Busca avançada



Criar

História

Contribuindo com a cultura nipônica no Brasil

História de: Toraju Endo
Autor: Ana Paula
Publicado em: 07/06/2021

Sinopse

Vinda de Toraju do Japão para o Brasil. Sua chegada e estadia. Sua vida profissional e em comunidade. História de Sete Barras.

Tags

História completa

Projeto: Museu em Rede Realização Instituto Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de Toraju Endo Entrevistado por: Rosana Sete Barras, 05 de fevereiro de 2010 Código: MRI_CB005 Transcrito por: Sara Pereira Gonzaga Revisado por: Thayane Laranja dos Anjos P/1 – Senhor Toraju, quero começar perguntando o seu nome completo? R – É Toraju Endo. P/1 – Qual é a data de nascimento do senhor e o local? R – Dia 10 de abril de 1936, na cidade [Orio?] “de” província de Fukushima. P/1 – Quando a família do senhor veio para o Brasil? R – Ah... Família não, só eu que “veio” e sozinho, né, em 1957. P/1 – O senhor resolveu migrar porquê? R – Porque meu tio morava no Brasil. Então depois da Segunda Guerra Mundial, o Japão estava muito ruim e o meu tio me chamou para o Brasil. “Você quer vir para Brasil? E você pode vim.” Então eu vim para o Brasil. P/1 – Qual cidade do Brasil o senhor chegou? R – Primeira cidade? Cheguei na Floresta, estado do Paraná. P/1 – Seu tio estava lá? R – Estava lá. P/1 – E como era a cidade nessa época? O senhor estava com quantos anos? R – “Era” 21 anos. A cidade era tipo aldeia, não tinha muita casa. Chamava de cidade só que não tinha nem casa, então não tinha nada. Só colônia japonesa misturada com brasileiros. P/1 – O senhor foi trabalhar lá? R – Fui trabalhar em cafezal. P/1 – O senhor fazia o quê? R – Eu colhia café mesmo, trabalhava só no cafezal. P/1 – Quanto tempo o senhor ficou lá? R – Fiquei quase 10 anos no Parará, então... Na verdade, não foram 10 anos completos. Depois caiu aquela geada grande, matou todo o cafezal e preferi ir para longe em um lugar onde não caia geada, então escolhi aqui um lugar mais quente. O meu amigo tinha sítio aqui em Formosa, na Sete Barras, me ofereceu esse sítio, comprei e me mudei para Sete Barras. P/1 – Em que ano o senhor se mudou? R – Era 1963. P/1 – Como é que era Sete Barras em 1963? R – Praticamente não tinha nada em Sete Barras, só tinha pastagem no meio. O lugar onde tem agora rodoviária tudo era pasto, né. Tinha uma casinha e um pasto. Lá do outro lado era bananal, não tinha nada. Só Sete Barras embaixo que começou, à beira do rio. Então a cidade de Sete Barras só era embaixo, só uma avenida pequenina, não tinha outra coisa. P/1 - E o senhor veio fazer o que? Do que era o sítio que o senhor veio trabalhar? R – Em colônia Formosa tinha mais ou menos 24 famílias de japoneses, então nós plantamos chá, abacaxi, goiaba, gengibre, banana e mais tarde comecei plantar antúrios, sabe? P/1 – Plantava o quê? Chá? R – Chá, abacaxi, goiaba e banana nós plantamos pouco… P/1 – E antúrios? R - Ultimamente comecei a plantar antúrio. P/1 – Porque antúrios? É bom pra pegar? R – Antúrios é flor, né? Então comecei a plantar antúrios de 3 mil pés. Só que adoeci com intoxicação de venenos, caí na cama e não pude trabalhar mais. Então, o doutor disse: “Você não pode mais usar veneno e se você usar veneno, você vai morrer”. Porque eu estava bem intoxicado, eu estava ruim, me dei morto mesmo. Depois meu amigo aqui, tinha secos e molhados embaixo, o senhor Hashimoto que me chamou pra trabalhar: “Vem pra cidade e trabalha junto comigo?” Então, largamos tudo, a lavoura que plantava e viemos pra Sete Barras e isso depois de já passou uns… Em que ano que foi? Foi em 1974 que adoeci. P/1 – E aqui na cidade o senhor veio trabalhar? O que eram secos e molhados? Era um armazém do seu amigo? R – Isso, armazém, balconista. Comecei a trabalhar, como fui intoxicado, não aguentava ficar em pé e o senhor Hashimoto queria ajudar a gente, mas não podia. Depois fui internado no Hospital de Cotia, em São Paulo, Pinheiros. Fui internado lá com uma, duas ou três semanas, voltei e depois fiz tratamento no Hospital Pariquera e o doutor _______ na época que me tratou. Graças a Deus, sarou, acabou a intoxicação. P/1 – O senhor continuou trabalhando no Secos e Molhados? R – Parei de trabalhar no Hashimoto, fiz tratamento uns tempos e comprei um caminhão porque não pude trabalhar assim. Com o caminhão, motorista dia que quer trabalhar trabalha, dia que não… Autônomo, não precisava me obrigar trabalhar no dia. Fiquei trabalhando como caminhoneiro fazendo fretes, um dia para outro carregando bananas, mais tarde carregando bananas para exportações. Ajudei bastante para embalamento de banana para exportação. P/1 – Isso em que época? Que ano a gente estava? Em que ano foi isso? R – Olha, em 1975, 1976 por aí. P/1 – E como estava Sete Barras nessa época? Já era cidade de Sete Barras? R – Já era cidade. Naquela época, movimentava muito as exportações, a economia da cidade, tudo era exportação de banana, era muito boa. P/1 – Era rico? Como era? R – Bananeiros estavam tudo contentes naquela época. Realmente, bananeiro e fazendeiro comprava tudo ano carro novo [risos]. _______ mas depois de passar um tempo e essa enchente grande que veio, acabou em nada o bananal, acabou tudo… P/1 – Foi uma enchente que acabou? R – Enchente que acabou… P/1 – Foi uma enchente que teve? R – Duas enchentes que teve, foram grandes e acabou o bananal. P/1 – Essas enchentes foram quando? R – Eu não lembro... Em 1900. P/1 – 1970? R - É, 1970 ou 1975 poucos por aí. Mais tarde, não lembro bem a data, mas acabou. A enchente acabou com o bananal. P/1 – Depois o senhor continuou fazendo frete por quanto tempo? R – Acabou, perdeu o serviço de exportação. Então, comecei a trabalhar para a fábrica de polpa de banana, aquele que é refogado, banana que não prestou mais e carregava para fábrica de polpa de banana. Trabalhei quase 15 anos no registro, né? Trabalhei bastante tempo. Nesse tempo, o dono da fábrica se chamava Guido, italiano. Depois continuei trabalhando, mas a maioria do meu trabalho era freteiro. Nessa época, meu filho de repente acidentou-se e precisou fazer tratamento, tudo. Então, nós estávamos já estável, só que quando ele se acidentou precisava de tratamento em São Paulo e tudo que tínhamos na economia eu perdi, gastou tudo pra filho, só que graças a Deus recuperou e está trabalhando agora como professor de música, fazendo gravação, graças a Deus. P/1 – E aquela história que o senhor estava contando lá fora? R – De quê? P/1 – Da lenda. R – Bom, eu sei que li uma história da Sete Barras. É tempo da coroa portuguesa e naquela época dizia que surgia uma lenda. Um garimpeiro espanhol que veio na Sete Barras carregava sete barras de ouro. Esse senhor não queria passar pelo o posto de fiscalização de registro da coroa portuguesa, queria ver caminho para escapar da fiscalização e perguntou para índio: “Como é que vou escapar desse posto de fiscalização?”, e o índio ensinou o caminho para ele, mas disse: “Você quer mais garimpar ouro? Eu vou ensinar onde tem mais ouro aqui”, então o índio ensinou pra ele para garimpar, era ganancioso, né [risos]. Então garimpou mais e trouxe as setes barras de ouro, disse que escondeu em algum lugar da aldeia do índio e chamava Gointaoga, escondeu essas barras de ouro, foi garimpar, passou uns tempos, voltou para o lugar de partida e procurou esses ouros onde estava escondido. Cadê a barra de ouro? Não achou mais, então esse espanhol ficou triste, sem ouro, sem nada e voltou para a sua terra. Essa é a lenda, esse nome que surgiu Sete Barras de ouro. Por isso, aqui na praça colocaram as setes barras de ouro, o monumento tem sete barras de ouro. P/1 – Como que é o nome da aldeia? R – Gointaoga. P/1 – Como? R – G – O – I - N – T – A – O – GOA. P/1 – H? R – G-O-A, esse é o nome do índio. P/1 – Ah... essa é a origem do nome. R – Depois… P/1 – Então a gente pode achar ouro aqui, hein?! R – É pode sim [risos]. Depois, o fazendeiro José Carlos de Toledo, que doou dois lotes de terreno para essa área, construiu uma capela da Divina Santa Maria. Acho que é Divina Maria Santa. E começou povoar, formar a cidade Sete Barras. Então, homenageou o nome dele na avenida aqui em Sete Barras, Avenida José Carlos de Toledo, o nome dele está homenageado. P/1 – Ah entendi… R – Acho que é essa história, né [risos]. P/1 – Desde quando o senhor chegou aqui até hoje quais foram as principais transformações de Sete Barras? R - Olha, não tem muita mudança, mas expandiu o terreno. Quando o senhor Yamane tinha terreno aqui, loteou, fez loteamento para expandir a cidade e assim começou a crescer para a cidade. Então o senhor Yamane veio do Japão pequenininho, morava no areado, veio para Sete Barras, tinha terreno grande ali perto do Ginásio de Santana, tudo é terreno dele, era. Doou uma parte para escola e tinha aqui um campo grande que fazíamos festa sempre em sete de setembro, gincana Undokai. Tudo fazia lá, japonesa, juntos com brasileiros fazia essa gincana e participei bastante. Em 1970 ainda, aqui era campo velho e nós fazíamos 50 anos de Migração Japonesa nesse campo, então era muito boa, né? P/1 – Hoje o que o senhor faz? R – Sou aposentado e tinha uma loja de eletrodomésticos e móveis. Só que agora passei para filho, estou de idade então não pode segurar até morrer. P/1 – Quais são os lugares da cidade que o senhor frequenta hoje, aqui em Sete Barras? R – Olha, eu frequento registro, atividade social também do ______ que vou participando diretamente. Sempre estou lá ajudando na festa. P/1 – Que festa que é? R – Festa de _______ de participando sempre que é convidado pra lá, mas para fim de _______ , Bon Odori, Tanoaria, registro famoso que participamos diretamente lá fazendo comida típica japonesa. P/1 – Aqui em Sete Barras tem alguma festa local? R – Sete Barras já é a quarta festa de nipo-brasileira, o dia municipal da comunidade nipo-brasileira que a câmara criou em mil... Lei municipal n° 1400 que criou essa lei do dia municipal da comunidade nipo-brasileira. Então nós festejamos esse dia no quarto domingo de maio. Todo ano esse dia vamos fazer festejo. P/1 – O senhor tem algum fato marcante que aconteceu aqui em Sete Barras que o senhor acha importante deixar registrado? Deve acontecer várias coisas, alguma coisa que aconteceu na cidade que o senhor vivenciou, que o senhor acha importante. R – Olha, Sete Barras… P/1 – Algum causo? R - Causo não tem muito né, 50 anos. Aniversário da emancipação política administrativa fez festejo lá na câmara municipal. P/1 – Como é que foi a festa? R – Foi bom, muito bom. P/1 – Como foi? R - A banda de Garça branca, né, que tocou o hino nacional, foi muito gratificante participar. Muito bonito. Depois a cidade Sete Barras já tem vários prefeitos japoneses, vice-prefeito, seu (Admiro Camatra?), agora a dona Nilce. Isso é marcante, né, para Sete Barras. Na verdade, a imigração começou aqui em Sete Barras em 1920. Na verdade, diz que vai chegar no centenário em 2013. Então tem que ser em 2013, só que a história que eu vi é em 2020, por isso mesmo o cinquentenário aqui em Sete Barras foi realizado em 1970. Sete Barras é um pouquinho atrasado que Iguapé. P/1 – Porque os japoneses migraram para essa região? Porque eles vieram pra cá em 1920? R – Imigrou aqui em 1920 para 1927, durante esses cinco e seis anos vieram 641 pessoas, dizem. O motivo é plantar arroz, porque já plantava arroz naquela época. P/1 – Fim da primeira guerra… R – Fim da primeira guerra e aquele que queria se aventurar um pouquinho veio pra cá. Plantou arroz, que todo mundo esperava terra fértil mas não era. Terra muito pobre e plantava não colhia quase nada. Durante cinco e seis anos diminuiu quase metade, saiu tudo fora para buscar uma vida melhor, subiu para São Miguel, ficou aqui esse senhor Hashimoto ajudou fundar a cidade, crescer e como _______ dirigia Associação Japonesa. O nome era Associação Japonesa naquela época, depois mudou para Associação Nipo-brasileira, em 1970 que mudou o nome e fizeram 50 anos. Então como ele se dedicou muito na sociedade, Sete Barras e os japoneses, ele foi comendador também, senhor _______, Sete foi homenageada... também nome de Sete Barras, Registro e o nome dele que está homenageado. Essas coisas são marcantes para a sociedade, né. P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje? R - Maior sonho? Viver tranquilidade, viver _______ sociedade melhor e eu agradeço essa oportunidade de contar alguma história de Sete Barras. Sempre agradeço a Sete Barras, acolheu bem a gente e me dei bem em Sete Barras. Então em 1990, eu trabalhei também e exerci cargo de Associação Comercial da cidade em 1997, 1998, 1999 até 2000 e dirigia, depois eu passei para outras pessoas. P/1 – O que o senhor achou da experiência de estar contando essa história aqui pra gente? R – Muito gratificante, para mim é muito boa. Foi reconhecida, trabalhei bastante e também fui homenageado no cidadão de Sete Barrense, ganhei, muito obrigado Sete Barrense. Agradeço e é muito gratificante pra gente que veio do Japão sem saber de nada, até agora estou falando muito mal o português por causa da escolaridade que não tenho em português, aqui no Brasil não estudei nada então só na prática que aprendi [risos]. P/1 – Muito obrigado pelo seu depoimento. R - Muito obrigado por essa oportunidade. Arigatô! --- FIM DA ENTREVISTA ---
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+