. E ela estava na escolinha. Aí eu falei assim: “Não dá. Vamos tirar da escolinha, porque ela está com a saúde muito fragilizada. Vamos, então, deixar lá em casa.” Foi quando eu contratei essa babá. Aí essa babá teve que sair, se afastou por essas questões de saúde, e a minha mãe ficou com ela. Eu falei: “Agora que ela está mais fortinha, está com um ano e meio, quase dois, ela pode voltar para a escola. Aí eu a coloquei na escola: meio período da escola, meio período com a minha mãe, porque senão minha mãe também não aguenta. (risos)

Ela se desenvolveu super bem, está super bem hoje. Ela tem coisinhas... A Duda, minha filha, tem coisinhas que as crianças têm, normal. E está super bem, a minha mãe cuida muito bem, acho que a única pessoa... A filha, acho que só tem confiança de deixar com a sua mãe a sua própria filha. (risos) Eu sou assim, sei que se está com a minha mãe, está muito tranquilo. Administrar isso para mim nunca foi problema.

Eu tive alguns problemas... Não problemas... O meu marido, o Marcelo... Até hoje eu vou de sábado. A oficina acontece aos sábados, eu tenho que ir aos sábados! Tenho que estar junto com a minha equipe. Às vezes ele reclama que eu trabalho muito, que eu trabalho aos sábados. Porque trabalhar em ONG a gente se dedica, trabalha muito mesmo, a gente se envolve no trabalho. Mas é tranquilo, eu administro bem. Dá para levar.

 

P/1 – Do tempo que você entrou na Gol de Letra, o que você acha que mudou para você na sua vida, no seu jeito de ver as coisas? Você acha que mudou muita coisa?

 

R – Teve, mudou muita coisa. Acho que eu conheci, faço parte de um processo que dá resultado, que é honesto, e que realmente transforma a vida das pessoas - ou dá um empurrãozinho, porque a gente não transforma, a gente só empurra para a pessoa transformar sozinha. Então o meu modo de ver as coisas mudou. Eu me tornei mais crítica, mais consciente das minhas escolhas, mais consciente das consequências das minhas escolhas, mais consciente da ação do meu trabalho. Fiquei muito mais consciente sobre isso.

Acho que mudou, sem dúvida, muda todos os dias. Aprendo muito. Acho que a gente, quando trabalha com outras pessoas, é uma coisa diferente a cada dia. Não é igual a você trabalhar numa empresa, que você entra, sabe o que você vai fazer durante aquele dia, e sai já sabendo o que vai fazer no dia seguinte. Não, cada dia ali é uma coisa muito nova. Eu vivi coisas muito intensas ali na fundação, de questionar a minha própria capacidade, questionar o meu projeto pessoal. E estou lá, continuo aprendendo.

 

P/1 – Então, se você pudesse traduzir a Gol de Letra em palavras, como você traduziria?

 

R – Eu falei um pouquinho. Acho que... Tradução... Eu acho que eu usaria as mesmas palavras que usei no comentário anterior. Eu acho que a fundação, ela transforma, ela ajuda... Ela não transforma, ela ajuda a transformar, quem transforma é a pessoa. Ela é eficaz, é efetiva, porque a gente vê que quando a pessoa sai dali, ela leva o que viveu ali. Ela está ali para o bem, ela é um pontinho de luz ali naquela comunidade, ela é um ponto de luz, realmente.

 

P/1 – E você, olhando a sua trajetória, olhando para trás, os estágios que você passou, essa batalha que você teve, sua família, a entrada na Gol… O que você diria de lições que você tirou?

 

R – Lições? Eu acho que humildade é uma grande lição. Tem uma lição que eu ainda estou praticando para ver se aprendo, que é diminuir a ansiedade, ter mais paciência. Porque a gente vive num mundo que é um mundo... Ele te engole. O tempo inteiro é aquela ânsia de querer dar conta e tem coisas que eu não vou conseguir dar conta. E para mim é difícil admitir que não vou conseguir dar conta. Porque se com treze eu dava conta de cuidar dos meus irmãos, se com quinze eu dava conta de trabalhar, eu tenho que dar conta de algumas coisas - na minha cabeça. Agora eu sei que na verdade as coisas não são assim. É uma lição que eu estou praticando ainda. Aprender que eu tenho limites. Posso nomear assim para você.

 

P/1 – Beleza. Tem alguma coisa que você queira deixar registrado, que eu não tenha te estimulado a falar?

 

R – Não sei, acho que não. Quando eu contei da minha trajetória dos estágios, eu falei daqueles dois lugares que eu trabalhei, falei... Não tinha falado ainda, é uma parceira da fundação, a KPMG e a Tok&Stok. Conheci o meu marido num estágio que eu fiz entre esses dois, que foi na Sabesp.

 

P/1 – E como foi isso?

 

R – Foi muito estranho, porque eu não gostei dele logo de cara. (riso) Mas acho que foi amor à primeira vista. E aí rolou, foi muito bom.

 

P/2 – Como é que ele se chama?

 

R – Marcelo. Foi um aprendizado para mim, porque o Marcelo, a família dele, eles sempre viveram em Guaianazes, que é uma comunidade muito carente. E aí tem uma coisa interessante, porque eu já tinha, a minha família tinha uma condição mais razoável. Então eu tive um pouco de trabalho para conseguir entrar na família, porque eles achavam que eu era muito diferente. Mas hoje está tudo certo, tenho um excelente relacionamento com eles, amo meu marido e minha filha. E é isso aí.

 

P/1 – E o trabalho, e enfim... (risos)

 

R – Tudo, né? Fico brava, fico nervosa, fico irritada. Mas as coisas vão, os dias passam, e é assim que a vida é, né?

 

P/1 – Ah, então é isso.

 

P/2 – Parabéns.

 

P/1 – Muito obrigada pelo depoimento.

 

R – De nada.


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