Busca avançada



Criar

História

Contadora de Histórias, Rezadora, Parteira e cantora. Pere Waura um patrimônio vivo do Xingu.

História de: Pere Waura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/01/2020

Sinopse

A segunda história feita em língua indígena na história do Museu, com a tradução do próprio filho, Pere Waura cresceu no povo Waura no Xingu e passou por todas as etapas da tradição do sue povo para se tornar uma portadora desses conhecimentos de parteira, raízeira, contadora de histórias e uma grande contadora de histórias. Por trás de cada um desses ofícios, tem uma história. Confira!

Tags

História completa

Minha avó sempre dizia pra mim: “Vamos com a gente”. Sempre a gente ia no brejão, nos pântanos ali, que tem uma concha que você pega, junta e queima, transforma a cinza, peneira, pega o barro do fundo da água e mistura com aquilo ali e deixa secar. Uns dez dias depois você vai raspando, vai formando uma panelinha, do jeito que você precisa e minha tia avó falava pra mim: “Vamos comigo, não fica com preguiça, senão você não acaba aprendendo. É ruim você não saber fazer isso, porque na cultura da gente, a gente é independente, você que tem que construir seu utensílio. Se você depender dos outros, nunca ninguém vai fazer pra você e, pra você começar mais cedo, melhor ainda pra você”. Tudo que ela falava pra mim, por isso que eu sempre ia com ela na floresta, nos rios, nos pântanos. 

 

 Meu pai era jovem na época que teve um massacre de sarampo. Mas pouco tempo veio catapora que contraiu todo mundo e onde foi vítima meu pai. Ela que matou meu pai. Aí pegou todo mundo, foi triste. A aldeia ficava parada e, quando você ia pra cada casa, a pele das pessoas ficava toda estourada, como se tivesse queimado. Disse que era o vírus da catapora. E meu pai, mesmo, o rosto dele ficou inchado. A gente não sabia que existia remédio pra isso. E meu pai acabou morrendo. Então, depois que a gente sabe que existe o remédio, foi onde eu falei: “Poxa, então quer dizer que meu pai morreu de graça”. E os outros e eu peguei um pouquinho, na época, não foi muito. Só apareceu um pouco, pouca coisa. E meu marido não pegou. Disse que já havia pegado sarampo na época, por isso que o corpo dele já estava resistente da catapora. Não apareceu. Ele que nos ajudou a cuidar dos outros também. E que deu remédio pra eles, pra nós. 

 

Onde eu aprendi, desde mais ou menos oito anos, meu pai acaba me passando de tudo, antes de eu entrar na reclusão. Antes de entrar na reclusão eu começava a cantar, a gente imitava os mais velhos cantar. E a gente arrumava a nossa turma, enturmava e fazia umas brincadeirinhas. Eu sempre gostei de ir na frente e cantar, me apresentar. E assim vai passando e, quando meu pai viu que eu estava interessada em aprender, começava a colocar mais histórias. E contar direito todas as histórias, como começar, como chegar ao centro e tem todas as razões diferentes, uma da outra. Canção de Yamaricumã tem um tempo, questão de período. De manhã tem canção diferente, até meio dia. De tarde tem canção diferente. Na sequência, até de tarde. De noite, até meia noite. Meia noite, até amanhecer. E assim encerra a festa. Então, tudo isso que eu aprendi primeiro e depois, quando a gente completou mais ou menos 12 anos, antes da gente entrar na reclusão, estávamos eu, minha prima e amiga, éramos três e a gente passou na provinha delas e a gente acaba convocando todas, nós que comandamos a festa e promovemos a festa. Primeiro a gente foi como aluna, assessora dos cantores oficiais. No outro ano nós fomos autorizados a fazer, pra ver se a gente tem domínio de fazer a festa até no final. Pela curiosidade eu fui e tudo que eles pediam pra mim, eu fazia, sem saber que eu ia chegar nessa altura, onde eu cheguei. Só que do meio que eu percebi que eu já estava indo, adiantei um caminho, já e então eu fiquei feliz, pura alegria de emoção, acabei me esforçando mais em querer aprender mais. Assim chegou ao final, teve uma primeira festa oficial com as outras etnias. Onde meu avô, junto com meu pai, me convidaram pra cantar sozinha ao público. Tinha aproximadamente 1000 pessoas em volta, no plenário, na plateia. Eu lá cantando sozinha e nós três passamos na prova: eu, minha prima e outra minha amiga. Nós éramos três. Assim, na outra vez, no outro ano, a gente foi pra uma aldeia do vizinho, lá teve uma festa bem grande também. Tinha até presença do homem branco. Acho que em algum lugar deve estar registrada essa imagem, pequenininha disputando com gente velha. E assim as outras etnias não acreditavam que a gente tinha condições de cantar ao público. Só que a gente foi treinada, já, há tempo, um, dois, três anos, desde criança e então a gente conseguiu vencer, onde eu venci em primeiro lugar e eu ganhei um monte de presentes. Geralmente, quando a gente vai apresentar ao público, esse colar aqui é uma joia pra nós. Esse daqui, esse daqui. Na época não tinha muita missanga e acabei ganhando missanga também. Quando a gente voltou, você é convidada e a gente vai pruma aldeia, na outra aldeia é um círculo e, em vez da gente entrar direto no terreiro da aldeia, a gente ficou acampado próximo da aldeia. Só de noite que a gente vai se apresentar. No outro dia a mesma coisa. No outro dia a aldeia é liberada pra gente ficar dentro da aldeia, pra gente se apresentar. Assim eu fui convidada pelo dono que está promovendo a festa, pega na sua mão e você vai andar com ela ao público, vai desfilando, até você sentar no meio, tem sua cadeira e está cheio dos seus adornos ali: colar, braçadeira, joelheira, tornozeleira. Então, você senta ali como princesa. E o dono da festa vai te presentear, vai colocar todo esse adorno pra você e, se você cantar bem, você carrega tudo que você quiser colocar em você. Se você cantar mais ou menos, tira isso, tira isso, tira isso e você ganha uma só. Então, como eu passei na plateia o maior aplauso que teve, eu tinha obrigação de carregar tudo que eu tinha. Eu só devolvi cocar e o resto, levei. Nessa hora, uma vitória pra mim. 

 

Eu me tornei contadora de história quando comecei a participar do encontro das mulheres regionais no Xingu. A partir dali eu tive que contar história quem somos nós, sem saber que eu estava apta, sendo nada, evoluindo indireto, quando eu vi, eu já estava na mesa. Porque eu fui uma inspiradora das mulheres de diferentes etnias. Eu sabia contar tudo, detalhe por detalhe, até chegar na parte da regra da convivência, exemplo que estava dando errado em pouco tempo, e também lembro disso, foi em 2008, eu estava no processo de formação de agente indígena de saúde, agente indigenista. Nesse tempo ajudei minha mãe na tradução, na palestra, falando sobre a questão de desnutrição.  Teve uma época que estourou uma desnutrição, foi 2006, 2008 e houve muita taxa de número, no Xingu, onde eu sou filho dela, trato, intérprete de tudo, que fazia projeção pra ela. Junto com ela a gente teve essa ideia de fazer palestra e fazer pesquisa, entender porque estava acontecendo no Xingu esse número, onde estava sendo acusado um grupo de agente de saúde, professores que trabalham, que têm seu salário todo mês, falavam que compravam comida pra trazer na sua comunidade, onde não se alimentavam direito. Compravam um monte de cesta básica, alimentam seus filhos crianças, não se alimentam direito e onde, junto com minha mãe, a gente estudou e entendeu que não era isso, era regra de convivência. Os jovens casando mais cedo, onde não sabem cuidar dos seus meninos, tem ainda de querer participar de todos as brincadeiras de juventude e acabam esquecendo e não cuidando direito dos seus filhos e também ficam comendo todas as dietas e não deveriam ter comido naquele momento. E a partir dali que eu recebi mais um elogio do público. As jovens que têm o filho mais cedo ficavam tão encabuladas comigo me assistindo, contando. A partir daquilo ali que eu vi que a gente conseguiu reverter esse problema através disso, fazendo palestras e explicando como lidar com a desnutrição. E foi o que também ajudou eu ser conhecida, essa televisão. Eles filmam, começam a distribuir todos os DVDs nas aldeias. A aldeia começa a assistir no centro da aldeia, nas escolas. Assim, quando eu vou passear nas outras aldeias, os meninos começam a me perguntar: “Você que é fulana historiadora?” “Sim. Alguma coisa?” E começam a perguntar: “Eu tenho dúvida disso” e eu começo a contar e assim eu fui compartilhando todo o meu conhecimento e até hoje eu sou conhecida no Xingu.    

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+