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História de: Ivana Barradas Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/02/2021

Sinopse

A grande influência familiar em sua vida. A infância em uma casa em Vicente de Carvalho. O período escolar e o técnico em Química. Ingresso na UERJ e o período como monitora. A contratação na White Martins como estagiária, o período de recessão econômica e sua recontratação. Participação em novos projetos de uso de gases especiais. As visitas a projetos no exterior. Os investimentos ao projeto de mergulho. A infraestrutura da White Martins e relações de trabalho. A criação do filho.

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História completa

P/1 – Ivana, para a gente começar, por favor, seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Correto. Ivana Barradas Figueiredo. Nascida no Rio de Janeiro em 21 de julho de 1964.

 

P/1 – Nome dos seus pais?

 

R – Meus pais? Minha mãe Silvia Ribeiro Barradas e Ivamer Gomes Barradas. É um nome diferente acho que vocês não conhecem, Ivamer!

 

P/1 – E seus avós?

 

P/1 – Meus avós no caso Eulália, e Argentina, e Joaquim e Sebastião por parte de pai e mãe. Não tive contato com eles, todos os quatro com exceção do meu avô materno, foi o único que tive oportunidade de conhecer e muito pequena, então eu não tive tanto convívio infelizmente com eles.

 

P/1 – Tudo bem. Conta um pouquinho então dessa história desses Barradas, a história da sua família para a gente. 

 

R – O meu pai, é filho de militar, é mineiro e eu acho que isso faz com que eu tenha algumas características dele, essa questão de não perder a hora e vocês viram aqui hoje, cheguei bem mais cedo. Eu sempre brinco, ah, mineiro não perde o trem, que a turma fala. Então eu tenho essa questão de alguns valores bem de hierarquia, de disciplina, que são do meu pai, que tem uma admiração enorme pelo meu avô, que serviu na Segunda Guerra, e que foi condecorado na Segunda Guerra. Meu pai não seguiu a carreira militar, mas foi trabalhar na área química, então foi um dos pioneiros na Petrobras, na Refinaria Duque de Caxias. Ele praticamente começou com a Reduc e se aposentou pela Reduc e muito dos valores que o meu pai tem profissionalmente eu acho que eu também sigo. Uma relação muito forte com a empresa, uma dedicação, um comprometimento, um sentir a empresa como uma extensão da sua tua família. Isso é o que eu sinto desde que eu entrei na White Martins. Então a minha relação com meu pai é muito forte nesse aspecto. Já a minha mãe não trabalhou. Ela preferiu, apesar de ter o secretariado na época, mas ela preferiu abdicar da vida profissional em função da família. Então ela após ter o primeiro filho, ela parou de trabalhar, teve três filhos, e com isso ficou difícil e na época não era tão fácil coordenar família e esses compromissos profissionais, nesse sentido, eu tive uma presença muito forte da minha mãe em casa, como uma presença sempre constante e sempre nos apoiando e tudo. Mas por outro lado fez com que eu tivesse um olhar de eu não querer isso para mim. É interessante, porque apesar de eu admirar muito a minha mãe, eu sempre olhei. Ela vinha com algumas sugestões de vida profissional e de alguns acertos que seriam cômodos para uma mulher e eu sempre fui muito contrária a isso. Eu sempre falei “Não, eu não quero ser professora, mãe. Não, eu não quero trabalhar no Banco do Brasil. Eu não quero isso para mim.” (risos). Aí ela falava: “Não, mas o que você quer?”, mas aí ela me deixava livre. E eu acabei influenciada pelo meu pai de trabalhar numa refinaria, de trabalhar num laboratório. Acabei seguindo a química. Não que isso fosse forte em mim, por exemplo, meu marido também é engenheiro químico, eu o conheci na Universidade, mas eu sei que o meu marido trabalhava com laboratório químico desde criança, eu não era assim. O meu foi foram os fatos que foram se fazendo com que eu, primeiro pela admiração que eu tinha pelo meu pai, pela dedicação que ele tinha, pelo que trazia de experiência do trabalho dele no dia a dia de um laboratório. E como eu também não tinha assim despertado para nada muito forte “ai eu vou ser médica, a minha irmã foi seguir médica”. Ou “eu vou para a área humanas”, que eu não tinha nenhuma afinidade, até por timidez, não me despertava para nenhuma dessas áreas, veio a questão da admiração. E acabou que houve um interesse pela Química. Então daí que veio esse interesse e o despertar de conduzir a minha vida profissional buscando primeiro o entendimento do que era a Química. E depois quando eu vi que o químico ficaria muito ligado a um laboratório, a uma questão talvez um pouco mais fechado e por eu já também ter algumas características que fazem com que eu seja mais reservada, mas também não era bem um laboratório que eu queria trabalhar, eu preferia exercer uma engenharia, gosto de entender como as coisas funcionam. Eu gosto de projetos. Queria entender o que eu gostaria de ser, e brigar um pouquinho com as suas características, porque pela timidez talvez fosse mais interessante trabalhar num laboratório, mas eu falei “Não é isso, essa rotina de dia a dia, fazer as mesmas análises, seguir os mesmos padrões, não é isso que eu gostaria da minha vida, não”. Eu tenho assim como despertar, na infância, eu sempre gostei muito de viajar . Eu sempre gostei muito de fazer passeios com a minha família. Meu pai como ele trabalhava em turnos, em refinaria, ele não tinha horário administrativo, era muito difícil conciliar finais de semana com as nossas horários também. O que acontecia? Ter o meu pai em casa no final de semana não era tão comum como para outros amigos meus, então, eu valorizava muito quando meu pai estava final de semana e quando nós podíamos ir à praia ou fazer passeios ou viajar. Foi interessante que essa questão da viagem aparecia para mim na vida profissional. Eu falava assim “Eu quero ter alguma coisa que eu possa viajar!”, vinha aquela imagem um pouco do executivo, das viagens, sei lá, daquela coisa interessante. Isso lá atrás. Não era muito, como é que eu posso dizer, racional não. Era uma coisa que vinha como uma imagem do que eu me imaginasse “o que você quer ser profissionalmente?”. Eu me imaginava tendo que viajar, conhecer pessoas, representar a empresa que você trabalhasse. E de certa forma isso acabou acontecendo na minha vida, sem um planejamento muito forte, mas veio acontecendo.

 

P/1 – Só para a gente voltar um pouquinho, você falou de praia, de viagem, mas também que seus pais eram mineiros para a gente entender e pontuar algumas coisas. Você cresceu aonde? 

 

R – Eu cresci no Rio de Janeiro. O meu pai é mineiro. Mas a minha mãe é carioca. Eu tenho um avô que é português por parte da minha mãe, mas os outros três são brasileiros e minha família toda, é no caso, com exceção do meu pai que é nascido em Minas, todos são do Rio de Janeiro, ok?

 

P/1 – E você é filha única?

 

R – Não, eu tenho dois irmãos. Tenho uma irmã mais velha médica e um irmão mais novo que trabalha também na Petrobras, que é mecânico.

 

P/1 – Conta um para a gente um pouco dessa primeira infância, onde você morou no Rio... 

 

R – Eu morei no subúrbio, Vicente de Carvalho. Na época que eu morei no subúrbio, hoje falar em Vicente de Carvalho, traz uma, vocês não são aqui do Rio, vocês são de São Paulo. Mas hoje falar em Vicente de Carvalho no Rio de Janeiro está associado a um local difícil por questões de violência, questão ligada a periferia do Rio de Janeiro que tem algumas dificuldades. Mas na época que eu fui criança, em Vicente de Carvalho, eu não tenho o que me queixar, porque eu tive a possibilidade de morar em casa com terreno, de ter sido criada com meus irmãos, tendo um dia a dia com meus pais muito intenso. Os amigos vinham à nossa casa porque nós tínhamos terreno, e tínhamos uma série de facilidades. Então a mamãe sempre preferiu que nós brincássemos em casa do que saíssemos para brincar na rua. Se hoje eu falar que morei em Vicente de Carvalho, às vezes, as pessoas pensam assim: “Poxa, não é um lugar, não é uma zona sul no Rio de Janeiro, não é...” Mas na época que eu morei, eu vejo pelo meu marido que foi criado na Tijuca e foi criado em Jardim Botânico-Tijuca, ele não teve uma série de vivências que eu tive por ter morado em casa, por ter morado em uma região, talvez, mais humilde em termos de vizinhos e tudo. Então eu tenho uma visão muito flexível para certas situações, por eu ter vivido isso na infância. Às vezes, eu comento: “Ah, porque eu tive a oportunidade de ver galinha pondo ovo (risos), galinha ficando choca e criando ninhada e cada galinha tinha um nome. É engraçado de falar, mas isso foi uma experiência de criança. Eu conto isso para o meu marido... Sabe? Às vezes, eu viajo com ele e ele não conhece árvore alguma. E por meu pai sempre gostar dessa coisa de me levar para o interior aqui do Rio de Janeiro, em lugares mais de fazenda e tudo, eu conheço o que são plantações, eu conheço árvores, eu conheço flores. Aí meu marido brinca comigo, fala assim: “Lá vem ela falar que tudo é flamboyant bougainville.” (Risos) Ele diz assim: “Não é possível que você conheça todas as flores e muitas árvores”. Mas conheço, porque isso para mim era uma realidade na minha casa. Na minha casa eu não tomava refrigerante, eu tomava sucos naturais sempre, meus pais sempre fizeram. Minha mãe não fazia doces quando eu era criança. Eram sempre frutas, porque eram as frutas do quintal. Mangueira de todos os tipos, graviola, então eu tive essa interação com o dia a dia em casa que era muito eu. Porque eu sou canceriana, eu sou aquela coisa do maternal, aquela coisa de casa. E que eu vejo hoje que para mim foi muito importante, porque isso foi... Um pouco do que eu sou hoje vem, claro dessas experiências lá de trás que, às vezes, eu posso não tê-las hoje mais, talvez eu tenha dificuldades de proporcionar ao meu filho. Meu filho, ele é completamente diferente de mim. Ele não tem essa interesse pela natureza, ele não tem interesse pelas flores, pelos animais. Imagina criança pequena não querer ir a local com animais, a hotéis fazenda. Não liga. E eu fico assim: “Da onde que veio isso? Porque não é do meu lado”. Porque por mim teria cachorro, gato, papagaio, eu teria tudo que eu pudesse ter em casa, porque eu gosto disso. Então, as experiências de primeira infância, eu posso dizer que foram muito boas. Nesse aspecto de eu ter essa diversidade no sentido da oportunidade. Eu entendo que eu pude desfrutar uma série de coisas que é muito difícil de você proporcionar a uma criança hoje no Rio de Janeiro. Pelo menos falo por aqui. Agora, por outro lado, até pelas características do meus pais foi uma infância um pouco fechada. Porque a minha mãe sempre protegeu muito, sempre quis colocar... Preferia que as pessoas fossem à nossa casa, então acabava que eu não saia muito. E não tinha aquela prática de clube. Não morava perto de clube, então eu não tive assim infelizmente essa parte de praticar o esporte que hoje todo mundo valoriza muito. Eu valorizo muito com meu filho. Faço com que ele nade desde cedo e que agora se interesse por um esporte coletivo. Na época que eu pude desenvolver isso meus pais não tiveram essa preocupação. Eu falo assim: “Ah, eu tenho 47 anos.” Mas é muito diferente. Eu vejo assim: por um lado eu acho que eu estou muito próxima das gerações mais novas, mas por outro lado eu vejo que existe realmente uma diferença da maneira como as gerações mais jovens tiveram oportunidades que nós não tivemos. Então eu acho que isso... Eu procuro valorizar com meu filho. Até porque eu falo assim: “Não, já é uma geração seguinte.” Eu tive filho mais tarde, foi um projeto adiado várias vezes e acabei tendo o Thiago bem já mais madura. Então eu entendo que... Eu olho isso e vejo o seguinte: eu posso fazer com que ele tenha experiências que são bem mais difíceis para as pessoas que não viveram isso. Eu falo: “Não você tem que fazer isso aqui, mesmo que você tenha quem faça por você, mas você tem que aprender a fazer.”, porque eu fui criada assim. Os meus mais nunca superprotegeram no sentido de “ah, faz tudo por você” não. Nunca. Cada um de nós tivemos que encontrar nosso caminho e tivemos que brigar por tudo. Entendeu? Desde a primeira viagem internacional à primeira viagem... Não foi feita por pais. Os meus pais não puderam me dar isso. E eu fui conquistando isso depois. Meu primeiro carro, meu primeiro telefone, que na época era uma dificuldade ter uma assinatura de telefone no Rio (risos). Então tudo isso foram conquistas que eu fui tendo. Mas que faziam parte do meu esforço, mas claro que sempre eu reconhecia o apoio e tudo que os meus pais me proporcionaram e estavam ali. Sempre foram conquistas conjuntas. Eu sempre falei isso.

 

P/1 – E na primeira escola, quando você entrou na escola era também nesse bairro? Continuava no mesmo lugar?

 

R – Sim, o que foi muito interessante porque a minha mãe com essa questão de proteção. E eu comecei no Vicente de Carvalho e depois por questões até de melhor escola, que eu fiz todo o meu ensino público, mas sempre num dos melhores colégios da região. Então mamãe foi mudando. Foi muito interessante. Nós éramos do Vicente de Carvalho, aí ela decidiu porque eu precisava ir para o Ensino Médio. Antes do Ensino Médio, que seria partir do Ensino Fundamental, é hoje Ensino Fundamental, nós nos mudamos para Irajá, porque ela preferia que nós morássemos perto do colégio para evitar justamente questão de deslocamento com ônibus. Eu tinha oito, nove anos. Então fiz todo esse ciclo até o Ensino Fundamental em Irajá. E depois que eu fiz a Escola Técnica Federal de Química, que seria o Segundo Grau hoje, que foi quando eu tive a oportunidade de vir para a Tijuca. Meus pais também fizeram o movimento de se mudar para a Tijuca.

 

P/1 – Você e seus irmãos estudaram na mesma escola, no Fundamental?

 

R – No Fundamental, não! Porque em cada momento ela, em função da oportunidade, porque ensino público é muito do que você na época consegue. Então em alguns períodos eu estudei no mesmo colégio que minha irmã, que nós somos mais próximas. O meu irmão que tem três anos de diferença de mim, ele é mais novo, é que ele ficou em colégios diferentes. Mas a Escola Técnica de Química, tanto eu quanto minha irmã fizemos. E meu irmão fez a CEFET [Centro Federal de Educação Tecnológica], que também é a federal, mas é a federal, ele fez mecânica.

 

P/1 – E nessa escola fundamental você se lembra de algumas disciplinas, assim, que você já gostava?

 

R – Eu sempre tive muita facilidade para Ciências Exatas. Matemática para mim, sempre tive muita facilidade com Matemática, com Física. Quando eu falei a questão de eu escolher Química ou Engenharia Química foi quase uma consequência daquilo que eu tinha mais talento, vamos dizer assim. Eu sou muito cartesiana, para mim tudo tem que ter um raciocínio lógico, e tudo tem que ter um fluxo, tem que ter um processo. Isso me ajuda até hoje profissionalmente. Então às vezes eu tenho até que, sabe, parar para olhar e falar assim: “Não, vamos ser um pouquinho mais flexível aqui que nem tudo é tão cartesiano assim.” Mas as matérias que eu mais gostei e claro, tá, eu também gostava de história por questão até da... Como eu falei. Eu sempre gostei viajar e o viajar era o que? Era um olhar para o mundo. É você olhar para o mundo. Então quando eu tive oportunidade de ter professores que trouxeram um pouco daquela história para acontecimentos. Desde sempre, eu sempre, inclusive esse é um sonho que eu ainda não realizei de visitar a Grécia, porque lá atrás teve uma professora que mostrou toda aquela importância da Grécia para a humanidade. Então aquilo tudo, e hoje, até hoje eu tive a oportunidade de fazer muitas viagens e eu ainda deixo a viagem da Grécia como uma viagem que eu quero me preparar melhor para ir novamente. Por isso que eu ainda não realizei. No ano passado eu fiz uma viagem que eu mudei na última hora, quando eu falei para o meu marido: “Não vamos à Grécia esse ano!”, depois falei: “Não, não vamos à Grécia esse ano ainda.” Eu não estou tendo tempo para estudar o que eu quero estudar, ler o que eu quero ler e chegar lá e desfrutar da viagem como eu sempre sonhei. Então pulei. Era os dez anos de casada, os 40 anos, 45 (risos)... E agora eu falei: Não, não vou mais relacionar com nenhuma data. Vai ser o meu momento, quando eu estiver preparada para ir à Grécia eu vou à Grécia. Então isso tem haver lá de trás, de uma professora que trouxe para aquela turma de alunos, uma vivência da experiência dela na Grécia. Ela levou fotos e fez uma projeção, e fez um trabalho, e fez com que nós nos envolvêssemos com isso. E são memórias que ficam lá atrás e eu provavelmente, se você não me perguntasse isso, talvez eu provavelmente nem lembrasse. Mas agora tá vindo exatamente lá a aula dela falando.

 

P/1 – Você lembra o nome dela?

 

R – Olha, nome eu não consigo, porque eu não tenho tido muita facilidade com nomes ultimamente não. Vocês viram até que acabou de se apresentar eu pensei: “Deixa eu anotar aqui... (Riso). Mas com certeza a imagem dela vem depois de tanto tempo, mas o nome não vem.

 

P/1 – E daí vocês mudaram dessa casa que era grande e tudo para vocês poderem estudar. E daí você continuou em casa? Apartamento?

 

R – Até eu me casar, eu morei em casa porque os meus pais sempre optaram por morar em casa. Até por essa influência que eles têm, eu acho que os meus pais nunca iriam se acostumar em morar em apartamento. É claro que eles não conseguem hoje, morando na Tijuca e agora eles moram no Grajaú, ter a casa com quintal como eles tiveram lá na minha infância. Mas é uma casa. Aqui nós chamamos de casa de vila. É uma casa de vila, são poucas casas e tem um pouco de terreno para ter umas plantas, umas árvores. Tem uma goiabeira no jardim, pequenininha, mas a goiabeira tá lá, dando frutos! Ele tem, outro dia ele me mostrou, o meu pai já tá com 76 anos, todo emocionado que um beija-flor fez ninho numa planta que ele tem no jardim, pequenininha e ele cuidou daquele ninhozinho até o filhotinho crescer, voar e tudo. Ele contando para mim: “Ivana, ventou muito! Eu tava preocupado!”. E levantou de madrugada pra ver se o ninhozinho tava lá... Então isso pra mim, eu pelo menos, fico emocionada quando falam. Porque estão lá e conseguiram preservar, apesar de não ter mais aquela possibilidade de ter realmente um quintal a opção de não ter mais animais. Eles nunca mais tiveram cachorro, sempre tiveram na minha infância. Mas pelo menos lá, as plantinhas, ervas, as árvores, sabe, estão... As que eles podem cuidar e ter eles tem.

 

P/1 – E daí você depois dessa escola do nível fundamental, você fez a escola técnica?

 

R – Fiz a escola técnica.

 

P/1 – Que seria o Ensino Médio, hoje?

 

R – É. Eu, na verdade, com 14 anos, eu já meio que escolhi a minha profissão. Porque quando eu fui fazer a escola técnica. Porque a escola técnica? Primeiro porque aquela questão. Como era o ensino público, continuava sendo o ensino público, eu fui olhar o que era de melhor no ensino público na época. E meu pai trouxe a opção da escola técnica de química como sendo um bom ensino público, forte, que já prepararia para um vestibular sem ter necessidade de fazer cursinho, ou qualquer outra atividade nesse sentido. E já teria opção de trabalho. Se eu quisesse trabalhar após o nível médio, já teria a possibilidade. Então, eu fiz a escola técnica de Química... Foi um curso muito forte, eu até hoje falo: “Eu acho que eu não estudei tanto na Universidade quanto eu estudei no curso técnico”. Então é um curso muito forte! Você pega adolescentes ainda, se formando e tendo uma responsabilidade. Porque no primeiro ano, você ainda tem muito matérias comuns ao nível médio. Mas do segundo pro terceiro, você já começa a pensar em carreira. Você já tem, você já se imagina trabalhando, já faz estágio. Já pode fazer estágio. Então, acho que ali começou muito cedo a minha responsabilidade em termos profissionais, com muito carinho, inclusive até hoje. Nós nos formamos em 81. Tá fazendo 30 anos. E tenho trinta? Não, quarenta. Não! Trinta? Trinta. Tá, é claro, trinta. Eu também não estou tão velha assim (risos). Então são trinta anos de escola técnica e a turma está até tentando se reunir esse ano pelos trinta anos. Devemos nos reunir no final do ano, já tem até uma data, três de dezembro, para essa reunião. E realmente foi uma experiência pra mim não sei se você quer agora desenvolver esse tema, mas a escola técnica realmente foi um marco. Foi ali que eu me vi pela primeira vez como profissional. Porque eu já tinha essa necessidade de pensar como profissional.  Foi um curso forte, foi um curso que a turma era muito unida e todos se ajudavam. E quando a gente já terminava, já queria no início do terceiro ano já se falava: “Qual é a tua carreira? Pra onde você vai? Pra onde não vai?”. E que vai continuar estudando, vai seguir universidade ou vai trabalhar. Então todas essas questões, nós já tínhamos desde o segundo ano. Então foi a Escola Técnica Federal de Química que hoje é CEFET. CEFET de Química. Eu posso dizer que foi realmente pra mim, de toda minha formação escolar, foi a mais importante. Talvez porque tenha sido a adolescência, porque tenha sido um divisor do Ensino Médio para um ensino profissionalizante foi de muito destaque.

 

P/1 – Teve formatura?

 

R – Teve, teve uma formatura! Mas foi uma formatura meio ali junto com o vestibular, sabe, que acabou que fizemos uma coisa bem simples. Foi uma noite, um baile e uma cerimônia, mas foi bonito. Acho que o mais importante era a união do grupo.

 

P/1 – E mesmo com essa responsabilidade na adolescência, você conseguiu ter momentos de lazer? Conseguiam se reunir?

 

R – Ah, isso o tempo todo. Eu confesso que eu não era a pessoa mais sociável no sentido de estar em todas, até porque a minha mãe também dava, sempre deu uma controlada. Mas se deixasse, a turma o tempo todo, todo final de semana e eram reuniões muito seguidas. Eu tinha uma característica, pela essa questão da minha mãe sempre se mudar para próximo da escola, o que acontecia? Eu fiquei muito perto mesmo. Então, quando tinha aqueles intervalos que as pessoas... Quem morava longe, ficava o tempo todo na escola. Então, às vezes, tinha alguns dias quase integrais. Como eu morava perto, eu ia para casa, almoçava em casa. Mas quem ficava ali realmente o tempo todo, praticamente. E aí quando tudo começou a ficar um pouco mais lá no terceiro ano, tinha um barzinho ali perto que era praticamente a extensão da escola. A turma saía e já ia pra lá, tanto é que essa comemoração dos 30 anos, tão trocando e-mails direto e aí já começa: “Não, porque nós temos que colocar todas as recordações todo mundo trazer foto, todo mundo trazer isso, trazer aquilo.” Então já tá virando lá quase um... Já tem um book pro encontro. Dos trinta anos. 

 

P/1 – Vai ser no barzinho perto?

 

R – Não, aí nós vamos ter que fazer uma coisa mais estruturada (risos). Não, mas nós estamos fazendo. Inclusive eu não fui no primeiro, vai ter um agora dia 7, sexta-feira. Eles tão fazendo prévias, então pra essa prévia agora já tem. Falei: “Não, essa eu vou ver se consigo ir, porque a última não deu”. Eles marcaram um dia de semana, eu tava viajando, não deu, eu falei assim: “Não, a próxima eu vou tentar!”. Eles fizeram sexta-feira. Então, nessa sexta, eu já vi que o negócio vai ser quase a festa em si. Mas vai ser aqui na Tijuca. Mas a turma era animada. Continua sendo.

 

P/1 – E desta turma, alguém foi fazer faculdade com você?

 

R – Sim! Eu fiz UERJ [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], Engenharia Química, e optei pela Engenharia Química no segundo semestre. Na época podia ter iniciado no primeiro, mas eu optei no segundo, porque eu tinha que fazer estágio. Eu tinha que ter seis meses de estágio, então, eu falei: “Não, eu quero começar a Universidade logo, vou botar no segundo semestre e no primeiro vou...”. E muitas pessoas fizeram a mesma opção que eu. Alguns foram pra UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], mas a minha opção foi a UERJ, pra eu poder fazer no segundo semestre e porque era mais perto da minha casa, era muito mais cômodo. E na época não foi só isso. O que realmente me decidiu foi porque me falaram que a UERJ era mais forte, mais equilibrada como carreira, te dava uma visão mais ampla, enquanto na UFRJ era muito forte a parte de exatas e que formava muito pra ser profissional da Petrobras. Como eu não tinha na época essa pretensão, apesar do meu pai ser Petrobrás, eu tinha um pouquinho aquelas coisas “Ah não, eu não quero estudar já pensando em ser Petrobras. Eu quero pensar mais amplo.”. Então, eu mais uma vez fiz aquilo que não seria o convencional. Eu falei: “Não, não quero fazer UFRJ, não quero ser acadêmica e nem quero me preparar pra prova da Petrobras”, que era o que as pessoas me davam como justificativa de escolher a UFRJ. Então, eu tive a oportunidade sim, logo quase durante os cinco anos que eu passei na UERJ de conviver com pessoas da Escola Técnica. E que foi até meio difícil, porque as pessoas que não foram da Escola Técnica tinham uma certa dificuldade com as pessoas da Escola Técnica, porque nós éramos muito mais maduros. Era difícil nós que falávamos já de profissão, já tínhamos tido experiência de estágio. Eu, pelo menos, fiquei seis meses de estágio antes de entrar na UERJ. E a turma que veio de cursinho era diferente. A maturidade diferente. Então, no início, teve um certo desencontro, mas também foi rápido. Você está naquela idade de 18 anos, entendeu? Se você não se une. Então foi só aquele iniciozinho que deu aquela estranheza. A turma se conhecia, todo mundo se abraçava, todo mundo que era unido já da Escola Técnica, isso causou um pouco de ciúme pro resto da turma. Mas rapidamente isso depois se resolveu. Até porque, quando começaram as cadeiras mais técnicas, nós tivemos muitas condições de ajudá-los. Porque como a gente tinha uma formação anterior, pra nós era tudo muito fácil. Aqueles laboratórios, aquilo tudo... E a turma não tinha tido... Então a gente ajudou muito. Então nessa de ajudar, acabou que viramos um pouco os... Apesar de termos a mesma idade, nós já éramos meio como se fosse ali os veteranos. Então foi uma coisa, foi uma experiência bem interessante pra mim na época. 

 

P/1 – E você chegou por conta dessa experiência a trabalhar como monitora?

 

R – Eu cheguei a trabalhar como monitora, mas não quis em laboratório. Foi o que eu estou comentando. Eu fui ser monitora de cadeiras da Engenharia. Eu acabei sendo convidada para fazer uma monitoria em operações unitárias. Um Chefe de Departamento que convidou: “Não, eu quero que você seja minha monitora!”, eu falei assim: “Serei então!” (risos). Era uma oportunidade de exercer um pouco a liderança ali com a turma e ajudar, e além da bolsa. Então foi uma experiência também interessante, mas não de laboratório. O laboratório em algum momento eu descobri que eu não queria trabalhar em laboratório. E esse momento eu sei exatamente quando foi e começa ali um pouco a minha história com a White Martins. Depois nós vamos chegar lá. (risos). 

 

P/1 – Pode ir continuando, você fez algum estágio?

 

R –Não, eu fiz estágio, olha só, como eu tinha a experiência da Escola Técnica. E como eu também... Vamos lá: eu sempre fui muito independente. Eu nunca precisei, eu nunca gostei, ah, de ficar pedindo das coisas pros meus pais, apesar de eles sempre me possibilitarem tudo que eu precisei. Mas eu sempre quis ter essa independência. Então, quando eu comecei a ver que eu tinha possibilidade de fazer estágios como técnico em Química ainda durante o curso da Engenharia Química, eu fiz. Então eu fiz estágio no Fundão, eu fiz estágio no laboratório da Receita Federal. Tudo isso ainda como técnico em Química. No Instituto de Engenharia Nuclear no Rio de Janeiro... Então eu fiz praticamente, a partir do quarto período, que eu falei: “Não, os quatro primeiros períodos, eu quero me dedicar àquele básico, eu quero ver como é que vai ser, se eu vou me dar bem nos cálculos, como é que eu vou me sair com aquilo tudo do...” Tudo era novo. Eu falei: “Não, quero fazer o básico bem dedicado e depois eu vou começar a buscar estágios. E aí quando você tá no quarto período, é muito difícil você conseguir o estágio de engenharia química, porque eu ainda não tinha as cadeiras básicas de engenharia química. Foi quando eu comecei a fazer os estágios, ainda como química. E pra mim foi excelente, porque eu tive a oportunidade de fazer desde o quarto período, estágios o tempo todo o que fez com que eu tivesse várias experiências anteriores à minha escolha de carreira, e isso pra mim foi riquíssimo. E era muito diferente de quem não teve essa oportunidade. Meu marido, eu posso dar, que é mais próximo de mim, eu posso falar, ele veio de cursinho, não fez Escola Técnica, veio de escola privada e ele não falava de profissão. Um excelente aluno, era dos melhores alunos da turma. E eu falava: “Mas e a sua experiência profissional?”, “Não, no final eu faço.” E fez até. Mas conseguiu através de família, fez, aí acabou ficando nesse estágio. Teve oportunidade de ficar. Mas poucas pessoas tem essa oportunidade. Nós nos formamos numa época muito difícil. Eu me formei em 1987, que era uma época de recessão, recessão industrial. E poucas pessoas da minha turma saíram empregadas da Universidade. E então, eu acho que a experiência que eu tive que veio do ensino profissionalizante. As experiências que eu decidi e que não era fácil. Porque você tinha que conciliar a Universidade, estudar, você tinha seu compromisso de estágio, e eu sempre fui muito... Vamos lá... Dedicada! Não tinha aquela coisa de: “Ah, porque eu estou estudando, eu não vou”. Eu sempre fui aquela coisa do pai que eu falei lá atrás. Daí é bom que a gente conversa. Papai ia doente trabalhar! Vi meu pai várias vezes sair com febre, e sair doente, sair Natal, Ano Novo. Não tinha dia porque era turno. Então pra mim essa coisa sempre foi muito forte. Então eu pra fazer estágio, trabalhar e conciliar namorar porque, jovem também. (risos) Tudo isso não é fácil. Todos nós passamos por isso aqui. Voltando pra questão da experiência profissional, quando eu decidi, apesar de fazer esses estágios todos, chegou uma hora que eu fui trabalhar em um laboratório da Receita Federal e a pessoa com quem eu trabalhei, ela falou assim: “Ivana, fica aqui que nós vamos te contratar como técnico Química, você já vai assumir aqui essa responsabilidade. A única coisa que você vai ter que fazer é mudar o teu horário da Universidade para noite”. O que eu poderia fazer facilmente na UERJ, mudar o teu horário pra noite. Aí eu fui pra casa e fiquei pensando assim: “Eu já fiz tantos estágios em Química, já fiz tanto... Eu estou aqui com...”, quantos anos eu tinha naquela época? Vinte anos. “Vinte anos, aí eu vou começar a trabalhar num laboratório, me conheço, eu vou ficar aqui, vou acabar afetando o meu laboratório. No dia seguinte, ela veio pra mim e falou: “Não, ela vai aceitar. Não tem como não aceitar.” Aí eu falei assim: “Não...” Aí essa eu lembro bem o nome: Shirley. Eu falei assim: “Shirley, agradeço, estou muito honrada. Você está me oferecendo aqui depois de seis meses a oportunidade de ficar no laboratório da Receita Federal como contratada aqui, mas não é isso que eu quero. Eu quero exercer a Engenharia Química. Eu já tive a experiência do laboratório, gosto da Química, eu gosto dos fundamentos da Química, mas não é na Química de bancada que eu quero trabalhar o resto da minha vida assim”, aí ela me olhou assim falou: “Não, mas você é muito boa no que você faz”, falei assim: “Não, agradeço! (risos), Eu tive a formação toda, vocês me ajudaram aqui muito, mas quero ter a possibilidade de trabalhar na Engenharia”. E porque que eu falei que iria ter o link com a White Martins? O laboratório da Receita Federal ficava, eu não sei se ainda fica lá na Rodrigues Alves. Lá perto da Praça Mauá, aqui no Rio. E o prédio da White Martins ficava ali na Rio Branco. E eu ia com meu ônibus todo dia pra casa. Saía da Receita Federal lá seis horas da tarde, pegava o meu ônibus, passava em frente do prédio da White Martins, aquele prédio enorme, de 28 andares e eu olhava assim, na época eu já conhecia a White Martins, eu falava assim: “É ali que eu quero trabalhar! É interessante que eu vou fazendo... Não, ali. Eu estou aqui no outro, querem que eu fique lá, mas não. Eu quero trabalhar é ali”. Já falando lá na época da Receita Federal. 

 

P/1 – Mas você já sabia o que era a White Martins?

 

R – Sabia! 

 

P/1 – Por conta do prédio?

 

R – Não! Eu sabia o que era a White Martins! Eu conhecia os gases, eu trabalhava em laboratório!  Eu trabalhava com...

 

P/1 – Eu ia perguntar isso. O que você fazia no laboratório?

 

R – No laboratório eu fazia muita análise de bancada, via úmida. Inorgânica, orgânica, fazia análises. Mas eu sempre tive uma predileção por instrumentação analítica. Eu tinha vontade de trabalhar com os equipamentos que faziam análises. E isso foi uma das... Vamos lá. Talvez eu tivesse ficado no laboratório da Receita Federal se eu tivesse ido pra um laboratório de instrumentação analítica. Foi uma das minhas reclamações na época. Teve um concurso, eu fiz o concurso. Naquele momento eu tinha sido a primeira colocada e eu não tive opção de dizer pra onde que eu queria trabalhar. Eu queria trabalhar em instrumentação analítica, aí acabei indo pra um laboratório de via úmida. O que é um laboratório de Receita Federal? Você analisa tudo que é importado pelo Brasil de produto químico, ou de produto acabado, você faz análise para saber se o que o importador está declarando é realmente o que foi importado. Então eu me deparava assim com cada análise louca! Chegava um pedaço de borracha que eu tinha que atacar, que eu tinha que abrir, que eu tinha que fazer todos os procedimentos pra chegar num método analítico que comprovasse que aquela borracha era a borracha XPTO que tinha sido declarada. Então isso era minha vida. Era têxtil, era borracha, era papel... Tudo que era importado, e às vezes chegavam alguns reagentes químicos. Esse era o meu dia a dia nesse laboratório que eu fui convidada. E os outros que eu queria, eram os laboratórios de ressonância nuclear, era Raio X, toda parte de instrumentação que eu sempre gostei, mas que nesse local acabei que eu não tive a oportunidade de exercer. Então, quando eu trabalhava tanto na via úmida quanto na parte de instrumentação que eu já conhecia de outros locais, eu lidava com... Em certos momentos eu tive a oportunidade de ter contato com gases. Então sabia o que eram os gases, o que era a White Martins. Então daí que eu olhava ali e eu via aquela imagem e muito próxima do que eu gostaria. Era a história do perfil que você cria pra você lá atrás. Então foi ali que eu decidi realmente: “Não, eu vou parar de fazer estágio na Química e vou começar a procurar estágio que sejam na área de Engenharia”. E aí dizem que o universo conspira a seu favor quando você realmente quer alguma coisa. Aí papai um dia conversando com nosso vizinho lá da onde ele mora até hoje e que é vizinho dele até hoje. Ele comentou: “Ah, ele é da White Martins, faz o teu currículo e entrega lá”, aí eu falei: “Não, tudo bem”. Um ano, nada. Nunca fui chamada. Até que um dia eu fui. Então no primeiro eu não fui selecionada, porque eu ainda estava no meio do curso ainda e tive uma prova e já a prova pro final de curso e eu não pude ser selecionada. E no segundo, eu fui, porque era uma área de Negócios. Eu na época fiquei assim: “Puxa, não era o projeto que eu queria. Não era a engenharia que eu sempre busquei, mas vamos entender como é que é trabalhar com negócios. Como é trabalhar com marketing”. Aí começou o meu link com a White. Eu fui chamada pra esse estágio, já no que? Indo do terceiro para o quarto ano. Na segunda oportunidade de estágio, eu fui, e aí eu tive a oportunidade de participar de um processo de seleção em gases especiais. E esse processo de seleção ele (risos), a pessoa com quem eu trabalhei durante muitos anos me fez algumas perguntas de ordem prática. “Ah, quanto que você acha que custa um gás? Um símbolo de gás. Por exemplo, o Hélio?”, e eu sabia. Porque eu tinha. Quer dizer, não sabia no detalhe, mas é que as pessoas comentam: “Ah não, que o Hélio é muito caro, toma cuidado, não sei o que...” Então fica aquela informação. Ele falou: “Você acha que é mais do que isso ou menos do que isso?”. Então eu tinha esse sentimento de valor. Então foi muito interessante, porque entre os candidatos, depois o meu guru, vamos lá chamar assim. Ele comentou depois que eu já estava efetivada, depois de alguns meses ele falou assim: “Não, você sabe porque que eu te escolhi? Porque você foi a única pessoa, o único candidato que tinha noção de valor”, aí eu falei assim: “Que bom”. Porque foi um processo, eu sei que todos os candidatos eram muito bons. Então a questão de eu ter trabalhado antes e ter esse interesse pela área de instrumentação analítica, na qual os gases especiais são carro-chefe. Então acabou que foi complementar.

 

P/1 –Você lembra quem era essa pessoa?

 

R – Eu lembro! Eu estive com ele semana passada. Luís Paulo Pires que foi a pessoa que me entrevistou e que durante muitos anos foi o meu líder. Foi o líder de gases especiais, então e a pessoa com quem ele trabalhava era o Sérgio, o Gogo, que ele tem um nome polonês meio difícil. É um nome que até hoje eu não me arrisco a falar. Também tive a oportunidade de almoçar com ele semana passada. Então nós mantemos contato, são pessoas que foram muito importantes na minha vida. Quando eu falo que a minha relação com a White Martins, ela transcende um pouco da relação profissional. Até porque foi o meu primeiro emprego, emprego. Eu tive outras oportunidades profissionais, mas não efetivada. Então foi na White Martins que eu tive a oportunidade de terminar minha formação universitária. Os últimos dois anos eu fiz estagiando quase na White Martins. E dali até hoje é onde eu trabalho, são 25 anos. Eu entrei em janeiro de 1986. São 25 anos.

 

P/1 – Então, deixa só eu te perguntar, a sua pós-graduação você fez logo depois que você se formou?

 

R – Não, eu dei um tempo. Eu achei importante. Eu fiquei pelo menos uns quatro, cinco anos sem estudar. Assim, eu queria, mas eu tava envolvida com uma série de outras coisas, fui fazer especialização em inglês também. Então eu dei preferência. Até porque também, não são cursos baratos. Então eu também tive que ter... É aquela coisa que você acabou de se formar, engenheira, júnior, você tem que começar, tem tanta demanda. Você tem tanta demanda na sua vida pessoal... Até eu poder assumir o compromisso da minha especialização, eu levei acho que uns cinco anos. E preferi fazer com mais maturidade também. Foi quando eu senti a necessidade de parar para entender o que realmente era o marketing, como é que eu podia melhorar o processo de trabalho. Porque no início eu acho que eu trabalhava muito com atividades. Fazia o que era necessário pro grupo, apoiando os outros profissionais que eram mais plenos. Mas eu não tinha aquela coisa do projeto. Os projetos não estavam comigo. Não era líder dos projetos. Então quando eu comecei sentir a necessidade de entender um projeto como um todo foi quando eu fui buscar a especialização.

 

P/1 – E você decidiu ficar ali na frente da White, por quê?

 

R – Olha, isso é uma coisa que eu falo assim com muita tranquilidade. Porque tem pessoas que quando começam a ficar esse tempo todo assim... Tem pessoas que reagem muito positivamente, “Ah, que bacana! Você tem 25 anos de White Martins!”, aí tem uns que já olham assim: “Pô, mas você ainda está na White Martins?”. Foi uma opção minha, nunca fiz nenhum movimento de sair até hoje. Então eu falo isso assim com uma transparência. Aí vão dizer: “Ah, por quê?”, primeiro porque o seguinte: eu estou feliz na White Martins, enquanto eu estiver feliz na White Martins... Por isso que eu falo. É uma coisa que é forte, que eu acho que em alguns momentos da minha vida, talvez eu tivesse uma confusão de valores. Os profissionais estavam muito fortes, até acima até dos pessoais. Hoje pra mim está muito mais equilibrado. Um processo de análise, processo de maturidade, a maternidade... Tudo nesses 25 anos faz com que eu olhe e diga assim: “Hoje eu estou aqui porque eu quero estar”. Eu nunca fiz movimento de sair, por acomodação não. Porque aliás, toda a minha história de vida, eu acho que o que eu não fui foi acomodada, nos momentos decisivos que eu precisei realmente tomar decisões que fossem críticas pra minha história de vida, eu não acho que eu tenho sido acomodada. Eu estou na White Martins porque realmente eu acredito na minha carreira, eu acredito no que eu construí dentro da empresa, eu acredito no que eu faço. Eu acredito na importância do trabalho que é feito pelo grupo com quem eu trabalho. E isso pra mim, eu falo com muita tranquilidade. E eu vou continuar na White Martins até quando eu achar que estou numa relação que seja saudável porque eu sei do que é uma pessoa se dedicar a uma empresa, meu pai se dedicou, mas chegou um momento que ele saiu. Ele optou por se aposentar. E ele optou por se aposentar antes da hora. Porque ele começou, ele tinha o tempo necessário, mas ele começou a ter algumas divergências e ele falou assim: “Não, antes que isso comprometa a minha relação com a Petrobras, com a Reduc”, ele pediu pra se aposentar, e ele falou assim: “Não, vou fazer, vou cuidar dos meus filhos, vou cuidar da minha casa, mas eu não vou me aborrecer no meu local de trabalho”. Então, eu tenho isso muito forte comigo também. Enquanto eu estiver feliz no que eu faço, eu estou na White Martins. E enquanto, claro, isso é uma relação sempre de duas vias, enquanto meu trabalho estiver sendo positivo para a empresa. Então hoje eu vejo que isso é uma decisão das duas partes, se qualquer um dos dois lados tomar a decisão, os dois lados têm que estar preparados. Eu acho que isso é que tem que ser visto e construído daqui pra frente pra mim.

 

P/1 – Você comentou num momento, que quando você saiu da faculdade era difícil emprego, o Brasil passava por um momento de crise industrial. Podia contar assim como que era seu dia a dia, como que foi?

 

R – Olha, 1987, se vocês tiverem aí a oportunidade de ler alguma coisa desses anos, foram anos muito difíceis, em temos de estagnação industrial anos de recessão. Não tinha concurso público. Tanto é que eu me formei e não tive a oportunidade de trabalhar... Infelizmente pro meu pai que até hoje ele guarda um pouco dessa mágoa, porque ele me via como uma potencial petroleira. Pela minha formação, meu currículo escolar, ele me via fazendo um concurso da Petrobras e sendo empregada. Não tinha concurso da Petrobras quando eu me formei. Na própria White Martins as pessoas queriam que eu ficasse. Eu já tinha feito estágio um ano e sete meses, todos queriam que eu ficasse e não tinha vaga e a política era: “Só se houver alguma saída se houver vaga é que ela poderá ser contratada.” Então pra vocês entenderem como isso me afetou, as circunstâncias, a ambiência foi que eu precisei sair da White. Eu me formei, colei grau, estenderam até o máximo, até a data da colação do grau pra ver se alguma coisa acontecia, se alguma vaga surgia. E na época não surgiu, eu precisei sair. Eu confesso que eu fiquei deprimida demais. Porque eu era assim, querida pelo grupo, eu queria ficar. E eu via outras pessoas que haviam se formado antes. Tinham tido a oportunidade. Eu falei: “Pô, comigo. Acontecer comigo, eu que me dediquei tanto queria tanto!”, então foi muito difícil. Foram dois meses que eu passei fora da empresa. E já estava fazendo na época um processo seletivo para ir pra Souza Cruz. Eu já estava quase terminando o processo seletivo para ir pra Souza Cruz. Mas eu iria trabalhar no Centro de Pesquisa da Souza Cruz, ali no Jacaré e quando o Luís Paulo Pires me ligou depois de dois meses, dizendo: “Já descansou bastante? (risos), tá preparada pra voltar?” Eu falei assim: “Por quê?”, “É porque surgiu a sua vaga”. Eles fizeram surgir a minha vaga. Daí na hora eu não pensei duas vezes, fui lá na Souza Cruz, fui agradecer a minha oportunidade e fui para White Martins. Então dali, eu fui contratada em 3 de novembro de 1987, por isso que eu falo era um ano realmente complicado. Prova da Petrobras só foi acontecer, pra vocês terem uma noção, se eu não me engano, em 1990. Eu já estava há quatro anos dentro da empresa. Ai eu falei: “Não, pra mim já deixou de ter aquela importância”, eu não me via trabalhando na Petrobras. Até porque, quando eu me formei, diferente do que acontece agora que o emprego público voltou a ser uma boa opção, na época não era. A imagem do funcionário público era muito ruim, e eu não queria aquilo pra mim de jeito nenhum, sabe? Eu falava: “Não, fazer concurso público...”, eu não queria. Na Receita Federal, eu tive oportunidade também, quiseram, me pediram pra fazer o concurso que teve, que era pra trabalhar naquele local de análises, eu falei assim: “Não”, era questão de salário também. E pela imagem que funcionário público tinha na época. Então, do meu grupo todo, pra vocês terem uma noção, apenas eu e mais uma pessoa, que na época foi trabalhar na refinaria de Manguinhos, que agora nem existe mais, que fomos contratados ainda no mesmo ano que nos formamos. Os outros, foram fazer mestrado, teve uma pessoa que foi estudar fora do país. Seguiram, ficaram estudando pra passar no primeiro concurso da Petrobras, foram fazer concursos fora do Estado, foram fazer concurso de Receita Federal, até. Tenho um amigo que hoje é da Receita Federal. Mudou de carreira, pela dificuldade que era se empregar em 1987, um engenheiro químico. As oportunidades de projeto nas empresas de engenharia eram muito poucas porque eram poucos projetos que estavam acontecendo naquela época. Então, era muito restrito o mercado de trabalho no ano que eu me formei. 

 

P/1 – Entendi. Você lembra se na época, sua turma gostaria de trabalhar em alguma empresa, quais eram as empresas, das poucas, que ainda ofereciam algum emprego?

 

R – Não, olha, como eu comentei: Souza Cruz era uma opção. A refinaria de Manguinhos, como esse meu amigo foi trabalhar era, as farmacêuticas também. Começava a ter as oportunidades nas farmacêuticas aqui no Rio. Então, Petrobras, como eu comentei, infelizmente porque era público não havia essa possibilidade, essas eram principais. As principais oportunidades do grupo que eu convivia, eles levaram à trabalhar na Petrobras depois. Tanto é que eles insistiram e eu tenho muitos amigos que na época não tiveram oportunidade e hoje estão na Petrobras. Eu tenho uma amiga, dois amigos que foram morar em Manaus, porque o único concurso que surgiu na época que nós nos formamos, foi na refinaria de Manaus. Então, eles optaram por morar em Manaus (risos) durante cinco anos, para poder entrar na Petrobras. E hoje eu tenho vários amigos da época tanto da Escola Técnica, quanto da UERJ, que foram depois para Petrobras, mas em concursos que ocorreram muitos anos depois. Até porque em 1990-1991 teve aquela questão do Plano Collor que também teve a dificuldade de contratação. Teve um concurso que foi realizado e que depois foi cancelado por questão dos períodos complicados. A conjuntura econômica afetou muito a parte industrial. Foram anos de muita inflação, nós aprendemos a conviver durante muito tempo, mas afetou muito o desenvolvimento industrial e as oportunidades de quem se formava naquela época. 

 

P/1 – E aí, pelo que eu percebi também, diferente de outros que passam por várias áreas, você entrou em lugares especiais e continua até hoje.

 

R – Porque foi o seguinte, acho que foi meio... Não gosto de dizer isso não, porque, às vezes, as pessoas interpretam isso mal. Mas pra mim foi quase um casamento. É difícil você encontrar uma pessoa que você realmente se identifique e que encontre ali os seus pontos, os seus valores. E eu encontrei num grupo, eu tive a felicidade de encontrar num grupo, primeiro, a identificação técnica, dentro da White Martins, as várias opções de negócio. O negócio de gases especiais, ele sempre foi muito ligado à química. Outros negócios são muito ligados à mecânica, à metalurgia, à siderúrgica, à área médica. Mas os gases especiais estão muito relacionados à minha experiência da química. Então, fez com que desde o início fosse fácil pra mim conviver, e que era justamente o meu grande valor, porque eu convivia com engenheiros de outra formação. Eu fui praticamente a primeira engenheira química do grupo de gases especiais, com isso eu tive muita facilidade em entender o negócio, de trazer as oportunidades, de entender as aplicações, de entender os clientes, de conversar com os clientes, de transformar aquilo que eu via sendo necessário, e fazer acontecer pela minha formação. Aí quando você fala assim: “Ah, mas os outros negócios da empresa, teria tido oportunidade?”. Eu falei assim: “Claro, eu tive oportunidade de trabalhar, fui convidada para trabalhar em alguns outros negócios”, mas eu confesso que sempre quando eu colocava na balança, eu sempre continuava com o lado de gases especiais. Aquela questão, como eu falei, do casamento. Que se não fosse pelo lado do casamento porque o casamento é isso. É você escolher e abrir mão de outras opções em alguns momentos. E eu senti muito isso. Na época eu não entendia, ao longo do tempo eu fui entender. Eu tenho no trabalho, a minha casa é câncer. Depois de muito tempo eu fui olhar no mapa astral se isso me ajudava. Aí eu falei: “Daí a questão da família”. A família, eu trouxe muito essa imagem da família pro meu dia a dia da minha relação profissional e da minha relação com os gases especiais. E ao longo do tempo, o que acontece? Com os gases especiais, os produtos estão muito ligados ao que acontece de inovação tecnológica no Brasil, eu estou sempre tendo que desenvolver um projeto novo, isso pra mim, é muito bom. Apesar de as pessoas falarem: “Ah, a Ivana está em gases especiais”. Mas eu já estive em gases especiais na área de Meio Ambiente. Eu já estive em gases especiais na área de Emissão Automotiva. Eu já estive em gases especiais na área de Esterilizantes. Eu já tive com vários projetos, como se eu já tivesse tido oportunidades de setores diferentes, porque dependendo do projeto que eu tive que desenvolver, na verdade é como se fosse outro grupo de trabalho, que eu tenho que lidar com mecanismos e situações completamente diferentes das anteriores. Então isso que me alimentou e fez com que eu ficasse tanto tempo e continuar no mesmo negócio.

 

P/1 – Você disse que passou por vários projetos, que era como se tivesse passando por novas áreas, também.

 

R – Por novas áreas!

 

P/1 – Conta aqui pra gente desses projetos, dessas diferentes aplicações que o gás especial o seu trabalho te proporcionou fazer.

 

R – Vou dar um exemplo que foi... Eu tenho vários. Mas vou dar um exemplo que na época foi muito importante. Quando nós começamos a desenvolver padrões gasosos para a área ambiental, isso já tem uns 15 anos, por aí. Era tudo muito novo aqui no Brasil. Quase ninguém falava em métodos utilizados para controle ambiental, qualidade do ar, em controles voltados para segurança do trabalho. Tudo ligado a ambientes. Controle de gases em ambientes, principalmente, um exemplo: refinaria; Ah, que tipos de poluentes contaminantes tem numa refinaria? O que se deve analisar, como analisar, quais são as metodologias... Então, na época, tive a oportunidade de conhecer no exterior, tanto nos Estados Unidos, quanto na Alemanha e na Espanha também, uma série de centros relacionados a essa aplicação. Pude conhecer os órgãos de metrologia, que são os institutos que definem os padrões que devem ser utilizados e como fazer aquelas análises. Então eu tive a oportunidade de conhecer o órgão ambiental americano na Califórnia, esse foi um trabalho que eu tive que interagir muito com o grupo dos Estados Unidos, da Praxair, para que a nossa linha aqui no Brasil fosse desenvolvida. Então começou ali uma interação que nós temos também com esses grupos. Nós fazemos muitos projetos nos quais as pessoas da Praxair, dos Estados Unidos, do México e da Europa, também contribuem com o nosso trabalho, como nós também contribuímos com os trabalhos deles.  Isso me possibilitou fazer uma série de viagens. Não tantas quanto eu gostaria mas também nem tantas que pudessem afetar minha vida pessoal. Então eu acho que foi na medida certa. Eu tive a oportunidade de fazer viagens e ter interação com muitas pessoas, tanto da Praxair quanto externas que no caso me possibilitaram desenvolver melhor meu trabalho aqui. Então esse foi um exemplo. Um outro exemplo que eu agora estou passando também: área medicinal. Tem uns seis anos que estou mais dedicada às aplicações de gases especiais na área medicinal. Então com isso, eu tive oportunidade de trabalhar com algumas pessoas da Praxair, fazer visitas a hospitais nos Estados Unidos, conhecer algumas aplicações que ainda não existem no Brasil, para desenvolvê-las. Então esse é um trabalho como eu falo: cada desafio, ele vem com um pacote. E trabalhar nele, desenvolvê-lo ele te dá um grande período de motivação. É como se eu tivesse mudando de atividade, por isso que eu comentei que pra mim isso foi como se fosse um ato contínuo. Quando algo começasse a ficar meio... “Ah, tá parado, estou ficando muito no dia a dia”, não, eu não sou para ficar no dia a dia. Eu tenho que estar olhando o que eu posso fazer de diferente, o que eu posso trazer. Hoje eu tenho na minha responsabilidade dois grandes projetos, que é trazer, incrementar a parte de gases especiais ainda. Eu tenho bastante coisa pra fazer nessa área. Tem pessoas trabalhando comigo com essa responsabilidade. E tem a parte de mergulho, porque a White Martins não vem participando do mercado de mergulho. E com as oportunidades que vêm que já estão no Brasil nos próximos anos, ligados à exploração de petróleo, nós teremos a oportunidade de ingressar nesse mercado e ter uma boa participação. Então hoje, trabalhando com a Praxair, uma empresa escocesa, nós queremos entrar mais forte nesse mercado. Então é como eu falo: pra mim é um outro desafio. Falando com pessoas que eu não conhecia tendo que lidar com um mercado que não era o meu, saindo da zona de conforto. Porque eu já falei com químico, já falei com empresas que representam equipamentos. Então estava tudo confortável, depois comecei a falar com médicos, comecei falar com ressonância magnética quando eu desenvolvi o trabalho de hélio líquido para ressonância magnética, tive que falar com General Eletric,com a Philips, que já é um outro segmento, e agora eu estou tendo que falar com empresas de mergulho, que tem características completamente diferentes, que às vezes eu até tenho que imaginar assim: “Opa, tenho que mudar um pouquinho meu estilo porque não é (risos) não é a pessoa da General Electric, não é a pessoa da Philips, já é uma pessoa que me chama de “meu amor”, fala “Vou ligar pra você amanhã” e não liga (risos). Aquela coisa assim que eu não estou muito acostumada. Então tenho que diminuir um pouquinho o lado que eu tive que trabalhar nos últimos anos e que é o desafio. Enquanto eu tiver esse desafio, mesmo trabalhando 25 anos na White Martins em gases especiais, é o que me faz ficar em gases especiais. Se eu tivesse sentido que eu estou vivendo alguma zona de acomodação, eu acho que eu não estaria feliz no que eu faço. E isso eu posso ver em diferentes momentos da minha vida. Eu passei por algumas situações, não profissionalmente, na vida pessoal e que eu tive energia para mudar. Então eu não tenho esse medo que “Ah, eu estou porque eu estou acomodada”. Não, não é isso. É porque realmente eu gosto, é a área que eu me identifiquei, é a área que eu continuo tendo pessoas que eu tenho muito prazer em trabalhar. Então foram pessoas que foram mudando ao longo do tempo, e que vieram pessoas mais jovens, pessoas ainda com mais experiências do que eu ainda. Então, fazem com que tudo isso se some e que seja muito positivo continuar trabalhando no negócio que eu estou. A ponto que as pessoas já falam: “A Ivana Gases Especiais, A Ivana White Martins”. Aquela coisa que confunde e que tem que ter um pouco de cuidado. Graças a Deus eu acho que eu já tenho esse balanço para saber até onde isso pode ir de forma saudável.

 

P/1 – Eu queria te perguntar um pouco sobre o projeto de mergulho. Como que é isso? Porque esse investimento agora da White nessa área e qual que é o seu trabalho com relação a isso, que gases que vocês estão propondo?

 

R – É eu vou comentar que isso é um pouco até... Tem um pouco aqui de estratégia. Eu sei que tem todo um cuidado em relação a isso. Existe uma estratégia ligada ao negócio. Mas é que o hélio é um produto que eu venho me dedicando muito nos últimos anos, começou na questão da ressonância magnética, quando eu fiquei com uma das pessoas que teve a responsabilidade pra fazer o reposicionamento da White Martins nesse segmento. Então eu venho trabalhando o hélio nesses últimos anos. Principalmente nos últimos seis, sete anos. E, o mergulho, no caso, quando nós falamos em mergulho, nós falamos de mergulho de alta profundidade que é a operação de mergulho que vai requerer misturas com hélio. Porque com determinada profundidade, o mergulhador não pode respirar ar, ar comprimido. Ele já vai ter que respirar uma mistura de oxigênio em hélio. E a mistura, ela é de acordo com a profundidade. Então se são mergulhos muito profundos, você praticamente substitui o ar por hélio, e coloca-se 2%, 3% de oxigênio pra vocês terem uma noção. Porque quando o mergulhador tá em trabalhos muito profundos, a pressão é muito grande. Então a pressão parcial de oxigênio no pulmão, ela tem que se manter igual a se ele estivesse respirando na atmosfera. Então a mistura que nós fornecemos é justamente para permitir que um mergulhador trabalhe naquela profundidade. Ele vai ter que ter uma condição de respiração próxima à que ele tem no ar ambiente. Então, os produtos são esses. Hélio, oxigênio, às vezes, nitrogênio para alguns tipos de mistura, mas principalmente oxigênio e hélio. Então esse é o produto que nós trabalhamos. E quando eu falo que tem toda uma característica, é porque o trabalho de mergulho é feito em condições às vezes bem difíceis. São navios que operam às vezes 60 dias direto. Os mergulhadores ficam ali enclausurados naquela célula de mergulho, e ele precisa ter uma confiabilidade muito grande porque o produto precisa. É pra respiração. Então, é primordial quanto oxigênio para respirar no hospital. É uma mistura de mergulho, é pra sustentar a vida. Então é um produto crítico dentro do processo, você tem que ter toda uma qualidade no produto, uma qualidade não só no produto, mas nos equipamentos. Os equipamentos, os cilindros, as cestas precisam ser projetados para serem içados nos barcos. Esse trabalho de içamento e carregamento desses navios, eles são realizados numa janela de tempo muito apertada. O navio chega, às vezes tem oito horas pra fazer toda a substituição dos insumos e pra voltar a operar. Eles têm às vezes oito, dez, 12 horas parado num porto, para receber todo aquele material, pra voltar pro alto-mar. Então isso tudo é muito estressante. Hoje nós não participamos desse mercado. Nós estamos verificando. Eu tive recentemente a oportunidade de visitar o estaleiro MacLaren. Um navio parado que estava sendo abastecido. Aí que você sente como é que é a vida daquelas pessoas que tão ali dentro trabalhando direto naquele turno, trabalhando naquela célula que vai realmente pro fundo do mar Aquele local muito apertadinho. Então você olha aquilo tudo, pra mim tá sendo uma experiência nova. Como foi a área de ressonância também. Quando nós começamos eu nunca tinha feito uma ressonância, aí fui aos primeiros laboratórios e aquelas salas de ressonância, aquela máquina de ressonância, aquela sensação que todo mundo falava. Então, esse trabalho que nós desenvolvemos no caso o mergulho que eu estou falando, é importante você viver o que é, como todos os negócios. Entender, desenvolver realmente o produto, os equipamentos que vão diferenciar a White Martins no mercado. Nós estamos contado com o apoio da Praxair, porque é um projeto global. Então isso faz com que a gente também esteja tendo um suporte grande. Só dificulta um pouquinho a entrada, porque tem que ser tudo muito formatado, muito desenvolvido antes de começar. Porque às vezes a gente tem certos projetos que nós vamos entrando meio conforme as coisas vão acontecendo, você vai formatando. Esse não dá, porque esse como já tem um conceito global, tem um parceiro global, ele está demorando mais pra começar. Porque a gente precisa ter todos os contratos definidos, tudo definido, tudo muito formatado antes do início. Mas, tá sendo uma outra experiência trabalhar com parceiro internacional, com apoio da Praxair. Estamos começando a participar dos primeiros BIDs, pra ver se nós vamos conseguir ganhar os primeiros negócios. Então, interessante. Bastante emoção. 

 

P/1 – Então, queria te perguntar em relação a esse mercado do mergulho. Você falou que está entrando em contato com as empresas de mergulho, tá tendo que adaptar a postura (risos)... Eu queria saber: vocês estão fazendo o contato direto com as empresas de mergulho ou no caso, por exemplo, com a Petrobras, que usa os mergulhadores? A relação é só com as empresas? Como é?

 

R – É, deixa eu te explicar. No passado, quando a White Martins participava desse segmento, a Petrobras liderava essa contratação. A compra do hélio era feita pela Petrobras. E durante muitos anos nós fomos fornecedores da Petrobras. Isso na época que eu entrei na White Martins, pra você ter uma ideia, foi anos atrás.Tanto é, que a nossa planta de hélio não ficava no Rio de Janeiro, ficava em Santa Cruz. Depois isso inverteu. A Petrobras passou a deixar a responsabilidade da aquisição desses insumos pras empresas que prestam esse serviço à Petrobras. E aí as coisas começaram a mudar um pouquinho, a forma de contratação. E a White, até por opção, acabou saindo desse mercado. Hoje, a nossa negociação está sendo direto com as empresas. Então são empresas, em geral empresas globais Você fala com uma Fugro, a Fugro é uma empresa com sede na Holanda. Aí você fala com uma Subsea Técnipe, ou então Saipem, que não é mergulho, mas consome produtos parecidos. São todas empresas hoje globais. O mercado mudou, principalmente nesses últimos anos, tem mudado bastante. Tem tido aquisições desses principais players mudando até com quem falamos (risos). Então tá bem dinâmico, pra mim esse projeto está sendo bem interessante. Está mexendo com algumas características minhas, algumas crenças, mas está me permitindo conhecer uma aplicação nova. Então está sendo interessante.

 

P/1 – Dá mais alguns exemplos de aplicações. Meio Ambiente, por exemplo, que você falou que trabalhou...

 

R – É, o Meio Ambiente, como eu comentei, tem a questão, nós fizemos trabalhos tanto na área de qualidade do ar, por exemplo, as primeiras estações de qualidade do ar, tanto em São Paulo com a CETESB [Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental], quanto aqui no Rio, na época ainda era a FEEMA [Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente] hoje é a INEA [Instituto Estadual do Ambiente]. Nós ajudamos os órgãos ambientais com a definição dos padrões, trazendo informações técnicas dos Estados Unidos. Nós fizemos acordos na época, nós fizemos, como nós não tínhamos esse conhecimento, nós fizemos um acordo com uma empresa dos Estados Unidos, a Scotch, que hoje faz parte até de um outro grupo, mas na época a Scotch era a Scotch Special to Gas. Nós fizemos um acordo de transferência de tecnologia, justamente para sermos capacitados a atender as demandas do mercado nacional. Então esse foi um trabalho, também como eu falei, muito rico porque nós aprendemos a entender o mercado ambiental nas suas diferentes áreas. Porque no mercado ambiental você tem: a parte de qualidade do ar, que são as estações de qualidade do ar, que você tem que controlar pra saber se os níveis de contaminantes atendem às legislações, você tem a parte de qualidade do ar fugitivas, que eles chamam, de emissões fugitivas. Por exemplo: você está numa refinaria e você tem um risco de um determinado contaminante. Aí você tem que fazer o controle daquele contaminante, tem um analisador específico, e daí você precisa de um padrão gasoso para calibrar e permitir que a análise dê uma qualidade adequada. Então o que é um padrão gasoso? O que nós desenvolvemos? Vou dar um exemplo: tem um método ambiental, que se faz uma análise que eles chamam de Bag. Recolhe uma amostra do ar durante um determinado período, uma determinada vazão para poder ser representativa, e você tem métodos em geral, que são muito baseados no EPA, na agência ambiental americana, que você tem possibilidade nesse método que pra mim foi pioneiro, nós temos que desenvolver um padrão pra isso. Na época, requeria 56 diferentes componentes num único padrão. Olha, fazer uma mistura com 56 componentes, e os componentes são assim: benzeno, metil-benzeno. Todos que seriam possíveis contaminantes de uma área industrial. Então você imagina ali na região do... Vou dar o exemplo lá de Cubatão. Que você tem aqui no Rio na região da Reduc, que você tem um ambiente que sobre o impacto de muitos processos industriais. E esses processos industriais, você tem um impacto tanto dos insumos, porque os insumos podem vazar, ou você pode ter escapes de tubulação, de tanques. E tem até a queima desses insumos, e da produção, durante o processo. Dependendo do processo, você pode causar impactos ambientais. Então você tem uma torrencial de contaminantes, e vários métodos que são utilizados para acompanhar a qualidade desse ar. Então, tanto numa indústria, quanto naquela área que circunda a indústria pra ver quanto que ela tá sendo afetada por aqueles contaminantes ambientais. Então, nós tivemos que entrar muito nesse trabalho. Muitos desses métodos são métodos que requerem. São métodos instrumentais analisadores, que requerem padrões gasosos para serem calibrados. O que a nossa mistura faz é como se fosse a régua, você não tem que medir, você não tem que ter a régua. Então, você não tem que ter a balança pra pesar. No nosso caso, o padrão gasoso, ele serve para checar se aquele equipamento que está fazendo a análise e está dizendo se: Oh, tá ok pra metano, tá ok pra benzeno, tá ok pra amônia, pra cloro, pra cianeto de hidrogênio, para “n” gases contaminantes que eles podem estar presentes naquela atmosfera. Tem o analisador, que em geral é específico para aquele gás, para aquele contaminante, e você precisa do padrão gasoso pra dizer: “Olha, a leitura”, realmente, se você passar o padrão, por exemplo de 100 ppms de monóxido de carbono e nitrogênio. Passou no analisador e ele deu uma leitura, você tem certeza que o seu equipamento está funcionando adequadamente. Fez a leitura no site verificou, deu lá 50 ppms, está dentro da faixa de leitura adequada do equipamento, então, o usuário, o químico, a pessoa que está responsável por aquela medição, fica confortável em saber que a medição que está sendo realizada, ela tem a qualidade adequada. E tem muitas legislações que definem qual é o nível de incerteza que você pode ter, qual o desvio que é aceitável, qual é o tipo de padrão que tem que ser utilizado. Tem métodos analíticos que requerem padrões, que são padrões que são chamados padrões internacionais, que tem que ser fornecidos com rastreabilidade a padrões de organismo e metrologia. Então, a nossa área é uma área muito técnica. Você começa a lidar com esse nível de discussão. Ah, você está falando em mais ou menos 1%, ou mais ou menos 5%. Aí quando você começa a chegar num nível de medição muito baixo. Porque você tem métodos hoje... Essa semana mesmo nós tivemos uma cotação, um pedido de cotação para uma mistura pra Embrapa, que era parte por trilhão. Eu vou falar ainda parte por trilhão, não é o que os metrologistas estão falando agora não, que os metrologistas já falam em outra terminologia, mas aqui pra nós, parte por milhão acho que é o que vocês identificam melhor. A mistura se for 50 partes por trilhão. Então são 50 partes do gás um trilhão de partes de alguma coisa que está diluindo aquilo. Então imagina. Nós fazemos uma analogia pras pessoas entenderem: você pega um litro de álcool e joga na Baía de Guanabara. O que é um litro de álcool jogando na Baía de Guanabara? Às vezes é isso que é o trilhão, o ppt. Então essa terminologia as pessoas falam assim: “Ah, a White Martins consegue fazer misturas em partes por trilhão?”. Conseguimos. Mas isso demanda pesquisa, nós temos um laboratório de desenvolvimento. Ao longo do tempo, como essas demandas de misturas com muitas...Vamos lá, características de projeto... Porque algumas misturas quando elas chegam e são solicitadas, nós não podemos fazer de pronto. Nós analisamos o pedido do cliente, o cliente divide conosco o que ele necessita, e nós analisamos aquele pedido internamente e verificamos se é possível desenvolvê-lo. Então começa uma tratativa com o cliente no sentido: “Olha, essa mistura aqui nós ainda não fazemos. Nós podemos desenvolvê-la, é um projeto de desenvolvimento. Pode dar certo ou pode não dar. De acordo?”. Se o cliente fica de acordo, às vezes nós fazemos um desenvolvimento. Se fosse fazer uma análise muito cuidadosa em termos econômicos, muita coisa que nós desenvolvemos talvez não fosse viável inicialmente, porque era o que? Um cliente precisando de uma mistura ppt. Mas muitas vezes, nós acreditamos que o segmento iria desenvolver e que aquilo que nós aprendemos com aquele desenvolvimento, vai permitir com que o crescimento da nossa tecnologia, que no todo vai se pagar. Vai ser economicamente viável. Então, essa é uma das coisas também que eu sempre fui muito entusiasta desse trabalho. Porque se eu fosse pra uma área que era “Ah não, só vamos fazer o desenvolvimento quando já tiver uma quantidade mínima de pedido. Tem que ter não sei quanto de retorno por ano”, alguns projetos sim. Alguns projetos que nós temos investimento nós temos que ter isso. Até porque nós temos célula de retorno, então tudo tem que ter retorno. Mas no desenvolvimento como pesquisa, que é isso que gases especiais têm, que realmente é uma das coisas que mais me atraíram ao longo desses anos todos, muitas vezes nós fizemos, sim, uma mistura para atender um cliente. Mas por quê? Porque nós aprendemos muito com aquilo. Nós aprendemos como tratar o cilindro, como produzir aquela mistura, como analisar daquela forma, como desenvolver um método de amostrar aquele produto, como injetar aquele produto, naquele equipamento para que aquelas moleculazinhas não se percam no meio do caminho, porque quando a gente fala em ppt, eu estou falando em molécula, isso é uma outra característica. E a área ambiental, ela permitiu que nós fossemos trabalhar com esses níveis de desenvolvimento. Foi muito interessante. Continua sendo. Tem muita coisa que a gente faz e continua fazendo, dei o exemplo agora da mistura da Embrapa, pra atender a área ambiental.

 

P/1 – Por conta de vocês lidarem com vários clientes diferentes, tem alguns casos pitorescos aí nessa tua caminhada, que você poderia contar pra gente de...

 

R – Olha, casos pitorescos nós temos muitos. Recente nós tivemos um que vinha um avião da Força Aérea Holandesa que ia parar, e o pior é que tem coisas que a gente nem pode falar muito, que ia fazer um trabalho, precisava de oxigênio líquido o mais rápido possível em um lugar, mas é lá em Salvador, e faz toda uma operação pra mandar uma quantidade mínima porque tinha que o avião ia parar lá, naquele momento, naquela hora. Então esse é uma coisa bem recente. Outra foi quando a Petrobras desenvolveu aquele combustível pra Fórmula 1. Acho que foi da Williams, se eu não me engano, mas estou meio esquecida, e na época eles pediram uma série de produtos, porque era um desenvolvimento, aquele coisa assim, a sete chaves o segredo. E que eles tiveram que colaborar também. Como nós estamos muito ligados à pesquisa muitas vezes os clientes, eles vêm com demandas que imediatamente a gente não tem como atender. Eu dei o exemplo aqui. Vou dar o exemplo de um outro gás que foi complicado, o silano. Silano era um gás que a gente sempre olhava pra ele assim na nossa relação de produtos pedindo que nunca ninguém quisesse comprar. Porque era o pior assim dos gases, sabe? (risos). Porque nós temos a classificação dos grupos de risco pra cada gás e o silano era um daqueles que ficava assim: pirofórico. Eu falei assim: “Meu Deus do céu, pirofórico, ele entra na ignição espontaneamente. Tinha uma restrição dentro da política da Praxair pra comercializar silano, uma série de requisitos. Até que um cliente resolveu fazer um processo industrial que precisa de silano pra produção de vidro. Aí, chega o pedido, aí um olha pro outro, outro pro outro, aí fala assim: “Não podemos fornecer hoje, porque não temos como armazenar, como transportar, como importar”. A primeira coisa, a primeira vontade era dizer pra trazer a quantidade pequena, porque na produção de vidro é uma quantidade relativamente pequena, não é aquele insumo que você vai trazer toneladas, que inviabiliza qualquer investimento, porque você vai fornecer toneladas. Nós estamos falando de cilindros. Fornecer oito cilindros, dez cilindros por ano. E que o custo de preparar a nossa unidade, tanto em Osasco, que é a nossa principal unidade no Brasil, quanto a unidade próximo do cliente, pra armazenar o silano, já seria um desafio. Mas a gente se cobra isso. O nosso grupo tem essa característica. Cada solicitação dessa, é o motivo da nossa existência. Porque na verdade, o que são gases especiais? É uma relação de gases enorme, que muitos nós produzimos e muitos nós importamos e muitos nós corremos atrás pra descobrir de quem importar quando alguém pede. Muitas vezes a gente nem sabe, nem conhecia o produto, aí chega um determinado pesquisador que aparece com um produto que você não conhecia, a gente se sente motivado a buscar. Então esse caso do silano foi bem interessante, porque na época gerou muita discussão interna. A primeira posição foi negativa, que não era pra fazer. Aí falamos: “Como, eles são nossos clientes... O cliente é todo nosso, o cliente está dependendo da White Martins para fornecer. E nós vamos ficar do lado confortável? Não vamos ficar, não. Que é pra fazer? Como é que nós vamos fazer? Que precisa?”. Aí consegue autorização de um, consegue autorização do outro, aí traz as normas internacionais pra cá, aí vê quanto custa capacitar internamente, quanto custa mandar o produto de Osasco direto pro cliente. Outra coisa: faz conta, e apresenta direto ao cliente. Se o cliente pagar em cima disso tudo, nós vamos fazer, mesmo que seja pra um cliente. E assim tem sido a nossa trajetória. Eu entendo o seguinte: todas as demandas de gases no mercado nacional, elas passam pela White Martins. Recente, nós tivemos a mesma situação, o que gerou discussão internamente, até chegarmos à conclusão que: vamos levantar todos os custos e se o cliente precisa daquele produto nós vamos apresentar. E se ele der o “vamos”, nós vamos fazer. Porque ele depende da White Martins. É como se a gente sentisse, e nós sentimos isso... A responsabilidade nessas pesquisas, nesses trabalhos, nesses processos industriais. Porque o cliente, ele tem dificuldade de fazer uma importação. Mesmo que você pense assim: “Ah, mas uma empresa que já está acostumada a trazer, importar seus insumos”, muitas vezes eles importam, mas são líquidos, são sólidos. Lidar com gás, tem uma tecnologia própria. E tem muito cliente que não quer assumir a responsabilidade de importar diretamente o gás. Então, quando a gente para e pensa assim: “Não, nós vamos frear um desenvolvimento, vamos dificultar uma pesquisa, muitas vezes uma pesquisa na área médica. Recente, um médico nos pediu, aí nós olhamos pra um lado, olhamos pro outro, pensamos na Anvisa, agora tem a medicalização. “Ah, nós não vamos fornecer, porque tem que ter registro, porque é um produto que vai ser médico”. E aí, nós decidimos botar a responsabilidade no cliente. “Não, se vocês tiverem a possibilidade de utilizar o produto, mesmo que ele ainda não seja registrado, porque ele é médico porque ele está fazendo parte de uma pesquisa médica, se você tiver como trazer isso pra White Martins, nós vamos viabilizar esse fornecimento”. Mas ele tem que atuar conosco, porque agora nós vamos ter que ter cada vez mais esse cuidado. Os gases especiais utilizados na área médica, nós temos agora o processo de medicalização dos gases. Então, antes nós tínhamos todo um cuidado, já tínhamos esse cuidado, mas ficava muito dentro de um protocolo que o hospital apresentava. Hoje, nós temos que ter o protocolo que o hospital apresentar de pesquisa, mas ainda temos que ter mais esse cuidado, porque nós não podemos fornecer um produto fora do que existe de legislação. Então, é uma outra realidade. Nós lidamos às vezes com pesquisas... Uma vez me pediram: “Ah, eu preciso de H2S, que é sulfeto de hidrogênio, pra fazer um trabalho de hibernação”. Um médico lá no sul. Aí eu: “Hibernação? Como é que é isso?”. Eu fui entender como era o trabalho, ele me mandou a tese, que não sei o que. Eu fiquei assim: “Vou ter que pedir autorização pro mundo pra eu poder fazer esse fornecimento”. Depois acabou que o profissional, ele voltou para os Estados Unidos, talvez tenha tocado a tese dele lá. Mas é assim. Pitorescos são estes casos. Tem muitos. E que nós sempre procuramos olhar com carinho. Porque nós já tivemos situações de pessoas no início de determinados processos que nós tivemos que contribuir de uma forma muito intensa. Então, imagina você ser acionado por um pai de uma criança que estava correndo o risco de ficar cego... Desculpa ... (pausa) ... E precisava fazer um procedimento que precisava de hexafluoreto de enxofre, na época. E que ficou aquela coisa: “É um produto novo”. Ninguém conhecia, mas um médico se responsabilizava e nós tínhamos o produto, mas não era grau medicinal, era grau industrial, mas era maior pureza, pois era um produto grau eletrônico. Então em termos de pureza não tinha risco, porque era até um grau superior, mas não existia a especificidade da aplicação. Mas o que a White Martins fez? Ela teve todos os cuidados em termos jurídicos da aplicação. Mas, a gente se sente responsável, porque tem uma pessoa precisando de um produto que na época ninguém conhecia, ninguém tinha conhecido a aplicação, mas que nós tínhamos a possibilidade de atendê-lo, com todos os cuidados necessários à aplicação. Então eu acho que essa sempre foi a nossa postura.

 

P/1 – Nesse caso, o...

 

R – É porque tem um processo que na época se usava muito. Não no Brasil, ainda era muito novo isso. Mas, pra descolamento de retina, existe uma técnica que se coloca hexafluoreto de enxofre, que é um gás pesado pra fazer ali como se fosse aquele preenchimento do espaço, onde está descolada a retina, até que ela comece a cicatrizar evitando o descolamento definitivo da retina. Então, nesse início, isso tudo era muito novo pra todos. E quando nós fomos acionados, eu nem tinha tanta interface com o grupo de medicinais na época. Mas, no caso, como eu era de gases especiais, eu acabei sendo envolvida porque começou aquela coisa: “Não, temos que fornecer hexafluoreto de enxofre, e eu nunca tinha ouvido falar na aplicação, vieram me pedir”. Aí eu falei assim: “Não, eu tenho o produto, mas como é que nós vamos fazer?”. E teve toda aquela questão, e tudo muito rápido, porque são decisões que tem que ser tomadas de forma quase instantâneas porque o cliente não era próximo, era distante, tinha que deslocar o produto ainda. Então tivemos várias situações como essa. Agora nós estamos desenvolvendo outro produto, que é com hélio, que eu também estou envolvida com hélio que se chama hélio-oxi. De vez em quando, agora não, que nós já começamos a ter o processo de desenvolvimento, as coisas já estão bem mais definidas, mas no início do desenvolvimento, chegavam aqueles pedidos: “Ah, estou com uma pessoa internada, preciso”, o médico: “Tenho aqui a opção de usar o hélio-oxi pra melhorar as condições do paciente, porque diminui o esforço respiratório”. É isso que o hélio-oxi faz, na verdade, substitui o ar, e como o hélio, ele é uma molécula leve menos denso, ele faz com que o fluxo do que está sendo respirado deixe de ser turbulento e se torne laminar. É isso que o hélio-oxi faz. Ele não tem nenhuma outra condição físico-química. No caso, é dinâmica de fluídos. Mas, funciona muito bem. Porque enquanto o paciente está numa crise de asma, uma crise que ele está realmente com esforço respiratório, ele não está conseguindo reagir bem a outros tratamentos. Então, muitas vezes o hélio-oxi ele é coadjuvante para os tratamentos convencionais de insuficiência respiratória. Nos primeiros casos que surgiram de emergência pra pedido de hélio-oxi foi um “Deus nos acuda”. Começa um médico pedindo hélio-oxi. O que é hélio-oxi? Não tem hélio-oxi, não tem estoque, faz correndo e manda pra Porto Alegre, porque os casos às vezes mais críticos são no sul durante o inverno. Paciente. Depois você sabe: “Ah, paciente reagiu rapidamente, o médico manda agradecimentos, os pais mandam agradecimentos, que em geral são pacientes pediátricos. Então, isso tudo é uma gratificação tão grande, é um trabalho que eu também tenho me envolvido nos últimos anos e que eu particularmente, em diferentes momentos, a empresa optou por não realizar esses desenvolvimentos depois voltou, e hoje, graças à Deus estamos desenvolvendo. Eu sinto muito isso. É a responsabilidade da White Martins em proporcionar esses produtos, pra que esses desenvolvimentos aconteçam. Porque senão, como é que um médico vai desenvolver um gás, ou uma mistura gasosa que ele entenda que tem uma função que vá melhorar a condição do paciente dele e nós não fornecermos. Não tem como.

 

P/1 – Eu estou imaginando aqui que a tua área é como se fosse um pronto-socorro. 

 

R – (Risos)

 

P/1 – Além de precisar assim de várias equipes juntas, porque você precisa de várias autorizações. Você precisa de várias equipes ali, tem que resolver rápido. Então não é sozinha você não consegue...

 

R – Ah não! Isso não. Nós não estamos falando... Eu estou trazendo aqui os casos, mas eles acontecem o tempo todo e descentralizados. Porque você tem sempre a unidade mais próxima como responsável pelo cliente mais próximo é que recebe essa primeira solicitação. Muitos casos, nós já temos processos pra que eles sejam atendidos. Agora, quando você tem, por exemplo, um produto novo, aí sim, um produto novo que nós não temos estoque, nunca comercializamos, esse acaba chegando. Chega aqui no Rio, chega na matriz, como a turma fala. Porque esse vai ter que passar por um desenvolvimento de um produto, ou desenvolvimento de aplicação. Mas essas situações de emergência, que são produtos que nós já fizemos ou que podemos fazer, acaba o responsável comercial, ele vai direto com o pessoal de Osasco. Misturas são todas produzidas em Osasco, centralizadas. Então, existe todo um acordo com Osasco, pra saber se existe a possibilidade de atendimento, e todo um esforço pra que isso aconteça. Então, se for, por exemplo, em Belém: “Ah, Belém precisa de uma mistura urgente”. Ou por questão de processo industrial ou por questão medicinal, mas precisa que esse produto chegue rapidamente em Belém, nós temos a opção até de embarque aéreo. Nós usamos a possibilidade de embarque aéreo, porque é difícil você ter um país como o nosso de distâncias enormes, e nós termos uma planta de gases especiais, uma planta mais completa e que fica em Osasco, e que todas as misturas são produzidas lá. Então, quando você tem uma situação, que o cliente, por algum motivo, ou porque não se programou, não fez estoque, ou porque surgiu uma necessidade específica, ou porque é uma situação medicinal, que houve o entendimento de um pedido de um produto que ele não consumia. Então, aquilo é feito, praticamente sob demanda. Por isso que nós falamos, é quase artesanal. É aquela questão do ateliê da alta costura, que é feito de acordo com o pedido do cliente. Agora, é claro que nós temos uma série de produtos que são de prateleira. Até porque ninguém consegue trabalhar como pronto-socorro (risos) não daria. É que você me pediu casos pitorescos, eu trouxe algumas situações que realmente, nós vivenciamos. E que são interessantes. É que hoje nós temos muito mais cuidados. Por uma série de motivos, nós temos muito mais cuidados no tratamento dessas necessidades. Até por essas questões de legislação, até pela questão da Praxair. Tem produtos, que são até restritos de comercialização. Então pra comercializar você tem que ter licenças. Nós temos produtos que são controlados por questões... Ah, tem produtos que participam, digamos, de formação de artefato explosivo. Então, se esses produtos participam da formação de artefatos explosivos são controlados, o Ministério do Exército... Então, tem que ter às vezes licença. Às vezes pra nós começarmos alguns desenvolvimentos, como eu falei, que nós fazemos pesquisa dentro de Osasco, o primeiro cuidado que nós temos é entender se aqueles produtos tem que ter licenças específicas. Porque amônia, por exemplo, é um produto que tem que ter licença. Ou, vários outros que nós comercializamos, tem que ter licenças específicas, pelas características do produto. Então, até isso tem que ter. Como eu falei, o nosso grupo, o que é interessante do nosso negócio, é que existe uma integração muito grande entre a parte comercial, o grupo de marketing, de vendas e o nosso grupo de Osasco, que é o grupo técnico, que é o grupo de produção, de desenvolvimento. Nós realmente ao longo desses 20 e tantos anos, nosso negócio, acho que nós faremos 35 anos, se eu não me engano. Estou tentando me lembrar quando. Daqui a dois anos. Então, ao longo desses anos todos, o que eu acho que foi fundamental e que tem que continuar existindo, é a integração entre a área de negócios, e a área técnica em Osasco, de quem está realmente lá, produzindo a mistura, confeccionando a mistura. Amanhã mesmo, eu vou receber o nosso gerente de Osasco, nosso gerente técnico, pra ir ao Inmetro, pra discutir já algumas... Nós estamos enxergando a necessidade de desenvolver alguns trabalhos e que o envolvimento do Inmetro é importante, porque o Inmetro é o nosso organismo metrológico. Então nós temos que trazer o Inmetro pros nossos trabalhos. A gente precisa envolvê-los. E são processos que nós já estamos desenvolvendo há bastante tempo. Nós fomos uma das primeiras empresas a ter parte também de ISO 9000 na época, quase nenhuma empresa tinha, mas até pelas características do nosso trabalho nós tivemos que ter essa parte de qualidade. Nós embarcamos na onda da qualidade bem no início, até pela característica da nossa linha de produtos.

 

P/1 – Você citou também de importação de gases. Como é que é importar gases de outros países?

 

R – Olha, isso eu posso falar de cadeira, porque no meu início lá de carreira eu cheguei a ficar responsável durante um tempo, não pelos procedimentos de importação, mas por ser o link entre o grupo de negócios, que eu era do grupo de negócios e o grupo de importação da nossa empresa porque realmente é complicado. Você primeiro tem que saber quem é o fornecedor, se o fornecedor tem as características dos gases que você necessita. Se a embalagem, se a quantidade que eles comercializam atendem às nossas necessidades. E aí, tem que verificar as restrições. Tem produtos que não podem ser embarcados por via aérea, então vai levar mais tempo, você sabe que vai ter que ser por via marítima. Tem produto que não voa. Existe restrição de vôo. Então tudo isso a gente precisa acompanhar. Então, hoje, pra você ter uma ideia, dentro do nosso grupo, a importância dessa função de importar produtos, porque se for analisar os gases que a White Martins produz principalmente os gases do ar, mais hidrogênio, CO2, é limitado. Os outros, ou nós ou comercializamos aqui interna... Quer dizer, adquirimos de outros fornecedores, de processo... E comercializamos... Compramos granel e fazemos toda a transferência pra cilindros pra atender ao mercado em pequenas quantidades. Então é isso o que nós fazemos com alguns produtos que são produzidos no Brasil. E fazemos purificação. Nosso grupo de desenvolvimento, ao longo do tempo também, substituiu muitos produtos que nós importávamos, pela importação ser difícil, sempre foi. Sujeita à greve, sujeito aos despachantes também às vezes, mas sujeito ao fiscal. Às vezes chega, o fiscal fala assim: “Não, esse produto aqui eu não quero que fique nesse local de armazenagem. Tem que ficar numa área remota, pela característica do produto”. Então, sujeito a todo tipo de dificuldade. Importação. E gás não é muito diferente disso não. Por exemplo, um dos principais temores meus é na importação do hélio. O hélio é um produto que além da importação ser difícil, até pra te responder como é isso. O hélio ele é importado num container na forma líquida e que ele tem um tempo que é como se fosse o seguinte: o tempo de vida dele. Ele tem que chegar ao Brasil em 32 dias, 35 dias tem que estar sendo desembaraçado. Desde que ele foi produzido... Desde que ele foi cheio, desde quando esse container foi cheio lá em Osasco, lá nos Estados Unidos, até chegar em Osasco, ele tem que ter esse período de tempo, porque senão, todo aquele hélio que vaporizou ao longo do trajeto, até chegar ao Brasil, ele aumentou tanto a pressão dentro do container, que a válvula de alívio vai abrir, e tem que abrir, porque senão vai estourar. Então é melhor que abra. Então, a importação do hélio, que é um dos produtos que nós importamos em maior quantidade, porque o hélio é importado. Todo o hélio consumido no Brasil é importado, porque nós não temos hélio no Brasil. Nós temos um controle enorme dessa cadeia de suprimento. Desde a importação da Praxair que vem lá de Kansas, até chegar em Osasco, nós controlamos isso com muito cuidado, porque nós já tivemos muitas surpresas, surpresas desagradáveis. Um navio que era pra chegar em Santos passou direto e foi parar em Buenos Aires,aí com isso 40 dias, tivemos que mandar um profissional nosso lá pra Argentina, pra poder fazer os procedimentos de alívio de pressão, pra diminuir a perda do container. Já tivemos produtos vazando dentro de navio, e provocando danos no navio. Nós tivemos todos os tipos de situações. 

 

P/1 – No caso do hélio, ele vem de navio dos Estados Unidos?

 

R – Vem de navio. Ele pode vir de avião, mas em quantidades pequenas. Daí são equipamentos menores. Podemos trazer, se tivermos alguma dificuldade na cadeia. A regular, que é a do navio, e se tivermos que trazer alguma coisa emergencial dos Estados Unidos, vai ter que ser via aérea, mas são containers bem menores. Enquanto trazemos no navio containers com 27 mil metros cúbicos num avião nós conseguimos trazer um container com no máximo 3 mil metros cúbicos. É o que a gente consegue trazer no avião, até porque o custo do frete aéreo é muito alto.

 

P/1 – Posso fazer uma pergunta aqui? Eu to muito curiosa, Talvez você nem possa responder, Ivana (risos). É assim: você comentou da questão do gás ser usado até pra algumas coisas como explosivos. Teve alguma vez da White Martins receber algum pedido que fosse contra a ideologia da empresa e que vocês tiveram que recusar e falar: “Não, a gente não quer produzir pra esse tipo de situação”, ou que talvez teve algum conflito entre os interesses econômicos e políticos brasileiros com o da controladora, que é outro país, enfim,  aconteceu alguma vez?

 

R – Não, olha só. Para nós é o seguinte: a gente sempre teve desde que eu tive essa responsabilidade de acompanhar essa parte de aplicações, uma das preocupações nossas, muito grande, é saber realmente qual é o uso porque existe a questão da co-responsabilidade. Desde sempre nós falamos disso na empresa do cuidado na aplicação dos nossos produtos. Então tem alguns produtos hoje, que nós já sabemos que existe um potencial de má utilização. Então, por exemplo. Vou dar um exemplo de óxido nitroso: tem alguns motores que trabalham com óxido nitroso para aumentar o poder, a potência do motor. E isso é uma aplicação que a Praxair restringe, mas nós tivemos solicitação de algumas empresas que fazem esse envenenamento do motor, pra ele dar uma resposta mais rápida, pra corrida. Para determinados tipos de corrida, e que nós somos categóricos: “Não, nós não podemos fornecer, e por causa dos riscos e por ter aí o cuidado de relacionar o nome da White Martins com um potencial problema”. Outro caso por exemplo, é com questão de fly balloon. Nós temos uma linha de gases, que é para balões promocionais. É o hélio. Mas pra fins promocionais, ou então fins científicos, que tem alguns balões desses que são usados pra fins científicos. Mas, a maioria é pra balão promocional. Balãozinho, de festa de criança, ou pra balões maiores, blimps. E teve aquele caso do padre lá no sul nós fomos consultados para aquele fornecimento. E na época, nós negamos porque existia um risco. Nós não sabíamos o que exatamente ele ia fazer, aí acabou dando no que deu. Infelizmente, foi muito triste. Eu nem tomei conhecimento. É isso que eu estou falando, é uma situação que acontece dentro da própria região. A região foi consultada ela mesma tomou a decisão pelo não fornecimento, porque sabia no que iria ser utilizado e fez com que a empresa ficasse protegida naquele episódio. Porque por mais que você não diga: “Ah, mas você associa. Ah, balão, balão cheio com gases da White Martins”. Então isso é um cuidado que a gente tem que ter. É claro que a gente sempre sabe: a co-responsabilidade vai até um certo ponto. Existe também a questão do uso indevido do produto. Isso aí tem todo um cuidado. O nosso jurídico, eles esclarecem muito bem e ampara muito bem o pessoal de negócios pra tomar a decisão corretamente. Mas eu entendo que tem certos casos que a nossa força de venda está muito bem preparada para isso. Hoje esse cuidado de saber em que aplicação o produto será utilizado, ele é muito forte. E que está cada vez mais, porque é uma coisa que a gente sempre, principalmente em gases especiais. Porque em gases industriais, aí já é muito mais comum. Você sabe que um acetileno vai para uma solda, vai para um processo de solda. Agora, de vez em quando a gente vê o nome da White Martins associado a situações que são ruins, mas que independem da empresa. Essa questão desses casos que estão tendo em São Paulo desses caixas eletrônicos e que muitas vezes são arrombadas, tem um produto da White Martins, é um maçarico e tudo, e você vai ver depois, tá lá. Mas esse realmente não dá pra saber porque é comprado por uma pessoa que tem a possibilidade de utilizar, é um produto que às vezes está em revendas, de uma forma muito aberta, um produto de varejo e você tem isso. Mas em gases especiais, a gente tem que controlar mais. A gente poder controlar, e deve controlar mais esse uso indevido do produto.

 

P/1 – Ivana, e hoje no teu dia a dia, o que você faz nas horas de lazer? 

 

R – Olha, eu tenho um filho de nove anos. Acabou de fazer nove anos. Então eu confesso que nos meus últimos anos, eu tenho (risos)... Como eu também trabalho muito, eu viajo muito, as horas de lazer ficam muito pra ele. Então eu tenho tido oportunidade de vivenciar lazer com uma criança de nove anos. É muito cinema, é muita praia. Agora já entramos na fase de muita festinha, quase todo final de semana eram festinhas atrás de festinhas. Agora já melhorou um pouquinho, porque já começa a levar e buscar. Comecei a ter um pouquinho mais de tempo pra um cineminha com meu marido novamente. Mas eu não reclamo não. Primeiro porque foi uma coisa, eu já comentei aqui. A minha maternidade foi um pouco adiada, por uma série de motivos, e agora o que me dá mais prazer realmente, é estar com meu filho e com minha família. Então, eu vivencio muito é lazer com meu filho. Mas eu adoro ir à praia, viajar é o que eu mais gosto. Ir a shows de música é também pra mim... Eu tenho feito menos, porque aí tem que fazer todo um esquema: pede pra mãe ir, mãe ficar, sogra ficar. Aí eu prefiro não fazer tanto por querer ficar com ele. Então, o lazer está um pouco limitado nesse aspecto. E ainda tive um filho que não gosta muito de ar livre, gosta de ficar dentro de casa, aí está me dificultando um pouquinho (risos). Mas não vejo a hora de voltar a fazer caminhadas, que é uma das coisas que eu adoro, sabe? Fiz muita caminhada, visitei muito lugar legal, que eu espero poder voltar. Se não for com ele, será com meu marido, porque estou só esperando ele crescer mais um pouquinho pra poder voltar. Então já tenho uma lista de lugares que eu quero retornar, e os que eu quero ainda visitar. Mas é principalmente isso.

 

P/1 – Então o filhote não gosta de viajar muito?

 

R – Não, viajar gosta. Mas ele gosta de viajar numa de conforto total. É impressionante. Se for resort, pra ele... Não, eu estou falando assim: “Ah, eu quero ir pra praia. Vamos combinar as férias de janeiro”, já combinei, está combinado. Aí ele: “Mas não, mamãe, eu quero ficar na colônia de férias com meu amigo”. Eu disse: “Filho!”, “Mamãe, eu já não quero mais ir à praia, eu quero a piscina”. É Sauípe, sabe? É Beach Park, é aquele lá de Goiânia, Caldas Novas. Ele fica assim: “Mamãe, qual o resort que nós vamos agora?”, Na praia ele não quer chegar, sabe? Na praia do resort. Ele quer ficar ali nas brincadeiras. Eu falei: “Ai, meu Deus do céu, eu criei um monstro!” (risos). Mas, não tem jeito. Tem que respeitar cada personalidade. Ele fica lá, arma um esquema “eu vou”, então... Mas é gostoso. É aceitar. Eu tive a oportunidade de fazer a minha vida, de fazer a minha história. Então tem que deixar. Ele vai descobrir. Vai chegar um momento que ele vai sentir a necessidade, vai ter a vontade de passar o carnaval na Serra do Cipó, como eu passei, no meio do nada, não vendo nada, não ouvindo nada. Ir pra Fernando de Noronha e achar que é o lugar onde você quer ficar pro resto da sua vida, sabe? Então um dia, eu espero que ele realmente se identifique com isso. Mas eu não posso contar isso por ele. Ele que vai ter que vivenciar isso e descobrir isso, entendeu? E eu falo. Eu já pude viajar bastante, eu já pude passar por uma série de situações, profissionalmente, isso me enriqueceu bastante. Situações que eu não pude viver antes, até pela minha... Como eu contei. Eu fui nascida em subúrbio minha família não foi assim uma família que eu tive muitas oportunidades sociais, quer dizer, aquela coisa mais simples. Mas profissionalmente eu tive graças a Deus, uma série de oportunidades, e muitas vezes sozinha. De ir pra vários lugares, fazer viagem de um mês indo pra um lado, pro outro, cruzando Europa para os Estados Unidos, e ficando um mês viajando, falando com várias pessoas que você não conhecia, meu lado tímido sendo desafiado. Mas eu acho que você vive tudo isso. E eu, o que eu tenho procurado fazer com ele do lado mãe, por mais que você tenha, sempre querendo auxiliar orientar, mas eu entendo o seguinte: é ele que vai ter que encontrar as respostas pra ele. Tem horas que eu lamento, porque eu gostaria realmente de tê-lo nas caminhadas comigo, mas eu começo a voltar a fazer aquilo que eu gosto, que eu acho que já foram oito anos lambendo a cria que foi muito esperada, mas agora eu tenho planos de voltar a estudar, aí eu vou me assentar um pouco mais. Esses últimos dez anos foram em função da maternidade. Mas eu agora sinto vontade de voltar a estudar, quero voltar e ano que vem. Já está decidido. As viagens, cada vez mais. Agora eu começo a viajar com meu marido. Então ele ter o momento dele também. Eu não vou me sentir culpada por estar deixando. Eu já fiz duas semanas, vou fazer um mês. Ele sabe que ele é amado mais do que tudo. Mas que eu também tenho meu espaço. Essa é a forma como lido. É a forma como eu fui criada pelos meus pais. Por mais que eles não tivessem tanto diálogo assim, porque naquele momento, naquela época não tinha tanto diálogo assim. Mas eles sempre me permitiram fazer as escolhas que eu quis. Então isso pra mim ficou como um valor muito forte. É o valor da transparência, é o valor de você ser o que você é. E eu sou assim. Com os acordos que eu tive que fazer, com os parceiros que eu tive que trabalhar com as empresas, com os clientes. Eu acho que eles reconheceram na forma como eu trabalho, na forma como a White Martins trabalha, confiança. Então, eu acho que um dos grandes valores que nós passamos e que eu também ajudo a passar pela maneira como eu lido com as coisas, é a confiança de trabalhar com a White Martins. Porque sabe que realmente, nós vamos... Como é que eu posso dizer? Não vamos medir esforços pra conseguir atender aquilo que realmente a gente entende que é importante, e que precisa ser atendido.

 

P/1 – O que você acha que mudou? O que o futuro dentro da tua área tem pra mudar, ou até pra acrescentar dentro da White Martins? Que olhar que a empresa tem nessa direção?

 

R – Como eu comentei. Nós sempre estivemos associados ao desenvolvimento do Brasil. Toda vez que o Brasil desenvolvia um novo segmento e que esse segmento traz oportunidade em gases, a White Martins e gases especiais vem junto. E nós sempre tivemos a oportunidade de estar praticamente liderando esse processo. Porque muitas vezes quando vem “Ah, o Brasil está melhorando um processo de determinada produção, precisa ser competitivo internacionalmente. Então, precisa adotar padrões internacionais”. Toda vez que fala em melhoria de qualidade, alinhamento tecnológico internacional, e que isso traz oportunidade na área de gases, vai trazer pra gases especiais também. Hoje, o segmento petroquímico é fortíssimo, está muito forte e pra gases especiais ele é muito forte. Então, nós sabemos que todos os projetos que estão acontecendo e que vão trazer muitos negócios nos próximos anos, nós vamos ter muitas oportunidades. O segmento para área de serviços analíticos. Nós entendemos que nós temos hoje uma capacitação na área de gases tão grande e que nós sabemos que tem tantas empresas que dependem de suporte técnico para melhorar os seus processos, que nós estamos fortalecendo a nossa área de serviços analíticos. Nós temos um grupo de pessoas que estão prestando serviços analíticos ao cliente. Isto é, suporte na consultoria de gases. O cliente precisa fazer uma determinada análise e que tem dificuldade, porque é uma análise de campo, tem que fazer uma coleta de gás que não sabe como, não sabe como mandar aquela amostra pra ser analisada, não sabe quem faz, não sabe quem pode apoiá-lo no método a ser utilizado. Então, isso nós podemos fazer. Então, uma das áreas que nós pretendemos e estamos fortalecendo na nossa diretoria que é de Package, é a área de Serviços Analíticos. No caso, o grupo de serviços analíticos está ligado também ao grupo que eu trabalho, que é o grupo do Marcos Porto, é o grupo de marketing de gases especiais, segmento que nós chamamos de White Lab que é o que vai até o cliente e que ajuda o cliente nas análises, que dá suporte. Isso também é um dos nossos focos. E complementando, olhando a parte industrial. A parte como eu já falei petroquímica, falei de mergulho, a parte de médica a parte de hélio líquido, nós temos uma oportunidade ainda muito grande de crescimento. Eu acho que o trabalho que nós fizemos nos últimos anos de reposicionamento, ele foi forte nos acordos com os fabricantes de equipamentos, mas foi ainda tímido no mercado final. Eu acho que tem muitas empresas ainda que desconhecem que a White Martins fornece hélio líquido pra ressonância magnética, de imagem. Incrível que pareça, mas é porque nós fizemos um trabalho de reposicionamento, voltado às parcerias com os principais players, que são os fabricantes de equipamentos. No caso, nós tivemos como cliente ao longo desses anos, a GE e Philips os principais, e outros também, mas menores. Os dois principais são GE e Philips. E não tivemos naquele momento recursos pra ir pra ponta. Fizemos um trabalho que eu considero nos últimos anos foi importante, nós crescemos nas pontas, fizemos todo um trabalho de formatação desse projeto, mas ainda pequeno. Nós estamos começando agora um outro patamar, que é começar as negociações com as redes de clínica de imagem. Redes como lá em São Paulo que era Fleury, agora juntou-se com a Mais Diagnóstico. Aqui no Rio, tem a rede Dasa também. São redes de laboratório de imagem, que nós ainda não temos nenhuma rede dessas como cliente. Então, esse é um outro desafio, e essa é uma oportunidade pros próximos anos de trazermos um projeto de serviços na área de ressonância magnética que a Praxair tem nos Estados Unidos, pro Brasil. Então, uma outra estratégia de crescimento. E além das aplicações medicinais, como eu falei anteriormente. Tem o hélio-oxi que está em desenvolvimento, o óxido nítrico, que nós entendemos que é um gás que já teve a sua curva de crescimento forte de aplicação na neonatologia, mas que depois já tem uma presença forte na área cardíaca e que pode aumentar em outras áreas e crescer dentro dessas áreas que eu mencionei, porque tem estados no Brasil, que não tem maternidade com óxido nítrico pra oferecer pra neonato, que pra mim é muito difícil aceitar. Existe a tecnologia, existe a possibilidade de salvar uma vida de um neonato utilizando a aplicação mais adequada, e acaba-se utilizando outras técnicas, por não dispor... Não é a questão da White Martins. A White Martins pode levar o produto pra onde for necessário. São os médicos locais que ainda não se sentiram preparados pra utilizar a técnica. Então eu acho que nós podemos contribuir muito ainda, pra o desenvolvimento de algumas aplicações terapêuticas de gases no Brasil. Então, eu entendo que nós temos oportunidade fortíssimas na área industrial, na área médica, e na área de prestação de serviços, na área de pesquisa, área acadêmica. Eu entendo que as oportunidades na área de gases pra White Martins são muito grandes ainda, porque tem muitos projetos que acontecem lá fora de melhoria de medição e que eu entendo que ainda são incipientes no Brasil. Isso vem naturalmente com o desenvolvimento do país. Isso virá nos próximos anos. Eu não tenho dúvida que o que nós prepararmos agora... Por isso que nós olhamos com tanto cuidado pra esse grupo de desenvolvimento dentro de Osasco. Preservar isso, pra mim, é fundamental. Preservar essas pessoas, que tem esse conhecimento técnico dentro da empresa, talvez seja um dos principais... Como eu posso dizer? Eu me sinto responsável, junto com o Marcos Porto e com as pessoas que são hoje do grupo dentro da área de Produção, da Diretoria de Package, em preservar esse conhecimento dentro da empresa, o que tá sendo muito difícil. Não tem sido fácil preservar esses talentos, essas pessoas dentro do negócio. Então essa eu vejo hoje que na área de Gestão Pessoal nós precisamos ter esse olhar, porque as demandas do mercado, elas virão. Elas vêm e continuarão vindo. Nós precisamos ter certeza que nós estaremos realmente capacitados. Eu acho que eu tenho mais cuidado com essa parte, do que com a parte de mercado. Eu acho que no passado sim, nós tivemos muitas dificuldades, muitos momentos difíceis de cenários econômicos, de cenários de incerteza, de crises. Quantas nós passamos. E passamos por todas, sempre crescendo. Sempre crescendo. Então eu acho que agora, não só em gases especiais, mas na White Martins, e eu acho que isso deve estar sendo falado por todos. O olhar de quem tem um pouco mais de maturidade dentro da empresa, é o olhar em como reter realmente os recursos que a empresa vai precisar pra continuar a trajetória de sucesso dela. Porque a minha história está acontecendo, e eu já tenho planejamento pra ela. Agora, a empresa, ela vai continuar. Ela vai continuar muitos anos, e vai depender de quem realmente estiver no comando. De quem estiver participando desse processo. Então, isso a gente forma agora, a gente não forma de uma hora pra outra. São pessoas que levam tempo pra ficar preparadas pra assumirem o controle da empresa, pelo menos da maneira como nós conhecemos a White Martins hoje. A história da White Martins como nós conhecemos, ela é feita e ela é contada por pessoas que realmente estiveram muitos anos na empresa. É característico dos funcionários ter essa longevidade na empresa, e eu acho isso muito positivo. Eu não vejo isso como um fato negativo. Eu não. Eu sempre vi, e vou continuar vendo, porque essa é um dos meus valores. Por eu ser da área técnica, eu me lembro muito bem, isso é uma coisa pitoresca, como você falou. Quando eu comecei a participar de feiras aqui no Brasil... Tinha o que, 23 anos, 22 anos. Aí você ia para as feiras, o que está nas feiras? São as pessoas mais jovens, representando. É difícil você chegar nas feiras, e ver um líder da empresa ali. E aí você vai. A primeira vez que eu tive a oportunidade de ir a uma feira lá nos Estados Unidos, da área técnica. Quando eu cheguei nos stands e via que quem estava ali eram pessoas mais seniores (risos). Não eram as pessoas jovens da empresa, eram os sêniores da empresa. Por quê? Porque a área era técnica. Você tem que estar mostrando capacitação tecnológica, tem que estar recebendo seus clientes, para conversar com seus clientes e também para demonstrar. Não que os mais jovens não tenham, não é isso. Eu já fui jovem, briguei no momento que eu fui jovem. É que têm certos momentos, você precisa ter a imagem da pessoa com mais experiência. E a experiência, às vezes leva um pouco mais de tempo. Você vai ter aquela pessoa jovem em alguns anos, sendo jovem e experiente. Mas não é de uma hora pra outra. E você, com muita circulação, com muita mudança de função ou de responsabilidade, ou até de emprego, você não consegue construir isso. Eu pelo menos, eu sei que é difícil eu falar, porque eu tive uma história completamente... Longa. Mas eu vejo as pessoas com pouca paciência pra construir, pra depois colher. É essa sensação que eu tenho. Querem tudo muito de imediato, e de imediato as coisas não são bem construídas. Eu tenho isso na minha vida pessoal e trago muito pra vida profissional. Então, eu acho que esse investir no que você acredita, ele tem que ser constante. E isso, eu entendo que nós temos e que nós precisamos preservar. Esse investimento no que você faz e acreditar que a White Martins vai cem anos mais, e comemorar os 100 anos que também foi uma coisa que as pessoas num primeiro momento tiveram um pouco de receio em comemorar os 100 anos. E eu desde o início eu falei: “Porque não comemorar os 100 anos? Eu acho que nós temos que comemorar os 100 anos, como em gases especiais nós comemoramos os nossos anos. Porque a gente entende, que pelo menos pra mim, fazer parte dessa história de gases especiais há bastante tempo e continuar fazendo, eu só tenho que dizer é muito orgulho. Orgulho de fazer par dessa história, e continuar olhando dentro do meu dia a dia, em querer contribuir da melhor forma para os novos projetos, para as novas ideias no comitê de inovação que agora existe na empresa e que foi um movimento pra mim que mostra como os valores da empresa dão valor realmente, a formatar esse processo dentro da empresa, de uma forma que se preserve essa continuidade. E em outros aspectos também. O que tem me gerado mais curiosidade ao pensar aí nos próximos anos... Pra mim tem gerado muito anseio em olhar a parte humana. Talvez seja uma questão de crescimento. Acho que você já contribuiu com uma área técnica, você já contribuiu pra uma área comercial, pra uma área de negócios... Falta algo pra mim, sabe, de explorar a área humana. Então eu acho que talvez o que eu venha a estudar venha a ser na área humana, venha buscar esse desenvolvimento na área humana, porque acaba que tudo passa por ali, e as pessoas de negócio, elas acabam deixando um pouquinho o seu lado humano, em certos aspectos. O que vem de desafio pela frente, em todos os aspectos, o lado humano ele vai ser o principal fator. O tecnológico, ele vai ficar muito parecido da forma de fazer negócio. Não dá pra ser o tempo todo criativo, inovador, ele acaba se acomodando. Mas se você não tiver os valores humanos bem dimensionados e bem trabalhados, eu entendo pra mim que isso que são os valores realmente de sucesso. Então, olhando pro futuro, é assim que eu me vejo. Buscando alguma especialização na área humana.

 

P/1 – Vou tentar fazer uma ponte aqui do passado pro futuro, pra gente não sair do mesmo caminho. Mas a gente já entrevistou algumas pessoas. Eles estiveram aí nessa cadeira, e vamos entrevistar ainda... Mas você é a primeira engenheira química que a gente entrevista, e na nossa grade eu acho que vai ser a única. Os seus amigos devem ser mais engenheiros químicos. Como é que foi isso na sua trajetória? Que grandes desafios você acha? Você teve esses marcos? Ou passou batido?

 

R – Você quer falar a questão de ser mulher?

 

P/1 – Isso!

 

R – Então, eu não quis tratar isso, porque isso pra mim nunca existiu. Nós estamos com essa onda agora de ter a presidenta, de ter a diretora. Mas pra mim, isso sempre fez parte daquelas situações que eu nunca enxerguei. Então às vezes chega até a me incomodar um pouquinho o feminismo, porque eu sempre busquei o meu espaço eu posso dizer o seguinte: eu sou um pouco ícone com relação a isso. Eu não uso isso, mas eu sei que dentro da empresa eu sou. Porque eu fui a primeira engenheira no grupo de gases especiais, quando eu fui contratada, não podia entrar mulher dentro da planta de gases especiais. Eu levei um ano e pouco pra conhecer a planta. Eu sei o que é chegar numa feira e acharem que você era recepcionista. Eu sei o que é você ser tratada. No início, eu ia representando o grupo também, achavam que eu era assistente ou era secretária. Também não fazendo nenhuma colocação de valor, longe disso. Mas eu passei por tudo isso (risos) pra poder me firmar como profissional na empresa. Tive e ainda em alguns momentos eu sei que eu tenho algumas dificuldades. Porque não tem jeito. É um meio masculino, mas eu entendo que a empresa deu uma flexibilizada muito grande, enfim, está fazendo um movimento de diversidade muito importante, riquíssimo nos últimos anos. Riquíssimo. Eu tenho orgulho do trabalho que é feito na empresa em termos de diversidade, em termos de responsabilidade social. Toda vez que eu vejo alguma coisa, eu me identifico, eu tenho orgulho de falar: “Ah, é um trabalho que a White Martins tá fazendo, sabe?” (risos). Então, não foi fácil, mas eu nunca me coloquei naquela situação. Aliás, eu fui tentando me ajustar. Em coisas simples. Na hora que você vai almoçar, que todos os homens terminaram de almoçar na mesa e que você era sempre a última, você passa a comer mais rápido (risos). Ria, mas não, eu estou falando coisas assim simples, mas é a tua realidade, a coisa que eu sentia. Não queria ser a última a ficar na mesa, todo mundo me esperando. Agora, não deu pra fumar charuto. Não deu pra fumar e nem beber whisky, que isso realmente pra mim era demais (risos). O que eu fiz, eu acho que foi interessante o seguinte: eu sempre preservei o meu... O que eu acredito, o que eu sou, com a minha fé, minha espiritualidade, com a minha ética. E que um fato: eu sou mulher. Então, eu não precisei. Eu tive sorte também, que eu trabalhei com pessoas maravilhosas e continuo trabalhando. Pessoas que eu respeito, que eu admiro, mas eu sei que isso não é geral. Não vou ser aqui dizer que “Ah, não acontece.” Acontece, e às vezes até num cliente, e você tem que ter jogo de cintura pra escapar de algumas situações e de... E que você tem que ter... Você tem que dizer... Fingir que não é com você e... “Você tem que tratar isso aqui? Vamos tratar e vamos...” Como eu brinquei. O cara que fala hoje, ainda fala comigo, não me conhece e fala assim: “Ah amor, não consegui te ligar!” Eu não trato ninguém dessa maneira (risos). Pra mim chega até a ser meio ofensivo. Mas não é o jeito dele? Dentro do meio dele é natural ele falar isso. Então, eu vou entender o seguinte: ele não está me ofendendo. Então, vamos continuar. E com isso, eu fui passando. Convivi, fiz uma Engenharia Química. Eu tive essa oportunidade de trabalhar grande parte da minha vida profissional com homens e pra mim isso foi muito rico. Eu vou dizer o seguinte. É claro, como eu falei, em alguns momentos eu tive que me adaptar eu tive não que seguir um padrão. Eu acho que não é isso. Se respeitar, porque eu acho que eu fui respeitada. Eu acho que eu fui respeitada como mulher. Eu também procurei, talvez eu tenha sido muito mais severa comigo. Então, eu fui a grávida que trabalhei até os últimos dias, porque eu quis trabalhar. Eu não faltei praticamente, pouquíssimas vezes por questões de “Ah, eu estava me sentindo mal”, minha gravidez, graças a Deus consegui levar super bem. Mas eu sempre tive aquela preocupação: “Ah, por quê?”, “Porque eu sou mulher?”, não, entendeu? É aquela coisa o seguinte: é porque sou eu. Eu sou mulher. Então, se eu estou ali e eu sou mulher, eu vou agir como eu sou. Então, como eu falei, foi desafiante em alguns momentos foi desafiador em alguns momentos. Mas, o que eu procurei fazer, é não pensar muito nisso não. Eu sempre falei isso. Eu falei: “Olha, se você tem competência, você vai buscar o seu caminho. Então eu acho que vai surgir a oportunidade pra você”. E é interessante, que não porque eu quis, mas meu grupo é pequeno, e também as pessoas que trabalham comigo há bastante tempo, e eu acabei que eu trabalho com mulheres. E não foi porque eu decidi que eu quero colocar mulheres no meu grupo. Foi porque eu entendi que o trabalho que nós executamos, e os candidatos que surgiram nos momentos que eu tive a oportunidade de contratar pessoas, sempre as mulheres se destacavam (risos). Não é porque eu era feminista ou porque eu quis colocar mulheres trabalhando comigo, mas porque eu olhei. E hoje, na Universidade, você pega um curso técnico de engenharia, hoje, a maioria, é feminina. Na minha época não era. Eu tive dificuldade assim, de conseguir estágios em alguns lugares. Primeiro, que eu me formei lá na Escola Técnica menor de 18 anos, tive por idade e por ser mulher problemas. Depois tive pra fazer concurso na Petrobras, quando teve, de analista de técnico nível médio, não aceitavam mulheres. Então, não fiz. Foi uma das mágoas do meu pai. Depois quando abriu falei: “Não papai, não quero mais, pois já estou na Universidade e não quero mais. Então, situações surgiram, mas eu nunca deixei que elas se tornassem, sabe, maiores do que realmente foram, porque eu acho que você se abala se você transforma aquele fato numa coisa maior do que é. Então, o que eu fiz, fui tocando, e as coisas foram acontecendo eu espero poder ainda se ajudar algumas pessoas... Eu sempre, quando tenho oportunidade, semana que vem teremos apresentação para estagiários. E acaba sempre algumas perguntas vem nesse sentido, e a mensagem que eu passo é sempre essa: “Ó, toca sua vida e seja contente, porque você vai disputar com homem e com mulher (risos). A questão, você vai disputar. Você vai disputar o seu espaço. Não esquece, se é com homem, se é com mulher, se é com outras opções sexuais, porque hoje nós temos todas, a diversidade é grande. Você esquece isso e concentra na sua competência, porque o teu espaço ele não vai ser fácil, vai ter que ser disputado, e cada vez mais. E com essa turma que está vindo aí eu fico “Uau!” Eu fico imaginando meu filho quando ele tiver que ir buscar. Eu já fico imaginando que eu vou ter que morar com ele lá fora, sabe, pra ele poder ter um curso, uma melhor formação. Já penso assim coisas, mas como eu falei, ele que vai ter que trilhar o caminho dele. (risos)

 

P/1 – Ivana, e o que você acha desse projeto de contar a história da industrialização do Brasil a história da White, através do projeto de memória? 

 

R – Olha, esse projeto eu vou dizer o seguinte: assim que eu soube, eu achei ele muito bonito. Primeiro porque traz um lado de resgate. Um resgate de emoções, um resgate de valorização. Valorização das pessoas, valorização de todos que contribuíram. Porque quando eu fui convidada, eu acho que até eu falei isso pra minha família. Interessante que as pessoas acharam que eu tinha ganhado um prêmio. “Eu não ganhei um prêmio não. Eu vou fazer uma entrevista para contribuir com um projeto de 100 anos da White Martins”, mas tá bom. Eu senti como se fosse um prêmio, porque entre tantos funcionários, e tantos funcionários que passaram por esses 100 anos da White Martins e por tantos que ainda vão passar, e pelos que poderiam estar aqui sentados dando essa entrevista, eu senti sim como um prêmio. Então daí que eu... Pra mim, até pelas minhas características eu sou muito sentimental. Eu tive que de certa maneira diminuir um pouquinho isso ao longo desse convívio masculino. Natural. Mas eu sou, o meu ser é sentimental, é pura emoção. E aí quando eu lido com uma situação dessas, eu penso: “Tá aí. É por isso que eu fico. Tanto que eu estou a tantos anos na White Martins”. Porque no dia a dia é difícil, é uma empresa que dão resultado que precisa dar, toma as decisões difíceis que precisam ser tomadas. Muitas vezes nós não entendemos na hora, mas depois vamos entendê-las. Muitas vezes sofremos com algumas situações também. Mas no todo, quando tem os 100 anos da empresa e o foco do projeto é nesse resgate como eu falei, de emoções, eu falei assim: “Mas isso é o que eu sou. Eu não consigo falar de mim, sem falar como meus pais são. Porque eu comecei lá atrás, eu comecei lá atrás”. Então, a questão da ética, o não fazer concessões, porque eu falei isso aqui, logo cedo. O meu pai, só não foi militar, porque não foi. Mas ele foi formatado pelo meu avô militar. Então, as características de cada um, nós trouxemos para empresa. Por mais que você fala, a empresa somos nós. Tem as lideranças, tem todas as estratégias de negócios, tem toda a parte corporativa. Mas a cara, o jeito que nós passamos da White Martins pros clientes, para sociedade, somos nós. Eu sinto que muitos dos clientes que eu lido, que a White Martins para eles é um pouco a forma como eu lido com eles. Então isso aumenta nossa responsabilidade. E é isso que eu entendo que esse projeto aqui, ele traz. Ele traz a responsabilidade da White Martins no Brasil. Na sociedade, na forma como participa. Em todos os projetos que eu, desde o início, quando entrei na White Martins, não se falava em diversidade, que já existiam programas. Existiam os programas todos de dar oportunidades a pessoas especiais, e tudo. Então, isso eu já vivenciei, antes de ser onda. Antes de subir pra mídia eu já vivenciava dentro da empresa. Então isso pra mim, é um valor muito forte. Se hoje, está cada vez mais importante, porque é uma coisa corporativa, esse valor já existia lá atrás. Então, por isso que ele se sustenta. Eu entendo o seguinte: se for analisar a sustentabilidade da empresa ela depende disso. Ela precisa resgatar essa relação dos funcionários com ela. Eu acho que a gente precisa, como eu falei há alguns minutos. A importância da valorização do corpo de funcionários, isso é muito importante. Nós sabemos que a administração está tomando uma série de ações, que existe essa preocupação, e ela é fundamental. Eu acho que esse projeto, pelo menos pra mim trouxe essa visão. Trouxe os funcionários, estão participando na forma de contar essa história. E eu fico imaginando que virão outras ações e que nós vamos participar. Então eu acho que o trabalho com vocês... Eu não sei como começou, como surgiu, só soube que iria acontecer.

 

P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista, Ivana?

 

R – Olha, foi como eu comentei. Pra mim hoje, eu amanheci feliz. Eu pensei assim: “Hoje é o dia que eu vou parar pra valorizar o fato de eu ter uma história com a White Martins também. Então isso já é uma constante na minha vida, mas é que nem casamento como eu falei. Aquela chama tem que estar acesa. Você tem que estar olhando, cuidando, porque senão fica morno. E eu acho que morno na temperatura, não é legal. (risos) Tem que estar vivo. Eu acho que o fato de ter tido a entrevista... Não vou confessar que eu queria ter lido algumas... Não fiz nada disso, porque não dá. Tive conferência, tive que vir pra cá correndo, estava no telefone. Não consegui me preparar pra nada. Eu falei: “Vou sentar ali e sou eu. Com o que eles me perguntarem, com o que vai sair, se eu vou ficar nervosa, se eu vou suar, se eu vou ficar tensa, não importa”. Importa que eu vou trazer o seguinte: aquilo que eu tenho mais valorizado. Eu acho que é a questão de você ser transparente dentro daquilo que você sente conforto em ser transparente. É claro que você não vai ser transparente em uma relação que ainda não está clara. Mas se você tem uma relação definida como nós tivemos aqui. Eu sei qual é o projeto o como eu devo participar. Então, vamos nos jogar realmente todo, nesse momento, porque ele é único. Ele é único. Pode ser que eu não queira me ver (risos), por uma questão da timidez, ela é forte. A questão da crítica. A gente tem algumas coisas que a gente trabalha, trabalha, mas lá no fundo, a gente sabe que tem que trabalhar mais. Eu sei que talvez então eu pudesse ter feito melhor, ter contribuído melhor, mas, gostei muito de ter feito. Eu fiquei feliz em fazer, participar e dividir com vocês, um pouco da minha história também. Eu acho que o resumo é esse. Se for uma palavra, o seguinte: orgulho, duas palavras: estou feliz e estou orgulhosa. Orgulhosa, tá por representar vários funcionários que eu admiro, e que eu tenho assim muita felicidade de trabalhar. Eu entendo que aqui eu fui convidada não só pela minha performance, mas pela performance do grupo que eu estou. Então eu acho que isso também. A felicidade de eu poder representar, pessoas com as quais eu trabalho muito tempo e que eu admiro. Então nós construímos uma história todo dia. Então isso aí. Felicidade e orgulho.

 

P/1 – Ô Ivana, parabéns, e muito obrigada, que a sua chama fique aí muito acesa, viu? Muito obrigada.

 

R – Tá ok. Obrigada. Obrigada a vocês também, pela forma como conduziram, que facilitaram o meu (risos), a minha forma.

 

[Fim da Entrevista]


 

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