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História

''Continuo muito sionista''

Sinopse

Samy e Ruth Cohen são casados e em sua entrevista descrevem costumes judaicos e sua influência em inúmeras cidades que passaram ao longo de suas vidas.

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História completa

EG- Sr. Samy, vamos começar pela sua infância. Eu gostaria que o senhor me contasse onde o senhor nasceu, o nome da sua cidadezinha. Me falasse um pouco, descrevesse a cidade, não sei se é um povoado, o que é. Como era a sua vida, o que o senhor lembra dos seus pais. A sua infância.

 

SC- Nasci na România, numa cidade que se chama Stefaneschi, no norte da Moldávia. Moldávia é a antiga România, que já existia como país independente, antes da primeira guerra. A cidade é situada ao lado do rio Prut, que é um afluente do Danúbio. A cidade tinha praticamente só judeus.

 

EG- O senhor lembra assim, tem uma idéia de quantos judeus teriam lá? Que tamanho?

 

SC- Uns 8 mil judeus. E toda a cidade tinha, provavelmente, menos que 10. Tinha uma cidade, uma corte rabínica. Tinha um rabi de uma conhecida família de rabinos. Se não me engano, se chamava Rabi Friedman. E, o que me parece, sem ter a certeza, é que estava da mesma família em que os Lugovitz. A corte, na cidade, era bonita e o rabino tinha uma grande fama na região. E essa fama ia até... cobria não só a Moldávia, ia até Bucareste, que era vizinha, segunda parte da antiga România, e Bessarábia. E gente de longe chegava para receber a benção do rabino, que era um homem inteligente, era um homem que dava conselhos, mas que, normalmente, se limitava a rezar para o bem da comunidade e do pessoal que ia consultá-lo. Tinha várias sinagogas...

 

EG- Mas ele era rabino chefe, digamos.

 

SC- Não. Ele era um rabino, no sentido do rabino Lugovitz. Não tem nada com a sinagoga. As sinagogas eram... eram normais, como tem em qualquer outra cidade.

 

EG- Cada uma com o seu rabino.

 

SC- A cidade vivia especialmente de comércio, pois comprava todos as cereais da região e vendia para os vilarejos, ainda menores, todo tipo de comida, de vestidos, etc.

 

EG- Que idioma se falava? Ídiche?

 

SC- Se falava iídiche e romeno. E eu nasci falando ídiche. E depois, logo, logo, comecei a falar romeno, porque comecei a ir à escola.

 

EG- O senhor pode nos contar sobre a sua família, especificamente? Seu pai, sua mãe.

 

SC- Meu pai morreu quando eu tinha 2 anos de idade. Ele morreu de ferida que ele contatou na primeira guerra. Ele deve ter morrido lá pelo fim de 1918, coisa assim. E minha mãe era uma senhora bonita, muito trabalhadora, e quando meu pai morreu, tinha a tarefa de educar 3 moças e a mim, que era o menor. Uma família bastante pesada. Ela deliberou, então, de abrir uma pensão. Como era viúva de guerra, ela tinha direito a negociar tabaco, tinha uma licença especial para negociar com tabaco, e com álcool. Então, a nossa casa, que tinha 3 quartos, o quarto da frente foi 

 

dividido em dois e lá se vendia para os visitantes, se vendia álcool e alguma comida que a minha mãe preparava.

 

EG- O senhor tinha mais, além da sua mãe e das suas irmãs, tinha mais família nessa cidadezinha? Avô...

 

SC- Tinha. Nessa cidade, minha mãe tinha um irmão e meu pai tinha um irmão. Mas eles não tinham condições, nem queriam, provavelmente, ajudar muito. De maneira que minha mãe tinha que lutar sozinha.

 

EG- Uma coisa muito difícil, né?

 

SC- É, muito difícil. E eu fui à escola estatal, que tinha também...

 

EG- Não Reder.

 

SC- Não. Tinha. Eu fui a Reder, comecei com o Reder, até a idade de 7 anos. Aliás, no meu caso, foi até a idade de 6 anos. Eu já fui para a escola com 6 anos. Apesar que a idade era 7. E eu fui. Tinha que ser declarado um ano mais velho, para poder entrar na escola.

 

EG- O senhor já estava interessado em estudar.

 

SC- É. Estava. Agora, tinha uma escola judia e tinha uma escola do Estado, onde a gente podia estudar. Então, deliberaram, para facilitar mais minha vida, me mandaram para a escola do Estado, para não precisar, depois, de dar um exame de equivalência. Lá já tinha um pouco de anti-semitismo.

 

EG- Um momento. A sua mãe, na sua casa, vocês mantinham assim as tradições judaicas? Era uma casa kasher?

 

SC- Não. Não muito. Quer dizer, kasher era. Porque numa cidade dessas, pequena, você não podia não ser kasher. Mas não era uma coisa sagrada. Agora, eu ia, por exemplo, minha mãe me levava várias vezes por ano, para receber a benção do rabino. E quando eu fiz Bar-Mitsvá, eu fiz Bar-Mitsvá na sinagoga do rabino.

 

EG- Desse rabino Friedman.

 

SC- Que como Cohen, podia dar a benção para o rabino. O que era uma grande honra para a gente. O rabino era um monarco, naquela pequena cidade. De maneira que eu cresci lá, a cidade era uma cidade, não era tão religiosa a cidade, ela mesma; tinha, naturalmente, Chassis, tinha, todo sábado de noite, na corte de rabino, tinha um jantar e os Chassis se batiam entre eles para poder comer o "sheran".

 

EG- Os restos.

 

SC- Os restos. Mas era uma cidade muito sionista. A cidade, na época, eu me lembro um jornalista judeu, escrevia para a Tribuna Judaica, era o jornal que... o jornal do Partido Judeu. Nós tínhamos um partido judeu, na România, que, inclusive, mandou deputados, um deputado, eu acho, ou dois, para o Congresso. Ele chamou Stefaneschi, o Jerusalém da Moldova. E nós, desde a infância, estávamos educados para olhar como nosso país Israel. Palestina, na época. Mas eu fui, continuei na escola, lá, participei de...

 

EG- Grupos juvenis, o senhor participava?

 

SC- Grupos juvenis. Cheguei, depois... Depois, na idade de 10 anos, quando terminei a escola primária, me mandaram para estudar numa cidade maior, que era a capital do distrito, que se chamava Botosani, onde eu estudei o ginásio.

 

EG- E o senhor morava onde?

 

SC- Eu morava nessa... Em Botosani, eu morava com uma família, onde eu tinha que pagar alguma coisa. Mas fui só os primeiros dois anos. Depois disso, eu recebi uma bolsa. Eu já tinha a bolsa, para poder entrar no liceu de Botosani. Pois, senão, a minha mãe não tinha condições para pagar. Depois, eu recebi uma bolsa para entrar na cidade de Iasi, que foi já uma cidade bem maior. Devia ser uma cidade de uns 80 mil habitantes. Era uma cidade enorme. E essa era a capital da Moldávia, de toda a Moldavia. E lá, eu entrei num ginásio, muito famoso, que se chamava Liceu Ninterlat. Lá, estudei 3 anos. E depois, os últimos dois anos, já não tinha mais bolsa lá, então fui dar um exame em outra cidade, um outro distrito, que se chamava Dorohoi. E lá que eu terminei meu ginásio. Primeiro, pelas notas, em toda a România. E...

 

EG- Aonde que o senhor se preparou para a Bar-Mitsvá, se o senhor diz que não estava mais morando na sua cidade?

 

SC- Não, mas eu morava lá.

 

EG- Em Botosani?

 

SC- Não. Eu morava em Stefaneschi. Agora, de setembro até junho, eu estava em Botosani, Iasi, Dorohoi, estudando. E, toda vez quando tinha férias, como por exemplo, férias de Natal, férias de... as grandes férias, era 3 meses, as férias de.... De maneira que eu mantive o contato permanente. Então, quando fiz Bar-Mitsvá, fiz em Stefanes Ti mesmo.

 

EG- Mas o senhor só estudava... Porque o senhor disse que saiu do Reder. O senhor continuou com os estudos judaicos?

 

SC- Não, mas... Não, mas eu saí de Reder; mas os primeiros 4 anos, até a idade de 10 anos...

 

EG- Eram bastante firmes. 

 

SC- Eram para mim bastante firme para poder, depois, fazer Bar-Mitsvá. Depois, quando nós chegamos... Na cidade, também, na Stefaneschi, tinha uma biblioteca, que era um tipo de biblioteca e no mesmo tempo era um lugar onde tinha a sociedade Macabe, para fazer exercícios físicos, tinha Codorna, onde nós tivemos "sirop", onde nós ensinamos, durante as grandes férias, as coisas que a gente estudava no ginásio, para os jovens que não tinham condições fazer...

 

(Interrupção de gravação)

 

SC- Tinha um movimento contínuo.

 

EG- Era como um centro comunitário, o senhor me explica.

 

SC- Exato. Era um centro comunitário. E lá nós tínhamos, nos encontramos. Era a única distração, pois a cidade não tinha luz, não tinha "shuedi"...

 

EG- Esgoto.

 

SC- Esgoto. Não tinha, praticamente até que eu deixei a cidade para ir à Palestina, não tinha água da torneira. Então, lá, nossa única distração era se encontrar nesse centro comunitário. Tinha sempre um.. uma "cirá" sobre um assunto qualquer, com debates. E depois, a gente, era a maneira de garotos e garotas se encontrarem e conviver juntos. E tinha também "shalimar", de Palestina, que vinha para nos instruir em sionismo.

 

EG- Qual era o nome das suas irmãs?

 

SC- Rifka, Hanna e Ida.

 

EG- Elas eram muito mais velhas que o senhor ou pouquinho?

 

SC- Bastante.

 

EG- Alguma delas chegou a casar?

 

SC- Sim. Casaram todas as três. Em Israel. E morreram lá.

 

EG- Ah, chegaram a sair. Quer dizer que elas tinham, talvez, uma vida... Mas a vida delas era mais ou menos parecida com a do senhor?

 

SC- Não. Era uma vida um pouco diferente. Porque tinha uma grande diferença entre o garoto que estudava numa cidade maior e o pessoal que ficava na pequena cidade, onde, praticamente, não tinha nenhuma, nem a mínima sofisticação.

 

EG- Entendo. Elas estudavam, digamos, só até o final do primário e...

 

SC- É. E acabou.

 

EG- E acabou. E o senhor, porque era tão talentoso, seguiu.

 

SC- E eu porque era, provavelmente, porque eu era o único homem.

 

EG- Não, mas o senhor tinha talento. O senhor diz que conseguiu notas tão boas!

 

SC- Eu tinha 4... 4 mulheres. E tinha uma irmã; a irmã mais velha, que me adorava. E que pensou que eu tinha talento, tenho capacidade. E foi a razão que elas se sacrificaram, muito, para poder me mandar, naqueles primeiros dois anos, para Botosani, para come... para estudar. Apesar que se a gente pensa, hoje, o que que isso representava, representava nada. Porque eu, praticamente, com dificuldade, sobrevivia.

 

EG- É. Mas para elas era um sacrifício.

 

SC- Era um sacrifício. Porque elas deviam, provavelmente, renunciar a um vestido ou qualquer coisa, para poder me sustentar.

 

EG- Por que que o senhor disse que já nesse princípio, quando o senhor disse que acabava o primário, já se sentia anti-semitismo?

 

SC- 

 Tinha Konjac, que era o líder do anti-semitismo romeno, já em 1920. Provavelmente, até antes da primeira guerra. Então, ser judeu, você tinha uma marca. O pessoal tinha que trabalhar mais para ser aceito. Tinha que, de vez em quando, simplesmente porque você era judeu, os garotos que eram cristãos iam até...

 

EG- Mas se o senhor diz, numa cidadezinha que tinha mais judeus do que não judeus, ainda assim, dava para sentir.

 

SC- Ah, mas... Dava bem para sentir isso. Porque eles se sentiam um calo.

 

EG- O senhor lembra que tipo de reação que o senhor sentia, a raiva, a frustração, acomodação? O que que?...

 

SC- Claro. Não. Era uma certa acomodação. Judeu sabia que tem que ser discriminado.

 

EG- Aceitava isso.

 

SC- Mesmo se tinha uma certa... Não chegava a abusos de tipo Hitler. Porque era mais luta de garotos inigual. Então, você sabia que você precisa se cuidar um pouco. Mas não chegava a conviver com o problema. Mas não chegava à dificuldades de não poder conviver.

 

EG- Quando o senhor sentiu que a situação começou a deteriorar? Porque eu vejo aqui que o senhor emigrou logo depois de ter terminado os estudos.

 

SC- É. Exatamente. Logo depois. Minha mãe até queria que eu estudasse direito na Universidade de Iasi. E eu me rebelei. Porque eu era muito bom estudante e eu ajudava muito os colegas que estavam. Apesar disso, quando tive um... tinha uma incidência, onde eles bateram em nós. Nós tínhamos um grupo de judeus, que era pequeno, relação... Estudei num lugar onde tinha 600 alunos. Dos quais, aproximativamente, 20 eram judeus. Então, a gente apanhava. Então, numa dessas oportunidades, eu deliberei: eu não quero mais saber de nada. Eu quero emigrar para a Palestina. Lá, eu entrei como "haluche"...

 

EG- O senhor tinha vontade de continuar a estudar ou o senhor abandonou esse desejo?

 

SC- Não, problema de vontade, tinha grande vontade. Mas não tinha meios. Eu saí da România com mais ou menos 5 libras no bolso. Não era ainda 17 anos, em 1934. E era... 16 para 34...

 

EG- 18.

 

SC- Não. Menos. Era 17 anos. E eu cheguei na Palestina, precisava me sustentar.

 

EG- A sua família concordou com esse fato do senhor emigrar?

 

SC- Não. A família não gostou.

 

EG- As suas irmãs e a sua mãe não gostaram.

 

SC- Não. Eles queriam que eu continuasse e estudasse direito. Mas eu insisti muito, que eu não vou estudar, porque esse não é meu país, um país onde eu era orgulhoso, que era romeno, recitava todos os clássicos romenos. E eu não fui aceito. Então, eu disse: esse não é meu país. Eu vou viajar para a Palestina.

 

EG- E o senhor foi sozinho. * Em 34, quando o senhor saiu, a situação já tinha piorado? Ou era...

 

SC- * Eu fui sozinho - Não. Ainda não era muito diferente de alguns anos atrás. Mas já tinha um movimento. E na universidade o movimento anti-semita era bem maior, era bem mais forte.

 

EG- Do que na rua, digamos.

 

SC- É. Nós tínhamos um "numerus clausus". Se aceitava só tantos judeus, em proporção a quantos tinha.

 

EG- Aí, o senhor foi para a Palestina. O senhor foi sozinho?

 

SC- Sozinho.

 

EG- O senhor não tinha uma indicação, amigo que tinha lá? Como?...

 

SC- Ah, eu fui como parte da Gorgônia. Então, lá, quando eu cheguei, eles, de fato, queriam que eu fosse para um kibutz ou qualquer coisa, mas eu não quis. Então, eu fui para Haifa. No terceiro dia da minha chegada, eu fui a Riscata Voda, da Riste Drut, e comecei minha vida lá.

 

EG- Trabalhando. Posso lhe perguntar, quais foram os primeiros trabalhos que o senhor fez em Israel?

 

SC- Bom, comecei, alguns dias, carregando pedras na rua, para fazer um estrada. E como eu estava muito frágil, muito... não era muito forte, o chefe lá me chamou e disse: - olha, esse trabalho é muito pesado para você. Eu vou te dar um bilhetinho para você receber um trabalho um pouco mais leve. - Eu fui. E depois me mandaram para um carpinteiro mais ou menos uma semana, estraguei um número de porta lá, que ele me deu para fazer, (riso) ele me mandou embora.

 

EG- Ele não queria mais saber do senhor. (risos)

 

SC- Exatamente. E depois disso, eu procurei um trabalho - como era um homem que terminou o ginásio, sabia francês e falava muito pouco hebraico, mas falava, porque a gente rezava sem saber o que que rezava, eu fui, então... E também, depois de Bar-Mitsvá, abandonei um pouco a reza e tudo mais.

 

EG- Mas continua sionista, pelo que o senhor fala.

 

SC- 

. Mas uma coisa não tem nada com a outra.

 

EG- Não. Sim, eu entendo. Porque senão o senhor não teria ido para Israel.

 

SC- Claro. Claro. Sionismo muito... Fazia parte do movimento e tudo mais. Mas lá, eu entrei como funcionário, numa agência marítima romena. E de lá eu comecei a desenvolver, eu estudei de noite economia, no mesmo tempo comecei a subir lá no serviço, passei de Haifa para Tel Aviv, fui lá chefe da agência em Tel Aviv.

 

EG- Quantos anos o senhor ficou em Israel?

 

SC- 1934 até fim de 49.

 

EG- Puxa! Muitos anos.

 

SC- Foi. Fui na Haganá.

 

EG- O senhor passou, então, a guerra.

 

SC- Mas claro. Eu fui na Haganá

 E nessa qualidade, eu fui até o Golfo Pérsico e lá trabalhei como assistente de um capitão do porto de Abadan. Depois, voltei, fui para o Foreign Trade Institute, que era a organização de exportação da associação de industriais, fui diretor lá. Nessa qualidade, até fui à Grécia, à Turquia, uma vez, logo depois da guerra, fui para Lyon, na França, para participar de um exposição. Todo esse tempo, eu fui membro da Haganá, e depois, na guerra de 48, nossa guerra de independência, eu fui capitão na Força Aérea Israelense. Sempre. Eu não voei. Mas eu fui no departamento de......... é o departamento que adquiria e transportava armamento.

 

EG- Até a guerra, o senhor se comunicava com a sua família, se escreviam?

 

SC- Comuniquei. Claro.

 

EG- E as suas irmãs, a sua família, saiu quando?

 

SC- Eu trouxe eles todos para a Palestina. Minha mãe morreu, em 46... Não. Que 46 durante a segunda guerra. Não sei exatamente. 44 ou coisa assim.

 

EG- Mas o senhor tirou a sua mãe e as 3 irmãs da Romênia.

 

SC- Não. Só as irmãs. Eu vou lhe dizer como. Eu tirei 2 irmãs.

 

EG- Quando que o senhor tirou? Antes da guerra ou já?...

 

SC- Duas irmãs, eu tirei antes da guerra. E uma irmã ficou com minha mãe e veio, ela, minha mãe morreu, e ela veio depois. Sozinha. Quer dizer, com o marido.

 

EG- Quer dizer, uma das suas irmãs passou um período da guerra na Romênia. E teve sorte, graças a Deus, que conseguiu sair.

 

SC- É.

 

EG- E essas 3 irmãs ficaram morando em Israel.

 

SC- É.

 

EG- Por que que o senhor saiu de Israel?

 

SC- Lá foi um caso muito especial. Eu estava casado...

 

EG- O senhor se casou em Israel?

 

SC- Me casei em Israel. Depois, não deu certo, eu divorciei. Eu fui depois a Londres, tentei, depois não deu, então, eu fui...




FITA 1 LADO 2



EG- Pronto. A gente já pode conversar. Depois de Londres... o senhor resolveu abrir novos horizontes.

 

SC- Depois, já Londres. Novos Horizontes. Lá em Londres, eu já fui diretor de uma companhia financeira. Nessa qualidade, eu vim a primeira vez, em 54, aqui no Brasil. Eu vi o que que é o Brasil. Depois, deliberei de voltar, estabelecer um tipo de filial da nossa companhia de Londres, aqui. Mas aqui já cheguei com dinheiro, com situação...

 

EG- O senhor chegou, na primeira vez, estava o Vargas, ainda, né. 54.

 

SC- É. Estava. Estava Vargas. Eu saí daqui... Eu cheguei em maio, saí daqui em 54, uma semana antes de que Vargas se suicidou. Aí, depois, voltei, em 55.

 

EG- Aí, já veio para se estabelecer.

 

SC- Sim. Já vim para me estabelecer. Encontrei aqui minha mulher, casamos aqui.

 

EG- Quer dizer que... Bom, no seu caso, não houve problema de adaptação ao país.

 

SC- Não. Quer dizer, tinha as coisas normais. Eu não tinha... Mas eu já cheguei, estava muito bem aceito pela sociedade brasileira e nunca tive o mínimo problema. Pelo contrário. Me entrosei muito bem.

 

EG- E as suas irmãs nunca quiseram vir para o Brasil?

 

SC- Minhas irmãs, não. Não queriam. Queriam ficar lá. Nem eu insisti muito. Porque não... Perdemos um pouco o contato. Era sempre contato de irmãos, mas bastante longe. Entendeu? Elas moravam lá, eu morei em Londres, eu chegava uma vez por ano para Israel, mas não tinha um grande contato.

 

EG- E qual é o nome da sua esposa?

 

SC- Ruth.

 

EG- E a sua esposa é nascida?...

 

SC- Ela nasceu no Egito, mas de pai... de mãe Israelense, já 3 gerações nasceu em Palestina. E o pai, que era de origem russa. Eles se encontraram no Egito.

 

EG- Uma última pergunta. O senhor sabe me dizer da sua família por parte  de pai, por parte de mãe, estavam sempre, assim, que o senhor se lembre, sempre estabelecidos na Romênia, já há muito tempo? Ou vieram de outros lados?

 

SC- É. Não. Estabelecidos na Romênia. A não ser... Eu até me lembro que o avô do meu avô, que morreu com 106 anos, já nasceu na România.

 

EG- Ah, então, uma tradição de longo tempo.

 

SC- É.

 

EG- E sempre, como o senhor diz, a ocupação principal da cidade, o comércio? Pequeno comércio.

 

SC- Comércio, artesanato. Coisa assim.

 

FINAL DO DEPOIMENTO



Dia 21 de junho de 1989.

Entrevistadora:Evelyn Gretz

 

FITA 1 - LADO 1

 

EG- Em primeiro lugar, eu vou lhe pedir que você me conte sobre a sua cidade. Se você lembra alguma coisa da cidade em que você nasceu, na casa em que você vivia.

 

RC- Eu me lembro da cidade de Alexandria, porque eu saí de lá, eu tinha 17 anos. Então, dá para lembrar. Era uma cidade muito bonita. Que nos meus olhos de infância, porque eu revi depois, tinha mudado horrores. (risos) Era uma cidade muito bonita e feita por várias colônias. Tinha colônia italiana, tinha colônia grega, tinha colônia francesa...

 

EG- Judeus, que você diz?

 

RC- Não. Várias colônias. Que cada um trouxe uma certa cultura para Alexandria, que era assim um pequeno... Tinha Beirute e Alexandria. Eram as grandes cidades do oriente, naquela época. Não conheço as outras, mas essas eram assim a Paris do "middle east". 

Nós tínhamos dois. E por isso que minha mãe nunca me forçou - fez muito mal, aliás, de não me ensinar árabe. Então,... No colégio, devia-se aprender árabe. Mas ela me dava um papel, que meus olhos estavam não sei o que, que estava míope, que não podia estudar árabe. Então, nunca estudei. Falava o que se falava com o empregado. Se... Sabe, me dá as coisas. Aí... Mas era uma cidade, primeiro, com uma "corniche" fantástica. "Corniche" que eu chamo, tinha, eu acho, 7 quilômetros...

 

EG- Eu sei. É orla marítima.

 

RC- Orla marítima. Tinha 7 km de praia. Com bonita areia. Praia linda. Então, já isso faz uma cidade linda, com essa... Tinha vilas lindas, tinha... tinha muita... Essa gente era muito rica. Então, tinha vilas esplêndidas e gente riquíssima. Judeus também. Judeus também.

 

EG- Você lembra da sua casa? Como era a sua casa?

 

RC- Me lembro da minha casa. Eu... Nós mudamos 2 vezes, eu acho. Eu já nasci... Não me lembro antes. Onde mamãe morou quando casou, não me lembro. Quando eu nasci, era um pequeno apartamento numa rua, como se fosse, vamos dizer, Copacabana. Depois, mudamos para uma vila que mamãe construiu. Tinha um judeu riquíssimo, que era um judeu, quase o mais rico de...do Oriente Médio, que vinha até de Bagdá, e que se chamava Smorra. Até os filhos dele estão por aí. 

Encontro, às vezes, um em Genebra, um em Londres, um não sei o que. E tinha 8 filhos. Até que minha mãe dava aulas de hebraico para os filhos, lá, pra 20 anos. E ele tomou um terreno, que não era um terreno, era como se fosse Copacabana toda, que era "maricage", era...

 

EG- Era um pântano, assim. Tipo. Um areal.

 

RC- Sim. Tipo. Com água. E  secou aquilo tudo e criou lá uma cidade. Uma pequena cidade. Mas só de vilas. Fez um clube, um Country Club, se chamava Smorra Country Club. E casas, tipo assim, de dois andares...

 

EG- Condomínio.

 

RC- Sim. Ele vendia, vendia as casas com o terreno. Aí, mamãe, que era muito ligada a eles, conseguiu comprar o terreno e construir e pagava não sei como, não me lembro, era pequena, e pagava. E construiu uma casa. Minha mãe era uma mulher absolutamente genial. Ela desenhou a casa. Eu e minha irmã, hoje em dia, quando a gente conversa... Você me diz se eu falo muito.

 

EG- Não está uma beleza. Eu estou adorando.

 

RC- Porque ela fez uma casa... Se você vê hoje... Ela fez "level". Eu e minha irmã, hoje em dia, nós rimos tanto quando pensamos quando mamãe fez essa casa, o salão baixo tinha um degrau para a sala de jantar, tinha uma escada para um quarto, depois tinha outra escada para outra quarto. Era tudo "split level", o que era de mais moderno, hoje. Ela fez isso, sei lá, há 40 anos atrás. Então, era uma coisa assim fenomenal essa casa. Bonita. Tinha 5 quartos. Quatro, eu acho. 4 ou 5. E um pequeno jardim.

 

EG- E aí que vocês tinham empregados?

 

RC- Tinha empregados. Uma ou duas, não me lembro. Acho que duas. E meu pai tinha uma farmácia, que era... Porque ele chegou numa época onde tinha desemprego, tinha não sei o que. Ele estava meio "déplacé". Porque era um filho, um menino de pais muito ricos, muito ricos, na Polônia, que eu até visitei quando era criança, que eles tinham monopólio de moinho de açúcar, naquela região. Então, me lembro daquela casa enorme... Me lembro muito mal. Eu tinha 4 anos quando fui visitar. Casa enorme. Eram riquíssimos. E perderam tudo. Fugiram. A minha avó me contava que deixou todos os "rubles" lá em cima, na casa, que ia voltar. E saíram com o que tinham. E meu pai era habituado a ir no concerto, adorava música. Estudou essa... engenharia comercial, não sei que engenharia, e era assim, "un peu fils sa papá". Quer dizer, não precisava trabalhar. Aí, quando ele chegou em Israel... Que eles saíram de lá para Israel...

 

EG- Ele saiu em que ano da... Rússia ou Polônia?

 

RC- Era já Rússia... Polônia... Não me lembro. O negócio mudou de fronteiras tantas vezes. Nasceu era Polônia. Porque eu nasci com passaporte polonês. Na...

 

EG- No Egito. Tinha passaporte do pai.

 

RC- No Egito. Eu tinha passaporte... polonês. Do meu pai. Todo mundo era polonês. Mamãe, papai. Tudo pelo meu pai. Mamãe, sabra. Nasceu lá. A mãe dela nasceu lá. Só o pai dela que nasceu na Iugoslávia, eu acho.

 

EG- E seu pai saiu em que ano? Em que ano que ele chegou no Israel? Mais ou menos.



RC- 18. Talvez, logo depois da Revolução. Enquanto a Revolução. Não me lembro bem. Eu sei que casaram em... Eu nasci, eu acho, um ano ou dois anos depois. Devem ter nascido... Devem ter casado em 24 ou 23. Vamos dizer que chegou em Israel em 20, 21. Por aí.

 

EG- Ele chegou sozinho?

 

RC- Não. Chegou com os pais dele.

 

EG- Mas como é que você disse que visitou a casa, na Polônia?

 

RC- Porque quando eu tinha... Essa é uma boa pergunta. Mas que eu foi, eu foi. Era... Peraí. Como é que eu foi? Eu tinha 4 anos. E de lá até voltei por Veneza. Tem um retrato até meu com... Então, como é que eles... Eles voltaram para lá?... Não sei. Sei que todo mundo veio para Israel. Só se meu avô... Porque eu nasci já com a minha avó dentro de casa. A minha avó paterna.

 

EG- O seu avô já estava falecido.

 

RC- Não. Minha avó paterna não. Naquela época, não. Ela veio mais tarde. Minha avó materna estava. Eu não sei se eles chegaram para Israel... Eu não me lembro. Porque eu acho que não tem túmulo do meu avô, tem túmulo da minha avó, no Egito. A minha avó paterna.

 

EG- Pode ser que ele voltou para a Polônia.

 

RC- Ou voltou... Ele deve ter chegado antes do meu pai ter casado. Senão, eu não teria ido lá com 4 anos. E eu vi a casa. Me lembro até de um grande cachorro. Posso até perguntar a mamãe. De vez em quando, ela vai e vem. Posso perguntar a minha irmã. "Anyway", eu nasci no Egito. Estava morando conosco a mãe da minha mãe.

 

EG- Quer dizer que era uma casa com bastante gente, né. Grande.

 

RC- Deve ter sido. A casa estava enorme. Mas eu me lembro da figura do meu avô.

 

EG- Que língua que vocês falavam em casa?

 

RC- Mamãe nunca falou russo. Papai falava 12 línguas. Na perfeição. Então...

 

EG- Sim. Mas a língua da família, o idioma...

 

RC- A língua da família era hebraico. Era hebraico. Porque papai e mamãe falavam hebraico. Eu, com minha irmã, só falamos francês. Porque no Egito, a gente falou francês. Íamos... fomos no Lycée francês e estudamos francês. Quer dizer, até hoje, eu só falo com minha irmã em francês. Mas com meus pais, na época, a casa falava hebraico e um pouco francês. E eles eram sionistas. Sionistas conhecidos. Eu me lembro, na porta do edifício, do apartamento, era o nome "mutter", em hebraico e "mutter", em "...". Em ...

 

EG- Árabe.

 

RC- Não. Em língua...

 

EG- Comum.

 

RC- Comum. Como eu escrevi agora. Em inglês, vamos dizer. "...mutter". Aí...

 

EG- E seu pai tinha farmácia.

 

RC- E meu pai tinha farmácia. Porque, como eu estava dizendo, ele chegou numa época onde tinha um desemprego horrível em Israel, era uma época, parece, muito ruim. E a minha mãe tinha uma tia, um tio riquíssimo, no Egito. Depois ele perdeu tudo. Mas eram, naquela época, milionários. Convidaram meus pais para a lua-de-mel. Gostavam muito da mamãe. Eles foram lá, a princípio para 3 meses, ficaram 20 anos. Ou 24 anos. Ficaram.

 

EG- Ah! Assim que eles passaram de Israel para o Egito.

 

RC- Foram lá, ficaram primeiro por causa dessa tia, que ajudou, que não sei que. Depois a tia morreu de câncer. E meu tio perdeu tudo. Ele tinha um edifício enorme, que nós morávamos. Depois de ter vendido a vila. A vila foi vendida no tempo da guerra. Depois de ter saído da vila, nós fomos para esse apartamento que pertenceu ao titio, um tio. Depois, ele perdeu tudo. Morreu doente e tal. Então, ele foi para o Egito, esperando encontrar uma coisa. Mas, no ramo dele... Então, ele era muito trabalhador. Era um homem extremamente dado, muito jeitoso em tudo. Então, ele abriu uma farmácia  que era conhecida no Oriente Médio. A farmácia Idelta. Que hoje, quando visitei, com minha irmã, visitei o Egito uns 10 anos atrás, nós fomos para Alexandria. Ela e eu. O grupo ficou em Cairo. Mas nós resolvemos ir. Lá estava a farmácia Idelta. Idêntica. Fazia uma esquina. Enorme. Farmácia grande. Meu pai entendia muito, era amigo de todos os médicos. Então, era uma farmácia muito conhecida. E ficou lá. Depois, como ele não era, basicamente, comerciante, ele era um homem de ópera, de música, de cultura, acabou a universidade em Kiev, então, não tinha nada... o senso comercial era um pouco pobre, então, acabou perdendo o que ele tinha no Egito. Que ele estava... ele estava bem. Eu teve uma educação fantástica. Minha mãe, que era super ambiciosa, no sentido de educação, minha mãe tinha um esnobismo doentio, era cultura. Cultura e... Gente rica não interessava tanto. Mas cultura e gente de Israel. Se era um ministro de Israel, se era alguém que passou por Israel, já era uma persona gratíssima. O resto nem contava. Aliás, não tinha país no mundo que contava, nos olhos da minha mãe. Só era... tinha Israel.

 

EG- E vocês eram muito sionistas. Mas vocês eram também religiosos? Sua casa era "kasher"? Nada disso?

 

RC- Não. Não.

 Minha avó paterna. Era super, super "kasher". Eu me lembro. A única coisa que eu me lembro da minha fase... Que ela morreu quando eu tinha 7 anos. Então, o que eu me lembro, ficou na minha cabeça, assim, uma coisa tão linda. A vovó, estou falando só de meu pai, agora. A outra não. As duas eram lindas mulheres. Lindas. A avó do meu pai era linda. Linda. Eu pareço muito com ela. Não é para dizer que eu sou linda, mas ela era muito bonita. Bonita mulher. E ela, então, quando começava o "Shabat", sexta-feira, ao meio-dia, já era aquele transtorno dentro da casa. Ela se vestia... Ela tinha trazido da Rússia dois vestidos, bordados daqui até embaixo, longos. Todo bordado. Um rosa e um cinza. Eu acho que o cinza ela vestia para o "Shabat" e o rosa ela vestia para as Grandes Festas. Era Pessach, era Iom Kipur, Rosh Hashaná, essas coisas. E lavava a cabeça com gema de ovo. Sexta-feira, ao meio-dia. Lavava a cabeça com gema de ovo e se vestia, se preparava para o Shabat. Ela era muito religiosa. Lia, sempre, eu me lembro, tinha a Bíblia na mão, lia e rezava. Rezava o tempo todo. Então, era a casa "kasher". Aí, eu me lembro, o transtorno, quando mudava de Pessach para não sei o que, tinha que tinha que tirar todos os pratos. A carne, eu me lembro, sempre "kasher". Eu estava na cozinha, não é, olhando sempre como ela limpava o frango, como ela limpava o... Ela não deixava o empregado nem o teto. Porque o empregado era árabe. Aí, ela fazia tudo. Tudo tinha que ser "kasher". Então, a carne com sal, para o sangue correr e... Enfim, tudo que era "kasher". A troca de prato. Enfim, coisa "kasher". Até 7 anos de idade. Depois, até esqueci 

que existe. "Kasher" não pegou comigo, nem um pouco. Mas era ela. E mamãe também não era. 

Então, afinal, quando ela morreu, o negócio também morreu. E ela era muito religiosa. E muito ativa. Uma mulher, com 80 anos de idade, ela foi atropelada por um carro, quebrou uma perna, não sei o que... Porque ela ia a pé da Vila Smorra, onde a gente morava, até o templo, que era como você ir daqui até o Leblon. A pé. Tranquila. Lá que ela foi atropelada um dia. E eu acho que ela acabou morrendo, não disso, mas de uma vesícula, na operação, ou de câncer. Não me lembro. Sei que ela morreu lá pelos 80 anos. Mas muito forte. Uma mulher muito forte.

 

EG- E você lembra da comunidade judaica de Alexandria?

 

RC- Não. Mas eu me lembro de uma história dela, que conto, a vida toda conta essa história, porque eu acho tão poético, tão poético. Ela gostava muito de mim. E um dia, lá pela... sábado à noite, não sexta, sábado à noite, lá pelas 5 horas, não sei, eu abri a luz. Porque ela estava na escuridão, até o Shabat passar. Nós não tocava em luz. Aí eu abri a luz. Quer dizer, acendeu a coisa. Ai, ela me chamou. Ela disse: - Vem cá. Eu vou te dizer o que você fez agora de muito ruim. Eu vou te explicar porquê. Porque no Shabat, as almas que estão no inferno têm direito a ir passar o dia no paraíso. Quando você acende a luz antes, você obriga a eles a voltar antes para o inferno. - então, me ficou até hoje, (risos). Se sábado eu acendo a luz, eu me lembro do diabo dessa história. Que eu acho uma coisa... Puxa, que coisa, de contar uma história... Que eu esqueço tudo, me lembro disso. Achei tão...

 

EG- É a história que marcou, né.

 

RC- Marcou. Porque eu pensei... Ahm!... (susto).

 

EG- O que que eu fiz, né.

 

RC- O que que eu fiz. E a história dessas almas que têm que voltar, por minha causa... Fiquei assim... Até hoje, quando acendo uma luz, penso: Poxa! (rindo). Bom. Mas isso é uma história dela que eu achei... achei simpática.

 

EG- Da comunidade judaica de Alexandria?

 

RC- Não me lembro nadinha.

 

EG- Se tinha judeus. Tinha mais judeus?

 

RC- Tinha. Tinha. Tinha, não sei quantos. Não muitos. Talvez em Cairo tinha mais. Mas tinha... Mamãe sempre era com um grupo verdadeiramente de sionistas. Ou de gente...

 

EG- Então, vocês só conviviam com judeus.

 

RC- A melhor amiga dela... Ah, só com judeus. Só. Não vi um árabe de perto. Quer dizer, uma família árabe. Só minha irmã. Porque naquele edifício do meu tio, onde a gente morava, no mesmo "banlieue", tinha uma família, ele era o capitão... capitão não, ele era o...

 

EG- Isso já depois que venderam a vila?

 

RC- Depois. Ele era o... Do porto, diretor do porto de Alexandria, árabe mesmo. Esqueci o nome dele. E a filha, que tinha a idade da minha irmã, jogavam junto. Então, a minha irmã, até hoje, fala árabe. Quer dizer, não fala muito bem, mas fala. Porque ela teve uma amiga árabe, que falou árabe com ela.

 

EG- E vocês ficaram nessa casa até que ano?

 

RC- Ficamos nessa casa até sair. Até meu pai... foi preso, em 14 de maio, quando começou a guerra com Israel. 14 de maio, quando começou a guerra.

 

EG- Em 39. Ah, não. A primeira... Não, a segunda.

 

RC- Não. Não estou falando da guerra mundial. Estou falando da guerra de Israel.

 

EG- 48.

 

RC- 48. A meia-noite, vieram buscar meu pai. Como sionista. Isso já é mais longe. Mas a guerra mundial...

 

EG- Mas você disse que vocês venderam a vila e foram para o apartamento. Foi aí?

 

RC- Para o apartamento. Porque eu estava dizendo que meu pai não entendia nada de negócio, e perdeu muito dinheiro, perdeu muito dinheiro na farmácia também. Porque não sabia contar, sabe. Aí, acho que alugaram a vila, não venderam. Naquela época, alugaram. Que nós fomos nesse apartamento. Que era em cima, a farmácia estava embaixo. Era um enorme edifício, que pertencia a meu tio. Aí, a guerra mundial...

 

EG- Então, vamos para trás um pouco. Me conta agora como foi sua educação.

 

RC- A minha educação foi a educação de uma menina riquíssima. Porque a minha mãe era assim. Quer dizer, eu não acho que os meios eram para se ter esse tipo de educação. Mas mamãe não se interessava nada por esse tipo de coisa. Eu fui nos melhores colégios.

 

EG- Franceses?

 

RC- Francês. Eu fui no Lycée Français, mas depois abriu o Lycée de L'Union Juif. Que era um Lycée français juif. Muito bom. Muito bom. Com inspetores de França, que chegaram. Era tão bom quanto o outro. Só que era judeu. Aí, eu passei para...

 

EG- Isso em Alexandria?

 

RC- Alexandria. Lycée de l'union Juif.

 

EG- Então, a comunidade devia ser grande. Porque se tinha uma escola...

 

RC- Escola. Lycée de l'Union Juif. Chamava assim. Lycée de l'Union Juif. Que eu fui lá. Antes eu fui...

 

EG- Escola particular.

 

RC- Particular. Antes, eu fui numa escola muito esnobe, de ingleses, uma escola inglesa, Sr. Bereman. Eu tomei aulas de dança com a melhor professora de dança no Oriente Médio todo, chamava-se Mrs. Bruce, _____, onde tinha _____ na porta. E a minha mãe cismou que eu precisava ter uma governanta inglesa. E tinha uma agência que você trazia, para dois anos, o contrato. Eu me lembro. Veio uma loira, loira inglesa, um dia, que chamava Mrs. June, e que se ocupou de mim. Era ainda na vila. Quer dizer, eu devia ter...

 

EG- De você e da sua irmã.

 

RC- De mim e da minha irmã. Quer dizer, mais de mim. Minha irmã era menor.

 

EG- Como chama a sua irmã?

 

RC- Nina. Ela tem o nome dessa tia que a mamãe gostava muito, que trouxe a mamãe lá, em Alexandria. Eu sei que a Mrs. June ficou 2 anos conosco. Mas lá na vila. Quer dizer, eu devia ter, nessa época, 5, 6, 7, 8 anos, por aí. Porque depois, eu tinha uma governanta francesa, mas que era lá. Não trouxe de França. Estava lá. Mlle. Frémont. Ficou comigo... Ela era desse tamanho (mostra). Ficou comigo até eu ter 15 anos, 16 anos. Eu sei que eu não passava a rua sem Mlle. Frémont. Como casei com 17 e meio, com meu primeiro marido, então, governanta até... Também era professora, dava aulas de francês. Quer dizer, ela me ajudava com... Péssima aluna. Péssima aluna. Detestava o colégio. Tinha horror. Ódio. A matemática, eu só saí do colégio sabendo 2 e 2 são 4. Que era o meu "achievement". Eu era muito boa em redação. Escrever. Até hoje, escrevo muito bem.

 

EG- E educação judaica também...

 

RC- Religião judaica... de casa. Quer dizer, era religião israelense. Eu me sentia lá uma israelense de passagem. Todos nós. Nós éramos israelenses morando no Egito. Só. Não tinha nada a ver com o Egito. Como se não fosse lá. A tal ponto que não tenho ligação nenhuma. Posso nunca ver mais. Não faz falta. a vez que vi, fiquei estatelada. Fui visitar a vila, fui visitar a casa. Encontramos tudo. Encontramos a vila. A vila...

 

EG- E por que ficou estatelada quando viu de novo?

 

RC- Estava um "délabré", uma coisa caindo... uma decadência, uma sujeira. Uma coisa horrenda.

 

EG- Não lembrava nada do bonito...

 

RC- Nada. Mas olha, estava uma coisa... Todas as vilas dos ricos judeus, tudo tomado pelos árabes, pendurado calcinha, sutiãs azul e rosa, tudo lá. Um lixo! A cidade é uma grande lixeira. Coisa horrorosa. Não se vê um branco na rua. Não tem um... Estou dizendo isso porque eu vi, 10 anos atrás. Não tem um europeu na rua. Só árabes. Só. Não tem outro. Então, arrasaram, acabaram.

 

EG- Vocês tinha alguma vida de sinagoga, alguma coisa assim, ou era só mesmo?...

 

RC- Papai respeitava muito. Quer dizer, primeiro, ele gostava muito da mãe dele. A mãe dele, eu me lembro, até o dia dela morrer, ele beijava a mão dela. Quando ele encontrava de manhã, ele beijava a mão. Toda a vez que ele via a mãe dele, ele beijava a mão dela. Então, quando ela morreu, ele foi, cada festa, cada aniversário, ele ia no cemitério. Isso era... Até hoje, para meu pai, eu faço a mesma coisa. Porque eu sei que isso era importante para ele. Ele é enterrado em Israel. Quando chego lá, a primeira coisa que eu faço. Eu sei que isso, ele... Ele ia à sinagoga, ele fazia jejum para Yom Kipur...

 

EG- Mas ele levava vocês? Vocês iam também à sinagoga? Ou era só mesmo dos adultos?

 

RC- Nós íamos. A mamãe não me deixava... A mamãe me educou também muito mal, no sentido de... sabe, ser tratada, que eu posso morrer cada dia, cada hora, posso pegar uma doença e cada hora tinha...

 

EG- Muita proteção.

 

RC- Proteção. E cada hora tinha doença, então... Ela não queria que fosse na escola, quando chovia. Esse tipo de coisa. Então, ela não queria que estudasse árabe, porque dói os olhos ou... que mais? Coisas assim. Então, jejum, nunca me deixou fazer. Não era bom, para mim. Podia desmaiar. Coisa assim, da mamãe. Ela me internou uma vez, no Líbano, num sanatório, porque pensou que eu ia ter tuberculose. Não tive. Mas enfim...

 

EG- Como era a sua vida social? Porque se vocês ficaram...

 

RC- A vida social, muito entre os judeus e muito... Mamãe tinha uma... A melhor amiga da mamãe, toda a vida, que ela encontrou com 6 anos de idade, no "kindergarten", era uma senhora de uma grande família israelense. Também da Rússia. Chamava Levantini. Família Levantini, até hoje, especialmente na área do "bank". Já eram banqueiros na Rússia. Então, chegaram para Israel toda a família, era super respeitada, super prestigiosa, super... E a casa Levanti, ser recebido lá era, sabe, uma coisa extraordinária. Muito especial. Então, ela era muito... Era uma grande família. Irmãos, irmãs. A minha mãe era muito amiga dessa Penina, que eu chamava de tia. Que quando minha filha nasceu, ela que entrou comigo na sala do parto, ficou perto de mim. No Egito. Porque eu fui de Israel para o Egito para ter a menina, porque mamãe quebrou o braço. Bom. Aí, mamãe frequentava essa casa. E meu pai, quando veio da Rússia,...(meu marido)

 

EG- É seu marido. Eu acho que eu paro um momento, senão vai...

 

(interrupção de gravação)

 

EG- Estava me contando dessa amiga. Eu lhe perguntei sobre sua vida social.

 

RC- Ah, sim. Então, essa amiga, papai e mamãe se encontraram lá. Papai, que veio da Rússia, foi, imediatamente, recebido na casa do Levantini. E ela encontrou papai lá. E papai se apaixonou. Era até mais jovem que minha mãe, de 5 anos. Lindo! Lindo. Um homem bonito. Lindo. E mamãe tinha uma certa beleza, na época. Ela era cor de uma azeitona preta. O que chateou ela a vida toda. Ela sonhava ser loira, de olhos azuis, era morena, de olho escuro, pele escuro. Era bem escura. Morena, morena, morena. Aí, se apaixonou adoidado e casaram e foram justamente lá. A Penina Levantini também foi para o Egito. Porque o marido dela era engenheiro. Então, ele foi para... Viveram lá também muitos anos. Foram lá para obras. Ele tinha obras muito importantes. Vamos dizer, como se fosse o metrô. Coisas assim, muito importantes. E eram gente já de nível de riqueza, de dinheiro de família, de coisa. Infelizmente, eles tiveram uma tragédia horrível. Porque eles tiveram duas filhas. Uma era da idade da minha irmã, um anos a mais, talvez, uma ano a mais, e uma era dois anos a mais da minha idade. E essa, que era mais velha do que eu, chamava Dária, linda moça, quando ela tinha 17 anos, eles tomaram um trem para ir de Alexandria para Tel Aviv ou para Haifa, não sei. Se viajava de trem. E o trem deu uma parada, freou, uma freada. E ela tinha botado uma mala, a mãe ou o pai, não sei quem botou, uma mala, naquelas redes. E você não queira saber, com essa freada, a mala caiu na cabeça da minha amiga, matou na hora. Mas uma menina de 17 anos.

 

EG- Essa moça, Dália. Ai, que coisa horrível.

 

RC- Da Dália. Morreu assim, com essa mala que caiu. Quer dizer, uma coisa... Bom. Então, aí... Eu tinha 15. Porque ela tinha 17, então... Mas eu digo que a irmã era mais velha que a minha porque quando nasceu a irmã dela, da Dália, eu comecei a chorar, isso eu me lembro, me jogava no chão, chorando, que eu quero também uma irmã. Quero, que quero, que quero. E um ano depois, nasceu a minha irmã. Então, é outra que ainda somos muito amigas. Quando vamos a Israel e tudo mais. E, depois, ela perdeu o pai, a mãe morreu. A mãe morreu muito depois. Não, uma ano de distância. Morreram os dois. Então, uma família que se perdeu, ficou só essa menina. Só essa menina, que não tem filhos. Ela ora. Bom. Mas ela, então, a vida social, porque o nível de dinheiro, 

o nível social, como em cada país do mundo, o nosso não era da gente rica, dos judeus ricos de Alexandria. Os outros a gente nem via. Mamãe nem se interessava. Então, aquelas grandes famílias, com aquelas grandes vilas e tudo, eu conhecia de nome, encontrava no colégio, era amiga das meninas...

 

EG- Mas não frequentava.

 

RC- Mas não frequentava. Quer dizer, os pais não se frequentavam. Eu, se dava aniversário, convidava e tal. Mas a vida social vive um pouco através dessa senhora Levantini. Isso eu me lembro muito bem. E mais uma ou duas outras pessoas. Porque mamãe era muito atuante na Witzo. A..... até hoje fala da minha mãe. Muito atuante na Witzo. Então, ela conhecia muita gente. Mas vida social... também... sabe, a gente ficava muito em casa. Tranquila. E muito com essa gente, com essa Rubitz. Se chamava Penina Rubitz. Levantini.

 

EG- Vocês sentiam algum tipo, vocês sentiam algum tipo de problema...

 

RC- De anti-semitismo? Nenhum. Nenhum. Até a guerra mundial, nenhum. Não sabe o que era. Simplesmente. Agora, com a guerra mundial, em 39...

 

EG- Como que mudou a vida de vocês?

 

RC- Depois... Não mudou. Mas mudou uma coisa. Que quando...Mudou quando papai foi preso, em 48.

 

EG- Não, mas não tinha guerra lá dentro, no Egito, também?

 

RC- Não. Nada.

 

EG- Até Alexandria não chegou. No Cairo, mas não lá.

 

RC- Não. Mas chegou uma coisa. O Egito nada chegou. Chegou uma coisa. Quando o italiano entrou na guerra, a Itália entrou na guerra, então, tinha uma noite,  uma noite só, de uma bombardeiro italiano. Que eu me lembro que nós fomos todos num... como chama? "Shelter". Porque tinha feito "shelters" para o tempo da guerra. E essa noite...

 

FITA 1 LADO 2

 

EG- Então, me conta como a sua vida mudou com a guerra.

 

RC- Não mudou.

 

EG- Continuou tudo igual. Quer dizer, você tinha uns 13 anos?

 

RC- Tudo igual. Não tinha falta de nada. Não faltou nada.

 

EG- Estudava igual?

 

RC- Igual. Não falou nada. Uma vez, que esse bombardeio passou, de vez em quando tinha um alerta. Mas nada aconteceu.

 

EG- Vocês escutavam da Europa, dos judeus, o que que estava acontecendo?

 

RC- Sim. Ah, eu não me lembro. Eu não me lembro. Eu me lembro de uma coisa. O Zantesse Journal, que era 3 de setembro de 39. "La Guerre éclatée". Ou La Guerra est declarée - La Guerre. Isso me lembro. Esse dia, eu li no jornal, quer dizer, vi no jornal. Mas não me lembro, assim, que eu ouvia tanto do holocausto, naquela época. Bom. Com certeza sabia que os judeus estavam sendo maltratados e perseguidos, mas não aquela coisa. Não me lembro.

 

EG- Você casou durante a Primeira Guerra... Durante a guerra, a segunda Guerra?

 

RC- Casei em 44. Aí, esse bombardeio. Então, de vez em quando, aparecia uma sirena, aí, de noite, mas a gente nem levantava da cama mais para descer. Melhor dizer. O grande baque aconteceu quando Rommel entrou em Alamea. Porque Alamea era a uma hora de Alexandria, ou duas horas. De noite, se escutava já o canhão.

 

EG- Mas isso foi o que? No final da guerra, só.

 

RC- Foi quando Rommel estava lá. Não sei que era, não me lembro  mais. 42, 43. Aí, tinha perigo. Perigo de um cabelo, dele entrar. Aí, todos os árabes já botavam na janela a suástica, já todo "Bauab" - o porteiro chamava, em árabe, "bauab". Cada "bauab" tinha a lista do judeu que ia entregar e era já o anti-semitismo que surgiu. Mas só quando o alemão ia entrar. Que era um delírio. Bandeiras alemãs na janela, suástica. Delírio. Aí, minha mãe, que desde o começo da guerra estava trabalhando para ... Esqueci o nome em hebraico. Tinha Oneg Shabat, tinha não sei o que. Ela trabalhava para os soldados israelenses. E tinha uma brigada, a Jews Brigade, que fazia parte da Oitava... que foi para a Itália. Mas tinha sempre soldados judeus aí. Aí nós, mamãe, que trabalhava lá, nesse clube, tinha um clube onde o soldado judeu, soldado, oficial, quem for, podia lá sempre ir. Aí, a gente convidava em casa para festas, para jantares. Eu me lembro, toda a guerra tinha alguém em casa jantando. Ou almoçando ou jantando, ou 2 ou 3 ou 5 ou 10, que era do exército israelense. Aí, as mulheres de Alexandria se ocupavam disso. E lá que eu encontrei meu marido, que era oficial. Ele era polonês, da Polônia. Toda a família dele foi morta no holocausto, toda. E ele se salvou porque mandaram ele estudar no Técnico. Uma família super conhecida, no mundo inteiro. Uma família considerada aristocrática. Uma família de uma cultura inacreditável. Pergunta a Raia..., um dia, sobre Maria Apte. Maria Apte, parece que tem, no Peru, um busto dela, numa praça.

 

EG- Esse era o nome da?...

 

RC- Da mãe do meu marido. Do meu primeiro marido. Apte. A-p-t-e. Maria Apte era presidente da Witzo da Polônia e era membro do executivo mundial da Witzo. Então...

 

EG- Puxa! Na Polônia, isso?

 

RC- Na Polônia. Então, a Raia está cansada de conhecer. A..... conheceu. Todo mundo conheceu a Maria Apte. Ela era doutora em música, o pai era advogado. Não era gente de um dinheiro doido, mas era gente de um prestígio doido. E o filho, o irmão, o outro filho, o irmão de meu primeiro marido, era compositor. Já tocavam até as músicas dele. Mas ele, mataram ele no campo de concentração. Ele tentou fugir, mataram ele. A mãe foi morta. Enfim, a família toda sumiu, torturada, morta. Só um primo, que somos muito amigos dele, que é professor da Universidade de Jerusalém, e o pai dele. E mais um casal: Landau, aqueles riquíssimos, que eram dois irmãos que se casaram com duas irmãs, que é tia do meu primeiro marido. Que eram riquíssimos.

 

EG- E aí, vocês casaram.

 

RC- Aí, casamos. Nós casamos em Alexandria. Mas é, como eu digo sempre...

 

EG- Novinha, não é.

 

RC- Eu tinha 17 anos. Eu sei que não tinha ainda 18 anos quando estava casada. E a minha mãe queria muito esse casamento, eu até xinguei com ela toda a vida, depois, eu zombei também dela, porque era o filho da presidenta da Witzo. Então... Que não tinha dinheiro, que não... Isso não interessava a mamãe. Ele era engenheiro. Bom engenheiro. E de uma família sensacional.

 

EG- E ele estava no exército. Quer dizer, vocês casaram, ele estava no exército.

 

RC- Sim. Depois viajou por dois anos.

 

EG- Ah, quer dizer, vocês casaram e ele foi embora.

 

RC- E ele foi embora. Quando voltou, para mim, era um estrangeiro total. Um estranho. Já não sabia mais quem era. Era uma coisa assim... Bom. Aí, depois de... Todo junto, fiquei casada 9 anos. Aí, divorciei. E tinha já a menina, que tinha, na época, 5 anos.

 

EG- Uma filha. Essa filha...

 

RC- Uma filha que nasceu do meu primeiro casamento.

 

EG- Ela nasceu no Egito também?

 

RC- Ela nasceu no Egito. Eu estava grávida em Israel. Mas mamãe...

 

EG- Depois da guerra, depois que acabou a segunda Guerra?

 

RC- Depois que ele voltou. Depois da guerra.

 

EG- Aí, vocês foram morar em Israel.

 

RC- Fomos morar em Tel Aviv. Aí, a mamãe devia vir. Então, ela estava, justamente, com a doda Pica, essa tia - não é tia verdadeira, a grande amiga dela - a Penina, devia passar lá, de carro, para levar ela no trem, para ir para Tel Aviv. Mamãe entrou no banheiro para lavar a mão, caiu e quebrou o ombro. Aí, não pôde viajar. Não pôde viajar, então, eu que me mandei para lá. Não sei como. De avião...Acho que... foi de navio. Que eu vomitei a noite toda.

 

EG- Grávida.

 

RC- Grávida. Enfim, cheguei lá. Cheguei para o Egito.

 

EG- Como chama a sua filha?

 

RC- Reli. Que a mamãe inventou o nome. Que em hebraico é "meu eco". "Rebsheli". "Meu eco". Bom. Então, a Reli nasceu no Egito, mas com um mês ou dois, levei ela para Israel. Então, do Egito, ela não se lembra de nada. E do Israel, ela se lembra  pouco. Ela foi até no colégio, acho, um ano, mas falava só hebraico. Quando veio aqui, só falava hebraico. E eu vim aqui por causa do meu pai. Porque papai...

 

EG- Peraí. Depois que você se divorciou , você continuou em Israel?

 

RC- Continuei em Israel. Mas papai foi mandado para aqui. A gente pensou que era para um mês ou dois, para o "bon", "Israelis bon". E ele ficou um ano. Aí, depois de ano, ele chamou mamãe, disse que mamãe devia vir. E nós tínhamos, nessa época, em Tel Aviv, uma casa muito bonita.

 

EG- Peraí. Aqui está faltando um pedaço. Você estava morando em Israel. E você morava em Israel quando estourou a guerra da independência, em 48?

 

RC- Sim. Eu já estava. Meus pais que não estavam. Aí, meu pai...

 

EG- Aí, nessa noite, prenderam seu pai?

 

RC- Prenderam meu pai. Botaram no campo de concentração. Mas um campo de concentração manso.

 

EG- E a sua mãe?

 

RC- Mamãe ficou. Só preso. Não...

 

EG- Sozinha?

 

RC- Mamãe ficou sozinha. com a minha irmã. Ficou no Egito. Ficou no apartamento. Então, ele não ia sair mais do campo de concentração. Mas como ele era ainda polonês, o cônsul polonês, que eu acho que até era judeu, pediu para eles saírem para a Polônia. Porque eram sujeitos poloneses e tinham que voltar para a Polônia. Aí, conseguiu. Então, meu pai foi do campo de concentração para o aeroporto. Não passou mais para casa. E minha mãe foi da casa. E minha mãe tinha que vender tudo. Então, vendeu, sabe...

 

EG- Muito rápido.

 

RC- O judeu que vende. Não, era já aquela coisa de judeu, anti-semitismo, já era. Na guerra da independência, já era anti-semitismo. Aí, ela vendeu um piano que nós tínhamos, lindo, para 1 libra, 2 libras, 3 libras. Coisa assim. Tinha que vender tudo, aí...

 

EG- Tinha que sair correndo.

 

RC- Nem mesmo para sair correndo. Era a frase, que o judeu vendia. Então, se queria vender, tinha que vender por esse preço. A única coisa que ela vendeu muito bem, a vila, ela vendeu para um "bei". Um "bei", um título, como se fosse um "paxa, um bei". É um título, como se fosse... não príncipe, mas um título...

 

EG- Um nobre.

 

RC- Um nobre. Aí, um "bei", esqueci o nome dele, que pagou 3 mil libras para a casa. Que valia muito mais. 3 mil libras já era um pequeno patrimônio, naquela época. Aí, mamãe saiu com esse dinheiro das últimas vendas.

 

EG- Sua mãe foi para o aeroporto junto com seu pai.

 

RC- Ela fez tudo. Ela que vendeu tudo, ela fez tudo. E foi. Não me lembro se minha irmã saiu junto com ela ou não. E foram para Roma. E de lá foram para Israel. Nunca foram para a Polônia. Foram para Israel. Aí, chegaram lá, meu primeiro marido, que era oficial do exército inglês, recebeu, podia receber uma parcela de terreno muito bonito; num lugar que, quando nós construímos, era como se fosse, agora, a Barra. Não a Barra. Além da Barra. Ou da Barra de 20 anos atrás. Agora, você é no meio do... Como se fosse em Copacabana. Agora, é no meio de tudo. Na época, era longe. E esse terreno foi dado só a oficiais. Não a...

 

EG- O seu marido, naquela época, ainda estava no exército inglês.

 

RC- Não. Mas ele era oficial do exército inglês. Quem queria, podia. Como oficial. Você tinha que ser oficial. Então, ele era oficial, ele era capitão ou major, já até esqueci, e ele recebeu o terreno. Mas dinheiro, ele não tinha. Então, meus pais pagaram pela casa e ele deu o terreno. Quer dizer, não podíamos ter construído sobre esse terreno, nós. Ele é que tinha direito ao terreno. E construímos de novo. A minha mãe fez uma casa belíssima, de 2 andares, 5 dormitórios...

 

EG- Aí, moravam vocês todos.

 

RC- Aí, morávamos todos. Lindo. Se chamava "shikuma akzemin". Você fala hebraico?

 

EG- Entendo, sim.

 

RC- "Shikuma akzemin". "Coisa de oficial". Que virou famoso. Porque só era gente assim com dinheiro, gente... que fizeram casas lindas e coisas belíssimas...

 

EG- Isso em Tel Aviv?

 

RC- Tel Aviv. ficou famosíssimo. Depois, se criou mais um "shikuma", também famoso, mais longe, um pouco mais tarde. Mas esse foi o primeiro e foi o mais famoso deles. "Shikuma akzemin". Tinha um nome. Já esqueci como se chamava. Bom. Aí, quando eu divorciei, papai viajou para cá. E mamãe tinha que vir. Papai estava aqui já há um ano. Então, eu ia fazer o que, com a menina? Ficar nesse enorme apartamento, casa? Então, eu c...... Viver como? Então, eu trabalhar, para pagar o que? A babá da menina. Não tinha jeito. E depois éramos sempre muito ligados, não é, não é. Nem pensei, por um minuto, morar sem meus pais. Eu sou muito dependente. Sou dependente de tudo. Dos meus amigos, do meu marido, da minha família. Bom. Aí, eu vim para cá com a menina. A casa foi alugada...

 

EG- Ela tinha o que? 5 anos.

 

RC- 5 Não. A essa altura, já tinha 6, 7. A casa foi alugada à embaixada americana. Anos ficou alugada. Ficou 20 anos alugada a casa. Porque meus pais ficaram fora 20 anos. Chegaram aqui, meu pai ficou uns 4 anos, casei com Samy, ele foi depois para Buenos Aires, ficou uns 4 ou 5 anos...

 

EG- Seu marido.

 

RC- Não. Papai. Nós, sempre aqui. Depois foi para o Uruguai.

 

EG- Sempre pelo Israelis Bônus.

 

RC- Sempre pelo Israelis Bônus. Ele era diretor do Israeli. Então, ficou 10 anos no continente aqui, depois ficou 10 anos entre a Itália, França, Bruxelas... Sei que eles moraram em Paris bastante tempo também. Até se aposentar. Aí, eles voltaram para Israel. Aí, voltaram para a casa. Tiraram a coisa e ficaram na casa. Logo depois, papai, que já era um homem doente do coração, eu até me lembro, em criança, que ele não estava tão bem, ele adoeceu. Adoeceu, negócio de escada era um problema. Tudo virou problema. Porque ele só tinha um quantia pouca, que ele... Quer dizer, ele recebeu muito bem, para 20... Ele trabalhou por volta de 25 anos. Então, recebeu uma grande quantia de dinheiro. Mas homem doente, numa casa tal, empregados, eles dois, então, mamãe resolveu logo vender a casa e passar para o apartamento alugado. Mas minha mãe, só mesmo ela, alugou o apartamento, o edifício em Tel Aviv, só onde tinha a gente mais rica de Tel Aviv, tinha nesse edifício. E os meus pais. O Moshe Vez morar até agora lá. Enfim, edifício de super luxo, lá na rua...., 4. Mas, infelizmente, meu pai morreu pouquíssimo tempo, algumas semanas depois.

 

EG- Aí, você trouxe a sua mãe para o Brasil.

 

RC- Não. Aí, eu fui lá no enterro e tudo. E já estávamos naquela rua de... Quer dizer, minha irmã e eu ficamos lá com mamãe, o tempo da Shivat e tudo. E depois eu voltei. E eu voltei aqui, minha irmã foi para Nova Iorque...

 

EG- A sua irmã chegou a viver aqui no Rio?

 

RC- Um ano. Comigo. Quando meus pais estavam aqui. Depois, foi estudar na Columbia University, ficou lá rodando, rolando, rolando... Casou tarde. Casou com 30 anos. Casou com um americano, muito bem de vida, agora, muito bem de vida, é presidente do Banco Safra, lá, em Nova Iorque.

 

EG- Ela tem filhos também?

 

RC- Não. Ele tem dois filhos. E a grande tragédia da vida dela é não ter filhos. Estava grávida, ela... aborto, com 7 meses. Enfim, uma coisa horrível. Mas ela está bem de vida. E se ocupa muito dos sefarditas, lá. Dão um trabalho os sefarditas. Não faz outra coisa. Ela faz... ela... para estudantes, para... estudantes... ela recebe dinheiro. Como se diz? Ela...

 

EG- Administra.

 

RC- Não. Ela...

 

EG- Recolhe.,

 

RC- Recolhe dinheiro. Ela tem meio milhão.... os ajuda também. E só os sefaradins. Ela bota, todo ano, 600 alunos nas universidades. Conseguiu até em Harvard. Vai para Harvard, vai para... E de um menino... E só gente pobre pode ir. Se uma pessoa tem uma casa, um pouco de dinheiro, já não pode ir nesse programa. Tem que ter... nada. Mas tem que ter um pouco de talento, porque aí... Eu já vi dois, três dela, que eu fiquei encantada. Uma coisa! Essa menina, essa menina que está em Harvard... Que sofre para morrer, porque ela tem uma menina, está casada... Eu falei com ela, estava lá com a minha irmã. Ela trabalha como empregado, durante o dia...

 

EG- De onde é?

 

RC- Ela vem... Tudo é dos países árabes. Quase. Tudo marroquino ou não sei de onde.

 

EG- E você teve outro filho. Ou só uma filha?

 

RC- Não. Só com uma menina. Eu tive um aborto, antes. Mas nesse casamento, eu não consegui. Fui ao médico e tudo. Não consegui. Aí, essa menina estudou aqui, se formou aqui, e casou com um americano. E vive nos Estados Unidos. Em Nova Iorque.

 

EG- A sua filha também?

 

RC- A minha filha. A minha filha vive lá.

 

EG- E vocês dois ficaram aqui.

 

RC- Não, a minha irmã... Ah, eu e meu marido. Ficamos aqui.

 

EG- E ela ficou com a tia, lá.

 

RC- E ela ficou com a tia, lá. E ela tem dois meninos. Umas graças. Um vai fazer 17 anos, em outubro. E outro faz, sábado, sábado agora, faz 11 anos.

 

EG- Eu vou parar. Porque isso já é a nível de fofoca. Não é...

 

(interrupção da gravação)

 

EG- Já que você se lembra, eu vou lhe perguntar um pouco sobre a família da sua mãe. Me conta, me repete isso, o que que a sua mãe fez no Estado de Israel. Me conta da família dela.

 

RC- Mamãe nasceu em Israel. Nasceu num lugar... Porque meu avô era o diretor do "Ieker", quer dizer, onde se faz o vinho. Como se diz em português?

 

EG- Vinhedo.

 

RC- Vinhedo. Em Riachaonet Sion. E o vinho, o vinho é de lá. Mas esse apartencia ao Barão de Rotschild. Não sei qual deles. Agora esqueci. E esse barão de Rotschild dava a casa, a casa onde a minha mãe nasceu, era uma casa enorme, no meio lá do vinhedo. E ele era o diretor daquele vinhedo, meu avô. E ele pagou pelo estudo de todos os filhos. Porque meu avô tinha 5 filhos. Mandou um para o Conservatório de Roma, que um era pianista. Infelizmente, faleceu muito jovem. Casou, teve menina, faleceu logo. A menina tinha um ano, quando ele faleceu. E ele era grande pianista. Ele pagou pelos estudos, em Roma, na Itália.

 

EG- Ele era... Papo. Esse que era Papo.

 

RC- Esse era todos Papos. Então, pagou... Mamãe tinha 4 irmãos. Uma menina. Ela. Então, um, ele pagou para ser educado. Um foi engenheiro. Um, que morava no Egito, não estava bem sucedido. Ele era mais velho. Menos bem sucedido. E a minha mãe, que mandou para...

 

EG- Boa noite. (Entra alguém).

 

(interrupção da gravação)

 

RC- Aí... Então, ele pagou para todos estudo.

 

EG- E a sua mãe também estudou?

 

RC- Então, mamãe se mandou para Paris. Até com a Penina, também foi. Tinha um grupo. Então, ela sobrevivia dando aulas. Ela me contava, ela dava aulas de hebraico. Então, ela tinha um príncipe japonês e tinha uma...

 

EG- Interessado em estudar hebraico?

 

RC- É. Um japonês. Estudava hebraico. Uma russa, uma... sei lá. Ela vivia assim. O pouco que me mandaram. O barão, se mandou já até Paris, dava alguma coisa para viver também. Mas vivia dando aulas e tal. E ela fez S-Lettres. Estudou em Paris. Quer dizer, era uma mulher extremamente culta, para aquela época que ninguém ia lugar nenhum. Fora de série. Porque isso, ela tem 95, agora, quer dizer, ela tinha 20 anos ou 22 quando foi lá. Casou tarde. Casou com 30 anos. Então isso deve ter disso 70 e poucos anos atrás, não é. Não é todo mundo que ia à Sorbonne, da Palestina, que não morava lá, que não morava em Paris. Bom. Aí, ela voltou e... aí, casou com meu pai, aquela história toda. Mas o barão foi que pagou o estudo de todo mundo. E ele existe nos livros. Quando se fala da cidade de Riachao Net Sion, tem o Papo Iacov, acho, que ele se chamava, que fundou aquele "ieker", aquele...

 

EG- Do vinhedo.

 

RC- Do vinhedo. Bom. Aí, depois, ele morreu. E minha avó morreu com 90 anos, a mãe dela. Ela tinha 7 irmãos. Todo mundo morreu com 90 e mais. E a minha avó era um número anormal, a mãe dela. Muito bonita, de olhos azuis, um flerte anormal. Ela, com 90 anos de idade, quando eu casei, fui vê-la, ela estava numa casa de velhos, mas muito bem, muito bonita a casa, em Tel Aviv, jardim, médico, tudo. Então, eu fui lá no quarto dizer que meu marido estava fora, que eu queria apresentar. Ela botou o roupão, um turbante do mesmo estampado que o roupão, botou o pó de arroz e tomou um pára-sol. Ficou com o pára-sol assim, encontrou o Sammy e começou a cantar, eu me lembro, uma coisa: "dis-moi oui, dis-moi non, dis-moi si tu m'aimes." (riso) Bom, isso foi minha avó. Um número. Uma mulher feita de aço. A outra também foi de aço.

 

EG- Olha, eu sei que estou sendo um... Bom, deixa eu parar aqui.

 

RC- Agora, as coisas que podiam ter sido. Eu comecei a dizer que minha mãe era burra. Então...

 

EG- Ah, burra, não.

 

RC- Burra, sim. Tudo que a gente tinha de coisas judaicas, de coisas que meu pai tinha trazido daqui, de lá. E minha avó, com aqueles vestidos, aquelas coisas. Tudo mamãe botou numa mala, que botou no "attie" do apartamento de Alexandria e lá ficou. E vai saber... Foi jogada...

 

EG- E nem fotografia, nada, você tem?

 

RC- Eu acho que um dia... Alguma coisa tem. Mas pouca. Um dia, mamãe mandou alguém para saber ou ver, não sei quem era, era ou de exército ou de coisa... não sei como chegou alguém a ir lá, dizem que não acharam nada, que não tinha nada. Desperdício total. Milhares de coisa de uma família de tradição, de coisa... sumiu. Sumiu. Agora, uma coisa muito importante, que durante a guerra, nesses dias de Aramem, que era para cada hora esse Rommel ia entrar, o caminhão, gente escutava de noite, na porta de Alexandria. Então, os israelenses, os soldados, que nós tínhamos muito amigos que era sargento, era isso, disse: "Não se incomoda. No dia que ele vai entrar um pouco mais, já entra em Alexandria, a gente passa a buscar vocês de caminhão. Ficam prontos, que 

a gente vai levar vocês de caminhão. Vai para a estrada." Com o caminhão. Eles tinha caminhão, do Exército. Graças a Deus, nunca chegou a isso. Então, uma vez que pararam em Aramem, acabou, começou o fim da guerra. Começou em Aramem. O fim da guerra, que acabou dois anos depois, mas foi quando Rommel começou a perder lá. E nunca sentimos, um dia, falta de nada, em Alexandria.* Açúcar, frutas, coisas, carne. Jamais. Pelo menos, ao que eu me lembre.

 

EG- * Interessante.

 

(interrupção da gravação)



 

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