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História de: Entrevista de Izeusse Dias Braga Junior
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 09/07/2021

Sinopse

Infância e juventude com a família,em Resende (RJ). Cursinho no Rio de Janeiro. Graduação em Economia. Participação no Projeto Rondon. Trabalho na Bolsa de Valores e em outras duas empresas. Ingresso na Petrobras, por meio de concurso. Construção da carreira na Petrobras. Período cedido a Interbras. Compromisso com as áreas ambiental e social. Realização profissional.

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História completa

 

Memória Petrobras

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Izeusse Dias Braga Junior

Entrevistado por Marcia de Paiva

Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 2008

Código: HV_003

Transcrito por Regina Paula de Souza

Revisado por Isabella Favero Fazani

 

 

P1 – Boa tarde, eu queria começar a entrevista pedindo que você nos diga, o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Bem, eu sou Izeusse Dias Braga Junior, nasci em Salvador, Bahia, em 04 de agosto de 1946.

 

P1 – De onde vem o seu nome?

 

R – Há 90 anos, o meu avô, que pertenceu à Marinha de Guerra Brasileira, fez aquela viagem de guardas marinhas ao redor do mundo e conheceu, na Alemanha, um príncipe alemão (Fonezoisse?), gostou do nome, deu este nome ao meu pai e, o meu pai, repetiu a dose, eu sou Izeusse Junior. Então, eu sou um baiano com nome de alemão [risos].

 

P1 – Como é que era o nome dos seus pais e dos seus avós?

 

R – O meu pai era Izeusse Dias Braga, a minha mãe, Vanda Ferreira Dias Braga. O meu pai era oficial do exército e engenheiro militar, fez o IME [Instituto Militar de Engenharia], se formou Engenheiro Industrial e casou-se com a dona Vanda, mineira, o meu pai é mato-grossense e, quando ele estava servindo na Bahia, eu nasci e, aos seis meses, eu fui exportado pra esquina da Bolívia com o Brasil, fui morar lá em Mato Grosso, aos seis meses de idade.

 

P1 – O seu pai foi trabalhar lá?

 

R – O meu pai foi servir lá, nesse local, e se preparar pra entrar pro IME [Instituto Militar de Engenharia].

 

P1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos, Anderson, engenheiro, e William, comunicador, é professor do Mestrado da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], William Dias Braga, em Comunicação.

 

P1 – Quando o seu pai foi transferido pra fronteira, você cresceu lá? Passou quanto tempo?

 

R – Não, como todo bom filho de “milico”, a gente passa um pouquinho da nossa vida em cada lugar e, a intenção do meu pai, era fazer com que se facilitasse a vida da nossa família, com a gente parando num determinado lugar mais tempo, então, ele quis entrar, exatamente, pro magistério. Por essa razão, fez o IME e fez o concurso pra Academia Militar das Agulhas Negras, onde ele foi, então, ser Professor de Geometria Descritiva e Desenho Técnico e, aí, nós paramos em Resende por bastante tempo. Cheguei em Resende com nove anos de idade e saí pra fazer o vestibular no Rio de Janeiro, então, grande parte da minha infância, a parte mais importante da minha infância, né? E o início da minha juventude, foi em Resende, no estado do Rio de Janeiro.

 

P1 – Mas você passou um tempo aqui no Rio, também, no IME, você se lembra?

 

R – Quando ele fez o IME, eu tinha quatro anos de idade e fomos morar aqui, o meu irmão era recém-nascido, meu segundo irmão, e nós moramos aqui, na Praia Vermelha, no Edifício Praia Vermelha.

 

P1 – Você se lembra um pouco dessa época?

 

R – Me lembro, eu me lembro bem.

 

P1 – Como era a Urca dessa época?

 

R – Ah, era muito tranquila, se hoje é tranquila, naquela época então, há 58 anos atrás, você pode imaginar o que era, era um paraíso. O Rio de Janeiro era um paraíso, era muito tranquilo, e Resende mais ainda, né?

 

P1 – E Resende, como é que foi?

 

R – Resende foi uma experiência muito interessante, porque nós tínhamos muita tranquilidade pra estudar, pra levar uma vida de estudante com a grande sorte dos professores militares, né? Que eram professores universitários, que pra ganharem um dinheirinho extra, eles iam dar aula nos colégios em que a gente estudava, então, nós tivemos professores de muito bom nível, né? De muito boa qualidade no ginásio, no científico, naquelas matérias todas aí, porque se estudava nessa época, é... e grande parte dos professores eram, também, eles pertenciam ao quadro de professores da Academia, quer dizer, um nível muito bom, né? Do corpo docente, lá em Resende. E continua até hoje.

 

P1 – O seu pai dava aula, também, nessas escolas?

 

R – O meu pai dava aula em universidades no estado do Rio, e deu aula na PUC [Pontifícia Universidade Católica] do Rio de Janeiro, né? Até porque, a turma da área militar está sempre se virando de alguma maneira pra ganhar um dinheirinho extra e sustentar a sua família, né?

 

P1 – E em casa, como é que era? Tinha o seu pai, que tinha essa formação militar, mas quem é que era a autoridade ali, era a sua mãe ou ele mesmo?

 

R – Era uma autoridade compartilhada, nós sempre tivemos uma família muito equilibrada, né? É, meu pai faleceu há cinco anos e até o último suspiro, ele namorou a minha mãe, eram dois namorados, quase 60 anos juntos e eu nunca vi uma discussão em casa, né? Aquilo sempre chamou a atenção da gente, uma harmonia familiar muito grande e que facilitou muito a nossa vida, né? E a gente procura fazer acontecer, exatamente dessa maneira na nossa própria casa, de ter uma vida familiar bastante tranquila e organizada.

 

P1 – Do que você gostava de brincar? Brincava na rua, como é que era lá, em Resende?

 

R – Sim, se brincava muito na rua, e o que era muito interessante, é que nós tínhamos, naquela época, hoje já não, mas, naquela época, os filhos de militares tinham a facilidade de contar com toda a área da academia pra praticar esportes, então, eu pratiquei muito esporte, muito atletismo, natação, eu fui campeão três anos seguidos lá, de Resende, dos 100 metros rasos, salto em distância e salto em altura, então, eu pratiquei muito esporte, a gente levava uma vida bastante saudável, né? Um pouco diferente do que a gente viu na geração seguinte, né? [risos]. Muito esporte, e a equitação, a gente tinha lá, a facilidade de sair a cavalo no fim de semana, ir para aquelas fazendas lá no interior, na própria academia, então, era uma vida, realmente, muito saudável, e eu costumo dizer, a gente vivia numa redoma de vidro, porque o mundo real era bem diferente daquilo que a gente vivia, tanto é, que quando você saía dali, pra fazer vestibular no Rio de Janeiro, a tua vida dava uma reviravolta, né? Mas todos aqueles valores que a gente teve, que foram passados pra nós, eles sempre prevaleceram, né? E a gente resistia bastante em ver as tentações, né? Pelo menos eu e os meus amigos, que eu tenho, o meu círculo de amizades, todo mundo acertou [risos] o passo na vida, né?

 

P1 – E era um círculo grande de amizades?

 

R – Muitos amigos e, até hoje, nós conseguimos manter essas amizades, né? Nos reunimos uma vez a cada três anos, né? A gente faz uma festa lá em Penedo ou em Resende, junta a turma toda, com os pais também, pra nos rever, cada um vive num ponto diferente do Brasil, mas a gente faz um esforço grande pra juntar essa turma, e é sempre uma alegria, uma emoção muito grande, rever aquela turma toda com quem você compartilhou a tua infância, né? Que é o que fica, né? Os amigos de infância ficam pra sempre, né?

 

P1 – Quais são as suas lembranças da escola?

 

R – Da escola? Uma disciplina muito grande, né? Por mais que a turma quisesse fazer bagunça, ali tinha uma disciplina muito grande, principalmente, pelo fato dos professores, a maioria deles, ser militar, então, a gente sempre teve uma vida muito disciplinada lá, no ginásio de Resende, no Colégio Olavo Bilac e no Colégio Dom Bosco. Até hoje estão lá, funcionando. Uma disciplina muito grande e uma dedicação integral aos estudos, né?

 

P1 – O quê você gostava de estudar?

 

R – Olha, na minha época, se dizia que homem tinha que ser engenheiro e as mulheres tinham que fazer outras coisas, iam ser professoras, né? E eu nunca me dei muito bem com a tal da Física e da Química, até que um amigo meu me alertou, dizendo o seguinte: “Oh, existe uma tal de uma profissão aí, de economista, que você não vai precisar estudar tanto essas matérias, talvez só pro vestibular”. E aí, eu comecei a me interessar, eu comecei a aprofundar mais os meus estudos nas matérias que eu iria precisar pra fazer a carreira de economista. E foi, por acaso, realmente, por acaso, que eu escolhi essa carreira e, graças a Deus, adorei a escolha, né? Estudei Economia no Candido Mendes, daí, comecei, desde então, desde a época de escola, a me aprofundar mais nos estudos de Geografia, de História, de Português, de Inglês, né? Idiomas de uma maneira geral, o que tem me facilitado bastante, né? Apesar da escola de Economia exigir bastante Matemática, também, né? Mas não tanto a tal da Física e da Química, que eu, realmente, não era muito apaixonado por elas [risos].

 

P1 – E a sua juventude, como foi? Foi de muita festa, muito namoro?

 

R – Olha, eu estou casado com a dona Leila há 36 anos, eu comecei a namorar a Leila, quando ela tinha 14 anos e eu 19 anos, foi a minha primeira namorada e acho que a única namorada séria, em Resende. O pai dela era professor também, da mesma matéria que o meu pai lecionava, então, nós nos conhecemos em Resende, começamos a namorar e estamos juntos até hoje, né? Se contar namoro, noivado e casamento, já deve dar uns 42 anos aí [risos].

 

P1 – E tinha muita festa?

 

R – Muita festa, fim de semana tinha festa no clube, tinha um clube, o Círculo Militar, lá de Resende, aquelas festinhas de 14, 15, 16 anos, né? Sábado, geralmente sábado, a gente ia muito pro cinema, tinha muito cinema, o cinema da Academia Militar, você tinha as matinês de domingo, às 10 horas da manhã, onde os cadetes iam lá pra cima e a gente ficava lá embaixo, eles torcendo pelos bandidos e nós, pelos mocinhos [risos], era uma disputa bastante interessante, né? Que a gente fazia todos os domingos, né? Eles pelos bandidos e a gente pelos mocinhos.

 

P1 – Nas festas, o quê vocês ouviam?

 

R - Ray Conniff, Românticos de Cuba e todos aqueles cantores conhecidos da Itália, Peppino Di Capri, Rita Pavone, isso era da minha época, dos meus 14, 15 anos. E começava alguma coisa já, de Rock, né? É, quem tinha, eu costumo dizer, quem tinha 16 anos quando nasceram os Beatles, tem que ser um roqueiro pra sempre, e eu sou um roqueiro até hoje. Quando nasceram os Beatles, eu tinha essa idade, né? Mais ou menos, 16 anos. E quando nasceu o Rock que a gente conhece, realmente, foi um negócio alucinante, aquele som endoidava a garotada, né?

 

P1 – E _____ mesmo os mais velhos, também, ou não?

 

R – Não, porque... Eu acredito que não, porque, principalmente, com o advento dos Beatles, muitas canções foram compostas por eles, né?  E eles nunca foram um exemplo do Heavy Metal, eles foram um Rock mais suave, desde o início, né? Tinham algumas músicas mais pesadas, mas a linha melódica deles sempre foi agradável de ouvir, né? Hoje, os meus filhos, quando eu ponho Beatles pra ouvir, eles adoram, né? Todos eles gostam muito, se mantém até hoje essa.

 

P1 – E aí, você fez vestibular já pensando em sair de Resende, como é que foi?

 

R – Eu me formei no científico e vim pro Rio de Janeiro, eu vim morar no Rio de Janeiro com a minha madrinha, e meus pais ficaram, a minha família ficou em Resende. Eu vim morar com a minha madrinha em Olaria, estudava, fazia o cursinho pra vestibular às 7 horas da manhã, em Copacabana, eu passava 5, 6 horas dentro de ônibus, eu estudava dentro dos ônibus, na minha época, no cursinho pra vestibular, não tinha apostila, você preenchia à mão os cadernos de todas as matérias que o professor ia ditando, então, eu enchi 18 ou 19 cadernos que faziam as vezes de apostilas, né? Que, depois, se tornaram mais comuns. Então, eu ia de Olaria, saía 5h30min da manhã, pra Copacabana, passava a manhã inteira fazendo cursinho, voltava pra Olaria e, à noite, vinha pra Botafogo terminar o terceiro científico, chegava em casa à meia noite, dormia 5 horas, 5h30min, então, foi um ano alucinante, que eu perdi oito quilos [risos]. Eu saí daquela maravilha de Resende, daquela vida mansa [risos].

 

P1 – São as distâncias, né?

 

R – É, e fiz o cursinho (AS?), né? Do Arnaldo (Strusberg?), aliás, um curso preparatório pra Economia fantástico, depois de um ano...

 

P1 – Mas é o curso, e o colégio?

 

R – O colégio em Botafogo.

 

P1 – Você se lembra qual era?

 

R – Olha, era um Instituto em Botafogo, até não tinha grande reputação, não, você sabe? Acho que era o tal do Monte Sinai, que era um negócio meio, de fazer pra passar! Mas eu estava focado no vestibular, né? E aí, no final do ano, eu fiz o vestibular pra Candido Mendes, passei. Aliás, eu fiz o vestibular pra Fluminense, em Niterói, e passei, mas eu teria que pegar tantos ônibus, eu já estava tão cansado de pegar ônibus, que eu combinei com o meu pai, que eu faria vestibular de novo pro Rio de Janeiro, pra tentar ficar na Candido Mendes e, aí, passei pra Candido Mendes, eu preferi ficar na Candido Mendes que eu economizava uma barca, um ônibus pra ir e uma barca, um ônibus pra voltar, foi mais tranquilo. E fiz, então, a Candido Mendes durante quatro anos, entrei em 1967 e saí em 1970, formado em 1970.

 

P1 – E como é que era, você ia pra Resende ver os seus pais?

 

R – É, eu morava no Rio de Janeiro, o meu pai alugou um apartamentinho pequeno em Botafogo. De vez em quando, no fim de semana, eles vinham e, uma vez a cada dois meses, eu e o meu irmão íamos pra lá, o meu irmão também veio estudar no Rio de Janeiro, íamos a Resende pra visitá-los.

 

P1 – Nisso, seus irmãos, algum veio, também, estudar no Rio?

 

R – O Anderson, que era mais novo que eu, é mais novo que eu quatro anos. Uns dois anos depois, ele veio também, pra fazer vestibular, e aí, ficamos os dois morando juntos no Rio de Janeiro, estudando aqui no Rio.

 

P1 – E como é que foi a faculdade, era o que você esperava?

 

R – Olha, o curso vestibular, o cursinho vestibular, me deu uma canja muito grande, principalmente, no que eu precisava mais, que era a Matemática, eu levei a sério o estudo e, graças a Deus, passei sem nenhum problema. E me deu uma base boa, também, pra enfrentar a Matemática da Economia e eu, realmente, me dediquei bastante a estudar esses quatro anos.

 

P1 – Você gostou da faculdade, tinha boas notas?

 

R – Me integrei absolutamente a nova potencial profissão, realmente, foi muito interessante, né? Eu gostei muito da escolha e da dica que meu amigo [risos] me deu. Realmente, eu me encontrei, né? Dentro dessa profissão.

 

P1 – O seu amigo não fez Economia, também?

 

R – Não, ele fez Engenharia e entrou pra Petrobras, foi engenheiro, até aposentou há pouco tempo, foi engenheiro da Petrobras, durante muitos anos e um tremendo profissional.

 

P1 – Qual é o nome dele?

 

R – Pedro Caldas Pereira, foi engenheiro por muito tempo da Área Industrial e gerente de todas as Gerências Comerciais da Petrobras Distribuidora.

 

P1 – E aí, você também estudando, como surgiu a ideia do Projeto Rondon, foi nessa época?

 

R – Um belo dia, eu... Na faculdade, um amigo meu comentou que estava começando a trabalhar num projeto novo e perguntou se eu não queria entrar pra esse projeto, e era o Projeto Rondon. Me convidou, eu fui lá na sede do projeto, que era aqui, no Rio de Janeiro, eu fui conversar com o pessoal, ele estava, ainda, formando uma equipe, um time de universitários e, desde o início, eu participei do projeto, eu entrei em 1967, quando o projeto foi fundado, ainda como um apêndice, dentro do Ministério do Interior, né? Mas tocado, essencialmente, por universitários de várias escolas, aqui do Rio de Janeiro.

 

P1 – Quem montou a estrutura, foram os próprios universitários?

 

R – Os próprios universitários, e havia um oficial do exército, o Coronel Mauro da Costa Rodrigues, um cara fora de série, um cara com uma cabeça fantástica, né? Comemorou 80 anos há poucos meses. Ele, hoje, vive lá no sul do Brasil, um cara com uma cabeça maravilhosa, ele entendia a linguagem dos jovens, dos universitários, e ele foi como que um inspirador e um elemento de ligação com as Forças Armadas, e peitando as Forças Armadas em uma série de questões, porque nós vivíamos aquele momento de, uns chamam de Ditadura, outros chamam de Revolução, né? É, e naquele momento a relação com as Forças Armadas era um negócio muito complicado, né?

 

P1 – Pra você era complicado, também?

 

R – Nunca foi complicado, pra mim nunca foi complicado, porque eu sendo filho de militar, eu conhecia bem a cabeça dos militares, convivi com os militares a vida inteira e sabia que, no mundo civil, há militares e militares! Na época da Revolução, o meu pai, ele sempre foi  um cara com uma cabeça muito aberta, professor, eu nunca vi o meu pai pegar uma arma, fazer uma instrução, nada disso, e ele, quando decidiu visitar alguns colegas dele, que foram presos injustamente, porque acusaram que o cara era comunista, aquelas bobagens que a gente conhece, ele foi visitar alguns desses amigos e alguns colegas dele perguntaram: “Puxa, você vai visitar fulano? Você não tem receio de acontecer alguma coisa?” “Não, absolutamente, pô. Eu vou visitar quem eu quiser e ninguém tem nada com isso!”. Então, o meu pai sempre teve a cabeça muito aberta, e um cara que teve uma independência muito grande em relação a essas questões, essas bobagens, que se viveu naquela época, e isso passou muito pra gente também, né? Então, nós tínhamos a cabeça muito feita, muito aberta pra saber administrar essas questões, e nos foi dada uma oportunidade pra mostrar uma realidade pro jovem brasileiro, que era levar essa turma pra Amazônia, pro Nordeste e mostrar a eles que o Brasil era diferente do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Porto Alegre. Então, a ideia era levar os universitários, de diversas especialidades, e fazer com que eles fizessem estágios nas suas próprias futuras profissões, nas comunidades locais. Quem fosse médico, iria trabalhar como médico, um economista, ia dar assessoria a um prefeito, de como se faz um orçamento, como se faz uma administração financeira, e por aí vai. E isso nos dava uma idéia muito grande da problemática que o Brasil enfrentava naquela região, e continua enfrentando, passados 40 e tantos anos, até hoje, a gente sabe que esses problemas continuam, mas o que a gente gostaria de ver, muitas vezes, aconteceu, como você própria mencionou, muitos desses universitários, ao se formarem, tomaram a decisão de se estabelecer na Amazônia, no Nordeste e não ficar no Sul maravilha, né? Foram pra onde, realmente, a sua experiência estava sendo necessária, né?

 

P1 – O projeto, efetivamente, começou, você falou, em 1969, né?

 

R – Em 1967, nós organizamos o Projeto Zero, que levou um grupo de universitários pra Porto Velho, esses universitários, quando voltaram ao Rio de Janeiro, voltaram turbinados, tão animados que pediram uma reunião com o Ministro do Interior, era o General, eu esqueço o nome dele agora. Era um cara, também, com uma cabeça fantástica. Foram a ele, pressioná-lo pra que se fundasse, realmente, o Projeto Rondon como uma instituição, né? Que não ficasse só na base da tentativa e erro, que fundasse como uma instituição e, aí, se criou o grupo de trabalho, o Projeto Rondon dentro do Ministério do Interior e, aí, esse grupo de universitários começou a trabalhar para organizar o Projeto Número Um, né? Depois desse Zero, começou o Número Um, o Dois, o Três e tal e, aí, eu entrei com todo esse trabalho de planejar o que seria o Projeto durante as férias, isso deu pra gente uma experiência muito grande, porque você planejava durante o ano, no Rio de Janeiro, o que você iria executar nas tuas férias escolares, eu nunca tirei férias na faculdade, eu sempre ia trabalhar os três meses na Amazônia, coordenando todo esse trabalho dos universitários. Eu ia em 40, 50 localidades diferentes, o nosso grande desafio era levar esse povo todo pra essas regiões remotas e trazê-los todos de volta vivos, só tivemos um caso de um acidente, pelo que eu me lembre, em toda a história do Rondon, de um rapaz que não atendeu a um preceito de segurança nosso, ele atravessou um igarapé de barco sem colocar o colete salva-vidas e, aí, o barco virou, todos se salvaram com o colete e ele, infelizmente, não sobreviveu, mas por não seguir, ele se recusou a seguir as instruções, então, o nosso grande desafio era esse. E essa garotada voltava com outra cabeça, voltava completamente diferente, é... o pensamento deles sobre o Brasil, sobre os problemas que o Brasil tinha na época e continua tendo, eles passavam a entender perfeitamente. E, depois do Projeto Rondon, nós entendemos que não bastava que essa meninada ficasse nas férias trabalhando e voltasse, e aquela comunidade ficasse desassistida o ano todo, então, nós criamos o que nós chamamos de Campus Avançados. Então, a Universidade do Rio de Janeiro, era o UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro] na época, né? Ela tinha o campus Avançado em Parintins, então, grupos de universitários eram deslocados para Parintins, durante o ano todo, passavam dois, três meses e voltavam, quando esse grupo estava saindo, já estava chegando um outro grupo, então, a comunidade passou a ter uma assistência o ano inteiro de universitários de várias especialidades, e esse intercâmbio foi um negócio espetacular, até que surgiu, até que veio o Governo Sarney que, com a desculpa esfarrapada de que o Projeto Rondon tinha se tornado cabide de empregos, resolveram acabar com o Projeto Rondon, uma decisão absolutamente estúpida, por quê? Se virou cabide de empregos, que se demitam as pessoas, mas o Projeto continue, a idéia continua, né? E tentaram acabar, porque o Projeto nunca acabou, continua funcionando até hoje, em projetos regionais. Eu participei da refundação da Coordenação de um Projeto Rondon do Rio de Janeiro, no ano passado, né? Com ex-coordenadores, com quem trabalhamos juntos naquela época, e nós estamos com algumas operações pequenas aqui, no Rio de Janeiro, a gente paga, tira do bolso pra ajudar, porque o governo prometeu ajudar e, até hoje, não aconteceu o que eles prometeram, de voltar a ser o Projeto Rondon que foi no passado e, hoje, isso é um instrumento fantástico de diálogo com a juventude, e este governo, e qualquer governo, está perdendo diálogo com a juventude, mostrar pra juventude, dar a oportunidade pra juventude de conhecer a realidade do país, onde a gente vive, eu acho uma estupidez enorme isto não estar sendo levado a sério por qualquer governo.

 

P1 – Eu queria que você me contasse uma lembrança das suas experiências no Projeto em algum lugar, você foi pro Amazonas, o que aconteceu?

 

R – Eu fiquei baseado muito, é... em alguns projetos, eu fiquei baseado em Santarém, no Pará e, outras, em Manaus. Um dos anos que eu fiquei baseado em Santarém, um dia me chega um senhor, na sede do projeto em Santarém, dizendo que ele tinha uma ilha, pertencia a ele esta ilha, e ele tinha uma população, que nunca tinha ouvido falar em médico, em dentista e que o pessoal estava, absolutamente, numa condição de saúde precaríssima e que ele gostaria muito que nós organizássemos um grupo pra passar lá, algumas horas, e que o transporte, nós não tivéssemos preocupação, porque ele nos levaria nos aviões dele. E nós organizamos um grupo de pessoas, sei lá, oito, dez pessoas, especialidades da área de Medicina e Odontologia, médicos, ou seja, estudantes de Medicina, de Odontologia, de Enfermagem e fomos. Eu fui coordenando esse grupo, lá pra essa ilha, a Ilha de Maripá, perto de Santarém, fomos no avião, aviãozinho, avioneta, né? Eram dois aviões, inclusive, né? Descemos e, quando chegamos lá, as condições eram absolutamente precárias, nós dormimos em ocas de índio, sem água, sem banheiro, a gente tinha que beber uma água de uma lagoa e a água era marrom, onde a gente pingava gotas de iodo, pra torná-la bebível, e as horas que nós íamos passar lá, se transformaram em cinco dias, porque pessoas vinham caminhando dois, três dias, da outra ponta da ilha, pra tocar no uniforme de um médico, tocar no uniforme de um estudante de odontologia, chorando, porque, pra eles, era uma grande emoção tocar num médico, tocar. Vinham a cavalo, vinham a pé, uma experiência emocionante, né? Que a gente teve, e um pessoal com uma saúde muito ruim, tanto é, que depois dessa missão, nós conseguimos mandar pra lá, realmente, médicos, né? Que pertenciam ao serviço de saúde local, lá do Município de Santarém, pra dar uma atenção maior a esse pessoal, então, pra mim, essa foi uma experiência, assim, bastante marcante, né? Porque a gente nunca tinha visto aquilo, né? E, realmente, nós fomos pra algumas horas e ficamos quatro dias, né? E tem muitas histórias, né? Cada um de nós que participou do Rondon tem, acho que cada um de nós, tem um livro de histórias pra contar.

 

P1 – Vocês podiam fazer um projeto, também, né?

 

R – Pois é, seria interessante.

 

P1 – Você continuou com o Projeto quanto tempo mais?

 

R – Eu continuei com o Projeto Rondon até eu me formar e, quando eu me formei, eu pedi demissão do Projeto Rondon, porque eu achei que eu deveria dar chance para que outras pessoas tivessem a minha experiência, então, eu fui procurar me colocar no mercado de trabalho, né? Eu fui pra São Paulo, é... e entrei no mercado financeiro [risos]. Uma outra coisa totalmente diferente, fui ser operador da Bolsa de Valores em São Paulo, fiquei em São Paulo como operador da Corbiniano, uma corretora de São Paulo e, até que a Corbiniano, naquele ano do Boom da Bolsa, 1971, resolveu abrir a corretora no Rio de Janeiro e me convidou pra eu ser o gerente no Rio de Janeiro, então, eu voltei pro Rio de Janeiro, pra ser o gerente da corretora e fui operador da Bolsa de Valores no Rio de Janeiro.

 

P1 – O que é ser operador da bolsa? Me conta, qual era a diferença naquela época?

 

R – Naquela época, o operador era responsável por comprar e vender ações e títulos de valores, dentro do pregão da bolsa, né? Então, você recebia as suas ordens em boletas por escrito e, dentro da bolsa, você saía vendendo e comprando ações da Petrobras, do Banco do Brasil, da Vale do Rio Doce, das empresas que estavam cotadas naquela época. E, naquela época, teve gente que ganhou muito dinheiro, porque não havia a informática ainda, dando o apoio que dá hoje. É... nós tínhamos, dentro da corretora, em São Paulo, uma pessoa com um telefone, dentro da bolsa de São Paulo e, outro telefone, na bolsa do Rio, e o cara perguntava para a bolsa de São Paulo: “Quanto está o Banco do Brasil?”. O cara respondia: “Trinta Cruzeiros” “Rio de Janeiro, quanto é que está a ação do Banco do Brasil?” “Trinta Cruzeiros e dez centavos” “São Paulo, compre um milhão de ações” “Rio, venda um milhão de ações”. A gente fazia operações casadas, porque, como não havia a informática do nível que nós temos hoje, que todo mundo tem a informação na mesma hora e ao mesmo tempo, seja a bolsa de Singapura, Nova Iorque ou a Latibex, em Madrid ou a de São Paulo, todo mundo tem a informação, naquela época não, então, esses segundos de diferença fizeram com que muita gente, como diz o mineiro, “enricasse”, porque eles, essas três pessoas, eles davam 50% do lucro pra corretora e ficavam com 50% do lucro pra eles, e trocavam de Gordini, não sei se você conheceu esse carro por Camaro [risos], da noite pro dia, isso eu assisti, a turma ficou rica, e à custa de muita gente que perdeu muito dinheiro. Na época do boom da Bolsa, muita gente vendeu o apartamento pra comprar Banco do Brasil a 40 reais, e ele bateu em 40 e nunca mais voltou, baixou, sei lá, pra 20, 20 e pouco, muita gente perdeu tudo que tinha pra ficar rico na bolsa e não deu certo.

 

P1 – Mas era o mundo que você gostava, você saindo de um Projeto Rondon, como é que você lidava com isso?

 

R – Eu queria ter uma experiência na área financeira e foi essa a abertura que eu tive, né? Depois, daí, eu fui convidado pra ser gerente financeiro da GTE [General Telephone & Eletronics] Telecomunicações, que é General Telephone & Eletronics, é uma empresa americana que fabricava e, ainda fabrica, telefones de teclas em São Paulo, aqueles telefones de teclas e centrais de PABX [Private Automatic Branch Exchange] e, eu fui, então, gerente financeiro administrativo dessa empresa no Rio de Janeiro. Fiquei nessa empresa uns três anos, daí, saí e fui convidado pra trabalhar na Área de Projetos Econômicos do Grupo Morrison Knudsen de Engenharia, a Companhia Internacional de Engenharia com a sede em Laranjeiras e, aí, fiquei nessa empresa três anos, até que, eu vi no jornal um anunciozinho, pedindo pra que as pessoas, economistas com mais de cinco anos, mandassem currículos, eu, como sempre fui muito agitado, mandei o meu currículo pra caixa postal número tal sem saber o que era.

 

P1 – Não dizia pra onde?

 

R – Nada, um anúncio pequenininho. Mandei, seis meses depois, eu soube que era a Petrobras, o meu currículo tinha sido selecionado e eles me convidavam, com outras 400 pessoas, pra fazer o concurso direcionado pra quem tinha mais de cinco anos de experiência. E aí, no dia dos namorados de 1976, eu fiz o concurso pra Petrobras, fiz o concurso, passei e, aí, fiquei com aquela decisão na mão [risos]: “Sai ou não sai, vou ou não vou?”. Como eu tinha mais de 20 amigos trabalhando pra Petrobras, eu fui me aconselhar com eles, todos, unanimemente, me disseram: “Venha pra Petrobras”. E eu ganhava 21 mil e alguma coisa na empresa que eu trabalhava, fui ganhando na Petrobras 17 mil e alguma coisa, que essas moedas mudam ao longo do tempo, eu vim pra Petrobras investindo na idéia de que seria um bom investimento.

 

P1 – E ainda ganhando menos?

 

R – Ganhando bem menos, mas não me arrependo, porque a Petrobras me deu sempre as chances de fazer o que eu queria fazer, né? Nas áreas em que eu queria trabalhar, os projetos que eu propus pra empresa entrar, eu, realmente, faria tudo de novo.

 

P1 – E aí, você entrou e foi trabalhar em quê?

 

R – Eu fui trabalhar, fui selecionado pra trabalhar na Área de Planejamento Estratégico da companhia, né? Fui pro antigo Serplan, Serviço de Planejamento, fiquei trabalhando lá, em projetos de investimento, tive a sorte de trabalhar no primeiro Plano Estratégico pra Exploração e Produção de Petróleo da Petrobras, onde se decidiu perfurar 325 campos offshore e, 182 campos terrestres e, com isso, se descobriu a Bacia de Campos, e foi um negócio, assim, muito legal e, depois, trabalhei no primeiro Plano Estratégico de Transporte Marítimo da Petrobras, também. E passaram os anos. Cinco anos depois que eu estava nessa Área, eu recebo, na minha mesa, um convite pra me inscrever, eu e todos os profissionais da companhia, um convite pra me inscrever pra ocupar funções executivas no exterior, eu passei a minha vida me preparando pra isso, estudando Inglês, estudando Comércio Exterior, né? É, Incoterms [International Commercial Terms]. É, a minha mulher estudando inglês, eu falei: “É a chance que eu tenho. É a chance que eu tenho”. Me inscrevi para o concurso interno, com 700 candidatos, pra 12 vagas de função executiva no exterior, em diversos países, pela Trading Company da Petrobras, que era a Interbras e que estava num momento de expansão muito grande, na época em que o Shigeaki Ueki era o presidente da companhia, ele que implantou essa idéia de se escolher e se selecionar os executivos por concurso interno, coisa que nunca mais foi feita e, eu acho que poderia voltar a ser uma prática dentro da companhia, dar chance pra todo mundo, porque 700 pessoas acreditavam que tinham a oportunidade, e foi um negócio muito motivador pra todo mundo.

 

P1 – Isso foi, mais ou menos, em que ano?

 

R – 1981. Nove meses de concurso, e a minha mulher nove mese grávida do nosso terceiro filho, eu na minha gravidez e ela na dela, quando nasceu o convite para eu ir pro Iraque, a dona Leila teve o terceiro filho, o Flávio e, aí, que eu disse aquela famosa frase, lá pro Carlos Santana, que me convidou pra ir: “Você me disse que você é o nosso homem no Iraque”. Eu disse a ele: “Me desculpe, mas bague não dá, se você acha que ‘bague’ dá, ‘bague’ não dá”. Eu desarmei o nosso amigo e o pessoal todo em volta, numa mesa com os finalistas, riram, todo mundo riu e ele se desarmou e falou em México, eu falei: “É pra lá que eu vou”. E, aí, nasceu a missão no México, e eu fui pro México, em maio de 1982 e, já estava lá, me esperando, o Dilson Duarte, um mineiro, um mineirão velho de guerra, que já trabalhava pra Interbras, e foi juntar, então, se juntou um baiano com um mineiro pra abrir o mercado mexicano, com toda a dificuldade que nós enfrentamos, porque no primeiro mês que nós chegamos, houve uma quebradeira de bancos, nacionalizaram os bancos no México, os exportadores brasileiros, que exportavam 100 cartas de crédito por média, ficaram sem poder receber pelas exportações que eles fizeram, por quê? Porque os exportadores mexicanos queriam pagar, tinham os pesos pra entregar ao Banco Central Mexicano, mas o Banco Central Mexicano não tinha os pesos pra entregrar, não tinha os dólares pra mandar pro Banco Central do Brasil, para que o Banco Central brasileiro entregasse os cruzeiros para a Petrobras ou para a Interbras e, aí, eu disse pra esse meu amigo: “Nós temos que inventar uma moda aqui, pra ajudar essa brasileirada que está com problema. Acabamos de chegar, vamos inventar um negócio pra ajudar esses brasileiros, pra liquidar essas operações”. Aí, bota a cabeça pra funcionar, descobrimos que tinha uma coisa chamada CCR [Convênio de Créditos Recíprocos], Convênio de Créditos Recíprocos, que tinha sido assinado pelos 15 países da ALADI [Asociación Latinoamericana de Integración], e as contas de compensação eram compensadas no Banco Central do Peru, e a cada três ou quatro meses, havia uma compensação, mas só aí é que um país tinha que desembolsar, pra pagar os dólares para quem eles deviam, e isso nós vislumbramos como uma coisa muito legal pra (reencursar?) as operações que já tinham acontecido no CCR. Eu disse pra esse meu amigo: “Olha, essa é uma ideia meio maluca, mas vamos tentar”. Nunca havia acontecido isso antes, você reencursar o que já tinha acontecido, num mecanismo que os Bancos Centrais colocavam a sua disposição, pra você começar a operação de exportação, aí, eu disse pro Dilson: “Você pega o avião, vai pro Banco Central no Brasil e diz que o Banco Central no México já aprovou. Eu vou no Banco Central Mexicano e digo que o Banco Central no Brasil já aprovou, e vamos ver que bicho vai dar”. O que é que deu? Não deu outra! Eles todos queriam descobrir uma maneira de resolver esse problema, mas ninguém se lembrou desse pequeno detalhe que nós lembramos, graças a Deus! Por quê, graças a Deus? Porque, ao fazer isso, se liquidaram todas as operações de exportações brasileiras, os brasileiros receberam lá, os seus cruzeirinhos, os mexicanos felizes da vida, porque conseguiram pagar, e o que é que aconteceu no mês seguinte? [Entrevistado faz um som, batendo em uma madeira] A brasileirada toda em fila, é claro que eu estou exagerando, na porta da Interbras no México: “Vocês resolveram os nossos problemas, nós queremos exportar tudo através de vocês”. Então, nós que fomos pro México pra exportar produtos da Petrobras, petroquímicos, produtos petrolíferos, em contrapartida o petróleo, porque o Brasil comprava 80 mil barris por dia, com a promessa do (EG?) de subir pra 100 mil barris, nós ampliamos a pauta de exportações e começamos a exportar soja em grão, soja líquida, soja em farelo, é... líquido da casca da castanha de caju, pneu pra avião, máquina pra fabricar calçados, ampliamos essa pauta de exportação fantasticamente, a Interbras que, em 1981, representou 12% das exportações brasileiras pro México, três anos depois que nós chegamos, passou a representar mais de 60% da pauta brasileira de exportações pro México.

 

P1 – Vocês faziam um papel, então...?

 

R – Nós éramos abridores de portas, junto aos importadores mexicanos, abrindo o mercado para a exportação de produtos brasileiros, não só da Petrobras, de centenas de pequenos e médios produtores privados brasileiros, que estavam felizes da vida, porque eles não tinham como [entrevistado bate as mãos] manter canais de vendas, canais de exportação dos países onde nós operávamos, a Interbras chegou a operar em 40 países, não simultaneamente, né?

 

P1 – Era quase como o que, como um (exiting bank?)?

 

R – Não, nós aproveitamos todos os mecanismos de financiamento, né? Que o governo e, os governos, onde nós operávamos nos facilitava pra viabilizar as exportações brasileiras e, quando o seu Collor de Mello veio, em 1990, a primeira desastrada decisão dele foi liquidar com a Interbras, ele matou uma menina, aos 15 anos de idade, produzindo fantasticamente e vendendo três bilhões de dólares por ano! Criminosa decisão, porque perdeu a Interbras, perdeu a Petrobras, um fundo de comércio de três bilhões de dólares e perdeu o Brasil, porque os grandes negócios que nós fazíamos, foram para as mãos das trainers multinacionais, não ficou no Brasil. Essa é a realidade que eu vivi.

 

P1 – E a Interbras não dava prejuízo, então?

 

R – De jeito nenhum! De jeito nenhum! Era um instrumento fantástico. De jeito nenhum, conversa fiada, absolutamente, conversa fiada. Levaram anos pra liquidar a Interbras, pagou-se rios de dinheiro pra se fechar uma empresa produtiva, em países da Europa, que achava isso uma maluquice: “Como o senhor vai fechar uma empresa produtiva?”. Multas fantásticas! Multas fantásticas pra demitir pessoas na Alemanha, na Ásia. Essa foi a consequência da desastrada decisão.

 

P1 – Você mesmo comentou sobre essas demissões das pessoas, enfim, e o que a gente até já acompanhou com o projeto, você era funcionário da Petrobras ainda, né?

 

R – Eu era empregado, como sou economista da Petrobras, mas fiz o concurso interno para ser cedido à Interbras, eu fiquei até o final da vida da Interbras, né? Depois do México, eu fui pra Argentina, na Argentina nós tínhamos, como eu dizia, um outro tipo de desafio, porque eu costumava dizer que, na Argentina, o maior concorrente nosso era a Varig, as pessoas me perguntavam: “Por quê a Varig?”. Falei: “Ué, qualquer um pega um avião, vem aqui e vende, não precisa da gente, em uma hora está lá, né? O gaúcho sai de Porto Alegre e, em menos de uma hora, está lá vendendo, não precisa da gente”. Aí, eu falei pro Dilson: “Dilson, nós vamos ter que inventar outra [risos] moda aqui”.

 

P1 – O Dilson foi com você?

 

R – Foi. Foi a primeira, e única vez, que uma mesma dupla que deu certo num determinado país, foi reeditada em outro país, foi um negócio muito legal e um negócio interessante e, que eu comentava com o Dilson, estando no México, eu falei: “Poxa, Dilson, seria muito legal se a gente, aqui, sendo brasileiros e tendo essa experiência no mercado mexicano, junto aos Estados Unidos, que nós pudéssemos ter a experiência no Mercosul [Mercado Comum do Sul], né? Viver lá, na Argentina”. E a profecia [risos] se cumpriu, anos depois, nós fomos convidados pra reeditar a dupla na Argentina, chegamos na Argentina e tivemos que inventar, realmente, outra moda. O que é que nós pensamos: “Poxa vida, o Brasil está exportando o diabo, caiu em cima da gente o Plano Cruzado”. Você se lembra disso? Quando eu voltei do México pro Brasil, em 1986, eu levei meses pra receber um carro que eu tinha comprado, meses pra receber um colchão, meses pra receber uma cama, porque não tinha prazo de entrega, tudo! O povo estava consumindo tudo no início de 1986, por força do Plano Cruzado e, aí, eu disse pro Dilson: “Dilson”. Isso, já, em 1987, quando nós fomos pra Argentina, ainda estávamos sob os efeitos do Plano Cruzado, eu disse pro Dilson: “Dilson, nós temos que trabalhar no sentido de complementar a oferta brasileira de produtos petroquímicos, de produtos petrolíferos e de produtos agrícolas, com a oferta exportável da Argentina, com isso, nós vamos estar promovendo algumas questões muito interessantes e que serão muito bem vistas pelo governo argentino. Nós vamos estar levando produtos argentinos para mercados onde eles jamais sonharam em entrar, Árabia Saudita, Irã, Iraque”. Porque nós comprávamos petróleo nesses países, tirávamos o petróleo antes e pagávamos com o produto brasileiro, sem risco nenhum pra nós, e começamos a fazer com que isso acontecesse, o argentino ficou feliz da vida, nós não perdemos os nossos clientes, porque a gente conseguia produto pra complementar a oferta brasileira e, ia entregar na quantidade que eles queriam, né? E fizemos isso, efetivamente, com produtos siderúrgicos, com produtos petroquímicos, com produtos alimentícios, carne da Argentina, leite em pó da Conaprole [Cooperativa Nacional de Productores de Leche S.A.] que era uma cooperativa do Uruguai, né? Complementando a oferta brasileira. Então, inventamos moda de novo e conseguimos manter a Interbras viva, porque, a nossa missão na Interbras Argentina, foi provar pra diretoria da Petrobras e da Interbras, que não precisava fechar o escritório em seis meses, porque não estava vendendo muito e eles, queriam provar que, realmente, tinha que manter o escritório aberto, e nós fomos lá, pra tentar provar isso, felizmente, conseguimos e voltamos pro Brasil, já, dois, três meses antes que assumia a Presidência da República o seu Fernando Collor de Mello. Dois meses depois, quando eu era chefe de gabinete do vice-presidente da Interbras no Rio de Janeiro, recebemos a notícia da liquidação da Interbras, na posse do novo presidente e, aí, eu fiquei algumas semanas ajudando o vice-presidente. O diretor da Petrobras, o diretor financeiro da Petrobras, que era o representante na holding para as questões de liquidação da Interbras, me pediu que eu ficasse ajudando o liquidante, eu disse a ele: “Infelizmente, a minha vida toda eu aprendi a construir, eu não vou ajudar ninguém a destruir, principalmente, uma empresa que eu dediquei dez anos da minha vida pra construir, eu vou ficar um mês com o liquidante, pra ajudá-lo a montar toda a estratégia de desmobilização e trazer pro Brasil os nossos companheiros que estão lá fora, se vocês quiserem que isso seja feito de uma forma profissional e, se nós quisermos respeitar os direitos que eles têm, respeitar o prazo da escola dos meninos que estão lá fora, não liquidar de uma vez só e volta todo mundo amanhã, que tem gente estudando, tem gente fazendo curso. Se é pra isso, conte comigo, senão, estou fora”. E, aí, ele falou: “Não, por favor, ajude a fazer esse trabalho”. E aí, com o primeiro liquidante, eu fiz esse trabalho, de mostrar a ele a necessidade de se respeitar o direito de quem estava lá fora, trabalhando pela companhia.

 

P1 – Deu pra segurar essas pessoas?

 

R – Deu pra segurar, mas muitos dos profissionais que estavam lá fora, alguns deles meus amigos, eu conhecia todos, porque eram profissionais do concurso que eu havia feito, pediram demissão da Petrobras: “Izeusse, por favor, pede pra me demitir, porque eu vou ficar aqui no exterior”. Viraram traders com grande experiência, né? Um deles é o Boris Makarenko, que a gente descobriu no fundo de uma sala do Centro de Pesquisas da Petrobras, um cara que fala e escreve russo, pra onde é que ele foi? Pra Petrobras Rússia, está abrindo um escritório, fez um trabalho maravilhoso, sensacional, pediu pra ser demitido da Petrobras, virou trader de petroquímicos na Holanda e, ele e vários outros pediram: “Por favor, nos demita, porque nós temos que continuar no mercado”. Então, quem se garantia, realmente, tomou essa atitude e o resto foi ficando.

 

P1 – Eu queria te perguntar, também, você contou das duas operações: uma no México e a outra na Argentina.

 

R – Foram as que eu vivi pessoalmente.

 

P1 - É impressão, enfim, a minha impressão de leiga, também de fora, é que você tinha, também, essa autonomia pra bolar essas operações, como é que...?

 

R – Nós tínhamos, por obrigação profissional, eu sempre digo, que quem trabalha em exportação e importação, não pode ficar daqui do Brasil imaginando: “Como são as coisas? Como é o mercado do México? Como é o mercado de Cingapura? Como é o mercado da China?”. Isso é o maior erro que se comete, você tem que estar lá, olho no olho com o teu cliente, tem que estar lá, conversando com as pessoas e entendendo a cultura das pessoas com as quais você vai negociar, né? Se alguém acredita que vai descer, com um terninho bonito e pasta bonita na mão, de um avião, lá em Shangai ou em Pequim e vai fechar um negócio com a China, porque ele traz o melhor negócio do mundo, esqueça! O chinês só faz negócio com quem ele gosta! Se ele não gostar de você, ele vai fazer um negócio pior, com quem ele gosta. Então, têm uma série de detalhes nesse crazy world em que a gente vive e as pessoas precisam entender. Então, estar lá no mercado é fundamental e, a nossa função, como executivo internacional da Interbras, era estar lá fora e inventando moda, abrindo o mercado, exatamente o papel que a gente tinha que fazer era esse, entendeu? Mostrando aqui pro Brasil como as coisas funcionavam, quais eram as oportunidades de negócio que nós tínhamos nas mãos e o que era possível se fazer, conhecendo a empresa para a qual a gente trabalhava, né? É assim que se faz. Tem gente que quer fazer o contrário, mas não [risos] é por aí.

 

[Interrupção para o entrevistado tomar água e descansar um pouco].

 

P1 – Então, com o término da Interbras, você ficou trabalhando na liquidação?

 

R – Eu fiquei um mês trabalhando com o primeiro liquidante da Interbras, para ajudá-lo a montar todo esse esquema de trazer de volta ao Brasil os nossos colegas, respeitando os direitos que eles tinham por contrato e, aí, voltei pra Petrobras. Então, eu fiquei cedido mais de oito anos à Interbras, voltei pra Petrobras e fui convidado pra montar a Área de Exportação da Petrobras Distribuidora, então, fui pra Distribuidora e fiquei lá, acredito eu, um ano, um ano e pouco, quando eu fui convidado, novamente, pra ser o primeiro gerente comercial da Braspetro, que era a Petrobras Internacional. A Braspetro estava querendo montar uma Gerência Comercial, então, eu fui montar essa Gerência e, fui convidado pra ser o primeiro gerente, fiquei lá durante o ano de 1991, 1992. Quando vagou a Vice-Presidência Executiva da Braspetro, eu fui convidado, pelo presidente da Petrobras, para assumir essa função, porque eu tinha muito contato com o presidente da Petrobras de então, né? Eu conversava muito com ele, sobre toda a experiência que a gente tinha desenvolvido na Interbras, né? E eu assumi a Vice-Presidência da Braspetro, em 2002 e, logo em seguida, é... Eu fui convidado, com outras três pessoas, pra assumirmos uma diretoria da Petrobras e, aí, eu fui chamado ao gabinete do Ministro João Santana, que era o Ministro que cuidava dos assuntos ligados à energia do Governo Collor, fui chamado com mais duas pessoas, pra sermos convidados por ele pra assumirmos a função de diretores da Petrobras.

 

P1 – Em que área?

 

R – Eu fui diretor comercial da Petrobras, eu fiquei na Diretoria Comercial. Passado algum tempo, eu saí da Diretoria, voltei pra Área de Planejamento Estratégico da Petrobras, e sempre com um oi na Comunicação, porque, na Comunicação, eu tinha muitos amigos que queriam dar uma conotação à Comunicação Internacional, porque não tinha ainda esse nome, não era ainda uma Gerência, era uma (Cointer?), era a Coordenadoria de Relações Internacionais, mas estava se querendo dar uma conotação de negócio, de suporte a negócio na Área Internacional, e, finalmente, eu consegui ser transferido pra Comunicação, no ano de 2001. Fui trabalhar com o Milton Costa Filho que, hoje, é o gerente geral da Petrobras no México. O Milton Costa Filho, quando saiu da Gerência, pra ser o gerente executivo, o diretor executivo do Congresso Mundial de Petróleo no Brasil, né? Aí, eu fui convidado pra assumir a Cointer, que poucos meses depois, foi transformado numa Gerência e, aí, eu montei a Gerência de Comunicação Internacional da Petrobras que, hoje, tem duas Gerências Setoriais, uma delas com a Cláudia Krueger, que é a Gerência de Projetos Especiais e, a outra Gerência, com o Higino Sobrinho, que é a Gerência de Relacionamento Internacional. E, por que eu me animei a estruturar a gerência de comunicação internacional? Porque, na minha cabeça, é muito claro o trabalho que nós podemos fazer, de dar suporte à expansão e à consolidação dos negócios da Petrobras, na Área Internacional. A forma de fazer comunicação na Área Internacional, tem que ser diferente da comunicação que a gente faz no Brasil, né? Só pra você ter uma idéia, quando nós compramos ativos na Argentina, e foi a primeira operação de aquisição de ativos, nós compramos ativos da EG3 [EG3 Combustibles S.A.] que pertenciam a Repsol, você sabe, que ela comprou a YPF, a Estatal Argentina e, com essa compra, ela foi obrigada, pela legislação argentina, a abrir mão de parte do patrimônio que ela já havia adquirido pra operar no mercado argentino, por que isso? Pra não caracterizar um excessivo controle do mercado nas mãos de uma só companhia, com isso, ela colocou a venda a EG3, que era uma empresa de distribuição com postos de serviços, né, aquela coisa toda, e a Petrobras tinha os olhos voltados, já, pra expansão internacional no downstream na América Latina, e essa foi a primeira operação que a empresa se animou a fazer, por uma série de razões, uma das mais fortes, foi que nós compramos esses ativos sem pagar um tostão, nós pagamos com ativos no Brasil, por que isso? Porque a Repsol também tinha o interesse em entrar nos ativos no Brasil, comprar ativos no Brasil, então, partes dos ativos, a totalidade dos ativos que nós compramos da Repsol YPF, na Argentina, foi a empresa EG3 e, nós pagamos com uma parte de ativos no Brasil.

 

P1 – Foi uma troca?

 

R – Foi uma troca, um “carry de ativos”, como eles chamam, né? Um _____ de ativos, pagamos com uma parte de um campo na Bacia de Campos, algumas estações de serviço no Sul do Brasil e a Refinaria Alberto Pasqualini, no Sul do Brasil. Então, e nós tivemos que começar a trabalhar em Comunicação Internacional em algo que a comunicação da Petrobras Holding jamais havia trabalhado, por que isso? Porque no Brasil, a Comunicação Mercadológica sempre foi feita pela Petrobras Distribuidora, né? Toda propaganda ligada a pontos de vendas, postos de serviço, a Holding nunca se envolveu com isso e, o grande desafio que nós começamos a ter, foi nos envolver com promoção em ponto de venda, coisa que jamais a Petrobras Holding, a Comunicação da Holding havia feito, nós tivemos, então, novamente, que começar a inventar moda, a nos envolver em coisas, em questões que, no Brasil, somente a Comunicação da Petrobras Distribuidora fazia e continua fazendo, então, tivemos que estruturar uma Gerência de Comunicação Internacional, pra fazer essas coisas acontecerem, até que as unidades de negócio no exterior estivessem estruturadas ou tivessem estruturada a sua Gerência de Comunicação, pra que eles pudessem fazer esse trabalho, né? Coisa que hoje está acontecendo.

 

P1 – Só pra gente entender: Primeiro, o que é que te animou, você como um economista, foi um desafio pensar por esse lado, também, da Comunicação?

 

R – Foi, porque com a experiência que eu já trazia, com a bagagem que eu já trazia, de ter atuado muito tempo em Comércio Internacional, em Área Comercial, né? Não só na Petrobras, como em outras empresas antes da Petrobras, eu via naquilo uma oportunidade para eu dar uma contribuição, de tornar a Comunicação Internacional business oriented, ou seja, orientada pra negócios, né? Eu costumo dizer que, felizmente, nós não temos ninguém nos ligando pra pedir um patrocínio do Projeto do Saci Pererê, no interior da Amazônia, eu não tenho esse tipo de pressão, graças a Deus, porque todas as ações que nós nos envolvemos na Comunicação Internacional, são orientadas pra dar suporte aos negócios da Petrobras nos países onde nós estamos presentes, isso é o que nos dá prazer profissional, você ver que o seu trabalho está dando frutos na Área Comercial, na Área Industrial, né? Na exploração, na produção, nas ações que nós promovemos lá fora, que são ações de relacionamento, patrocínio, feiras e exposições, basicamente. Eu não me envolvo em propaganda, a propaganda quem faz, na Área Internacional, é a Gerência de Propaganda, né? Há o relacionamento com jornalistas, que é feito pela Gerência de Imprensa, nós também não nos envolvemos, nos envolvemos com ações de relacionamento com os clientes da companhia lá fora, organização de ações na Fórmula 1, nós organizamos 10 provas de Fórmula 1, pra que os nossos clientes preferenciais estejam, né? Fazer o olho no olho com os executivos da nossa companhia, né? Feiras, exposições voltadas pros mais diversos setores em que a Petrobras atua, isso é o que nos dá esse prazer profissional, de ver o nosso trabalho dando frutos.

 

[Interrupção da entrevista].

 

R – E a nossa Gerência é uma coisa diferente, dentro da estrutura da própria Comunicação, porque nós tratamos de vários assuntos, porque dentro da Comunicação tem uma Gerência pra cada um desses assuntos, tem uma Gerência de Patrocínio, uma Gerência de Relacionamento, uma Gerência que cuida das feiras e, a gente tem que transitar em todas essas áreas.

 

P1 – É isso que eu quero que você fale um pouco, pra deixar claro.

 

R – Daí, a necessidade da gente contar com profissionais de altíssimo nível, com experiência de negócio, com outra visão, esse é o grande desafio que a gente tem na nossa Gerência, achar o profissional que tenha o “tesón”, como diz o argentino, por Comunicação, que fale três, quatro idiomas, que se comunique bem e que queira estar trabalhando e, que tenha experiência de negócio, que é fundamental pra entender o nosso cliente interno.

 

[Interrupção da entrevista].

 

P1 – Só pra gente entender a estrutura desta Gerência, né? Ela tem uma ligação com a Comunicação Institucional?

 

R – Ela é uma gerência que pertence à Comunicação Institucional, né? Nós somos uma das gerências da Comunicação Institucional, só que, pelas características do nosso trabalho, nós abarcamos uma série de responsabilidades, porque, quando você fala em termos de Comunicação no Brasil, cada uma dessas responsabilidades faz parte da responsabilidade de uma gerência separadamente, né? Você tem gerências de propaganda, você tem gerência de patrocínio, gerência de relacionamento e, nós fazemos o papel, aí, de três ou quatro gerências na Área Internacional, foi assim que foi combinado, que seria a nossa estrutura.

 

P1 – E aí, vocês, de uma certa forma, também são responsáveis por uma imagem da própria Petrobras Internacional, né?

 

R – É, nós temos um trabalho coordenado, principalmente, nessa questão de imagem, de reputação mais do que imagem, um trabalho coordenado com a Gerência de Propaganda, né? Porque todo trabalho que é feito na Área Internacional, na Área de Propaganda, nós temos os nossos profissionais que participam opinando, dando ideias e ajudando a desenvolver toda essa parte na Área Internacional.

 

P1 – Mas há uma diretriz especial para cada país? Como é que vocês resolvem isso?

 

R – Cada país tem que ser tratado de uma maneira diferente, porque, veja bem, num país como a Nigéria, nós estamos operando a quilômetros, mar a fora, não temos nenhuma relação com a sociedade nigeriana, em termos de consumo de algum produto, de algum lubrificante, que agente possa estar vendendo num posto de serviço, por exemplo. A forma de fazer a Comunicação na Nigéria é totalmente diferente da Comunicação que acontece na Argentina, na Colômbia. Nos próprios Estados Unidos, já estamos começando lá, com a nova refinaria que nós temos. Então, a comunicação na Área Internacional, num momento ela é B2B [Business-to-Business service], business to business e, no outro momento, ela é B2C [Business-to-consumer], business to consumer, né? Do negócio ao consumidor. Isso tem que ser muito bem transado, muito bem tratado, porque difere, essencialmente, quando você muda de um país pro outro, né? Essas diferenças são muito gritantes, e isso tem que ser levado de uma maneira totalmente diferente, dependendo do país. E, à medida em que as atividades da Petrobras no downstream, que é diferente do upstream, né? Basicamente, no upstream é a Comunicação, é B2B, no downstream é B2C, porque o downstream envolve um olho no olho com os nossos potenciais clientes consumidores, downstream é toda a atividade de refino, de petroquímica, entra a distribuição, posto de serviço, então, a Comunicação é outra, a necessidade de Comunicação é outra, você tem que entrar e desenvolver todo um processo de conquista de corações e mentes, coisa que não é necessária, pelo menos por enquanto, em países como Turquia, como Nigéria, como Irã, que nós estamos em atividade, está a 50, 60 quilômetros da costa perfurando, ninguém sabe e nem quer saber quem é que está lá, se é a Esso, se é a Shell, se é Petrobras, se é uma empresa local, ou se é um consórcio dessa empresa, então, essas diferenças, nós temos que tratá-las com bastante carinho pra que a Comunicação seja feita de uma forma profissional e direcionada pro foco que a gente quer dar de negócio, em cada um desses mercados em que a gente atua.

 

P1 – E dessas ações que vocês têm promovido, qual é uma que você destaca?

 

R – Sem dúvida, a ação de comunicação de downstream na Argentina foi muito interessante, um grande sucesso, por toda a problemática que havia e que nós vimos que, a problemática, era problemática entre aspas, né? De que o argentino tinha uma antipatia muito grande por tudo que era brasileiro, quando nós começamos a trabalhar, comprar ativos argentinos, a dar emprego pra argentinos e botar o molho brasileiro nas estações de serviço argentinas, primeiro com a marca argentina e, depois, trocando pra marca Petrobras, mas, aí, dando upgrade na atenção aos clientes, na qualidade do serviço, na garantia dos produtos, foi um negócio espetacular você confirmar que, tudo aquilo que se dizia daquele relacionamento, né? Que seria bastante problemático pra nós na Argentina, tudo aquilo veio e foi por água abaixo, graças a um trabalho profissional de Comunicação, desde o início, né... Que foi feito e que perdura até hoje, e que serviu de exemplo pra outros países da América Latina.

 

P1 – Vocês conquistaram corações e mentes na Argentina?

 

R – Conquistar corações e mentes, sucesso de vendas, sem dúvida nenhuma, foi um negócio muito legal. Até, recebi outro dia, um livro contando essa história, de um diretor da Petrobras na Argentina, o meu amigo Wilson, ele é um cara com uma experiência fantástica em distribuição, foi o profissional da Petrobras Distribuidora, e ele e um argentino contaram essa história num livrinho, eu acabei de receber, vale a pena ler.

 

P1 – Qual é o nome do livro?

 

R – Te juro que eu não lembro, que eu tenho 22 livros na lista pra ler [risos] uma pilha. Mas conta a história...

 

P1 – O nome do Wilson, é?

 

R – É, Wilson.

 

P1 – Wilson de quê?

 

R – É um sobrenome alemão, Wilson? Já, já eu lembro e te digo. Mas vale a pena ler, porque conta a história da entrada da Petrobras, de que maneira a gente conquistou os corações e mentes argentinos, né, pra aceitar a nossa bandeira naquele país.

 

P1 – Você falou do patrocínio pra Fórmula 1, como vocês trabalharam com poucos patrocínios, né? Como começa essa decisão?

 

R – A Fórmula 1 é um exemplo clássico de como a gente, de um limão, faz uma limonada. Nós somos patrocinadores da Equipe Williams, não é um patrocínio comum, nós temos um acordo de desenvolvimento tecnológico de combustíveis de alta performance com a Williams, por que com a Williams? Porque a Williams procurava, exatamente, uma empresa de petróleo que estivesse em busca de uma empresa, de uma equipe de Fórmula 1, que quisesse fazer esse tipo de acordo, não um simples acordo de fornecedor de combustíveis, mas sim, um acordo pra desenvolver juntos, tecnologia de combustíveis de alto desempenho e, assim, estamos fazendo por dez anos, numa parceria de sucesso, né? E já conseguimos dar um upgrade, com ganho de potência nos motores, primeiro da BMW e, agora, nos motores da Toyota, na Equipe Williams, com um ganho de potência no motor de Fórmula 1, que é um negócio fantástico, quando você considera que, na Fórmula 1, estão presentes o que há de melhor no Planeta Terra, do piloto ao desenho do carro, ao pneu e o combustível. Já demos upgrade oito vezes ou dez vezes no combustível, melhorando a qualidade do desempenho do motor. Então, e o que é que nós fazemos na nossa Gerência pra aproveitar esse acordo? Com o contrato que nós temos com a Williams, nós temos o direito de levar no HC [Hospitality Center], no Hospitality Center, que são os... Os HCs são armados em cada uma das 20 corridas que acontecem no mundo a cada ano e, em dez delas, eu organizo ações de relacionamento com clientes especiais, são clientes que nós escolhemos e parceiros que nós escolhemos, por terem mostrado um grande desempenho na relação comercial financeira com a Petrobras. Então, tomando como exemplo, o Grande Prêmio do Japão, vão pro Grande Prêmio do Japão os executivos do mundo financeiro do Japão que investem pesadamente nos projetos da Petrobras no Brasil, e investem pra valer nos nossos projetos, o diretor financeiro sai do Brasil, viaja até o Japão. Durante a sexta-feira, isso o Presidente Gabrielli fazia, quando era o diretor financeiro, eu o conheci num trabalho como esse, na Espanha, eles fazem 15 a 20 reuniões olho no olho com cada instituição financeira, dando a oportunidade pra que esses executivos façam uma reunião com o diretor financeiro da Petrobras, coisa que, na cultura japonesa, eles valorizam brutalmente: “Puxa vida, o número um da Área Financeira da Petrobras atravessou o planeta pra conversar comigo, me dar uma hora ou 40 minutos”. Então, a gente já começa ganhando a turma aí. Sexta-feira é um dia de trabalho, no sábado, nós levamos eles, de manhã, para assistir o treino nas pistas, à noite, eu organizo um coquetel e, neste coquetel, nós fazemos uma apresentação, mostrando o que significa a Fórmula 1 pra Petrobras, vem o diretor de marketing da Williams falar da parceria campeã, que é a parceria da Petrobras com a Williams, palavra da Williams, fala o engenheiro que cuida de levar os barris de gasolina, eu brinco com ele, que ele leva abraçado pros 20 e tantos Grandes Prêmios, o Rogério Gonçalves, que é um profissional de primeiríssima linha, é ele que cuida disso, levar aqueles produtos com a qualidade inalterada. Não sei se você sabe, cada Grande Prêmio requer uma especificação diferente de gasolina, cada Grande Prêmio! Porque você tem condições de temperatura e pressão diferentes, traçados de pista diferentes, e você faz uma gasolina pra cada uma daquelas pistas, pouca gente sabe disso.

 

P1 – Há um estudo que determina a temperatura?

 

R – Tudo! Tudo por computador, nós temos 50 profissionais trabalhando nisso.

 

P1 – Isso é a Petrobras que faz?

 

R – Petrobras! É um trabalho sensacional em conjunto com a Williams, né? E mandando uma batelada de produtos, pra que eles façam os testes com os motores deles. Então, tudo isso é contado pelo Rogério, né? Toda essa logística da Fórmula 1, é contada pros nossos convidados, que ficam encantados. E eu faço pesquisa de opinião com eles, né? E a coisa que eles mais valorizam nesse fim-de-semana mágico, que a gente propicia a eles, é o jantar, onde eles sentam com o piloto de provas da Williams, com o diretor de marketing da Williams, o Rogério, da gasolina  da Petrobras, contando pra eles as histórias dos bastidores da Fórmula 1, aí, eles acham que é um negócio fantástico e tal. Então, a gente bota essa turma à vontade, grandes negócios já foram fechados no fim de semana com essa turma, que são gente top de linha das suas empresas e, diretores da Petrobras, estão junto com eles. E, no domingo, depois desse coquetel a noite, né, no sábado a noite, tem o jantar, depois das apresentações, a turma vai dormir e, no domingo de manhã, corrida, e aí, depois da corrida, cada um pega o seu rumo, levamos essa turma pro aeroporto, pra que cada um volte pras suas casas. Então, é um final de semana mágico na vida de qualquer um, mas absolutamente direcionado para o business, pra negócio, né? E, eu acho, que tem que ser assim, porque no momento que não for assim, eu estou fora. O meu prazer profissional é, exatamente, estar dando suporte e, do meu pessoal, a cabeça do pessoal da Comunicação Internacional é preparada pra isso, dar suporte aos negócios da Petrobras no cenário internacional.

 

P1 – Você, como economista, o quê a Área de Comunicação te trouxe? Como foi, também, essa troca, essa mudança na sua vida?

 

R – Olha, como economista, eu tenho muitas outras histórias pra contar nessa questão, por quê? Porque eu passei quatro anos tentando fazer com que a Petrobras aderisse ao Pacto Global das Nações Unidas, que foi proposto pelo seu Coffee Anan, no final de 1999, na reunião de Davos, na Suíça. As empresas do mundo todo conclamando essas empresas a darem a sua parcela de contribuição aos governos, que estavam absolutamente falidos na sua intenção de resolver os graves problemas sociais e ambientais, dos países sob a sua rege, de seu controle. Eu tentei durante três presidentes, convencê-los a fazer a Petrobras entrar pro Pacto Global, consegui no terceiro, que hoje é o presidente da Petrobras Distribuidora, né? E ele topou, a Petrobras aderiu ao Pacto Global e, na carta que foi enviada ao seu Coffee Anan, sem me perguntar se eu queria, se tinha tempo, se eu gostava, foi o meu nome como representante da Petrobras nas Nações Unidas, no escritório do Pacto Global da ONU [Organização das Nações Unidas] e, aí, coisas sensacionais começaram a acontecer, porque, na minha cabeça, eu, como gerente de comunicação internacional, tinha por obrigação profissional ajudar a construir a imagem, era mais que a imagem, a reputação da Petrobras no mercado internacional. E, pra mim, era muito claro e continua sendo, cada vez mais claro, que estar comprometido com as questões ambientais e sociais, aquilo era, e continua sendo, um fortíssimo instrumento pra construção da reputação de qualquer empresa. E isso veio se confirmar em pouco tempo, a Petrobras, hoje, só pra você ter idéia, o relatório, o balanço sócio-ambiental da Petrobras está, hoje, no website da ONU como benchmarking, ou seja, exemplo que deve ser seguido pelas empresas de todo o mundo, porque nós fomos a primeira empresa que, tivemos coragem de anunciar os dez princípios do Pacto Global no nosso balanço social, mostrar o compromisso da Petrobras, com cada um deles e dar exemplos claros e concretos pra cada um deles, fomos a primeira empresa do planeta a fazer isso. Então, isso chamou a atenção do mundo e, com esse trabalho, é... poucos meses depois que nós entramos pro Pacto Global, nós recebemos um convite pra desenvolver um trabalho, que seria desenvolver uma nova metodologia pra formação de uma nova liderança empresarial no mundo, chamados Líderes Globalmente Responsáveis, novamente, eu fui ao presidente, propus que nós entrássemos e ele aprovou e me nomeou pra ficar a frente desse trabalho. Então, a maior experiência que eu tive, como economista, foi trabalhando pra desenvolver uma metodologia, pra formação de uma nova mentalidade empresarial no mundo! Junto com 25 instituições de todos os continentes do mundo, éramos 30 profissionais de business school de empresas. A Petrobras foi a primeira empresa a ser escolhida pra essa coalizão, éramos sete empresas e 14 business school, do Paquistão, da China, da África do Sul, da Europa, Estados Unidos, Brasil. Trabalhamos juntos, durante um ano, em seis reuniões presenciais na África, na Europa, trouxe pro Brasil, botei essa turma trabalhando dentro da Favela da Maré, botei essa turma trabalhando dentro do Projeto Urucu da Petrobras da Amazônia, os caras saíram fascinados com o trabalho que a gente faz no coração da Amazônia e, todos me disseram: “A vinda ao Brasil foi fundamental pra nós entendermos quais são os desafios dos chamados Globally Responsible Leaders”. Líderes Globalmente Responsáveis, o que é que nós esperamos deles? Que façam com que as questões, relativas à responsabilidade social e ambiental, façam parte do negócio das suas empresas e não um grupo de sonhadores, numa sala com ar refrigerado, tentando salvar o mundo, que isso aí é fácil! Qualquer um de nós faz, o papel aceita qualquer coisa. Fomos pra Nova Iorque, pra sede da IBM Nova Iorque, trabalhamos pro relatório final, entregamos o relatório final ao seu Coffee Anan, em setembro de 2005, no plenário da ONU e, pra minha grande satisfação, segunda ou terceira grande satisfação, a Petrobras foi escolhida, de novo, pra tirar as boas idéias do papel e transformar aquilo numa metodologia pra formação dos executivos da Petrobras e, hoje, nós estamos finalizando esse trabalho dentro da Universidade Petrobras, vamos fazer quatro workshops, já estamos no quarto agora, em setembro, com o nível um da companhia, os gerentes executivos da Petrobras, que estão abençoando essa metodologia, que nós vamos usar pra 4 mil e 200 gerentes da Petrobras, voltados pra essa questão: “Como fazer com que tudo isso faça parte do negócio da Petrobras?”. Nós vamos dar um ganho, vamos dar um salto adiante fantástico, né? E todas as 60 instituições, que hoje participam dessa coalizão, éramos 20, hoje são 60, estão esperando o resultado disso, porque vão replicar isso, né? Nas escolas de negócios do mundo todo, o nosso grande objetivo é mudar o currículo das business schools do mundo todo, da INSEAD [Institut européen d'administration des affaires], na França, da London Business School, de Harvard, do (EMT?), todos eles estão buscando esse caminho: Dar noções mais humanísticas para os executivos do frio mundo empresarial, nesse mundo doido, em que a gente vive. Esse é o grande objetivo. Eu fiquei envolvido nisso, no meu DNA, esse tempo todo.

 

P1 – Isso é mais Comunicação, né?

 

R – Muito mais do que Comunicação, isso é trabalhar pra construir a reputação de uma empresa, fazendo com que todos os executivos, que estão se preparando pra comandar essa empresa futuramente, e o futuro está aqui, batendo na nossa porta, eles serem treinados para que essas coisas aconteçam da maneira que a gente espera que aconteça. Dar sustentabilidade pra todas as ações empresariais da nossa companhia.

 

P1 – Agora, toda essa metodologia que vocês estão passando para esses gerentes, isso também é divulgado de uma certa forma?

 

R – Essa metodologia, ao ficar pronta, é testada nos nossos próprios executivos, nós vamos colocá-la à disposição das business schools, através do EFMD [European Foundation for Management Development], o que é EFMD? É a Fundação Européia para o Desenvolvimento da Alta Gerência, né? European Foundation for Management Development, com sede em Bruxelas. Eles vão se encarregar de difundir isso nas business schools do mundo todo, tem mais de 500 instituições de ensino ligadas ao EFMD e, o Pacto Global em Nova Iorque, que tem mais de 6 mil empresas ligadas ao Pacto Global, nós vamos colocar à disposição do Pacto Global e do EFMD, a metodologia que nós já teremos testado nos nossos executivos no Brasil, pela Universidade Petrobras. E eu espero estar envolvido nisso até a alma.

 

P1 – Mas vocês estão divulgando?

 

R – Só será divulgado, quando nós tivermos disponível, neste momento, vários profissionais, do mundo todo, estão vindo ao Brasil, pra nos ajudar a desenvolver essa metodologia, nesses encontros com os nossos executivos de primeira linha da Petrobras, nesses workshops que a gente tem organizado, e eles já estão sabendo que essas coisas estão acontecendo.

 

P1 – Essa sua ligação com a própria ONU, isso faz parte, é uma atribuição das suas atividades como gerente ou vai além?

 

R – Foi, durante todos os anos, uma atribuição que eu assumi como além daquilo que eu tenho pra fazer, que me toma todo o tempo que eu tenho disponível, de noites, de fim de semana, eu estou sempre escrevendo, eu sou convidado pra fazer conferências na África, na Europa, na Ásia. Na Ásia, me chama pra China, pra fazer uma conferência de 20 minutos e, eu levo 30 horas pra chegar lá e 30 horas pra voltar, eu viajo 60 horas, pra fazer uma conferência de 20 minutos, eu vivo pedindo: “Pelo amor de Deus, me dê mais cinco minutos” [risos]. Para divulgar o que a Petrobras tem feito, né? Agora, este mês, eu entreguei o meu cargo na ONU, eu acho que já completei o meu trabalho, vamos dar oportunidade pra outros, né? E eu espero poder contribuir, seguir contribuindo, com todo esse trabalho dentro da Universidade, porque, no dia que eu me aposentar, e eu acho que não está longe isso, eu gostaria de trabalhar como consultor da Universidade Petrobras, especificamente nesse projeto, que eu ajudei a trazer pra companhia.

 

P1 – Você acompanha a Universidade?

 

R – Eu acompanho, quase que diariamente eu estou lá, ligado no trabalho deles.

 

P1 – E das ações da Gerência aqui, você pode nos contar um pouco mais? Você falou da parceria com a Williams e tudo, o que você pode contar mais?

 

R – É, nós temos, aí, como o nosso core business, o nosso negócio principal, a estruturação das grandes feiras internacionais, acabamos de chegar de Madrid, onde nós organizamos o Congresso Mundial de Petróleo, né? Onde nós estruturamos, lá, um belíssimo stand, todo ele com material reciclado, montamos uma área com duas salas de reunião, o presidente da Petrobras usou muito esse espaço, fez mais de 15 reuniões com executivos do mundo todo, com presidente de Shell e de outras empresas do mundo todo, da área de petróleo. E ações de relacionamento, encontros de traders de produtos, na Europa e em Cingapura, nós organizamos uma sala especial, num ambiente como esse ou metade desse tamanho, uma sala onde nós montamos, como se fosse um ambiente de Petrobras, né? Com toda a ambientação de uma empresa de petróleo, pra receber os nossos convidados, e aí, os gerentes da Petrobras ou os diretores da Petrobras, que estão participando desses eventos, que são encontros internacionais, eles podem fazer as reuniões nesses espaços, né? Então, é uma série de ações que a gente cuida, mas são de relacionamento, promover, facilitar relacionamento dos nossos profissionais, dos nossos executivos, nos diversos eventos que acontecem pelo mundo. São todos planejados aqui, no nosso escritório, no Rio de Janeiro, e tudo é terceirizado, porque nós não podemos cuidar de tudo, né? Toda a produção dos materiais pra instalação de uma feira, tudo isso é produzido nos países onde essa feira vai acontecer, que sai muito mais barato pra companhia, além disso, nós produzimos a Revista Petrobras Magazine, que é uma revista que é um sucesso muito grande pra milhares e milhares de leitores em, sei lá, 80, 90 países, em espanhol, em inglês, em português, né? O objetivo dessa revista é acender luzes na cabeça dos nossos potenciais parceiros, pra negócios com a Petrobras, é um instrumento muito valioso.

 

P1 – A revista é a mesma para todos esses países?

 

R – Essa revista, hoje, ela traz a mesma notícia pra todos os países, seja país de idioma inglês, português ou espanhol, porque ela abrange negócios em todas essas áreas, né? Então, a gente direciona, temos sempre uma sessão com entrevistas com um diretor da Petrobras, onde ele fala sempre de futuro, né? Para que as pessoas tenham a idéia de como a Petrobras está caminhando, de que maneira a gente vai se expandir no futuro, e lançar idéias de parcerias com a nossa companhia.

 

P1 – Ela procura, também, fazer uma espécie de relacionamento, contando um pouco de um país, para o outro país, do outro lado, ler?

 

R – Sem dúvida, isso acontece também. Uma vez, um dos números da nossa revista, nós sempre temos uma área de cultura brasileira, e falamos da feijoada e da caipirinha, e a turma adorou [risos] a receita de caipirinha, por bater na Ásia, no Japão, porque a caipirinha, eu não sei se você sabe, você acha essa bebida no mundo inteiro, onde você vai, o pessoal sabe o que é a caipirinha, mas muita gente acha que é da Argentina, outros acham que é do México, né? Porque o México tem lá, a margarita, né? Que tem a mesma filosofia da caipirinha, com outros ingredientes. Mas a gente botou a receita lá, pra turma saber como é que faz, né? [risos]. Um pouquinho de cultura brasileira. E os folhetos internacionais da companhia também, os folhetos institucionais e alguns mercadológicos, já fizemos folheto em russo, em chinês, em japonês, né? Tomando sempre o cuidado de checar o idioma com outras pessoas, pra que nos digam se aquela tradução que foi feita não foi uma traição e foi uma tradução realmente, né? É um trabalho, realmente, bastante diversificado, muito dinâmico. Eu costumo dizer que, na nossa Área, ninguém vai morrer de tédio, pode morrer de outra coisa, mas de tédio ninguém vai morrer, porque cada dia a gente tem um desafio novo, né? E você conversa com qualquer pessoa da nossa gerência, e eu acredito que eles vão dizer o mesmo, é bastante desafiador o nosso trabalho lá. E, por essa razão, é muito difícil nós encontrarmos um profissional com a visão, com o desejo e com a experiência necessária pra ser um bom profissional de Comunicação Internacional da Petrobras, não basta ser só um comunicador, você tem que entender dos processos de negócio da companhia, por que isso? Porque todo mundo entende de Comunicação, de Medicina e de Economia, quando você conversa com um cliente interno, ele, muitas vezes, vai te dar a solução pro problema dele, dizendo: “Não, isso aqui não é necessário fazer um patrocínio, vamos fazer uma propaganda”. E nós temos que ter a moral suficiente de, conhecendo o negócio dele, poder dizer pra ele que, aquilo que ele propõe, não é o melhor pro negócio dele e, sim, o que nós temos que propor. Pra que a gente possa dizer isso, nós temos que conhecer o negócio profundamente e, aí, está, exatamente, o desafio da nossa Gerência, contar com profissionais que conheçam profundamente os processo de negócio da companhia pra que a gente possa ter a moral suficiente de dizer que, o que nós propomos, é o melhor pra eles, né? Pra área deles. E não é fácil achar, a gente tem que treinar muito esse pessoal, pra que eles fiquem adiados, né, e possam, realmente, produzir a 100% na nossa Gerência. Mas a gente tem dado sorte, temos encontrado gente muito boa nos últimos concursos que têm acontecido, tem entrado gente muito boa, muito capaz e com “muchas ganas”, como diz o mexicano, de aprender, que é o principal.

 

P1 – Todos são brasileiros?

 

R – Aqui, todos brasileiros. O concurso no Brasil só pode admitir brasileiros. E eu sempre digo pros empregados da Petrobras fora do Brasil, que eles tem uma sorte muito grande, porque lá fora eles não precisam entrar em concursos nacionais, aqui, um concurso que a Petrobras abre pra contratar um engenheiro, um economista, um profissional de comunicação se inscrevem 100 mil pessoas, 80 mil pessoas, é uma dificuldade muito grande você entrar pra Petrobras, porque a disputa é muito grande, lá fora não [risos], você contrata lá fora pelas qualificações das pessoas, que as pessoas possam ter e possam mostrar, né?

 

P1 – Só pra eu entender um pouco mais a estrutura, as Comunicações em cada país tem uma ligação com a sua gerência?

 

R – Sim e não, o que acontece é que dentro da Área de Negócios Internacionais, se criou uma Gerência de Comunicação, pra fazer esse interface com as Comunicações no exterior, pra orientar mais esse pessoal na área de RH [Recursos Humanos], de Recursos Humanos, entendeu? Mais nessas questões. A ligação que essas Gerências têm conosco, é mais na Comunicação voltada a estruturação desses grandes eventos internacionais, quando se fala de negócios, então, a gente separa bastante essa história pra não haver problemas. Então, a Área de Comunicação da Área de Negócio Internacional, a ANI, ela cuida de ajudar essas Gerências lá fora a se estruturarem, né? E se envolvem mais no dia a dia deles, nós cuidamos mais dos grandes eventos e, onde os grandes eventos se realizam, se tem a presença dessa estrutura, como é na Argentina, como é na Bolívia, como é na Colômbia, nós nos juntamos pra trabalhar juntos e fazer a coisa acontecer.

 

P1 – Eu queria que você me contasse uma história de alguma experiência sua nessa Área Internacional.

 

R – Olha, são muitas histórias. É como eu te disse, eu acredito que, na Comunicação que a turma faz no Brasil, nós temos casos muito mais pitorescos pra contar, porque envolvem outras questões, né? Nós, como, fundamentalmente, estamos voltados aos eventos corporativos e mercadológicos, que dão suporte aos negócios da companhia, tudo que tem acontecido na nossa Área, não tem saído dos trilhos, né? Se você me perguntar: “Puxa, uma história engraçada?”. Eu te juro que eu não lembro, porque todo o nosso trabalho é voltado a dar um profissionalismo absoluto às ações que a gente desenvolve lá fora, pros nossos clientes internos e pros nossos clientes externos, que a gente cria recursos aos nossos clientes internos, estejam eles no Brasil ou no exterior, né? Existe uma série de questões, de coisas interessantes que acontecem, mas no dia a dia da relação do nosso pessoal que já está lá fora, né? Eu acredito que o pessoal que trabalha em Comunicação na Colômbia, na Bolívia, na Argentina, eles tem muito mais coisas pitorescas pra contar, porque eles estão lá, nesse dia a dia, nesse relacionamento dia a dia com eles. Quando eu vou estruturar um evento, como esse agora em Madrid, na Espanha, o Congresso Mundial de Petróleo, a relação que nós tivemos com quem estruturou pra nós o evento, lá fora, é uma empresa alemã, alemães, você trabalhar com alemão, é sensacional, porque são altamente profissionais, vão fazer um trabalho impecável, agora, uma história pitoresca com [risos] alemão, você vai procurar de lanterna na mão, pra que eles contem uma ou você viva uma com eles. Então, a experiência que eu tenho nessa questão, tem sido, absolutamente, uma relação puramente profissional, né? Eu acredito que histórias pitorescas da minha vida, no México têm várias, na minha vida na Argentina têm várias, porque a gente estava vivendo numa sociedade, onde tinham essas diferenças todas, que chamavam a nossa atenção. Mas nesse trabalho que a gente realiza, hoje, é todo, absolutamente, realizado com esse profissionalismo, que eu diria, até, exacerbado, porque a gente leva muito a sério essas questões. E as histórias que eu tenho pra contar, são histórias, como diz o mexicano, aborridas. São histórias da estruturação dos eventos que a gente vê lá fora, e não tem muita coisa, assim, interessante pra contar, é trabalho, trabalho e trabalho, né?

 

R – E qual é o grande desafio que você acha que existe pra vocês, agora, nessa Área?

 

R – O nosso grande desafio, daqui pra frente, é consolidar o nosso trabalho na Área Internacional, tendo em vista a descoberta que foi feita no Brasil, dessas acumulações de petróleo e gás, né? Embaixo da camada de pré-sal e, que eu acredito, que aquela expectativa que nós tínhamos, de uma expansão acelerada e diversificada da atividade internacional da Petrobras, a expectativa pessoal que eu tenho, isso não é uma informação ainda oficial, e a expectativa que nós temos, é que isto não mais vai acontecer. O que vai acontecer? Nós continuaremos a operar na Área Internacional, consolidando as posições que nós já temos, os ativos que nós já temos na Área Internacional, porque nós vamos precisar de muitos recursos pra tirar este petróleo, este gás. Que está em território brasileiro! Vamos dar emprego pra brasileiro, vamos dar. Não só os brasileiros vão estar trabalhando na Petrobras, mas a indústria toda vai produzir equipamentos, serviço, produtos, encanamento, tubulação pra plataforma, navio pra tirar esse petróleo, produzir esse petróleo e processar no Brasil.

 

P1 – Nesse congresso de petróleo que você participou em Madrid, teve a repercussão dessas descobertas?

 

R – Total, a Petrobras está na vitrine do mundo. O presidente da Petrobras, graças a Deus, está fazendo muito bem o homework, o dever de casa, é chamado em todos os grandes eventos pra fazer apresentações. O Gabrielli, quando ele senta no palco pra dar entrevistas, isso é muito comum nesses grandes eventos, chamam três, quatro, cinco executivos de primeira linha, presidentes das grandes empresas, pra falarem dos planos das suas empresas, o Gabrielli é o único que fala dessas coisas, de novidades e é o único que, quando acaba esse programa de entrevistas, a mídia inteira internacional vai em cima dele, eu fico até envergonhado pelos outros, porque os outros são executivos de grande relevância, de grande importância, mas a mídia inteira vem em cima do presidente da Petrobras, por tudo aquilo que a gente tem que falar e comentar, né? E ele foi bastante procurado pra falar sobre todas essas questões. A gente teve lá, encontro com jovens dentro dessa. Eu fiz uma palestra, também, pros jovens, que o grande problema que a indústria tem, hoje, é atrair a juventude, porque a garotada acha que a indústria de petróleo é poluente, é suja, né? É, vamos acabar com o planeta, então, é um grande desafio que nós temos, também, de conquistar a meninada nova pra trabalhar na nossa indústria. Isso, nesses grandes eventos internacionais, sempre se organiza um encontro com a juventude, né? Os jovens engenheiros, os jovens profissionais da indústria que estão lá, trabalhando e vendo o que está acontecendo, pra que se animem, cada vez mais, a trabalhar com a gente, né?

 

P1 – Esses encontros que você fez com a ONU, do Pacto Global, isso também, de uma certa forma, foi uma maneira de vocês mostrarem a reputação, darem mais do que a imagem, né? É o _____? Até que ponto a Comunicação Internacional pensa nesse lado, da responsabilidade social, de transmitir?

 

R – É, eu continuo ligado a esses temas, dando todo o suporte na Área Internacional. A Gerência de Responsabilidade Socioambiental, existe uma Gerência específica pra isso dentro da Comunicação, né? Que é com o Luiz Fernando Nery. Eu continuo como gerente de Comunicação Internacional, dando todo o suporte na Área Internacional, abrindo portas, eu sou chamado pra fazer conferências sobre esse tema, por ter sido o representante da Petrobras no Pacto Global, fui chamado, agora, pra Guadalajara, dentro de duas semanas, pra fazer uma conferência lá, mostrando tudo isso que a Petrobras faz nesse setor, eu continuo dando essa minha contribuição e acreditando que, cada vez mais, que estar comprometido com essas questões, ajuda a construir a reputação internacional da Petrobras no bom sentido. Hoje, todos nós estamos mais do que convencidos, que estar comprometido com a causa social e ambiental faz com que as empresas ganhem dinheiro, tem gente que só quer ouvir isso: “Ganhar dinheiro! E de que maneira a gente faz isso?”. Existem fundos de investimentos, altamente responsáveis, no mundo inteiro, que somente investem em empresas que estejam no Dow Jones Sustainability Index. O quê é isso? É o Índice da Bolsa de Nova Iorque, que agrega as empresas altamente responsáveis na área social e ambiental. A Petrobras, há dois ou três anos, entrou pra esse Índice, hoje, nós temos uma avenida aberta pra esses fundos de investimento e, segundo a ONU, eles tem disponíveis quatro trilhões de dólares pra investimentos, então, é o investimento mais barato, é o dinheiro mais barato que a gente pode tomar, que é o dinheiro de acionista em bolsa de valores, nós não pagamos um tostão de juros por isso, e eles estão doidos pra investir em empresas que sejam altamente comprometidas com essas questões, porque eles tem certeza de que essas empresas terão uma sobrevida muito grande e, vão cuidar muito bem do dinheiro que eles vão investir na nossa empresa, então, hoje, isso fecha bastante bem na cabeça daqueles que têm a mente mercantilista, né? Mercantilista! Eu tenho participado de encontros no mundo inteiro, organizados por áreas financeiras, pelo frio e calculista mundo financeiro, e é onde a gente ouve isso dos grandes investidores. O Warren Buffett falou isso, claramente, pra gente no encontro, lá na Espanha, lá em Milão, há dois anos atrás, da certeza dele de que estar comprometido com a causa social e ambiental, a gente vai ajudar, não só a confirmar o que o Coffee Anan nos propôs em 1999, o que é que o Coffee Anan nos propôs? “Empresas do mundo inteiro, se vocês ajudarem, da maneira que vocês puderem, aos governos das sociedades onde vocês operam, se vocês ajudarem essas sociedades a mudarem o padrão de vida delas, o que é que vai acontecer? Vocês estão ajudando a se criar novos mercados. Pra quê? Pra consumir cultura, educação, comida, habitação e os produtos que nós produzimos”. É claro isso, eles vão consumir, também, o que nós produzimos. E lembrando, que se nós trouxermos a classe média, os 35 milhões de brasileiros que dizem que estão fora do mercado, isso vai significar trazer uma economia, como a economia argentina, pra dentro da economia brasileira. Então, respondendo à sua pergunta, como economista, eu terei o maior prazer em ver essas coisas acontecerem e ter contribuído, um pouquinho, pra que essas coisas acontecessem.

 

P1 – O Projeto Rondon continuou?

 

R – O Projeto Rondon, lá no iniciozinho, foi o meu primeiro trabalho na área social e, eu estou terminando a minha vida profissional, ligado ao Pacto Global da ONU, fechando a minha vida profissional, vejo com chave de ouro, confirmando todos os princípios com os quais eu trabalhei no início da minha vida, aos 20 anos de idade. Aos 62, eu estou chegando lá [risos].

 

P1 – Toda a coerência?

 

R – Exatamente.

 

P1 – A gente vai terminando, eu queria perguntar, também, qual é o seu hobby? O que você faz nas horas vagas?

 

R – Eu pratiquei alpinismo a vida inteira, pelo fato de morar em Resende, ao lado de Itatiaia, sempre escalei montanhas, subi muitas montanhas, vindo pro Rio, um dos caras que me levaram pro Projeto Rondon, ele já era guia de alpinismo, né? E ele me levou pra montanha do Projeto Rondon. Praticava muito alpinismo de fim de semana, e fomos pra várias montanhas por esse Brasil afora. No México, eu escalei o Popocatépetl, que é um dos vulcões que, hoje, está em erupção, pouca, mas está, né? 5 mil e 500 metros. E, alpinismo, ciclismo, bicicleta eu gosto muito, também, e caminhar.

 

P1 – Mantém ainda?

 

R – Mantenho, caminho na orla da praia, eu e a minha mulher, passeando, namorando a minha mulher, também.

 

P1 – Me diz, de novo, o nome da sua mulher?

 

R – Leila.

 

P1 – E os filhos?

 

R – Três filhos, Fernando, 32 anos, a Beatriz, 30 anos, a Beatriz é jornalista, e o Flávio com 26 anos.

 

P1 – Péra, é a Beatriz, o Flávio...

 

R – Fernando, 32 anos...

 

P1 – Ele faz o quê?

 

R – O Fernando, ele é artista, foi vocalista de bandas de rock’n roll e ganha dinheiro fazendo jingles e, agora, está trabalhando, está no comércio de automóveis, ele está trabalhando com o sogro dele, vendendo carro importado e cuidando da Fernandinha que é a minha neta. A Beatriz é jornalista...

 

P1 – A neta é a Fernandinha?

 

R – A neta é a Fernandinha, filha do Fernando. A Fernandinha fez 8 anos agora. E o Flávio é o terceiro, tem 26 anos, ele está formado em marketing, trabalha, hoje, na Condor, mas está se preparando pra fazer concurso, está doido pra entrar pra Petrobras [risos]. Seguir os caminhos do pai dele, vamos ver se ele consegue, né?

 

P1 – Você gostaria de deixar algo que a gente não conversou, algo que não foi perguntado ou que passou?

 

R – Olha, olhando pra trás, eu sempre gosto de olhar pra frente, né? Mas olhando pra trás, eu vejo tudo aquilo que me foi dado a chance de fazer, todas as oportunidades que eu tentei abrir pra mim, antes da Petrobras e na Petrobras, é... eu faria tudo de novo, eu me sinto absolutamente realizado profissionalmente, eu sei que é difícil, né? A gente chegar ao fim da vida e dizer uma coisa dessas, mas eu me sinto absolutamente realizado profissionalmente e, eu sei que é uma sensação muito gostosa, mas nem por isso eu deixarei de trabalhar até o último dia da minha vida, eu não me vejo aposentado de jeito nenhum [risos]. Me aposentei no ano passado, no INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], porque foi dada essa oportunidade, mas continuo trabalhando pra Petrobras, a qualquer momento, eu posso tomar a decisão de ir embora definitivamente, mas pra seguir trabalhando, fazer alguma coisa que me dê, que continue a me dar prazer profissional, né? Eu acho que, num país como o Brasil, nós temos a obrigação moral de devolver pra sociedade um pouco da oportunidade que nós tivemos pra chegar aonde a gente chegou, eu me sinto privilegiado de ter chegado aonde eu cheguei, estando num país em que a gente vive. E, a minha mulher tem um projeto social dentro de uma comunidade lá na Barra, onde ela cuida de 20 e poucas crianças e que eu pretendo, também, me aliar a ela, pra ajudar um pouco ali, a passar toda a experiência que a gente teve, a ajudar, sei lá, dar aula de Inglês, de Espanhol, Cidadania, né? Como ela faz...

 

P1 – Qual é o nome do projeto?

 

R – É uma comunidade, Beira Rio, no caminho entre a Barra e o Recreio, ao lado de condomínios com gente de altíssimo nível, está lá, as crianças precisando de tudo que você possa imaginar, porque os pais e mães delas saem pra trabalhar e, quando elas voltam da escola, elas não tem o que fazer, todos nós sabemos o que elas serão tentadas a fazer, se alguém não pegar essa turma pra cuidar delas, enquanto elas têm esse tempo livre, então, esse é o trabalho que a minha mulher faz com algumas amigas lá, vizinhas nossas, dar a essas crianças noções de cidadania e reforço escolar nas aulas que elas têm, eu acho que é uma coisa que eu gostaria muito de fazer também, né? Além de dar a minha própria contribuição para a Universidade Petrobras e, pra tornar cada vez mais real essa metodologia, pra formar essa nova geração, eu acho que seria uma coisa que me daria um prazer muito grande, né? Mas não trabalhando mais 27 horas por dia, só 14 horas [risos]. É o que eu gostaria de fazer.

 

P1 – Eu vou terminar perguntando, o que você achou de ter participado mais uma vez, aqui, do Projeto Memória?

 

R – Eu acho que um Projeto como esse é fundamental, pra que a gente possa deixar o nosso exemplo de vida e mostrar, pra quem duvida que é possível, a gente ter uma vida profissional rica e variada, como a que eu tive, né? Eu acho que eu seria um exemplo de profissional a quem foi dado toda essa oportunidade, Deus me deu essa oportunidade e eu, felizmente, soube aproveitar, eu acho que eu soube aproveitar e, produzi pra empresa, que me paga o salário honestamente, e com muito trabalho. É, esse testemunho, eu acho que é muito importante pra que essa meninada veja e saiba que eles não precisam inventar a roda, tem muita coisa que, talvez, eles imaginem que, hoje, eles possam fazer como novidade e que a gente já fez no passado, eles podem aperfeiçoar o que a gente já fez, e tem muita coisa pra gente fazer e criar, se a gente se dispuser a trabalhar duro, firme e tentar ser criativo, né? Eu acho que um Projeto como esse, realmente, vocês estão de parabéns por essa iniciativa e, eu acho que vale a pena ouvir outras opiniões, que têm muitas pessoas na nossa empresa, que têm experiências riquíssimas de vida, pessoal e profissional, que pode ser registrada e servir como exemplo pra muita gente.

 

P1 – Eu quero agradecer o seu depoimento e por você ter colaborado com a gente, obrigada.

 

R – Nada. Obrigado pela oportunidade.

 

 

 

---FIM DA ENTREVISTA---

 

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