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História

Construindo o Morumbi

História de: Agnelo Di Lorenzo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/10/2013

Sinopse

Em seu depoimento, Agnelo Di Lorenzo fala sobre a vinda de sua família da Itália para o Brasil. Aqui, muda-se de MInas Gerais para São Paulo e apaixona-se-se pelo São Paulo Futebol Clube, depois de ter trabalhado na sede de gala do time. Desde então, foram décadas de serviço ao clube, tendo sido um dos responsáveis pelos esforços em pró da construção do estádio do Morumbi. Agnelo narra em detalhes como era o bairro antes da construção, as negociações envolvidas na obra, causos e curiosidades, a venda das cadeiras cativas, a inauguração, etc. Também fala sobre grandes jogadores que já passaram pelo clube, como Leônidas da Silva e Zizinho.

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História completa

P - Bom, Seu Agnelo, eu gostaria que você falasse seu nome completo, onde e quando o senhor nasceu.

 

R - Eu nasci 12 de fevereiro de 1928. Salerno - Itália.

 

P - E o nome dos seus pais?

 

R - Francisco Di Lorenzo.

 

P - E da sua mãe?

 

R - Angela Mazziotti Di Lorenzo.

 

P - Eles nasceram aonde?

 

R - Nasceram lá também.

 

P - Na mesma cidade?

 

R - É.

 

P - E o que o senhor lembra da casa da sua infância, em Salerno?

 

R - Eu me lembro, assim, muito vagamente. A casa onde a gente morava, digamos assim, era uma espécie de sítio que tinha... Inclusive ia à beira-mar e eram essas casas que existem lá, casas de pedras, aquelas casas grandes, inclusive pra... Para o inverno, enfrentar o inverno, precisava fazer depósito de tudo. Tinha ocasião de passar vários dias sem poder sair de... Então isso eu me lembro vagamente.

 

P - E quem construiu essa casa?

 

R - Ah, eu não tenho, aquilo quando eu nasci já tava construída de tempo.

 

P - E senhor falou que vocês faziam depósito do quê?

 

P - De tudo, comida, tudo.

 

P - Que tipo de comida?

 

R - Desde de frutas secas, carne, porque lá era uma espécie de sítio, não tinha, assim, vamos ver, geladeira, essas coisas. Era tudo a base de coisa salgada, uma conserva e frutas secas. Lá tem muito, quase tudo quanto é tipo de fruta dá pra secar.

 

P - O quê seu pai fazia?

 

R - Ele era farmacêutico e era piloto também de navio mercante.

 

P - Ele fazia as duas coisas?

 

R - Não.

 

P - Como é que ele conseguia?

 

R - Fez duas. Porque ele era formado lá em Farmácia e piloto. Então fez ali, vamos dizer, eu não saberia dizer quanto ficou fazendo, desempenhando uma função ou outra. Ele tinha, teve essas duas... Fora aqui no Brasil. Aqui no Brasil ele veio ser comerciante.

 

P - Mas, o senhor lembra, como piloto, o que ele fazia exatamente?

 

R - Não, não lembro. Não lembro porque praticamente eu quando nasci ele veio pro Brasil, ele veio antes da, propriamente, família: ele, dois, uma irmã e um irmão.

 

P - O que é que ele veio fazer aqui no Brasil?

 

R - Veio estabelecer, fazer a América, como dizem o ditado. Estabeleceu com o comércio de fumo em corda.

 

P - Rum?

 

R - Fumo, fumo em corda é.

 

P - E ele veio pra onde? Onde é que ele se estabeleceu?

 

R - Em Sul de Minas, numa cidadezinha ali no... Antes da divisa de São Paulo. Passa Quatro. Não, Santa Rita do Passa Quatro. É Passa Quatro mesmo, fica depois de Cruzeiro, depois do túnel onde teve aquela, 32, que teve a revolução lá. Foi nessa cidadezinha aqui pro lado de Minas.

 

P - E o senhor e seus irmãos vieram quando?

 

R - Aí viemos em 34. Desembarcamos aqui no Rio em setembro de 34.

 

P - E qual foi a primeira impressão do senhor no Rio de Janeiro. O senhor lembra?

 

R – Não. Aí não alterou muito, ali já saímos de Nápoles, aquela cidade grande. Assim, não teve nada que chamasse assim a atenção, diferente. Desembarcamos. Já em Minas sim! Em Minas é cidadezinha pequena e ali corria, assim, tipo de brincadeiras faziam, que era cheia de índios, que ainda usavam flechas, dava bicho no pé (risos).

 

P - Eram histórias pra dar medo?

 

R - É. Então aquilo ficou. Mas isso quando chegamos lá. A cidadezinha de Passa Quatro hoje é pequena, na época era menor ainda.

 

P - O que é que era diferente em termos de brincadeira? O senhor como criança, que é que o senhor brincava, o que o senhor jogava? O que o senhor fazia como criança na Itália que passou a fazer no Brasil, o quê modificou?

 

R - Ali, bom. Ali geralmente era mais as brincadeiras de praia, né? Porque ali era um, como se diz? Vamos dizer, chamar de sítio. Era uma vasca de terra. Ela ia dar, pegava a praia, né? Saia perto do porto de Palermo e ia até a Passado (?). E ali aquelas brincadeiras de praias, querer caçar gaivota, fazer buraco na areia, aquelas brincadeiras de praia. Aquilo lá já não tinha, era mais assim brincadeira de pique que chamava, correria. E nadar em rio, apesar de ser assim novo mas eu já nadava. Então, só que tem que lá era só rio, rio, como até hoje, né? Que tem...

 

P - O senhor veio então com quantos anos pro Brasil?

 

R - Seis anos.

 

P - O senhor veio pro Brasil o senhor tinha 6 anos. Na época, na Itália, Mussolini estava no poder. O que o senhor ouvia falar do Duce nessa época, o senhor como criança?

 

R - Bom. Aí é como se diz, um fato que ficou fixado era o problema da vadiagem, quer dizer que, a Itália tava mergulhada no desemprego e tinha muita vadiagem e grande número de espécie de trombadinha, né? E dizem que ele mandava dar uma dose de óleo de ricíno após o período de 30 dias de vadiagem, pra arrumar emprego. Quando era pego pela polícia, então dava uma dose de óleo de ricíno e na reincindência ia aumentando, quer dizer, dobrava. E só que tem que o cidadão arrumava emprego rápido e virava fascista. Isso é, diziam, né? Eu sei pelo que me contaram, que isso aí funciona porque a pessoa arrumava um emprego rapidinho e aí adotava a camisa preta lá. Na época do Mussolini, desde... A pessoa já nascia com uniforme, né? De fascista.

 

P - E vocês tiveram, a sua família teve algum problema em 42, quando da guerra, por serem italianos?

 

R - Há tivemos, tivemos sim. Inclusive, meu pai era uma espécie de, de um representante consular da região, não é? Uma espécie de cônsul, digamos assim, ou subcônsul. E durante a guerra tínhamos que viajar com... Vim aqui passear em São Paulo, tem que vir com salvo conduto, bloquearam conta bancária, aqueles problemas que existiram. Lá talvez não tenha, assim, por ser uma cidade... Uma cidade pequena, né? Tudo conhecido e tal. Mas é. Pra sair de lá precisava de salvo conduto dado pela polícia lá, senão era preso.

 

P - Como é que nasceu a sua paixão pelo futebol, como é que você passou a gostar do futebol?

 

R - Praticamente foi no São Paulo. Porque em Minas, em Minas tinha ligação com o futebol, mas aquelas brincadeiras de time de botão, né? Inclusive o meu time lá quando eu jogava era o Flamengo. No tempo do Leônidas, do Zizinho que jogava no Flamengo, do Jurandir, depois o Tricha, o Domingos da Guia. E lá não, não dava pra pegar o futebol aqui de São Paulo, só o do Rio. Depois, quando eu vim pra São Paulo, não é? Coincidentemente eu vim para o São Paulo.

 

P - Como foi essa história, como é que o senhor acabou chegando no São Paulo?

 

R - É que vim pra fazer o científico e tava na residência de uma irmã que morava no Canindé, e ali, nessa ocasião, o São Paulo trouxe o Orozimbo, que ele foi jogador da primeira fase, da segunda e foi também do Fluminense, mas já na parte administrativa. E o Fluminense era considerado, na época, o clube mais bem organizado do Brasil. Então o São Paulo montou uma sede de gala na Avenida Ipiranga e trouxe o Orozimbo pra implantar essa organização do Fluminense, e ele era, como se diz, ele era amigo da família. Então, tava procurando um emprego num escritório de engenharia, que a minha intenção era estudar engenharia. Inclusive, ele procurando né? Mas ocorreu que um filho, quer dizer... Não era, era enteado. Enteado não, filho da... Ele era casado, a senhora dele era casada em segundas núpcias e tinha um filho que trabalhava no São Paulo, no restaurante, de caixa, ele então tinha feito um, como se diz... Prestado um concurso na Antárctica do Rio e passou e precisava assumir o emprego no dia seguinte. Aí o Orozimbo falou: “Você não quer ficar aqui um mês ou dois e tal até a gente arrumar um...” e explicou o caso, né? Eu disse: “Bom, não sei, nunca trabalhei, nunca tinha trabalhado realmente. Nunca trabalhei e nem sei.” Ele falou: “Ah, isso é simples, eu ensino!” Então comecei pra ficar dois meses, mas levado por esse fato do Orozimbo. E por sinal, o Orozimbo saiu quase logo em seguida, voltou pro Rio, foi pro Maracanã e eu acabei ficando até hoje, né? 44 anos! (risos) E aí então a gente começa, como se diz, a gostar de tudo. O universo de um clube de futebol é um, como se diz, é apaixonante! É apaixonante. A gente vê o que se faz, o que ocorre, o que não acontece por causa do futebol, que a gente fica, parece que tá em outro mundo! Tá em outro mundo. Aí eu então acabei ficando esse tempo todo.

 

P - O senhor jogava futebol?

 

R - Por incrível que pareça, jogava de vez em quando no colégio, mas eu jogava mesmo era basquete, tinha lá um time do colégio, mas jogavam em todo aquele sul de Minas, Caxambu, São Lourenço, aquelas estâncias lá. Era bonzinho, não era... Apesar da pouca altura, era bom. E eu gostava de basquete, futebol não. Futebol a gente fazia aqui, como se diz... Inclusive, no São Paulo a gente fazia brincadeira de “conserve a Bandeirantes” (?). Quando mudou a Bandeirantes pro coisa, volta e meio a gente fazia jogos lá: churrasco, show, chopes. Mas era brincadeira só, né?

 

P - E esse primeiro emprego que o senhor arrumou, o senhor ficou quanto tempo?

 

R - Estou até hoje! (risos)

 

P - Não, o senhor trabalhou primeiro no bar...

 

R - Ah, sim. Bom, aí eu passei quase todas, porque nessa sede, era uma sede de gala que o São Paulo tinha.

 

P - Como é que era essa sede de gala?

 

R – Ah, tinha desde jogos, barbearia, biblioteca, sala de estar, restaurante, não é? E ali eram 3 andares dali da Avenida Ipiranga. No 13º era a secretaria, salão de reuniões. Eu fiquei o quê? Uns 3 ou 4 meses e depois passei a encarregado da sede, que abrangia os 2 andares lá no centro.

 

P - Como encarregado da sede, o senhor fazia o quê?

 

R - Aí fazia de tudo. Era uma espécie de gerente da... Como se diz? Tinha de desenvolver ali uma, um estudo profundo, que de onde eu saí o prato mais sofisticado era bife a cavalo (risos). E ali era um cozinha internacional, não é? Com todo... A equipe toda estrangeira, a maioria dos garçons era tudo do Conte Grande, aquele navio que ficou preso aqui no Brasil. E tinha inclusive garçom que estava acostumado a servir aqueles lordes lá na Inglaterra. Era um negócio todo sofisticado, e eu tive que aprender ali aquela... Mas deu, tanto é que, se foram me escolhendo, é sinal de que eu correspondi.

 

P - Como é que foi essa história do aprisionamento do Conte Grande, Sr. Agnelo?

 

R - Quando estourou a guerra ele estava aqui em Santos.

 

P - Era um navio italiano?

 

R - É. Era um navio, de transatlântico, de passeio, de turismo, e ele estava em... Na época lembra-se mais ou menos, não estava assim pra estourar, vamos dizer, uma guerra, porque o Brasil tava neutro e ainda a turma dizia que o Getúlio era a favor do Eixo, aquela coisa toda, né? E de repente começou o movimento e aí... E esse navio  estava em Santos e ficou preso, mas aí...

 

P - E a tripulação do navio, a tripulação e os passageiros ficaram onde?

 

R – Não, aí eu não sei dizer porque cada um... Porque muitos deles acabaram voltando porque esse fato, vamos ver, de eu entrar no São Paulo foi em 1950 e agora isso ocorreu em 40, quando houve a declaração da guerra. Então muitos voltaram pra Itália, muitos, mesmo da... Como se diz? Do pessoal que lidava, vamos dizer, nessa área, pela conversa a gente via que eles voltaram pra Itália, né? Agora, alguns se radicaram aqui, que exatamente esse... A maioria, não digo todos, que tinha muita gente: romenos, alemães, a cozinheira era alemã, tinha garçom, inclusive português, que era do Conte Grande.

 

P - Como é que era São Paulo nessa época?

 

R - Bom, ele era, quer dizer...

 

P - A cidade, a cidade de São Paulo.

 

R - Tinha o bondinho ainda, tinha o bondinho Canindé que ali da, do Largo São Bento da... Como se diz? Era menos movimentado, garoa. Garoa faz tempo que a gente não vê. Ali eu saía às vezes, à noite, quando tava construindo aquele prédio do INPS ali na, no Viaduto Santa Efigênia. Então, no começo do viaduto assim a gente não enxergava 2 metros! Aquela cerração. Se existisse trombadinha e larápio naquela ocasião pegava a gente dentro do nevoeiro, da garoa ele já via (risos). Era assim uma questão de 2 metros, uma cerração. Aí nem o frio... Pra dizer a verdade, nem o frio não é aquele frio que tinha. Temperatura não... Faz muito tempo. Tem as ondazinhas que vem lá do sul,  mas aquele frio de mudar a temperatura não tem. E era, assim, talvez agora até mais romântico o tempo dos bondinhos lá, era um negócio mais simplório. Hoje já tá mais sofisticado, já tá mais mundo cão também, não é?

 

P - O que mais marcou o senhor, quando o senhor mudou pra cá? Saído de Passa Quatro pra São Paulo.

 

R – Mais é que eu já vinha, passeava aqui. Inclusive, quando eu vinha lá eu ia ao Canindé, ia pra nadar na lagoa, porque a piscina do São Paulo era ali, a lagoa do... Mas era uma água limpa. Assim, de acontecer coisa apenas aquela dificuldade de não conhecer a cidade, né? Só a única coisa que... De resto já tava mais ou menos acostumado com o... Já conhecia o movimento, né?

 

P - Você morava onde e com quem?

 

R - Morava com... Inicialmente morava com a minha irmã no Canindé, ali perto do, morava ali na... Como se chamava ali? Na Rua Araguaia. Rua Araguaia. Ali tem, era o ponto final do bonde Canindé.

 

P - O bonde Canindé, saia do Largo São Bento pra lá?

 

R - Saia do Largo São Bento pra lá. Ele não chegava até o campo lá, depois tinha a esteira do Pari, né? Ali ficava encostadinho o ponto final, fazia ali uma estação, fazia uma curva e tinha que andar um trechinho pra chegar lá no Canindé.

 

P - Quem eram os grandes jogadores quando o senhor chegou no São Paulo, no primeiro emprego seu? Como é que foi essa relação com os ídolos, quem era os ídolos?

 

R - Era, como se diz, o Leônidas, o Ubaldo, Noronha, o Mário, o Poy... O Poy tem quase a mesma idade do que eu de São Paulo, o Bertolucci também era da época, o Friaça, o Ponce de Leon, o Teixeirinha, o Rui.

 

P - O senhor tinha amizade mais pessoal assim com algum deles, chegou a ser mais próximo?

 

R - Não, porque a gente, assim, teve muito... Porque a sede era separada do Canindé e tinha muitos que não... Aparecia uma vez ou outra na sede. Então a gente não tinha muito. Depois peguei amizade com o Leônidas, por exemplo. O Leônidas agora que tá doente, mas ele era uma pessoa, assim, que ficou muito ligado e vinha sempre visitar a gente. O Noronha.

 

P - E o Leônidas, como jogador, como é que o senhor avalia?

 

R – Bom, o Leônidas era um senhor jogador, né? Inclusive jogava sozinho!

 

P - Como assim?

 

R - Ele ia pra casa e os marcadores iam atrás dele. Eram quatro ou cinco marcadores. Teve ocasião que ficavam, assim, o marcador, três, quatro marcadores policiando e ele jogava sozinho.

 

P - O senhor lembra por que ele foi chamado de homem-borracha?

 

R - Não, não lembro. Porque eu praticamente conhecia pelo nome quando ele jogava no... Mas tenho impressão que foi dessa fase da Copa do Mundo de 38.

 

P - Na França.

 

R - Quando saiu o cigarro, quando saiu o chocolate, né? A gente chamava ele só de borracha, nem homem-borracha, era borracha.

 

P - Isso por quê? O senhor lembra?

 

R - Eh?

 

P - Por que borracha?

 

R - Ele era o homem-borracha. Ele foi apelidado, né? Então a gente chamava ele pelo apelido de borracha.

 

P - E a vinda dele pro São Paulo, o senhor já tava no São Paulo?

 

R - Não.

 

P - Quando ele veio do Flamengo pro São Paulo.

 

R - Não, mas ele foi... Quer dizer, a gente sabe por histórias, por conta da época.

 

P - O quê o senhor sabe da vinda dele?

 

R - Da vinda dele que, como se vê, primeiro ele veio com o Sílvio Caldas. Sílvio Caldas acompanhou ele desde o Rio até aqui na estação. Saiu lá da Pedro II e veio até aqui, era a Central do Brasil.

 

P - A Estação Roosevelt, era no Brás.

 

R – Roosevelt, é. Tinha mais de 10 mil pessoas, segundo o depoimento da época, né? E como se diz, ele inclusive na estréia dele deu um público que, segundo Feola, não poderia dar: 72 mil pessoas mais ou menos.

 

P - No Pacaembu.

 

R - No Pacaembu. Feola me contava que era tanta gente que a polícia mandava rodar, andar, não podia parar. E teve gente que nem pisou no chão, entrou numa porta e saiu na outra (risos). Comprou ingressos várias vezes.

 

P - Porque oficialmente, hoje, a capacidade do Pacaembu é de 45 mil pessoas.

 

R - Mesmo sem, não tinha o tobogã pra dar 72 mil pessoas, não tinha jeito. Então ele dizia: “Olha, tinha gente lá que entrava numa porta e saía pra outra porque a polícia não permitia que parasse, anda, anda, anda e aquilo lá tinha nego lá que saiu carregado. Torcedor lá que saiu nos ombros e quando viu tava saindo.” Porque 72 mil pessoas não tinha jeito, nem com tobogã. Agora, ele foi um negócio, assim, criou impacto, criou uma nova era pro São Paulo. Foi o Pedrosa que fez. Era tempo do Dr Décio e o Pedrosa é que foi... Ele tava já considerado como fim de carreira e ele tinha tido problemas com documentação, essas coisas toda, então ele tava “paradão”, tava com problemas de joelho, não é?

 

P - Isso era 1940 e...

 

R – 42, né? Ele estreou contra o Palmeiras em 42. Data eu não me lembro bem.

 

P - O time o senhor se lembra? O time que ele estreou, mais ou menos qual era a escalação?

 

R - Não é que eu lembre, né? Eu não tenho, assim, eu não assisti, mas era o... 42 eu não me lembro bem o goleiro, se era o King ou o Gijo. Pra dizer não daria...

 

P - Depois ele foi campeão no ano seguinte.

 

R - Em 43. Inclusive, nessa estreia do... Nessa estreia dele jogou... Aliás, na estreia dele não! Em um jogo, no primeiro jogo que marcou a bicicleta. Eu tô fazendo um pouco de confusão, que jogou o Cascão, só jogou essa partida, nem ele lembra (risos).

 

P - Como é que foi isso?

 

R - Que era o Pardal, né? Então jogava o Cascão, um ponta chamado Cascão que era Eurípedes Gomes da Silva, uma coisa assim. E ele contando as coisas ele põe o Pardal, não coloca o Cascão na estreia contra o Palmeiras. O primeiro gol de bicicleta que ele marcou, né.

 

P - Sr. Agnelo, quando o senhor começou a trabalhar no São Paulo o senhor estudava? O senhor veio pra fazer o científico, como é que ficou isso?

 

R – Não, o científico eu parei. Depois aí eu fiz aqui a escola, o curso técnico de contabilidade pra fazer Direito, mas depois acabei parando. Fiz o curso, não exerci a profissão, não é? Aí no São Paulo, como se diz?

 

P - O que aconteceu que o senhor...

 

R – Não, é que eu comecei a exercer várias, várias... Inclusive a comissão pro estádio, né? A construção eu fui, vamos dizer, mesmo quando eu trabalhava na sede eu já ajudava a comissão, em 52, 53. E depois eu, quando saí, em 53 saí da sede social. Eu de manhã eu já atuava na comissão, fui regra 3 e depois o administrador da comissão até o término. Terminou em 70 e... 76.

 

P - No começo, como o senhor ajudava a comissão?

 

R - Em todas, porque era uma administração completamente separada do clube. A estrutura do clube, a única coisa em comum era só o presidente, o resto: a diretoria, funcionários, tudo diferente. Então é como se diz, desde a venda de cativa o controle não é aquelas coisas, assim, administrativas da... Então, aquilo a gente ajudava de manhã. Depois passei a atuar também lá nas obras, tinha que acompanhar, porque o administrador era o Mário Naddeo e eu era, vamos dizer, o regra 3 dele. E como ele viajava muito, então eu precisava estar, como se diz, estar a par da construção. Eu então acompanhei desde essa época até a saída dele em 67, aí fiquei sozinho. A superintendência também exerci com o Feola, aí não dava mais tempo pra pensar em estudo nem... Essas campanhas do, que ocorreram pra a construção tudo, campanha violenta, né? Uma campanha que dava pra... A primeira campanha feita com carnê dava pra construir quase o estádio, quase um milhão de... E isso aí tinha que ser controlado, como se diz, por uma equipe reduzida e não deu tempo de... Quando aconteceu, explodiu né! E não teve tempo nem de fazer uma equipe de retaguarda, de parte administrativa. Tem a equipe de vendas, de coisa, mas em termos do São Paulo a parte administrativa não teve tempo de fazer nada. Foram dois, três meses e aquele volume de 100 mil foi pra quase 900 mil carnês. Dava exatamente pra fazer. Pra ter uma ideia, o último lance de 230 metros não chegou a 5 milhões, quer dizer, partindo daí, deu 9 milhões e meio de saldo líquido. Dava pra fazer 460 metros, que é mais da metade. Em termos de volume, era um valor de 5 cruzeiros que a pessoa pagava.

 

P - Qual foi a participação do Osvaldo Moles na venda desses carnês, dessas campanhas?

 

R - O Osvaldo. Que a idéia inicial era a venda de cativas, não é? Então tava programado, vamos dizer, 6 mil e poucas cadeiras cativas pra se vender, mas numa época que esses estádios tinham o quê? Cadeira cativa do prefeito, do padre, do... Eram 3, 4 cadeiras cativas. São Paulo lançou 6 mil numa época em que a situação financeira tava meio apertada, então, como se diz, ninguém acreditava que o São Paulo fosse vender cadeira cativa pra empregar no estádio, pra construir o estádio, estádio de futebol. Então não teve essa receptividade assim do... E ficou, vamos dizer, algum tempo que precedeu o Moles que não vendeu quase nada. Aí, depois o Moles fez a primeira campanha que era do SO, né? Que é o Sócio Olímpico (risos) que tem o Sentadinho de Oliveira, segundo ele é seu Raimundo lá, era o proprietário de uma cadeira cativa. Era o Sentadinho de Oliveira, que o Moles tinha isso, né? Pra ele, qualquer coisa era de Oliveira, então era o Sentadinho de Oliveira. E ele fez uma campanha que penetrou profundamente e chegou a se vender cativa pelo telefone aqui por todo Brasil, até pro México. Teve um mexicano aí, Nogolongo Gi (?), que comprou uma cativa e mandava pagar inclusive em dólar, na época. E ele fez assim essa campanha de, eu não sei bem o nome, mas aparecia o SO sem identificar o que era, né? Aparecendo aquela: “O SO, o SO tem uma piscina, o SO tem ar puro, o SO...” Uma coisa assim que ficou, cobriu a cidade toda com essas...

 

P - Criava uma expectativa.

 

R - É. “Seja um sócio olímpico comprando uma cadeira cativa no maior estádio do mundo!” Então aí vendeu. Quer dizer, aí começou realmente a venda maçica do... E a primeira venda foi pela Bandeirantes quando era na Paula Souza, ali na... Antes de mudar pro... Eles estavam lá na Paula Souza e ali é que faziam a primeira venda, depois aí ele montou uma firma, o próprio Moles.

 

P - Ele era parceiro do Adoniran Barbosa, né? O Adoniran não participou da campanha em nada? Não teve nenhuma participação?

 

R - Ele participava, ele não largava do Moles. Ele e Fabiano Sobrinho. Onde ele estava, você via o Adoniran, podia saber que o Moles tava por perto, né? Eles fizeram aquele "Trem das Onze", aquele charutinho na história das malocas. E o Moles, ele era como se diz, era um doutor em gíria. Tinha lá uns lavadores de carro e vinham saber gíria com ele. E nunca vi ele ler, era só livro em inglês, em estrangeiro, em... Eu nunca vi ele nem pegar, mas sabia, era um doutor, um doutor em gíria. Ele foi um grande produtor, né? Ele ganhou a... Ganhou aquele Roquete Pinto.

 

P - Várias vezes.

 

R - Até depois de 7 anos, 7 ou 8 anos aí não podia ganhar mais, mas ele fez do... Das cativas e dos títulos também. O título era em termo assim de aceitação, eu particularmente achava que não ia vender nada, no entanto, foi um sucesso a venda.

 

P - E como era o bairro do Morumbi na época que o São Paulo comprou o terreno?

 

R - Era só... Ali é... Pra ter uma ideia, depois de inaugurado parcialmente, ainda tinha umas vaquinhas que pastavam ali do lado, (risos) Tinha um retiro ali na, hoje, era a Avenida Antonis. Hoje tá canalizado ali, tinha um retiro, umas vacas holandesas que pastavam ali do lado, isso não passava ainda a estrada ali; lá em cima ainda não dava. Então, era só terra. Isso aí começou o desenvolvimento bem, bem mais tarde, bem mais tarde. Era só o terreno.

 

P - O Adhemar de Barros tinha alguma uma relação com o São Paulo, a mulher dele?

 

R - Não, com o São Paulo, veja bem, ele tinha esse Jardim Leonor que parece que era da família.

 

P - Da mulher dele, Dona Leonor.

 

R - É, eu sei que ele, o Figueiredo Ferraz, foi com o Dr. Werneck aventou essa hipótese, porque o São Paulo naquela época tava pretendendo não trocar, mas dar o Canindé e pegar o terreno do Ibirapuera pra fazer o estádio lá e graças ao Jânio não deu certo.

 

P - Como assim?

 

R - Ele era vereador e ele, como se diz, na veemência dele acabou, não passou na Câmara, né.

 

P - O quê que o Jânio falava?

 

R - Assim que eu lembro, mais aquelas... A gente vê, inclusive o processo existe até, tá lá porque transformou aquilo como se o São Paulo quisesse dar em pagamento o Canindé e não era propriamente isso. O São Paulo abria mão desse terreno, quer dizer, a prefeitura doava esse do Ibirapuera, então, vamos dizer, a doação, as coisas não têm o... E talvez tenha até sido melhor, né? Depois esse Manuel Figueiredo Ferraz que é, acho que é genro do Adhemar, tinha o escritório com o Dr. Werneck e ele é que ia, São Paulo continua procurando, ele lembrou do Jardim Leonor que é esse loteamento aí.

 

P - Onde está o estádio hoje.

 

R – É. E foram conversar com o Adhemar e tudo, então houve uma doação, uma doação de 25 mil metros e pouco, direto da construtora e 99 mil metros e pouco era praça pública, ruas, essa coisa toda. Teve anuência da prefeitura, era o Dr. Armando de Arruda Pereira na época o prefeito, então deu essa área total de 154,520 metros quadrados mais ou menos, que é área atual, né? Mas aí começou a se desenvolver em decorrência do estádio, em decorrência da parte social, com a parte social. Inclusive, na época a gente tava pensando em comprar terreno lá para instalar, para fazer, edificar um prédio para os funcionários, porque não estava fácil pegar gente para trabalhar lá, né? Era uma região meio... Era uma viagem, né! Uma viagem lá. E eu sei dizer que com a inauguração, com a inauguração da parte social ficou parado o quê? Uns meses. Então o preço do metro quadrado, onde inclusive nesse retiro a mil e cem metros e do lado ainda tem um pedaço da chacrinha ali, tem umas plantas. Era uma chácara que dava uns 6 mil e poucos metros e um tava 600 e pouco o metro quadrado e outro mil e quebradinhos. Inaugurou a parte social e quando voltamos pra lá já tava em quase 9, aí já não deu pra conversar mais.

 

P - De certa forma o estádio contribuiu para valorizar a região?

 

R - Ah sim, valorizou muito, valorizou muito. Aquilo era uma região meio... Inclusive, no começo... Hoje ela é considerada uma região sofisticada e tal, mas ela teve uma imagem que não era... Ali, como se diz, no começo era até perigoso, uma área perigosa. Quando estava descampado tinha, à noite, “bandidão” fazendo partilha de roubo lá e desova de presunto, como diz aí na gíria. (risos) Não era como se diz. Era meio perigosa mesmo e era descampado, né? Tanto é que teve uma época que funcionário perdia o último ônibus, ia dormir no estádio. (risos) Ele não tinha condições nem de atravessar ali do portão para ir na Francisco Mourato, que ali tinha umas “maloquinhas”, gente simples, boa, mas tinha muito bandidão também misturado ali, então assaltavam, machucavam. Tanto é que o primeiro ônibus (risos). Conto? O primeiro ônibus, o motorista, cobrador, fazia a chamada às 6:15, fazia a chamada do pessoal. Era ali e no Hospital Infantil. Ele tinha a relação de todo pessoal que trabalhava lá porque se não pegasse o ônibus, e o ônibus ia até Pinheiros, se não pegasse o ônibus ele dormia lá. Era muito arriscado lá.

 

P - Como é que foi aquela história do pinheirinho na época da construção, da terraplanagem do estádio?

 

R – Ah, o pinheirinho. Do pinheirinho é o seguinte: na época, a situação financeira estava bem, bem curta, né? Dinheiro tava curto, eu não tinha muita condição de fazer promoção de jornais, aquela... E como a cadeira cativa também tava difícil de vender, aí então era... De vez em quando sobrava um dinheirinho, fazia um churrasco para a imprensa, era, assim, uma promoção de um, dois dias, três dias no máximo, né? Noticiava e tal. E um belo dia não, sei porque cargas d'água, tinha um casal de gavião em cima de um pinheirinho. Porque tava derrubando, tava cheio de pinheiro, árvores. Então tava limpando e surgiu que a senhora do presidente não queria que derrubasse o pinheiro por causa dos filhotes de gavião e aquilo ficou sendo noticiado quase um mês inteiro: “Não, é amanhã que vai derrubar!”; “Não, a mulher do presidente não quer, a firma vai rescindir o contrato.” Eu não sei de onde surgiu, só sei que ficou isso nos comentários, essa coisa, e divulgou, né? Aí o pinheirinho, olha, ele só saiu de lá quando, em 60, teve que fechar o estádio para inaugurar parcialmente. Aí teve que... Aí foi derrubado, teve que passar o muro. Mas ele ficou até 60.

 

P - O estádio está sendo construído já e o pinheirinho tava lá.

 

R - É, porque depois não tinha mais razão, mas também não tiraram, não é? Ele serviu para esse fim, na época. É isso aí. Quando fez o movimento de terra foi em 53, 53 fins para 54, então era... Aí depois já, essas campanhas com bônus, isso aí, ele fez com cobertura total: televisão, jornais, rádios. Isso já teve, mas no começo não tinha, não tinha nem as reservas do São Paulo para atender aos clientes, não chegou...

 

P - Falando em televisão, Sr. Agnelo o senhor se lembra do quando começou a televisão no Brasil aqui em São Paulo em 50? Os programas que passavam, o primeiro dia que passou a televisão, o senhor se lembra disso?

 

R – Lembro. Eu saí lá da sede tinha uma, ali no Largo São Bento era a antiga Tupi, né? Aquela antiga da Tupi. E nessa oportunidade que foi no dia que saiu eu tava andando, só tava aquela imagem com o símbolo da Tupi, mas depois aí ofertaram uma televisão. Na época era até um... 56 polegadas, mas parecia tudo risco. Era uma Amstrong, e a firma deu de presente então a gente via: a Bola do Dia, David Neto, até diziam que o David Neto era parecido comigo! (riso) O Valter Stuart que fazia a Bola do Dia.

 

P - Tinha um são paulino famoso, quem era? Um são paulino famoso que começou na televisão, se lembra dele? Lima Duarte.

 

R - O Lima Duarte. O Lima Duarte e aquele o...  Até o maestro lá, o Érlon Chaves era muito ligado à gente desde quando estudava música e ele fazia com o Frederico Martins, o Lima Duarte, e tinha um outro..

 

P - Esse pessoal era todo era são paulino? Esse pessoal todo era são paulino ou tinha alguma ligação com o São Paulo?

 

R - Era tudo são paulino, se inscreviam. O Érlon era, eles brigavam por causa do São Paulo, depois ele comprou a orquestra lá do, daquele maestro que foi para a Itália lá. Mas ele fazia naquele tempo acho que a TV de Vanguarda, antiga Tupi, né? Tinha era comédia e TV de Vanguarda, que era uma coisa, assim, ele também trabalhava. Era Henrique Martins, Henrique Martins.

 

P - Henrique Martins era o ator, né? Eu me lembro.

 

R - É, era o Lima Duarte. Inclusive, quando ele sofreu aquele desastre que ele veio contar... Hoje até não... Ele sempre vai lá, mas eu nem perguntei, porque não parece mais que ele... Ele ficou com a mão torta muito tempo, né? Ele deve ter feito cirurgia e tal. Eu me lembro que ele, inclusive contando na televisão, estava na beira da estrada e todo mundo parava para socorrer, ele queria morrer, com a mão toda esmagada, né? Na época ele não... Era são paulino, mas não... Que lá na sede geral de José de Almeida esse era... Inclusive foi conselheiro muito tempo, chegou a ser diretor dessa época, mas ele era mais no campo. De televisão tinha a Isaurinha também, que cantava muito. Eu não sei se ela era são paulina ou não, mas ela frequentava muito a sede lá na época da televisão, que se iniciou a televisão, né?

 

P - Em 50, né? O senhor parece que participou diretamente da contratação do Zizinho, como é que foi essa história?

 

R – Não, do Zizinho é o seguinte: eu estava no Departamento Técnico na época e fui eu que fiz o registro dele como jogador, o registro mais rápido até hoje no São Paulo.

 

P - Por quê?  

 

R - Ele, o Zizinho, veio da Argentina, não é? É que ele tava no Bangu, então a transferência dele teria que ser entre federações, assim tinha que ter, vamos dizer, o São Paulo consultar, encaminhar pra Federação Paulista; a Federação Paulista, vamos ver, consultar a CBD na época; a CBD consultar a Metropolitana; a Metropolitana consultar o Bangu e depois o mesmo, a mesma rotina de volta, não  é? Então aquilo dava, uma transferência dava normalmente quase uma semana. E o Zizinho chegou de viagem às duas e meia e tinha que assinar o pedido de transferência e tirar fotografia. O que demorou mais foi pra tirar a fotografia. Inclusive, quem, vamos dizer, salvou a situação na época foi o Benedito Rui Barbosa. Esse que é, escreve essas novelas aí de... Ele era setorista da Última Hora e já era são paulino assumido, então ele tava de carro e falei: “Olha Rui, você.” Ele queria assinar como testemunha, tanto é que o contrato do Zizinho tá assinado como testemunha o Rui. “Você põe ele dentro carro, você vai entrevistando que a foto, Foto Rafaele é ali na Avenida São João.” Só assim que consegui tirar. Perdi um tempão enorme, porque não deixavam o Zizinho sair de... Puxavam pelo braço, puxavam pelo paletó, quer dizer, parecia que ele tava em fim de carreira, né? Mas tirou a fotografia, aí já tinha um, como se diz? Encaminhamos lá pra federação, já tinha um outro funcionário, levou de avião. Quando chegou lá na CBD, a Dona Marina já deu pelo telefone o ok, ela já tinha feito toda a consulta do Bangu, lá da Metropolitana. Então ele chegou lá, foi só entrar o pedido de transferência e já comunicou. Então isso foi numa sexta-feira, 6 horas já tava, e ele estreou contra o Palmeiras no domingo.

 

P - O senhor lembra como é que foi o jogo?

 

R - Como?

 

P - Como foi o resultado do jogo?

 

R - 4 a 2.

 

P - E o Zizinho como jogador?

 

R - Não, ele era um grande jogador, ele era um líder, né? Ele, em termos de disciplina, deixou um pouquinho a... Mas termos de liderança ele..

 

P - Como é que foi a saída dele do São Paulo?

 

R – Foi... Você vê como ele... Ele mesmo já contou, então não tem problema nenhum eu contar: foi por causa de disciplina, né? Ele transgrediu. E houve... Não houve, assim, praticamente uma aplicação de uma pena, houve uma advertência. Ele era genioso na época e tal. Ele então pediu a rescisão, ele pediu a rescisão, em 58. E o São Paulo poderia até ser em 58 o campeão, né? Mas ele pediu a rescisão. E ele foi, como se diz? Ele morava com o Lanzolini, então eles iam pra boate e tal e o São Paulo nessa época mantinha uma equipe de detetives, né? Tinha o livro ponto, reduzia os dias de concentração, mas ia um funcionário com livro ponto, então o jogador tinha que estar em casa pra assinar o ponto. E, assim, dizem que ele se apresentava de pijama; ele e Lanzolini, o funcionário passava lá  no prédio e quando o funcionário chegava lá que ele olha assim, fechava a luz, bem de pijama, fechou a luz e foi dormir. Aí e os torcedores: “Ah, eu vi lá o fulano tal na boate e tal, não sei quê.” Até que botou um detetive e ele descobriu que ele fechava a luz e saía pelo fundo do prédio. Ele contou isso na Cultura, né? Então não tem... Mas ele depois de... Quando ele foi ser técnico ele voltou no São Paulo pra pedir todos os regulamentos disciplinares, do regime de concentração, de viagens, porque o São Paulo tinha, né? Da concentração. E foi com o Lanzolini, por incrível que pareça, que ele também tava como técnico no Paraná. Até o Lanzolini falou: “Você só não me dá é a forma do memorando de aplicação dos 60%, porque essa eu sei de cor.” (risos). Até é expressão dele mesmo. O resto ele levou também, o Lanzolini. O Zizinho e o Lanzolini. O Zizinho parece que tava no Rio, não sei. Parece que tava como técnico, e o Lanzolini no Paraná.

 

P - Sr. Agnelo pra gente terminar o que o senhor coloca como o fato mais importante, marcante na sua vida?

 

R - No São Paulo?

 

P - Da sua vida com o São Paulo. Qual foi?

 

R - Eu acho que a inauguração do estádio, né? Porque foi, como de diz, um período desacreditado, era objeto de chacota, de gozações o que passamos. E, às vezes, a gente, aquele trabalho imenso e a turma dando risada, né? Então, quando foi a inauguração a gente via aquele pessoal, que tinha gente aqui mesmo de São Paulo que não conhecia aquele primeiro pedaço de... E quando chegava lá ficava deslumbrado, né? Aquilo, eu pra dizer a verdade eu não chorei de vergonha, não de chorar, eu não tenho vergonha de chorar, mas é que ficava muita gente em volta, querendo saber a história, porque era eu e o Mário Naddeo só que fazia parte da administração, porque o resto praticamente eram as empreiteiras. Então ficava aquela multidão querendo saber como é que foi isso, como é que foi aquilo e tal. Eu não chorei por vergonha de falar, mas que me deu um negócio assim que, vontade realmente de... Porque foi assim, todo o tempo foi, como se diz, como se as pessoas tivessem diminuindo a gente. De repente vê aquele, né? Tinha gente que arrancava os cabelos. Um cidadão um dia apareceu de terno branco, aquele linho 120, todo engomadinho, ele rolou lá, saiu com o terno marrom! (risos). Aquele linho 120 que usava antigamente, mas ele ficou tão emocionado que ficou rolando lá na grama. Então era um... Vinha gente do norte, do sul, do exterior, era... Parecia aquele, aqueles santos, né? Que eles descobrem, que tá fazendo milagres e cada pessoa que chegava lá não imaginava. Imaginava um estádio lá de madeira e tal, depois via aquele monstro!

 

P - Qual foi o maior jogador que senhor viu jogar no gramado do Morumbi?

 

R - Einh?

 

P - O maior jogador que o senhor viu jogar no gramado do Morumbi?

 

R - Foi o Pelé, né! O Pelé não tem... O Pelé acho que não tem... Um senhor jogador, né!

 

P - Do time do São Paulo assim?

 

R - Ah bom, do São Paulo teve o Litércio, teve o próprio Pedro Rocha no São Paulo, né? No Morumbi. O Pedro Rocha, um estilo de jogo bonito. O Gerson, não é! Que o Gerson mudou, mudou completamente a fisionomia do... Esse era um líder mesmo do campo e fora dele. O que ele falava a turma não desobedecia. Ele falava xingando, xingava até a sétima geração, mas era um leão pra defender, bicho! Então ele liderava a turma, o que ele falava a turma, o cidadão tinha que correr senão ele ia lá e chamava atenção.

 

P - Tá ok, seu Agnelo. A gente agradece muito a colaboração. 

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