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História

Consciência e política

História de: Maria Augusta de Toledo Tibiriçá Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/02/2015

Sinopse

Maria nos conta sobre sua linhagem paulistana tradicional e sua infância na São Paulo dos anos 20. Nos fala sobre as brincadeiras de criança da época, sua formação escolar e sua entrada na Faculdade Nacional de Medicina na Universidade do Brasil, em 1947. Nos fala sobre sua militância política pela defesa do monopólio nacional/estatal do petróleo, que uniu muitos setores da sociedade civil. Tal movimento se consolidou na campanha "O Petróleo é Nosso". Fala sobre a fundação da petrobrás, o processo de escrita de seu livro de memórias, sua vinculação com a AEPET, sua família, o Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON) e a necessidade de se guardar a memória nacional.

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História completa

Nas campanhas médico-sociais em que eu entrei, nas campanhas femininas e principalmente - principalmente que foi onde eu me dediquei mais e até hoje - nas campanhas cívicas. De defesa dos interesses, começando pela campanha do petróleo. Que entrei em 1948; final de 47 já estava nos centros democráticos que se integraram quando lançaram a campanha do petróleo. Veio através do centro da Tijuca.

Bom, eu vinha falando nos trabalhos médicos-sociais de que eu participava. Minha mãe ela tinha entidades aqui no Rio de Janeiro, também a instituição Carlos Chagas, e trabalhava no movimento feminino. E foi a São Paulo e criou uma federação. Primeiro isso, falar em mulheres, tinha que reportar à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino de Berta Lutz, que representava em São Paulo a federação.

E teve uma atuação grande pelo voto feminino etc. E depois do pós-guerra, houve uma eclosão de uniões femininas pelo Rio de Janeiro e entidades democráticas também, e contra a carestia pelos bairros. Antifascistas e contra a carestia. E no nosso bairro ela era presidente do Centro Democrático Catete-Laranjeiras. Quando a Liga Anti-Fascista da Tijuca, que era presidida pelo general Euclides Figueiredo, o pai, e dona Nuta Bartlet James também era da liga, porque morava na Tijuca, minha mãe presidiu o Centro Democrático Catete-Laranjeiras. O Café Filho era vice-presidente. E eu integrava também o centro.

E tinha a União Feminina, que também funcionava ali. Ela foi para São Paulo criar a Federação de Mulheres, já lançando no programa a defesa do petróleo, porque tudo começou em 47 com as palestras, a convite do general César Obino, que era o presidente do Clube Militar. Ele, o general Henrique Cunha e o brigadeiro Francisco Teixeira, que eram da comissão cultural, sugeriram que abrissem a discussão. E a diretoria, o general César Obino, prontamente concordou e convidou os dois: o general Juarez Távora - que na palestra se mostrou entreguista, como nós chamamos - e o marechal Horta Barbosa, que defendeu, apresentou e defendeu a tese do monopólio estatal do petróleo. E nessa época a Alice Tibiriçá, minha mãe, foi para São Paulo criar a federação já incluindo no programa a defesa do petróleo. E enquanto isso a Liga Anti-Fascista da Tijuca, no dia 4 de abril de 1948, fez um ato na ABI e lançou a idéia do Centro de Petróleo.

 

Lançou a idéia do Centro de Petróleo, no dia 9. Eu estava nesse ato e no dia 9 já se reuniu a comissão organizadora. Eu estava na comissão. Logo, sou sócia-fundadora do centro que desencadeou o movimento todo no Brasil. No dia 9 de abril. Quando foi dia 20, uma pequena nota que eu até tenho aí, vou mostrar para vocês, no dia seguinte noticiava, uma notazinha, a criação do centro. Isso no dia 9. No dia, não, sobre quando foi lançado no dia 4, quando veio a idéia.

Dia 9 se reuniu a comissão. E no dia 21 de abril, um grande ato no Automóvel Clube, nós já tivemos a alegria de ver lançado o Centro Nacional de Estudos de Defesa do Petróleo. Um ano depois, por proposta do general Raimundo Sampaio, ele ampliou o seu nome para Centro de Estudos de Defesa do Petróleo e da Economia Nacional, para ser mais abrangente. Amazonas, minério, etc.

O que me levou a participar disso, como eu vinha dizendo, que a minha mãe foi já para São Paulo. E quando ela voltou, eu já estava em... Olhe, ela tinha uma frase que talvez responda. Ela dizia que consciência política é como um tapis rouler. Você põe o pé no tapete, ele vai subindo, não tem volta. E nós já participávamos desses movimentos democráticos. E eu estou lhe dizendo, eu fui representar o Centro do Catete, foi lançado o Centro de Petróleo e eu já me engajei. E a minha mãe, quando voltou, disse uma coisa muito interessante.

Ela se engajou direto na campanha do petróleo e disse, ela tinha realizado muita coisa, principalmente na campanha contra a hanseníase. Depois contra a tuberculose, conseguiu unificar as entidades, era difícil. Trabalhou para os cegos. Psicopatas. Ela criou entidades. E ela criava e entregava para os outros. Agora não falta quem queira. Ela tinha feito todo esse movimento, ela parou e disse: “Perdi praticamente 20 anos de minha vida em lutas parciais. Só quando o Brasil for emancipado economicamente é que pode resolver todos esses problemas.” E entrou de cabeça. Ela fez, nós tínhamos no centro – eu já vou dizendo nós porque eu me integrei direto no Centro de Petróleo – e primeiro minha mãe ficou na vice-presidência, eu estava no Conselho, encarregada da comissão de propaganda e de intercâmbio com os Estados. E como é que se fazia propaganda? Era uma beleza. A propaganda, olhe você veja: até hoje a mídia é mais ou menos fechada. E as multinacionais que sempre quiseram o nosso petróleo se encarregavam de fechar ainda mais. Mas o nosso movimento parecia que tinha fermento, se multiplicava. Logo que nós nos constituímos – vai entrar a resposta da propaganda nisso – foram sendo criados vários centros nos Estados. E eu fui designada para ir a São Paulo.

 

Criei o Centro Paulista a partir do núcleo estudantil do Centro XI de Agosto e pouco tempo depois o centro se lançava no Teatro Municipal. Lotado. E saíram em passeata já pelas ruas. Então foi um momento realmente muito grande. E a propaganda era o seguinte: visava especialmente a esclarecer o povo sobre o que era, o que estava acontecendo. Não era apenas “Vamos lutar pelo petróleo.” Era isto também, mas: “Vamos lutar pelo petróleo porque...” Eu tenho um documento que trouxe aí, vou mostrar a você. Esse documento quem redigiu fui eu. Tamanho papel-ofício. Porque tínhamos o centro de estudos, a comissão de propaganda, a comissão de finanças. Quiseram me pôr na de finanças, eu disse: “De jeito nenhum. Eu vou para a comissão de propaganda”.

E acabei acumulando por  um tempo, a de intercâmbio. O centro de estudos elaborava as teses, estudava. Estudou o estatuto do petróleo que tinham lançado no Congresso. Era um terror de entreguismo. Eu peguei aquilo, organizei em itens. “Você sabe que há na Câmara Federal um projeto do estatuto do petróleo que dá concessões por 30 anos para os estrangeiros, renováveis por mais 10 e ainda renováveis? E você sabe que no fim disso tudo, se houver desistência teremos que indenizar todas as despesas e mais o petróleo que ainda tem debaixo da terra? Você sabe...?” E então a primeira página era uma análise em termos bem claros para qualquer um entender. E no verso nós imprimimos opiniões de personalidades, marechal, general, e desembargadores, sei lá quanto. A adesão era de todas as categorias, de todas as classes. E distribuímos na rua. Na rua. Onde fosse. Eu me lembro de eu entrando no ônibus para casa e distribuindo para todos os passageiros. Pegavam e liam. Isso aconteceu no ano de 1948. Já me perguntaram como era, naquele tempo, uma mulher fazer campanha e ir para a rua, mas era igual. Eu nunca me senti... Eu sempre era muito bem recebida, porque eu nem pensava em como iria ser recebida.

Eu sabia o que estava fazendo e tinha tal convicção, que passa. Eu fui representar - é curioso que já me fizeram essa pergunta em outro depoimento que eu fiz. Exatamente a mesma pergunta. E eu me lembro de que fui, por exemplo, para Goiás. Eu era bem moça. Mulher e bem moça, bem jovem. Eu fui para Goiás com a carta de apresentação do nosso então presidente, que era o deputado Domingos Velasco. Goiano. Mandaram pedir alguém do centro, lá fui eu. Cheguei, fomos direto para um comício. Eu tenho facilidade de falar. Outro dom que aquele, não é virtude porque eu recebi esse dom. Me empolgo, falo. Fui para o comício e tal. Depois, o meu mérito é aplicar em uma boa causa, é isso que eu digo. O meu mérito é esse. Fui para o comício e falei. E sempre em linguagem que pudesse ser entendida, clara.

E como eu sabia que eles dali iam para a sede, não é porque fosse sede do Partido Socialista, é porque a campanha era suprapartidária e qualquer partido que funcionasse podia ser lá. Todo mundo ia sem se importar se era este ou aquele - eu vou enfatizar esse aspecto, que é importante. Não me deixa esquecer -, mas então nós fomos para a sede. E eu de público disse: “Olha, nós vamos reorganizar o centro aqui. Quem quiser se engajar e puder fazer parte de uma das comissões, vamos embora, vamos conosco”. Direto. E fomos, e veio um grupo atrás. E lá então nós pudemos reestruturar o centro, organizamos as comissões. E deixamos, porque eu fui para Anápolis e Pires do Rio, onde eu fiz palestras, conferências. Pires do Rio com um teatro lotado. Mas cheguei a Pires do Rio, parei e pensei e disse: “Eu preciso reorganizar aqui o centro. Como é que eu vou fazer?” Chamei os meus goianos que estavam comigo, lá do centro, e disse: “Olha, me levem para os médicos locais e para as professoras.” Eu tinha um dia. Passei a tarde visitando médicos e professoras. E eu digo: “São elementos conhecidos e que têm contato. E tragam as mulheres também. porque eu acho que nessa campanha não é homem, não é mulher, é brasileiro.” E consegui deixar formado, estruturado o Centro de Petróleo.

E fiz uma palestra, me lembro bem descendo a detalhes bem explicados. Quando acabei veio uma senhora dizer: “É a primeira vez que eu ouço uma palestra e entendo tudo”. “Então consegui minha intenção.” Porque eu expliquei tudo o que se passava, mas com linguagem: “Olha, vem o petróleo. Do petróleo a gente faz isso... Até batom, sabia?” No quorum dessas palestras, não vou dizer que tivesse muitas mulheres. Mas tinha mulheres. Tinha. Bom, isso tudo para responder a pergunta de eu ser jovem e mulher.

 

Bom, quando acabou tudo, voltamos e tal. Voltamos, estavam esperando na Assembléia Legislativa para a posse que eu ia dar em nome do Centro Nacional. Desembargadores e lá uma comissão toda cheia de altas personalidades. Eu fiz o meu discurso e ainda pediram que eu ampliasse para a Amazônia. Eu acrescentei e dei  a posse e tal e coisa. Depois beijos e abraços e fomos embora. Quando eu saí, foram me levar de volta, disseram: “Agora a gente pode dizer, quando a gente pediu uma personalidade do Centro e fomos buscar você a gente disse: ‘Ih, mas a gente precisava...’, Agora nós temos de dizer: ‘Puxa que trabalho bom.’” Então é esse o problema. É você saber o que faz. É você conhecer o que está fazendo. Você confiar em você. Eu tive. Eu confio plenamente em mim.

Quando eu tenho que fazer uma coisa, eu me imbuo daquilo e aí parto com confiança. Ou procuro conhecer bem, e foi o que eu fiz, para ganhar a confiança e poder desempenhar. Com isto eu não senti nenhuma diferença nem discriminação. Isso uma jovem. Jovem nem tão jovem. Eu estava com 30, 32 anos. 31, 32 anos por aí. E mulher sem problema nenhum. E assim foi feita toda a campanha. Sempre tivemos também contato com a União Nacional dos Estudantes. Essa parceria começou logo que o general, depois marechal, Horta Barbosa lançou sua tese. Os estudantes foram reconquistando a praça pública. Tenho fotos aí também. Tudo o que eu estou falando está documentado. E tudo, tudo com detalhes. Documentadíssimo, como dizia. Ou exaustivamente documentado. Livro de... Como dizia Barbosa Lima Sobrinho nos artigos dele. Depois ele veio me explicar: “Olha, aquele exaustivamente documentado...” Eu digo: “Adorei, doutor Barbosa. É isso mesmo que eu queria”. Eu queria falar e provar, falar e provar. Está lá. Mas tudo isso está lá no livro. Eu vou deixar um, oferecer um a vocês. Vocês vão encontrar tudo o que eu estou falando. Episódios. Mas foi uma campanha toda ordenada, organizada. E os estudantes foram os pioneiros. Foram para a rua. E depois no centro os presidentes da UNE eram sempre presidentes de honra no centro. E também os militares do Clube Militar - que afinal a campanha foi lançada durante a gestão de César Obino, repito.

Agora estão mudando o nome da rua César Obino para Ronaldinho porque ele nasceu lá. Ronaldinho merece todos os nossos aplausos. Mas não tirando o nome de César Obino. Então nós estamos fazendo um movimento para pelo menos dar  a um outro logradouro expressivo o nome do general César Obino. Mas então você veja, havia essa integração. E o Centro de Petróleo, como ficou conhecido, foi realmente o coordenador em nível estadual e nacional da campanha o “Petróleo é Nosso”, que durou ininterruptamente. Até hoje não acabou, mas durou ininterruptamente. Intensivo, intensivo, intensivo, durou oito anos. E eu tenho três causas para a vitória. Que era, não foi fácil. Fomos tiroteados. Houve prisões, mortes. Vou contar o episódio da Praça Floriano. Mas primeiro eu vou arrematar esse pensamento para não ficar solto. A três causas eu atribuo a vitória da campanha.

Uma é um objetivo definido que unificou todas as correntes de opinião: era a luta pelo monopólio estatal do petróleo. Segundo: um caráter rigorosamente suprapartidário. Não era apartidário, porque os partidos praticamente, dois oficialmente, os outros liberaram para quem quisesse vir. Nós tínhamos elementos de muitas correntes. Quase todas. Rigorosamente suprapartidário. E terceiro, importantíssimo: a organização. Aqui no Rio, que era o Distrito Federal na época, era o centro nacional. Era ao mesmo tempo centro do Rio de Janeiro e nacional. E cada Estado tinha o seu centro. E foram-se criando e rapidamente comissões de bairro, de empresa, femininas, de fábricas, camponesas em Xerém, Baixada Fluminense, eu fui lá, estive lá. Testemunha ocular da história. E então no Brasil todo isto acontecia. Foi uma penetração pelo Brasil todo. Você viajava, vocês podiam fazer... Isso partiu do núcleo. Eu só não. Eu e todos que se integraram no Centro de Petróleo. O núcleo principal, é interessante, até eu vou passar a vocês, pelo menos uma diretoria, a primeira. No livro está tudo isso. Era uma diretoria muito grande.

O primeiro presidente foi um parente do general Horta. Foi o engenheiro Luis Hildebrando Horta Barbosa. Tinha um número grande de vice-presidentes de representações diferenciadas. Depois secretário geral Henrique Miranda, que foi meu ex-marido. Durante a campanha nós nos casamos.

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