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Consegui ser aquilo que queria ser.

História de: Jair José dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/02/2022

Sinopse

Jair José dos Santos nasceu em São Paulo, capital, e aos 4 anos, por conta do trabalho do pai, mudou-se com a família para Barra Bonita, onde estudou na infância e juventude. Cantava no coral da Igreja. Formou-se em Filosofia e depois em Direito, em São Carlos (SP). Trabalhou numa cervejaria multinacional, trabalhou com contabilidade por 12 anos. Foi professor, supervisor municipal de educação e trabalhou na Secretaria Municipal de Educação. É professor de filosofia no Ensino Médio e vereador (2021). Defende as causas ambientais e educacionais. Tem o sonho de conhecer outros países, Chico Buarque ao vivo e escrever um livro. 

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História completa

Entrevista de Jair José dos Santos

Entrevistado por Lila Schnaider e Cristina Santos

Projeto Barra Bonita

Realização Museu da Pessoa

 

Entrevista número PCSH_HV1143

 

00:00:10 

P/1 - Oi Jair, tudo bem? Boa tarde. 

R - Oi, boa tarde, tudo bem? 

P/1 - Tudo. 

 

00:00:18 

P/1 - A gente pode começar. Você por favor poderia começar falando o teu nome completo, local e data de nascimento ?

R - Meu nome é Jair José dos Santos, eu nasci na capital de São Paulo, no dia 07/03/1972.

 

00:00:40 

P/1 - O nome dos teus pais? 

R - Meu pai se chamava Armando José dos Santos, e minha mãe se chama Maria Cristina Neves. 

 

00:00:54

P/1 - Qual era a atividade deles? 

R - Meu pai era mecânico montador. Ele trabalhava para empreitas, viajava o Brasil todo fazendo obras na Entressafra, ele fazia manutenção de usinas de açúcar, montagem de estruturas metálicas, sempre foi muito atuante nessa área, a vida inteira trabalhou com essas questões de estruturas metálicas e montagem industrial. Minha mãe era, além de cuidar da gente, era chamada do lar, ela também era diarista, fazia faxinas aqui nas casas em Barra Bonita. 

 

00:01:51

P/1 - Quais eram os costumes da tua família na tua infância? 

R - Meu pai era um retirante nordestino. Era uma família de alguns costumes peculiares, inclusive na questão da alimentação ele gostava de feijão de corda, de farinha, de carne seca, era do interior da Bahia. Então, trouxe com ele esses costumes da tradição baiana. Meu pai na verdade conheceu minha mãe no Amapá. Minha mãe é nascida no Pará, em uma cidade do interior do Pará chamada Afuá, mas ela viveu boa parte da sua infância em uma cidade chamada Santana, que fica próximo a Macapá, a capital do Amapá. Na verdade houve uma mistura de costumes, porque ela também tinha lá o seu modo de vida, que era o modo de vida simples, e podemos dizer que é até meio modo de vida indígena, com base na cultura daquele local,

mas ela trouxe de lá muita coisa também, que hoje até virou moda por aqui. Como por exemplo, a castanha do Pará, o açaí, o cupuaçu, os peixes, e tantas outras comidas que são típicas de lá e que se misturaram nesse casamento dos dois, e que viraram uma espécie para nós de costume comer tanto a comida do meu pai que é uma comida típica do interior baiano, como também da minha mãe que vinha lá do extremo norte do país.



00:03:37

P/1 - Eles costumavam contar histórias para você? Como que era ?

R - Sim, contavam muitas histórias, meu pai inclusive por conta das viagens dele, ele fazia comparações dos lugares onde ele estava a trabalho e em relação ao local onde ele nasceu, porque era um local de muita pobreza, de muita aridez, de muita secura, pouca água. Eles tinham poucas coisas para viver, era um modo de vida bastante difícil, e depois quando ele conseguiu sair de lá aos dezesseis anos e vir para São Paulo trabalhar, pela primeira vez ele se chocou, houve um choque de cultura, porque encontrou aqui uma cidade enorme com costumes diferentes, com tradições diferentes, ele pôde assimilar essa cultura, mas nunca perdeu a sua identidade. É a mesma coisa em relação a minha mãe que também teve uma vida difícil, também retirante do extremo norte do país, mas que conseguiu apesar da nova cultura adquirida manter os costumes da sua terra natal. Isso é muito importante para nós Leila, porque eu e meus irmãos, a gente valoriza muito isso dos nossos pais, é uma coisa que a gente carrega com a gente, a gente sempre teve orgulho dos nossos pais, porque eles conseguiram passar isso para gente de uma forma tão simples, e não foi forçados a nada, a gente teve uma educação ao modo deles, e de modo que quando entramos na escola, a gente não chegava em casa e falava, olha pai, o que você aprendeu está errado, a gente compreendia que aquela tradição dele ela tinha que ser respeitada, e a gente procurava fazer a conciliação desses valores, não sei se você me entende, porque a gente tinha muito respeito por eles, pela história deles, por toda a história de luta inclusive, que foi uma história difícil, de pobreza, de situação de miserabilidade, de vulnerabilidade social, aos poucos eles foram melhorando de vida, não que tivessem se tornado ricos, a riqueza deles era justamente esses valores que eles traziam, essa cultura, essa bagagem cultural de pessoas que vêm de regiões distantes do país, e que conseguiram passar para gente, os seus filhos tudo isso, e a gente hoje tem muito, mas muito respeito pela tradição e pela história dos nossos pais.



00:06:24

P/1 - Momento engraçado disso tudo, dessa história?

R - Momento engraçado? Eu diria que há vários momentos, mas um momento que foi marcante nessa história foi quando meu pai viajou para o Caribe, ele foi convidado para trabalhar em uma empresa lá, ele na verdade nem sabia onde era o Caribe, ele achava que o Caribe era uma coisa, uma cidade onde ele ia, ele visitava tantas cidades no país, e um dos patrões dele naquele momento falou, “agora você vai ter que tirar o passaporte”, e ele nem sabia o que era um passaporte, até então a gente conhecia o passaporte como uma espécie de entrada em um parque de diversões, passaporte da alegria, ele foi obrigado então a fazer esse documento, na verdade não era nem uma obrigação, era uma questão trabalhista, e ele viajou pela primeira vez para fora do país, foi de avião. Voltou de lá, falando, era uma ilha na América Central que se chamava Guadalupe, ele depois trouxe de lá, veio falando meio francês, era tão engraçado, porque ele misturava um baianês com francês de lá, ele ficou um bom tempo lá, a gente dava risada e curtia junto as histórias que ele trouxe, uma coisa que me marcou muito, e aos meus irmãos também.

 

00:08:02

P/1 - Você tinha falado dos teus irmãos, você tem irmãos? Quantos são? 

R - Sim, eu sou o filho mais velho de uma família de quatro irmãos, tenho um segundo irmão que se chama Jainey, depois tem uma irmã cujo nome é Janaína, e o mais novo, o caçula da família se chama Jailson, vocês podem perceber que houve uma escolha pela letra J. Meu irmão Jainey tem até uma história engraçada, porque meu pai queria que ele se chamasse Jair Ney, minha mãe discordou e falou, “já tem o Jair”, inclusive o meu nome, ele naquela época de setenta, o nome Jair era muito popular, meu pai me contava que houve um festival da Record em que a música do Jair Rodrigues, Disparada, fez muito sucesso, inclusive ganhou o festival. Esse mesmo festival também participou nada menos do que Chico Buarque, ele tinha lançado a música A Banda, houve um clamor muito grande em torno das duas canções de modo que elas empataram naquele festival e as duas ganharam o prêmio de melhor música, tanto Disparada no Jair Rodrigues, como A Banda do Chico Buarque. O nome Jair era popular, depois na época de setenta também teve a copa de setenta se chamava Jair. Não teve jeito, meu nome foi Jair mesmo, e como o meu pai gostou tanto desse nome Jair ele queria colocar no meu irmão também, e minha mãe não deixou, pediu para ele tirar o R e colocar Jainey, meu irmão tem esse privilégio de ter um nome único, depois veio a Janaína e o Jailson, e essa é a história dos meus irmãos, um pouquinho dela, porque tem muitas histórias. 

 

00:10:12

P/1 - Você se lembra da casa onde você passou a sua infância ?

R - Sim, para falar a verdade para você eu me lembro da casa onde a gente morou em São Paulo, eu tinha quatro anos de idade, e eu me lembro da casa, era uma casa simples ali no bairro da Vila das Mercês, na capital e minha mãe foi inquilina de uma grande pessoa, uma pessoa incrível que se chamava Benedita, desde quando eu nasci a dona Benedita que era a nossa locatária, ela gostava muito de mim, de modo que depois a minha mãe escolheu ela para ser a minha madrinha de batismo, meu pai também gostava muito do esposo dela, o seu Manoel meu padrinho. Me lembro que, quando eu acordava de manhã com dois ou três anos de idade, eu corria lá na porta dela que era a casa do fundo, conjugada, e batia na porta dela de manhã e falava Bidinha, Bidinha quero tomar café, chamava ela de Bidinha, porque não sabia falar madrinha ainda, minha mãe ficava brava, porque na verdade eu gostava tanto da minha madrinha, que eu já acordava e corria lá para tomar café na casa dela, e eu me lembro que quando a gente mudou de lá para Barra Bonita, foi uma ruptura, uma coisa tão triste para mim que eu não consigo esquecer até hoje, não consigo esquecer os detalhes da casa dela, do cachorro que ela tinha que se chamava Gigante, da minha irmã que era filha dela a Alexandra, que a gente brincava junto ali naquele período até os quatro anos de idade. Eu fiquei muito triste, quando a gente mudou para Barra, mas certamente a mudança para Barra foi uma coisa que mudou a minha vida definitivamente, é claro que a gente vai ter a oportunidade de falar mais sobre isso. 

 

00:12:07 

P/1 - Fala um pouquinho dessas brincadeiras, que brincadeiras que eram, como era o bairro que você morava na infância antes de se mudar, e como foi depois que você se mudou, fala a idade que você se mudou, e como era essa sua vida antes da infância, as brincadeiras que você costumava fazer ?

R - Com relação às brincadeiras, eu me lembro pouca coisa, mas eu me lembro que a minha madrinha me deu uma espécie de velocípede que eles chamavam na época, um velotrol, a gente fica brincando, eu e minha irmã, que eu chamava ela de irmã, a Alexandra, que era filha da minha madrinha, era uma rua, me lembro que era uma rua íngreme lá na capital, ainda não tinha asfalto, tinha paralelepípedos, me lembro também que a gente brincava com o Gigante que era o cachorro da minha madrinha, era um pastor alemão muito dócil, e do quintal asfaltado, era coberto, tinha uma garagem, era uma espécie de cortiço, mas para gente que vivia lá tinha espaço para gente brincar, eu tinha uma pessoa com quem eu convivia que era adorável, que era Alexandra, a gente tinha quatro anos de idade, mas tinha tanta afinidade, tudo era muito divertido, tudo era motivo de brincadeira. Minha madrinha, eu me lembro que a gente ia à feira em São Paulo, e minha madrinha comprava um suquinho de plástico transparente que eu não esqueço até hoje, de vez em quando eu vejo suquinho, que ele tinha forma de bichinhos, forma de carrinhos, você cortava a ponta dele e tomava assim, é uma coisa maravilhosa. O pastel da feira, de andar pela feira, sentir o cheiro da feira na capital, que eu sinto esse cheiro até hoje mesmo com quarenta e nove anos de idade, eu não me esqueço daquela passagem que eu tive ali. Me lembro também que minha mãe era católica, mas minha madrinha era evangélica, e de vez em quando ela me levava na igreja dela, me lembro que eu chorava porque eu sentava separado da Alexandra, ela ficava de um lado da igreja com a mãe dela, e eu ficava com meu padrinho do outro, era uma congregação diferente daquela que eu congrego hoje, que eu sou católico, mas depois anos mais tarde eu fui compreendendo toda aquela dinâmica de religião, de escolhas deles, mas foi um momento. Foram quatro anos em que eu me recordo de muitas coisas, porque foram marcantes definitivamente na minha vida, que me ajudaram no meu processo de socialização chamada infância primeira, que ajudaram na minha personalidade, foi muito legal, eu tenho contato com a Alexandra até hoje, ela mora em Cubatão, na região litorânea do estado. Infelizmente os meus padrinhos já se foram, assim como também meu pai. 

 

00:15:15

P/1 - Com que idade você se mudou mesmo? 

R - Com quatro anos de idade, em mil novecentos e setenta e seis eu mudei para Barra Bonita. Meu pai, como ele era viajante fazia sempre obras em lugares diferentes, ele foi convidado para fazer uma obra em Barra Bonita, e aqui ele conheceu um amigo, que se tornaria o compadre dele, padrinho da minha irmã Janaína. Depois esse padrinho dele veio para São Paulo em uma obra, em uma empresa em que eles trabalharam juntos, convidou ele para morar na Barra, meu pai tinha ficado encantado com a cidade, porque a Barra sempre foi uma cidade muito bonita, aqui exagerando no advérbio, porque era diferente da capital.

A capital nos anos setenta era mais calmo, mas já era um grande centro com todos os seus problemas, meu pai simplesmente amou a cidade de Barra Bonita assim que viu a orla, a natureza, as pessoas daqui, então ele decidiu depois de um convite desse compadre dele que viria para Barra e traria a família. Foi o que aconteceu, tinha um irmão também mais novinho, meu irmão tem três anos de diferença de mim, o Jainey, eu tinha quatro anos, ele tinha um ano, viemos os dois de lá com minha mãe, estamos aqui até hoje. Os meus irmãos Janaína e Jaílson nasceram em Barra Bonita. 

 

00:16:59

P/1 - Quais são as suas lembranças da escola? 

R - Da escola me lembro que eu estudei numa escola aqui chamado Cene. Hoje é uma escola de ensino fundamental e médio, mas na época ela tinha também o pré, e o pré foi um momento de muito conhecimento para mim, porque foi estar com pessoas diferentes, com crianças diferentes, eu em um contexto totalmente assim novo para mim, mas foi também encantador, porque me lembro muito bem da minha professora, a tia Leninha, ela era muito boa com a gente, ela me ensinou boa parte daquilo que eu sou hoje também, porque depois no futuro ela viria a se tornar a minha patroa em um escritório de contabilidade que eu trabalhei lá por mais de doze anos junto com ela, mas assim do pré especificamente me lembro dos meus amigos, e amigos que inclusive estão na conta da minha amizade até hoje, também o jeito de brincar, do que a gente fazia em sala de aula, me lembro que a tia Leninha me passava para fazer a letra C, eu não me esqueço nunca disso, a gente tinha que fazer ondinha vai, ondinha vem. Hoje a minha letra C não tem nada a ver com aquilo que ela me ensinou, mas eu não esqueço disso. Também me lembro das cadeirinhas em que você colocava aquela mochilinha verde atrás da cadeira, me lembro dos lanches que minha mãe mandava, tadinha, infelizmente não era assim aquela coisa, mas ela sempre procurava colocar um lanche, um pão com manteiga, um café com leite dentro da nossa mochilinha lá. Como que chamava aquela mochilinha? Não me lembro mais. A lancheirinha, que a gente tinha, carregava ela como se fosse uma bolsa a tiracolo, isso marca muito, me lembro que eu ia a pé até em casa. Você vê, hoje em dia a gente não deixa mais uma criança de seis anos sair por aí, mas eu morava em um bairro que cortava uma avenida muito grande da cidade, que é a avenida Pedro Ometto, uma avenida de grande circulação de veículos, eu me lembro que saía a pé ali do Cene, atravessava a avenida sem nenhum problema, chegava em casa com apenas seis anos de idade, isso me marcou muito, foi uma época muito feliz da minha vida pré-primária. 

 

00:19:37 

P/1 - Nesse período, tem alguma história mais marcante para você? Da sua escola ou de algum professor? 

R - Além da tia Leninha que eu guardo no meu coração até hoje, depois passei por uma escola chamada Fernando Costa, que foi o primeiro ano do ensino fundamental, primeira série, lá eu conheci um amigo que se chamava Sandro, ele era um camarada muito legal, e morava já na Cohab que é o bairro que eu viria a morar depois. No Fernando Costa a gente brincava junto, estudava junto, quando a gente mudou para Cohab, a gente começou a vir de circular, que é o ônibus coletivo que transporta as pessoas do centro para o bairro periférico onde eu moro que é a Cohab e vice-versa, e a gente com sete anos de idade passava por debaixo da catraca para ir de graça no circular, e era permitido isso porque os cobradores nada falavam, deixavam, eu era criança, isso também foi um fato que me marcou porque veja bem, também com sete anos de idade você sair da escola, pegar um transporte coletivo e chegar até a sua casa. É um negócio inimaginável hoje em dia, não que minha mãe não tivesse responsabilidade sobre nós, pelo contrário, ela sempre estava de olho no que a gente fazia, mas era uma coisa que a gente aprendeu desde cedo a ter essa autonomia, a ser emancipado, e também a situação da cidade que era uma situação de muita calmaria, onde todo mundo conhecia todo mundo, eu falava, o filho da dona Cristina, tudo bem, deixa ele entrar, e por aí a gente vai se desenvolvendo, até que finalmente foi construída a escola Cônego aqui de Barra Bonita na COHAB, então a gente foi transferido. Esse contexto de escola, ele faz parte da minha vida desde sempre, tanto que hoje sou professor, e na escola Cônego também houve muitas histórias até chegar a oitava série. Me lembro que na oitava série, a gente prometeu na classe que nunca ia se separar, aquelas coisas de amizade que a gente pensa que serão eternas, algumas de fato se eternizam, mas hoje em dia a gente sabe que as relações estão um pouquinho mais efêmeras, mais passageiras, a internet ao mesmo tempo que aproximou as pessoas, ela distancia, pelo modo com que se dão as coisas, pela rapidez, aquilo que, como um filósofo polonês chamado Zygmunt Bauman chama de sociedade líquida. Que  a sociedade hoje ela tem essa dinâmica, que não permite mais essa aproximação, ou que a aproximação ela é apenas passageira, mas eu valorizo muito meus amigos, aqueles amigos da oitava série que eu prometi que seriam eternos ainda estão no meu coração, muitos deles, inclusive eu tenho nas redes sociais, a gente conversa, alguns eu vejo nos locais de trabalho, a escola sempre foi um espaço de convivência muito importante para mim, onde eu adquiri valores além dos conhecimentos, que eu carrego muita coisa da escola comigo. Diz que quando a gente sai da escola, a escola continua com a gente e comigo não foi diferente, até eu me formar em filosofia e continuar na escola até hoje. 

 

00:23:38 

P/1 - Qual a tua memória dessa mudança? Você tinha quatro anos quando você se mudou. Qual a tua primeira imagem de Barra Bonita?

R - Quando eu cheguei na Barra na verdade era a noite, me lembro que a gente foi lá na casa desse compadre do meu pai, ele nos recebeu, nos acolheu no primeiro momento da sua casa. Depois minha mãe juntamente com meu pai, saiu no dia seguinte para procurar uma casa que eles pudessem alugar e a gente morar. Eu me lembro que meu pai às vezes fazia a gente andar pelas ruas da cidade, isso era muito cansativo, meu pai sempre foi acostumado a andar a pé, mas como a gente era muito criança a gente não tinha esse costume, o que eu me lembro é disso, daquele momento inicial quando houve a mudança para Barra Bonita, dele levar a gente para os lugares, para procurar a casa, até que nós achamos uma casa no centro da cidade em uma região não muito longe do centro, vamos dizer assim, que era perto do meu padrinho. Naquela época a gente mudou e era feliz nessa casa, porque apesar de ser uma casa simples também tinha vizinhos que nos acolheram muito bem, pessoas muito agradáveis com as quais inclusive eu tenho amizade até hoje. 

 

00:25:05 

P/1 - Qual é o lugar que você mais se lembra que te marcou? 

R - Da orla turística. A orla turística de Barra Bonita é encantadora, é uma cidade que traz uma paz, uma segurança, deixa a gente leve, você só de observar ali o rio Tietê. Eu me lembro que minha mãe depois levava a gente para brincar lá no parquinho da orla, tinha um parquinho que ficava na beira do rio praticamente, e a gente se divertia muito porque era tudo novidade, gostava muito de brincar. Depois de um certo tempo a gente foi se acostumando com aquela ruptura que houve da nossa mudança do São Paulo para cá, mas depois foi só encantamento e felicidade, porque minha mãe também transmitia isso para gente, deixava a gente tranquilo, falava que aquilo era uma coisa boa para gente, que a gente ia conhecer novas pessoas, que tudo ia melhorar, e de fato as coisas melhoraram, a gente tem uma vida muito feliz aqui no interior de São Paulo. 

 

00:26:21 

P/1 - Aconteceu alguma história nessa orla? Alguma coisa que você se lembra assim específica? Alguma história?  Algum encontro? 

R - Aconteceram vários. Na orla, a gente passeava quando era adolescente, e alguns amigos tinha ali encontros festivos, tinha eventos que a prefeitura promovia, tinha uma feira grande aqui em Barra Bonita que se chamava Cepatur, onde havia exposição de produtos de artesanato, expositores de fórum vinham trazia as suas mercadorias, também tinha shows que eram gratuitos para o público que a prefeitura, a Secretaria Municipal de Cultura trazia, eram assim, foi um lugar que sempre marcou minha vida de alguma forma. Ali também tem lanchonetes, os points, assim, as paqueras aconteciam ali, eu só tenho boas lembranças daquele local, aliás, como de toda a cidade, mas a orla turística é um lugar de encontro, e houve ali vários encontros em que a gente pôde se divertir, principalmente na minha época de adolescente, onde muita coisa boa aconteceu também, novas descobertas, os flertes e tudo mais.

 

00:27:48 

P/1 - Conta alguma história que aconteceu com você lá? 

R - Deixa eu ver…Não me ocorre nenhuma que possa merecer destaque. Foram tantas. Eu lembro que eu não gostava muito de carnaval, nunca gostei. Meu pai gostava de forró. Minha mãe gostava das músicas típicas da terra dela lá, como chamado movimento brega e outras, a gente tinha os nossos gostos na adolescência. Festa a fantasia e os amigos se empolgaram, chegou o dia marcado, a gente desfilou pela avenida, foi um momento muito feliz, que eu me senti um destaque na avenida, porque eu me lembro que as pessoas ao longo da avenida assistindo o desfile batiam palmas para gente. A gente fez fantasias muito coloridas, e minha mãe ficou orgulhosa da gente, que a gente também estava desfilando ali, foi um momento assim muito legal, diferente. Não que eu tenha sido um entusiasta, mas eu passei a respeitar o carnaval como uma tradição cultural, porque ele tem essa importância na cidade, principalmente aqui que é uma cidade turística, onde as pessoas vem de fora para participar aqui do nosso carnaval, hoje a gente tem uma tradição de blocos de rua, já tivemos clubes aqui que fizeram grandes carnavais, como Vila Nova, AABB e a Ponte Preta, o Clube de Campo também era um outro clube que ficava em Igaraçu, mas que também muita gente da Barra ia lá, então isso tudo foi muito legal porque marcou a minha adolescência, a minha juventude e eu participei dessas festas populares que tem muita importância em um contexto nacional inclusive.

 

00:29:54

P/1 - Como foi na tua juventude quando você começou a sair sozinho, como eram os encontros, as turmas? 

R - Bom, daí eu tenho que resgatar uma história de infância. A gente quando mudou para Cohab, a gente começou a fazer amizade com os vizinhos, e logo eu me enturmei com a galera ali. Me lembro que na Cohab, no início do bairro, foi em 1979, não tinha asfalto. A gente brincava na terra, não tinha guia, não tinha sarjeta, mas a gente se divertia, e nesse período eu conheci grandes amigos, amigos que marcaram a minha infância, a minha juventude, a minha adolescência, aí a gente tem sempre aquela galera com quem a gente tem mais afinidade, a gente começou a sair junto, frequentar os clubes, e essa amizade ajudou a desenvolver quem a gente é, e fez a gente ter um sentimento de cumplicidade um com o outro, a gente sempre foi muito discriminado por ser da Cohab, um bairro periférico, as pessoas chamavam a gente de pé vermelho, de pé sujo, essas coisas que as pessoas falam mesmo, mas a gente não ligava porque a gente tinha orgulho da terra onde a vivia, era difícil no começo, porque sem asfalto às vezes quando chovia a gente tinha que colocar um saquinho no pé e andar até na escola com aquele saquinho amarrado nos pés, quando chegava na escola tirava o saquinho e ficava com o tênis limpinho, mas isso foi uma fase, mas foi muito divertido essa fase de adolescência, porque a gente sempre achava o que fazer, a gente ia na mata brincar, a gente tinha a pedreira que era um local de pedras que eles usavam para obras ali, porque o bairro estava se desenvolvendo, tinha manilhas, tinha pedras e tudo aquilo era um espaço de convivência para nós, um espaço de diversão, na Cohab também, e quando adolescente a gente saia para o canavial, Barra Bonita é uma região canavieira, temos a monocultura da cana-de-açúcar, e a gente ia para o canavial para chupar cana, e só quem é do interior sabe o que é cortar uma cana no dente, tem toda uma técnica, uma destreza que você tem que ter para chupar a cana, tirar os gominhos um por um. Era muito legal, foi um momento de aprendizado. A gente ia nadar em um lago aqui que é do Parque Ecológico, que pertence a Usina de Cana de Açúcar, e a gente praticamente aprendeu a nadar lá, enfim eu posso lhe dizer que minha infância foi totalmente feliz e esse grupo de amigos com quem eu convivi, foi o grupo de amigos com quem eu comecei a sair a noite, a gente ia nas domingueiras dançantes, se divertia pela cidade em grupos, a gente ia a escola Cônego que é o nosso espaço escolar para jogar futebol, vôlei, às vezes com as meninas, conversar. Então, certamente que isso marcou muito e eu nunca vou esquecer, porque essas amizades são para sempre, algumas amizades que eu tenho, alguns amigos são meus amigos até hoje, a gente procura se reunir sempre, até eu tenho um grupo no WhatsApp que se chama amigos para sempre, onde eles estão lá, e sempre que pode a gente fala um bom dia, boa tarde. É claro que hoje cada um tem a sua vida, as suas famílias, as suas atribuições, mas sempre que a gente pode, a gente se reúne para poder rememorar esses momentos, para poder bebemorar o valor da vida e da amizade.

 

P/1 - Fala de um momento com esses amigos para sempre, que te marcou, que foi importante, que foi engraçado, de um encontro, uma festa?

R - Tinha um amigo meu que se chamava Vanilson, ele já faleceu. Inclusive hoje, exatamente hoje, dia 09/11, seria aniversário dele, faria 49 anos. Eu me lembro que eu sempre quis ir em uma festa que se chamava festa de Santa Maria. A Festa de Santa Maria, era uma festa produzida pela Usina da Barra, mas era uma festa restrita aos funcionários da Usina. E eu falava Vanilson, será que um dia você não vai poder me levar lá nessa festa, queria tanto conhecer! Em determinado ano em que aconteceu essa festa o irmão dele não pôde ir, por algum motivo não quis ir e ele me deu o convite, a gente foi nessa festa e foi uma coisa maravilhosa que eu conheci a festa de Santa Maria, lá tinha cachorro-quente, tinha suco, a gente se divertiu o dia todo, é um momento que eu nunca esqueço, por causa desse amigo, que era meu melhor amigo na época, pessoa com quem eu estava sempre, Ivanilson. Eu fico feliz de poder hoje falar dele, porque a gente fez muita coisa juntos. Ele me ensinou muita coisa, os irmãos dele eram mais velhos, então a gente ia na casa dele escutar a Sonata, a gente colocava os discos, e eu me lembro lá dos discos do Marvin Gaye, do Michael Jackson, do Comodors, eram bandas americanas e cantores americanos de cultura afro, e que eu amo de paixão, conservo isso até hoje, a musicalidade que ele me ensinou que foi trazida através dos seus irmãos, e depois a gente curtia muita coisa juntos também na música, como as bandas dos anos 80, Titãs, Legião Urbana, Engenheiros, a propósito vou falar uma coisa para você, quando eu era criança tinha lá os meus 13, 14 anos, o meu sonho era ser cantor, mas não deu muito certo, mas assim, depois eu realizei esse sonho de alguma forma, porque participando no coral da igreja que a gente chama de ministério da música, eu pude cantar, eu sempre tive um ouvido relativamente sensível em relação a música, nunca aprendi nota musical, mas até que no banheiro a gente cantava. Às vezes na roda de amigos, às vezes em um barzinho quando era convidado, sempre tive esse apreço pela música. Quando eu tinha meus 14 anos, eu tinha uma vozinha fina que não conseguia cantar muito as músicas do Legião Urbana, do Renato Russo, mas hoje eu posso dizer que até dou uma arriscada nas músicas do Legião. 

 

00:37:09

P/1 - Como foi quando você cantou pela primeira vez na igreja? 

R - Na igreja eu me lembro que foi em 2013, eu trabalhava em uma empresa de móveis aqui, e um patrão meu falou, “Jair, eu fiquei sabendo que você canta”, e eu fiquei meio assim, falei, não canto, não tenho a técnica musical, mas de ouvido eu reproduzo. Ele falou, “então é o seguinte, no sábado você vai lá na igreja que tem uma banda precisando de uma voz masculina e você faz um teste”. Eu fui, era um pessoal muito legal também da igreja, ele falou, “canta alguma coisa, canta um parabéns para você para eu ouvir”. Eu cantei, eu não esqueço, cantei lá para eles. “Sua voz é boa, você vai fazer parte da banda”. E eu comecei a cantar com eles, em determinado momento eu cantava o salmo sozinho, que você vai lá no púlpito da igreja e canta o salmo. De lá pra cá não parei mais, teve um tempo até que eu parei por conta do meu trabalho, como professor do SESI não tinha muito tempo, mas depois eu voltei e agora estou na igreja, lá na matriz de São José e eu canto um pouquinho. 

 

00:38:36 

P/1 - Jair, como foi quando você saiu da escola e decidiu que ia fazer da vida, como foi essa decisão?

R - Bom, desde cedo a gente trabalha, porque a mãe falava assim que era importante a gente contribuir com o serviço de casa. Eu me lembro que quando ela fazia as faxinas como diarista, ela me deixava no cuidado dos irmãos, eu tinha 11 anos, mas depois chegou um determinado tempo que meus irmãos ficaram em creches, eu comecei a trabalhar. Depois minha mãe queria que meu irmão fosse comigo, eu me lembro que quando a gente entregava esses panfletos de promoção de roupas, a gente saia com um monte debaixo do braço, e saía entregando na cidade toda. Eu com 12 anos e meu irmão com 09. E é por isso que a gente vê a importância do Estatuto da Criança e do Adolescente hoje para proteger os direitos da criança, não que tenha sido ruim para a gente. A gente aprendeu desde cedo o valor do trabalho, que o trabalho dignifica e que na verdade para nós era uma necessidade, porque certamente se minha mãe tivesse condições de dar um sustento melhor para gente, não teríamos iniciado tão precocemente no mundo do trabalho, mas foi bom, foi importante, a gente estabelecer um vínculo com essa coisa de você trabalhar e receber um valor pelo resultado do seu trabalho. Eu e o meu irmão também que trabalhávamos felizes, entregamos panfletos na cidade toda e também íamos em Igaraçu. Uma história que eu me lembro, é que o gerente dessa loja falou assim, “agora vocês vão ter que ir para Igaraçu”. A gente pegava o circular, e o circular atravessava a ponte Campos Sales, deixava a gente lá no centro da cidade, a gente entregava em toda a cidade, em determinado momento eu e meu irmão percebemos que dava para ir a pé até Igaraçu, apesar de ser um pouco longe para duas crianças, mas a gente pensou assim, olha se a gente guardar o dinheiro do circular a gente pode tomar uma fanta, que tinha aquelas fantinha de garrafa. Eu me lembro que a gente recebia o dinheiro para ir de circular, mas íamos a pé e no final da tarde a gente ficava tudo feliz de passar lá no barzinho e tomar uma fanta, além da remuneração que a gente recebia. Eu e o meu irmão desde cedo trabalhamos, minha mãe teve essa vida de diarista e infelizmente ela nunca foi registrada em carteira, o trabalho do meu pai ao mesmo tempo que ele viajava bastante, mas não era um serviço com registro, um serviço formal, um trabalho formal. Ele vivia nessas empreitas, então uma hora tinha obra, outra hora não tinha, uma vida de muita dificuldade, de muita carestia que a gente vivia, mas mesmo assim a gente sentia que vivíamos em uma família feliz. Depois eu fui trabalhar em um escritório de contabilidade como office boy, e lá nesse escritório que era da tia Leninha que tinha sido a minha professora lá no pré-primário, eu aprendi muita coisa da contabilidade, tinha o marido dela também, o Agostinho Grigoleto, que ele já é falecido, mas é uma pessoa que foi determinante, inclusive nas minhas escolhas do futuro, na questão política, ele era uma pessoa muito atuante socialmente, tinha muitas amizades, foi vereador, é uma pessoa muito comunicativa, me ensinou muita coisa, eu me lembro que trabalhando nesse escritório eu chegava de manhã e ele sempre falava, “você tem que ver o jornal, tem que aprender as coisas, têm que conhecer as coisas do mundo para ter uma visão diferente”. Ele sempre me ensinou muito essas questões. Eu me lembro que eu lia o jornal Folha de São Paulo desde criança quando eu tinha lá meus 12, 13 anos apesar de fazer o serviço da contabilidade, tinha esse tempinho para ler alguma coisa no jornal, e isso me ajudou a clarear, a iluminar as ideias, e ir fazendo as escolhas que eu fiz ao longo da minha trajetória profissional. Depois disso, trabalhando no escritório, inspirado nesse patrão Agostinho Grigoleto, eu resolvi que queria fazer Direito, me inscrevi no vestibular da Faculdade de São Carlos, a Fadisc, passei no vestibular,  fui estudar lá. Eu trabalhava no escritório até mais ou menos umas cinco e meia,  tomava banho lá no escritório mesmo, eles permitiam que eu tomasse banho, me trocasse lá e já pegava o ônibus e ia pra São Carlos. 

Lá em São Carlos eu conheci um amigo que se chamava Marcelo de Luque, hoje ele mora em uma cidade vizinha aqui chamada Macatuba Cris, e o Marcelo ele simpatizou comigo porque falava também que eu era comunicativo, que me expressava bem e ele falou para mim, “olha Jair tem uma vaga na empresa onde eu trabalho”, era uma revendedora de cerveja, uma dessas grandes cervejas do país e falou assim, “vem trabalhar comigo, eu falo com meu patrão, tenho certeza que ele vai te contratar”. Eu falei, Marcelo, isso era uma quinta-feira. Mas quando eu vou começar a trabalhar? Ele falou assim, “se você aceitar, vai começar já na segunda”. Foi um impacto, porque embora eu gostasse muito de trabalhar lá no meu escritório, eu queria ter a oportunidade de morar em uma cidade de fora e estudar lá, São Carlos é uma cidade grande, uma cidade que é uma referência nossa aqui também na questão de universidades, uma cidade que, para vocês terem uma ideia, São Carlos é a cidade onde tem mais doutores por metro quadrado no país, uma cidade de muitas oportunidades. Eu resolvi aceitar, foi muito difícil para minha patroa e para eles saberem que eu ia sair do escritório, depois de 12 anos trabalhando lá e dominando todas as técnicas, contabilidade, escrita fiscal, enfim, do mundo da contabilidade, mas eu fiz essa escolha, achei que era a melhor escolha naquele momento, até com o consentimento dos meus pais, da minha mãe principalmente, fui para lá e eu iniciei toda uma trajetória que me trouxe até aqui, que ajudou também eu ser quem eu sou, porque o direito é uma área que te dá amor, te abre um leque de oportunidades. O direito ele me ensinou a falar, ele me ensinou a escrever, ele me ensinou a postura e principalmente as leis que regem nosso estado, que a gente pode inclusive ter além desse conhecimento jurídico servir para nossa vida, nossa vida acadêmica, nossa vida pessoal, ele também ajuda com que a gente possa levar esse conhecimento e esclarecer algumas pessoas, porque tem muitas pessoas na sociedade que infelizmente são exploradas pela falta de conhecimento. Então esse conhecimento que eu tenho eu distribuo também porque o conhecimento não pertence a gente, pertence a humanidade, a gente tem que doar sim conhecimento, porque a doação do conhecimento também é um ato de amor, e o direito foi importante porque embora não tenha sido advogado, cumpri a promessa que fiz ao meu pai. Meu pai falou que ia fazer de tudo para ter um filho doutor. Eu acho que ele nem sabia qual era o significado dessa palavra. Ter um filho doutor. Talvez para ele fosse uma questão de status, da pessoa ser reconhecida na sociedade, de ter o respeito das outras pessoas, e todos os meus irmãos conseguiram estudar, mesmo tendo um pai mecânico montador, que não tinha um trabalho fixo e uma mãe diarista, todos nós tivemos uma educação formal que nos permitiu termos profissões, e ser encaminhado na vida. Me lembro de um episódio que marcou muito. Eu trabalhava nessa multinacional de cerveja e um dia meu pai chegou na minha casa, na minha república, nós morávamos em uma república lá em São Carlos de 10 pessoas, todo mundo empelotado, aquela coisa de estudante, eu tinha terminado de almoçar e tinha que retornar ao trabalho e ele chegou para conhecer a minha casa, eu recebi ele na porta da minha casa e falei, pai infelizmente não vai dar para receber o senhor porque eu tenho um compromisso, e ele sabia desse meu senso de responsabilidade em relação ao trabalho porque foi ele que me ensinou isso, mas naquele momento ali eu me despedi dele na porta de casa, porque não pude recebê-lo em nome dos horários que tinha que cumprir nessa empresa, e tempos depois, muito pouco tempo depois ele teve um AVC, foi o último dia que eu falei com ele, foi na porta da minha casa, eu fico pensando assim que ele foi se despedir de mim, nesses tempos eu até recebi um aconselhamento de uma amiga, que pediu para eu escrever para ele, escrever uma carta dizendo tudo isso e pedir perdão porque eu devia ter recebido ele nem que eu atrasasse um pouquinho no serviço, mas são coisas da vida. São variáveis que a gente não controla, eu escrevi para ele, falei que eu o amava, que tudo que ele queria dos filhos dele ele conseguiu ter, que era ter filhos honrados, que tinham caráter, que lutavam causas importantes na sociedade, pelas causas que eles sempre lutou, embora uma pessoa simples, sempre teve muito senso de compaixão, ele era um progressista na concepção ideológica da palavra, ele lutava pela causa dos trabalhadores, era é filiado inclusive ao Sindicato dos Metalúrgicos, era uma pessoa que gostava sempre das coisas muito corretas, e exigia de nós que fosse assim. Ele não pôde ver isso, mas certamente deve estar orgulhoso onde ele estiver dos filhos que ele tem, dos netos que ele tem, todos muito bem encaminhados nesse sentido, e que tem essa sensibilidade de classe que ele tinha, hoje a gente além de ter a sensibilidade, a gente tem consciência de classe e luta pelo que a gente acredita, sempre mantendo as nossas convicções, sempre honrando tudo aquilo que eles deram para gente de educação, de valores. Minha mãe ainda é viva, a gente sempre que pode se reúne com ela e relembra os bons momentos que tivemos com meu pai que foi uma pessoa diferenciada, uma alma única, singular. Muito o eu tenho eu herdei dele, inclusive a falta de cabelo. 

 

00:50:17

P/1 - Fala um desses momentos que você costuma rememorar ?

R - Os momentos com meu pai? É isso Leila? Ou dos momentos do meu pai ? Ou dos momentos em família?

P/1 - Desses que você falou em família, que você costuma lembrar das histórias com ele. Tem alguma história que vocês lembram sempre nesses encontros?

R - Sim, ainda falando dos encontros que tivemos com ele, a gente lembra uma vez em que fez uma brincadeira e ele não gostou. Estava brincando com meu irmão, e eu falava quanto que é 9x9? Meu irmão respondeu 81, meu pai todo feliz porque ele gostava que a gente soubesse as contas de matemática, as coisas de geografia, inclusive ele tomava da gente, a gente tinha que falar para ele de cór quais eram as capitais dos estados do país, ele sempre ralhava se a gente errava alguma, e nesse dia eu fiz essa brincadeira com meu irmão do 9X9 e ele respondeu 81. Eu falei, de 10 ladrões seu pai foi um, mas era apenas uma coisa que eu aprendi na escola, uma coisa inocente. E ele falou, “o que você falou aí? Você está me chamando do que moleque?” Me lembro que ele ficou muito bravo, muito exaltado e minha mãe falava, “você não está vendo que eles tão brincando. Ele falou, “eu não gosto desse tipo de brincadeira!” Ele era muito sério. Teve outras questões também, eu me lembro uma vez que eu estava na mesa e eu falei para ele, pai o senhor gosta de cerveja Antarctica? Ele falou, “eu gosto”. Eu falei, prefiro Brahma. Ele falou assim, “e quem te ensinou a beber, moleque?” Depois eu fiquei tão sem graça, porque é verdade, eu tinha 17 anos, mas ele era muito rigoroso apesar de eu já ter 17 anos. Enfim, eu respeitava muito ele, o que ele falava. Aliás, no ano anterior a esse episódio eu tinha 16 e ele deixava a gente ir no cinema, eu e meu irmão íamos no cinema, nas matinês das oito às dez da noite também, assim, eram sessões livres de cinema, mas ele falava dez e meia eu quero os dois aqui. Era uma pessoa rigorosa do ponto de vista moral, mas ao mesmo tempo era uma pessoa que protegia a gente, que tinha aquela coisa do amor pelos filhos, isso também é uma coisa que a gente passa para os nossos filhos hoje, é lógico que hoje eles têm mais liberdade, às vezes a gente fala, não, a liberdade que eu não tive vou dar para o meu filho, ou às vezes, aquilo que eu não tive com meu pai eu vou querer que meu filho tenha essa permissão, mas eu sei que o que ele fazia lá era para proteger a gente, e o que eu faço hoje também é no sentido de proteger a minha filha e a minha família. Mas houve muitos momentos marcantes. Logo que meu pai morreu em 96. 

Bom, meu pai faleceu em 96, ele teve um AVC, a gente fez uma promessa, que em todos os anos a partir dali iríamos se reunir todos os finais de ano para fazer uma festa de confraternização, por conta das festas natalinas, mas para reencontrar a família, os sobrinhos e todo mundo, junto com a mãe para sempre poder lembrar do meu pai, para sempre poder comemorar e manter a família unida, desde então a gente nunca mais deixou de se reunir, inclusive agora minha mãe tem 70 anos de idade, ela já tem toda uma dificuldade na mobilidade, mas ela tá sempre presente com a gente, nas festas, nas reuniões, nos passeios, porque é muito importante esse encontro, porque a gente não quer perder esses momentos que são importantes em família. Eu tenho uma vida simples, posso dizer que sou uma pessoa de gosto simples, eu gosto dessas reuniões em família, sempre quando dá eu gosto de escutar uma boa música, eu gosto de cultivar uma boa conversa com os meus amigos, eu gosto dos meus livros, como eu gosto dos meus livros, também dos meus discos, e eu acho que a vida se resume nessas pequenas coisas, dar valor a essas pequenas coisas é você traduzir a vida em um momento singular, em um momento único de felicidade. A gente não pode ter a felicidade a todo momento, então a gente tem que aproveitar esses momentos em família, esses momentos que são singulares para valorizar principalmente as pessoas que a gente ama. 

 

00:55:39 

P/1 - Jair, saindo depois de São Carlos, como que você estudou lá e depois, como foi nessa época que você estudou lá? 

R - Bom, fazendo direito em São Carlos eu pude conhecer algumas pessoas, posso dizer também que essas pessoas tiveram influência na minha vida acadêmica e também na minha trajetória política, uma delas foi o ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos, o Nilton Lima, uma pessoa que depois viria ser prefeito de São Carlos, uma liderança que chegou a ser secretário geral da frente nacional dos prefeitos. Eu gostava de ouvir ele falar, era um acadêmico que sempre traduzia as coisas de uma maneira muito simples, de modo que o povo entendesse e eu me inspirei nele, falei que se um dia eu tivesse uma carreira política, ou fosse algo na política eu queria ser como ele, assim também houve outras pessoas que influenciaram a minha vida, principalmente a minha vida profissional, eu poderia dizer também que alguns professores que eu conheci no meu retorno à Barra depois de formado, eu comecei uma militância política, conheci algumas pessoas, alguns professores que depois me influenciaram também para que eu escolhesse a licenciatura, porque embora eu tenha me formado em direito, quando eu estava na faculdade a aula que eu mais gostava era de sociologia, tinha um professor lá na faculdade de Direito, se chamava Falace, e ele era muito conhecedor das coisas do mundo, muito sensível às causas sociais, falava de questões ecológicas, falava de geopolítica, e aquilo tudo me agradava, embora as matérias do direito específicas também me agradassem, mas o Falace ele marcou de certa forma, eu falei, se eu tivesse que ser um profissional do direito eu teria que ser igual ele, esse professor de sociologia, mas, ele era um professor! Eu fiquei matutando aquilo lá, até que depois na militância política conhecendo esses professores aqui em Barra Bonita, eles falaram, “Jair, você tem que ser professor, porque você tem essa capacidade, tem esse dom da fala”, como eles diziam, não sei nem se é assim. “E você tem que desenvolver essa sua capacidade, poder levar o aprendizado seu, inclusive do direito para sala de aula, faça isso e você vai se dar bem”. Então eu juntamente com a militância política veio o início de uma nova faculdade que foi a faculdade de filosofia, e a gente pôde um tempo depois entrar no universo pedagógico, no universo acadêmico das escolas como professor, uma convivência que tive posso dizer assim para você que tive uma carreira meteórica na educação, porque me lembro que eu me formei em filosofia em 2012, em 2013 eu passei no concurso do estado para professor, em 2014 assumi como efetivo, em 2015 prestei o concurso do SESI e passei em primeiro lugar, sou professor do SESI também de filosofia, de sociologia, em 2017 eu fui convidado pelo atual prefeito que é o Zequinha aqui em Barra Bonita, que aliás é um outro grande influenciador da minha carreira juntamente com os outros que eu já te falei, com os professores, com o Milton Lima de São Carlos, também com o Seu Laércio que é um amigo meu que já se foi, mas era dono de uma empresa de móveis que sempre me incentivou na política. Eu, em 2017, fui convidado pelo atual prefeito, fui trabalhar como supervisor municipal de educação. Então, assim, uma trajetória na área da licenciatura e da docência que foi meteórica, e isso me permitiu inclusive depois de trabalhar por 04 anos lá na Secretaria Municipal de Educação de ser candidato a vereador e ter sido eleito nas últimas eleições pela primeira vez. Fui candidato pela primeira vez e eleito então vereador. 

 

01:00:19 

P/1 - Como é essa tua entrada na política, essa tua atuação na política? 

R - Bom, eu acho que tudo começa pelo meu pai mesmo que foi um uma pessoa muito ligada, sensível às questões políticas do nosso tempo, ele sempre estava muito preocupado com a situação econômica do país, ele sempre dizia para gente valorizar o trabalho, mas acima de tudo não se deixar explorar, ele era uma pessoa assim que fazia as contas daquilo que era seu, mas falava para gente assim, “olha, o que é seu é seu, mas você não mexe no que é dos outros, e assim você tem uma vida feliz do ponto de vista de ser respeitado”. A gente depois, anos mais tarde fazendo filosofia, eu fui ter a noção do que meu pai falava, na verdade eram lições de moral e ética, a moral ligada a todos esses valores que nós temos na sociedade, as normas, os costumes, e a ética é toda a reflexão que a gente faz em todos os momentos, sobre as escolhas que devemos fazer, considerando o que é bom, o que é errado, o que é justo, o que é injusto. Então, o mundo acadêmico me ensinou isso, mas meu pai já tinha me ensinado lá atrás. E com base nessa sensibilidade e nesse desejo de servir, vamos dizer assim, eu resolvi migrar na carreira política, sempre tive contato com políticos, sempre fiz campanha daqueles amigos que eu considerava que deveriam ser eleitos, mas eu nunca tinha pensado, até que um dia alguns amigos falaram, “Jair, você já trabalhou demais para outros candidatos, está na hora de você ser o candidato, uma vez que você tem pautas”. Eu sempre tive pautas ambientais nessa questão de defesa dos interesses dos trabalhadores, também mais recentemente depois de ter me tornado professor na área de educação, então, era a hora de fazer como se diz, uma coisa no atacado, porque uma coisa é você servir a sua comunidade ali de uma maneira assim mais pontual, e uma coisa é você levar isso para a cidade toda, então com base nessas pautas e em todo o conhecimento, em todo nohall que eu tive durante a minha vida, passando pela faculdade, pelo escritório de contabilidade, com a experiência do Augostinho, depois na militância política, inclusive partidária, eu resolvi aceitar o desafio. O Zequinha que é o prefeito me deu toda estrutura de apoio, não digo nem estrutura econômica porque eu falei que eu não queria nada, eu só queria o apoio institucional, foram essas palavras que eu usei para ele e ele me deu tudo isso, e graças ao trabalho que fiz na educação com diretoras como a Xuxa, a Cris, e outras pessoas companheiros mesmo de serviço, eu pude então sentir confiança para poder me lançar na política, porque a gente sabe que a política também é um desafio grande, as pessoas de uma maneira geral não gostam da política, tem uma desconfiança em relação aos políticos, mas eu procurei ser natural, falei que eu não ia fazer nada diferente daquilo que eu já vinha fazendo, porque eu já lutava por essas bandeiras, são bandeiras da minha vida, eu apenas levei como plataforma na campanha eleitoral e me ajudaram a conseguir uma das cadeiras de vereador aqui em Barra Bonita. 

 

01:04:20 

P/1 - Quais são as suas principais causas como político? Quais são as suas bandeiras?

R - Sem dúvida nenhuma que é a questão ambiental. Eu tenho desde criança essa questão ambiental como uma coisa que faz parte do meu cotidiano. Na escola eu tive professores que sempre falaram da importância da coleta seletiva, de não jogar lixo na rua, de valorizar o rio Tietê, aqui nós temos o Rio Tietê que ainda na nossa região passa límpido, tinha aquelas pessoas que sempre lutaram por questões ambientais aqui. A pauta ambiental está presente no cotidiano da minha vida política. Hoje a gente se depara com um problema que nós somos uma cidade que é um vale e nós temos um córrego que anualmente inunda, nós temos que lidar com esse problema, hoje eu tenho levado esses problemas não só para o gabinete do Prefeito, mas também para iniciativa privada, grandes empresas estão discutindo hoje junto conosco a questão da bacia hidrográfica, a questão da drenagem urbana, de como melhorar essa questão da fluência das águas das chuvas, para não acontecer mais o que aconteceu em anos anteriores em que o córrego transborda, há

prejuízos materiais, há vítimas fatais. Então a gente quer que haja uma grande conversa em torno dos problemas ambientais aqui da nossa cidade. Essa é uma das minhas principais bandeiras, talvez a principal. Depois a outra é a educação. A gente tem uma luta pela melhoria das estruturas das escolas, sabe que muita coisa vem acontecendo, que muita coisa também não depende da estrutura pública local, que é necessário verbas às vezes de organismos estatais ou da União, mas a gente também procura dialogar com os setores da educação para melhorar a estrutura, a qualidade de ensino, melhorar inclusive as condições de trabalho do professor, e isso a gente está fazendo com muita altivez, com muita transparência, com muita sinceridade, com visita às escolas, com reuniões. Eu me propus a fazer um mandato democrático, popular, participativo e isso está acontecendo porque eu tenho voltado às origens aqui ao bairro da Cohab, conversado com as entidades, com as associações, com os sindicatos, com as pessoas, com a finalidade de poder obter delas aquilo que elas trazem de demanda, levar isso para a Câmara de Vereadores e encaminhar através dos documentos lá que são propostas semanalmente para o Poder Executivo. Eu falo isso com bastante tranquilidade porque eu me propus a fazer isso e estou conseguindo fazer. É difícil conciliar, porque eu sou professor da rede pública, de manhã eu dou aula de filosofia na escola estadual, e à tarde eu faço os encaminhamentos de vereador, as diligências, isso tem tomado bastante o tempo da gente, a gente percebe no exercício do mandato o quão carente algumas pessoas são, quantas necessidades o município tem, mas ao mesmo tempo é desafiador, é dignificante, é muito legal poder trabalhar pela sua comunidade com um cargo efetivo, que te dá mais flexibilidade, que te dá mais poder de barganha, de poder falar, olha Prefeito, você tem que fazer uma necessidade emergente, e a gente vai dialogando a fim de conciliar os interesses e de satisfazer as necessidades populares. 

 

01:08:12 

P/1 - E falando de alguma questão mais específica em relação a uma conquista tua enquanto vereador, o que você me conta?

R - Bom, nós tivemos alguns encaminhamentos de projetos de lei. Inclusive nesse ano que foi ainda um ano de pandemia, claro que houve um arrefecimento da questão da pandemia, a gente percebe que aos poucos a economia vai voltando ao normal, uma há uma flexibilização. Nessa semana mesmo o Prefeito fez um decreto em que ele fez a abertura geral do comércio, das instituições, mas no momento mais grave a gente percebeu que havia muita desconfiança com relação à ciência, a vacina, então a gente encaminhou um projeto de lei em que o Prefeito pudesse fazer uma campanha de conscientização ambiental. Em um primeiro momento, o projeto até tinha sido rejeitado pelo jurídico da Câmara Municipal, porque eles entendiam que cabia ao governo central, ao governo federal fazer campanhas de conscientização com relação à vacina, mas o Prefeito depois de eu ter conversado com ele falou, “não, vamos levar para estrutura da saúde a oferta dessas campanhas de poder falar com a população sobre a importância da vacina, então eu acredito que tenha sido um projeto, ele sancionou mesmo com a rejeição do jurídico e da câmara, e a gente pôde amplificar, falar sobre a importância da vacina, da conscientização das pessoas em torno desse problema grave que nós estamos vivendo. Então acredito que nessa pandemia eu tenha dado minha contribuição de forma decisiva para essa orientação da população. 

 

01:10:11 

P/1 - Você é casado, tem filhos? 

R - Sim, eu sou casado, minha esposa se chama Sandra e minha filha se chama Isadora. A Isadora é uma benção na nossa vida, hoje ela está com 19 anos, ela nasceu em 2002. Me lembro que foi muito angustiante saber, e eu vou explicar porquê. A minha esposa estava grávida e embora a gente tenha ficado muito feliz, a Sandra minha esposa tem problema cardíaco, então os médicos recomendaram que ela não engravidasse, mas ela ficou grávida e a gente resolveu encarar esse desafio, a gente considera que a Isadora nossa filha única é um milagre. Porque apesar do problema que ela enfrentou, de todo esse medo, desse temor, de que alguma coisa acontecesse nas suas funções cardíacas, ela foi muito bem acompanhada lá no Hospital da Unesp de Botucatu, chamado hospital de Rubião, todo pré-natal dela foi feito lá na cidade de Botucatu, de modo que a Isadora nasceu lá, só nasceu lá, foi um parto absolutamente tranquilo, ela até tentou fazer o parto normal, mas não conseguiu, a fia nasceu no dia 29/08/2002, às 16 horas salvo engano, com 03 quilos e 200 gramas e muito saudável. Me lembro que eu assisti o parto. Os médicos perguntaram se eu queria assistir, eu disse que sim e assisti meio que quase desmaiando, em determinado momento eles até perguntaram, “pai como é que está, tudo bem?” Eu falei, uhum, mas quase desmaiando, ela nasceu, chorou, me lembro que nesse dia estava tocando a música de uma banda inglesa chamada Oasis, se chamava Yonder Wall. Até hoje eu toco para ela e ela gosta da música Yonder Wall, que foi a música que estava tocando na hora do nascimento dela, depois os médicos levaram ela para uma sala e ficaram cuidando da Sandra. Eles falaram, “pai, vai lá conversar com a filha enquanto a gente está aqui nesses procedimentos”. Eu fui lá, me lembro até da conversa que tive com ela. Falei, filha, seja bem-vinda ao mundo, papai vai cuidar muito bem de você, fica bem e a mamãe está bem, pode ter certeza que daqui a pouco você vai estar com ela, e pode ter certeza que você vai ser muito feliz porque o papai não vai deixar nada faltar para você. Ela é uma menina maravilhosa, aliás sobre essa história de filhos, embora Sandra não pudesse ter filhos, eu queria ter 04 filhas, eu sempre sonhei em ter filhas, não que os meninos não sejam bem-vindos, claro que seriam, mas eu sonhava em ter quatro filhas, a primeira ia se chamar Sofia. Por que ela se chama Isadora? 

Porque houve uma controvérsia lá em casa. A, porque Sofia? Por que não outro nome? E então eu submeti a uma votação popular no nome da minha filha. Olha o quão democrático eu sou. E  ganhou o nome Isadora, falei para a Sandra, se a gente tiver oportunidade de um milagre de novo de ter uma segunda filha ela vai se chamar Sofia. A terceira ia se chamar Amanda em homenagem ao meu pai que é Armando, e a quarta se chamaria Monalisa, mas eu parei na primeira. Uma menina encantadora, maravilhosa, educada, estudiosa. Recentemente ela fez ciências biológicas na UNESP de Bauru, e olha, ela quer ser professora, o que me deixou muito feliz e orgulhoso dela.

 

01:14:30 

P/1- E como você conheceu a tua esposa, como vocês se conheceram? 

R - Uma história interessante também. Na verdade a gente se conhece desde quando a gente tinha 06 anos de idade, porque ela é sobrinha do compadre do meu pai, aquele que trouxe o meu pai para Barra Bonita, a gente se conhecia, mas na verdade eu não conhecia ela, a gente se conhecia porque convivia na mesma família, mas depois, anos mais tarde a gente se encontrou, ela ia com a irmã dela jogar vôlei lá na escola Cônego e a gente começou, primeiramente eu tive amizade com a irmã dela Silvia, e depois eu fui apresentado a ela pela irmã dela e a gente começou a conversar, mas ela não se interessou muito por mim, na verdade, ela foi depois namorar um amigo meu, mas eu não sei porque cargas d'água, a vida é assim mesmo e eu nem acredito nessas coisas de destino, acredito que tem uma concepção mais existencialista da vida, mas algumas coisas acontecem e a gente deve aceitar que elas aconteçam. E a gente começou a sair, fez amizade e estamos até hoje juntos, já vai fazer 30 anos de convivência, acho que é isso. 

 

01:16:57 

P/1 - Mas conta com mais detalhes como é que foi esse reencontro, vocês conviviam e como foi esse reencontro?

R - Quando a gente era criança não tinha muita amizade, eu tinha amizade na verdade com o primo dela, a gente ia brincar na casa dele, mas eu nem conhecia ela. Só depois, anos mais tarde, depois desse encontro com a minha cunhada em que fui apresentado é que a gente então verificou que havia esse vínculo parental, que ela era sobrinha do compadre do meu pai, e a gente até falou dessas questões, nossa, mas a gente se conhecia desde criança e só agora com 19 anos nós viemos conversar, e foi interessante porque isso foi uma amizade que foi crescendo naquele momento, a gente tinha os mesmos amigos em comum. Em determinado momento a gente resolveu que ia sair só os dois e ficar com mais privacidade, e começou uma história que tem muitos percalços, porque a gente viveu também dificuldades quando eu tive que ir morar em São Carlos, depois também dificuldades com a ausência do meu pai, eu fiquei um período muito desanimado, mas ela sempre me deu força, uma companheira de toda a vida que me ajudou muito, aliás tudo que a gente construiu ou o pouco que a gente construiu, claro que eu devo a ela, e certamente o maior tesouro que a gente construiu foi a nossa filha, certamente que ela é importante na segmentação desse meu processo de crescimento pessoal, de crescimento profissional, enquanto ser humano, certamente que é uma companheira que eu valorizo muito. 

 

01:19:02 

P/1 - Quais eram os lugares da cidade que vocês gostavam de ir juntos, de namorar? 

R- Olha, tem uma praça aqui na cidade que é a praça da AABB, era uma praça antigamente de encontro de casais, e os casais iam lá namorar, depois a gente começou a frequentar os clubes da cidade juntos, íamos nos bailes, inclusive para fora da cidade também, a gente frequentava a orla turística, depois vieram os encontros com os amigos, as lanchonetes, os bailes, foi um período também bastante marcante, porque a gente tinha um grupo de convivência de amigos e passou a conviver como namorado, tudo também era uma descoberta, a gente ia no cinema, a gente fazia excursão, a gente viajava, a gente acampava ali no centro da cidade que sempre foi o local de encontro dos amigos e também passou a ser o nosso local de encontro. Depois a gente vai, é claro, para outros espaços de convivência, na casa de amigos, viajando, depois também teve um período em que ela foi morar comigo lá em São Carlos, minhas coisas fluíram naturalmente como tinham que ser, e a gente depois selou essa união em definitivo com o nosso casamento em 2005, dia 09/12/2005.

 

01:20:38 

P/1 - E hoje quais são as coisas mais importantes na cidade de você como vereador, quais são os propósitos mais importantes para você como vereador? 

R - Sim, eu tenho projetos importantes na área de educação. A gente pretende até o final do mandato 

ampliar os espaços escolares, a gente quer também que as escolas tenham estruturas, todas elas de quadra coberta, a gente ainda tem espaços aqui na cidade de escolas que não tem essa estrutura, a gente sabe hoje que a atividade de educação física é muito importante para o desenvolvimento da criança, inclusive o desenvolvimento intelectual, a educação física faz parte de um contexto pedagógico que ajuda no desenvolvimento motor e também intelectual, a gente está lutando para conseguir junto com o prefeito e também com deputados a estrutura dessas escolas, a melhor estrutura dessas escolas. Também existem outros projetos de cunho ambiental para trazer para as escolas, recentemente eu lancei mão de um dispositivo legal para ampliar a coleta seletiva na cidade, e isso passa por uma educação que se inicia na escola, inclusive entrando em contato com empresas que têm participação importante no setor de reciclagem, a gente iniciou uma campanha de conscientização, a gente tem aqui a coleta seletiva que é importante, a parceria do município na coleta seletiva é fundamental, mas a gente precisa ampliar para que todos tenham essa consciência ambiental, de separação do lixo que não é lixo, hoje tem valor agregado, que acolhe, que inclui pessoas no mercado de trabalho. Eu consegui conciliar, juntar a questão ambiental com a questão educacional, e também tem outros projetos de caráter inclusivo, tem questões ligadas ao desenvolvimento econômico, sustentável, tem questões de geração de emprego e renda, nós também estamos nessa questão de inclusão digital que é muito importante para cidade, várias outras questões que estão ligadas ao desenvolvimento, que estão ligadas a questão ambiental, a questão educacional, a questão de geração de empregos. Claro que não dá para abraçar o mundo, mas algumas pautas a gente procura encaminhar porque elas são pautas da nossa atualidade, são pautas que vão contribuir para termos uma cidade melhor. Se a gente quiser ter uma cidade desenvolvida, a gente tem que olhar para o meio ambiente, aliás, o desenvolvimento sustentável é isso, é você poder desenvolver o comércio, a indústria, a prestação de serviço, gerar empregos, mas lembrar que o meio ambiente tem que ficar para futuras gerações, se a gente não cuidar da questão do meio ambiente, da biodiversidade, não tem como falar em desenvolvimento econômico. 

 

01:24:10 

P/2 - Eu gostaria que você falasse dentro dessa atuação sua, momentos que realmente marcaram esse início de mandato? 

R - Eu acho que o que mais marcou sem dúvida nenhuma foi a posse. Você entrar dentro da câmara, tomar posse como vereador e saber que ali diante você tem uma cidade inteira que tem expectativas, essas expectativas tem que ser de alguma forma satisfeitas. Então eu procuro no meu exercício parlamentar sempre ouvir a pessoa, e nesse sentido um desafio também é você se colocar, colocar o seu pensamento, porque muitas vezes esse pensamento no exercício do mandato não é entendido, ou é um desafio você ter que convencer os seus pares de que aquele projeto é bom para cidade, que aquele projeto vai ao encontro de uma necessidade e não apenas da sua, porque muitas vezes fica a impressão de que a gente faz alguma coisa pensando em ter um benefício político. A gente não pode dizer Cris, que a gente não é político, a política a gente faz todo dia, a gente já falou sobre isso, a política é você poder conviver com outras pessoas, ninguém vive sozinho em sociedade, a todo momento nós estamos fazendo o exercício da política, a política é eleitoral, as eleições acontecem de tempo em tempo, mas a política é uma meta para gente, o exercício da política como dizia Aristóteles na Grécia antiga, “é um exercício teleológico”, a meta sua é viver em sociedade, e vivendo em sociedade você apresenta ou lança mão de desafios, de argumentos, de prerrogativas que vão tentar melhorar a convivência entre todos, nesse sentido a gente apresenta as nossas ideias e deseja que nossas ideias sejam aprovadas para que haja essa satisfação coletiva. E é um desafio, porque às vezes você coloca uma ideia, essa ideia não é aceita, você tem que fazer toda uma atividade de persuasão na tribuna, individualmente, nas comissões, mas isso tudo faz parte do exercício da política, do exercício do legislativo, dos trabalhos do legislativo, e eu nesse aprendizado que também não deixa de ser um aprendizado, a gente vai procurando colocar as nossas ideias. A única coisa que eu não faço em hipótese alguma é abrir mão das minhas convicções, das minhas convicções de vida, daquilo que eu aprendi, eu posso até ceder aqui e ali, mas nunca deixando os meus valores de lado, porque isso não dá para acontecer em hipótese alguma, e nenhuma conversa que tive até hoje com os meus pares deixou de ser republicana, sempre foram conversas muito amistosas, claro que há pontos de discordância, mas a gente procura sempre fazer o exercício do mandato de forma legal, de forma transparente, legal do ponto de vista da lei mesmo, e de forma que possa sim deixar as pessoas falarem assim, olha, ele tentou, se ele conseguiu ou não, isso não depende mais dele, mas tudo aquilo que a gente queria dele ele foi lá e ofereceu enquanto vereador. Então eu acho que o maior desafio, sem dúvida nenhuma, o ponto marcante é esse, você ter que convencer os seus pares de que os projetos são o melhor para cidade. Eu acho que o maior destaque que eu poderia falar, Cris, é esse sem dúvida nenhuma.  

 

01:28:16 

P/2 - Eu tenho mais uma questão, muito evidente é a questão do preconceito. O Jair José frente a esse assunto? 

R - Eu acho que a luta pelas causas sociais é uma bandeira importante. Então, além das questões ambientais e das questões que são pautadas com base na defesa dos trabalhadores, também tem a questão das minorias, eu acho que hoje a gente vive um país que está em um momento difícil, em que as pessoas estão todas, não todas, mas muitas pessoas estão com o pavio curto, falta o diálogo muitas vezes, falta a tolerância, falta aquele olhar empático, de você ter empatia, se reconhecer no outro, sentir a dor do outro, de ter alteridade, que é reconhecer a diferença, e nesse sentido a gente vê que problemas que a gente sabe que existiam, mas que a gente procurava superar no nosso dia a dia estão muito latentes na sociedade. O problema do racismo é um deles, do racismo estrutural, o problema da segregação das pessoas, o problema da falta de olhar para aquelas pessoas que tem as suas necessidades e as suas bandeiras, é um problema que tem que ser resolvido, e isso só pode ser resolvido com muito diálogo. Na medida em que você educar as pessoas como dizia Nelson Mandela, “que se as pessoas podem odiar, elas são ensinadas a odiar, também podem ser ensinadas a amar”. Então é com base nesses ensinamentos, na educação, que a gente vai sobrepor, sobrepujar, ultrapassar esses problemas que ainda existem na sociedade e que separam as pessoas, e essa separação das pessoas muitas vezes leva a uma humilhação social, a um aparthaid social e é isso que a gente não quer. A gente luta para que as pessoas sejam iguais, como dizia também o mestre Martin Luther King, “que a gente sonha em viver em um país em que os nossos filhos sejam julgados pelo seu caráter e nunca pela cor da sua pele”, então certamente como representante da comunidade negra eu tenho muito orgulho em lutar por essas bandeiras, bandeiras que levam a igualdade, em bandeiras que levam a justiça social, em bandeiras que levam a promover acima de tudo a paz, se nós não tivermos paz, certamente nós vamos conquistar outras coisas que a gente deseja na

sociedade, uma sociedade justa, uma sociedade fraterna, só se faz com iguais, e não basta essa igualdade ser preconizada na lei, estar lá formalmente, que todos são iguais perante a lei, que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos da constituição, não basta o direito formal. É preciso que exista o direito material, o direito de fato e eu vou encampar sempre essas bandeiras, vou contribuir para esses movimentos sociais a fim de conquistar a tão almejada igualdade no nosso país. 

 

01:31:40 

P/1 - Jair, você teve alguma questão pessoal em relação ao racismo? 

R - Para falar a verdade eu nunca senti isso na pele, mas certamente que algumas oportunidades foram deixadas de ser dadas a mim em função dessa característica que muito me orgulha. Entendeu? Eu senti que por vezes eu não tive oportunidades que deveria, e foi muito difícil para mim conquistar algumas coisas, inclusive do ponto de vista de empregos, depois das pessoas perceberem que eu não era bobo, ou que tinha um certo conhecimento, aí parece que começaram a olhar para mim, mas quando eu era mais jovem ou não tinha tanto conhecimento, a gente sempre era deixado de lado em algumas questões. No primeiro momento isso não incomodou, mas depois a gente começou a perceber que olhavam diferente para a gente, para mim, para os meus irmãos. A gente superou isso. Tudo aquilo que o nosso pai nos ensinou e a nossa mãe, cada um dá o que tem no coração, cada um recebe com o coração que tem. Como a gente tinha esses valores, essa coisa do amor pelo próximo que foi herdado dos nossos pais, a gente vendia o amor que a gente tinha, embora a gente soubesse muitas vezes que as pessoas não tinham esse amor de forma recíproca,isso a gente foi superando ao longo do tempo, e hoje acho que, não que os problemas acabaram, de vez em quando acontece um fato ou outro, eu nem vou saber aqui enumerar alguns deles, mas a gente percebe que hoje é diferente, que as pessoas nos reconhecem, que há uma empatia com aquilo que a gente procura oferecer, e eu acho que a gente vai superando isso vendendo amor. Diz que o nosso serviço enquanto homem público ou mulher pública é amargo. Então, você só pode servir se você ama. Então, em primeiro lugar vem o amor, essa questão humanista de gostar das pessoas, de gostar do ser humano, de querer promover o bem, quando você ama em primeiro lugar, depois você se serve. Acho que é assim.

 

01:34:09 

P/1 - Você pode contar alguma história específica de quando isso aconteceu, que deixaram de te chamar para alguma função por conta de serem racistas? 

R - Eu percebo que sim, em determinada empresa em que eu fiz uma ficha, uma certa vez eu percebi que houve uma diferenciação entre eu e um rapaz que estava concorrendo a vaga comigo, mas foi ótimo, porque depois eu recebi a oferta de um outro emprego que foi melhor ainda, e onde eu pude me desenvolver profissionalmente, é como se diz também, “a males que vem para o bem”, e que essa pessoa que esteve lá na frente talvez tivesse os seus méritos, e que ela fosse feliz, eu desejei que ela fosse feliz naquele momento, mas a gente sempre fica com a lembrança de que (poxa vida, será que foi isso?). Um outro episódio, eu conheci um médico em São Carlos e ele gostava muito de mim, era um médico urologista e fazia direito junto comigo, ele me convidou um dia para ir na casa dele e eu fui, aceitei o convite, quando chegou lá ele falou para as sobrinhas dele, era uma casa muito bonita, ele era de uma família tradicional em São Carlos, eu não vou citar o nome dele porque não vem ao caso, mas ele chamou as sobrinhas dele que estavam lá e falou assim, “filhas vem aqui conhecer o Saci Pererê”, eu achei estranho aquele comportamento porque até então ele nunca tinha se referindo a mim nesses termos, e fiquei pensando que aquilo foi humilhante, mas eu relevei em nome da, assim, amizade que tinha com ele, mas aquilo nunca saiu da minha cabeça, depois desse episódio eu não fiquei mais quieto, sempre que acontecia alguma coisa nesse sentido eu procurava falar, olha eu não gostei disso, não faça mais esse tipo de brincadeira ou piadas. Anos mais tarde também eu vim saber que a gente não pode banalizar o racismo, que a gente deve denunciar, que a gente deve falar que não gosta, inclusive hoje em um contexto escolar ensino aos meus alunos isso, tem a questão do bullying, tem a questão das ofensas, da humilhação, da humilhação social que a gente não deve aceitar, porque se a gente aceita a gente banaliza, se a gente banaliza aquilo se institucionaliza na sociedade fica normal. Então eu comecei a falar que não gostava desse tipo de coisa e de piadas e coisas que fizessem referência a alguma espécie de discriminação e fiquei melhor comigo também, as pessoas podem saber qual é o meu pensamento hoje. Acho que se você fala a verdade, isso não deve incomodar, e se incomodar é com ela, porque o comportamento errado está sendo dela e não meu, eu não posso perder mais a minha capacidade de indignação diante de certos fatos que eu vejo na sociedade. Não o que acontece comigo, mas que às vezes acontecem ao meu lado, se acontece eu falo em nome de tudo aquilo que a gente quer, de tudo aquilo que eu prego mesmo como professor, como profissional, como político, se eu quero uma sociedade igual eu não posso aceitar determinado tipo de situação. Eu acho que é isso. 

 

01:37:50 

P/1 - E quais são os seus sonhos hoje? 

R - Nossa, eu diria que eu tenho alguns. Como eu já disse ao longo da entrevista, eu sou uma pessoa de hábitos muito simples, não tenho muitas ambições na minha vida, mas eu gostaria de um dia poder visitar um país, uma nação estrangeira, fazer uma viagem internacional, é um sonho que eu tenho. Queria também poder conhecer o cantor Chico Buarque é um outro sonho. Queria também poder escrever um livro de memórias, autobiografia não sei. Queria ver minha filha formada, se Deus quiser isso vai acontecer! Acho que são essas questões que ainda estão mal resolvidas, mas eu queria também, eu gostaria de me aprofundar nos estudos e de repente fazer um mestrado ou um doutorado, mas eu acho que isso ainda vai levar um tempinho porque eu tenho muitas atribuições e não vai dar tempo, mas certamente que a gente quer se aprofundar no conhecimento, poder de repente levar ele para outros lugares, de repente o espaço acadêmico de uma faculdade, eu ainda pretendo alimentar esse sonho, porque sonhos a gente alimenta e uma hora eles se tornam realidade, tem um pensador uruguaio que se chamava Eduardo Galeano, e ele falava que, “a utopia está no horizonte”. Então a gente tem que começar a caminhar até chegar no horizonte, a gente vai alimentando esses sonhos e caminhando até o horizonte, até encontrá-los. Depois que eu passasse toda esta questão política, que o cargo de vereador é um cargo temporário, certamente eu não quero me perpetuar nele, eu gostaria também de fazer um curso de locução, eu sempre quis também ter um programa de rádio, levar um pouco de filosofia para as pessoas, de poesia, de literatura, de música, falar das músicas que marcaram a minha época, eu estou pensando nisso também, quem sabe daqui a um tempo eu possa fazer um curso de locução, de repente ter um programa de rádio, poder falar de coisas diferentes, até sobre política, quem sabe, é um outro sonho também. Não são muitos, mas são alguns sonhos importantes que ainda pretendo alcançar, o desejo de alcançar também é uma forma de amar. Diz que quando você deseja alguma coisa é porque você ama aquilo que deseja, e aquilo que te faz falta é aquilo que você ama. Então, eu amo aquilo que desejo. Também é uma concepção platônica e a gente tem que buscar alcançar, empreender as forças que a gente tem para alcançar esses desejos. 

 

01:41:04 

P/1 Tem alguma história que você gostaria de contar que não contou? 

R - Deixa eu ver, da minha infância não, acho que já falei praticamente tudo da minha vida. Coisas que marcaram. Ah, tem uma história. Quando eu fui trabalhar nessa empresa multinacional em São Carlos, o primeiro dia de trabalho eu recebi uma pastinha, e naquela época era sistema de pastas não tinha esse computadorzinho que os vendedores tem hoje, era fichário, e o supervisor me levou no local onde eu ia trabalhar, era um bairro grande lá de São Carlos chamado Santa Felícia, que hoje está maior ainda, e o supervisor chegou no primeiro ponto de venda que era uma padaria e falou, “olha você vai entrar, vai vender de acordo com aquilo que você já recebeu lá no seu processo de integração, você vai procurando os pontos de venda, eu vou deixar você aqui e volto porque eu tenho um compromisso”. E você acredita que esse supervisor não voltou, eu tive que percorrer todo o bairro do Santa Felícia sozinho perguntando qual era o ponto seguinte onde eu chegava, e você tinha que chegar de volta na revenda às 04 horas, 16 horas para entregar as vendas que eles tinham que fazer todo o serviço de abastecimento dos caminhões, bebidas, e eu cheguei era 07 horas, 19 horas. Eu cheguei lá estava todo mundo preocupado, patrão. e o supervisor estava do lado e o patrão falou, “nossa o que que aconteceu que você não chegava?” Eu expliquei a história, eu via que o supervisor olhava para mim com uma cara assim assustado, como quem dissesse, não é para falar. O patrão falou assim, “olha supervisor pode ir embora e eu vou conversar com ele sozinho”, sentamos lá na sala dele e ele falou, “como é que foi, o que aconteceu?”, eu expliquei, falei a verdade que ele tinha me deixado sozinho, era o meu primeiro dia de trabalho como ele bem sabia, mas eu consegui chegar em todos os pontos de venda, eu fiquei muito triste depois desse episódio porque foi o último dia que esse supervisor trabalhou lá na revenda. Histórias que marcam, mas que também me ajudaram a compreender que a gente sempre deve se pautar pela verdade, não importa se ela vai ofender, se vai doer para alguém, fala a verdade, a verdade é o melhor caminho, a mentira não se sustenta. Então são passagens da minha vida que me ajudaram muito também porque me consolidaram como pessoa que procura ver as coisas como elas são, procura acertar sempre, procura fazer as melhores escolhas, nem sempre a gente faz as melhores escolhas, às vezes a gente erra, mas a gente erra procurando acertar, é uma passagem que marcou, que eu achei que deveria falar.

 

01:44:14 

P/1 - A gente está caminhando para o final. Eu queria saber de você como é que foi contar a sua história aqui hoje? 

R - Olha, eu nunca havia contado a minha história assim de uma maneira tão completa. Durante a campanha eleitoral eu fiz até um breve relato da minha biografia, da minha simples e humilde biografia, mas foi a primeira vez na minha vida que eu tive a oportunidade de falar coisas inclusive que eu nunca falei, sobre a questão do meu pai, sobre a questões da minha infância, da minha chegada a cidade. Talvez em momentos de família a gente tenha relembrado alguns episódios. Pode ser também que outras questões que fossem importantes eu não tenha lembrado, mas foi importante porque eu mostrei um pouco da minha vida, me abri, e de repente a minha família vai poder conhecer mais de mim, e as pessoas que não me conhecem também vão ter acesso a informação. Foi importante porque eu consegui também mostrar que eu ainda tenho muita coisa para fazer, que eu ainda tenho conquistas, mas acima de tudo que eu sou feliz porque eu tenho uma família, porque eu tenho uma filha maravilhosa, porque eu tenho um trabalho, porque eu consegui ser aquilo que eu queria ser, eu queria ser professor, eu sou professor, eu queria me tornar vereador, eu me tornei vereador, eu queria ser respeitado pela comunidade onde eu moro e eu sou, eu consegui ganhar aquilo que meu pai sempre sonhou para gente, que é ter um capital moral. Quem pode se orgulhar disso? Poucas pessoas, então eu fico muito feliz de ter recebido a oportunidade de mostrar um pouquinho da minha história, de mostrar um pouquinho da história da minha cidade, de procurar valorizar aqueles que eu gosto, mesmo aqueles que já se foram e que eu nutro uma profunda saudade, e também valorizar aqueles que estão aqui comigo que são meus amigos, os meus familiares, aquelas pessoas que fazem parte do meu convívio social, no trabalho, elas são importantes, porque essa palavra importantes eu tenho usado bastante durante a entrevista, mas por que são de fato muito importantes, eu fico feliz que essas pessoas existem na minha vida. Eu sou grato por ter tido essa oportunidade de mostrar a minha vida aqui nesse espaço. 

 

01:47:01 

P/1 - Está ótimo. Eu queria te agradecer muito pela entrevista. Muito obrigada por ter dado o seu depoimento para o Museu da Pessoa. 

R - Obrigado vocês pela oportunidade! 

Obrigado a companheira Xuxa por ter me deixado muito a vontade nessa entrevista, a Giovana, a todo o pessoal do projeto que está com a gente estabelecendo, é um desafio também para a gente, eu nunca tinha trabalhado em um projeto desse, e de repente eu fui para contribuir para o projeto e acabei sendo homenageado, olha que orgulho, que coisa maravilhosa, que alegria. Então, eu agradeço muito a equipe toda, a vocês, eu espero que vocês possam editar bastante, que vai dar trabalho, a boca fica seca, as vezes faltam as palavras, a gente tropeça em algumas, mas é por conta da emoção de estar falando com o coração também, está bom!



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