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História

Contando histórias, fazendo arte e alimentando sonhos

História de: Maria Stela Fortes Barbieri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2011

Sinopse

O ponto de partida de uma trajetória marcada pelo encanto com as histórias e encontro com a arte está lá na infância, na convivência com a família. Desse tempo, Maria Stela guarda a doce lembrança do contato com o desenho e outras formas de fazer e sentir arte. Dos lugares, guarda os cheiros, o gosto, o jeito próprio do interior. Essas e outras recordações preciosas são compartilhadas por Maria em sua história de vida. Depois de traçar o caminho por onde a imaginação de criança a levou, até ser curadora da Bienal de Artes, encerra o depoimento com chave de ouro, contando uma história.

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História completa

Talvez minha mais marcante e duradoura lembrança dos anos de infância, lá em Araraquara, onde nasci em 1965, seja mesmo a convivência com três tias-avós solteironas. Uma delas eu chamava de vó, e foi a que mais contribuiu para eu ser quem sou. Ela era professora de artes, a única da cidade, então - e significou o meu efetivo encontro com a criação, o belo, o estético, inclusive permitindo a minha maneira de fazer - um pouco diferente de seu modelo pedagógico. Além disso, o ambiente em que ocorriam essas primeiras experiências artísticas, propiciadas pela minha avó, eu jamais esqueci e, ao contrário, procurei reproduzi-lo ao longo da minha carreira. Pelo menos no que ele tinha de aconchegante, acolhedor, caloroso.

 

Meu pai era arquiteto, ligado por gosto à arte e por paixão à música. Minha mãe, que está viva, exercia sua arte na cozinha e na sua maneira avançada de ser, com amor à natureza. Meus irmãos - uma menina e três meninos - foram, um a um, deixando Araraquara para seguirem seus caminhos. É que lá, naquele tempo, só podia permanecer e estudar quem quisesse fazer Odontologia ou Engenharia, e não era o caso de nenhum deles, nem o meu. Depois de um tempo como filha única, eu também debandei: fui para Campinas fazer Jornalismo. Queria ser escritora.

 

Além das Artes, notadamente artes plásticas, uma outra atividade que eu tive a vida inteira e que sempre me encantou, foi a contação de histórias. É que sempre soube soltar a imaginação e contemplar o mundo maravilhoso da fantasia. Fazia isso, quando criança, por horas a fio numa cadeira de balanço, lá em casa. As pessoas até estranhavam e minha mãe não se incomodava porque ela sabia que eu tinha uma infância saudável, de brincadeiras com irmãos, amiguinhos... De outro lado, sempre adorei estar com crianças - fui babysitter, ainda em Araraquara, quando as pessoas nem sabiam o que a palavra significava.

 

Assim que cheguei em Campinas consegui um estágio numa escola super legal, chamada Escola do Sítio, que, obviamente, ficava num sítio, cercada de vegetação e bichos. Ali trabalhei com a faixa etária de que mais gosto: sete, oito anos. E, com 17 anos, me tornei regente de classe graças a um incidente entre lamentável e engraçado: eu era estagiária e fui acompanhar uma professora em uma visita ao Zoológico, cada uma responsável por uma turma; e ela, simplesmente, esqueceu um garotinho lá, no meio do bosque, no Zoo. Essa escola foi uma experiência muito rica: eu dava aula, cantava, brincava, contava histórias.

 

Sempre gostei de ensinar; inclusive, depois dessa Escola do Sítio, fui para outra onde estou há 25 anos! E, um quarto de século depois, tenho a satisfação de dizer que continuo amando a escola, a profissão e as pessoas que estão lá comigo. Apesar disso, não concluí curso algum: o Jornalismo, troquei pelas exposições; a Pedagogia... Bom, simplesmente desisti porque o que me passavam lá não coincidia, em absoluto, com a minha visão sobre a Educação. Sou partidária, por exemplo, de uma escola mais experimental.

 

Aí, a Arte começou a acontecer. Não, digamos assim, de uma forma convencional, mas pela via das intervenções urbanas: ia experimentar a arte de rua, pintava postes, muros, fachadas. Mas, obviamente, não ficou restrito a isso. Havia exposições e, surpreendentemente, fui contratada para trabalhar na Fundação Bienal de São Paulo. Claro, não por minhas modestas incursões artísticas, mas como elemento de apoio - fui monitora da décima nona Bienal. E, junto a essa atividade, na verdade cheia de conquistas, uma coisa que me deixa realmente feliz é poder constatar que jamais me afastei da contação de histórias, sempre presente e com peso considerável em minha trajetória profissional. E outra coisa, é que as atividades que escolhi sempre tiveram um histórico de continuidade, nunca de interrupção. Na verdade, tudo prosseguiu e cresceu. Por exemplo, na Bienal, cheguei a Curadora na vigésima nona edição. Como contadora de histórias, acabou que, em certo momento, até por influência do meu primeiro marido, misturei a contação com o folclore, a música, o bumba-meu-boi, e viajei grande parte do país.

 

De outra parte, por sugestão do segundo marido, comecei a escrever livros com as histórias que contava. Então, tudo se entrelaçou: arte, cultura, literatura. E quando achei que tudo estava bom demais - talvez já fosse o suficiente - o destino me levou às portas de algo maravilhoso que estava começando: o Instituto Tomie Ohtake, onde permaneço até hoje.


E assim, num retrospecto do que foi - ou tem sido - a minha jornada, olho e identifico as influências decisivas; as pessoas com as quais aprendi alguma coisa; as experiências e vivências; o improvável e o imprevisto. Posso dizer que a Arte sempre fez parte da minha vida - a arte como criação, a arte como contação, a arte como realização. Todo tipo de arte permaneceu em mim, mas uma delas de maneira muito especial: a arte de viver.   

 Editado por Paulo Emilio Rodrigues Ferreira


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