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História

Contadora de histórias apaixonada pelas artes

História de: Ieda Mansur Consentino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2021

Sinopse

Infância, origem da família e presente do avô. Período escolar. Interesse pela música desde criança. Faculdade e conservatório musical. Vida nos Estados Unidos. Casamento e ser mãe. Primeiro contato com o Griots, vida de contadora de histórias e livro infantil. Envolvimento com o grupo de teatro e coral na Unicamp. Sonhos para o futuro.

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História completa

P1- Oi, Ieda, tudo bem com você?

R – Tudo bem!

P1 – Que bom! Nós começamos pelo mais básico: qual seu nome completo, local e data de nascimento?

R – Meu nome completo: Ieda Mansur Consentino, 28 de maio de 1943.

P1 – E qual o nome dos seus pais?

R – Minha mãe chamava-se Elza Bayout Mansur e meu pai, Aziz João Mansur.

P1 – Qual a ocupação dos seus pais?

R – Poderia repetir a pergunta?

P1 – Qual era a ocupação dos seus pais?

R – O papai trabalhava com comércio e a mamãe era dona de casa.

P1 – E como é que era o dia a dia na sua casa? Você brincava bastante?

R – Era normal, assim, porque, na época, a minha época, 1943, que eu nasci, né, era uma época em que os pais ficavam, a mãe ficava em casa e o pai saía pra trabalhar. Então, era muito fácil, ali, de se viver, porque eu morava num lugar muito bom e que tinha escola perto também. Então, eu, com seis anos de idade, me lembro que eu ia pra escola sozinha e voltava pra casa sozinha também. Então, as crianças brincavam na rua. (risos) Não tinha televisão, né, porque... A gente inventava muito pra brincar, então acabava virando pessoas criativas, né? (risos) Eu pegava aquelas caixinhas de mate, tinha umas caixinhas de chá e que elas soltavam assim, né? Era de encaixe. E aquilo ali a gente fazia de tudo. (risos) A gente fazia campinhos, a gente fazia também... Como é que fala? Casa, a gente fazia os dormitórios e eu me lembro que eram galinhas, tinham umas galinhas que punham ovo, naquela época, que você apertava assim e a galinha punha ovo. Então, a gente fazia uma porção de coisa, a gente só inventava.

P1 – E você tinha irmãos?

R – Sim, eu tenho ainda um irmão e tenho uma irmã. O meu irmão era dois anos mais velho que eu e a minha irmã, cinco anos mais nova que eu. Então, eu brincava com coisas de menino, Eu ia pra rua, pra brincar com meu irmão e juntava aquela molecada toda, só brincadeira. (risos)

P1 – E a origem da sua família, né? Você tinha comentado, antes da entrevista, que é libanesa. Seus pais são libaneses?

R – Sim, meus avós e eles vieram pro Brasil. Isso por parte de pai, que somos Mansur. O meu avô, o sobrenome era Bechara e do lado da minha avó, que era da minha mãe, eles eram alemães, poloneses e austríacos. A minha avó era austríaca e o sobrenome é Yamonovsky, o sobrenome da vovó e do meu avô também.

P1 – Eles costumavam te contar histórias quando você era pequena?

R – Eu não me lembro muito. Papai contava, mas era mais, assim, música. Porque eu ia pra escola e, quando voltava pra casa, eu escutava bem longe, música. E aquilo, pra mim, era uma coisa muito especial. Aí, eu atravessava a rua, ia lá pro outro lado e era uma casa de uma professora de música, professora de piano, e eu ficava na janela. Eram aquelas janelas tipo vitrô e eu ficava ali pra observar. E um dia ela veio devagarzinho assim, por trás de mim e perguntou: “Você quer aprender a tocar?”. Eu falei assim: “Eu quero!”. E ela disse: “Você quer que eu vá na casa da sua mãe, pra falar com ela?”. Eu disse: “Eu quero!”. (risos) Então veio e disse: “Então, deixa eu terminar a aula, que eu vou com você”e ela veio pra falar com minha mãe. Eu fico, hoje, pensando o seguinte: como a gente era solta, naquela época. Eu, com seis anos de idade, ia pra escola, voltava, minha mãe nem se dava conta que eu ficava escutando música do outro lado da rua. (risos) Eu atravessava sozinha a rua, tudo. É muito engraçado a gente pensar nisso nos tempos de hoje, né, que você não vai daqui até o portão, você fica com medo de deixar as crianças irem. É assim, mas aí, ela falou com a minha mãe e imediatamente eu comecei as aulas e tudo, e isso veio a minha vida toda, assim.

P1 – E na rua, assim, você disse que costumava brincar bastante na rua, você tinha amigos na rua?

R – Sim, tinha amigos, que as crianças da rua saíam pras calçadas, tudo, então, uma via a outra, chamava, né? E eu lembro que, quando eu era muito pequenininha ainda, eu saía com aqueles carrinhos de boneca, pra passear na rua e a gente ficava mostrando uma pra outra as bonecas, essas coisas. Coisas de menina. Naquela época, tinha bastante, hoje não tem mais. (risos)

P1 – Você tinha comentado comigo que seu avô fez uma poesia pra você quando você era bem pequenininha.

R – É assim, o vô era o pai da minha mãe, né, e ele fez uma poesia quando eu fiz cinco anos de idade. Eu até tenho a poesia aqui, se vocês quiserem ouvir. Eu posso ler, tá bom? Então, tá, vamos lá. Vovô chamava-se Antônio Bayout, era o sobrenome dele. Ele diz assim: 

“Minha Ieda, neta querida, 

com amor e devoção, 

desejo saúde e vida

de todo o meu coração

Ser-se avô é duas vezes 

sentir-se, na alma, os revezes

do maior amor da vida.

É quando o coração cansa 

e só vive de esperança, 

minha Ieda, neta querida.

Todo o carinho e ternura

faz esquecer a amargura

do viver na solidão.

Quando a infância sorridente

se prende dentro da gente, 

com amor e devoção

o tempo é, para a velhice,

o mesmo que a rabugice

e só dá mágoa sentida, 

que Deus te dê alegria. 

Minha Ieda, neste dia, 

desejo saúde e vida

e que, na tua felicidade, 

espalhando a bondade, 

seja esse o teu condão.

Beijos do teu avozinho, 

abraço-te com carinho, 

de todo o meu coração”. 

28 de maio de 1948, do avô materno. (risos) Eu guardei até hoje, tenho guardada essa poesia comigo e de vez em quando eu leio. E ele pôs, inclusive, a minha foto aqui, de cinco anos, né? Deixa eu ver se dá pra mostrar, aí ele pôs aqui, olha, a minha foto. (risos) E até hoje eu tenho. Você vê que é muito importante que a gente deixe algum legado pros netos, né? Foi nisso também e justamente eu estando junto com as crianças, que eu acabei escrevendo um livro e lá está a mesma coisa que o vovô fez: eu dediquei esse livro pros meus três netos, pra que eles tenham também essa recordação que eu tive do meu avô, que é uma coisa muito importante, eu acho. E eu tenho uma recordação de quando eu era criança, dessa idade também. Quando eu comecei a ir pra escola, até vou falar pra vocês uma coisa engraçada, que é dos óculos, né? Eu sentava na última carteira e não prestava atenção na aula, porque eu não enxergava nada. Aí eu gostava de brincar, (risos) ficava brincando o tempo todo e eu não aprendi nem [a] ler, nem [a] escrever, nem fazer conta, em um ano que eu fiquei na escola. Até que um dia, já no final, quase no final do ano, faltando uns dois meses pra gente passar pro segundo ano, chamaram meu pai e disseram pra ele: “Olha, a sua filha deve ter algum problema, porque ela não aprendeu até hoje a ler, escrever e fazer conta”. (risos) E aí meu pai ficou muito assim, porque ele não imaginava qual seria o meu problema, né? Então, ele me pôs sentada e falou assim: “Bom, você vai aprender a ler, escrever e fazer conta com o papai, tá bom?”. Eu falei assim: “Tá!”. Eu adorava meu pai, então, tudo que ele passava ali, pra mim, de noite, estava na ponta da língua. Aí, o que aconteceu? No dia da prova, eu sentada lá atrás, falei pra professora, que ela escreveu na lousa, no quadro negro, eu falei assim: “Eu não tô enxergando”. Ela falou: “Então, vem sentar aqui na frente”. Coisa que eles deveriam ter percebido o ano inteiro e não perceberam. Aí, eu peguei, eu li, escrevi, fiz tudo, fiz o ditado, me lembro até hoje, a única palavra que eu errei foi a palavra "fez", que em vez de eu por com "z", eu escrevi com "s". E, nesse dia, na hora que eles foram, assim, entregar bonitinho, aquelas coisas todas, tinha presente pros três primeiros colocados, que tinham passado com as melhores notas. E eu olhei aquilo lá, que tinha boneca, era do primeiro lugar e eu fiquei encantada com a boneca, né? Mas eu nem imaginava que eu fosse ganhar nenhum presente, achei que eu ia repetir de ano (risos) e, de repente, eu tirei o primeiro lugar. Passei do primeiro pro segundo ano em primeiro lugar e ganhei a boneca. (risos) E isso foi um incentivo pra minha vida, dali em diante deslanchei. (risos) São coisas que a gente tem, de recordação gostosa, na vida da gente.

P1 – E, durante sua época da escola, você tinha uma matéria favorita?

R – Matéria? Eu acho que, assim, que eu me lembre, não. A minha melhor matéria sempre foi a música mesmo, eu me dedicava muito ao piano. Inclusive, eu gostava de fazer, inventar músicas. Eu acho até que existiu um erro, porque eu gostava de improvisar, de inventar, improvisar e tudo e a minha professora queria que eu tocasse exatamente como o autor tinha escrito na partitura. E, assim, o crescendo, diminuindo, esforçando, aquelas coisas todas, eu fui aprendendo tudo isso e fui largando aquela parte de improvisação, que eu acho que é muito importante, né? Até hoje eu tenho dificuldade, às vezes, pra fazer alguma improvisação, alguma coisa assim. Você vê que é de criança que se forma a personalidade, as coisas, né? E é por isso que até hoje eu acho que a gente tem que deixar a criança livre. Às vezes, a criança tem birra, tem isso, tem aquilo, mas a gente tem que prestar atenção qual é o problema que essa criança está tendo. E eu sou muito a favor disso, então, eu fiz isso com os meus netos e, inclusive, eu tô até escrevendo agora um segundo livro, que fala sobre isso também.

P1 – Você teve algum professor que te marcou, também?

R – Sim, eu tive essa professora que chamava-se Dona Olga, mas depois eu fui pra outro professor, que era o professor Augusto, que ele foi um excelente professor de piano, aí que eu desenvolvi muito nessa época também e teve uma época que eu já era mais jovem, tinha meus quinze anos de idade, que morava ali perto do Colégio Bandeirantes, que eu fiz o colegial... Não, o ginásio, eu fiz no Bandeirantes e o colegial eu comecei no Benjamin Constant, que era um colégio de alemães. Mas ali eu conheci a Magdalena Tagliaferro, que foi uma excelente pianista da época, talvez muitas pessoas não se lembrem disso hoje. Eu estava estudando junto com ela, pra ser assistente dela, naquela época. E foi aí que eu fui embora pro Rio de Janeiro (RJ). (risos) Tudo, na minha vida, foi parando, aos pouquinhos.

P1 – E, a partir do momento que você conheceu a música, você já pensou que você queria fazer alguma coisa com a música, quando crescesse?

R – Ah, sim, eu queria ser concertista. Inclusive, eu estudava muito. Eu estudava praticamente umas quatro horas na parte da manhã e umas quatro horas na parte da tarde. Eu me desenvolvi bastante em todos os lugares, eu fazia, por exemplo, inclusive, nesse Colégio Benjamin Constant, que era um colégio de alemães, eles eram muito alegres e faziam teatro, tinha coral, então eu entrei nessa parte artística toda, né? Inclusive, eu fazia teatro e me apresentava musicalmente também. Então, é por isso que até hoje eu gosto de mexer essa parte de artes, mas naquela época, não sei, acho que os pais, assim, apesar de tudo, que eles foram ótimos pais, eu acho que eles não tinham essa visão, né? Pra esses lados, assim. Principalmente porque a mulher, naquela época, era formada pra se casar, cuidar dos filhos, do marido e da casa. Isso era tudo que eu sempre escutei dos meus pais, né? Você saber cozinhar, saber lavar, saber passar. (risos) Todas essas coisas, que hoje ninguém quer fazer mais. É, porque existiu uma evolução, né?

P1 – Nesse período, você tinha bastante amigos, costumava sair com eles?

R – Não, a gente não saía muito de casa. Meu irmão saía, porque ele era homem, mulher não. Se eu fosse em algum lugar, eu teria que ir com a minha mãe, com alguém que me acompanhasse. Eu sozinha não ia pra lugar nenhum, não, meus pais não deixavam. Inclusive, eram aquelas educações meio libanesas, sabe? “Senta direito, põe o pé baixo, não sei o que, não levanta”, sabe aquelas coisas, assim? Então, você foi meio enquadrada dentro do sistema, você não ousava muito sair, ter suas próprias ideias, você fazia o que aparecia, o que dava pra você fazer. Então, o que acontece? A gente trabalhava muito na criatividade, né, e nas escolas tinham muitas bibliotecas e aí eu pegava os livros pra ler, era uma coisa que eu gostava de fazer. Tanto é que meu português até era bom. Na escola, todos professores gostavam que eu escrevesse, porque eu sempre tive esse dom pra escrever. Não pra fazer poesia, mas pra escrever mesmo, contos, histórias. E gosto também de fazer minhas composições musicais e pôr as letras também. Eu gosto de fazer as letras também, das minhas músicas. É isso.

P1 – E, após a escola, foi aí que você foi pro Rio?

R – Então, eu tinha quinze anos de idade, fiz o primeiro ano colegial aí em São Paulo, no Colégio Benjamim Constant, e fui embora pro Rio de Janeiro. E aí foi um período lindíssimo, né? Porque eu entrei, estava entrando nos anos dourados, que foi uma explosão, assim, de artistas e, nessa época, pra mim foi muito importante, porque eu justamente conheci a Bossa Nova, foi quando começou também a Bossa Nova. Bom, a Bossa Nova começou mesmo, os primeiros acordes, com o Garoto, né, que foi em 1930, que aí foi o começo da Bossa Nova, mas daí ela veio como se o samba tivesse vindo pra avenida, entendeu? Então, o que aconteceu? Eles elitizaram o samba. E o samba virou a Bossa Nova. Porque eles puseram o jazz americano dentro da dissonância, entraram com a dissonância. Eu quero explicar assim, por exemplo: nós temos um acorde, a gente usa o Dó, o Mi e o Sol, é o acorde fundamental, de samba. Quando entrou a Bossa Nova, eles eram já pianistas clássicos, que nem o Antônio Carlos Jobim, um pessoal já mais estudado, que conhecia muito música, então eles elitizaram o samba, eles começaram a pôr notas dissonantes, como a sétima, e foi aí que começou. E a batida, que veio com o João Gilberto, uma batida diferente, porque ela fica um pouco no ar, você bate, depois ela fica no ar e ela desce, é muito interessante. E eu entrei muito, nessa época, com música, com tudo, inclusive, até a Lúcia Branco, que foi a minha professora, naquela época, no Rio de Janeiro, foi professora também do Antônio Carlos Jobim. Então, era uma época de ouro ali, dos anos dourados mesmo. Eles ficavam ali na esquina, né? Um bar de esquina que dava ali pra... Acho que era a Rua Nascimento… Era uma rua que dava pra gente ir na praia de Ipanema e ali tinha a Helô Pinheiro. Foi quando eles viam a Helô Pinheiro caminhando pra ir pra praia e tal, que eles fizeram a Garota de Ipanema. Então, ela morava perto de mim, a Helô Pinheiro, só que ela ficou famosa (risos) e eu casei e vim embora pra São Paulo. (risos) Então, foi um bate e volta, assim. Mas foi uma época de ouro, realmente, porque o presidente, naquela época, era o Juscelino Kubitschek e ele olhou muito pras artes, então teve uma eclosão de tudo, ali. Você vê que até nos esportes, até o futebol, né? Foi tudo nessa época aí, foi uma época de ouro, realmente, e eu vivi essa época. Foi muito bonito. Eu ia pra escola e eu ia pela praia, pegando aquele sol maravilhoso de manhã, sabe? Aquele cheirinho de praia, isso eu nunca me esqueci na vida. Aí eu andava de bonde, a gente andava de bonde, aí a gente, quando descia, assim, do bonde, tinha aquela areia branquinha, sabe, assim, quando a gente descia do bonde, era muito lindo. Eu tenho recordações lindas do Rio de Janeiro, naquela época, né? Agora, infelizmente mudou bastante, mas era lindo, ali a gente andava e não tinha problema nenhum, sabe? Eu lembro que a gente, de noite, saía pra tomar sorvete, eu lembro até o nome, da Sorveteria do Moraes, (risos) pra tomar sorvete e a gente tomava. Sabe o que eu gostava de tomar? Sorvete de fruta do conde, mas sem os carocinhos. Só tinha os baguinhos. Imagina que a gente vê isso hoje! Nem pensar! (risos) Isso não existe mais. Então, são lembranças assim, de juventude e tudo. Mas eu conheci meu marido com dezoito anos e, com vinte, eu estava casada. (risos) Foi um paulista que me achou no Rio de Janeiro e me trouxe de volta pra São Paulo. Foi assim.

P1 – E a faculdade, quando você fez?

R - Então, eu ia entrar pra faculdade, que eu ia fazer Química, né? Ia fazer Engenharia Química, eu estava entre essa e continuar meus estudos todos de música, mas não deu tempo nem de uma coisa, nem de outra, porque aí eu casei e aí fui ser dona de casa, como todas as mães e meninas daquela época. Eram difíceis aquelas que queriam ser alguma coisa, fazer alguma coisa fora, era muito difícil trabalhar fora, isso não existia muito pra mulher, naquela época, né? E o paulista ainda era um pouquinho mais seguro nessa parte do que o carioca. O carioca, a gente ia pra praia, usava maiô, depois começaram os biquínis e tudo, então a coisa foi um pouco diferente, tanto é que os paulistas adoravam ir pro Rio de Janeiro, pra ver as cariocas na praia, né? E naquela época tinha um negócio engraçado, tinham aqueles penteados que a gente fazia bem alto, a gente usava sabe o quê? Bombril embaixo do cabelo. A gente punha o Bombril pra ficar bem alto, né? E a gente enrolava os bobes no cabelo com cerveja. Meu pai nunca se conformava (risos) com aquilo. Você enrolava com cerveja e o cabelo ficava bem firme, pra você poder fazer aqueles penteados, né? E meu pai ficava louco, meu pai falava assim: “Eu não consigo entender, vocês lavam o cabelo, fica cheiroso, depois vocês usam cerveja no cabelo, pra enrolar?” (risos) Papai não se conformava com aquilo, era muito engraçado. Mas era o que a gente fazia, usava Bombril nos cabelos, olha só! (risos) Quando vocês virem esses penteados muito altos, de antigamente, podes crer que tem Bombril ali embaixo. (risos)

P1 – E o conservatório musical, quando você começou?

R – Então, o conservatório, quando eu vim pra São Paulo, eu acabei entrando como professora lá, né, no conservatório e eu me formei lá também, então eu dava aula e eu tinha também um coral de adolescentes, né? Um coral. Mas ali, também, eu acabei saindo daquele lugar, que eu morava ali perto do Museu do Ipiranga, aí eu fui morar em outro lugar. E depois dali, eu fui embora pros Estados Unidos, que meu marido foi… Chamaram-o pra ser o gerente lá, né? Ele foi e eu fiquei lá sete anos. Nessa época, eu já tinha meu filho, com sete anos de idade, e fui morar nos Estados Unidos. E foi outra época muito boa de aprendizado pra mim também porque, assim, os americanos tinham uma estrutura que era impressionante, né? Eu cheguei com meu filho com sete anos de idade, aí o levei na escola e aí, no dia seguinte, já tinha uma professora que falava português e que ficou com ele na escola durante seis meses. Ela dava aula pra ele lá, ajudava em tudo que ele precisava, porque ele não falava a língua e ela o trazia pra casa, porque era perto, né? Ela trazia meu filho pra casa e dava uma aula particular pra ele ali, pra fazer as lições e tudo. E era muito engraçado, porque ela pegava uns papéis, assim, que nem esses aqui e ela escrevia a frase inteira. Ela não ensinava assim, por exemplo: "windows", "chair", não eram palavras soltas, eram as sentenças; e essas sentenças, ela grudava pra tudo quanto é canto na minha casa. Então, essas sentenças eu tinha na geladeira, nos banheiros, nas portas dos armários. Onde você ia, você ia abrir e você via e ia decorando aquilo. Aí você começava a ligar uma coisa com outra. Depois de seis meses, ela chegou pra mim e falou assim: “Olha, eu não preciso mais ficar com seu filho”. Eu não paguei um tostão, hein? Era a escola que fazia isso. Eu não paguei nada. Enquanto meu filho esteve lá, eu não paguei um tostão. E meu filho foi no primário, pra lá, no segundo ano primário, e voltou depois que ele terminou o ginásio. Eu nunca paguei nada, inclusive livros. Os livros eram assim: você não podia rasurar aquele livro, que aquele livro ia ser dado pra outra pessoa do seu ano, entendeu? Então, era tudo muito conservado. Se você estragasse o livro, aí eu teria que comprar, pra repor. No final do ano, eles faziam aquela vistoria. Então, todo ano que meu filho entrava, ele recebia esses livros e tudo. Quer dizer, eu comprava um caderno e um lápis pra ele, só. Acho que era assim. E outra coisa: ele tinha o ônibus de graça também, porque o ônibus vinha… Sabe aqueles ônibus amarelinhos, que você costuma ver em filme? Exatamente aquilo ali. E era assim, por exemplo: o ônibus vai e quando ele para, ele abre uma luzinha dos lados do ônibus, que ninguém pode passar, nenhum carro. Nem o que vem de trás, nem o que vem na frente, para todo mundo, porque ali estão descendo crianças e eles ficam ali, esperando a criança entrar dentro da casa, quando não tem alguém que pega ali na hora, entendeu? Então, era uma coisa, assim, super organizada. E perto também, era assim: tudo por região. Cada região que a gente morava tinha uma escola e tinha um clube, mas era um clube legal (risos) mesmo: tinha natação, tinha quadras de tênis. Só de quadra de tênis, tinha sete lá nesse clube. Você fazia amizade com as mães, tinham jantares que eles faziam à noite. Era um espetáculo mesmo. E foi aí que eu conheci a minha melhor amiga americana, o nome dela é Debbie Luman. Eu fui aprender a jogar tênis, porque eu cheguei lá no clube… Sempre tive muita cara de pau, né? (risos) Aí eu entrei lá no clube, sentei lá e fiquei olhando. E aí veio um professor - que eles estavam jogando tênis - de tênis e perguntou pra mim: “Me help you?”. Que nem a gente fala: “Posso te ajudar?”. Aquela mania de americano: “I help you?” E eu falei pra ele: “'Hi', eu vim aqui, porque eu precisava fazer amigos”. E ele falou assim: “Espera um pouquinho, eu vou acabar de dar aula e já vou conversar com você”. Aí, ele pegou, me levou, mostrou todo o clube, fomos tomar um café e ele falou assim pra mim: “Você quer começar jogar tênis amanhã?”. E eu falei: “Quero!”. Estava parecendo o negócio da música, né? (risos) Aí eu comecei e conheci essa Debbie, essa senhora também, que ela era mais velha que eu. Mas, foi uma amizade, assim, muito linda. Ela era judia e ela falou assim, pra mim: “Olha, eu preciso dizer pra você que eu sou judia, você se incomoda?”. Eu falei: “Nossa, imagina!”. Tá parecendo até, assim: “Olha, eu sou negra, você se incomoda de eu ser sua amiga?”. Hoje em dia, é a mesma coisa. Lá existia essas coisas. Eu falei: “Gente, nós não temos isso”. E nós fomos, inclusive, amicíssimas. A gente fez um grupo, que a gente ia pra ver… Era no Theather of Performing Arts, em Miami Beach. Lá apareciam todas as peças de teatro que, porventura, se o povo gostasse, iria pra Broadway. Então, todo mês eu via peças de teatro, todas as peças de teatro que foram pra Broadway, a gente viu ali em Miami Beach. Era assim uma coisa muito gostosa lá também, sabe? E essa minha amiga passava na minha casa, porque meu marido trabalhava, o Fábio ia pra escola e ele voltava só às quatro horas da tarde, porque lá as crianças ficam o dia inteiro na escola: almoçam na escola, fazem lição, eles vêm buscar de ônibus e trazem de ônibus. Então, eu tinha que aprender alguma coisa diferente na vida, né, porque eu não podia ficar o dia inteiro dentro de casa. E foi ali que eu comecei, então, a conhecer diversas coisas. Nossa, foi muito bom! Nós fizemos cursos de antiguidade, fiz curso de paisagismo. Olha, eu tinha, na minha casa, dezoito pés de roseiras na frente da minha casa e todo dia de manhã eu ia pegar rosas, ia tratar das rosas, logo cedinho, antes de jogar tênis. Às seis horas da manhã, eu já estava lá. E os americanos passavam na rua, porque era assim... Como a gente fala? Quando fica... Eles chamam de “___ de saque”, mas eu esqueci como é em português. Mas os americanos passavam por ali e me viam com aquelas rosas e eu ‘punha’ tudo dentro de um balde e cada um que passava, eu dava uma rosa, porque eles achavam lindas as minhas rosas. Eu dava as rosas, aí começaram a me chamar de a Dama das Rosas. (risos) Aí eu acabei ficando conhecida lá. Mas muitas coisas, assim, tinham. Por exemplo: o meu filho cortava grama, né? E ele cortava também pros vizinhos. Às vezes, os vizinhos precisavam e ele cortava pros vizinhos. E tinha um amiguinho dele em frente, que o pai era presidente de uma firma, mas ele entregava, de manhã cedo, jornal. Imagina, um menino da idade do meu filho, devia ter uns sete, oito anos de idade, o pai o fazia entregar o jornal, pra ele ter responsabilidade, está entendendo? É por isso que os americanos são desse jeito, você vê que, com dezoito anos, sai todo mundo de casa. E aquele menino, um dia, ficou doente, você não acredita, o pai pegou o jornal do filho e, antes dele trabalhar, ele entregou o jornal de todo mundo. Então, eram uns exemplos que a gente tinha que, nossa, meu filho aprendeu isso também. Tanto é que, quando eu vim embora pro Brasil, eu saí de São Paulo, né, mas quando eu vim pro Brasil, eu vim pra Campinas e eu pus o meu filho na escola americana, porque ele não falava português direito. Ele falava melhor [em inglês], porque ele foi com sete e voltou com catorze, então, o português dele era muito ruim, né? E eu o pus na escola americana, mas assim mesmo ele quis sair. Ele falou: “Não, mãe, eu sou brasileiro e eu quero ir pra uma escola em que eu possa falar o português”. Foram dois anos de sacrifício, coitado, porque foi muito difícil pra ele, mas ele conseguiu fazer isso. Mas ele quis voltar pros Estados Unidos, ele não ficou aqui. Ele foi, prestou exame na universidade de lá, conseguiu passar e meu filho foi embora de novo. Ele já está lá há 27 anos. Casou e ficou lá. Mas casou com uma campineira, que era a namoradinha dele aqui, de quando ele tinha dezoito anos de idade. É essa a história. (risos) 

P1 – Ieda, e voltando um pouquinho, como é que foi o dia do seu casamento, você lembra?

R – Dia do meu casamento? Eu lembro que chovia bastante e tinha bastante sol. (risos) E a gente falava assim: “Sol e chuva, casamento de viúva”. (risos) O pessoal falava, né? Mas, na hora que eu estava entrando na igreja, despencou um aguaceiro que eu nunca mais me esqueci, (risos) foi muito engraçado. Mas eu me casei no Rio de Janeiro, na Igreja Santa Margarida Maria.

P1 – Ieda, pra você, como é ser mãe?

R – Como é ser mãe? Eu achei maravilhoso, porque eu tive um filho maravilhoso. Meu filho não deu trabalho de nada, tudo que ele fazia era por conta dele, ele era responsável. Não sei se teve alguma coisa a ver também com a influência lá dos americanos, que ele aprendeu, porque ele foi pra lá com sete anos e voltou com catorze, aí ele fez a faculdade aqui, fez a FEI, se formou em Engenharia e resolveu ir embora pros Estados Unidos, lá, pra fazer mestrado. E ele fez o caminho dele todo sozinho. Ele foi, arranjou emprego. Eu nunca precisei correr atrás do meu filho. Aliás, eu tenho três netos, também maravilhosos. Olha, eu vou falar uma coisa pra você: eu, todo dia, agradeço a Deus pela minha família, porque, gente, eu não tive problemas. Nesse ponto, eu não tive problemas. Fábio foi um menino maravilhoso, continua até hoje. (risos) 

P2 – Eu queria que você comentasse um pouco como foi seu primeiro contato com os Griots.

R – Então, foi o seguinte: eu, há muito tempo, queria ser contadora de histórias, porque eu gosto de crianças. Eu contava histórias pras crianças. Na verdade, eu acho que não perdi a criança que eu tenho dentro de mim. Então, eu me dou muito bem com crianças e com adolescentes, mais do que com adultos. Eu acho adulto muito chato. (risos) Eu não aguento adulto. (risos) Começa a reclamar, fala de doença, ai, meu Deus do céu! E criança, não. A criança fala aquilo que ela pensa e eu adoro isso, porque elas são muito verdadeiras, né? E, um dia, eu [estou] fazendo academia, porque eu faço academia também, viu? Aí eu, fazendo academia, nós entramos numa conversa dessas. Eu falei: “Nossa, sabe o que eu gostaria de fazer? Eu queria ser contadora de histórias”. Aí uma amiga minha falou: “Olha, eu conheço os Griots, você conhece?”. Eu falei: “Não”. Aí ela pegou e falou: “É assim, assim”, me deu todas as dicas, de como eu tinha que fazer. Eu entrei na internet e eles já estavam convocando pra entrar uma nova turma. Nossa, aquilo, pra mim, foi na hora. Eu peguei e liguei pra lá, tudo, porque a gente tem que passar com a psicóloga, né? Aí eu fui e tal e passei com a psicóloga, depois nós tivemos um treinamento no hospital e tudo mais e o treinamento que a gente faz é junto com as pessoas que já estão lá dentro, que já são Griots. Então, você fica durante uns três meses junto com essa pessoa, que é seu padrinho ou sua madrinha. Então, eles vão ensinando pra gente como é que tem que fazer: você tem que ter uma quantidade de livros de história, tem que saber muitas histórias e cada um tem seu jeitinho de contar. Tem pessoas que leem o livro inteiro, tem pessoas que mostram as figuras, tem pessoas que são mais palhaças, que nem eu. Aí a gente fica fazendo palhaçada com as crianças. Eu chego assim e pergunto: “Você quer escutar uma história?”. E eles falam: “Não”. Na tua cara: “Não quero”, “Ah, tá bom! Então conta uma pra mim, porque eu tô querendo que você conte uma história”. Aí fica naquela brincadeira, sabe? E eu gosto dessas coisas, de entrar, assim, de repente. Uma vez eu entrei num quarto deles lá e tinha um rapaz de dezoito anos, porque lá a pediatria vai até dezoito anos, então eu pego adolescentes também, pelo meio do caminho. Aí, eu entrei lá, assim, de repente, dei de cara com aquele garotão, assim. Eu olhei pra ele e falei assim: “Bom, não vou perder o rebolado, né?”. Aí eu cheguei pra ele e falei assim: “Sabe o que eu vim fazer? Eu vim contar a história da Chapeuzinho Vermelho pra você”. Mas ele ria tanto. (risos) “Chapeuzinho Vermelho?”, ele falou. “É, da Chapeuzinho Vermelho”. (risos) E a gente ria, ria, ria. Aí depois a gente acaba conversando, ele estava se formando, ele estava numa cadeira de rodas e ele falou assim: “Amanhã eu vou receber meu diploma, mas vou ter que ir na cadeira de rodas”. Eu falei assim: “Não tem problema, isso não é nada”. Aí a gente fica naquela conversa, porque a gente levanta o astral da pessoa assim, das crianças, tudo. Então, a gente brinca muito, eu sou muito brincalhona, então só sai bagunça, às vezes. Mas, aí eu tô saindo, a gente conversou só, não contei história nenhuma, eu tô saindo e ele falou assim: “Escuta, e a história da Chapeuzinho Vermelho?”. Eu falei: “Você quer que eu conte?”. E ele falou assim: “Quero”. Aí eu tive que contar a história pra ele e ele ficava me arremedando, sabe? Eu contava e ele contava: “Não é assim, não”. Ele inventava a história, mas a gente ria tanto. Gente, tenho cada recordação, você não pode imaginar. Mas tem recordações tristes também, foram cinco crianças que eu vi morrer, né, que eu estive junto com eles e tudo. Mas eu me sinto muito feliz, porque eu levei alegria pra eles, nesses momentos de tristeza. Eu tenho, no meu WhatsApp, diversas crianças, que eu estive com eles e que eles até hoje se lembram de mim e a gente ainda fala no WhatsApp, eles já estão crescendo, já ficaram grandes. Teve alguns que não têm mais o problema que tinham, mas tem outros que vão levar pro resto da vida e a gente conversa sempre, assim. Mas é uma coisa muito bonita, tanto é que eu me integrei completamente nos Griots e é por causa deles, por causa dessas crianças, que eu fiz o meu primeiro livro infantil. Ele [se] chama, até trouxe pra você ver: “A Brabuleta Rezadeira”. (risos) É ‘brabuleta”, sabe por que é ‘brabuleta’? É a história de amizade de um leãozinho branco com uma borboleta azul. Esse leãozinho viu essa borboleta nascendo e, quando ela nasceu, ela veio e pousou no narizinho dele. E esse narizinho dele era um coração, que ele nasceu com um coração no narizinho e ele se chama Amor. E ela, quando ela nasceu, era feia e ela perguntou: “E o meu nome, como é o meu nome?”. E ele falava assim: “Você chama borboleta”. E ela: “Brabuleta?”, “Não, é borboleta!”. E ela não conseguiu falar. (risos) Até o final do livro ela não conseguia falar, a borboleta. (risos) Aí ele deu um nome pra ela, um nome muito bonito, mas quando ela estava morrendo. Porque as borboletas, isso que eu queria que as crianças ficassem sabendo, que as borboletas só vivem quinze dias, mais ou menos, é o tempo delas, né? Quando ela viu que estava morrendo, ele veio correndo, que ele viu, ela disse pra ele que ela estava indo embora. E ele disse: “Não, você não vai” e ele chorou. E quando ele chorou, as lágrimas caíram na borboleta e aí a floresta inteira se iluminou e ele deu o nome pra ela de quê? De Luz. E o Amor e a Luz viveram para sempre juntos. E é a da luz e do amor que vem... Aqui, eu vou ler pra você: “(...) vem todas as virtudes do planeta: a bondade, a ternura, o carinho, a amizade, o respeito, a gratidão, o otimismo, a alegria, o perdão, a tolerância. Esses são os filhos do Amor e da Luz”. Está escrito no livro. Esse meu livro, eu quis fazer um livro diferente, eu quis fazer um livro que tivesse só bondade e amor, tanto é que esse meu leãozinho aqui é vegano. (risos) Ele não come os bichinhos, ele come banana com o macaco. (risos) Tinha que ser eu, né, pra escrever um livro desses! Mas está saindo agora meu segundo livro, eu gostei da brincadeira. (risos) Eu acho que eu sempre tive essa vontade, sabe, de escrever e eu faço isso agora. Na pandemia, que eu fiz, porque eu fiquei presa aqui dentro, não podia fazer nada, falei assim: “Vou escrever meu livro”. E assim deu um estalo, um dia a gente falando sobre amor e luz, às três horas da manhã eu acordo com a história na cabeça e falei assim: “Vou escrever”. E foi assim que escrevi meu livro e eu passo pras crianças todas.

P2 – Você lê esse livro pras crianças também?

R – Olha, eu não cheguei, porque eu fiz na pandemia e nós estamos proibidos de ir pro hospital, mas a gente faz em vídeos. Eu faço em vídeo. A gente conta a história em vídeo e as crianças têm a nossa ONG, né? Eles têm o nosso “site” e eles conhecem os Griots, então, a gente conta história. Nós somos 180, os Griots, então, nós temos histórias, todos os dias nós temos histórias novas, pras crianças. Nós temos o Spotify, que conta história só pra ouvir e temos também os vídeos que vão para o Youtube. Então, está cheio de histórias, pra tudo quanto é lado. E eu faço também. Eu vou ler pra você o que são os Griots, você quer saber o que são os Griots?

P2 – Por favor!

R – A gente tem isso aqui, né? E atrás nós temos o que quer dizer os Griots. Os Griots eram grandes contadores de história, das tribos africanas, numa época que as histórias eram consideradas essenciais para a sobrevivência da cultura popular. Lendas, feitos históricos e lições de vida eram, por eles, transmitidas e serviam de alimento para o espírito alegre e guerreiro desses povos. Pelo valor do seu trabalho nas guerras, eles eram poupados, eles não matavam os Griots. Até os inimigos os poupavam. Com suas canções, histórias e ensinamentos, os Griots criavam um ambiente mágico e fraterno. A Associação Griot que é dos contadores de história, tem como principal objetivo, plantar e colher, diariamente, dezenas de sorrisos de crianças internadas em hospitais, visando promover a humanização hospitalar através da arte de contar histórias. Então, a gente tem isso aqui sempre pendurado, que é pra gente se lembrar. (risos) Ai, meu Deus! Então, é assim que aconteceu, então, de eu conhecer os Griots, né? E agora, além de tudo isso, justamente também por causa da pandemia, eu resolvi fazer o teatro, porque a gente começou a fazer os vídeos. Aí eu tive essa ideia, falei: “Vamos encaixar os teatros”. Porque os contadores de história é uma pessoa só, a gente conta... Nossa, esqueci até de ligar aqui a luzinha. (risos) 

P2 – Mas tá bom, não tem problema.

R – Mas agora acho que vão lançar pro Dia das Crianças, o teatrinho que nós fizemos. Vou contar pra você qual é o livro, só você vai ficar sabendo. Nós estamos fazendo, não sei se você conhece o livro “A Revolta dos Gizes de Cera”?

P2 – Não.

R – Nunca ouviu falar? Mas vai ouvir falar, porque depois eu vou contar pra vocês a história, [que] é muito engraçada. É um autor americano e esse livro eu conheci com a minha neta, quando eu estava lá nos Estados unidos com eles. Lá, ela me apresentou esse livro e eu achei muito legal. Falei assim: “Nossa, completamente diferente. Eu vou contar essa história”. Eu contei a história, mas o teatrinho vai ficar bem melhor, né? Mas, até eu pedi pra ela, falei assim: “E agora? Manda mais daí algumas histórias diferentes pra vovó poder contar pras crianças aqui”. E ela manda pra mim uns livros diferentes, porque eu cansei do Chapeuzinho Vermelho, sabe? Não aguento mais o Chapeuzinho Vermelho. (risos) E depois não aguento mais ver o lobo querendo matar a vovozinha. Ah, não conto mais esse negócio. (risos) Ai, ai. 

P2 – E me conta como foi seu envolvimento com o grupo de teatro Arteiros, da Unicamp. Como começou?

R – Então, foi assim: teve uma época aqui que meu filho foi embora, eu estava aqui mais sozinha, dentro de casa e tal, e aí eu resolvi, falei assim: “Bom, eu vou na Unicamp, né?” Porque os Griots, eu consegui entrar pela internet. E por causa dos Griots que eu ia no HC, eu comecei a ver que existiam outras coisas lá dentro. Tem muitas coisas, né? Porque, inclusive, eu já tinha feito até algumas aulas, assim, mas como ouvinte: de música, harmonia, dessas coisas, assim, de composição. Eu ficava, assim, só de ouvinte. Eles deixavam. Aí eu comecei a ver que tinham outros programas e eu acabei conhecendo o Programa da Terceira Idade. Esse Programa da Terceira Idade tem, tipo, umas 180 matérias, sabe? Você pode escolher. Só que é sempre muito cheio, né, porque tudo quanto é idoso vai lá pra aquela Unicamp, né? Mas é muito bom. Tem cinema. Inclusive, eu entrei como Contação de Histórias, né, pra aprender mais. Teve as histórias do Harry Potter, né? Tinha um professor lá, que contava tudo, inclusive como era lá na Inglaterra, na época que eles filmavam o Harry Potter, os locais. Foi muito bacana. Foi um dos que eu peguei pra fazer também, né? E, de repente, apareceu o teatro. Aí eu imaginei, falei assim: “Nossa, fazer teatro!”. Porque tudo que eu pensava em fazer era pros Griots, eu queria melhorar, pra poder fazer a apresentação. E acabei conhecendo os Arteiros. A gente entrou e aí nós começamos a fazer teatro e começamos a ir pra diversos lugares, assim, de colégios, os colégios vinham, pra gente fazer a apresentação. Aí, mesmo lá dentro da Unicamp, a gente fazia. Teve um dia que nós fizemos, olha, foi muito bonito. Foi numa formatura de médicos, né? De enfermeiras. Eles pediram pra gente fazer apresentação do teatro nosso, nós fizemos a apresentação, depois eu falei no final, eu ainda falei. Você não pode imaginar a choradeira que foi, as enfermeiras todas chorando, porque elas olhavam pra gente como se a gente fosse mãe, avó delas, né, porque elas estavam se formando e elas, nossa, foi uma catarse, vamos dizer assim, né? E a gente só leva essas coisas, são coisas bonitas. Nós fomos pra um assentamento, que as crianças nunca ouviram falar em teatro. Eles ficaram doidos com a gente, sabe? Mas, assim, numa educação que você não imagina, como se a gente fosse, assim, uma coisa maravilhosa e que a gente não é, você está entendendo? (risos) Nossa, a gente traz uma coisa tão gostosa dentro da gente, de estar perto de pessoas assim. Então, eu acho que o mundo tem que aprender a ser dessa maneira. Fazer a doação, sem pedir nada de volta. É isso que faz a gente ser humano e as pessoas esquecem disso, Genivaldo. Quando eu começo a ver as coisas que estão acontecendo... Bom, aqui em casa, eu não vejo mais televisão. É meu marido que vê, eu não vejo mais, não consigo mais ver, porque só tem tristeza. Eu fico pensando assim: “Gente, por que eles não fazem um programa de coisas bonitas, né? Tem coisas tão lindas nesse mundo pra gente ver”. E eu só gosto de ver a beleza. Eu tenho um quintal aqui, que eu que cuido das minhas flores. Aí a gente escuta dizer assim: “Você cuida das suas flores pra você ver as borboletas”, não é verdade? Porque as borboletas é que gostam de flor. (risos) Então, eu faço isso, eu estou cheia de rosas no meu jardim. Aliás, eu acho que eu sou a mulher das rosas, eu adoro rosas. (risos)

P2 – Que nem na época dos Estados Unidos, né?

R – Sim, a mesma coisa. Foram as épocas que eu tive casa, né? Porque antes eu morava em apartamento e em apartamento você não pode ter isso. Só que agora meu marido quer voltar pra apartamento e eu fico pensando: “Ah, eu fui tão feliz”. (risos) Não, mas eu vou ser feliz de qualquer maneira, lá no apartamento eu vou arranjar outra coisa pra fazer. (risos)

P2 – Tá certo. Mas tem mais uma coisa que você faz na Unicamp, que é também o coral, não é?

R – Ai, esse, se eu contar pra você, foi a coisa mais espetacular que eu conheci, sabe por quê? Eu estava no programa de coral da terceira idade. Eu entrei, porque, como eu gosto de música, eu falei assim: “Vou fazer o coral”. Aí eu entrei, mas esse coral, como eu conheço bastante música, pra mim ficou um pouco… Eu não podia falar as coisas, entendeu, porque as pessoas que estavam lá também não conheciam muito música, só gostavam de cantar, que nem eu. Mas a gente foi pra diversos lugares pra cantar, em clubes que chamavam a gente, a gente ia, da terceira idade. E o pessoal gosta, porque é tudo velhinho cantando. (risos) Então, o pessoal acha lindo os velhos cantando, mas o pessoal tinha uma voz boa ali, também, no coral da terceira idade, só que eu tinha o teatro. Tinha o teatro e do lado tinha um salão, onde tinha gente cantando sempre e eu via o pessoal tocando. E eu comecei a observar aquilo, até que eu descobri que era o coral efetivo da Unicamp, que é o Zíper na Boca. Aí eu ficava encantada, porque era na mesma hora do teatro. Eu, em vez de ir pro teatro, ficava de olho, lá no vidro. Até que eu acabei entrando na internet e tudo, pra saber como é que era. Gente, eu fiquei encantada, porque, além deles cantarem, eles fazem artes cênicas, sabe? E aí eu falei: “Gente do céu!”. Aí, um dos rapazes que tinha lá sempre me via e ele veio conversar comigo. E eu falei: “Um dia ainda eu vou entrar, pra fazer esse coral”. E ele assim: “Venha mesmo”, ele falou. E a gente conversava muito, porque eu do teatro e ele do coral. Aí, um belo dia - foi agora, em fevereiro, antes da pandemia -, eu vi lá que eles estavam trazendo novas pessoas pro coral, né? Pra fazer teste. Não teve dúvida, eu fui na hora, me inscrevi e aí falei assim: “Eu vou fazer”. Aí eu fui e inclusive eles ficaram de falar assim: “Olha, nós vamos dar a resposta pra você, no seu ‘e-mail’, se você vai poder participar ou não”. Aí, veio a pandemia e eu falei assim: “Imagina, não vão nem me chamar mais”. E eu triste, né? Mas, que nada! Eles mandaram pra mim, que eles iam começar em vídeo. Gente, foi tão bonito, Genivaldo! Você não pode imaginar a capacidade dessa maestrina! Ela tem trinta anos de Zíper na Boca. Ela faz coisas do arco da velha. Olha, eu fiquei apaixonada por ela, apaixonada pelo coral e tô fazendo, não conheço ainda meus amigos, a gente conhece só pelo WhatsApp, mas, olha, é um astral belíssimo. E elas mexem comigo, né? Porque acho que eu sou a mais velha de lá. Não, tem umas mais velhinhas também, mas tem muita jovem e muito jovem que está fazendo música na Unicamp. Pessoas que estão fazendo erudito e tem muitos lá que estão se formando maestros, sabe? Mas, então, é uma coisa assim, mais, vamos dizer, elitizada mesmo, não é? E esse coral vai pra uma porção de lugares: a gente já foi pra Argentina, já foi pra fora aqui do Brasil, eles vão, né? Eu nunca fui, né, porque eu comecei em fevereiro e não conheço ninguém, mas, se você entrar, Zíper na Boca, você vai ver aqui, da Unicamp. Tem coisas lindas, eu posso até mandar algumas pra Grazielle, vou mandar umas que eu estava me apresentando lá. Tem um que eu gosto muito, que é João e Maria. A gente se fantasiou, todo mundo fantasiado, cantando, sabe? Muito legal! Tem um que eu gosto muito também, que é Aquarela do Brasil, ficou lindo, também, Aquarela do Brasil. Então, são as coisas que eu faço, que eu trabalho. Eu acordo de manhã cedo e tem coisas pra fazer pelo resto do dia, fora o almoço pro marido, (risos) essas coisas. Só não vejo televisão, viu? Televisão eu não gosto.

P2 – Tá certo! Então, a gente vai pras últimas perguntas, Ieda: atualmente, quais são as coisas mais importantes pra você?

R – Tudo. Tudo, pra mim, é importante: as minhas crianças, o meu teatro, os meus amigos, o meu filho, que mora longe com meus três netos. A minha casa, gosto da minha casa. Olha, acho que eu poderia falar assim, pra quem quiser me ouvir: “Ame aquilo que está perto de você, não almeje nada mais que isso. Só sinta amor pela vida, pelas coisas que você vê, veja a beleza, sabe? Esquece as coisas negativas. Aconteceu coisa negativa, aí tirou da minha cabeça”. Aliás, eu acho que até aquele livro, “O Segredo”, (risos) deve ter alguma coisa parecida com isso, sabe? Que, quando você começa a olhar as coisas positivas que você pode fazer, só vem coisa boa pra você. Eu não tenho nada pra reclamar na minha vida, nada. As coisas que não foram boas, eu esqueci todas. Nem me lembro. E é isso que eu acho que a gente deve fazer, pra poder ser feliz e pra você passar felicidade pra pessoa que está do seu lado. Então, você atrai uma luz, né? A luz não atrai borboletas também? (risos) Mariposas também, né? (risos) Mas a gente tem que saber diferenciar, né? (risos). É isso.

P2 – E quais são seus sonhos pro futuro?

R – Ah, eu tenho um, mas eu vou contar pra você. Eu queria que, nos Griots, eu vi que tem muitas meninas lá que já escreveram, que querem fazer livros, mas custa muito caro, muito caro. Então, eu gostaria de ter, assim, um patrocinador, né? Que a gente escrevesse os livros, por exemplo, livros dos Griots, né? Que tivesse alguém que fizesse nossos livros, que editasse nossos livros, que tivesse uma editora que tivesse só os livros dos Griots, assim. Quer dizer, lógico que com outros livros também, mas aquela editora, só pra ter os nossos livros, pra gente poder pegar esses livros e dar pra todas as crianças que não podem comprar. Porque fica muito caro. Muito caro. Esse meu livro aqui, por exemplo, se bem que ele é muito bonito, porque ele é trabalhado todo dentro, está vendo, com aquarela. Esse artista, é um artista pra fazer isso. É claro que ele tem que cobrar, a editora cobra, tudo, no final das contas um livro desse aqui vai ficar 35 reais, tá? Aí, você vai na editora, pra comprar, aí eles têm o quê? O frete pra mandar. No fim, quem é que tem, das crianças mais pobres, dinheiro pra comprar um livro desses? Então, eu queria ter um monte deles pra distribuir, sabe? Inclusive, aqui dentro, Genivaldo, eu fiz a letra da música. Tem uma música dentro. Eu mesma escrevi. E aqui ela tem o QR Code, dentro do livro. Então, as crianças podem escutar a musiquinha, porque todo mundo, hoje em dia, tem celular. Então, elas escutam a musiquinha. E elas gostam, sabe? Inclusive, eu dei pra algumas mães, assim e diz que elas adoram a musiquinha e querem escutar, porque essa musiquinha é leãozinho que canta pra borboleta dormir. (risos) Então, é uma canção de ninar, né? “Dorme, dorme, dorme, linda Brabuleta, traz nas suas asas, o sol, o céu e o mar. Se você não dorme, eu não vou dormir, porque lá no céu, a lua vai surgir”. Aí a criança dorme. (risos) O meu neto dormiu, por isso que eu fiz a letra assim. (risos) Ele dormiu com a musiquinha, é muito engraçado.

P2 – E, uma curiosidade, Ieda: você tem contato com algumas mães ou pais dessas crianças? Chegou a ter alguma conversa, de saber o que eles acharam do trabalho dos Griots?

R – Dos Griots? Eles sabem, sim, nossa, porque a gente está sempre lá, em todos os quartos que estão as crianças, tem mãe, ou está a mãe ou está o pai, ou está o avô ou a vó. Eu tive um que a vó ficou lá durante dois anos, sabe? Dormindo ali. Às vezes, não é nem cama, às vezes, é uma cadeira, sabe assim? Ali, nossa, olha, a gente vê coisas assim. Tem mães ali, por exemplo, que fazem trabalhos manuais pra vender também, porque elas estão lá o dia inteiro, elas ficam o dia inteiro junto com os filhos, ali. Nossa, aquilo, olha, pra mim, eu gosto mais, é o que eu falo, eu não sou nem contadora de histórias, eu sou uma enfermeira de almas, sabe? Eu gosto de estar ali, conversar com as mães, saber das necessidades, quantas vezes até remédio a gente compra, mas foi o que eu escolhi, é o que eu gosto de fazer. E eu tenho mães aqui também, no WhatssApp, que a gente conversa, eu fico sabendo das crianças que saíram do hospital, até hoje. E eles adoram os Griots, porque a gente vive lá, né? A gente vive lá. Às vezes eu tô andando, assim, porque a gente tem esse uniforme amarelo aqui, está vendo esse uniforme aqui? Vou pôr, pra você ver. Então, as crianças conhecem esse uniforme, aí a gente põe os uniformes, entra lá, assim, que nem as enfermeiras, só que o nosso é amarelo. Está vendo? Ele é todo de bichinhos, de coisas e a gente entra lá e eles: “Conta uma história, conta uma história”. Sabe como é? É muito engraçado. E tem uma coisa engraçada: aí teve uma hora, um dia, um menininho, devia ter uns dois aninhos, estava no colo do pai, aí ele falou pra mim: “Conta uma história pra mim agora”. E eu falei: “Olha, agora eu não posso, porque eu tô indo fazer comida pro vovô, tá bom? Mas amanhã eu volto e te conto, tá bom?”. Ele disse: “Tá bom!”. No dia seguinte, quando ele me viu saindo, ele falou pros meninos assim: “Agora ela vai fazer comida pro vovô, agora ela não pode contar história”. (risos) Eu achei aquilo tão engraçado. É muito engraçado. E a gente fica amiga deles, né? Eles adoram. Ali, naquela época, tinham os palhaços também, tinha a assistente social, tudo, né? Então, nossa, tinha festa, a gente fazia festa. Dia das Crianças, a gente leva livro pra todo mundo, né? Mas só que os livros a gente tem que implorar, a gente tem que pedir: “Será que não dá pra arranjar uns livros?”. (risos) Então, tudo que a gente pode ter de graça, assim, a gente gosta, pra poder dar pras crianças lá. Porque é gente muito pobre, também. Tem bastante gente que não tem, assim, como fazer, como comprar. Por isso que eu falo, que eu acho que, por exemplo, a cultura, os livros, as crianças se acostumando a ler, que nem eu tinha biblioteca, que eu podia pegar e tudo, isso é muito importante. Apesar de que a gente tem lá, livros, também. Tinha, agora não sei se vai ter mais. Parece que tiraram tudo, até nossos livros, então ficamos só nós mesmos, agora, pra não proliferar a Covid. Então, acabou tudo lá, só ficou a gente, nos vídeos. É por isso que tô atrás dessas coisas, ainda, de fazer teatro e tudo mais. É isso.

P2 – Então, vamos pra última pergunta, Ieda: como foi, pra você, contar um pouquinho da sua vida pra gente, hoje?

R – Eu não sei. Eu vou contar uma coisa pra você: eu tô tão acostumada a contar história, (risos) que as histórias se misturam todas, né? Não, mas, pra mim é gostoso saber que tem alguém que está escutando a gente e que, talvez, quem sabe, nossos sonhos podem ser realizados, né? Quem sabe? Se alguém escutar. Nossa, aí eu vou ser a pessoa mais feliz do mundo, se eu tivesse alguém que patrocinasse nossos livros e uma editora que fizesse nossos livros pra gente dar pra todas as crianças que a gente encontrasse.

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