Busca avançada



Criar

História

Construo a vida e vejo crescer o Morro

História de: Luiz Carlos Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/04/2002

Sinopse

Infância em Cordeiro. Mudança e rotina com a mãe. Transformações estruturais da comunidade. Chegada da luz e da água. Festas típicas. Lembranças do passado no Morro dos Prazeres.

Tags

História completa

P/1 - Boa tarde, senhor Luiz Carlos. Eu gostaria que o senhor me desse o seu nome completo, a sua data e local de nascimento, por favor.

 

R - Meu nome é Luiz; Luiz Carlos Teixeira.

 

P/1 - Sua data de nascimento?

 

R - 2 de fevereiro de 1937.

 

P/1 - Em que cidade que o senhor nasceu?

 

R - Nasci no estado do Rio de Janeiro, em Cordeiro.

 

P/1 - E os seus pais? Os nomes deles e a origem deles, por favor?

 

R - Meu pai era Camilo Teixeira, de Feira de Santana. Minha mãe de (Santa Rita?), do estado do Rio.

 

P/1 - O senhor conheceu seus avós, lembra dos avós?

 

R - Não, meus avós nunca vi. 

 

P/1 - Não?

 

R - Quando eu nasci, meus avós já não existiam mais.

 

P/1 - Não? E em Cordeiro, a cidade que o senhor nasceu, a sua família morava onde, trabalhava para que?

 

R - Era lavradora.

 

P/1 - Vocês plantavam o que nessa época?

 

R - É... Milho, arroz, coisa normal. 

 

P/1 - E... O senhor lembra um pouquinho da sua infância em Cordeiro?

 

R - Ah, lembro... Ah, leiteiro, candeeiro de boi.

 

P/1 - Ah, candeeiro de boi? Ah... Conta um pouquinho, como é que era isso?

 

R - A gente ia guiando o boi. De manhã, a gente levantava cedinho, ia juntar gado, ia tirar leite lá do curral, depois ia levar na cooperativa.

 

P/1 - Hum, hum... Vocês trabalhavam para outras... Para famílias que eram proprietárias de gado?

 

R - É... Fazendeiro, né? 

 

P/1 - Fazendeiro?

 

R - Sebastião (Hertal?).

 

P/1 - O nome dele era Sebastião?

 

R - (Hertal?).

 

P/1 - (Hertal?)? Hum, hum... Vocês também tinham gado? Um pouquinho em casa?

 

R - Não, a gente não tinha gado nenhum não!

 

P/1 - Não? Nem para tirar o leite?

 

R - Tirar leite, a gente tirava lá para o fazendeiro.

 

P/1 - E tinha tempo para brincar?

 

R - Ah, tinha!

 

P/1 - Do que vocês brincavam nessa época, seu Luiz Carlos?

 

R - De (tirrim?).

 

P/1 - De que?

 

R - (Tirrim?).

 

P/1- O que é isso?

 

R - É correr, colava no outro alí, o outro tinha que ficar parado lá.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É... (Dadinho?), andar a cavalo, montar cavalo em pêlo, um apostar com o outro quem ia chegar primeiro. É, cavalo em pêlo!   

 

P/1 - Poxa! 

 

R - Só com cipó na boca do cavalo. Aquele cipó! Não é cabresto não, é cipó mesmo.

 

P/1 - Caramba! Não era fácil!

 

R - Não. __________ já tinha costume, né? 

 

P/1 - O senhor, a sua família... O senhor veio para o Morro dos Prazeres em que ano? O senhor lembra?

 

R - É de 1946.

 

P/1 - Que motivo? O que trouxe o senhor para cá e por que o senhor veio para o Rio de Janeiro?

 

R - Ah, minha mãe é que trouxe. Minha mãe veio para trabalhar aqui no Rio. Aí, eu fiquei lá na roça, lá no fazendeiro, na fazenda. Depois eu... De lá para cá... Aliás, primeiro eu morei em Niterói, lá no Morro da Boa Vista; depois, logo do Morro da Boa Vista, minha mãe mandou me chamar para cá.

 

P/1 - A sua mãe já vivia aqui no Morro dos Prazeres?

 

R - Já.

 

P/1 - E você saberia dizer por que o Morro dos Prazeres? Ela já tinha conhecidos que moravam aqui?

 

R - Não, quando ela chegou aqui quase não tinha nada; só tinha boi, cavalo...

 

P/1 - Aqui?

 

R - Burro e... Era uma mata aberta, embaixo não tinha nada não, minha filha. Só tinha aquele castelinho ali, que era da falecida Dinah.

 

P/1 - O casarão?

 

R - É, no casarão mesmo, ela morava ali.

 

P/1 - Quem era ela?

 

R - Ela era dona... Era uma doutora que tinha.

 

P/1 - O nome dela era Dinah?

 

R - É, Dinah.

 

P/1 - Ela morava sozinha ali, o senhor lembra?

 

R - Não, ela tinha filhos. Depois, aqui em cima, onde está o... Está ali a sede ali, né? Ali ela fez depois um... Ali fez...Mandou fazer um barracão grande, coberto com aqueles bancos... Para ensinar a gente a ler.

 

P/1 - No próprio casarão?

 

R - Não, cá, onde é o... Ali onde é o _________...

 

P/1 - Onde é a associação de moradores, ali?

 

R - Não, cá.

 

P/1 - A creche?

 

R - Não, é na... Na sede, ali, onde dança.

 

P/1 - A quadra, a quadra. Ali?

 

R - É, na quadra. 

 

P/1 - Sei! E ali serviu como escola?

 

R - Serviu.

 

P/1 - É? 

 

R - Há muitos anos atrás. Tem 50, 50 e poucos anos.

 

P/1 - Mas o senhor então veio para cá criança, né?

 

R - Vim. Eu vim com 14 anos.

 

P/1 - 14 anos, né? O que é que vocês faziam, como brincavam? Quem era a vizinhança, seu Luiz?

 

R - A vizinhança era muito difícil. Depois é que veio chegando gente, começou a morar, aquele negócio. As casas eram muito longe, tinha uma lá em cima, outra lá embaixo.

 

P/1 - Mas você... 

 

R - Mas era muito longe; tinha umas casas lá em cima, outras lá embaixo.

 

P/1 - Ah, é? As distâncias eram grandes entre as casas?

 

R - É, é, era.

 

P/1 - Quem morava na sua casa?

 

R - Na minha casa?

 

R - É.

 

P/1 - Éramos só eu e mamãe.

 

P/1 - Ah! Não tinha mais irmãos? 

 

R - Não, meus irmãos vieram depois. Depois eles morreram “tudo”. Só ficou eu.

 

P/1 - O senhor é o filho mais novo?

 

R - É, eu sou o caçula.

 

P/1 - E a sua mãe trabalhava fora, como é que era?

 

R - Trabalhava na madame ali, embaixo, no 730, ali na Rua Almirante Alexandrino. É antigo 730, né? 

 

P/1 - Mas ela vinha para casa todo o dia?

 

R - Vinha.

 

P/1 - E como é que era a casa de vocês? O senhor lembra?

 

R - Eh, um barraquinho velho que tinha aí mesmo. Meia água... Às vezes, quando chovia... Pega uma cama que a gente tinha assim, né? ________  um guarda-chuva velho para lá. Ela dormia para lá e eu dormia para cá. Pingava tudo quando estava chovendo.

 

P/1 - É?

 

R - Sim, senhora.

 

P/1 - Como é que ela cozinhava? Cozinhava como?

 

R - É com lenha. Com lenha.

 

P/1 - E para descer, assim, não tinha nada dessas escadas de hoje, não tinha nada?

 

R - Não, não, era lama mesmo. E para subir, subir com um embrulho de compra... Que  antigamente não tinha essas bolsas aí, né? Agora que tem, de uns anos para trás que surgiu essas bolsas de supermercado, mas era embrulho. Não tinha nem supermercado ainda. Só tinha era... Só armazém, quitanda. 

 

P/1 - Onde que vocês faziam  as compras, hein?

 

R - Ali no buraco, ali na Lapa, ali na Rua da Carioca.

 

P/1 - Os embrulhos eram aqueles com barbantes, né?

 

P/1 - É, é, de embira.

 

P/1 - Embira?

 

R - Amarrava o embrulho com embira.

 

P/1 - E o senhor trabalhava também, frequentava a escola, como é que era?

 

R - É, às vezes, eu ____ na feira. Ajudava.

 

P/1 - Qual a feira que o senhor... 

 

R - Feira de Laranjeiras, Botafogo, Largo do Machado, ali. É, Laranjeiras, lá no Machado. 

 

P/1 - E, assim, tinha outras crianças nessa época, vocês brincavam, jogavam futebol? Como é que era?

 

R - Jogava bola. Tinha um campo ali em cima. Ainda tem até hoje. 

 

P/1 - Já tinha o campo?

 

R - Já tinha. A gente abriu mais um pouco o campo. O campo não era ali, era mais embaixo.

 

P/1 - Aí vocês jogavam futebol ali?

 

R - É, a gente jogava ali.

 

P/1 - E os outros moradores, o senhor lembra de onde é que eles vinham, de que cidade que eles eram?

 

R - Ah, tinha mineiro, tinha paraibano, baiano, tinha que misturar tudo.

 

P/1 - E a escola? O senhor chegou a frequentar a escola aqui?

 

R - Eu estudei um pouco aqui na Escola Municipal Julia Lopes de Almeida.

 

P/1 - O senhor estudou?

 

R - Ali, à noite. Porque de dia não dava, tinha que trabalhar. _______ à noite.

 

P/1 - E essa casa do senhor e da sua mãe era onde?

 

R - Aqui mesmo.

 

P/1 - Aqui?

 

R - É.

 

P/1 - Ah... 

 

R - Nunca mudei daqui não senhora.

 

P/1 - É? 

 

R - Desde que eu vim da roça, moro aqui até hoje. Graças a Deus por isso.

 

P/1 - Graças a Deus! O senhor, então, permaneceu na casa... 

 

R - Aqui mesmo. A minha mãe faleceu, né? E eu fiquei aqui mesmo.

 

P/1 - A casa é grande, a casa é boa?

 

R - Agora, né? Era um barraquinho pequenininho. O zinco tudo velho, tudo furado.

 

P/1 - Aí o senhor foi fazendo melhorias na sua casa?

 

R - É.

 

P/1 - O senhor foi fazendo melhorias.

 

R - Eu trabalhei... Eu comecei trabalhar... Trabalhei ________, depois trabalhei na _______, J. Costa e mais... Manoel (Ribeiro?) do Nascimento, que era uma companhia, que era uma empreiteira.  _______ IV Centenário, aí. Eu pegava de 6:00 às 22:00. ______ marteleiro, ______ era moleiro. 

 

P/1 - O senhor trabalhava em construção civil?

 

R - É, sim senhora. Foi dali, foi indo, foi indo, foi indo, as vagas ali deram... Prefeitura, né? É coisa da Prefeitura. Passou para _______________. _______ e ________. Aliás, era ______, antigamente. Aí passei para ____________, depois veio para ________, do civil passou para a __________.

 

P/1 - E o senhor se aposentou com quantos anos?

 

R - 35 anos.

 

P/1 - De serviço. E seus filhos nasceram aqui?

 

R - Tudo aqui mesmo.

 

P/1 - Na comunidade?

 

R - É.

 

P/1 - E sobre o bairro de Santa Teresa, o senhor se lembra um pouco do bairro, como é que... Vocês frequentavam algum outro lugar do bairro assim para lazer, assim frequentava algum... Tinha baile, como é que era?

 

R - Era algum baile por aí. Tinha algum que era bom, tinha outro que não era bom. Nossa condução só era bonde mesmo. Depois que mudou, né? Era só bonde. O bonde vinha do Largo da Carioca para o Caminho do Silvestre.

 

P/1 - Carioca era o tabuleiro da baiana, não era?

 

R - Era.

 

P/1 - Mudou muito ali. Tinha o Morro de Santo Antônio.

 

R - É tinha, tinha. Tinha a pontinha ali, que ainda está até hoje, né? 

 

P/1 - Qual?

 

R - A pontinha é a ponte.

 

P/1 - Ah, é, sem dúvida! 

 

R - Para poder a senhora descer daqui para lá, né? A senhora vai para lá... bagunça, é bagunça para a senhora... Mas lá o pessoal (salva lá?) . Até no sinal, do lado de cá da ponte, né? Desce ali no _____ para sair lá embaixo na Lapa. Sempre foi assim. 

 

P/1 - E quando vocês desciam só era o bonde? O único transporte que tinha para...

 

R - É,  só o bonde.

 

P/1 - E aqui, em termos de comunidade, cresceu muito, né? 

 

R - Cresceu. Graças a Deus que aqui cresceu um bocado. Quem vê isso aqui, agora é uma cidade. Não era assim não. Isso aqui era horrível.

 

P/1 - Por que?

 

R - Era assim cheio de mato. Os caminhos assim, feito assim... Quando chovia, a senhora para passar o rio tinha que se enfiar numa mata de capim. Para passar o rio no passado. 

 

P/1 - O senhor mora bem alto, né? 

 

R - É.

 

P/1 - Caramba! O senhor conseguiria me dizer, mais ou menos, quando o senhor veio para cá, qual era o número das pessoas, quantas casas mais ou menos tinha? O senhor tem uma noção?

 

R - Mas quando eu vim para cá se tivesse dez casas era muito. 

 

P/1 - É mesmo, senhor Luiz? Aqui em cima no Morro dos Prazeres?

 

R - É. 

 

P/1 - O senhor veio para cá em que ano, que o senhor falou? O senhor chegou aqui...

 

R - 1946.

 

P/1 - 1946 aqui. E a sua mãe já estava aqui?

 

R - Já estava. Ela veio na minha frente. Ela veio trabalhar na casa da madame. Eu fiquei lá na roça, né?

 

P/1 - Aí o senhor veio em 1946 ao encontro da sua mãe?

 

R - Não. Depois ela mandou me chamar. Já era em 1946.

 

P/1 - E em relação às melhorias, água, luz... Não tinha nada disso, né? 

 

R - Não tinha não. Isso aí deu até morte. 

 

P/1 - É? 

 

R - Por causa de luz, água. Teve nêgo que morreu aí a troco de nada. A fim de levantar a comunidade, “nêgo” com inveja...  ______________, parada do outro, matava os outros ____.

 

P/1 - Mas vocês se juntavam para a instalação da água?

 

R - Era em conjunto. Era em conjunto.

 

P/1 - O senhor participava?

 

R - Participava. Era meu direito, né? Se eu moro aqui na comunidade, eu tenho que participar, né? Às vezes, de domingo, eu estava em casa, "Seu Luiz, ____ vamos lá para ajudar?". Espalhei cano pelo morro afora.

 

P/1 - Espalhava cana?

 

R - Cano.

 

P/1 - Cano?

 

R - Cano d'água. Esses canos de ferro que tinham antigamente.

 

P/1 - Ah, era como se fosse um mutirão, né? Todo mundo ajudava um pouco.

 

R- É, era um mutirão. É, sim senhora.

 

P/1 - Isso antes da...

 

R - Um limpando, outro roçando, capinando. A gente ia fazendo assim.

 

P/1 - E isso é antes da fundação da Associação de Moradores, né?

 

R - Bem antes da fundação.

 

P/1 - E luz? Como é que era luz?

 

R - A luz... A gente botava um relógio lá embaixo, né? Época que podia lotar; espalhava luz para a gente, cobrava a gente para instalar luz... Uma luz ruim. 

 

P/1 - É?

 

R - Quase nem o rádio tocava. 

 

P/1 - Vocês tinham rádio em casa?

 

R - Ah, tinha. De vez em quando tinha um radinho, que a gente dava uma olhada no lixo. Rádio, aquele rádio (quente?) que tinha antigamente. Você lembra aquele rádio (quente?), não?

 

P/1 - Não.

 

R - BC... Como é? ABC. Aquele rádio. Era aquilo!

 

P/1 - Mas aí, aqui, conseguia pegar o rádio?

 

R - Pegava, mas de repente, quando chegava umas altas horas, assim, vamos supor, 22:00, 23:00. já era.

 

P/1 - É? E em relação um pouco mais, senhor Luiz, ao casarão? O senhor viu o casarão lá embaixo. Como é que vocês se referiam àquela casa, como a chamavam?

 

R - Aquela casa a gente ia demolir, mas depois a Prefeitura... Dona Dinah morreu, os filhos também não se ligaram, né? Lá na casa. Morou muita gente lá.

 

P/1 - É?

 

R - Daí do morro, foram morar lá. Depois a Prefeitura veio, tirou todo mundo, aí reformou... O casarão.

 

P/1 - Mas antes disso foi ocupado? Depois da dona Dinah teve outro... Além de moradia, o senhor lembra de outras ocupações ali?

 

R - Não, foi morador mesmo. 

 

P/1 - É? 

 

R - É. 

 

P/1 - O senhor lembra de alguma família que ainda vive hoje aqui que ocupou ali? Não?

 

R - Não senhora, eles mudaram tudinho daqui. Sei lá, deram umas casas para eles lá para o estado do Rio e saíram daí. Até a Comlurb [Companhia Municipal de Limpeza Urbana - Prefeitura do Rio de Janeiro] veio fazer... Como é? Fazer a mudança deles, tirar eles dali. Tiraram todo mundo. 

 

P/1 - Me contaram que teve uma época que serviu não sei se foi como escola ou Posto de Saúde. O senhor lembra disto?

 

R - Não senhora.

 

P/1 - Não? 

 

R - Posto de Saúde, que eu conheço, só na Rua Áurea. 

 

P/1 - É?

 

R - É. Aqui em cima nunca não teve Posto de Saúde não. Não senhora.

 

P/1 - Como é que o senhor se referia... Quando o senhor chegou aqui, como é que vocês se referiam a esse lugar aqui? Já se chamava Morro dos Prazeres?

 

R - Já.

 

P/1 - Já se chamava? 

 

R - Já. 

 

P/1 - E aqui, o que a gente hoje chama de Escondidinho era a mesma comunidade? A gente poderia dizer isso?

 

R - Não, o morro era direto... Tinha o Escondidinho lá embaixo, né? Tem a Mina e tem aqui, a colina. 

 

P/1 - Tem o que?

 

R - Tem lá o Escondidinho. Mas, aí, pedia para ser separado. Veio a Mina... 

 

P/1 - A Mina?

 

R - É.  A Mina ali embaixo. Depois veio aqui a barreira. Depois da barreira, construiu a colina aqui em cima.

 

P/1 - A barreira é onde hoje é a quadra?

 

R - É. 

 

P/1 - E o que você chama de colina é esse topo aqui?

 

R - É onde a gente mora aqui em cima.

 

P/1 - Vocês moram aqui na colina?

 

R - É.

 

P/1 - Já se chamava... Nessa época, vocês já se referiam à Colina, já se falava?

 

R - Já, isso há muito tempo.

 

P/1 - Mais alguma lembrança que o senhor tem... Vocês faziam esse mutirão para fazer obras? Vocês também se reuniam para alguma festa, algum festejo?

 

R - Na época de São João. No finalzinho de junho assim.

 

P/1 - É? Como é que era essa festa de São João aqui?

 

R - Ah, ia lá para o mato, cortava aqueles bambus, fazia aquelas latadas.

 

P/1 - Fazia o que?

 

R - Latada.

 

P/1 - O que é latada?

 

R - Latada é aquele negócio de ________. É todo mundo dançar, brincar ali com aqueles papéis “tudo pendurado”.

 

P/1 - Fazia aqui em cima na Colina?

 

R - É, aqui lá embaixo.

 

P/1 - O senhor soltava balão, nessa época?

 

R - Eu nunca soltei balão não, que eu nunca gostei desse negócio não. Mas tinha muita gente que soltava.

 

P/1 - É? Aonde?

 

R - Ah, por aí. Pelo mundão mesmo.

 

P/1 - E carnaval, o senhor lembra? Tinha o bloco aqui?

 

R - Tinha um bloco aqui.

 

P/1 - O senhor participava?

 

R - Era até da... Eu participava, que era até da falecida Zilda. Era até aqui embaixo, aqui. Não tem uma quadrinha ali embaixo? Ela mora... Morava naquela casa de tijolo, que tem ali um negócio de espinho plantada assim na parede, né? Ela morava ali. _________ aquela de esquina. ___ tinha que esquentar se não, não tinha ação nenhuma.

 

P/1 - Como é que era isso? Como é que tinha que esquentar?

 

R - Era de couro. ________  de couro. Aquelas caixas grandes é de couro. Pregada com  tachinha aqui do lado, assim.

 

P/1 - Quer dizer, era couro, pregava com o que?

 

R - É, com tachinha.

 

P/1 - Com tachinha?

 

R - É. Segurar o couro, né? 

 

P/1 - E aí, o pessoal tinha que bater bastante para esquentar?

 

R - É, para esquentar. Não esquentava, ele batia, batia, aí ele ficava murcho. Depois tinha que esquentar de novo com jornal.

 

P/1 - Como é que era isso? Não estou entendendo. Como é que era?

 

R - Não é... Botava um bocado de óleo assim no chão, botava ele ali em cima, depois tirava virava ele assim, fazia assim, né? 

 

P/1 - Mas não esquentava com fogo, não?

 

R - É com fogo.

 

P/1 - Ah, esquentava com fogo?

 

R - É, com fogo. Ficava fininho, batia assim, aí todo mundo ia embora brincar. 

 

P/1 - Você participou?

 

R - Participei.

 

P/1 - E como é que era? Vocês se reuniam aqui em cima e depois saía?

 

R - A gente e os nossos blocos aí. 

 

P/1 - E iam para onde?

 

R - A gente ia lá para a cidade. A gente descia daqui. Tinha o Bloco do Sujo... De manhã, antigamente. Era _______ normal, (não tinha dinheiro?), o caramba. ____ subir lá de bonde. Aqueles palhaços; vestia de palhaço, botava aquele chapéu assim, _____ só.... Botava dinheiro [risos]...

 

P/1 - No chapéu?

 

R - É. 

 

P/1 - Vocês fantasiados?

 

R - É, todo mundo. Um vestido de mulher... Mas é aquilo mesmo.

 

P/1 - E isso era de manhã, e de tarde, à noite?

 

R - _____ saía o bloco certo.

 

P/1 - Saiam daqui de cima do morro?

 

R - É, sim senhora. Todo mundo fantasiado.

 

P/1 - É? Era boa a festa?

 

R - Era sim senhora. Era melhor do que agora.

 

P/1 - É?

 

R -  Antigamente, a senhora ia na Carioca ali, _____________ ali perto da igreja, a gente ficava deitado lá à vontade, era com seu (Elói?), seu (Falcão?). A gente apontava: "Ih, olha lá aquele cara? Tá bêbado!". Passava em frente, ia embora, não roubava a senhora não. E quem tentasse pegar alguma coisa apanhava.

 

P/! - É?

 

R - É sim senhora. 

 

P/1 - É outra época, né?

 

R - Foi tempo bom. Brincadeira minha. 

 

P/1 - Quer dizer, eram boas... (problema na fita). Então, eh... Outra coisa... Em relação... O senhor lembra do período em que o casarão foi ocupado por padres? Disseram que...

 

R - Padres? 

 

P/1 - Padres. Que, às vezes, tinha a missa ali no casarão. O senhor lembra disso?

 

R - Foi antes de eu chegar aqui.

 

P/1 - É? 

 

R - Foi antes. Que tinha Padre, mas era lá na Lagoinha. Ali que tinha seminário, né?

 

P/1 - Ah, é? 

 

R - De Padre, ali na Lagoinha.

 

P/1 - Aqui o senhor não lembra, no casarão?

 

R - Não, aqui nunca, nunca teve nada. Morava ali a dona Dinah. Era uma família.

 

P/1 - Sei.

 

R - Era uma família que morava ali.

 

P/1 - E ali tinha frutas? Aqui no Morro tinha frutas, vocês pegavam?

 

R - Tinha. Tinha fruta, mas aqui na mangueira. É jaca, era laranja. Como é que... Tangerina. Tinha tudo ________. 

 

P/1 - É? 

 

R - E tinha lá embaixo na linha também; lá debaixo. 

 

P/1 - Vocês plantavam alguma coisa aqui?

 

R - Plantava, mas a gente olhava ela já estava... Já estava criada, não vai plantar nada, né?

 

P/1 - Plantar aonde? Onde é que tinha, que o senhor falou?

 

R - Tinha um monte. Tinha aqui, na mangueira aí, tinha lá no (esquadro?), junto ali onde era o seminário.  

 

P/1 - Sei. 

 

R - Era jaca, era banana, mamão. Tinha de tudo. Taioba. Tinha de tudo. A senhora sabe o que é taioba?

 

P/1 - Taioba é como se fosse um aipim, né?

 

R - Não senhora, é uma folha.

 

P/1 - Taioba é uma folhinha assim meio...

 

R - É tipo inhame, folha de inhame.

 

P/1 - Folha de inhame, exatamente. Não é uma raiz, é só a folha?

 

R - É. Não, tem a raiz!

 

P/1 - Tem até a raiz, é. Eu pensei que taioba também fosse um tipo de um aipim. Um aipim, uma mandioca. 

 

R - Não, aipim é diferente.

 

P/1 - Ah, é? 

 

R - É. 

 

P/1 - Ah, tinha isso ali também, vocês podiam pegar? 

 

R - Ah, ______ do inhame também é diferente. 

 

P/1 - Tá bom! Mais alguma lembranças o senhor tem aqui? 

 

R - A lembrança que eu tenho aqui é que uma vez eu fui pegar um... Eu cheguei da feira, mais ou menos umas 13:00 aqui, assim mesmo. Minha mãe falou: "Luiz, não tem lenha para fazer a comida, não". Eu peguei uma foice e um facão, uma corda que eu tinha para amarrar o feixe de lenha, né? Cortava a lenha assim, lá embaixo. Depois cheguei ali perto daquele ____ ali, que eu fiz assim, saiu um rolo de cobra desse tamanho. Daqui a grossura. Na hora que eu vi, disse: "Me guarda, minha Nossa Senhora da Aparecida" e voltei voando. Nesse último bloco de prédio. Isso eu me lembro. 

 

P/1 - Quer dizer, tal era a mata que tinha cobra.

 

R - É, justamente. Tinha, mas ainda tem ainda.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Tem!

 

P/1 - Quer dizer que... Quer dizer, o senhor já mora aqui há mais de 50 anos, né?

 

R - Mais ou menos.

 

P/1 - Mudou muito aqui, né? 

 

R - Mudou. Agora aqui é uma cidade. Em vista do que era, é uma cidade. Porque tem um morro aí que não está igual ao nosso não. Olha ali para o Querosene ali. Aquele que é  cheio de árvore lá. Vai lá para a senhora ver. Não está igual aqui não. E o morro mais velho que tinha era lá, o Querosene.

 

P/1 - O que é que tinha ali, muita mata?

 

R - Ainda tem.

 

P/1 - E aqui já se perdeu muito dessa mata que tinha?

 

R - Ah, tinha. Cortaram tudo. A comunidade, né? Foi chegando, muitos vinham não sei lá donde, lá da roça ia cortando árvore, ia cortando tudo. Ali aonde é a quadra, aquilo ali era tipo uma selva. Tinha o cipó, brincava ali com o cipó, imitando Tarzan. 

 

P/1 - Ali?

 

R - A gente ia lá embaixo e voltava. 

 

P/1 - Onde é a quadra hoje?

 

R - É. E pulava de um galho para o outro. Aqui na mangueira também “nêgo” pulava. Nós íamos pegar manga, moleque: "Eu vou imitar um macaco". Pulava de um galho para outro. Pulava mesmo e segurava no outro; pulava para o outro, imitando Tarzan. Quando chegava lá embaixo, no Rio, ia ver aquele filme, lá no Largo da Carioca. A gente ia ver filme do Tarzan, aquele negócio. As crianças aprendem. 

 

P/1 - Quer dizer foi boa esse...

 

R - Foi.

 

P/1 - Essa infância e juventude aqui?

 

R - É.

 

P/1 - Tá bom. Então, eu vou agradecer o seu depoimento. Muito obrigada. O que o senhor achou de ter dado a sua memória sobre... 

 

R - Não, tudo bem, tudo bem.

 

P/1 - Sobre a Comunidade Morro dos Prazeres?

 

R - É, tudo bem.

 

P/1 - Tá bom. Muito obrigada, então.

 

R - Quero morrer aqui mesmo, não quero mudar daqui não. Tem “nêgo” que sai daqui, muda, vai não sei para onde, volta de novo, aí se arrepende. Sai, se arrepende, volta de novo e quando viu não tem casa para comprar. Querem mudar daí, oh, lá para a Lapa. Um sai daí e vai para Caxias, ______, sei lá, Niterói, São Gonçalo. Não, não quero mudar daqui não.

 

P/1 - Você gosta daqui?

 

R - Eu gosto, sempre gostei daqui. Eu vim da roça direto para cá. Graças a Deus por isso. 

 

P/1 - Tá bom. Muito obrigada, então, seu Luiz.

 

R - De nada, senhora.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+