Busca avançada



Criar

História

Conversa de mulher

História de: Martha
Autor: Martha
Publicado em: 23/07/2016

Tags

História completa

Nunca tive como objetivo de vida ser mãe. Não acredito que este desejo seja nato nas mulheres. Durante anos tive a certeza absoluta que não queria tê-los naquele momento, que não era a hora. E que quando a hora chegasse, se chegasse, eu saberia. E assim foi. Chegou a hora. De repente me vi pensando nisso, desejando isso, considerando essa hipótese, ponderando as alterações que isto implicava, me planejando. Me vi grávida da ideia de estar grávida.

E assim, estava iniciando um percurso desejado, mas que me trouxe vivências inesperadas, doloridas e reveladoras. Após alguns meses de tentativas, grávida! A sensação foi fantástica, muita felicidade e muitos medos. O normal de uma gravidez planejada.

Em 6 meses estive grávida por duas vezes e, nas duas vezes, o embrião não se desenvolveu. Nas duas vezes tudo correu bem até a 8ª semana e depois tudo parou, acabou.

Na primeira perda foi tudo muito estranho, assustador, muito triste. A hora que a médica me informou, não acreditava. Por momentos duvidei se aquilo era real, se eu era real, se a notícia era real. De repente fui arrancada da realidade e fiquei por uns minutos num mundo paralelo, onde nem sequer ouvia direito.

Senti vergonha, tristeza, a maior frustração da minha vida, fracasso, inaptidão para ser mãe, culpa. Senti tudo aquilo que a maioria das mulheres que passam por isso descrevem que sentem. Não imaginava que os meus sentimentos seriam tão fiéis às descrições de outras mulheres. Ainda que os médicos expliquem que isso é normal, que a natureza é sábia e se tal fato aconteceu é porque biológicamente não daria certo, que a mulher não tem culpa nenhuma disso, que não havia nada que pudesse fazer para evitar isto, que a chance de isso ocorrer numa gravidez é de 20%! Todos esses dados verdadeiros, racionais e científicos de nada servem para acalmar a quantidade inumerável de sentimentos que surgem com esta experiência. É avassalador e inesperado. E , a mim, me revelou uma coisa muito óbvia, mas pouco lembrada: não temos o controle do mundo, controlamos algumas coisas, mas outras não. Mesmo que estas aconteçam dentro da gente, mesmo que a gente as deseje muito, mesmo que a gente tenha feito "tudo certo". Pode dar certo ou não. Não há garantias, de muitas coisas...

Na segunda perda a situação foi um pouco diferente. Durante o período de gestação saudável fiz de tudo para acalmar o medo, natural, de não dar certo de novo. Estava com o medo sobre controle, mas vivo. E, ao receber a notícia, pensei “o medo venceu”. Desta vez não senti culpa. Senti raiva, muita raiva, uma raiva que nunca tinha tocado. Raiva acompanhada dos sentimentos de tristeza, incompetência, fracasso, desilusão, a segunda maior frustração da minha vida.

E, por mais que a gente ache que não aguentaria, a gente aguenta. Porque não há outra hipótese. Só há uma, ir lidando com a situação. Cuidar da dor, aconchegar a perda, aceitar que não temos o controle de muitas coisas e há muitas coisas que simplesmente acontecem, à nossa revelia.

E, com tudo isso, descobri algo que me chamou muita atenção. Até o momento sabia de pouquíssimas mulheres que haviam passado por isso. Ao contar o ocorrido para os familiares e amigos, comecei a descobrir que há muitas mulheres que conheço que passaram pela mesma situação. Tias, primas, amigas, amiga da amiga, conhecidas, muitas. Tiveram abortos naturais, gestações interrompidas, histórias de dor. Fiquei inconformada com o segredo que existe em torno deste assunto. Sabemos que não há (nos casos “naturais”) responsabilidade da mulher, não foi culpa dela. Mas nós, mulheres, continuamos a propagar um padrão machista de sociedade onde não há espaço para falarmos de coisas de mulher. Aborto, gestação, menstruação, dificuldades (normais) da maternidade. Falamos pouco disso. Falamos disso em pequenos núcleos. Não falamos disso.

Acredito que se soubesse de todas as histórias de aborto antes dos meus, minha dor não seria menor. Mas não me sentiria tão sozinha, tão culpada, tão incompetente. Saber que há muitas mulheres que também passam por isso, nos coloca em um coletivo, passamos a fazer parte de um grupo, grande. E isso, naturaliza a situação. Não impede a dor, mas não nos sentimos como um erro da natureza.

Por isso escolhi contar esta parte da minha história. Porque acho que é a história de muitas mulheres. Que é uma história comum, mas pouco assumida, muito escondida. Então, acho que precisamos falar mais disso.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+