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Continuar fazendo o que eu tinha que fazer

História de: Alex Lima Sobreiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Alex é um médico cirurgião de hospital público estadual do Rio de Janeiro. Carioca, ele conta sua trajetória estudantil e profissional, passando por momentos felizes e marcantes da infância, adolescência, juventude e casamento.

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História completa

Meu nome é Alex Lima Sobreiro, eu nasci no Rio de Janeiro em sete de março de 1965. Meu pai é Aladim Antônio Sobreiro e nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1928. Minha mãe, ela é de sete de dezembro de 1932, ela nasceu no Rio de Janeiro também. Os dois são cariocas. Eles são pessoas extremamente calmas. Meu pai é médico, né? E minha mãe é do lar. Minha mãe cuidou dos quatro filhos e meu pai trabalhava. Meu pai era militar e também trabalhava como médico, fora. Somos quatro irmãos, os quatro são médicos. Meu pai conseguiu formar os quatro médicos, era um sonho dele.

Infância - Eu sou de classe média baixa, minha infância foi na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foi na Penha, que é um bairro um pouco mais distante do Centro. É um bairro de casas, bem residencial. Era de criança de rua, brincando, jogando bola. Tinha uma rua que tinha muita criança do mesmo grupo, da mesma faixa etária, mesmo grupo. Então, realmente foi uma infância bem divertida. Eu me lembro muito da gente pegar fruta, lá próximo tinha uma fazenda que não era uma fazenda, era uma área pública. Então a gente ia pegar fruta em grupos, essas coisas. A gente tinha muita coisa de infância, de brincadeiras de infância, de pique-esconde, isso era mais ou menos universal ali a gente já sabia que ia ser aquilo. Eu tinha pouco brinquedo, porque eram quatro filhos, não dava pro brinquedo pra todo mundo, né? Mas, eu me lembro da gente ter muitos bonecos plásticos, sem muita articulação. Tinha TV, uma TV preto e branco e pegava quatro canais, às onze horas da noite, meia-noite acabava. A gente sentava e era a diversão da família. Naquela época, né, quando a gente não tava na rua, tava vendo televisão. E tinha que subir no telhado e acertar a antena, porque como era mais distante, às vezes a televisão não pegava.

Escola e adolescência - A escola era bem na esquina da minha casa. Entrei com seis, sete anos, já estava na escola. Ariosto Espinheira, uma escola pequena. Até hoje é ali, eu voto ali. Eu nunca troquei o meu local de votação. Eu vou lá, entro nas salas que eu estudei, né? Eu entro e rodo o colégio, geralmente eu levo o meu filho pra ele ver. Depois eu fui pro Luso Carioca, que era em Bom sucesso, já era quatro bairros distantes. Eu ia de ônibus escolar, que ia buscar e levar. E como eu estudava em um colégio pequeno e perto de casa, ir pra um colégio longe e que era muito grande me causou muito medo. Todos os dias eu chorava. “Malandramente”, eu aprendi o caminho, que tinha uma paciente do meu pai que trabalhava no colégio: então eu chorava, ela me trazia pra casa. Até o dia que minha mãe proibiu ela de trazer e me mandou deixar chorando lá, e eu parei de chorar. Meu pai era militar e a gente foi pra Brasília. Ai eu fui morar em Brasília, morei três anos em Brasília. Eu devia ter em torno nove, dez anos. Eu me lembro de algumas coisas, por exemplo, meu pai tinha uma Variant antiga e me lembro de malas serem colocadas lá e um colega levar o carro pra ele. E a gente foi num avião da FAB, foi o primeiro voo da minha vida e foi um pânico que entrei, porque eu achava que o avião ia cair o tempo todo. Em Brasília talvez tenha sido a melhor parte da minha infância. Eu estudei o tempo todo no Pio XII. Era um colégio de freiras, era um pouco distante da minha casa, mas eu ia com meus irmãos. Uma das coisas que me deixou marcado foi eu ir e voltar sozinho e passando pelas quadras, atravessando pelos subterrâneos das passarelas, não tinha passarelas, era subterrâneo. A gente passava pelo subterrâneo e até chegar em casa era uma aventura, eu me lembro que eu gostava muito. Três anos depois a gente voltou pro Rio. Voltamos a morar na Penha de novo, que a casa ficou fechada nesses três anos, e eu volto a estudar no luso carioca. Estudei lá durante um período curto, e logo em seguida eu fui estudar em outro colégio. Já estava no Científico, já era me preparando pro vestibular. Tinha uma coisa que ficou muito marcante, nessa época, foi um galpão que tinha duas ruas do lado da minha e que a gente conseguiu a liberação pra fazer festas. Então acabou que todo sábado tinha festa lá, e tinha DJ. Nós fazíamos a festa, nós fazíamos a iluminação. Então tinha tudo lá, e acabou que cobrava ingresso e aí as pessoas pagavam, entravam e a gente comprava mais coisas pra festa, só pra se divertir. Era aquela época de dancin’days, então as pessoas iam vestidas meio discotheque, né? Nessa época, assim, violência zero. A gente podia andar da maneira que fosse na rua, mas não tinha violência, né? Não é longe da invasão do Alemão. É uma região basicamente de casas onde aos poucos foram surgindo indústrias, comércios. Mas, era uma região basicamente de casas, e casa muito pacíficas. E depois começou a ficar muito deserta, porque as pessoas tinham muito medo de andar na rua, mas isso já bem mais próximo agora da década de 80.

Escolha profissional - Sempre gostei de números, sempre gostei de matemática. Eu odiava Português. Odeio até hoje Português, mas eu sempre gostei de Matemática, tudo ligado à Matemática, Física, até Química. Química eu sempre gostei muito, sempre fui bom aluno. Desenvolver problemas, resolver problemas. Na realidade eu queria fazer Física. Quando eu entrei no segundo grau, me apaixonei por Física e falei assim: “Eu quero fazer Física”. Então uma das coisas que eu fazia, ia ali pegava um ônibus até o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que fica ali em Botafogo. Aí entrava lá, ficava rodando lá dentro e sonhava que um dia eu ia trabalhar lá. No meio do caminho eu fiz Engenharia Civil. Passei e comecei a fazer Engenharia. Meu pai é uma pessoa muito persuasiva, então aos poucos ele foi me convencendo a prestar o vestibular para Medicina. Eu fiz, passei e ele me convenceu a só começar. Aí eu só comecei e tou até hoje (risos).

Casamento - Nós éramos colegas de turma, a gente era da mesma turma. Na realidade a gente não se falava. A gente passou os seis anos da faculdade sem se falar. Ela tinha um namorado e eu tocava minha vida. Ela não gostava de mim e eu não gostava dela. Não é que eu não gostasse, mas ela não gostava de mim, era uma coisa muito clara. Mais pro final da faculdade a gente começou a conviver juntos, então foi algo meio gradativo, não foi de uma hora pra outra. Ficamos amigos, fomos amigos durante algum tempo, depois da faculdade a gente continuou amigo, e mais ou menos na residência a gente começou a namorar. Namoramos uns dois anos. Logo depois a gente já começou a morar junto e em seguida a gente casou. A família dela é portuguesa, todos moram em Portugal, então a gente teve que ir até Portugal, casar na igreja de véu e grinalda, terno e gravata, correr as proclamas aqui, correr lá, tudo certinho. Foi em Lisboa. Foi um pouquinho afastado de Lisboa, Oeiras, é um quase Estoril. Foi em uma igreja simples, de bairro. Deve caber cerca de 300, 400 pessoas. Foi um casamento extremamente simples. Pra você ter uma ideia, só tinha um convidado, na igreja tinha uma senhora esperando a missa. Então só tinha duas pessoas sentadinhas lá, os padrinhos, eu e ela. Eu me lembro do padre chorar, emocionado, porque eu chorava, eu choro à toa também, então eu chorei, ele também chorou, e todo mundo chorava ali. Como não tinha ninguém filmando nem fotografado, assim, era o padrinho que filmava, quando o padrinho assinava, era eu que filmava.

Paternidade - O Luís hoje tem 14 anos, ele nasceu em 2000. A gente ficou sabendo da gravidez por um teste muito interessante: foi a carne estragada. A gente almoçando num restaurante onde a gente sempre ia, que serve, né? O prato principal é carne e ela cismou que a carne estava estragada. Aí começou aquela confusão, e não tá, e a gente prova e a carne tá estragada, e não tá e a minha mãe falou assim: “Ela tá grávida”. E ela “não tô”, porque ela já tinha tentado de tudo e não tinha conseguido e já tinham falado que ela não ia conseguir engravidar. Ela: “Não tou, não tou”. Aí saímos, no dia seguinte comecei a perturbar pra ela pra fazer o teste, e deu positivo. Foi bom, uma alegria! Sabendo que era menino, então, foi maravilhoso. Eu queria menina, ela queria menino, mas aí foi muito bom, muito bom.

Trabalho - Hoje eu sou médico de um hospital que é o Hospital Estadual Albert Schweitzer, que é um hospital de trauma do Rio de Janeiro que mais opera a parte ortopédica e que tem a parte cirúrgica forte também.  Além de cirurgião, eu faço a parte de Nutrologia, a parte de terapia nutricional. Uma das maiores fontes de complicação cirúrgica é a desnutrição. Então, um paciente desnutrido, um paciente malnutrido é um paciente que complica. Se você não dá proteína pra um paciente, ele não tem proteína para cicatrizar. E nós começamos a fazer o round multidisciplinar. Então, além dos cirurgiões, veio a enfermagem, veio a fisioterapia e veio a estagiária de Nutrição. Com isso a estagiaria de Nutrição fez um link com a nutrição do hospital e começaram a vir as nutricionistas. Todos falam sobre o paciente, então você consegue enxergar o paciente de uma maneira mais ampla. Hoje eu sou o chefe da cirurgia do Hospital Albert Schweitzer, mas até hoje eu dou plantão nesse hospital. Eu gosto de dar plantão, eu gosto da emergência. É uma região de conflito, onde você tem várias favelas com várias facções diferentes, desde UPP como a do Vermelho, do Terceiro Comando, então, assim, nós temos uma experiência grande em lesão por projetil de alta velocidade, tiro de fuzil e pistola de calibre grosso, grande calibre. Algumas coisas, principalmente pra quem faz cirurgia, algumas coisas marcam muito, né? E a primeira morte que você tem é uma coisa que te marca muito. Eu sempre fui muito racional, muito tranquilo com tudo, aceitava tudo muito bem, mas eu me lembro que não aceitei bem, e tive que entender que isso fazia parte de um processo. O massacre daquelas crianças de Realengo foi no dia nosso, meu dia de plantão. É um dia que eu me lembro daquela sequência de eventos acontecendo. Foi uma tragédia que você pensa que não vai viver por mais que você tenha estudado o evento de múltiplas vítimas, que você vai romper sua capacidade de atendimento, né? Você sofre muito no desfecho final. E você descobre que você mesmo errou em algumas coisas, tecnicamente. Foram 25 crianças, todas com tiro. Lesões graves, lesões menos graves. Foram três operadas na unidade. Foram, eu não tenho os números de cabeça, mas acho que foram 11 mortos logo de início. E você triar, fazer triagem desses eventos que rompem a tua capacidade de atendimento, fazer a triagem é muito difícil. Você olhar pra uma criança e dizer: “Essa não tem mais condições de viver”. E largar, e partir pra outra. É uma coisa que você não consegue, muitas vezes você não consegue fazer. E eu descobri na minha própria pele que eu não conseguia fazer. Todo mundo sofreu, todo mundo chorou. Não tinha quem não chore (voz embargada). Se eu começar a falar agora eu choro de novo e quantas vezes eu falar isso eu choro, né? Eu acho que meu maior desafio foi realmente foi lidar com aquelas mortes do massacre e conseguir parar, voltar, e continuar fazendo o que eu tinha que fazer. Eu acho que aquilo ali foi um ponto importante.

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