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História

Contar história é como refazer a cena

História de: José Walderido Aquino de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

Sinopse

Encontrou nas feiras de Caruaru o gosto pela música e pela representação.  Fugiu com o Circo. Aprendeu com o pai a ser curioso e com o avô a fazer tudo bem feito. Isso contribuiu para o crescimento profissional. Nas atividades culturais e no voluntariado na Aché, voltou aos palcos. Sentimento de pertencimento. Lamara.

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História completa

P/1 – Para começar, queria saber o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é José Walderido Aquino de Oliveira, nasci dia 18 de julho de 1963, em Caruaru, Pernambuco.

 

P/1 – Seus pais também são de lá?

 

R – São, meus pais são de lá também, meu pai e minha mãe. E minha mãe com origem indígena, meus avós também são de lá, os pais do meu pai também são de lá, de Pernambuco, eles nasceram em Gravatá. E da parte da minha mãe, também nasceram em Pernambuco. Só minha avó que é viva hoje em dia, os outros meus avós já morreram todos. 

 

P/1 – Qual a profissão dos seus avós?

 

R – Olha, a minha avó, por parte da minha mãe, era do lar, doméstica, a pessoa fala do lar, né? O meu avô, por parte da minha mãe também, ele era vendedor, vendia coisas, trabalhava com negócio de jogo, tinha casa noturna... essas coisas assim. E gostava muito de jogar também [risos]. Mas já faleceu, infelizmente. Os meus pais da parte do meu pai, o meu avô, ele era montador, não sei se é a palavra certa que a gente fala, quando uma pessoa transporta as máquinas de uma firma para outra, quando vai mudar. E ele fazia essa coisa, ele desmontava as máquinas e montava em outro lugar, onde a firma ia se instalar. E a minha avó era dona de casa, por parte do meu pai também. 

 

P/1 – Você conviveu muito tempo com os seus avós?

 

R – Olha, eu estive muito tempo, assim, com os meus avós por parte do meu pai. Que cheguei a morar até com eles. Em Pernambuco mesmo eu morei na casa deles, um tempo, depois morei em Arapiraca, em Alagoas, morei com eles também, bastante tempo com eles, conheci muita coisa por lá. Inclusive tem até, que lá é chamado "a terra do fumo", eu gostava de ver eles mexer o fumo para lá e para cá assim, aquele cheiro gostoso do fumo. Morei bastante tempo com eles, depois voltei para morar com o meu pai. 

 

P/1 – Que lembranças você tem desse tempo?

 

R – Ah, eu tenho várias, mas uma que me marca bastante é quando eu e meu primo, que meu primo morava com a gente também, a minha tia era separada e meus dois primos moravam com a gente na casa dos meus avós, em Alagoas, que a gente ia lá para linha do trem, passava o trem e a gente fazia faquinha [risos]. A faquinha que eu digo é assim, a gente pegava aqueles pregos grandes e colocava em cima do trilho, da linha, quando o trem passava amassava ele e fazia uma faquinha [risos]. E a gente gostava de fazer isso aí. 

 

P/1 – Vocês usavam?

 

R – Não, era só pelo prazer de amassar o prego. Ficava na forma de uma faquinha.

 

P/1 – Tinha outras brincadeiras que você lembra?

 

R – Tinha, tinha. É que a gente gostava muito de brincar de teatro. A gente imitava o pessoal da televisão, eu, ele, a minha prima, os colegas da escola, jogava bola também, tinha muita brincadeira legal. Mas o que a gente gostava mais era de representar. Era gostoso [risos]. 

 

P/1 – O lugar que você passou o maior tempo da sua infância qual foi?

 

R – Foi em Caruaru.

 

P/1 – E como era Caruaru nesse tempo?

 

R – Olha, Caruaru era uma cidadezinha assim... era pequena, mas estava em fase de crescimento, estava chegando coisas novas. Era aeroporto, pessoas querendo conhecer através da feira, que é muito famosa pela a feira, a Sulanca, os bairros antigos, o pessoal gostava de ver as arquiteturas dos bairros antigos, e estava indo para lá. E o que mais me prendia lá era um ponto que a gente tinha, turístico, chamava-se o Morro do Bom Jesus, que hoje em dia se identifica muito, assim, com aquele Cristo Redentor, que vai todo o mundo lá. Então eles fizeram uma estrada que cortava assim, do lado do morro, o carro subia, ia subindo, aí em cima tinha um estacionamento. Então o pessoal ia lá só para ver a vista que enxergava quase toda a cidade inteirinha. Então todo o mundo ia para lá para ver isso aí. E tinha uma rua, que eu acho até muito engraçado, o pessoal tinha uns dizeres lá. Era "Rua do Lixo", porque era muito suja essa rua [risos]. E o pessoal falava assim: “Ah, você vai em tal lugar assim, assim?" E o pessoal: "Lógico que eu vou. Você acha? Eu moro na Rua do Lixo, eu não perco para ______" [risos]. E tinha essas coisas. Eu gostava desse ditado. Isso era muito marcante para a gente. A gente ia lá no morro, nesse morro, ficava lá em cima olhando, depois a gente descia. Era muito gostoso fazer isso aí. 

 

P/1 – E seus pais, José Walderido?

 

R – Meu pai, assim, de um modo geral... Eu tive uma tristeza muito grande, que foi ter perdido a minha mãe muito novo. Não curti minha mãe muito tempo. E a minha mãe, pelo pouco que eu conhecia, ela era muito carinhosa com a gente, tal. Ficava muito em casa, cuidava da gente demais. Aí surgiu a doença que ela teve, foi o câncer, que na época era muito precário, não tinha muita coisa para se curar, hoje em dia não tem, mas tem algumas outras coisas que amenizam. E a gente não tinha, inclusive meu pai se desfez de muita coisa que a gente tinha para estar cuidando da doença dela, através dos remédios, esse negócio todo. E nesse dia eu estava na casa do meu tio, e recebemos um telefonema que ela tinha falecido. E eu não estava em casa. Meu pai deixou eu lá e foi embora. Eu já imaginei, falei: “Pô, aconteceu alguma coisa com a minha mãe”. Depois ele voltou e falou que ela tinha falecido. Mas antes disso ela... um momento muito triste que eu, hoje em dia, eu não gosto de carnaval, não pelo carnaval e sim pelo momento que aconteceu, foi justamente época de carnaval que ela faleceu. E ela reuniu a família, olhou para o telhado e falou assim: "Olha, hoje é domingo, amanhã é segunda, terça feira de carnaval, às duas horas da tarde eu vou morrer." E foi isso que aconteceu. Ela premeditou. Falou assim: "Eu vou morrer tal dia, assim, assim, tal hora." Isso me deixou muito chocado. E isso vem até hoje na minha cabeça, sem explicação para isso, né?. Mas os momentos dela viva com a gente foram muito maravilhoso. 

 

P/1 – Como é que você descreveria a sua mãe?

 

R – Ah, minha mãe era muito maravilhosa. Ela é, tipo assim, ela vem também de origem indígena, que é da minha avó, e ela é uma mulher bem alta, inclusive meu pai teve que quebrar aqueles alicerces, assim, que tinha na porta, porque ela era muito alta. Tinha quase dois metros de altura. E ela não conseguia passar, ela tinha que abaixar. E ela é muito bonita, ela era bem morena, cabelo compridão liso, e muito acolhedora, muito legal.

 

P/2 – O que você sabe mais sobre essa família indígena da tua mãe?

 

R - Olha, o que eu sei da família da minha mãe indígena, eu sei muito mais da minha avó, que até hoje em dia ela ainda é viva. E ela tem 97 anos. Só que ela é lúcida, ela faz a própria comida, ela pinta as unhas, ela passa sombras, batom, se arruma, vai no cabeleireiro e sai de casa, entendeu? O que eu tenho, assim, lembranças dela é o seguinte: a gente tinha qualquer dor, ela ia, falava: "Eu vou ali no mato, já volto." Pegava uma erva, fazia um chá lá, você tomava e, não sei se era a fé, mas que curava, curava. Então, quer dizer, eu penso assim, na época dos índios eles tinham muito isso, de erva, de chá, esse negócio todo. Então a minha avó também é uma pessoa muito bonita, ela está enrugada, mas ela já foi muito bonita. Ela é preta, bem preta mesmo, cabelo lisinho, olhos azuis. Isso é muito lindo na minha avó, que eu acho legal [risos]. 

 

P/1 – Sabe de onde vêm esses olhos azuis?

 

R – Não. Não sei, porque o que eu tive mais contato de avós mesmo foi do lado do meu pai. Lado da minha mãe foi pouco, porque quando a minha mãe era viva, a minha avó ia muito em casa. E depois que a minha mãe faleceu a gente se distanciou e ela ficou cuidando dos meus dois irmãos mais novos. E a gente veio embora e não teve contato mais com ela. 

 

P/1 – Quantos irmãos você tem?

 

R – Seis irmãos. 

 

P/1 – O nome deles?

 

R – Walter Marcelo Aquino de Oliveira, Waldir Aquino de Oliveira, Stella, Maria Stella Aquino de Oliveira, Maria Luísa Aquino de Oliveira e Maria Adélia Aquino de Oliveira.

 

P/2 – Que lembranças você tem de você menino com os seus irmãos?

 

R – Ah, [riso] eu sempre fui o mais danado, que eu era o mais velho. Então, como eu era, assim, o mais danado, o que eu fazia? A gente tinha um rádio lá em casa, que o fiozinho dele, tinha um fiozinho que era para fora e dava choque aquele fiozinho. E a gente botou uma placa lá, de brincadeira de menino, botou uma placa em frente de casa escrito assim: “Dá-se choque”. E a gente botava um preço [risos]. E, incrível que pareça, iam as crianças lá tomar choque [risos]. 

 

P/1 – E pagavam?

 

R – Pagavam. Eu botava a mão no fio, pegava na mão de um, de outro e o último que se ferrava [risos]. Então era assim. Pegava na mão dos meus irmãos inteiro, e a corrente ia passando, e último é que se danava, que não tinha para onde ir. Mas a criança queria tomar um choque. E pagava para isso [risos]. Então essa foi a brincadeira que me marcou muito, foi essa. E fazia também carrinho de rolimã. No quintal de casa era uma descida. E a gente fazia umas estradas, eu fazia tudo isso daí. Falava que era um ônibus da linha, que ia passando para pegar o pessoal e levar para a cidade. E as crianças também eu cobrava uma taxa para andar no meu carro [risos].

 

P/1 – Você cobrava?

 

R – Cobrava. E eles iam. Eu pilotando na frente e eles atrás, a gente ia. Mas era muito legal, legal mesmo. 

 

P/1 – Iam da onde para onde?

 

R – Assim, eu descia o quintal e eu mesmo demarcava uma pista, demarcava e ia como se estivesse indo para a cidade. Então eu passava, parava nos pontos, que nem o ônibus mesmo. E chegava lá em baixo: “Olha, ponto final” [risos]. E o pessoal descia [risos].

 

P/2 – E como era essa casa onde você vivia?

 

R – Olha, a casa que a gente vivia era assim: na época, quando a situação ficou muito ruim, por que a gente tinha que comprar remédio, então a gente alugou essa casa lá em Caruaru mesmo. Era um quintal muito enorme, as casas de lá são muito grandes, inclusive até a gente tem medo de ir no quarto sozinho por causa dessas coisas. É muito enorme a casa. E esse quintal também é muito grande. A gente ia, eu demarcava o quintal e fazia essa brincadeira. Era uma casa muito legal, que eu achava, né, que eu tinha um quarto lá que, eu falava assim, eu determinava a meus irmãos: "Só eu entro aqui." Entendeu? Era coisa minha, né? Por que? Porque eu falava assim: "Aqui é meu estúdio, aqui eu faço as minhas confissões, aqui eu faço o meu teatro." Ninguém entrava, só eu [risos]. Aí eu achava muito legal essa casa.

 

P/1 – Você morava na área urbana?

 

R – Não, era um pouquinho, não era muito afastado da cidade mesmo, do centro de Caruaru. Eu morava do lado da pista que cruza a cidade, quando a gente vem lá do... a gente vai daqui para lá. Aí pega a entrada principal, passa nessa pista, tem a rodoviária, cruza, dividindo a cidade no meio, a cidade e a rua da minha casa. Então eu ficava entre o centro e a periferia. Nem para um nem para outro. Era no meio, era meio termo. E para ir da minha casa para o centro, a gente ia a pé, era pertinho. 

 

P/1 – O que você lembra do que você fazia no centro da cidade?

 

R – Olha, o que a gente gostava muito de fazer lá... o pessoal falava: “Ah, vamos no cinema?” Eu falava assim: “Vamos”. Eu ia no cinema, mas quando chegava lá nessas feiras da Sulanca, essas feiras de artesanato, eu ficava por lá, e meus colegas iam para o cinema. E falavam: “Ah, você não gosta de cinema?” Eu falava: “Eu gosto de cinema, mas gosto muito mais do artesanato." E eu ficava vendo eles fazer. Aí perguntava: “Como é que faz isso?”, que eu sou muito curioso, eu pergunto das coisas. Inclusive antes de vocês aqui, a menina estava tirando foto e eu perguntei um monte de coisa para ela e ela me explicou [risos]. Ainda bem que explicou [risos]! A Márcia, né? E lá também, eu perguntava para as pessoas: "Como é que faz isso, como é que faz pulseirinha, colarzinho? E eles me ensinavam, eu ficava ali, eu via o pessoal tocar violão, foi onde me interessei pela música também. Era isso que eu gostava de fazer lá, era isso. E eles iam embora, eu ficava. Aí eu andava a feira todinha, olhando os artesanatos. Inclusive eu lembro como se fosse hoje, aí subia a rua do Colégio do Conselho, descia, subia, depois descia de novo, pegava a feira, que a feira é enorme, enorme mesmo. Eu ia andando na feira, olhava de um lado, eu voltava do outro lado, olhava o outro lado. Ficava mais de dez vezes indo para lá e para cá. Que eu gostava, muita gente, pessoas diferentes, artesanato. Um vende isso, outro vende aquilo, aí tinha a feira do troca-troca também, o pessoal trocava passarinho por espingarda, anel por, sei lá, trocava de tudo ali. O cara chegava com uma gaiola com passarinho, saía com um cachorro [risos]. Muito legal também.

 

P/2 – Essa feira acontece com frequência?

 

R – Direto. A feira da Sulanca é a feira de artesanato, o pessoal monta, começa de manhã e vira a noite, o pessoal vai...vira,  é o pessoal da família, o pessoal que tem a barraca manda outra pessoa. Eles não desmontam, é dia e noite. 

 

P/1 - Tinha barracas de comida?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Você lembra o que era vendido?

 

R – Olha, tinha o beiju de tapioca, tinha caldo de cana, que chamam lá de garapa, tinha o que mais? Era o tremandão, que a gente comia, era um lanche que era um pão bem grande, cortava no meio e ia comendo em pedacinhos. Tinha o churrasquinho na rua, tinha a raspadinha, né, com gelo: "Ah, eu quero de laranja!”, o cara raspa o gelo e já coloca dentro do copo. Na mão mesmo. Ele raspa e coloca. E as festas que tinha, a de São João,  era a capital do forró. E quando tinha época de São João, era o dia era mais animado na cidade, era esse. A semana de São João.

 

P/2 – Como era essa festa?

 

R – Olha, ia grupos de forró tocar lá, a gente dançava no meio da rua todo o mundo. E tinha as barracas, as mesmas barracas continuavam no mesmo lugar. E o centro da cidade lotava, o pessoal se vestia típico, né, caipira, ia lá, fazia quadrilha, pastoril, as pessoas representavam em cima do palco. E rodava a cidade inteirinha, ficava lá a noite inteira. E era muito gostoso. O pessoal falava assim: “Ah, amanhã tem mais. Eu volto aí." Aí virava a noite, as outras pessoas que não foram iam, [risos] as outras iam descansar, depois voltavam. Era muito legal. E o São João... o que mais que tinha? Quando o pessoal ia fazer vaquejada. Não sei se vocês sabem o que é vaquejada. É assim, é tipo um torneio de... aqueles caras que trabalham como vaqueiro. Eles pegam o boi assim, vão dois cavalos assim, tem a arquibancada, vai o cavalo, ele solta o boi lá naquele lugar, que eles põem para correr. E lá, o cara que passar na frente, o primeiro, do boi puxando o rabo dele assim e jogar no chão, derrubar ele no chão, é o vencedor. Então, a gente chamava de vaquejada isso aí. E a gente ia assistir também. Era muito legal.

 

P/1 – Além das brincadeiras, você lembra quando você entrou na escola?

 

R – Ah, lembro sim [risos].

 

P/1 – Como era a escola e a vida na escola? 

 

R – Olha, na escola, eu fui uma pessoa, assim, eu conheci muita gente legal. Não vou falar que eu fui santo porque eu não fui, eu fui muito bagunceiro na escola, mas na hora da lição eu fazia mesmo e prestava atenção. Inclusive aconteceu até um fato legal, não legal, interessante. Que eu estava... meu pai falou assim: “Olha, você vai para a escola?” Eu falei: “Vou.” "Então você passa na casa da sua tia”, que era caminho da escola, “passa na casa da sua tia, pega o seu primo e vão os dois para a escola”. Eu falei “Está bom”. Quando eu cheguei na casa da minha tia, a minha tia não estava, mas meu primo estava esperando na porta. Aí eu falei para ele assim: “Cadê a tia Célia?” Ele falou: “Ela não está”. Aí eu falei: "Ah, então não vamos para a escola hoje não. Vamos colocar as coisas aqui embaixo da cama, nossas bolsas, o caderno, e vamos lá no rio, tomar banho lá no rio.” Tinha uma ponte grande, a gente pulava lá de cima, mergulhava. Era bem alto. Eu gostava muito de fazer isso. Aí, beleza. Fomos lá. Quando a gente voltou, aí já era tarde, a gente tinha saído da escola, aí meu pai passa lá para me pegar. Aí meu pai passou para pegar eu, aí ele falou assim: “Ué, vocês foram para a escola?” O meu primo não sabia mentir, né? Meu primo não falava nada mas ele dava risada. E eu só olhava para ele, não falo, não falo. O meu primo olhava só para debaixo da cama. E meu pai: “O que tanto você olha para debaixo da cama?” Ele olhava, meu pai foi olhar, as nossas bolsas estavam lá. Aí ele falou assim: "Você não foi para a escola.” Eu falei “Não, eu fui." "Onde você foi? Já sei até onde você foi, você foi para o rio.” Eu falei: “Não.” Ele fez assim no meu braço. Aí ficou com aquela marca, aquele risco branco, do rio, aí eu tomei uma surra [risos].

 

P/1 – Você apanhou bastante?

 

R – Apanhei. Meu pai era sapateiro, ele mexia com sapato [risos] E tinha aqueles couro lá em casa, [riso] e eu apanhei com couro de boi. Apanhava, mas com razão. Eu também fazia muita traquinagem. E ele me batia, com razão. Mas a minha infância foi assim, eu fui danado, eu era muito extrovertido. Em todo o lugar que eu ia eu manipulava as pessoas, não assim no termo ruim, mas uma coisa boa. Eu sempre estava bolando alguma coisa, eu sempre era carro-chefe de alguma coisa. Eu sempre falava: “Vamos fazer isso!”, todo mundo seguia. E eu gostava disso, de estar comandando. Mas sempre para o bem, não para o mal. Graças a Deus nunca me envolvi com droga, com nada. Sempre ia assim, eu gostava muito de me divertir, divertir assim, saudavelmente, rindo de uma pessoa. Inclusive a gente ia na feira e eu ficava olhando as pessoas que passavam. Às vezes passava...  o cara, ele tinha problema na perna e a gente imitava, sabe, essa pessoa. E todo o mundo dava risada. Então eu fazia isso para as pessoas darem risada, não menosprezar aquela pessoa que tinha aquele problema. Não era mesmo, era só para isso, para a gente estar brincando. E meus amigos, todos eles gostavam de estar comigo. Então quando tinha algum lugar para ir eles me chamavam, a primeira coisa me chamavam. Eles iam em casa, me chamavam e eu ia junto. Então para mim era legal que eu sabia que eles gostavam que eu estivesse ali. Para mim era fascinante isso aí. 

 

P/2 – Você falou que seu pai era sapateiro, conta um pouquinho mais do trabalho dele.

 

R – Meu pai é uma pessoa muito assim, até hoje, ele é muito inteligente, o meu pai. Eu puxei um pouco assim, dele, de ele estar perguntando as coisas. Eu pergunto muito. Onde eu vou eu pergunto: “Para que isso? Para que aquilo? Para que serve isso? E isso aqui?” E meu pai é assim. Meu pai, ele mexe com sapato, ele mexe com pintura, ele mexe com mecânica, ele mexe com hidráulica, cano, tudo. Tudo o que você imaginar, arruma ferro, ele faz. E na época meu pai tinha essa profissão em carteira, que era pespontador, que fala, que é aquele cara que costura na máquina. Então ele costurava sapato, costurava bola, o pessoal levava para arrumar, sapato velho que soltava, ele ia costurar, tipo uma sapataria. A profissão do meu pai era essa. E ele trabalhou, isso quando ele trabalhava por conta, antes ele trabalhava num curtume, lá em Caruaru mesmo. Chamava-se (Curtume Luiz Monteiro?). E ele trabalhou lá como embalador. Trabalhava tipo na expedição, embalava as coisas para sair para fora. E depois que ele saiu de lá começou com esse negócio de sapato. E tem tudo a ver. É couro, sapato também é couro, ele fazia chinelo. Tanto que para a gente ele não comprava sapato nem chinelo, ele mesmo fazia. Os moleques na escola: “Onde você arrumou esse chinelo?" “Meu pai faz.” “Ah, então manda ele fazer um para mim.” Meu pai fazia, ele não cobrava nada. Os moleques iam lá e davam o dinheiro para eu dar para ele. Ele nem cobrava. “Ah, dá isso para o seu pai.” Porque gostavam do chinelo que eu usava.

 

P/2 – Como é que era esse chinelo?

 

P/1 - Ele trabalhava em casa?

 

R – Trabalhava em casa. 

 

P/2 - Essa oficina era em casa? 

 

R - Era em casa.

 

P/2 –E esse chinelo, como era?

 

R – Meu pai fazia, era uma tirinha, ele fazia a palmilha, uma tirinha em cima aqui do pé, outra passando por aqui e a outra virando aqui. Como se fosse uma alpercata, que o pessoal fala. Não sei o nome direito agora, acho é alpercata, um negócio assim. E todo mundo gostava, ele ainda pintava, ficava legalzinha. Eu ia para escola e o pessoal gostava. E queria também [risos].

 

P/1 – Você aprendeu alguma coisa desse ofício? 

 

R – Eu aprendi. Eu sei costurar em máquina. Olha, eu sei fazer a parte do sapato manual todinha, tanto como raspar. Inclusive, você vê, eu trabalhei numa firma chamada Couroflex, que era de sapato. E lá eu cheguei a ser até encarregado de uma seção, que eu fazia de tudo. Eu colava, fazia palmilha, passava cola, raspava, botava na prensa, o acabamento final, pintava e botava na caixa. Então eu aprendi com o meu pai isso aí. Isso aí eu não tive a oportunidade de passar para os meus filhos por que? Agora está um serviço muito precário, ninguém procura muito. Cada um tem o que? Cada cidade tem o seu sapateiro, você vai lá e manda ele arrumar. Ele tem o ponto dele lá. Então isso não se faz mais em casa, que era uma coisa que era caseira, você fazia na sua casa. E as pessoas iam atrás de você para você fazer, prestar o serviço.

 

P/2 – Você falou que a tua mãe faleceu quando você era bem menino ainda. Como ficou a tua casa sem a figura da tua mãe? A tua avó foi morar com vocês?

 

R – É assim. Eu não tenho muita lembrança por causa da minha idade, mas o que eu lembro é que quando a minha mãe faleceu parecia que tinha desmoronado o mundo em cima da gente. A única coisa que eu lembro é que a gente ia para o enterro, inclusive a gente até, eu falei o dia que eu brinquei em cima do caminhão, que eu não estava sabendo o que estava acontecendo. Meu pai só falou: "Olha, sua mãe faleceu.” Eu não sabia nem o que era falecer. Então eu falei: “Faleceu?" Pronto, ficou por isso mesmo. Então foi bastante gente no enterro, a gente foi, eu subi no caminhão, meu tio tinha um caminhão, a gente ia no caminhão, ia brincando, as crianças, não estava sabendo o que estava acontecendo. Depois, quando a gente voltou para casa, que eu comecei a sentir a falta da minha mãe, porque ela não estava lá, né? Aí eu perguntava: “Pai, o que aconteceu?” Ele falou: "Sua mãe faleceu, ela morreu, tinha doença, assim." Aí a gente caiu em si, chorava, sentia falta. E minha avó estava sempre lá, a minha avó, ela ia lá ajudar a gente. 

 

P/1 - A mãe do teu pai?

 

R - Não, da minha mãe. E ela ia ajudar a gente, meu pai ia trabalhar, ela morava na casa do outro lado da rua, a gente ia para a casa dela. Meu pai trabalhava em casa. Para a gente não atrapalhar ele. E ele trabalhava em casa. Aí, como eu te falei, as coisas foram ficando ruim, ruim, ruim, aí meu pai resolveu ir embora, para São Paulo. E tem uma história muito interessante, que o meu pai, ele conheceu uma senhora que era amiga nossa lá na rua, amiga da minha mãe também. O marido dela faleceu e ela veio embora para São Paulo. O meu pai, a minha mãe faleceu, ele veio embora para São Paulo. E ela veio morar em Guarulhos, essa mulher. Meu pai veio morar em Guarulhos. Eles já se conheciam de lá. Eles se encontraram aqui e eles se casaram. Entendeu? E eu ganhei mais quatro irmãos, por parte da minha madrasta. Hoje em dia eles não estão mais juntos. Meu pai se separou dela também, não está mais com ela. Mas você vê como que é. Morava na mesma rua, o marido dela conhecia meu pai e ela conhecia meu pai, minha mãe, o marido dela faleceu de acidente, ela veio embora. E o meu pai, a minha mãe faleceu ele veio embora. Aí ele chegou aqui casou, em São Paulo. Quer dizer, é um destino.

 

P/1 – Até quantos anos você morou lá em Caruaru?

 

R – Olha, eu morei... eu saí de lá com nove anos de idade. Assim que a minha mãe faleceu, eu morei lá até os meus nove anos e depois eu vim para São Paulo, nós voltamos mais uma vez para lá. Como eu te falei, que aí vem aquele negócio lá que eu gostava muito da arte e veio o circo, e eu fugia no circo. Até essa idade aí de 16 anos. Olha, eu morei nove anos, vim embora para cá, voltei, 16, 17 anos, e morei mais seis anos. Depois voltei para São Paulo de novo. 

 

P/1 – Então só para a gente entender um pouquinho melhor, você veio para São Paulo e veio morar onde? 

 

R – Eu morava na casa da minha tia. Mas eu vim junto com o meu pai, a minha família, meus irmãos. E, outra coisa, antes do meu pai... da primeira vez que você está falando, quando eu vi, o meu pai tinha umas cartas de interno, de internato, para colocar a gente no internato, porque ele não tinha condições de criar. E dois irmãos meus, que eram os mais novos, ficaram com a minha avó. Eu vim embora com ele, junto com os meus quatro irmãos mais velhos, vim para cá. Aí meu pai foi na minha tia e falou assim: "Eu quero saber onde fica o Lar da Irmã Celeste", que era onde internavam as crianças. E meu pai veio com as cartas, foi lá no Lar da Irmã Celeste, chegou na frente...

 

P/1 – Em que cidade isso?

 

R – Guarulhos. Aí ele chegou aqui em Guarulhos, ele bateu palma lá, a mulher saiu, ele falou: “Olha, eu quero saber como eu faço para internar essas crianças aí, eu estou com o papel aqui.” Ela falou: “Ah, é só o senhor entrar tudo aí.” E ele teve uma reação lá que me surpreendeu bastante. E eu dou valor a isso até hoje. Ele pegou e rasgou as cartas, jogou fora e falou assim: “Eu vou cuidar de vocês”. Quer dizer, aquilo, para mim, meu pai foi um herói. Foi não, ele é um herói. Então ele conseguiu criar a gente todos, deu escola, comida, nunca faltou nada. E com o trabalho dele. 

 

P/1 – Ele foi sozinho para o internato ou vocês foram com ele?

 

R – Não, nós fomos junto com ele.

 

P/1 – Você lembra dessa cena?

 

R – Lembro, lembro. 

 

P/1 – Como é que foi exatamente?

 

R – Então, aí, quando ele chegou lá, que bateu palma, a mulher saiu, nós começamos a chorar. Porque a gente não estava entendendo. “Pai, nós vamos morar nessa casona?" Que eu pensei que era casa de parente. Falei: "Nossa, que casa grande!”, porque lá é enorme, é um hospital grande. Não é hospital, é internato. Aí eu olhei para os meus irmãos, assim, eles olharam para mim, começaram a chorar, aí eu falei: “Caramba! O que está acontecendo? Eu falei: "Pai, o que está acontecendo?” Ele falou assim: “Olha, isso aqui o pai vai internar vocês, porque o papai não pode tomar conta...” Nossa, aí desmoronou, todo mundo começou a chorar, agarrava nas pernas dele, e o meu irmão mais novo que estava com a gente catou na roupa dele, assim, começou a chorar, não queria sair. Aí meu pai pegou, olhou para a madre assim, olhou para a gente, pegou o papel, rasgou e jogou no chão. Falou assim: “Olha, ninguém vai cuidar de vocês, quem vai cuidar de vocês sou eu. Eu que tenho que cuidar de vocês, não vou deixar vocês com ninguém.” Nossa, foi uma alegria. Aí desde esse tempo aí eu sempre ajudei meu pai. Eu fui muito danado, mas sempre ajudando, sempre ajudando. Fazia de tudo. Inclusive quando foi o meu primeiro emprego... fui trabalhar. Eu trabalhei num bar, em troco de um almoço. E o que eu levava para casa? As coisas que sobravam no bar eu levava para casa, para os irmãos comer. Foi difícil, foi difícil, mas a gente conseguiu.

 

P/2 – Quando ele desistiu de internar vocês ele voltou para a casa da sua tia?

 

R – Aí foi na casa da minha tia, a minha tia falou assim: "Olha, eu tenho um quarto aqui, se vocês quiserem ficar." "A gente fica." Era tipo, assim, aquela casa e tinha um quarto no fundo. E a gente morou ali. 

 

P/1 – Quanto tempo?

 

R – Foi muito tempo. Na casa dela a gente morou mais ou menos uns sete anos, até meu pai se estabilizar. Aí meu pai alugou outra casa, a gente foi crescendo, foi ajudando, com dinheiro, e a gente foi indo, foi indo, aí conseguimos.

 

P/1 – E o seu pai trabalhava no que nessa época?

 

R – Ele fazia a mesma coisa, sapato. Só que era o seguinte: aqui em São Paulo o pessoal que trabalhava em fábrica com negócio de sapato, você ia lá, pegava o serviço e levava para fazer em casa. Então a pouca economia que meu pai trouxe, ele comprou a máquina de costura industrial. E começou a trabalhar em casa. E as minhas irmãs ajudavam, a minha tia, a minha tia dava dinheiro para elas, eu trabalhava no bar, trazia coisa para comer, de vez em quando o cara me dava um dinheiro e tal. Foi assim. Ainda criei, ajudei o dono do bar a criar três filhas, que eu levava para a escola, buscava, dava banho, [riso], virei uma babá [risos]. Mas foi uma boa experiência. Eu gostei muito.

 

P/1 – E você estudou aqui em Guarulhos?

 

R – Estudei. Só que aqui, eu tinha perdido muito tempo por causa dessa ida e vinda, eu não tinha estudado o suficiente. Aí eu comecei a fazer... a minha tia arrumou escola para mim, eu comecei a ir na escola e comecei a concluir os meus estudos. Muito tarde, mas concluí. Eu inclusive, quando cheguei aqui, nosso estudo de lá, que nem eu ia para a escola de lá, era muito precário, a gente não aprendia muito. Era uma coisa muito restrita. O nível que a gente chegava lá era a primeira série aqui em São Paulo. Então tinha que começar tudo de novo. E eu tive esse desafio, eu fui lá e comecei do zero. Primeira série até colegial.

 

P/1 – Quais as maiores diferenças além dessa que você citou das escolas, lá de Pernambuco para cá, para São Paulo?

 

R – Olha, as diferenças que eu tive, depois que a minha mãe faleceu, foi que começaram as diferenças. Porque as coisas começaram a complicar. E a gente via que estava complicando por que? Porque a gente olhava na casa inteirinha e não tinha nada para comer, né? E de vez em quando pegava o meu pai chorando, mas ele não falava o que era. E isso foi magoando a gente. Você fica depressivo, fica chateado. E você não pode fazer nada, você é criança. Essa é a diferença. Mas antes da minha mãe morrer foi uma maravilha, foi jóia, a gente viveu muito bem, eu gosto muito de lá. Hoje em dia não vou para lá porque eu sou casado com uma mulher daqui e ela não vai. E meus filhos também são daqui. Então, quer dizer, São Paulo faz com que você cria raízes e é difícil sair.

 

P/1 – Mas depois dessa experiência aqui em São Paulo você retorna para Pernambuco. Por que razão?

 

R – Olha, o retorno para lá foi numa simples curiosidade, de eu voltar para ver meus dois irmãos que ficaram, inclusive eu voltei, tinha um amigo nosso que era caminhoneiro, e eu fui com ele. 

 

P/1 – Você voltou sozinho?

 

R – Voltei sozinho. Depois que meu pai foi. Aí a gente morou um tempo lá, mas aí a gente já estava legal. Eu voltei, falei: "Eu queria conhecer o pessoal, estava com muita saudade, a minha infância era toda lá." Eu queria rever tudo de novo. Só que não é as mesmas coisas. Quando eu cheguei lá encontrei tudo mudado, não tinha nada daquilo que eu pensava, que estava na minha cabeça aqui. Eu falei: "Eu vou chegar lá, vou encontrar todo o mundo." Não, tudo mudado, as pessoas diferentes, as casas, os costumes, começou a mudar, mudar e eu me senti perdido de novo. Aí foi, meu pai voltou para lá de novo, a gente morou na casa do meu tio lá, aí foi onde começou eu ir, aconteceu aquelas coisas que eu te falei, de estar fugindo com o circo, esse negócio todo.

 

P/1 – Conta para a gente isso. Você voltou, você começou a trabalhar?

 

R – É, eu voltei, o meu emprego lá é de dar risada, eu saí para procurar emprego, aleatório, e entrei lá num circo lá e perguntei: "Está precisando de alguém aí?" “O que você sabe fazer?” Eu falei: “Qualquer coisa que você me ensinar eu faço.” Aí o cara falou: “Olha, então você vai..." e lá tinha um rio grande assim, bem grandão... "você vai levar os elefantes para tomar banho no rio” Eu falei: “Vou”. Então eu amarrava uma corda assim em quatro elefantes, batia uma varinha na bunda dele e puxava para dentro do rio. E eu fazia isso com tanto carinho que os elefantes começaram a gostar de mim. Então a gente ia, eu lavava eles, passava... isso não precisava fazer, mas eu fazia... pegava uma escova, passava nas costas deles, eles deitavam no chão(risos). Aí eu passava, aí brincavam comigo, pegavam, enchiam a tromba d´água e jogavam em mim, dava aquela refrescada. Isso aí, para mim, nossa, foi demais!

 

P/1 – Tinha nome esses elefantes?

 

R – Não, não tinha nome. Tinha o meu nome imaginário, eu botava em cada um. Tinha um que era fêmea, a Princesa, tinha o Charles... eram três, a Princesa, o Charles e o Donato. Era imaginação minha. Eu colocava, mas ninguém sabia, só eu. Era particular [risos]. Aí eu trazia eles de volta, colocava lá. Mas tinha um problema, que era a prefeitura, que eles faziam muita sujeira na rua. Conforme iam andando, eles estavam com vontade de... né, aí caía tudo na rua [riso]. E os guardas iam atrás de mim [risos]. 

 

P/2 – Mas como era isso? Você atravessava a cidade com os elefantes?

 

R – Não. O circo ficava aqui, o rio ficava do outro lado. Então eu tinha que sair daqui, passava a estrada, então tinha que atravessar a estrada para ir para o outro lado do rio. Era perto, mas era um percurso que, para um elefante, é longe. Ele vai devagar [risos].. Aí eu fiquei, fiquei. Antes disso, de eu estar trabalhando com eles lá, o que foi que aconteceu? Meu pai falou: “Olha, tem um circo aí na cidade”. Eu falei: “É mesmo, pai?” "Tem." O ingresso é ou você leva uma roupa, um agasalho, ou você leva um gato, que é a refeição do leão. Eu falei: "Você está louco?" Ele falou: “É verdade.” Eu falei: "Não, você está brincando." Ih, os gatos da rua começaram a sumir tudo [risos]. Não sobrava nem um gato.

 

P/2 - E a roupa, para quem era? 

 

R - Era para dar para as crianças pobres, carentes. Aí eu falei assim: "Então beleza, deixa comigo." Aí foi que eu comecei a catar os gatos na rua [risos].

 

P/1 – Qual era o nome desse circo?

 

R – Era... espera aí... era Circo Central! É isso mesmo. Circo Central. E eu comecei a ir lá, comecei, comecei, fui me enturmando, de repente eu estava lá no picadeiro, brincando com o palhaço, um monte de coisa. Fui gostando.

 

P/1 - E as atrações do circo, como eram?

 

R – Ah, era assim, era pobre. A atração maior eram os elefantes, porque só tinha eles e os leões, dois leões, os palhaços e as brincadeiras que a gente fazia lá. Inventava com as crianças brincadeiras e pronto. E era assim. Aí foi um belo dia, o meu pai descobriu, porque meu pai não queria, meu pai descobriu, aí falou para o meu tio, aí meu tio foi lá me buscar, eu falei: "Ah, não quero ir." Porque às vezes eu até dormia lá. Que era tão bom, eu achava tão legal que eu dormia lá.

 

P/2 – Você tinha visto um circo antes?

 

R – Não. 

 

P/2 – Você lembra desse primeiro espetáculo que você viu?

 

R – Lembro. Isso gravou aqui, olha. Então aquilo me fascinou, eu falei: “Pô, será que eu posso fazer isso?”

 

P/2 – O que você gostou nesse espetáculo?

 

R – Sabe por que? Porque é assim: me passava uma coisa fora da realidade. Era uma coisa que me levava lá nas alturas, uma coisa que eu me sentia muito feliz de estar vendo aquilo lá, de estar vendo o elefante, de estar vendo o palhaço, de estar vendo as crianças brincar lá. Todo mundo brincando, não tinha confusão, não tinha nada, para mim era um paraíso. Então aquilo lá me encheu todo. Eu falei: “Não, eu vou ficar aqui.” Então, como tive esses transtornos todos na minha vida, aí aquilo para mim era uma maravilha. Aí o circo estava saindo, indo embora, eu falei: “Eu vou junto” [risos]. E meu pai não ficou sabendo, eu fui embora. 

 

P/2 - Você estava contando que o seu tio chegou a ir lá te buscar.

 

R - Então, ele foi lá me buscar, eu falei que não ia, eu já estava com 17 anos, “eu faço o que quiser já”, o meu pensamento era esse. E como eu sempre fui muito liberal, eu falei: "Não, eu não vou." Aí ele falou: "Então eu vou ter que chamar o seu pai." Eu falei “Pode chamar.” Aí, por coincidência, esse circo já estava de saída, eles estavam desmontando para sair na sexta-feira, na última sexta-feira. Aí eu falei: "Eu vou em casa..." Aí fui em casa, conversei com o meu pai, aí meu pai falou: “Olha, eu não quero que você vá mais lá, você fica muito tempo lá, não estou gostando disso, não sei o que, está separado da gente.” Eu falei: “Não, não esquenta a cabeça, está tudo bem.” Aí quando foi de manhã cedinho, peguei minhas coisas e saí. Aí fui para o circo. Aí o circo foi embora, eu fui embora junto.

 

P/1 – Para onde?

 

R – Primeiro lugar que a gente foi era uma cidade chamada Belo Jardim, lá no Estado de Pernambuco mesmo. Aí quando a coisa começou a crescer, crescer, crescer, começou a vir mais animal, e começou a dar certo o negócio, eu estava no meio. E de lá já foi para um outro lugar, no fim fui parar no Rio Grande do Sul. E meu pai já estava preocupado, falou com polícia, já estavam botando cartaz na rua [risos]. Cidade pequena a notícia corre rapidinho. E começou a ir atrás de mim, tal. E meu tio, esse mesmo meu tio que foi lá, ele era caminhoneiro na época. Aí ele foi para o Rio Grande do Sul, me achou lá no circo. Por um acaso ele foi assistir. Ele me viu lá, aí esperou todo mundo sair, foi lá, me chamou, falou: "Olha, eu vou te levar embora. Você é de menor, você não tem querer. Eu vou te levar, porque se você não for, eu venho aqui com a polícia e eles vão te levar embora.” Aí o dono do circo chegou e falou assim: “Olha, ele tem razão mesmo. Você está com a gente, a gente pode ser processado por causa disso. Você tem que ir embora.” Aí aquilo lá desmoronou, acabou para mim. Eu voltei com ele. 

 

P/1 – Quanto tempo você ficou com o circo?

 

R – Eu fiquei uns quatro meses.

 

P/1 – E como eram essas viagens?

 

R – Ah, legal. O que era mais ruim era o fato de desmontar e montar, que era muito trabalhoso. Mas depois que estava tudo pronto, eu não via a hora de estrear  [risos]. Era legal. E a gente tinha muita conversa, pessoal legal, é tipo assim: eu me colocava como se fosse uma família de cigano, de todo o mundo se conhecer, ter a sua própria origem, a sua própria cultura. Porque o circo é assim. Você tem a sua própria cultura, o ambiente, o respeito, a responsabilidade de cada um, fazer suas coisas e as suas tarefas que cada um tem. Isso que eu achei legal no circo, foi isso, é a integração deles, eles são muito unidos. E é o que acontece com os ciganos também, eles são assim. 

 

P/2 – As viagens eram de caminhão?

 

R – É, caminhão. 

 

P/2 – E vocês dormiam...

 

R – Dormia dentro do caminhão, tinha os ônibus, tinha as carretas que levavam os animais, tudo. E era assim, a gente ia. Conforme estava indo legal, ficava. Quando não estava mais legal, saía fora. Mas depois que voltei, aí foi que eu comecei a me sentir, assim, inútil, sem fazer nada. Porque eu só sabia fazer aquilo [risos]!

 

P/2 – O que você fazia no circo?

 

R – Ah, eu era palhaço, que nem eu falei para vocês, eu lavava os elefantes, eu preparava as meninas quando elas iam fazer apresentação. Era eu que, tipo assim, maquiava, pintava cabelo, fazia um monte de coisa, ajudava, eu fazia tudo em geral. O que eu mais gostava era do palhaço. Chegava a minha vez do palhaço, aí eu dominava [risos]. 

 

P/2 – Fazia o que exatamente?

 

R – A gente fazia brincadeira com as crianças. Fazia até os adultos também dar risada. Pintava e bordava, fazia tiro ao alvo no ser humano, com aqueles bastões, fazia que caía, o elefante vinha, fazia que pulava em cima de você, essas coisas de circo.

 

P/2 – Como era a sua roupa de palhaço?

 

R – Ah, eu colocava, tipo assim, aqueles collants que fala, bem apertado, depois aqui em cima um negócio redondo como se fosse uma saia. E aqui na frente tinha uma cara de... no Nordeste chama burro... uma cara de burro. Então eu ficava como se estivesse em cima de um cavalo

 

P/2 - Num burrinho?

 

R - É, num burrinho. Aí a gente ia para cima das pessoas assim, correndo como se fosse um cavalo [risos]. E era legal. Às vezes você fala assim: "Pô, eu era feliz e não sabia." Com toda a dificuldade, com todas as coisas que aconteceram, mas a gente era feliz. Aí depois que aconteceu isso, aí meu pai veio embora de novo, aí foi que aconteceu que meu pai casou novamente. Aí cada um começou a crescer, tomar o seu destino. E inúmeras vezes meu pai voltou e a gente ficou. E cada um começou a ter sua vida, a gente sempre morou sozinho, meus irmãos, a gente alugava casa e morava sozinho. Aí casou um...

 

P/1 – Vocês moravam sozinhos onde? Aqui em São Paulo?

 

R – Em São Paulo. A gente começou a alugar casa, aí morava nós os quatro. Aí casava um, a gente saía e dava a casa para aquele que ia casar. E alugava outra. Aí casava o outro, aí saía daquela casa e ia para outra [risos]. E era assim. Sempre a casa ficava para quem casava. Hoje em dia, graças a Deus, Deus iluminou, que a gente, nessa parte, eu esqueci de falar que meu pai é muito religioso, a gente foi criado dentro da igreja batista. Meu pai sempre foi para a igreja batista e colocava a gente em escola dominical, tudo esses negócios aí. A gente tinha uma cultura de evangélico mesmo. Aí depois cada um tomou o seu destino. Mas meu pai sempre teve isso aí com a gente. E a gente foi casando. E cada um para as suas casas, conseguiu comprar casa, trabalhando bastante, comprou as casas.

 

P/2 – Queria entender um pouquinho. Quando você volta do circo, você não fica muito tempo lá em Caruaru, você logo volta para Guarulhos?

 

R – Não, aí vim embora para São Paulo.

 

P/2 - São Paulo capital?

 

R - Guarulhos. Aí eu vim para cá.

 

P/2 – Fazer o que?

 

R – Então, quando eu vim de lá para cá, a gente foi morar numa casa que a gente alugou. Porque aí meu pai já vinha com dinheiro, estava mais sossegado. Aí alugou uma casa, a gente ficou morando lá, eu arrumei um emprego de... meu primeiro emprego foi... não era mecânico, o primeiro foi do bar lá, depois arrumei como mecânico, ajudante de mecânico. Aí tinha o seu Ronaldo, ele montou oficina, eu fui lá, inclusive eu tenho até orgulho, que eu ajudei ele a subir as colunas, nós mesmos fizemos a oficina e tocamos o barco. E eu ajudava ele. E certo dia, uma historinha lá que aconteceu, eu estava lá embaixo do carro, na época era aquele Simca Chambord, aqueles carros antigos, pesados, aí ele falou: “Olha, deixa que eu fico aí embaixo, vai lá em cima, você dá a partida no carro, quando eu mandar." Eu falei: “Está bom.” Aí eu entrei lá, eu esqueci, meti a partida no carro e ele lá embaixo [risos]. O carro caiu em cima dele [risos]. E eu fiquei gritando lá para chamar... Aí ele: "Põe o macaco! Põe o macaco aqui embaixo!" A sorte que não machucou ele muito porque tinha os cavaletes embaixo, os cavaletes segurou a pancada. Mas machucou a perna, machucou o braço. Mas mesmo assim ele levantou de lá, ele passou a mão na minha cabeça e falou assim: “Não esquenta a cabeça, isso aí é a profissão.” Isso eu não esqueço. Aí foi onde eu comecei a aprender. Eu falei: "Não, eu vou aprender." Aí eu comecei a aprender, estava até bom. Aí um dia lá eu fui tirar gasolina do carro lá, botei, assoprei a mangueira, um cara conversou comigo, eu tirei a boca, quando eu botei a boca a gasolina entrou, engoli tudo. Aí fiquei assim, olha, parado no tempo. Não escutava, não enxergava [risos]. Tive que empurrar e pegar no tranco [risos]. Aí eu fiquei lá. O cara me chamando, eu não escutava, eu ficava assim, parado no tempo. Aí ele falou assim: "O que aconteceu, o que aconteceu?” Eu escutava bem longe, parecia que não tinha ninguém lá, cara! Eu estava muito louco [risos]. Aí correu para o hospital, tomou leite, leite, leite, passei uns três meses só arrotando gasolina [risos]. Aí não quis mais mecânico [risos].

 

P/1 – Paralelamente a esse seu trabalho, você passou a sua juventude aqui em São Paulo. O que você fazia para se divertir? Você era muito namorador?

 

R – Olha, isso aí eu fui também. Fui e minha esposa que o diga hoje em dia.

 

[PAUSA]

 

P/2 – Esqueci de te perguntar se teve alguma parada de circo em alguma cidade que foi mais marcante?

 

R – Teve. Foi a primeira, essa que eu falei para você, Belo Jardim. Essa foi onde que... o que foi mais marcante para mim foi a minha primeira apresentação como palhaço. 

 

P/1 - Ah, você tem que contar.

 

R - Foi no momento que o cara falou assim: “Olha, você quer fazer o papel do palhaço?” Falei: “Quero." Eu falei: "Para mim não tem tempo ruim, o que você falar para mim fazer eu faço.” Aí ele falou assim: "Então vai, se apronta aí, vou te colocar lá. Não vai ser muito tempo, nós vamos te dar um tempinho, porque você pode se sair bem como você pode se sair mal. Eu não posso te dar um tempo garantido.” Eu falei: “Não, não tem problema.” Aí ele me deu cinco minutos. Aí eu falei: “Mas só cinco minutos?” Ele falou: "Você tem cinco minutos." "Está bom." "Para mim parecia um ano!" Sabe? E os cinco minutos não acabavam. Aí ele: “Nós vamos anunciar o palhaço Pirulito, chamava Pirulito." Aí eu falei: "Está bom." Aí quando anunciou, eu ainda pensei duas vezes para entrar. Falei: “Caramba, será que eu vou? Será que não vou?” Aí eu falei: "Fui" [risos]. Aí eu entrei, quando eu entrei já comecei a fazer palhaçada, o pessoal todo batendo palma, aquilo me encantou. Falei: “Ah, é isso o que eu quero mesmo!”

 

P/1 – E tudo na base do improviso?

 

R – Improviso. Não tinha nada, decorado nada. Eu entrei assim, comecei a mexer com as pessoas, com as crianças, com os adultos, eu comecei a mexer, o pessoal ria, mas ria. Aí quando deu o minuto, o cara lá anuncia, aí quando deu os cinco minutos, aí eu: "Estou indo embora! Tchau! Até uma outra próxima!” Aí o pessoal: “Não, não! Não vai embora! Fica mais, fica mais!” Aí o cara piscou para o outro, falou assim: "Mais cinco!" [risos]. Fiquei mais cinco. Tomei dez minutos no primeiro dia. Isso para mim foi uma glória. Aí fiz a minha parte, saí, aí comecei.

 

P/1 – Como era esse circo? Tinha uma lona?

 

R – É um circo normal. Tinha um picadeiro, a lona, o espaço do palco para você trabalhar ali e as arquibancadas, simplesinhas, mas tinha. E tinha bastante gente. E o lugar que eles colocavam os animais lá fora. O outro cara que trabalhava com os animais, eles tinham mais tempo para ficar no palco, ficavam duas, três horas no palco só com os animais. E a minha ambição era de trabalhar com os animais. Mas eu não cheguei a trabalhar, por causa do meu tio, isso requer muito, aprender a ser domador, a domar a fera, você está perto do animal e ele não te fazer mal nenhum. Tem que saber a hora certa que você pode ficar perto dele, porque senão ele te ataca. Então são técnicas que você tem que aprender, conforme vai passando o tempo você vai aprendendo. E a minha ambição era essa, mas infelizmente não deu tempo, aí eu tive que vir embora.

 

P/1 –Você se lembra do dia que você voltou?

 

R – Para casa? Lembro. Nesse dia eu lembro que meu tio conversava comigo e eu, fizemos a viagem inteirinha e não dei uma palavra com ele. E ele brincava comigo, mexia comigo, me comprava as coisas e eu nem aí. Nós descemos do carro, inclusive foi nessa pista que eu falei, de Campinas Grande, que lá tinha o cruzamento, passava para a cidade, minha casa... eu desci no cruzamento. Não deixei ele me levar em casa. Ele ia para Campina Grande. Eu desci no cruzamento, fui embora. Quando eu cheguei em casa, eu entrei, aí estavam os meus irmãos e acho que a minha avó também estava, se não me engano. Ih, foi uma bagunça! Só que eu seco, estava com raiva, o pessoal me abraçava, me beijava e eu nem aí, não ligava [risos]. Mas depois eu comecei a pensar direitinho e tal, falei: "Não, eu ainda não tenho uma idade para estar saindo assim." Aí foi onde eu tomei consciência do assunto. Mas que me fascinou, até hoje em dia! O meu sogro, ele trabalha na Nadir Figueiredo. Então lá ele sempre faz esses eventos e teve uma vez que botaram um circo lá. Aí ele me convidou e chamou para levar meus filhos e minha mulher, eu fui. Nossa, fui! E aquilo passou um filme na minha cabeça. Aí eu comecei a lembrar das coisas que eu fazia lá. E aquilo me encantou novamente. Parecia que eu estava de volta para o passado. E onde tem circo em Guarulhos eu vou [risos]. Eu gosto muito mesmo.

 

P/1 –  Aqui em Guarulhos, durante a sua juventude, você frequentou o circo também?

 

R – Não assim, de estar participando lá, mas de assistir, fui bastante. 

 

P/1 – E além do circo o que você fazia para se divertir? 

 

R – Aqui em Guarulhos? A música, a música que eu aprendi também, eu comecei a tocar, cantar, eu tocava em barzinho, em lanchonetes, em pizzaria, tocava em um monte de lugares, festa. E era assim. O pessoal, na escola mesmo, quando eu fui fazer o colegial aqui, no Progresso, a gente tocava, fazia teatro, toquei na UNE [União Nacional dos Estudantes] também, teve uma apresentação na UNE, fui fazer a apresentação. Antes de casar com a minha esposa, a minha esposa foi em programa de auditório comigo, eu fui no Silvio Santos e ganhei uma bicicleta, ganhei um vídeo cassete, num programa de auditório. E minha esposa acompanhava, a gente era namorado e ela acompanhava. Teve uma vez que a gente foi lá no Silvio Santos, foi na terceira vez, aí ela ficou lá no palco e eu lá atrás. Aí o Silvio Santos veio perguntar o que a gente ia fazer, eu falei: “Eu vou cantar uma música assim, assim.” Só que não deu tempo, porque o Sérgio Malandro chegou atrasado e quando chegou na minha vez [fim da fita 1] já estava acabando o programa. Aí ele falou: “Olha, você volta outro dia.” Aí depois desse dia eu nunca mais fui. 

 

P – Que programa?

 

R – Era aquele Show de Calouros. A minha esposa foi muito comigo. Antes da gente casar, a gente era namorado. E eu sempre gostei. "Ah, tem um festival de música. Vamos lá participar?" "Vamos." "Como é que você vai participar?" "Ah, eu posso participar cantando, tocando ou escrevendo a letra, ou fazendo a música e alguém interpretando. O que vocês acham? Eu quero participar. Então vamos lá." "Ah, eu quero que você escreva uma música, o tema é esse." Aí eu escrevia, pegava o violão: "Está aqui. Pronto. Vai lá cantar." O cara ia lá, cantava, às vezes a gente ganhava, às vezes não ganhava, mas só em participar já estava bom. Sempre esses festivais que tinha antigamente de colégio, lá em Guarulhos teve bastante, teve uma época que virou moda, todo o mundo fazia festivais. E a gente ia. 

 

P/1 - E onde você aprendeu a música? 

 

R – A música, que nem eu te falei, foi lá em Pernambuco. Eu via o pessoal, tinha um rio lá que chamava Prainha, e o pessoal ia tocar, comia siri, tomava cerveja. E eu ficava vendo eles tocarem lá e aquilo foi entrando no meu ouvido, aí meu padrinho me deu um cavaquinho. Como eu sou canhoto, eu passei para o lado esquerdo mas não aprendi nada. Aí eu voltei as cordas para o outro lado e aí aprendi [riso]. Então eu via os caras fazendo a exposição lá no cavaquinho, eu ia em casa e tentava fazer do mesmo jeito. Só que o som não saía porque não estava afinado. Aí eu falei: "Bom, alguma coisa está errada. A posição eu estou fazendo certo, mas a música não está saindo." Aí eu fui lá, perguntei para os caras, falaram: "Tem que fazer uma afinação." Aí ele me explicou como é que afinava. Aí eu passei num papel e comecei a afinar o violão em casa. 

[PAUSA]

 

P/2 – Você aprendeu a tocar sozinho? 

 

R – É, eu tinha um ouvido muito bom para música, eu comecei a ouvir e o que o pessoal fazia no violão, e u comecei a ouvir e chegar em casa, tentar tirar o som igual ao que eles tocavam lá. Então eu prestava atenção nas posições dos dedos que eles faziam. E no som, que eu tentava tirar igual ao que eu ouvi lá. Foi difícil, mas eu nunca desisti. E fui tentando, tentando, aí uma vez, como eu falei para você, eu não sabia afinar. Eu fui lá e perguntei, eles falaram: "Olha, você tem que fazer assim." Aí eu passei no papel direitinho, trouxe para casa, comecei a afinar o instrumento. Aí foi onde foi saindo os meus primeiros acordes. Aí eu comprava aqueles livros que ensinavam a tocar violão, aí eu comecei: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, aí comecei a pegar seqüência de cada nota. Aí eu comecei a descobrir, porque é uma matemática. Comecei a descobrir que dó tem várias seqüências, então tem inúmeras notas depois de dó. Então eu faço uma escala, pego dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Depois vem ré, cada um tem o seu. Aí eu comecei a botar isso no papel e começou a dar certo. Aí aprendi a tocar [risos].

 

P/1 – E aqui em São Paulo você montou algum grupo?

 

R – Ah, sim, a gente tinha vários... eu participei de vários grupos. Inclusive tive um em Guarulhos, eu não sei se você já ouviu, é Overdose. A gente tocou no Overdose, era uma banda de rock and roll. Não um rock pesado, um rock progressivo, um rock mais... E a gente tocava pela cidade, por Guarulhos, pelo interior de São Paulo, a gente ia. Começamos a tocar bastante e foi onde eu aprendi bastante, foi aí, com os contatos com eles, no instrumento. E quando a gente tinha pausa, os caras que já sabiam tocar, eles iam lá namorar, paquerar, eu não, eu ia lá para trás do camarim deles aprender tocar outros instrumentos. Então eu ficava lá brincando no teclado, com o contrabaixo, tal, ia pegando. O meu interesse era esse, de aprender, aprender. Aí comecei a cantar também. Que o próprio instrumento educa a tua voz. Se você tem uma tonalidade de voz baixa, o instrumento educa a tua voz, tem alta, ele educa. É como se estivesse falando, só que você vai cantar. E a tonalidade de falar é a mesma. Então você passa esse falar através da harmonia da nota. Coloca na pauta, inclusive eu sei partitura, eu sei tablatura. Aprendi sozinho também, os sinais que tinha que ser. Às vezes tem o músico de tablatura e o músico de partitura. Se você pegar um músico de partitura, você tira a partitura dele, ele não vai tocar mais nada. Porque ele só sabe olhando a partitura. O músico de ouvido, você pode falar para ele: “A música é essa”. Então tu escuta, vai falar: "Está em tal tom." Então a minha voz é em ré, se estiver em sol lá, eu vou passar para ré. Então eu toco, sem estar olhando nada. Sei as notas que eu tenho que fazer. Entendeu?  

 

P/1 – E a sua esposa? Você conheceu como, de que jeito?

 

R – A minha esposa foi uma história interessante. Aí foi na parte já quando eu estava no colegial, no Progresso, lá em Guarulhos. Foi uma fase muito legal para mim também. Já tinha casado dois irmãos meus e eu estava morando com um irmão só, que também estava próximo para casar. E o último era eu.

 

P/1 - O mais velho.

 

R - E não tinha casado. Aí eu falei: "Eu não me importo muito com isso de casar. Dou a casa para ele, arrumo um lugar e vou morar. Qual é o problema?" Não me preocupava muito com isso. Aí eu estava saindo da escola, e eu andava assim, muito... roupa assim esquisita, eu estava com brinco, cabelo bem comprido, que eu tinha o cabelo compridão assim, para trás, brinco, naquela época [risos]. E a roupa dobrada até aqui em cima, eu estava até com um colete da minha irmã, [riso], estava usando que estava muito calor aquele dia. Aí saí do colégio, ia atravessar a rua para pegar o ônibus para ir embora para casa. Aí quando eu atravessei a rua essa garota estava lá no ponto, que é a minha esposa hoje. Ela olhou para mim assim, eu olhei, falei: "Será que é para mim mesmo?" Eu até olhei para trás assim, para ver se vinha alguém atrás de mim. Eu falei: "Não sou eu." Aí quando eu olhei para lá o meu ônibus já vinha vindo. E o ônibus demora para passar. Eu falei: "Ou eu converso com ela ou eu pego o ônibus" [riso]."Senão vou ficar mais duas horas para esperar o outro ônibus." Aí eu peguei o ônibus, a opção foi o ônibus. Peguei o ônibus, estava lotado, aí eu passei perto dela, aí eu fiz assim: "Depois a gente conversa." Aí eu percebi, eu falei: Se for para mim ela vai responder." Aí ela fez assim: "Tudo bem." Aí fui embora para casa, aí passou-se... a gente estudava no mesmo colégio, mas eu não sabia... aí passou mais de dois meses. E eu não vi mais ela. Aí um belo dia eu estava na cantina, aí tinha um amigo meu, eu estava subindo a escadaria da cantina, ela vinha descendo com o meu colega. Aí eu falei: "É ela." E esse meu colega também não era casado e ele era interessado nela. Aí ela cutucou ele assim: “Você conhece aquele rapaz?” Isso ele me falou.  "Conheço. Não acredito que você se interessou por aquela praga ali!” Claro, ele estava a fim dela. Aí ela: “Não, não, é outra coisa." Aí ela falou: "Então me apresenta." Aí ele falou: “Eu não.” Eles dois conversando. E a gente indo chegando. Aí eu falei: "E aí, Carlão, tudo bem?" Apertei a mão dele. Ele falou assim: "Essa aqui é a Rejane, é colega da gente aqui da escola e ela quer que eu te apresento." Aí ela ficou vermelha [risos]. Aí eu falei: "Por isso não! Prazer, Dido." Aí meu colega desceu a escada e foi embora. Eu fiquei com ela lá, não sabia o que falava. Primeira coisa eu perguntei: "Você gosta de música?" Ela falou assim: "Gosto." Aí eu falei: "Ah, então eu tenho um monte de coisa para te contar de música. Vem cá." Aí descemos aquela escada lá e fomos para a cantina. Eu cabulei a aula [risos]. Aí a gente se conheceu, tal, e foi indo, foi indo, começamos a namorar. Ela falava para mãe dela que a gente era amigo, a mãe dela aceitou, depois ficou sabendo que a gente estava querendo namorar, ela não queria mais. A mãe dela já não queria mais.

 

P/1 - Por que?

 

R – Eu acho que era porque eu tocava, eu viajava, não tinha paradeiro. E na cabeça da mãe dela, pessoa que mexia com música, esse negócio de artista, ela não dava muito valor. Aí eu falei: "Olha, Rejane, eu acho que a sua mãe não vai aceitar." Só que lá na escola eu tinha várias namoradas. Eu tinha cinco namoradas. E eu namorava com ela e escondia das outras, dela, tudo. E um dia a menina passou, eu estava com ela lá fora e a menina passou no meio assim, a outra namorada, e ela me agarrou e me beijou na frente dela. Ih, mas deu um rolo isso aí. Aí nunca mais eu quis saber de monte de namorada.

 

P/1 – Quando você namorava cinco ao mesmo tempo, era uma de segunda, uma de terça...?

 

R – Não, era assim, era ponto estratégico [risos]. Aí ela falou: "Terminou, a gente não tem mais nada." Eu falei: "Está bom, você que sabe." Terminamos. Só que eu gostava dela, eu fiquei gostando dela, ela também gostava de mim. E eu não deixava os meus amigos se aproximarem dela. Outros que queriam namorar com ela eu não deixava. Ela falou: “Ah, mas você namora, porque eu não posso namorar?” Eu falei: “Ah, você não quer namorar comigo. Então você não vai namorar mais com ninguém.” Aquela idéia fixa. Aí ela falou: "Não, não é assim." Aí eu larguei a namorada, não quis mais saber, falei: “Eu quero só você. Pronto. Vamos assumir o nosso namoro?" "Vamos." Aí assumimos o namoro, começamos a namorar. De lá para cá, casamos [risos].

 

P/1 – Namorou muito tempo?

 

R – Nos dois anos que a gente se conheceu a gente namorou, noivou e casou. Dois anos.

 

P/2- Nessa época que você começa a trabalhar no Aché ou isso é mais tarde?

 

R – Não, aí foi na época que eu estava falando lá em cima para você. Eu trabalhava aqui com a minha esposa. A gente sempre trabalhou junto, eu e ela. E a gente veio trabalhar na Gabriel Monteiro da Silva, aqui perto do Iguatemi. E foi uma história interessante também, que ela falou para mim: “Olha, estão precisando de um cara assim, assim, para medir tecido e cortar na máquina”. Eu falei: "Mas eu não sei trabalhar com essa máquina de tecido." Ela falou: "Mas lá a gente inventa, fala que você sabe." Eu falei: “E na hora? Como é que vai ser?” “Não esquenta a cabeça.” Aí segunda feira eu fui lá. Chegou lá, a dona falou: "Olha, eu quero ver você cortar o tecido.” Eu falei: "Pronto." Como é que eu vou saber? Aí botaram o tecido na máquina. E a Zélia, uma amiga dela, falou: “Olha, enquanto ela for no banheiro vou te passar uma dica aqui rapidinho, você pega e...." Eu falei: "Está bom." Olha só. Ela falou: “Olha, você tem que pôr o tecido aqui atrás e enrolar, botar em cima, botar embaixo, passar por aqui, enrolar, botar aqui, medir, botar no zero e passar a tesoura e cortar, a metragem que você quiser vai medir aqui." Aí nisso a mulher chegou. Ela: "Entendeu?" Eu falei: "Entendi." Falei: "Agora seja o que Deus quiser." Aí eu peguei o tecido, do jeito que ela falou eu fiz, igualzinho. Aí ela: “Ah, muito bem, você sabe trabalhar nessa máquina. Você tem experiência?” Eu falei: "Tenho, tenho bastante experiência nisso." Aí fiquei. Ela falou: "Você passou no teste. Pode ficar trabalhando." Aí eu fiquei trabalhando junto com ela, aí eu fui trabalhar no almoxarifado, aí botei o dono da empresa para fora do almoxarifado [risos]. Foi outra coisa que aconteceu também, que tinha placa lá: "Não pode entrar estranho". Eu não conhecia o marido dela! Aí fiquei no almoxarifado, entrou aquele senhor com cachimbo fumando lá dentro, cheio de tecido! Aí eu falei: “Olha, sinto muito, mas o senhor não pode ficar aqui dentro não, não sei nem quem é o senhor. Olha, já leu a placa? O senhor não pode ficar aqui dentro. Então, por favor, queira se retirar.” E ele ficou lá. Eu falei: "O que eu vou fazer? Vou chamar a dona da empresa." Aí ele olhou assim para mim e saiu. Eu falei: "Pelo menos o cara saiu." Passei a chave, fiquei lá. Daqui a pouco, telefonema lá para baixo. “ Dido, a dona Cristina quer falar com você." Eu falei: "Caramba, o que eu fiz?" Fechei o almoxarifado, subi. Quando eu entrei, o cara estava sentado do lado dela. Aí eu falei para ela: “Já sei, estou na rua.” Aí ele falou assim: "Senta aí, rapaz." Eu sentei, ele falou: “Olha, prazer, meu nome é Pedro, eu sou o marido da dona Cristina.” Aí fiz assim... "Estou na rua, agora eu estou na rua mesmo!" [riso]. Eu já fui levantando. Ele falou: “Não, pode ficar aí. Você agiu muito certo. A partir de hoje nós vamos te dar um aumento e uma promoção.” Eu falei: "Puxa vida, graças a Deus." Ele falou assim: "Tem que ser assim. É estranho, não deixa entrar." Eu falei: "Foi o que fiz, eu nunca vi o senhor, o senhor me desculpe.” "Não, está certo." Eu falei: "Eu nunca vi o senhor, o senhor vai entrando lá, ainda fumando." Aí ele: "Não, está certo." Aí eu recebi o aumento, a promoção, fui para o almoxarifado, fiquei chefe de almoxarifado. Depois passei para motorista particular, quando o motorista da mulher lá morreu, fiquei quatro anos trabalhando com ela, a minha esposa saiu, foi para o Aché. Aí é onde vai começar a história. Aí eu fiquei ainda trabalhando com ela de motorista particular, uns cinco anos. Aí, num intervalo desses que eu tive férias aqui, aí a minha esposa pegou uma senha lá no Aché, que ela arrumou lá primeiro. Isso a gente já tinha casado, tudo. E arrumou uma senha para mim. Aí eu fiquei de férias daqui, fui lá no Aché e fiz a ficha. Deixei lá. Aí passou-se mais dois anos. E nada de chamar. Eu tinha esquecido já. Aí entrou aquele... o Collor de Mello lá e deu aquela crise toda no país, aí a mulher mandou eu embora, a dona aqui mandou eu embora. Eu fiquei um mês desempregado. Aí eu comecei a procurar emprego, não achava. Eu estava em casa assim, numa sexta-feira, cansado, aí chegou um telegrama. Eu botei o telegrama em cima da mesa, falei: "Ah, depois eu leio isso aí." Estava cansado, dormi. Aí quando eu acordei, pensei: "Puxa, o telegrama deve ser uma coisa importante." Aí abri, quando eu abri era o Aché me chamando para fazer uma entrevista, na segunda-feira. Aí eu fui às duas horas na segunda-feira lá, fiz a entrevista, a mulher falou, a Elaine: “Olha, eu não vou poder te pegar." Eu falei: "Por que?" Ela falou: "O seu salário é maior que o nosso aqui.” Mas eu sabia que a firma dava condição para você subir. Eu falei: “Olha, eu vou te fazer uma proposta." Ela falou: "O que é?" "Se eu tirar uma carteira nova, limpa, eu posso vir aqui? Num outro dia?” "Ah, se você quiser.” "Então o emprego é meu? É garantido?" Ela falou assim: "É." "Então vou tirar a carteira." Eu tirei a carteira, no outro dia eu vim, fiz a ficha e comecei a trabalhar.

 

P/1 – Começou a trabalhar no que?

 

R – Aí eu comecei a trabalhar no setor de empilhar caixas, na produção geral mesmo. Serviço cansativo, é pesado.

 

P/1 – Você lembra do primeiro dia de trabalho? 

 

R – Lembro.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Foi muito estressante o primeiro dia. No primeiro dia o cara perguntou: "Você quer fazer hora extra? Eu falei: "Quero." E fiquei até umas dez horas da noite fazendo hora extra. Só que eu não estava acostumado àquele tipo de serviço, era muito pesado para mim. Mas eu falei: "Não, eu quero, eu vou ficar, vou ficar." Bom, cheguei em casa, falei para a minha esposa: “Olha, não sei, está feio o negócio lá, o serviço é muito pesado. Mas eu vou agüentar, eu preciso trabalhar." Aí no outro dia eu já fiquei mais legal, fui, fui indo. Quando passou um mês que eu estava lá, o Cláudio, o supervisor, falou assim: "Você sabe dirigir?" Eu falei: "Sei." Aí ele falou assim: "Você quer trabalhar no caminhão? Eu falei: "Quero. Vai ganhar mais?" "Vai." "Então eu vou." Ele falou: "Então depois do almoço você vai lá fazer um teste comigo." Eu falei: "Está bom." Depois do almoço fui lá contente, aquilo para mim foi uma maravilha. Eu falei: "Puxa, sair daquele lugar para mim está ótimo." Aí fui para o caminhão, nossa! Me dei bem. Então sempre eu sigo uma frase que meu avô falava: "Quando for fazer uma coisa, faça bem feito. Nem que for para varrer uma rua, faça bem feito. Porque tem alguém olhando." Então eu tomei essa coisa comigo. Tudo o que vou fazer eu gosto de fazer legal, eu gosto de fazer jóia, por mais simples que seja. Aí eu batalhei em cima lá do caminhão. E quando eu estava nas folgas eu limpava o caminhão, passava graxa, era o meu jeito. Os caras me chamavam de puxa-saco, mas tudo bem. Era o meu jeito. Sentei o pau, aí quando passou mais dois meses ele falou: "Olha, eu tenho mais uma proposta para você." Eu falei: "O que é?" "Você quer trabalhar lá na empilhadeira, lá na obra? Que é lá no Aché 5, nem era o Aché 5 ainda, era uma obra que tinha lá. E a gente armazenava produto ali. “Você quer?” Eu falei: “Agora.” Aí saí do caminhão para a empilhadeira. Passou-se o tempo novamente, aí ele falou assim: "Eu tenho uma vaga no almoxarifado." Falei: "Opa, minha área. Já trabalhei com almoxarifado." Aí eu falei: "Aceito." Aí ele falou: “Você vai fazer o teste amanhã.” Esse cara, esse Cláudio aí foi um cara que me ajudou muito. Ele gostou muito de mim, eu gostei dele, cara gente fina, me ajudou. Aí ele falou: "Então eu vou te passar para lá." Aí eu fui no almoxarifado, fiz amizade, aí não era mais ele o meu chefe, era uma mulher, a Sueli. Aí falei: "Pronto, agora ferrou. Mulher mandando em mim, agora vai ser feio." Mas ela foi tão legal, sabe, me ajudou, eu comecei a pegar as manhas de tudo... 

 

P/1 – E como era esse trabalho no Almoxarifado?

 

R – Eu recebia mercadoria, conferia as matérias que são para fora, que chegavam, que entravam, passava tudo pela minha mão. Eu conferia e botava no estoque. E pegava a produção com o pessoal da embalagem. O meu serviço era esse. Aí eu fui aprendendo muita coisa, muita coisa, comecei a pegar, comecei a entrar no embalo, comecei a aprender bastante. Aí me passaram para a pesagem. “Olha, tem um Setor de Pesagem. Você quer ir?" "Quero." "Vai ganhar mais?" "Vai." "Então vamos embora." Naquela época não se fazia, como se faz hoje, o recrutamento interno. Era assim: o cara que era mais velho no setor, que tinha interesse de crescer, o supervisor escolhia: "Olha, Fulano, Fulano vai para tal lugar. Então eles me davam oportunidade, eu ia. E foi assim. Depois que veio esse negócio de recrutamento interno. E eu passei por vários setores assim. Pesagem, Controle de Qualidade, Almoxarifado, Embalagem, Manipulação de Líquido, Manipulação de Creme, que é onde eu estou hoje. Passei em vários setores.

 

P/1 – Esses setores mudaram muito de lá para cá?

 

R – Olha, mudou assim, em termos de trabalhar, na comodidade. Que antigamente a gente tinha as coisas muito precárias, agora não. Agora é tudo mais simples. Que aí veio a tecnologia e aí começou a trazer o material de pesagem, você já não pesa mais manualmente, você põe na balança, a etiqueta sai lá no computador e pronto. Você cola no produto, acabou. Vai lá e confere. Antigamente era tudo manual, era tudo pega aqui, põe lá, põe na bacia, pesa, abre o negócio. Hoje em dia não, é tudo mais computadorizado. A tecnologia chegou e foi facilitando.

 

P/1 – E a tua chegada no Aché? Você lembra da tua primeira impressão da empresa?

 

R – Lembro. Quando eu cheguei no Aché, uma coisa que me impressionou muito foi isso, de eu estar lá dentro, não do serviço. Como eu já te falei, era um pouco cansativo, mas deu para superar. Mas o que achei legal mesmo é quando as pessoas me viam, nunca me viram na vida, me cumprimentavam, pegavam na minha mão. "Tudo bem? Legal? Você está gostando do serviço?" E aquilo eu falei: "Pôxa, o cara nunca me viu na vida!" Eu ficava até desconfiado, com tanto tratamento legal que eu tinha. Eu ficava desconfiado, porque eu vinha de uma coisa de fora que era uma outra cultura. As empresas que trabalhei fora não era assim. Então eu tive aquele impacto assim, falei: "Caramba!" E aquilo me chamou a atenção. Eu trabalhei muito com a (Marlene Vomel?), ela veio aqui, trabalhei muito com ela, pessoa excelente, me ensinou bastante coisa. Outro dia eu estava na mesa dela e tocou o telefone, eu fiquei assim, fiz assim a mão para atender, ela falou: "Pode atender." Eu falei: "Pôxa, dei mancada." Ela falou: "Não, pode atender." Aí eu falei assim, era de tarde: "Boa tarde. Gostaria de falar com quem, por favor?" Atendi bem, né? Ela falou assim: "Olha, é isso mesmo que você tem que fazer. Por isso que eu deixei você atender, para saber como é que você ia atender o telefone." Aí falei: "Ah, obrigado." Aí pronto, nisso ela já me deu outra oportunidade, já mandou eu lá para o Setor de Pomadas.

 

P/1 – E a parte cultural, desde cedo você foi se envolvendo também?

 

R – É, cultural foi assim, como eu já falei, eu encontrei o (Elomi?) nos corredores. O pessoal falava que... aí ele falou assim para mim: “Pôxa, você tem um jeito assim, meio brincalhão”. Aí eu falei: "Caramba, o que vou responder para esse cara?" Aí eu parei, assim, por alguns momentos e respondi, pensei rápido, falei assim: "É! E eu vejo em você uma pessoa como se fosse um diretor, que sabe conversar com as pessoas", falei assim. Aí ele falou: "Sabe por que é? Porque eu sou diretor de teatro e eu queria convidar você para fazer uma peça com a gente. E eu acho que você tem jeito.” Aí desmoronou, falei: "Topo, agora." Aí fui. Aprendi muito com ele. Ele é assim, uma pessoa que o que ele tiver que falar ele fala para você mesmo, não manda recado. E lá no teatro você tem que acostumar quando o diretor briga, te xinga, fala: "Olha, você tem que fazer assim, é do jeito que eu quiser. Não do jeito que o ator quer. É do jeito que eu quero, que fui eu que escrevi, eu sei o que o personagem é. Você vai fazer. Você vai usar o teu talento para botar em cima do personagem que eu criei. E você tem que fazer do jeito que está”. Aí falei: "Pô, então é isso?" Ele falou: "É." Então está feito. Aí foi onde eu contracenei eu, ele, o Chicho, a primeira vez, o pessoal adorou. Aí eu gostei da coisa. 

 

P/1 – Que atividade que foi essa?

 

R – A gente fez uma apresentação, eu não me lembro do nome da peça agora, porque faz um pouco de tempo. Foi na festa de final de ano.

 

P/2 – Que ano era?

 

R – Acho que foi em 1992. Ele falou: "Olha, você vai fazer...", porque eu era muito espontâneo, "Você vai fazer um travesti." Era Geni o nome. Ele era o diretor na peça, ele fazia o papel de diretor. E eu brigava muito com ele na peça, mas só que ele me ajudava, porque ele gostava de mim. Ele era um cara legal comigo. E a peça se desenvolvia assim. Eu me saí muito bem. Aí fiz uma outra, do sapo dourado, que foi para as crianças, infantil. Eu fiz o rei, eu fiz essa peça, eu tenho um documentário em casa, tem um vídeo gravado. Cada coisa que a gente faz no Aché eles dão uma cópia para a gente. Para mim é bom que é um currículo. Eu gostava muito disso e fui me adaptando. Aí foi uma vez que ele saiu, falou que não dava mais para participar, que ele estava muito atarefado, não sei o que, aí teve o (Chicho?) que assumiu tipo diretor do teatro. E eu aprendi muito com o Chicho, hoje em dia ele está com contrato no SBT. Ele trabalha lá ainda, mas ele faz ponta, sabe? Ele trabalhou com o Wolf Maia também, ele está bem encaminhado. E ele falou: "Olha, qualquer ponta que tiver lá..." ele vai me ajudar a colocar eu lá também." 

 

P/1 – Essas apresentações eram frequentes no Aché? 

 

R – Era assim: quando tinha tempo festivo, por exemplo, final de ano, Semana da Cipat [Comissão Interna de Prevenção em Acidente do Trabalho], Dia das Crianças, datas festivas. A gente sempre estava fazendo um teatro. Hoje em dia a gente teve mais um espaço que foi para a gente falar do tabagismo, da saúde. Então a gente está colocando, cada tema a gente bola um teatro e faz. 

 

P/1 – E vocês têm tempo para ensaiar?

 

R – Olha, a empresa dá essa comodidade para gente. Quanto é na época de ensaiar, o pessoal libera a gente, a gente vai ensaiar de dia. Quando não dá, a gente fazia no sábado também. A empresa ia buscar, dá a condução de trazer e levar. E lanche, essas coisas, adereços, palco, cenário, alugar as coisas que a gente precisava para vestir, para fazer a encenação, papel, lápis, espaço para fazer as expressões corporais e o ensaio. Então, quer dizer, para a gente, para quem gosta, é muito legal.

 

P/1 – E a tua participação no Grêmio?

 

R – Olha, a participação minha no Grêmio foi uma coisa, assim, que eu sempre desejei dentro de mim, mas nunca falei para ninguém que gostaria de estar no Grêmio. E quando foram eleitos o Walter, que hoje em dia ele não se encontra na empresa, ele foi eleito presidente e o (Estepan?) o vice-presidente. Eu recebi um telefonema lá no meu serviço, que eu estava de dia. E ele falou assim para mim: "Dido, eu tenho um cargo aqui que eu gostaria que você aceitasse." Eu falei: "O que é? Não estou entendendo." Ele falou assim: "Olha, o seguinte: está acontecendo isso, isso e isso e a gente vai passar você. Se você está a fim, se não quiser também não tem problema. Você é a pessoa mais indicada para esse setor, o setor cultural e social. A gente gostaria que você fosse diretor cultural e social do Grêmio. O que você acha?" Eu falei: "Walter, eu aceito com muito prazer. E outra coisa: agora a gente precisa conversar sobre o meu trabalho, porque eu não quero misturar as coisas. Meu trabalho é o meu trabalho, o Grêmio é uma coisa à parte. Então, quer dizer, as coisas que eu vou fazer no Grêmio é fora do meu horário de trabalho. Eu não quero misturar as coisas." Aí ele falou assim: “Não, não esquenta a cabeça, a gente só quer que você participe com a gente.”

 

P/2 – Que ano foi esse convite?

 

R – O ano passado. E falei: “Eu aceito.” Aí ele chamou mais um outro rapaz que é diretor esportivo, o Geraldo, conhece muito bem dessa área de esporte, já trabalhou em vários clubes por aí. E a gente toca o Grêmio, estamos aí fazendo um monte de coisas, a gente faz feijoada, faz pagode, faz rock and roll, blues, uma variedade. Uma coisa que a gente viu que era necessário, de colocar as pessoas, os parentes de pessoas que trabalham lá para também participar. Porque às vezes você não vai porque o teu parente não vai, ele fica do lado de fora, é chato. Então vamos abrir espaço para essas pessoas estarem indo lá também, paga uma taxa simbólica e o exame médico que é da médica mesmo, porque a gente tem que pagar, que tudo tem custo. E botar esse pessoal para vir aqui. E a pessoa se responsabiliza por quem vai trazer. Porque é um ambiente familiar. Você não vai trazer qualquer pessoa para bagunçar onde você quer se divertir. Então a gente falou: "Pode abrir e as pessoas se responsabilizam por quem traz."

 

P/1 – Mas desde que você entrou o Grêmio tinha uma atividade assim, intensa, ou nesses dez anos o Grêmio foi mudando?

 

R – Olha, a minha opinião sobre o Grêmio anteriormente era assim: sempre teve uma grande estrutura. A administração anterior, eles não tinham tempo, o presidente da outra gestão era o Carlos Andrade, que já veio aqui também, né? Ele era o presidente, tinha uma coordenadora, que era a Silvia, inclusive ela também não se encontra mais na empresa. Aí o Carlão saiu, aí passou o cargo para o Walter. E eles também não tinham tempo para estar fazendo. O Carlão mesmo não tinha, porque ele trabalha no setor da diretoria, fica difícil para estar organizando as coisas. Logo a Silvia saiu, aí tivemos que assumir, arrumamos uma outra pessoa para estar lá coordenando. Mas sempre teve atividade o Grêmio. Sempre teve, com eles ou sem eles, sempre esteve. 

 

P/1 – Na parte social que tipo de coisa?

 

R –Olha, a gente faz muito assim, tem o lazer e também tem as férias das crianças. Que a gente traz para passar as férias no Grêmio com a gente, as crianças vêm, almoçam com os pais, dentro da empresa. Isso é muito legal, porque a criança tem contato com o pai dentro da empresa. Inclusive eu mesmo, o meu filho já almoçou comigo, não nessa gestão agora que teve, na outra passada também teve, meu filho veio, eu trouxe, trouxe minha filha, almoçaram lá comigo, gostaram, conheceram os setores e foi uma integração muito legal. Socialmente a gente faz o que? A gente faz algum evento, procura um lugar, assim, que está precisando de alguma coisa, seja de comida, seja de agasalho, essas coisas necessárias, a gente arruma, vai lá e serve a pessoa. Através do Grupo Voluntariado que tem do Aché a gente consegue fazer esse trabalho.

 

P/1 – Antes de falar do voluntariado eu queria um pouco mais sobre a vida cultural. Teve nesses anos de Aché alguma festa ou alguma peça de teatro mais marcante para você?

 

R – Para mim, pessoalmente? Teve. A que mais marcou para mim foi... eu já fiz várias, mas a que mais marcou foi quando eu fiz o Sapo Dourado, que eu fiz papel de rei, para as crianças. Isso marcou e muito. Porque até hoje, até hoje os filhos dos funcionários que assistiram aquela peça, eles me vêm e me vêm como rei, eles me chamam de rei. "Olha o rei!" Eles me adoram, brincam, me abraçam, me beijam. Então a criançada daquela época, já cresceu, estão grandes, e até hoje eles me vêm assim.

 

P/1 – Onde foi essa apresentação?

 

R – Lá mesmo no Aché.

 

P/1 – Em que lugar do Aché?

 

R – Era num galpão que tinha, que é onde a gente tinha os reloginhos de passar o crachá, era aquele espaço que a gente tinha ali. E foi montado um palco ali e os próprios atores foram os próprios funcionários também. E isso para mim foi legal. Teve câmera que filmou a gente, fez entrevista, entrevistou a minha esposa, entrevistou não sei quem, todos, cada um fez uma entrevista da sua história.

 

P/1 – Em que ano foi essa festa mais ou menos?

 

R – Acho que foi em 1992 também.

 

P/1 – Em que ocasião? No Dia das Crianças?

 

R – Dia das Crianças.

 

P/2 – Vocês levaram alguma vez uma dessas peças para fora do Aché?

 

R – Levamos. Através do Grupo Voluntário. Só que não foi essa peça, nós fizemos uma adaptação. Fizemos uma outra, Saúde e Higiene, Higiene Pessoal. E a gente fez no humor, brincando com as crianças também, levamos essa peça para lá. E foi uma coisa que também marcou bastante. O pessoal da favela falou assim: “Pôxa, eu nunca fui num teatro. Eu nem sei como é o teatro.” E eu tenho certeza que aquela criança lá teve a mesma sensação que eu tive quando eu vi o circo pela primeira vez. Foi muito marcante e isso mexeu muito comigo. A gente se sensibiliza bastante. E chora. Eu fiquei muito emocionado. A criança vendo você fala assim: “Pôxa, eu nunca tive um dia maravilhoso que nem esse que eu estou tendo hoje.”

 

P/1 – Onde, em que comunidade foi, o senhor lembra? 

 

R – Foi lá na Nossa Senhora Aparecida. Foi numa favela de Nossa Senhora Aparecida.

 

P/2 – Que bairro?

 

R – Era... eu não lembro direito o nome do bairro... É Cumbica. Cumbica. Tem a ponte de Cumbica ali? A gente faz o retorno, perto da base aérea de Cumbica, foi naquele trechinho ali.

 

P/1 – Essa apresentação foi em que local lá?

 

R – Foi dentro de uma igreja. Inclusive eu até pedi desculpa lá, que a igreja que tinha lá era católica, eu pedi para... O palco que eu tive que fazer, a gente teve que usar, foi o palco onde o padre falava a missa. E a gente tirou imagem, tirou Jesus, tirou um monte de coisa de lá, as imagens. E botamos num canto. Aí o cara falou: “Vamos cobrir." Eu falei: "Não, deixa eles assistirem" [risos]. Eu falei: "Não cobre nada. Deixa tudo assim, que é para eles verem também o que a gente está fazendo."

 

P/1 – Em que ocasião que foi?

 

R – Foi na época que a gente foi fazer o primeiro trabalho voluntário. Que inclusive eu me envolvi através de uma pessoa, que foi a Márcia, que trabalhava, ela me convidou, eu falei: “Eu vou experimentar.” E eu fui e gostei. E fiquei sendo uns dos cabeças, ajudando, tudo. E até hoje estou.

 

P/1 – Você sabe como surgiu esse Grupo de Voluntariado no Aché? 

 

R – Foi assim: a gente queria fazer um trabalho social, a empresa em si, ela queria fazer um trabalho social. E a gente aproveitou esse trabalho social, com um benefício que a empresa estava dando para a gente para a gente poder fazer, a gente se aplicou nesse trabalho. E foi dando certo. Foi crescendo, crescendo, a gente foi ver, estava grande! E muita gente entrando, que as pessoas queriam entrar, queriam entrar, que o Aché dava o ônibus, a gente tinha almoço, comida, lanche, café da manhã. E a gente via que o Aché participava com cestas básicas, dia de Páscoa era ovo de Páscoa, como eu te falei que eu levei lá para as crianças, ovo de Páscoa. E Natal a gente levava brinquedos. Pôxa! E foi crescendo essa coisa, foi crescendo, crescendo. Chegou uma hora que estava tão grande que a gente precisou de alguém para ajudar para administrar. E aí foi que entrou um monte de pessoas com capacidade, com talento, de estar fazendo voluntariado e passando a experiência para a gente. Porque a gente entrou cru e nu, com a força de vontade. E a gente falou assim: "Pô, por onde começar e para onde ir?" Essas eram as perguntas que a gente fazia. E eu acho que a gente estava indo no caminho certo [risos]. E com as experiências técnicas que eles ensinaram para a gente, a gente começou a ir no caminho certo. Foi assim que surgiu. 

 

P/1 – Mas em que ano mais ou menos, você lembra?

 

R – Olha, eu sei que eu estou nisso aí já vai fazer uns quatro anos.

 

P/1 – E quais eram as primeiras ações do grupo?

 

R - Olha, o primeiro foi a gente falou... eu acabei de fazer essas perguntas: para onde a gente vai e o que nós vamos fazer. Que a gente tem que ter um destino. O que aconteceu? A gente falou: "Vamos fazer o seguinte: vamos procurar uma paróquia com pessoas carentes de higiene, de alimento, de um lugar mais limpo onde morar." Aí nós pedimos para uma pessoa ir lá e fazer uma pesquisa nessa favela. Filmamos a favela, fizemos pesquisa com as crianças, cadastro de crianças, cadastro dos pais. E trouxe esse material para o Aché. Nesse material a gente começou a desenvolver um trabalho. Falou: "Olha, a necessidade é esta, vamos pedir para que eles mesmos, vamos ensinar eles mesmos a limparem o lugar onde mora, a água, cuidar dos dentes, da cabeça, piolho, esse negócio, a higiene das unhas, a importância de lavar a mão, de não ficar andando de pé no chão." E a gente levou isso para lá, depois de quatro, cinco meses, filmamos novamente, passamos e a gente viu o resultado. Tudo limpinho. A pracinha que tinha lá era um lixo puro, virou uma praça novamente. Esse é o resultado. E a gente viu lá. Todo o mundo legal, aí a gente fazia as mesmas perguntas: “Como é que tem que fazer para escovar os dentes, é depois de que?” Aí o pessoal: “De manhã, depois do almoço e quando vai dormir.” "O que tem que fazer com os cabelos?" "Lavar os cabelos constantemente quando vai tomar banho, os pés não podem ficar no chão, limpar as unhas, toda a vez que for almoçar estar lavando as mãos." E as crianças passavam a mesma coisa para a gente. Pô, quer dizer, aprendeu. Isso foi importante. A gente foi procurando esse caminho aí e foi desenvolvendo outro trabalho. E as pessoas de fora que foram chegando com mais bagagem foram nos ajudando.

 

P/2 – E que grupo era esse?

 

R – Olha, a gente botava o nome de... não tinha um nome fixo, era Grupo de Voluntários.

 

P/2 – Quem fazia parte?

 

R – Olha, muita gente. Se eu for falar os nomes aqui, não vai dar. Mas tinha bastante gente. 

 

P/1 – 20 pessoas? 30?

 

R – Muito mais. 

 

P/1 – Gente da produção, da administração?

 

R - Da produção. A maioria da produção. Da administração tinha bastante também. O doutor Antônio Carlos, não sei se vocês conhecem o doutor Antônio Carlos, a Márcia que saiu, hoje em dia é outra, a Sueli, muita gente que trabalha nesse setor aí, o pessoal que se interessaram, procuraram a gente.

 

P/1 – Você calcula o que? Umas 50 pessoas?

 

R – Tem muito mais. 

 

P/1 - Mais que 50?

 

P/2 - Quantas mais ou menos?

 

R - Olha, eu acho que deve ter umas 70 pessoas. Quando teve essa festa de 35 anos aí, através dessa festa eu acho que entrou muito mais. Eu acho que deve ter mais.

 

P/1 – Antes de chegar na festa eu queria te perguntar como estava organizado o grupo. Vocês se reuniam uma vez por mês?

 

R – Isso. A gente se reunia uma vez por mês, coletava o material que a gente ia precisar e para onde a gente iria. Então aí começava a estudar tudo. Primeiro o lugar que a gente ia, a gente ia lá, coletava as informações, fazia um trajeto e o que a gente ia fazer. Animação, teatro, um ia para área de limpeza, quem ia trabalhar no teatro ia para o teatro, quem ia trabalhar na diversão das crianças, sapo pula-pula, bexiga que estoura, desenhar, cada um tem uma missão. Contar historinha, levar as crianças para passear, cantar, videokê. Então cada um estava designado a fazer o seu papel. E quando chegava no dia saía perfeito. Então por isso que eu falo. É uma coisa de, além da união, é a força de vontade de você ir lá. Porque às vezes você pára e pensa: "Pô, eu vou sair de casa de manhã, eu vou deixar meus filhos para ir brincar com outras crianças?" Só que o teu filho já tem o aconchego e aquela criança ainda não tem. Então quando você sai de lá, quando você volta para casa, aí que dá mais vontade de você ficar com a tua família. 

 

P/1- Para você o que representa esse trabalho voluntariado?

 

R – Olha, o voluntariado para mim é assim: é de saber que eu posso ajudar alguém. De qualquer forma, fazendo rir, dando uma coisa para a pessoa comer, ensinando a se limpar, na higiene pessoal. E fora a satisfação que você tem. Quando você sai de lá, que você vê um sorriso na criança, na boca da criança, você vê ela contente, que ela chega para você e fala: "Hoje eu passei um dia maravilhoso, porque você estava ali." Isso não tem dinheiro que pague. [PAUSA] É assim, a criança, você vê o sorriso na boca da criança e ela fala para você: "Hoje eu passei um dia maravilhoso." E você saber que você estava ali contribuindo com aquilo. Isso para mim é muito gratificante. Aí você chega em casa, parece que você está leve, parece que dá mais vontade de você viver. Você chega em casa leve, brinca com as crianças, um humor maravilhoso. Sua esposa, seus filhos, a família, todo mundo junto, você sabe que ali tem de tudo, não falta nada.

 

P/1 – E você teve algum contato com Laramara?

 

R – Ah, sim, tive. Laramara [Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual] foi para mim uma experiência muito marcante também. Eu tinha problemas de... eu falava: "Pôxa, como me comunicar com  pessoas que são deficientes visuais. Como que ela vai ver o que eu faço?" Eu me preocupei muito com isso. E o seu Victor, que é o dono da empresa, ele me perguntou se eu queria fazer parte do Laramara. “Ah, eu quero sim.” "É voluntariado." Eu falei: “Quero.” Aí eu tinha curiosidade de conhecer, ouvia falar muito. A Marlene: "Ah, eu vendo os sabonetes para ajudar o Laramara. Você não quer comprar?” Eu falei: “Me dá aí que vou vender esse negócio.” Aí eu pegava, vendia para ela. Ia mais longe ainda, eu ia nas ruas, vendia e trazia o dinheiro de volta, anotava num papel e entregava na mão dela. O meu primeiro contato com Laramara foi esse. Aí a Marlene falou: “Olha, o seu Victor falou se você gostaria de participar.” Eu falei: "Plenamente. É só falar." Tinha uma pessoa que trabalhou comigo no teatro, hoje ela não se encontra na empresa também, ela chamava Rosana, a gente chamava de Xuxa, que ela fazia o papel da Xuxa e as Paquitas, lá no Aché mesmo. O próprio funcionário. E ela era a Xuxa e as meninas eram as Paquitas. E a gente foi com elas, foi o meu primeiro dia de participação com eles lá, a gente foi com elas lá, para elas fazerem apresentação para as crianças deficientes visuais. Aí eu fiquei com aquilo gravado na mente. “Pôxa, como é que vai ser isso, se eles não enxergam?” Fiquei pensando. Fomos. Aí eu falei: "Antes disso vamos treinar um coral." Que era perto do Natal. Falei: "Bom, eu sei cantar, sei fazer música, vamos fazer um coral." Peguei um coral e afinei o coral inteirinho, a gente cantava aquela música: Noite Feliz. Aí fomos lá. Da primeira vez a menina fez a apresentação das Paquitas, com a Xuxa, tal. E todo mundo lá olhando. E eu com aquilo na cabeça: "Ah, Pai do Céu! Será que a gente está agradando?" Aí onde me tocou o coração foi essa hora. Quando o seu Victor me chamou, falou: "Olha, você pode ir lá falar no microfone, da apresentação." Aí eu catei o microfone, comecei a falar, eu falei: "Eu sei que vocês não enxergam igual a nós, mas vocês enxergam muito mais que a gente. Aí, na minha voz, o tom de voz, tinha um molequinho que se chamava Luiz, se não me engano, ele veio andando de lá, olha, aquele monte de gente que estava assim, foi passando, passando, subiu no palco e abraçou nas minhas pernas. Ele falou: "Olha, eu conheço sua voz." Eu falei: "Mas da onde?" "Lá do Aché." Aí me abraçou. "Ah, eu posso tocar no seu violão?" Eu falei: "Pode, pode tocar à vontade." Aí ele começou a mexer no violão, tal, falou: “Ah, eu gosto dessa música!” Aí eu peguei o violão dele e falei: “Então deixa eu cantar ela para você. Você vai me ouvir, eu tenho certeza.” Aí toquei, nossa, todo mundo bateu palma, aquilo lá me arrepiou todo.

 

P/1 – Mas ele te conhecia da onde?

 

R – Do Aché.

 

P/1 - De alguma apresentação?

 

R - É, uma apresentação que eu fiz no Aché. Ele me conheceu. Só que ele não foi lá, ele viu pela fita, o pessoal estava passando e ele escutou, através de áudio. E ele falou: "Eu conheci a sua voz." Você imagina isso? Olha, você não enxerga mas você escutou a minha voz e você me conhece pela voz.  Não é bonito? Nossa, isso aí para mim foi uma experiência e tanto. E quantas vezes precisou eu fui, ajudei, fiz, aconteci, brincamos, dançava com eles, pegava na mão, fazia roda, fazia apresentação, pegava o microfone: "Vamos brincar! Aquela bagunça."

 

P/1 – E o trabalho de voluntariado foi crescendo no Aché? O que representou a festa dos 35 anos?

 

R – Olha, a festa dos 35 anos representou... foi bom para o Aché, foi bom para nós e foi bom para as pessoas que receberam a festa também lá fora. Porque os dois podiam falar: “Ah, vamos fazer uma festa particular com a gente aqui mesmo e pronto, acabou." Mas não, a festa expandiu, ela foi para outros Estados.

 

P/1 – Como foi essa festa?

 

R – A festa para mim foi um evento muito grande, um mega-evento, porque atingiu vários Estados. Inclusive aqui em São Paulo a gente atingiu várias cidades. Chegamos todo o mundo lá na empresa de manhã, tomamos nosso café, tudo direitinho, aí cada um já sabia da sua missão, que foi ensaiada anteriormente, o que ia cantar, cada grupo que ia cantar, que música, aonde. Os ônibus saíram de manhã com cada grupo e foi cada um para cada setor. Enquanto isso tinha os voluntários lá da empresa mesmo, os profissionais trabalhando para que, quando a gente voltasse, a gente comesse, a gente descansasse, para a gente assistir o filme e ter o nosso coquetel. E fazer o nosso coral geral. 

 

P/1 – Vocês foram cantar aonde?

 

R – Fomos cantar nas maternidades, para as mulheres que estava ganhando nenê. E a gente bolou uma música, canções de ninar, tocadas no teclado, que tinha maestro e tudo. Inclusive o (Caco?) é uma pessoa muito maravilhosa, a Helena, que trabalhou com a gente, foi muito legal. Eles são muito profissionais, eles deixam a gente à vontade e a gente aprendeu a cantar sem precisar estar levando papel para casa, sem nada, cantamos através de ensaios que a gente fazia com eles. Todo mundo aprendeu. No dia saiu como o figurino mandou. 

 

P/1 – Você lembra da sua apresentação na maternidade?

 

R – Lembro. Eu cheguei lá, a gente teve um problema aqui que choveu, então aonde a gente ia fazer não ia dar, porque choveu, a gente teve que entrar. Aí a gente falou assim: "Então faz o seguinte: vamos cantar aqui mesmo, em frente ao hospital." Aí chamamos a coordenadora, eu conversei com ela, ela falou: “Sem problema nenhum.” Aí na hora da apresentação todo o hospital parou e desceu todo o mundo para assistir. E nisso, quando acabou nossa apresentação, os propagandistas chegaram com os presentes que tinham que dar para as mães. E teve depoimentos das mães, foi filmado, fotografado. E esse material foi tudo de volta para o Aché, quando a gente chegou lá, tinha uns telões e passava tudo o que a gente fez. E foi muito legal. Aí teve o coral geral, aquilo para mim foi muito lindo, você colocar mais de 800 pessoas cantando junto, é demais. 

 

P/1 – Onde elas cantaram?

 

R – Não tem o Aché 5? Ficou tipo um Teatro Municipal. Imagina três lugares de platéia, lá no centro, onde tem as escadas, ficou o cara tocando o teclado e as três varandas cantando. Então, quer dizer, quando era a vez das mulheres, elas vinham para a borda da varanda, quando era a vez dos homens, as mulheres voltavam para o canto, sumia as mulheres e aí vinham os homens. Nossa, foi maravilhoso. O Jornal de Guarulhos esteve lá, foi a Metropolitana, foi filmado, foi comentado. Foi demais.

 

P/1 – Para o trabalho do Voluntariado você acha que representou um marco esse dia? 

 

R – Foi, porque a gente ficou sabendo da força que a gente tem de, através do Voluntariado, a gente estar fazendo isso. E o orgulho de estar participando disso? Todas as pessoas que participaram, inclusive que eu falei lá para o doutor Antônio Carlos, eu falei assim: “Olha, depois desse evento a gente vai ter muito mais gente no Voluntariado. Ele falou assim: “Como é que você sabe?” Eu falei: “Porque antes de acabar a nossa festa já tem gente querendo se inscrever, vieram perguntar para mim.” Que as pessoas têm muito contato comigo, eu sou muito conhecido lá no Aché. E as pessoas, por incrível que pareça, elas vêm perguntar as coisas para mim. Eu falo: "Olha, eu não sei, mas eu vou tentar descobrir o que você está me perguntando. Se eu não souber, eu te trago o retorno de não ou sim. Mas alguma coisa eu te falo."

 

P/2 – Falando nessa popularidade, como são as relações de amizade lá no Aché? Tem um ponto de encontro, tem um fim de tarde que vocês se reúnem, como é que é?

 

R – Olha, porque assim, são setores separados uns dos outros. Então, claro que cada setor faz sua turminha. Como se fosse no colégio, cada um tem a sua turma. Mas quando se encontra todo mundo, a confraternização é a mesma. A gente fala dos mesmos assuntos, fala da mesma coisa, é uma coisa legal, principalmente quando a gente se encontra que é festa de final de ano. Todo o mundo se dá bem, não sai nenhuma confusão. Sabe por que? Eu vou resumir isso aí. Porque as pessoas têm o mesmo pensamento. O (Kanji?) que fala assim: "Família Acheana é porque quando você entra ali você faz parte daquela família. Ou você adere ao que todo mundo faz ou você não serve."

 

P/2 – E no ônibus? Você é bem popular no ônibus, né [risos]? 

 

R – No ônibus também [risos]. É, o pessoal fala assim, que eu não deixo ninguém dormir [riso] de manhã. Porque eu falo, eu conto piada, eu bagunço mesmo. Inclusive o Andrezinho, que também veio aqui, ele fica na frente lá e fala: “Olha, o Dido está aí, hein?" Eu falei: "Por que?" "Olha a bagunça que está aí" [risos]. Então eu, às vezes eu vejo a pessoa, assim, meio caída, eu vou lá e levanto a moral mesmo “O que é isso? Pára com isso! Vamos lá, vamos levantar, vamos brincar.” E as pessoas levantam mesmo. E eu acho legal isso. É coisa de você não querer ver a pessoa triste, estar sempre contente. E eu passo isso para as pessoas. Claro, todo mundo tem problema, eu também tenho. Só que você tem que separar as coisas. O que é problema, o problema de casa você deixa em casa, o problema da empresa você deixa na empresa. E vice-versa. Se você começar a levar o problema da empresa para casa e trazer de casa para a empresa não dá certo. Você tem que separar as coisas. Então eu faço muito isso. O pessoal fala para mim: "Pô, eu nunca vi você de mau humor.” Eu falo: “Cara, eu já fiquei, mas o meu mau humor é contente" [risos]. Então, quer dizer, eu tento não entrar em mau humor. Tem dia que você está naquele baixo astral, eu falo: "Espera aí." Aí levanto de novo. Então você não pode deixar cair a bola. Porque às vezes o mau humor nada mais é do que a fraqueza de você mesmo, você deixar ela tomar conta. É como se a gripe estivesse chegando e você não faz nada para que ela nem entre. "Opa, meu corpo está assim, eu vou tomar um comprimido." Sumiu gripe. Depois que ela entrou, ela sai quando ela quiser. 

 

P/2 – E fora da empresa como é o final de semana em casa? O que você faz nas horas de lazer?

 

R – Olha, na minha casa, eu gosto muito de brincar com o meu filho, a gente joga video-game. Apesar de eu não gostar muito de video-game, eu jogo com ele. Ele gosta bastante, a gente joga bola, que é a atração principal dele é bola. A gente joga bola, eu tiro o carro da garagem, ele pede, põe lá fora e a gente brinca de bola. E a menina já gosta de brincar de representar. “Ah, eu sou a professora, você era o meu aluno e eu sou tua professora.” Aí eu falo: “O que é professora para você?" Ela fala: “Ah, pessoas que ensinam. E é brava, pai, é brava! E eu não vou deixar você sair daí” [risos]. Eu falo: “Não, professora não é assim não, professora é uma pessoa que educa, ela é amável com a pessoa, para que ela aprenda direitinho e tal.” "Ah, é assim?" "É. Então, está vendo?" Ela representa, ela vê a televisão, ela gosta muito de dançar, ela põe um disco de axé music e dança para caramba, sobe em cima da cama, se emboneca toda e vai representar. 

 

P/1 – Puxou o pai.

 

R - O que as atrizes falam na televisão ela fala em cima da cama, que ela diz que é o palco e lá o espelho é a câmera. Ela gosta disso. 

 

P/1 – [risos] A gente está encerrando, você tem sonhos? Qual é o sonho para a tua vida, para a tua família?

 

R – Olha, se for tipo um sonho pessoal, primeiro, um sonho pessoal meu, particularmente, é eu conseguir uma carreira de, assim, artista. Não interessa o que for. Se for música, se for teatro, se for cinema, se for televisão, se for plástico, se for barroco, [fim da fita 2] se for escultural, não interessa. Que venha. Humor, comédia, é comigo mesmo. A parte artística é o que eu mais gosto, não importa qual. A que desenvolver, o que pintar para mim em termos de artista eu vou lá e faço. Não tive oportunidade mas, quem sabe, não sei. E um sonho, assim, familiar, é eu voltar com a minha família agora, com os meus filhos e minha mulher, à minha origem, para eles conhecerem a minha origem. De tudo o que eu falei aqui agora, isso me emociona, está vendo? Eu me arrepio. Não sou muito de chorar, sou meio durão. E voltar com eles lá para eles conhecerem tudo onde eu nasci, onde eu passei as minhas dificuldades, as minhas maravilhas, os meus momentos ruim, mostrar para eles. Isso era um sonho que eu queria.

 

P/1 – E, por último, o que você achou de ter contado a sua história, pelo menos uma parte dela, aqui?

 

R – Olha, para mim foi muito bom, porque eu tive uma oportunidade de estar voltando ao passado. Que às vezes, no decorrer do nosso dia a dia, a gente esquece de tudo o que a gente fez. Porque a gente só está olhando para a frente, para a frente e esquece do que ficou para trás. E às vezes o passado é muito importante, na maioria das vezes. Tanto é que, quando você tem problemas com psicologia, o psicólogo vai atrás de você, vai procurar o teu passado, porque às vezes você deixou uma coisa por fazer lá e passou por cima. E o psicólogo vem, volta aquela fita todinha e fala: "Vamos consertar essa cena. Você faz de novo e vamos para a frente." Para mim foi isso, eu voltei tudo, tudo o que passou na minha memória vocês fizeram eu relembrar, momentos bons, momentos ruins, coisas que eu já tinha praticamente quase esquecido. Que a gente esquece. Eu devo ter esquecido algumas coisas que eu não falei, que eu tenho certeza que quando eu sair daqui eu vou lembrar, mas eu gostei muito. Isso me emocionou bastante. Fiquei muito contente do Aché ter me convidado para estar fazendo isso, uma oportunidade que ele me deu para eu estar fazendo isso. Fiquei muito emocionado, gostei bastante, espero voltar mais vezes [risos].

 

P/2 – Muito obrigada pela participação, a gente ficou super contente também. 

 

R - Obrigado para vocês [risos].












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