Busca avançada



Criar

História

Contagiada pelo teatro

História de: Esther Mindlin Guimarães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Esther Mindlin Guimarães descobriu sua vocação para o teatro ao receber um convite para fazer uma peça amadora, nesse momento se sentiu picada pelo vírus do teatro, como definiu sua aptidão pela profissão, entretanto, por ser casada com um homem tradicional que impôs que ela escolhesse entre ele ou o teatro, teve que abandonar o sonho de ser atriz. Em seu relato, Esther nos conta também histórias sobre a família Mindlin e como seus pais fugiram do antissemitismo para o Brasil, fala também sobre seu irmão Henrique Ephim Mindlin, um arquiteto conceituado de São Paulo. Por fim, narra ações de caridades feita pela família aos mais necessitados.

Tags

História completa

P/1 – Dona Esther, vou começar lhe perguntando, de novo, eu sei que a senhora já disse, ou seu nome?

 

R – Meu nome é Esther Mindlin Guimarães.

 

P/1 – E a senhora nasceu onde?

 

R – Em São Paulo.

 

P/1 – O nome do seu pai e sua mãe?

 

R – Ephim Mindlin e Fanny Mindlin.

 

P/1 – A senhora conhece a origem desse nome Mindlin da família?

 

R – Esse nome tem um pequeno mistério, parece que havia um antissemitismo na Rússia e ele foi trocado, até hoje nós não conseguimos... Tem um ramo da família que é Etinger e outro que é Mindlin, então, não sabemos, mas o...

 

P/1 – Mas a senhora não sabe o que houve?

 

R – Exatamente, mas houve uma mudança por causa das perseguições.

 

P/1 – Eu vou lhe perguntar de onde era seu pai e depois a sua mãe?

 

R – Os dois nasceram em Odessa.

 

P/1 – Ah, em Odessa?

 

R – É.

 

P/1 – Na cidade de Odessa?

 

R – Cidade de Odessa.

 

P/1 – Qual era a profissão? Quantos irmãos eles eram? A senhora sabe? Quantos tios?

 

R – Bom, o pai de meu pai era um grande engenheiro que construiu a estrada de ferro na fronteira entre a Rússia e a China e ele faleceu lá e minha vó nunca viu o corpo dele, nunca acreditou que ele tivesse morrido. Quando ele morreu, ela tinha oito filhos, meu pai tinha oito anos, e ele se lembra de uma coisa que o traumatizou muito - apesar dele ter tido um grande sucesso no Brasil, como profissional e como ser humano -, ele enrolava os pés em jornal porque não tinha sapatos e entregava marmitas na neve, com oito anos. Ele contava que quando a sopa começou a ficar rala em casa, minha vó viúva com sete ou oito filhos, eu não tenho certeza se eram oito ou sete, ele começou a trabalhar aos oito anos.

 

P/1 – E todos os irmãos nessa época começaram a trabalhar?

 

R – Isso eu não sei, eu não estou a par. Muitos viajaram, se esparramaram pelo mundo.

 

P/1 – A senhora sabe se a sua bisavó morava junto nessa família? Era uma família grande?

 

R – Sim, moravam em Odessa. Depois minha avó materna faleceu e meu avô materno mudou para Nova York. Fugiu e ficou morando em Nova York, onde ele faleceu e duas filhas dele também moravam em Nova York, já são falecidas.

 

P/1 – Vamos pegar um pouco dessa história do seu pai, quer dizer, ele começou a trabalhar com oito anos...

 

R – É. E aí quando ele era adolescente, ele fugiu da Rússia...

 

P/1 – Mais ou menos em que época?

 

R – Ele tinha, mais ou menos, uns 18 anos, ele fugiu do serviço militar. Ele foi para Europa, para Paris, meu pai era um homem genial, ele tinha muita vocação para muita coisa e realmente, escrevia, esculpia, pintava, fazia tanta coisa e tudo com autodidata, agora quando ele fugiu, ele foi para Paris, ele gostava muito de pintar, ele fez um concurso para a escola de arte, né? Academia de arte, escola de arte e ele foi premiado, então, seria uma oportunidade boa, mas alguns dias depois, ele foi para um café na _____ e viu pintores com quadros em baixo do braço, vendendo os quadros para tomar um café com um croissant ou uma baguete, né? Ele diz: “Não, isso não é vida para mim”. Ele foi para os Estados Unidos, fez o curso de... Começou trabalhando como técnico de um grande dentista, fez o curso de odontologia e minha mãe fugiu da Rússia para Suíça.

 

P/1 – Só um momento, sua mãe fugiu por quê? E em que época?

 

R – Por causa dos pogroms [perseguição deliberada de um grupo étnico ou religioso]. Mamãe fugiu por causa dos pogroms.

 

P/1 – Ela fugiu sozinha?

 

R – Não, ela foi com as irmãs e tudo, foram para Nova York.

 

P/1 – Eu ainda voltarei a falar do meu pai, acho que eu vou misturar um pouquinho porque realmente, eles casaram e têm várias histórias. Ela foi para Suíça, depois parece que a família não se deu bem, foram para Nova York. Em uma noite, ela foi assistir no teatro uma peça... Ah! Eles tinham se conhecido em Odessa, quando eram adolescentes, tinham se conhecido, mas assim, vagamente. Ela foi para um teatro assistir uma peça de tcheco, quem ela viu no palco? Ephim Mindlin. Ela lembrou do nome, foi atrás dos bastidores falar com ele, os dois se apaixonaram e casaram em Nova York.

 

P/1 – Quando foi isso, dona Esther? A senhora lembra essa data?

 

R – Se eles vieram em 1910, deve ter sido em 1909, mais ou menos, até um pouco depois.

 

P/1 – Nessa época, ele estava trabalhando como ator, então?

 

R – Não, ele fazia teatro, mas ele era dentista, né?

 

P/1 – Ah, que lindo.

 

R – É, ele era dentista. Os dois se apaixonaram e como ela tinha dois irmãos aqui, que tinham uma tipografia na Rua São Bento, muito conhecida, ela resolveu vir para o Brasil. E aí nasceu meu irmão, o arquiteto Henrique Mindlin, que foi um dos maiores arquitetos do Brasil, tem obras fantásticas no Rio, em vários lugares, conhecido internacionalmente, ele publicou o primeiro, e, talvez ainda o único, livro sobre arquitetura moderna no Brasil, desde o Barroco até Brasília, que foi editado na Holanda e traduzido em várias línguas, ele estava começando o segundo volume de Brasília para adiante, quando ele faleceu aos 60 anos.

 

P/1 – Ele faleceu de que?

 

R – Ele teve um abscesso na cabeça que não era tumor, foi operado e oito dias depois rompeu uma artéria e ele caiu em coma, nós tiramos ele do coma, por excesso de amor. Eu me arrependo até hoje, ele sofreu mais uns meses e faleceu. Mas ele era uma pessoa maravilhosa, conhecia gente no mundo inteiro, muito internacional. Aliás, uma coisa que marcou muito nossa família, meu pai apesar de ser um grande profissional, ele era muito artista, muito boêmio, então todos os artistas que vinham para São Paulo eram convidados lá para casa, a Pavlova esteve três vezes lá em casa, jantando conosco, o grande pianista Fridman esteve lá em casa, um grande pintor italiano _____, ele hospedou em casa porque ele não tinha onde cair morto. Ele era uma pessoa extraordinária, depois de uma certa época, a paixão que meu irmão tem, Jose Mindlin, por livros, ele tinha por quadros.

 

P/1 – Seu pai?

 

R – Meu pai. Se interessava também por livros a nossa casa em um verdadeiro museu, uma vez ele estava no consultório, apareceu um padre holandês, com um quadro que ele partiu ao meio, eliminou uma sala de bilhar que nós tínhamos nessa casa da Marquês de Paranaguá, e transformou a casa em um laboratório, ele tirava raio x dos quadros, examinava a tinta, examinava a madeira de cada quadro, no raio x, ele descobria as hesitações dos pintores que pintavam uma figura e depois pintavam outra. Eu fui para Europa, passei um ano na Europa, nessa ocasião, ele foi me buscar e nós fomos ao Rijksmuseum de Amsterdã, ele mostrou o trabalho que ele fazia, para ver se eles podiam aconselha-lo a seguir um outro caminho ou fazer outro tipo de pesquisa, eles disseram que o que ele fazia em São Paulo, era exatamente o que eles faziam no museu. De modo, que agora, como cirurgião dentista, ele começou... Porque no tempo dele, os médicos e os dentistas achavam que os dentes não pertenciam ao organismo, era uma coisa a parte, então ele começou a fazer palestras sobre a importância de abscessos cegos, que podiam tirar a vista, atacar os rins, que o pessoal não tinha conhecimento disso. Eu vou contar um episódio para não ficar muito comprido, tinha uma família muito importante em Campinas, que se chamava Bicudo, e o filho estava perto da morte com uma nefrite fulminante, era uma junta de muitos médicos e devido às palestras que ele fazia de unir dentes ao corpo em geral, ele foi chamado para uma consulta. O rapaz estava condenado por toda junta médica, aí ele diz: “Vocês me dão carta branca, eu posso fazer o que eu acho que devo fazer?”, ele tirou raio x, radiografou a boca toda do rapaz e descobriu 14 abscessos cegos, ele fez uma operação no rapaz, 15 dias depois o rapaz... Ele ia lá de dois em dois dias. Quinze dias depois o rapaz o acompanhou até a estação porque naquele tempo a gente ia de São Paulo até Campinas de trem. Esse foi um dos casos dele, depois ele teve uma coisa interessante, ele foi o primeiro dentista no Brasil, que instituiu o cartão de consulta, a pessoa tinha que pagar na hora porque ficava o dentista meses e meses, e os médicos também, sem receber e ele que instituiu o cartão. Bom, eu acho que sobre meu... Ah! Outra coisa muito importante, ele não era religioso porque no tempo da mocidade dele, o ídolo era Stuart Mill e ele era positivista, minha mãe descendia de uma família muito religiosa. Mas porque eu acho que meu pai e minha mãe são os mais importantes, não é?

 

P/1 – Então, vamos retomar, eles chegaram no Brasil juntos e nasceu seu irmão?

 

R – Mas deixa eu terminar a história...

 

(Interrupção 12:20)

 

P/1 – Que ele se transformou em um amante da pintura flamenca e depois ele foi dentista, ele institucionalizou o cartão, o tipo de trabalho que ele fazia, né, em casa, estávamos aí...

 

R – Depois, ele foi a ponte de ligação entre a coletividade judaica de São Paulo e os imigrantes alemães que vinham fugidos do nazismo. Ele tinha um amigo que era uma pessoa maravilhosa, Luís Lorch, casado com Luiza Klabin Lorch, ele trabalhou muito com ele, os dois trabalharam muito, ele era alemão, a Luísa era nascida no Brasil, era um casal fantástico, eles trabalhavam muito pra... Porque sempre houve uma certa reação da coletividade daqui com aqueles imigrantes alemães que vinham, apesar de ser um nível muito bom, não é? Ele foi uma grande ponte, mas infelizmente, o trabalho dele foi interrompido porque ele foi atropelado aos 52 anos, em Santos e faleceu, com 52 anos de idade.

 

P/1 – Que jovem!

 

R – É, foi uma brutalidade. Agora, eu vou contar uma coisa que muita gente não sabe, minha avó era muito religiosa, também fugiu para Nova York, aos 84 anos, ela veio sozinha para o Brasil em um navio, era uma pessoa muito enérgica, dinâmica, tenho impressão que puxei o dinamismo dela, mas ela era religiosíssima, só comia kasher e meu pai comprou uma casa na Rua Prates, em frente a sinagoga que tem, acho que ainda existe hoje, uma sinagoga que tinha na Rua Prates, ele ia visita-la uma vez por semana, porque ele ficou mais tempo no consultório, e ela tinha uma entrada, um corredor bem comprido com cinco, seis quartos, depois vinha a sala de jantar e a cozinha. Ele chegou e ouviu uma correria no corredor, um bater de portas, ele estranhou muito, ele disse: “O que tá acontecendo aqui?”, ali ele chegou até a sala de jantar, minha avó sentada, com samovar, aqueles copos de chapa que era a base de prata com o ganchinho assim, né? Pra pegar, e ele viu uns quatro, cinco copos no meio, não terminados, o samovar ficava acesso o dia todo, geleia de morango, o bolo, ele disse: “Mamãe, o que está acontecendo, o que foi esse barulho?”, ela disse: “Você não vai ficar zangado comigo?”, “Não eu quero saber o que está acontecendo”, “É que estou abrigando umas cinco velhinhas que não tem onde morar” (risos). Ele ficou muito impressionado, chegou em casa e disse para minha mãe: “Fanny, eu vou fundar um lar de velhos”, telefonou para José (Kepperman?) pai da Esther, da Sara e da Bibi, e com outras pessoas formaram uma comissão e compraram um terreno. Infelizmente, ele morreu logo depois, o enterro ainda passou pelo terreno do lar dos velhos como uma homenagem a ele, o retrato dele está até hoje lá. Depois da morte dele, minha mãe assumiu a diretoria do lar dos velhos e trabalhou durante 25 anos. Ela foi diretora do lar dos velhos, não sei se alguém de você conhece o lar dos velhos, eram dois pavilhões, hoje é uma coisa maravilhosa, enorme, quer dizer, isso foi a história do meu pai. Agora também como profissional, não posso deixar de contar que um inglês muito importante teve que se tratar com ele, tempos depois ele recebeu um convite da rainha da Inglaterra pra ser o dentista da casa real, mas ele não aceitou, porque o que meu pai queria era ser livre. Por exemplo, a família Matarazzo, que morava aqui, os parentes da Itália vinham para São Paulo se tratar com ele, que foi um grande profissional. Ele escrevia poema, ele esculpia, ele pintava, desenhava, lia muito, deixou uma biblioteca de arte muito boa.

 

P/1 – Qual era a língua que ele falava em casa?

 

R – Português. Ele queria que nós nos sentíssemos inteiramente integrados ao país que ele tinha escolhido para viver, nós tínhamos uma governante francesa, falamos francês desde a infância, quando minha avó chegou ela falava iídiche ou russo, iídiche meu pai e minha mãe não falavam, então nós começamos a aprender russo.

 

P/1 – Para falar com ela?

 

R – Para falar com ela.

 

P/1 – E ele falava...?

 

R – Ele falava russo, português, inglês, alemão, francês e ultimamente, estava estudando holandês, antes de falecer.

 

P/1 – Puxa vida! Queria perguntar uma coisa mais subjetiva, como ele era em casa, ele era muito alegre?

 

R – Ele era uma pessoa de um astral tão forte, em uma sala podia ter 100 pessoas, se ele entrasse se destacava de todos, ele era muito romântico, impulsivo, sonhador, idealista, quando ele soube que em Amsterdã ia se fazer uma exposição só de ______, ele foi só para exposição.

 

P/1 – E a sua mãe acompanhava? Era desse tipo?

 

R – Não, ela era uma pessoa muito doce, muito terna, muito meiga, muito apaixonada também, então, ela cooperava com ele, lógico, ela era a base, a estrutura da retaguarda, mas ele era muito... Tinha uma personalidade muito, muito forte.

 

P/1 – Os filhos, em geral, se relacionavam mais com ele ou com sua mãe?

 

R – Com os dois, nós tínhamos uma vida em família maravilhosa. Ele era um romântico, um sentimental, eu nunca recebi um presente dele que fosse embrulhado em um pacote, eu recebia em uma caixa de rosas, com o pacote embaixo. Para mamãe ele deu um colar de pérolas, ele encontrou um cofre espanhol antiquíssimo, quando ela abriu o cofre, o colar de pérolas estava dentro do cofre. Ele enfeitava a vida.

 

P/1 – Que lindo!

 

R – É, ele enfeitava a vida. Quando ele faleceu, o enterro dele... Ele faleceu em Santos, dezenas de carros foram à Santos para acompanhar a viagem para São Paulo, nós morávamos na Vila Normandia, nessa ocasião, no enterro tinha velho, moço, preto, pobre, rico, todos chorando dizendo que tinham perdido o pai deles, quando nós fomos ao consultório dele, abrimos as gavetas, tinha uma lista imensa de dinheiro que ele dava para quem precisasse, todo mês ele amparava e nós nem sabíamos. O que a mão direita dava, a esquerda não sabia, ele era um homem muito generoso.

 

P/1 – E ele conseguiu, porque a senhora disse que ele teve uma vida na infância muito difícil?

 

R – Muito dura, mas justamente, ele...

 

P/1 – Ele costumava contar essa infância?

 

R – Ele contava muito, ele falava muito dessa infância, ele até o fim era muito traumatizado, não admitia que a gente deixasse comida no prato, porque eu acho que ele passou fome na infância, viu outros passarem fome. Ele detestava que a gente fosse fazer corso no carnaval porque ele dizia que com tanta criança pobre, era um pecado gastar com serpentina e confete, era esse tipo. Então, minha mãe foi diretora por 25 anos, e pra mim, foi trágico o fim dela, o Henrique e meu irmão José, arquiteto, resolveram dar um presente a ela, que o sonho dela era conhecer Israel, então eu fui com ela... Isso foi em 1962, junho de 62, ela teve um derrame.

 

P/1 – Em Israel?

 

R – Lá. Mas ela teve uma vida muito bonita como pessoa de cooperar na coletividade, ela foi uma das fundadoras da Liga de Senhoras Israelitas, foi uma das primeiras que formou, ela participava de todos trabalhos assistenciais, e dirigiu 25 anos, o que não é brincadeira o lar dos velhos, tanto que o enterro dela saiu do lar dos velhos.

 

P/1 – Ela na infância...

 

R – Ela teve uma infância pobre também, ela trabalhava em uma casa que vendia artigos de lingerie, essas coisas, tinha uma vida pobre.

 

P/1 – Depois, então aqui, a senhora falou que ela era mais religiosa, ela tinha um pouco mais...?

 

R – Mas não a esse ponto, nós não éramos religiosos em casa.

 

P/1 – Por exemplo, seus irmãos fizeram Bar Mitzvá?

 

R – Não, ninguém fez, em ___ ____ nós observávamos o jejum e eu pisei em uma sinagoga pela primeira vez na minha vida aos 18 anos, para assistir ao casamento de uma amiga. Agora, vou dizer que não quero tomar muito o tempo de vocês, que se eles tivessem vivos, eles realmente, se orgulhariam da família que formaram, como eu já disse, meu irmão foi um dos maiores arquitetos do Brasil, internacionalmente conhecido, obras que ele deixou no Rio, em muitos lugares, José é um grande empresário, como ele diz: por acaso, muito liberal, muito humano, sempre foi muito equilibrado, ele tem uma frase que eu acho maravilhosa “Cabeça fria, sem problema, não é vantagem, quando surge os problemas é que a gente tem que ter a cabeça fria”, como eu já lhe disse, ele é um homem muito genioso, muito amigos de todos,  é um bibliófilo, você deve saber porque ele tem uma das maiores bibliotecas, talvez da América do Sul, com importância, o Arnaldo se formou advogado, muito bem sucedido, mas ele, infelizmente, não teve muita saúde, passou por muitas cirurgias, muito graves, se aposentou mais cedo que o normal, porém ele agora está fazendo uma grande obra, se dedicando inteiramente a fundação dos cegos, traduzindo em braile Pedro Nava, agora ele faz parte da diretoria da fundação, está reestruturando tudo lá, está com um trabalho muito bonito, eu não disse a você, sou a menos importante.

 

P/1 – Então agora vamos lá. Vamos pegar um pouquinho sua infância, então a senhora tinha três irmãos homens, só a senhora de mulher, e onde é que, por exemplo, a senhora estudou, como foi isso? Não teve educação religiosa nenhuma, né?

 

R – Nós todos estudamos na Escola Americana e no Mackenzie, depois do Mackenzie eu fiz uma faculdade de Filosofia, antes de existir a universidade, era um grupo de professores maravilhosos, Alfredo Ellis, Picarolo, Dreyfus, enfim, eu fui colega do Hermes Lima, por exemplo, fizemos um curso na Escola Caetano de Campos, os professores não cobravam nada, nós pagávamos uma taxa pela luz e tudo, das sete às onze da noite, depois nós sentávamos nos degraus da escola Caetano de Campos, para conversar com os professores, tinham os irmãos Tozzi também, era uma turma maravilhosa. Depois é que se fundou a universidade oficial, né? Aí eu fui várias vezes para a Europa, mas eu não tinha descoberto que tinha vocação pro teatro, eu andava pela casa aos oito, nove anos declamando poemas, adorava declamar, mas nunca passou pela cabeça. Aos 23 anos passei um ano na Europa, eu estava noiva do meu marido...

 

P/1 – Quer dizer, a senhora fez então essa escola de Filosofia de uma maneira informal?

 

R – De uma maneira informal, eu tenho diploma, mas não é reconhecido.

 

P/1 – A senhora entrou com 18 anos, mais ou menos?

 

R – É, exatamente. Uma vez a Madelena Nicol me telefonou, me dizendo que ela ia formar um grupo, era uma Associação Brasil Rússia, eu fui e eu encontrei lá Paulo Autran, Madalena Nicol, mais outros e fizemos uma peça. Primeira vez que Paulo Autran pisou no palco, eu também pisei, fizemos treze espetáculos no Municipal, amadores, depois o TBC tinha se organizado para começar a trabalhar, fomos convidados como amadores, fizemos um mês de espetáculo, depois ele se profissionalizou e eu fui convidada para inaugurar o TBC, mas eu fui casada com um paulista de 400 anos, muito convencional, muito formal, Prado Guimarães, da família Prado, ele, naquele tempo, ele achava que o teatro não era uma carreira nobre para uma dama e a peça era um pouco forte, era do Abílio Pereira de Almeida, mulher do próximo, eu cheguei a fazer vários ensaios e uma vez ele assistiu um ensaio “Ou eu ou o teatro”, meu filho tinha sete, oito anos, achei que realmente não era a hora de sacrificar e não o fiz. Depois eu fiz mais uma peça em um grupo amador “O inspetor nos procura” do Priestley, depois eu fui para Europa, passei um ano, trabalhei na BBC, seis meses.

 

P/1 – Antes de casar?

 

R – Não, já casada, meu filho tinha 16, 17 anos.

 

P/1 – Quer dizer, ele falou ou eu ou teatro, mas a senhora continuou...

 

(Corte 28:50)

 

R – Os Sampaios, o Sérgio Cardoso, a Tonia Carrero, Cassilda Becker, eu fiz televisão com Cassilda Becker e Jardel, fiz um programa, ela me telefonou convidando pra fazer uma série, meu marido não deixou.

 

P/1 – Mas a senhora se sentia como?

 

R – Muito frustrada, mas eu não tive personalidade o suficiente para insistir em uma paixão que eu tinha descoberto, em uma vocação porque, modéstia à parte, eu tive críticas maravilhosas, depois eu passei um ano na Europa, meu filho estudou na Suíça, com dezessete anos. Eu passei um mês em Paris e vi 33 espetáculos de teatro porque eu fui à três matinês, eu cheguei à Londres, fui procurar o Sérgio (Vioti?), trabalhei seis meses na BBC, ele traduzia peças inglês e nós inglesas e nós radiávamos para o Brasil. Depois quando eu voltei, fui convidada pelo _____ para fazer numa Arena “Juno e o Pavão”, fui muito elogiada.

 

P/1 – Mas aí a senhora retomou ao teatro?

 

R – Retomei e depois eu fiz o Diário de Anne Frank, fiz Sinhá Moça em 52, antes de ir para Europa, eu fiz Sinhá Moça, com Tom (Peng?), Ana Lage, Anselmo Duarte, _____, toda essa gente, mas aí depois de Anne Frank, era uma tragédia grega em casa, eu resolvi abandonar, infelizmente.

 

P/1 – Cada peça, cada coisa era um problema?

 

R – Ah, era um problema enorme, né, porque eu vou lhe dizer, no fundo ele tinha razão, você para fazer teatro você precisa ser casada com um ator que compreenda o ritmo, a gente ensaia até três, quatro horas da madrugada, às vezes, tem dois espetáculos por dia, é uma vida muito, muito diferente da vida normal. O ator de teatro vive uma vida, um mundo diferente, completamente, é muito difícil, não é? Bom, eu acho que é só.

 

P/1 – Não, espera aí. Aí a senhor depois dessa última...

 

R – Quando eu voltei de Londres eu fiz “Juno e o Pavão”, depois eu fiz o Diário de Anne Frank até fiz como homenagem ao nosso povo, não quis receber cachê nenhum, trabalhamos um mês e tanto, depois eles foram para o Rio e eu não fui. O diretor era Antunes Filho, que vivia telefonando para eu participar dos trabalhos dele, mas era sempre não, eu só fiz isso, traduzi várias peças, depois eu fui... Depois que minha mãe faleceu, eu trabalhei um ano e tanto no lar dos velhos, depois fui voluntária do Einstein, também trabalhei lá e assim vai.

 

P/1 – E o seu marido era o que?

 

R – Advogado, era advogado, ele faleceu faz dez anos, faleceu com 77 anos, ele era um grande advogado. Mas muito convencional, em uma família muito convencional.

 

P/1 – Uma família muito antiga, né?

 

R – E a senhora, quer dizer, seu filho foi para Suíça e...

 

P/1 – Depois ele voltou, ele foi estudar arquitetura no Rio porque meu irmão ofereceu o escritório que era uma grande experiência, e aí quando ele se formou ele já tinha dois filhos. Uma filhinha e um filho, Fanny e Marcelo. Meu irmão tinha um escritório assim “Henrique Mindlin e associados”, meu filho tem uma vocação fantástica para arquitetura, ele é um grande artista, ele disse que não queria trabalhar anônimo a vida toda, ele veio de mão abanando para São Paulo, com dois filhos. Ele tinha feito na faculdade de arquitetura, um projeto para uma feira de plástico inflado, coisa que nunca ninguém usava aqui ainda, o professor nem deu muita atenção, quando ele veio para o Brasil, ele mostrou esse projeto ao Caio de Alcântara Machado, que ainda tinha a feira no Ibirapuera, ele se apaixonou e fez o projeto do plástico inflado. E aí ele começou a fazer projetos para feiras, ele trabalhou onze anos para o Itamaraty, fez stands na África, na Europa, nos Estados Unidos, tirou muitos prêmios, é um arquiteto muito bem sucedido. Agora arquitetura propriamente ele fez, no segundo ano da faculdade, ele fez o primeiro pavilhão da biblioteca do meu irmão José Mindlin, agora há uns cinco, seis anos ele fez um outro pavilhão porque a biblioteca está aumentando dia a dia, que é muito interessante. Você nunca esteve na Casa São José?

 

P/1 – Não. Ele estava me convidando para ir.

 

R – Mas se você for, você fica sabendo que aquele pavilhão é do Flávio.

 

P/1 – Está bom, eu queria perguntar assim, em casa, quer dizer, eu vi que a senhora foi pro teatro, seu pai era vivo nessa época?

 

R – Não.

 

P/1 – O que sua mãe achava?

 

R – Minha mãe adorava.

 

P/1 – Para ela os filhos podiam, não havia uma tendência?

 

R – Nenhuma restrição a nada, a nada, quando eu comecei a fazer teatro, meu filho tinha oito anos, quando eu fui convidada por Madalena Nicol e fiz a peça com Paulo Autran, eu tenho fotos da peça, da Esquina Perigosa, do Diário de Anne Frank, de Juno e o Pavão.

 

P/1 – A primeira peça qual foi?

 

R – Foi Esquina Perigosa do Priestley, que fizemos três espetáculos municipal, e fizemos o mês todo de dezembro no TBC, quando términos essa peça, o Zampari resolveu profissionalizar o teatro o TBC, e me convidou para inaugurar o TBC e eu não pude.

 

P/1 – Conta só um pouco para gente saber? E qual era o seu papel?

 

R – Chamava-se “A mulher do próximo”, eu tinha uma cena em que o Abílio era casado, eu acho, não me lembro muito bem, eu acho que era solteira, uma dessas vampizinhas e uma noite nós estávamos reunidos na casa dele, eu bebi um pouco, ele também bebeu, então eu disse para ele: “Luz verde, luz verde”, meu marido ficou escandalizado com essa frase (risos), eu tive que desistir da peça (risos). Mas olha, o teatro é um vírus que entra na gente e nunca mais saí. Agora minha neta resolveu fazer um cursinho de teatro com a Mirian Muniz e fez um espetáculo, parece que ela pegou o vírus também porque ela está apaixonada pelo teatro porque você vive uma vida de fantasia, cada personagem que você vive é uma coisa maravilhosa, não é? Eu representei Juno e o Pavão no Arena, com o Guarnieri, com o Vieninha que faleceu que era meu filho, com Riva (Nimes?), com o Sadir Cabral, uma turma fantástica. Você sabe, eu era uma mulher do povo, não é? Eu usava um vestido cinza, com uns sapatões do doutor (xol?), cabelo grisalho assim, quando terminou o espetáculo, e eu cheguei em casa, pendurei a roupa, coloquei os sapatos, eu comecei a chorar, eu tive a impressão que eu tinha enterrado uma pessoa que eu tinha sido. Isso é o teatro, a gente entra em transe, você pode estar sem voz fora do palco, você entra no palco, a voz volta. Você pode ter qualquer dor, você pisa no palco, passa. Eu classifico teatro e o trabalho dos atores como um transe, você entra em transe, é uma coisa maravilhosa. Agora chega, né? Já falei muito.

 

P/1 – Tá bom, eu queria só te fazer a última pergunta, agora a senhora tá se mudando e o que a senhora quer fazer daqui para frente? O que a senhora acha da vida que a senhora viveu?

 

R – Eu, felizmente, tive uma infância, uma adolescência muito, muito feliz, minha vida de casada justamente por causa do teatro, não foi uma vida muito harmoniosa, mas eu sempre li muito, ouço muito música, me interesso por qualquer movimento moderno, adoro Caetano Veloso, adoro Chico Buarque, adoro tudo que aparece de novo, me interesso pela vida, ainda estou bem viva e aberta para tudo. Isso me dá um consolo porque eu acho que envelhecer é normal, mas a gente deve envelhecer bem e não envelhecer mal, do momento que a cabeça, se interessa, esteja lúcida, a gente tem que tocar para frente e aceitar a vida.

 

P/1 – Tá bom.

 

R – Olha, eu quero agradecer o convite, eu tive muita alegria de poder fazer esse depoimento, eu também dizer que tenho muito orgulho de poder ter sido uma Mindlin.

 

P/1 – Eu queria contar dois episódios que eu esqueci, que caracterizam muito a personalidade de meus pais, em 1914, na Primeira Guerra Mundial, nós tivemos a gripe espanhola, da qual eu acho que vocês ouviram falar de longe, meus pais, em conjunto com a Cruz Vermelha, nós morávamos em uma casa, com um jardim, um portão grande, abriram o portão e ao meio dia eles serviam caldeirões e caldeirões de sopa para os pobres, tinha gente doente em casa, a maioria tinha pego a gripe espanhola que era terrível, eles ficavam horas com filas enormes, servindo esses caldeirões de sopa. Meu pai ia de casa em casa, naquele tempo a Vila Mariana era um bairro completamente ainda não habitado, só com casebres, ele entrava de casebre em casebre para ver quem precisava de remédio sem medo de se contagiar, felizmente não se contagiou e eles terminaram o trabalho quando a gripe espanhola foi terminada, quando ela terminou. Agora, outro episódio muito interessante que caracteriza o sentimento de meu pai de não só se sentir brasileiro, como paulista, durante a Revolução de 32, ele formou uma Cruzada Artística que aceitava doações com as quais depois se fariam uma rifa e os que ganhassem a rifa, ganhavam o quadro, a escultura, ou a joia, que tivesse recebido. Nós alugamos uma sala enorme na Libero Badaró, a sala não foi suficiente, tivemos que alugar o segundo andar e encheram-se as salas de obras de arte, de autógrafos, de manuscritos, de coisas antigas, de quadros, eu recebia as doações e organizei o serviço de voluntárias que vendiam as rifas. Às cinco, seis horas a cruzada artística, durante o tempo que durou a Revolução se tornou o ponto de encontro de pintores, escultores, poetas, artistas, intelectuais, formávamos uma chacrinha maravilhosa, eu até tenho como recordação uma coisa muito preciosa, um álbum em que todos os artistas ou pintaram qualquer coisa, ou escreveram um poema, uma recordação muito bonita. Mas eu quis contar isso para mostrar como meu pai se sentia integrado ao Brasil, como ele amava o Brasil, em 32 era uma Revolução Paulista. Ah, e outra coisa muito importante, o resultado das rifas nós doamos, naquele tempo, 300 contos para Liga das Senhoras Católicas, e em benefício das viúvas e órfãs da Revolução.

 

P/1 – Vou então, lhe fazer uma pergunta em cima disso, o seu pai tinha algum tipo de participação política mais continua?

 

R – Política não, nunca teve. Ele era um grande intelectual, como eu disse, ele amava pintura, ele lia muito, gostava de músicos, grandes artistas frequentavam nossa casa, mas política não.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+