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História

Contadora de histórias

História de: Mafuane Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/01/2020

Sinopse

Mafuane é um nome africano, ela sempre teve o ouvido aberto e ligado na sabedoria da avó, passou por telemarketing onde tinha que contar história todo dia pra vender produtos, mas foi com incentivo à leitura que se tornou uma contadora de histórias profissional, se aprofundou no tema, montou “O Chavoeiro” uma companhia de contação, e foi até São Tomé do Príncipe para narrar e ouvir. Sua história é uma reflexão sobre a modernidade e o papel dos contadores e contadoras hoje.

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Eu perguntei pra ela: “Vó, e da guerra, o que as pessoas falavam? Você tinha medo da guerra, da Segunda Guerra?”. Ela: “Guerra? Que guerra? A gente tinha medo, mesmo, era de Lampião, mas ele passou na minha cidade e não mexeu com ninguém, não”.

Então, essas histórias também do vô Francisco são coisas que me encantam, na verdade, por essa memória também, que é de dor, que a minha mãe fala que meu avô, mesmo trabalhando na roça, lá no interior da Bahia e tudo, nunca ficou, nunca, em nenhum momento, sem camisa na frente dos filhos, né? E ela, olhando pelas frestas de porta e tudo, via que ele tinha marcas, né, nas costas. Marcas muito feias, assim, nas costas, né, provavelmente de chicotada e que às vezes ele conversava com a minha avó e ele chorava, mas essas histórias eram histórias que não eram pra ser contadas. E, quando perguntavam coisas para minha avó, ela falava: “Isso é coisa que já passou”. Então, são histórias que a gente sabe que permeiam ali o seio da família, mas da série “Das coisas que não falamos”, né? Minha avó nunca quis contar essas coisas, nunca gostou de contar e meu avô também não gostava de tocar nesse assunto. Era uma coisa ali, deles, né, mas a minha mãe sabe que, em algum momento, não sabe o motivo, mas, enfim, que ele sofreu castigos físicos e que ele tinha essas marcas nas costas, que são marcas pessoais, que dizem respeito à nossa micro história familiar, mas que dizem muito, né, da macro história, do que é esse país. Escravidão. Eu lembro que tinha uma história que a minha vó, essa paterna, também teve muitos filhos, mas muitos abortos. Então, ela teve 16 partos, dos quais vingaram cinco crianças, mas entre esses 16 partos, a minha vó, que é mineira, um lugar que não tem mar, mas ela teve uma estrela do mar. Ela deu à luz uma estrela do mar. Uma tia conta

Então, tem essas histórias aí, que vão permeando a família. E, na casa desses meus avós, além das outras histórias ali que eles contavam entre eles, meus avós contavam muitas histórias um para o outro, assim, muito causo, né? Mas tinha muita coisa de lobisomem, assim, e eu lembro que eu ficava com bastante medo porque esse meu vô, por exemplo, tinha um irmão que tinha virado lobisomem. Então, são coisas que eu tenho contato desde pequena, né?

Você começa como? Começa começando. E quando eu comecei a contar as histórias, eu vi que isso, de fato, tinha um poder muito grande, que eu comecei a narrar em uma biblioteca, em um projeto de mediação de leitura, então tinha que fazer a mediação, ali, de leitura e uma das minhas funções, pelo menos uma vez por mês, eu tinha que trabalhar a oralidade com as crianças e trabalhar uma narração de histórias e eu não era uma contadora de histórias, né, até então.

A gente tinha uma prática que era pra narrar uma história, assim, no final do curso, meio que dividido e também foi o presente que ela me deu, que ela me deu uma versão de uma história que se chamava As Comadres, mas de um livro que chama Cinderela Baiana e que tinha justamente, as marcas de oralidade, assim e essa história foi muito emocionante pra mim porque era um resultado de uma pesquisa e então tinha a transcrição e então, ao ler essa história, eu conseguia ouvir muito do tom ali, da minha vó, das minhas tias, né, aquele tom, aquela baianidade ali e me remeteu a essa história que a minha vó já contou pra mim em um desses momentos, assim, dessas cantigas e dela falando que ela também pescava com a mão e que tinha esse peixe, que era um peixe encantado.

 A minha avó nunca chamou de Gata Borralheira, nada, mas tinha um peixe mágico, mas eu acredito que são coisas que circulavam ali, porque as histórias são isso: elas vão pegando nacionalidade, vão pegando territórios e falários por onde ela vai passando e quem vai contando também vai se apropriando, mas achei curioso, né, de ser um conto popular, uma versão de Gata Borralheira, justamente, no interior da Bahia e com um pouco do arquétipo que minha avó, ali, narrava pra mim.

(…)

E nós duas éramos as convidadas, enfim, de São Paulo, só que eu era brasileira e me chamava Mafuane e ela era Kate Kely e era africana. E as pessoas achavam que era o inverso, né? E aí, quando ela foi ouvir, enfim, minha palestra e tudo, ela ficou muito encantada e falou assim: “Nossa, você contando as histórias me fez lembrar da minha avó, né?”. Eu sempre, também, tive esse idealismo que às vezes a gente tem, da questão de inventar uma África mítica, onde todo mundo está na oralidade, que as pessoas estão nessa até hoje e que estão ali em volta das aldeias e um romance, assim, também. Então, é verdade que a tradição oral é algo extremamente forte, que estrutura toda a cultura afro-brasileira e várias culturas, né, africanas, mas a gente tinha essa coisa de deixar meio que homogêneo, assim, né? E aí ela falou pra mim: “Isso me fez lembrar muito da minha vó”. E eu a levei ali pra outro lugar e eu vi uma emoção dela me ouvir contando as histórias e depois eu falando um pouco do meu trabalho, quando ela pensou que esse trabalho acontecia na escola. E aí ela falou pra mim: “Eu gostaria que você contasse essas histórias, né, no meu país” e eu falei: “Nossa, mas eu queria muito, né, poder contar”.

 

Você começou me perguntando da minha árvore genealógica e aí eu consigo falar até certo ponto, até porque tem essas fragmentações históricas. Mas você chega em várias comunidades africanas e a pessoa consegue falar até o seu centésimo ancestral e é uma coisa que a gente não consegue. Isso é cultural. As pessoas têm tecnologias, são ensinadas, né, a saber e a carregar as suas histórias. Enquanto a gente, de alguma maneira, vem terceirizando, né, nossa memória.

 

Eles estavam com um projeto que chamava “Aos Pés da Fogueira Acesa” onde eles iam até as comunidades mais orais pra ouvir as histórias e aí o menino falava assim... Quando a gente começou a fazer eu queria fazer, de repente, em um domingo à tarde, eu queria poder ir mais cedo e aí o mais velho falou pra ele: “Não, mas não se conta história de dia, só se conta história depois que o sol se põe. Então, a gente acende a fogueira”. E ele só ia contar se fosse de noite. Então, por isso que o nome do projeto era esse, assim, mas nos interiores, inclusive, você encontra várias pessoas que não falam nem português. Então, eu tive a oportunidade de conhecer algumas senhoras, assim, que contavam histórias também em changana. E aí eu estava ali com um tradutor, me falando um pouco dessas histórias. Mas é que eu acho que, na verdade, a gente se encanta muito e acaba tendo um olhar meio que de fetiche, né, às vezes, para essas culturas, porque a gente perdeu isso, né? E aí, pra eles, era bem estranho, assim: “Como assim você é uma contadora de histórias e isso pode ser, de repente, uma profissão?”. Porque é natural do ser humano e das pessoas contarem histórias e partilharem, né? Então, a gente perdeu essa naturalidade, a ponto da gente ter um movimento meio que de profissionalização. E aí tem os horários e os lugares onde a gente conta a história. Então tem a roda de contos em tal centro cultural todo sábado à tarde, todo domingo de manhã, mas a gente, em casa, conta pouco, a gente tem os novos contadores de história: o Youtube, o Netflix.

 

Eu posso falar de Alzheimer sem falar na palavra Alzheimer, né? Só falando de uma vó que, de repente, esquecia das coisas. Eu posso falar pra você de uma angústia, de uma frustração tremenda, de não saber qual que é o meu lugar no mundo e o que eu vou fazer da minha vida sem falar de todas as minhas profissões, mas simplesmente contado a história da contadora de histórias, né? Então, ainda que seja afrodescendente brasileira, eu posso recorrer à cultura judaica para contar a minha própria história de vida, né? Porque a história da contadora de histórias é, na verdade, a minha história.


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