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História

Conquistas e sonhos da comunidade

História de: Maria Irileda da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/06/2020

Sinopse

Nasceu em Fortaleza em 1953. Pai trabalhava com fabricação de caixão funerário. Infância: peteca, corda, circo, Praia da Leste. Veio com 21 anos para São Paulo. Difícil adaptação quando veio para São Paulo. Começou a trabalhar na área de limpeza na empresa PQU para não depender do marido. Lutas para melhorar a vida da comunidade: energia elétrica, saneamento básico. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Gosta muito de ajudar na comunidade e relata as conquistas e planos para o núcleo. Teve 11 filhos e 26 netos.

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História completa

P/1 – Primeiro eu queria muito agradecer a presença da senhora, de ter tirado um pouquinho do seu tempo, vir até aqui nos contar a sua história e para começarmos e para deixar registrado, eu queria que a senhora só nos falasse o seu nome completo, onde a senhora nasceu e qual a data no seu nascimento.



R – Meu nome completo é Maria Irileda da Silva, nasci em Fortaleza, Ceará, no dia 20 de outubro de 1953.



P/1 – E o nome dos pais da senhora?



R – José Adriano da Silva e Elizabete Batista da Silva, minha mãe.



P/1 – E a senhora sabe o nome dos seus avós?



R – Angélica Regina e Manoel Adriano.



P/1 – E me conta uma coisa, Dona Leda, qual que é a história dessa sua família, a senhora sabe como seus pais foram parar em Fortaleza, como que eles se conheceram?



R – Ah, os meus pais já nasceram lá em Fortaleza mesmo, e o conhecimento deles foi lá mesmo, que morava tudo junto, tudo nas mesmas ruas, o conhecimento deles foi esse.



P/1 – E o que os seus pais faziam?



R – Meu pai trabalhava em empresa de fazer caixão funerário, fazia caixão de defunto, muito bom, trabalhou muito tempo lá, se aposentou, mas já morreu.

 

P/1 – E a senhora tem irmãos?



R – Tenho três irmãos, duas irmãs e um irmão.



P/1 – Da mesma idade que a senhora, cresceram juntos?



R – Eu sou a do meio, tem o mais velho, depois veio a segunda, eu sou a terceira e tem a quarta, que é a mais nova, caçula, eu sou a terceira.



P/1 – Dona Leda, conta um pouquinho como que foi a infância da senhora, vocês moravam no centro de Fortaleza, como que era Fortaleza naquela época?



R – Fortaleza naquela época quando eu nasci foi uma coisa bonita, que eu lembro bem, porque as ruas não eram asfaltadas, fogão era de lenha, um banco era feito de uma tábua só com os pé para nós sentarmos, o chão era de barro, os brinquedo eram tudo de casca de melancia, fazia uma boneca, essas batatinha era, nós colocávamos uns palitinhos, fazia os nossos boi, nossas vaca. Infância muito boa, hoje em dia não tem mais, mas era, a nossa infância era essa, brincar de peteca, as brincadeiras que não se gasta tanto, essa foi a minha infância, gostei muito, tomar leite de cabra de manhã cedo, muito legal a minha infância, eu gostei.



P/1 – E dessas brincadeiras qual que era a sua preferida?



R – Pular de corda, adorava pular de corda, até hoje se deixar eu pulo.



P/1 – Como é que era a brincadeira de pular corda, tinha alguma musiquinha, como?



R – Não, não, era as duas bambeando e nós pulando. Era a brincadeira do relógio, uma hora, duas hora, nós brincava assim, pular mesmo, muito legal.



P/1 – Dona Leda, quem eram os vizinhos da senhora, como que era a sua casa, a senhora lembra?



R – Vizinho era umas loja, que é outra, que em Fortaleza tinha espaço e o vizinho era uma madrinha minha, também já se foi, e as filhas dela que morava, poucas casa assim que eu lembro, mais a família da minha madrinha, morava lá, duas madrinhas, eram as vizinhas da minha mãe. Depois nós passamos, com 13 anos passamos a morar em, isso eu morava no bairro Dias Macedo, aí quando eu passei a morar lá no Pirambu, onde a família minha reside até hoje, já tinha uns 13 anos, por aí, foi onde eu comecei a morar lá, de lá foi que eu vim para São Paulo, já com uns 21 anos, por aí. Já tinha quatro filhos, tinha duas, três viva e um que morreu lá, aí foi onde eu vim para São Paulo.



P/1 – E por que vocês mudaram para o Pirambu, a senhora lembra?



R – Lembro que no Dias Macedo, como meu pai trabalhava nessa coisa de fazer caixão, os donos deram uma casa para nós morarmos, como ele teve que sair da firma então nós juntamos dinheiro e compramos a casinha lá onde nós morávamos, onde a família mora até hoje, Pirambu, teve que comprar sua casinha.



P/1 – E a senhora lembra do trabalho do seu pai, a senhora chegou a algum dia ver ele trabalhando?



R – Lembro, lembro porque ele bebia demais e quando era no sábado a minha mãe tinha que pegar o dinheiro dele para ele não gastar na bebida. Então, o pessoal lá da empresa falava: “Todo sábado você vem pegar o dinheiro, porque se eu der na sexta ele gasta tudo.” A minha mãe todo sábado, como tinha nós quatro irmão, cada sábado ela levava um, nós íamos, entrávamos, olhávamos o serviço dele, muito legal.



P/1 – E me conta uma coisa, Dona Leda, como que eram as festas ali no seu bairro, comemorava festa junina, aniversário, casamento?



R – Naquele tempo ali era mais era circo, hoje em dia saiu um pouco, mas era circo e outras festinhas também que tinha negócio de os pessoais trajado de boi, sabe, debaixo de tal de Jaguará lá, que tinha umas bocona aberta, que os homens ficavam em baixo e ia se movimentando, essa era a festa nossa lá. Aniversário, aniversário assim eu não cheguei a curtir, porque a minha mãe nunca fez, mas brincadeira tinha, circo, adorava chegar o dia de domingo para nós irmos para o circo, mas daí nós passávamos por debaixo da lona sem ninguém ver, porque não tinha dinheiro para pagar, e era a nossa diversão, era essa, brincar nas árvore, era nosso divertimento.



P/1 – E a senhora lembra a primeira vez que a senhora foi ao circo, como que foi?



R – Lembro, lembro, para eu assistir uma peça de Vicente Celestino, até hoje está marcado, muito bonita a peça, sabe, até hoje eu lembro dessa fase, porque os caras, as pessoa que estavam lá fizeram tão bem que hoje quando eu lembro dessa peça, sempre que falou em circo, falou em peça eu lembro do Vicente Celestino, foi muito bonita, a história de vida dele foi toda narrada no circo, muito bonito, cantada ainda mais.



P/1 – E o que a senhora mais gostava dessas idas ao circo?



R – As palhaçadas, dos palhaço (risos), muito, também as alturas, o pessoal subir e descer, gostava muito.



P/1 – Dona Leda, a senhora brincava com os seus irmãos? Como que era? A senhora era a filha do meio… 



R – Não, eu era muito briguenta (risos), brincava, mas sempre eu ficava mais de lado porque eu era, tudo eu queria, eu era mais briguenta e outro. Nós gostávamos de brincar nas alturas, em cima dos pés de árvores, nós pegávamos sempre um pedaço de palha, enrolava no pano e falávamos que era meu filho, brincava nas altura, era a minha casa, sempre sonhei em morar em apartamento. Então, eu brincava sempre no alto e as outra tinha medo então ficava embaixo, eu sempre brincava no alto, é muito.



P/1 – E a senhora se recorda de festas típicas da região, assim, festa junina, São João, pelo Ceará, a senhora lembra alguma coisa da cidade, a senhora falou de uma das festas?



R – Recordo, participei muito de brincar quadrilha, nossa, brigava e tem que comprar a minha roupa, naquele tempo a situação era meio difícil. Tinha um primo meu que falava assim: “Olha, se você começar a cantar”, ele pegava um negócio e ficava batendo, ele chegava do serviço: “Eu lhe dou a roupa junina da festa.” Aí eu começava a cantar e ele, dizia ele que eu cantava bem, não cantava nada, ele era muito legal, eu cantava, ele falava: “A sua roupa já está ganha.” Que era para eu brincar quadrilha, sempre eu fui ativa e brincava, todas festas junina eu queria estar ali participando, essas brincadeiras boas.



P/1 – Como que eram as festas juninas lá no Ceará, era diferente de São Paulo? 



R – É e não é, porque hoje em dia já não se usa, tudo que brinca numa quadrilha, poucas vezes nós encontramos uma quadrilha bem começada e terminada, que tem: “Olha a chuva, olha isso.” Aquilo não tem completo, antigamente tinha, hoje é a metade, é uma, muda até o estilo, já é cowboy, é isso, é aquilo. Não é como aquela festa de antigamente, eu acho muito mudado, muito legal aquele tempo que você participava de tudo: “Olha a cobra.” É aquilo, tinha os cavaleiro, as dama, tudo hoje em dia tem, mas não é como antigamente, você entende, é diferente, eu acho.

 

P/1 – Dona Leda, a senhora falou dessa, das roupas do seu primo, nos contou, teve alguma roupa sua que a senhora lembra que tenha sido mais bonita, que a senhora ficou toda feliz?



R – Como assim, festa junina?



P/1 – É.



R – Não, não teve, não, porque sempre quando eu chegava lá, eu achava a da fulana mais bonita do que a minha (risos), mas era verdade, sempre achava, agora dizer que na minha infância eu tive roupa que era mais feia do que os outro, era, porque naquele tempo até as calcinha das criança se fazia com saco, cortava e as mãe costurava e fazia, saia de retalho de pano das costureira que a mãe juntava e fazia. Hoje em dia ninguém tem mais isso, não tem mesmo, roupa de retalho, usei muito, hoje não uso.



P/1 – Conte-nos uma história marcante da sua infância que tenha ficado muito com a senhora, assim, pode ser uma molecagem ou alguma, algum evento da sua família, alguma coisa que tenha acontecido na infância que tenha marcado a sua vida.



R – Não, o que marcou muito a minha vida que até hoje eu lembro e tenho medo, nem foi brincadeira, nem sei, foi um susto que a minha irmã me deu junto com o meu irmão de uma lagarta, eu tava em cima de um pé de goiaba, isso me marcou até hoje (risos).



P/1 – Como que foi esse susto?



R – Quando ele assustou, eu caí, desmaiei. Isso hoje, até hoje me marca, porque eu não posso ver uma lagartinha que eu já saio de perto, isso não sei, para eles foi uma brincadeira, para mim já não foi, caí e desmaiei com a lagarta somente, o resto.



P/1 – Dona Leda, a senhora chegou a ir para a escola lá em Fortaleza?



R – Fui, fui muito pouco, porque estudei, mas naquele tempo era, estudava normalmente, mas era aquela coisa, você fazia até naquele tempo admissão, que era o final dos estudos, que era a sexta série, era admissão. Eu cheguei acho que até a segunda, aí parei, naquele tempo ia quem queria, hoje em dia a bem dizer é obrigado, naquele tempo não. Então, eu parei muito nova, vim continuar aqui.

 

P/1 – E a senhora lembra de ir para a escola, dos primeiros dias de aula?



R – Lembro, lembro.



P/1 – Conte-nos então como que foi.



R – Lembro até da primeira professora, o nome dela era Maria do Livramento, a primeira coisa que ela me falou na classe: “Se não ficar quieta você vai apanhar com essa palmatória.” E me mostrou (risos), como ela tinha, ela usava o óculos dela muito de grau e quando eu olhava eu via os olhos dela diferente e eu fiquei com medo, eu era a mais quieta da turma, com medo de apanhar de palmatória, isso que me deu medo estudar, muito.



P/1 – E tinha uniforme, como que era o uniforme?



R – Tinha, era um xadrezinho e a blusinha branca, muito bonitinho o uniforme.



P/1 – Dona Leda, além desse medo, dessa professora, a senhora tinha alguma coisa que a senhora gostasse na escola, alguma coisa gostosa de ir para escola?



R – Eu achava bom na hora do lanche (risos), que cada um, coisa que marca, levava o seu lanche, juntava todas aquelas amigas, depois de comer, trocar o lanche um com o outro, nós ficávamos brincando um pouco, isso é a coisa que mais me lembro na minha infância.



P/1 – E onde, como que a senhora ia para a escola, onde que era a escola, era perto da sua casa?



R – Era pertinho, o importante que era assim, naquele tempo os nossos calçados tínhamos que ter muito cuidado, então era tamanco que usava e para nós andarmos nesses paralelepípedos, você, eu tirava os tamanco para não estragar, só usava pertinho da escola (risos). Isso me marca também muito a minha infância, hoje em dia ninguém dá valor, mas era assim, tirava os tamancos, chegávamos perto da escola nós calçávamos, calçava para não acabar os nossos tamancos, muito legal.



P/1 – Dona Leda, a senhora queria ser alguma coisa quando a senhora crescesse, tinha alguma vontade: “Eu quero fazer isso”?



R – Tinha, sempre eu tive, assistente social, sempre eu tive.



P/1 – E por que assistente social?



R – Não sei, porque eu acho que lida com as pessoas, você entende, e apesar que eu sou tímida, mas ou assistente social ou psicóloga, que lida também com as pessoas, não cheguei a isso, não.



P/1 – Dona Leda, agora me conta, conforme a senhora foi crescendo, a senhora falou que teve filho cedo, conte-nos como que foi isso, a senhora namorou, casou? Nos conte um pouquinho.



R – Eu casei com 17 anos, aí tive a primeira, está viva, vai fazer 42 anos, tive a segunda, a terceira e a quarta, foi onde eu resolvi vir para cá. Meu marido veio, tive que vim, no restante eu continuei aqui (risos). Tive 11 filhos, eu ganhei meu filho no dia 12 de outubro e no dia 20 de outubro eu fiz 29 anos, aí foi onde eu parei, não tive mais filho, mas tive 11 filhos.



P/1 – Dona Leda, primeiro filho aos 17 anos, onde que a senhora conheceu o seu marido, como que foi a história? O que você fazia na juventude lá em Fortaleza, passeava, saía?



R – Eu não tive assim já nessa juventude, porque minha mãe me prendia demais, então não tive esse contato de festa, não tive nada, não aproveitei nada, nem de estudar nem nada, era uma vida meia parada, que minha mãe era muito segura. Eu conheci meu marido lá pertinho mesmo, minha mãe tinha uma vendinha e ele sempre estava lá por casa, eu conheci ele lá, foi onde eu me casei, tive esses filhos, logo ele veio embora para cá e foi onde ele mandou me buscar.



P/1 – E antes de mudar para São Paulo, o que a senhora mais gostava em Fortaleza, a senhora ia à praia?



R – As praias, praia.



P/1 – Qual é a sua praia preferida?



R – A minha é a da Leste, que eu moro muito perto dela, era da Leste, as outras praias não tive essa oportunidade de conhecer, eu vou voltar lá para conhecer, mas não tive, da Leste era direto lá, bem em frente, não pagava ônibus, nada, saiu, olhou a praia, muito perto.



P/1 – Dona Leda, como que foi o seu casamento?



R – Simples, só casei no civil, pronto, ali já, foi muito simples, não teve festa, não teve nada, só o civil mesmo.



P/1 – E agora nos conte dessa mudança para São Paulo, por que escolheram São Paulo, como que foi isso?



R – A minha mudança para São Paulo foi o meu marido que veio na frente, quando ele chegou aqui, passou quase um ano e mandou me buscar, fiquei alegre: “São Paulo é terra de ganhar dinheiro, eu vou melhorar de situação.” Deixei uma filha com a mãe e trouxe as duas, a mais nova tinha 8 meses. Foi a pior viagem que eu já fiz em toda a minha vida, sofri, porque no Ceará ninguém usava fralda como hoje se usa, trouxe elas despreparada, chegou dentro do ônibus, como que eu ia fazer mamadeira, com quem eu ia deixar? Isso foi o maior apuro da vida. Cheguei, o motorista só não me comeu viva porque não pôde, as crianças tinham sujado as poltrona toda, sujou tudo, aí foi, pararam o ônibus, atrasaram ainda mais, que mandaram lavar, porque ninguém aguentava sentado de tanto mau cheiro. E daí para frente eu fui sempre segura, ia, descia, fazia mamadeira, que é três dias, voltava com elas, dava aquela mamadeira mal feita mesmo que não dava tempo de fazer, até chegar em São Paulo, a minha vinda aqui não foi boa, encontrei o marido bêbado, nem foi me buscar, quem foi me buscar foi um vizinho. Já vim para morar aqui pertinho da igreja do padre Antônio, foi a primeira casa que eu vim morar. Morei aí um ano, nem um ano não foi, aí passei a morar onde eu moro hoje e daí foi, mas um barraquinho muito pequeno, apertadinho, um colchão bem, sabe, aqueles horrível mesmo, eu digo: “Mas é aqui que eu vou ficar.” Fiquei até hoje, mas foi sofrido, nossa, como foi sofrido, recebi muita ajuda, muita ajuda mesmo, muita ajuda, não fosse a ajuda do padre Antônio, que é o padre aqui da, até hoje da área, não tinha conseguido, porque ele me deu uma ajuda enorme, me deu ajuda de tanto de comida como colchão para se dormir, remédio para os meus filhos, me ajudou bastante, o padre é o melhor que tem aqui no pedaço, tão bom que é.



P/1 – Dona Leda, a senhora sabe por que o seu marido se instalou aqui, assim, aqui na área, por que ele escolheu esse pedaço de São Paulo?



R – Porque em Fortaleza não tinha serviço para ele, aí ele veio para trabalhar de pedreiro, mas como ele bebia demais ele nunca se aprumou aqui, bebia demais mesmo, então o que pegava gastava. E nós sempre precisamos de ajuda dos outros, como aqui mesmo no pedaço aqui onde eu trabalhei, muita gente me ajudou, sobrevivi por causa disso, foi pesado para mim.

 

P/1 – E essas primeiras semanas em São Paulo, quais que foram as primeiras impressões da senhora, cidade grande, maior?



R – Muita saudade, porque nós deixamos a família, muita saudade, o frio que doía mesmo, que hoje em dia já não faz frio como antigamente. Primeiro dia que eu dormi aqui, eu cheguei mês de maio, dia 25 de maio, quando eu cheguei aqui que eu acordei no outro dia, a pia como era, o quintal era muita família, certo, a pia era lado de fora para todo mundo lavar as suas louça, eu olhei a pia cheia de gelo, aquilo me doeu muito, eu falei: “Onde eu vim parar?” Sem roupa de frio, sem nada, mas foi uma tristeza enorme, se eu pudesse tinha voltado naquele dia mesmo, horrível para quem não conhece, sofri muito nos primeiros dias, depois não, hoje eu já não quero voltar.



P/1 – E a senhora falou das pessoas que te ajudaram, falou do padre, quem foram as primeiras pessoas que a senhora conheceu?



R – A dona da casa, dos comodozinhos que nós morávamos, me ajudou demais na hora que eu cheguei, foi o dia mais frio que disseram que era do ano naquele tempo. Ela, tava até sem cobertor, que era muita família que ela ajudava, ela me deu um monte de tapete dela para eu me cobrir, acredita, porque não tinha. Tava muito frio, as crianças sem roupa, ela deu jeito de arranjar dos netos dela para vestir, era as duas, e muitas pessoas me ajudaram mesmo naquele tempo, mais os vizinhos também. Para quem chega aqui se não tiver ajuda, minha filha, se dana.



P/1 – E quando que a senhora começou a trabalhar, já trabalhava lá em Fortaleza ou foi aqui em São Paulo que a senhora foi atrás?



R – Em Fortaleza eu trabalhei muito pouco, um mês, um mês e pouco, em fábrica de castanha. Aqui eu vim trabalhar quando o meu filho que tem, nem sei a idade mais dele (risos), tinha oito meses, eu comecei a trabalhar aqui dentro da PQU [Petroquímica União], que era Petroquímica, foi onde eu vim começar a trabalhar mesmo, porque depender do marido que bebia não dava, eu digo: “Eu vou me sujeitar.” Nesse tempo eu já tinha o que? Já tinha acho que cinco filhos quando eu comecei a trabalhar e depois que eu cheguei, eu vim com três, vim com duas, com a que eu deixei lá três e o restante eu tive aqui para completar os onze. Eu tinha que deixar eles sozinhos para eu trabalhar, porque não tinha creche, não tinha nada, tinha que deixar sozinho para trabalhar. Como ele era muito gordo, meu caçula, então ninguém podia pegar nele, porque ele pesava muito, eu vinha trabalhar na firma de manhã, meio-dia voltava, que era um pulinho só onde eu morava, dava comida para ele, deixava um monte de mamadeira preparada para minha filha que também tinha pouca idade cuidar dele, não tirava do berço. Então, meio-dia eu ia, dava banho, voltava para firma de novo, foi bem pesado a minha vida, muito pesada.

 

P/1 – E como que foi conseguir esse primeiro emprego? Qual que foi a história da entrada da senhora no Polo?



R – Falaram para mim que estavam precisando, eu tinha uma colega que trabalhava aqui dentro, faxina, na limpeza. Ela falou: “Se você quiser eu te coloco lá dentro.” Falou com a encarregada e ela: “Me traz aqui.” Foi onde eu comecei a trabalhar, eu trabalhava de cinco às dez, o sábado eu trabalhava das sete às quatro, era o dia mais pesado para mim, que eu tinha que ir lá e dar comida a ele. Aí trabalhei dois anos e meio, saí, voltei de novo, trabalhei mais dois anos, saí. Fui trabalhar na usinagem, na Interpa, antiga Interpa, trabalhei na água e lavadeira em São Caetano, na Qboa, trabalhei na Unipar Química, eu trabalhei, trabalhei na Petrobras, Vila Mosca, que é de limpeza também, trabalhei em bastante lugar por aqui, muito.



P/1 – E como que era o Polo naquela época, era muito diferente?



R – Não, não mudou nada os locais, mudaram as pessoas que não são mais as mesmas, mas o local está o mesmo.



P/1 – Como que era a relação das pessoas? A senhora tinha amigos, trabalhavam junto?



R – Olha, essa turma da PQU, aqui da Petroquímica, foi uma família para mim, no que eu precisava, a assistente social que antigamente era a Cibele, nossa, o que eu precisava, tanto aqui como na Unipar Química. Na Unipar Química eu tive uma crise de catapora muito, que a assistente social foi lá em casa, eu nunca soube o que foi um supermercado, não fazia compra, acredita. A assistente social da Unipar Química me levou lá em casa, lá no supermercado, que é o Pão de Açúcar na Perimetral e falou: “Estão aqui dois carros para você encher.” Eu nunca tinha visto tanta coisa na minha vida, quando eu vi aquilo eu falei: “Eu não vou, não, que eu tenho vergonha.” Ela falou: “Não, carrega o que você quiser.”Foi onde eu vi aquilo que eu nunca tinha nem comido, comecei a encher o carro, nossa, aqueles pessoal me ajudou bastante, tanto aqui na Petroquímica como na Unipar Química, os dois me ajudaram bastante também.



P/1 – E tinha festa de final de ano, tinha algum evento para os funcionários?



R – Aqui tinha a festinha que nós fazíamos da limpeza, reuníamos todo mundo, fazia sempre no refeitório as coisas toda, tinha festa sim, muito legal o final do ano, tinha, muito legal mesmo. Final de ano também as turmas me ajudavam muito com presente para as crianças, da Petroquímica, iam deixar coisas em casa, muito. Não tive uma vida totalmente ruim, porque ao meu redor eu sempre encontrei pessoas que me ajudassem muito: a Petroquímica, a Unipar Química, padre Antônio, pessoas que eu não cheguei a sentir muita necessidade de vida pelo contato com essas pessoas. O antigo Casmu também, hoje é Adsa, mas não era ali, era onde tem o Munce hoje aqui em Santo André, que eles forneciam mantimento para as pessoas carentes, também. Olha, teve uma vez lá que ele falou: “A sua cota aqui já estourou, não tem mais como.” Foi onde eu passei a ir para turma daquele pessoal que ajuda muitas pessoa da espírita, me ajudaram bastante tempo também, tinha festinha no fim do ano, me ajudaram no que podia, em gás, em tudo, eu nunca passei muita necessidade aqui por causa disso, encontrei sempre pessoas que me apoiavam.



P/1 – Dona Leda, agora me conta, quando que foi que a senhora mudou para o Capuava, a senhora já estava trabalhando no Polo?



R – Estava, eu tava trabalhando já no Polo. Como eu tinha muita família, muito filho, onde eu morava estava dando muita questão, porque a mulher que tinha mais filho era eu. Então, as outras não tinham, quando eu chegava em casa era um com a orelha beliscada, era outro apanhado dos vizinho e foi uma situação feia, foi onde eu consegui encontrar pessoas que me indicaram o núcleo. Aí onde eu comprei esse terreninho lá, que era um barraquinho pequenininho, caindo mesmo, sem um vaso sanitário, sem nada, aí foi onde eu cheguei aqui para turma da Petroquímica e conversei com o rapaz que trabalhava no laboratório e ele falou: “Vou te ajudar.” Aí comprou, naquele tempo nós não podíamos fazer barraco de bloco, essas coisas, aí foi que ele falou: “Vou te ajudar.” Comprou um monte de madeirite e foi lá e reformou todo o meu barraco, muito bonitinho de madeirite. Toda a turma daqui, da Petroquímica, me ajudaram bastante e daí para frente eu só fui chegando até onde eu cheguei, onde eu tive os meu filhos, tive as gêmeas, tive o meu caçula, estou até hoje.



P/1 – E como que foi a chegada da senhora no bairro, quais foram os primeiros sentimentos?



R – No bairro Capuava?



P/1 – Capuava, isso.



R – Quando eu vim de Fortaleza eu já vim para cá, para o parque aqui, pertinho da igreja do padre Antônio.



P/1 – Mas a senhora mudou para o núcleo depois.



R – Eu mudei para o núcleo depois, digamos assim que foi, contato, porque tinha pouca família ali. Então, senti à vontade ali, que era uma casa longe da outra, muitas poucas pessoas, tinha que sair para trabalhar, deixava lá à vontade também, porque não tem esse movimento que tem hoje. Meus filhos sempre ficaram lá sozinhos, porque não tinha onde eu deixar, tinha lugar demais para brincar, porque eram poucas casas, eles corriam por ali soltos à vontade. Então, eu não tinha muito medo, hoje em dia já tenho.



P/2 – Ainda na Petroquímica a senhora participou de algum treinamento de segurança?



R – Sim, sim, quando nós entrávamos aqui, nós íamos até o bombeiro e ele fazia o curso com a roupa que podia trabalhar, que não podia, você entende. Em caso de incêndio, alguma coisa, nós participamos muito, os primeiros socorros, nós participamos aqui com os bombeiros. Sempre foi treinado aqui para quando chega uma visita, nós não, olhamos a área de segurança quando nós trabalhamos, entrar, o que podia entrar, o que não podia. Eu como era fumante, eu não fumava lá dentro, eu fumava aqui fora, quer dizer, em horário de almoço, lá dentro ninguém. Sempre participei muito, que aqui dentro tem uma segurança enorme, muita segurança, os tênis que nós andamos, a roupa que nós vestimos para na hora de uma, a primeira coisa que eu aprendi aqui é ver qual a roupa que nós usamos para na hora não grudar muito no corpo, tem roupa, mais algodão, isso eu aprendi muito aqui.



P/2 – Tinha alguma coisa que era mais difícil, assim, no trabalho, que por algum motivo exigia mais de vocês?



R – Não, não, não, que aqui o meu setor aqui, toda essa área que trabalhava, eu era maquinista, eu que passava as máquinas do setor todo. Então, o meu serviço mesmo era leve, já tinha as ajudantes que vinham com pano, eu trabalhava como olheira, eu passava a máquina e depois eu ia olhando o serviço das outras para chegar, entregar tudo pronto para amanhã não ter reclamação, entende, esse era o meu serviço.



P/1 – Dona Leda, lá quando a senhora já tava no núcleo, a senhora lembra de ter conhecido, quando que a senhora conheceu seu Apolônio, seu Jorge, esses moradores mais antigos por ali?



R – Olha, seu Apolônio de início foi uma das primeiras pessoas que eu conheci. Seu Apolônio, seu Clemente, que são os antigos mesmo que tem lá. O Jorge eu já vim conhecer de certo tempo, de uns dois, três anos até mesmo com a, não, muito mais, acho que com uns cinco, por causa de negócio de conta d’água que nós pegávamos lá, que foi onde nós lutamos para nós termos direito a água, que nós não tínhamos água. Onde eu moro até hoje era um cano puxado do núcleo para o pedaço onde eu moro, que o núcleo já existia, aqui, esse lado de cá da favela, que chamava favela, já existia, tinha luz, tinha água. Agora, o pedaço onde eu moro não tinha nada, eu passei quatro anos com luz de vela, usava vela, televisão não sabia o que era, ferro de passar também não. As minhas filhas eram recém-nascidas, a minha filha de 6 anos para trocar ela, que eu trabalhava aqui até às dez, era à luz de vela, eu chegava em casa a barriguinha dela tava tudo cheio de pingo de vela, foram quatro anos assim. Foi onde eu comecei a correr atrás indo no antigo Casmu, indo na Eletropaulo e pedindo ajuda de uns, seis pessoas que moram no núcleo para me ajudar para nós colocarmos energia, até que nós conseguimos. Porque eu chegava em casa era as velas acesas dentro do armário, era vela acesa em cima da cama, era vela acesa embaixo da cama, que quando ia procurar um sapato, uma chupeta, onde nós deixávamos a vela ficava, tive muita sorte, o meio da minha mesa era tudo queimado de vela. Foram quatro anos lutando para chegar energia, sempre eu lutei aqui pelo núcleo por causa disso, que eu precisei mesmo, tudo criança, mas nunca aconteceu incêndio nem, graças a Deus. Roubei muita energia, sabe, pegava aqueles conduíte e fio de energia, saía colocando, levava, roubava lá da favela. Lá nós íamos de noite fazer essas instalações, quando os dono das energia, que não pagava também, via a luz ligada ia lá e cortava, sempre roubando energia para dar a televisão para eles assistirem, foi sufoco. Hoje não preciso mais, está tudo em ordem.



P/1 – E essas pessoas que lutavam com a senhora, que lutaram com a senhora atrás desses direitos, quem que foram elas?



R – Já morreram, foi o Raimundo, um está vivo, mas eu nem sei onde mora, o Cido foi, sabe, sempre estava ali com a Eletropaulo, que eu não lembro se naquele tempo era a Eletropaulo, faz tanto tempo, mas e com o pessoal também do Semasa [Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André], que nós lutávamos para conseguir a água e a luz. Sempre tava ali cinco, seis pessoas, nos unimos e lutamos, que a favela inteira tinha água e luz, só que a nossa parte que é dividida em terreno próprio não tinha, eles não queriam fornecer para nós, graças a Deus conseguimos.



P/1 – E como é que era a escola para as crianças?



R – A escola, os meus filhos vinham estudar aqui no Nelson Cardini, era a escola deles. Depois abriram a escolinha lá de Mauá, eles começaram a estudar lá e posto de saúde também era aqui. Depois deram preferência para nós passarmos no posto de Mauá, que é do outro lado do rio, nós começamos usar lá posto, escola, tudo, mas eles passaram bastante tempo, os meus últimos filhos já estudavam na escola Delfino Ribeiro Guimaraes, eles estudaram lá.



P/1 – E como que eles faziam para irem? A senhora conseguia trabalhar, levar eles para escola, como que era isso?



R – Para ser sincera eles se viraram sozinhos, não tinha esse tempo, saía de manhã para trabalhar em casa de família e à tarde aqui na Petroquímica. Eu não fui mãe para eles, eles se viraram sozinho, sozinho mesmo, se arrumavam para irem sozinhos, eu não sabia o que era um boletim dele, eu não sabia o que era uma reunião a bem dizer deles, porque eu não tive esse tempo, ou eu bem dava de comida para eles, trabalhava para sustentar eles, ou eu bem cuidava deles. Minha opção foi trabalhar para não deixar faltar muito para eles, não fui mãe, aquelas mães, não fui.



P/1 – E eles brincavam pelas ruas do bairro, do que eles gostavam de brincar?



R – De pipa assim eles nunca gostaram, até hoje eu tenho um que corre atrás de bola (risos), esse daí, e as meninas sempre ali por perto mesmo. Tudo, tinha espaço, então eles brincavam ali à vontade, de bola. Hoje em dia não tem mais lugar para jogar bola, que antigamente o lado de Mauá tinha espaço para eles jogarem bola, hoje em dia está tudo ocupado, mas eles brincavam bastante de bola, bola e as meninas eram sempre brincando com as outras por ali de corda, tudo. Tinha brincadeira até boa, agora já não existe isso, que não tem espaço.



P/1 – Dona Leda, conte-nos algumas mudanças que a senhora foi vendo acontecer ali na região, os novos moradores que foram chegando, o que foi mudando, nos fale um pouco.



R – Olha, a mudança ali foi muita. Para começar onde eu moro tinha poucos barracos, depois foram começando a tirar os canaviais ali, quando sobe a Ayrton Senna era tudo canavial, não tinha uma casa, você vê, eu acompanhei tudo aquilo ali que não tinha. Depois começou, depois que tiraram os canaviais, que só tinha uma casinha no meio dos matos, que é ali onde é a Copersucar hoje, ali tinha uma casinha lá no final, que é lá no Minaide, era uma senhora que tomava de conta do terreno, Alzira Franco e Maria Franco, que era as duas irmãs, só tinha um barraquinho, que era que tomava de conta de tudo. Começaram a tirar os canaviais e começaram a construir, foi onde fizeram o primeiro, as primeiras montagens dos barracos, depois mudaram, “ponharam” para o lado de cá, de lá para fazer as casas da Emhap [Empresa Municipal Habitação Popular Santo André], as primeiras construções que fizeram, depois da Emhap agora já estão chegando nessa que são as casinhas. E a nossa parte ali foi onde começaram a urbanização junto com o Felipe. Foram  seis, sete anos, por aí, mas até ali, olha, ali tinha um rio atrás da minha casa, que eu falei para ela, tinha um rio que era enorme, sabe, os nossos esgotos, que não tinha, era tudo para dentro daquele rio, tudo. Foi no tempo da urbanização que foi muito, o Jorge vai te falar isso, foram muitos e muitos caminhões de terra para fazer aquela rua que vocês estão pisando, pisaram hoje, que ali era rio, lama, não era uma coisinha pouca, não, era muito, ali tinha até animal,  de tanto, muito bonito ali primeiro.



P/2 – Como era a história das minas?



R – As minas foi aqui onde eu morei perto da igreja do padre Antônio, muito bonito, tem hoje um campo de futebol, ali era onde nós lavávamos roupa. A minha casa estava de fundos dela, era para as minas. As mães que não podiam deixar os filhos em casa levavam tudo para ali, tomavam banho, outro tinha tanque, todo mundo lavava as suas roupas, água encanada ninguém sentia falta, porque era aqui, então nós todos lavávamos roupa ali. Era muita mulher, naquele tempo que nós, uma ficava contando história, fofocando da vida dos outros e batendo aquela roupa nas pedras ali, apoiávamos para cora aquelas roupas ali. Hoje em dia quando eu passo só lembrança, porque está tudo asfaltado, tudo, muito bonito ali, isso aqui foi lindo demais, não existe mais tanta boniteza como antigamente. Tem uma quadra de futebol, uma pracinha, quem passa ali vê. Tem o pessoal que lida com o negócio de futebol no campo do Cecinho, mas ali, essa Rua das Nações ali também, que era tudo canavial de um japonês, hoje em dia existe a cooperativa da Rhodia, ali também tudo era rua sem asfalto, sem nada, era terra mesmo, hoje já não tem mais.



P/1 – E essa mulherada que ficava junto a senhora tem alguma amiga que tenha marcado?



R – Tenho, tenho uma amiga que marca muito, hoje em dia está longe ela, viajou, mas uma amiga também que me deu muita força, muita, certo, muita força mesmo; que tem também a madrinha do meu filho também, batia muito papo, sabe, conversava. Muitas pessoas que marcaram, distanciaram, está uma para um lado, outra para outro, mas marcou muito, nossos encontros todo santo dia para lavar roupa.



P/1 – Dona Leda, como é que era o comércio na região? Onde que a senhora fazia, comprava as coisas para casa, como que funcionava isso ali?



R – Aqui, quando eu morava em Capuava, tinha o Nosso Lar, que hoje já mudou até de nome, nem sei como está o nome, que é aqui na rua depois da padaria Nepal e no núcleo não tinha nada, não tinha venda, não tinha nada, eram simplesmente uns barraquinhos. Nós passamos a fazer compra em Mauá, era um barzinho que tinha. Nós comprávamos pão, comprávamos alguma coisa, tudo lá, hoje em dia nós já temos de tudo no núcleo. Muita gente fala que é Paraguai, Mauá ficou um lugar isolado e onde eu moro o pessoal fala que aqui é o Paraguai, tem de tudo que nós precisamos, onde eu moro no núcleo, de tudo ali tem hoje em dia. Antigamente não tinha nada, não tinha farmácia, não tinha, só ônibus que fazia uma linha que era de meia em meia hora para nos levarem até o centro ou, se não, pegávamos o trem. Era o nosso meio de transporte, era o trem, aí colocaram uma linha de ônibus, depois agora com toda essa urbanização que nós temos ônibus à vontade, temos tudo ali.



P/1 – Dona Leda, a senhora mencionou o Felipe quando a urbanização começou, como que foi a chegada deles? Como que os moradores receberam?



R – Foi uma chegada muito contente, que nós queríamos tudo urbanizado, o medo, porque nós falamos: “Como que nós vamos pagar tudo isso?” Que no começo falaram que nós íamos ter o carnezinho para pagar toda a construção e quando nós moramos numa área sem pagar e quando a pessoa fala: “Vai pagar.” A pessoa já fica: “A minha renda é pouca, não vai dar.” Fica com medo, mas depois nós recebemos ele numa boa, porque tudo o que ele fez hoje em dia foi para o nosso bem, quer dizer, que tirou um pouco, como a minha rua, não passava carro, então tinha liberdade para todas essas crianças brincarem de “fubeca”, brincarem de bola, não tinha aqueles barulhos que têm hoje, mas foi obrigado a fazer para ter urbanização. Muita coisa ali foi mudada talvez até para melhor, mas hoje em dia eu falo: “Se não existisse essa rua não existia tanto barulho de carro, nem de moto e nós dormíamos mais sossegados.” Mas foi preciso fazer, nós recebemos o Felipe muito bem, muito bem, trabalhou muito bem ali também. Se ele chegava ali, não tinha esgoto, não tinha nada, a energia era tudo cambalacho, era tudo “gato” de um pedir para pôr quatro, cinco casas num fio só, tempo de pegar fogo. Às vezes, quando nós íamos ligar uma máquina a luz parava, porque eram muitas casas ligadas num fio só e hoje nós já temos a nossa luz, tudo individual, pagando as nossas conta, um pouco alta, mas está bom, melhor do que nada; e menos a água, a água eu pago a minha conta, mas não tenho hidrômetro, tenho só o papel do cadastro que eu fiz até hoje, quanto que nós lutamos para ganhar, eu pago, pago 24 e pouco. Agora, os outros que foi urbanizado não tem ainda, não paga nem conta de água e nem esgoto, tão esperando urbanizar o resto para, que não está terminado.



P/1 – E o que mudou na casa da senhora, assim, com a urbanização?



R – Mudou o direito de nós podermos construir, porque nós não podíamos construir, porque dizia assim: “Se construir aí vai sair.” Ninguém sabia onde iria sair, você não tinha aquele direito, se eu construir eu vou perder a construção e hoje em dia não. O que você faz você tem certeza que é seu, que você não vai perder o trabalho. Meu mesmo, estou construindo a minha casa sabendo que ali eu não vou mais sair e antigamente não, nós tinha esse medo, se eu construir, se eu for sair. Então, nós não tínhamos esse direito de construir, hoje em dia já você faz do jeito que você quer a sua casa, muito legal isso.



P/2 – O que é mais legal de morar em Capuava?



R – O mais legal, olha, (risos), eu acho assim, se falarem assim: “Você quer ir para um lugar bem chique?” Eu poderia até ir, mas eu ia com medo, a bondade que mora no núcleo é que você não tem muito medo de sair nem de chegar. Parece que você, não é proteção de nada, é porque é uma área que ninguém quer ir assaltar com carro, você chegou, vai ser roubado esse carro, você entende a tranquilidade que tem? Eu acho isso, eu mesmo, na minha casa em cima não tem porta, mas eu durmo tranquila, a janela dorme aberta, dá para pular? Dá, mas quem vai? Tranquilidade ali que eu acho, uma coisa que muita gente tem medo de chegar, como eu falei para ela, e abrir o portão na sua própria garagem com medo de invadir e ser assalto, isso eu não tenho lá, dorme carro na rua, dorme tudo na tranquilidade, eu acho isso, eu gosto dali.



P/1 – E essa questão da violência, da tranquilidade, teve alguma época que foi mais difícil, teve, foi sempre tranquilo?



R – Olha, eu perdi um filho ali, está com 12 anos, perdi meu filho, mataram em frente à minha porta, que nesse tempo eu morava, como eu te falei que tem a Avenida do Estado e a outra onde eu morava, que a minha casa era frente e fundo, era grande, só que eu vendi a da Avenida do Estado, pedaço, naquele tempo podia vender o pedaço, por causa da morte do meu filho, que eu não podia passar no portão que eu me lembrava dele caído. Eu digo: “Eu vou me desfazer disso, ficar só com os fundos, porque aí eu esqueço aquela imagem.” E até hoje eu não sei o porquê, mataram ele era onze e quarenta do dia, a única violência, não, eu não sei o que aconteceu, só sei que quando eu cheguei em casa o que me contaram foi que ele estava em frente do meu carro tomando refrigerante com uma menina e mataram ele, que as mães são as últimas a saber das coisas, ninguém participa nada. Mas não deu, para mim não me fez medo, que naquele tempo era assim, alguém chegava, falava assim, já aconteceu morte com isso, de matar a pessoa e ficarem com a casa, que a casa não tinha cadastro, não tinha nada, chegava: “Eu vou ficar com a casa.” Matava até os proprietários e ficava com a casa, isso nunca me deu medo, que da minha casa eu falava: “Ninguém vai me tirar, é meu.” Então, foi onde, mas não me deu medo de morar ali, não, que meus outro filho tudo ali, nunca tive medo, isso marcou muito.



P/1 – E quando a senhora mudou para essa sua casa a senhora mudou já sozinha, era só a senhora e os seus filhos?



R – Não, mudei eu e o pai deles, meu ex-marido, moramos com ele, passou muito tempo não, ele foi embora, foi embora para Fortaleza, levou minhas três filhas e eu fiquei com os outros e nesse intervalo ele ficou por lá. Depois eu conheci esse rapaz que eu vivo até hoje com ele, tem 23 anos que eu estou com ele. Conheci esse meu novo companheiro e as minhas filhas voltaram, quando uma voltou já trouxe um nenê, quer dizer, eu fui lá, soube que ela estava sofrendo, peguei ela, o marido dela e o filho dela, que até hoje mora lá comigo, trouxe para São Paulo, porque lá em Fortaleza se a mãe viesse e o pai não viesse nós não podia trazer a criança. Então eu trouxe o pai, a mãe e o filho, cheguei aqui ele começou a espancar ela, eu mandei voltar e fiquei com a mãe e o filho, que até hoje mora comigo. O meu marido quis voltar, eu falei: “Não tem mais espaço.” E arranjei esse outro que eu estou com ele até hoje, que eles têm como pai, padrasto, mas como pai, e me dou muito bem com ele. Ele não é pai, ele é um anjo, meu marido é tudo, tudo, tudo que Deus me deu, é ele, não sofri mais, com ele não, não tem aquela vida que precisa trabalhar, não, ele trabalha por mim, me ajuda no que eu posso, é tudo.



P/1 – Dona Leda, esse seu novo companheiro, como que a senhora conheceu ele, como foi essa história?



R – Essa história foi eu indo em Mauá na casa de um primo encontrei ele, aí eu falei: “Ai, esse homem aí é que eu quero para mim.” E tava separada, sem ninguém, fiz um bilhetinho, mandei meu primo entregar para ele, que eu queria conhecer ele, e com dois, três dias foi que ele foi ler o bilhete, foi até lá em casa. Aí eu falei para ele, só que ele não falou, eu perguntei a idade dele, ele falou que, aí ele perguntou a minha, eu falei que eu tinha 26 anos, ele falou que tinha a mesma idade e eu não sabia que ele estava mentindo, ele tinha 26 anos e eu 36 anos, aí foi, eu falei: “Está bom, tudo da mesma idade, deixa que… ” Não tinha a mesma idade, ele é mais novo do que eu dez anos e nós passamos a nos conhecer, morar junto e até hoje estamos aí. Hoje em dia ele trabalha numa empresa, na JTA, em Sertãozinho e nós nos damos muito bem, muito, cara de cabeça, que pensa em tudo que manda ele fazer ele sabe, inteligência boa, esse eu tenho como pai dos meus filhos, que me sustenta, que me ajuda em tudo, é ele, tive sorte.



P/1 – Dona Leda, fale para nós um pouco agora dos seus filhos, eles estão grande, o que eles fazem, conte-nos um pouquinho.



R – Minha filha mais velha, ela tem cinco filhos, trabalha, separada também, a mais velha eu deixei com a minha mãe, que ela cuidou dela até, de Fortaleza, até agora vive com ela. Tem a segunda que é essa que tem cinco filhos, trabalha em limpeza, essas coisas; tem esse que morreu, que é o Marco, é o mais velho dos homens; tem uma filha minha que ficou em Fortaleza, quer dizer, quando meu marido foi embora levou, vive lá com ele. Tem dois filhos: tem o Fábio que agora no momento está desempregado, está no seguro desemprego ainda, está fazendo entrevista por aí, tem o outro meu caçula que está fazendo a faculdade, nem sei de que é, mas está. E tem a mãe desse meu neto que está comigo, trabalha também em restaurante, está faltando mais algum (risos), eu sei que são muitos, eu até esqueço. Tenho 26 netos, 26 netos e o meu filho que eu estou adotando agora de 4 anos, vai fazer agora dia 28, meu caçula, ele é o mais novo membro da família, é bastante?



P/1 – E essa família tão grande, vocês comemoram o Natal, aniversário?



R – Não, não sou disso, não gosto de festa, eles nem sabem o que é um aniversário, que eu acho que levei um pouco da minha mãe, porque é um de dezembro, um de janeiro, um de fevereiro e se eu for fazer aniversário é um gasto grande. Nunca, para não fazer diferença eu nunca fiz, muito, meu filho antes de morrer ele quis fazer o aniversário de 15, 18 anos dele, ele mesmo fez, o de 15, o outro me caçula também fez o aniversário, queria, sabe, ser com muita gente, ele mesmo que trabalhou para isso, fez aniversário que chamou muitas pessoas. Então eles mesmos fizeram, agora, eu não tenho, não gosto disso, inclusive esse meu caçula agora de 4 anos, ele vai comemorar o aniversário dele na escola. Eu vou compartilhar e entregar a sacolinha de brinde, essas coisas, que é na creche, para não dizer que eu não participei eu vou levar para ele dar aos amiguinhos, que eu não gosto de festa, não sei. Eu não gosto de participar de Natal, eu não gosto disso, eu não gosto de nenhum tipo de festa, casamento dos meus filhos, para não dizer que eu não fui, eu fui de uma das gêmeas minha, que eu tenho uma filha gêmeas, fui de uma, a outra casou eu nem compartilhei lá, nem cheguei perto, que eu não gosto, não sei, eu não gosto.



P/1 – E o que a senhora gosta de fazer?



R – Eu gosto de reuniões, digamos assim, eu gosto de participar de reuniões defesa civil, entendeu, gosto, como o Felipe mesmo sabe, me conhece, eu gosto de participar de tudo quanto tem coisa que chega na comunidade, eu gosto, participar com as pessoas. Sou um pouco tímida, mas eu gosto de estar sempre presente para eu saber o que vai acontecer, em que eu posso ajudar, isso aí eu gosto, mas aniversário, essas coisas eu não gosto.



P/1 – A senhora é filiada ao PT [Partido dos Trabalhadores], como que foi essa filiação, me conta um pouquinho desse envolvimento da senhora, quando que começou isso?



R – Ah, começou desde o tempo das energias, de lutar pelo núcleo, foi onde eu comecei até conhecer o Jorge e quando nós queremos buscar algo para o lugar onde nós moramos, nós sermos conhecidos um pouco. E eu sou daquela que quando eu quero uma coisa, eu vou lá buscar, vou conhecer, foi onde eu conheci o Felipe, aí foi onde eu comecei a me filiar no PT para mim, sei lá, buscar mais alguma coisa, passar a entender um pouco, que para você trazer alguma coisa para o núcleo você tem que ter conhecimento em vários lugar. Hoje em dia eu conheço, só que eu tenho vergonha de chegar lá, eu tenho vergonha de ocupar a pessoa ligando, você entendeu, digamos assim, eu vou ligar para você: “Ai, será que ela está ocupada, será que ela vai poder me atender?” Às vezes, até desisto e agora eu parei um pouco por causa do meu filho, toma muito o meu tempo, aí eu estou fora da participação do núcleo em tudo, porque é pesado, está sendo pesado para mim, mas eu gosto de ser filiada no partido, muito bom.



P/1 – Dona Leda, nós estávamos falando do lado mais político da senhora, a senhora falou da sua filiação e me conta um pouquinho como que funciona o núcleo, tem reunião, como que é o trabalho? Agora a senhora está um pouquinho afastada, a senhora falou que tomava muito do tempo, conte-nos um pouquinho disso.

 

R – O núcleo, no tempo da urbanização, teve muitas reuniões, participações de muitas coisas com a Márcia, as mulheres da Prefeitura sempre vinham nos dar alguma instrução, foi muito legal, teve muito contato mesmo para endireitar a urbanização, assim, para aprender como lidar, para não deixar muito lixo jogado, tinha muita palestra, só que não mudou muito, porque para lidar com a cabeça do povo, você sabe, é difícil. Mas nós tivemos muitos preparativos para isso, me escolheram, eu como da liderança do, onde eu moro é por setor, é o setor um, dois, três, quatro, cinco e seis. O setor seis é lá perto da torre, o três é ali subindo Rua São Paulo, o dois é o meu, o um fica ali para banda da Emhap, por ali subindo do núcleo, já pegando a Rua São Paulo. Então, cada setor tinha que ter uma pessoa para liderar, na liderança. O Jorge é lá onde ele, da Corina Maggini, então eram seis pessoas incluídas nessa urbanização e o público que escolheu até lá na EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil] Luiz Gonzaga e eu fui uma das escolhidas, só que é muito pesado para você fazer isso, você não agrada ninguém, eu como tenho temperamento meio, sabe assim, de querer tudo, então eu reclamo, eu não tenho medo de chegar e falar: “Está errado.” Pode ser com uma criança, pode ser com adulto e se a mãe tiver perto eu digo: “Corrige.” O meu erro é esse, que eu não engulo as coisas, se a mãe está perto, está jogando lixo, muitas vezes eu cheguei nesse ponto: “Vamos educar, não vamos jogar isso no meio da rua.” Trabalhei muito com o pessoal da Semasa também sobre as lixeiras, colocar, da urbanização, muitas coisas ali foram, participei de muitas reuniões mesmo, apesar que houve uma boa melhora? Teve. Precisa ainda mais? Precisa, precisa porque o que eu quero dentro do núcleo ainda não consegui, são orientadores ambientais. Porque o que está precisando ali só é isso, para lidar com o público ainda, para chegar aonde eu fizer uma reclamação, ter, porque hoje em dia você não sabe a quem vai fazer uma reclamação, você entende, não tem mais reunião, não tem mais nada, nós não temos uma, o Jorge até pensou nisso, ele vai te falar melhor, que nós não temos associação, tem a do Jacinto, mas não é nossa, é da Emhap, cada setor tem que ter o seu. Da Emhap é do pessoal da Emhap, é para isso porque, como eles falaram uma vez, eles ajudaram a construir aquela associação, agora, do núcleo mesmo nós não temos, a única pessoa ainda que entra em contato conosco é o Jorge, o Jorge é o que mexe com isso,  então nós não temos.



P/1 – Dona Leda, explica um pouquinho para nós que não conhecemos, o que significa exatamente o núcleo. Tem divisão, tudo isso é Capuava? Conte-nos um pouco, nos explique essa divisão.



R – É, o núcleo, ele é dividido entre a parte da Emhap, foram os primeiros que foram  construídos ali da urbanização, depois vem a parte da, que chama do núcleo mesmo, que é a favela, que se fala, e vem a parte do terreno próprio, que é um pedaço muito pequeno ali onde eu moro, vem de uma esquina a outra, que é de outra família, que ali é Maria Franco, Alzira Franco, que é o da Emhap. A parte que é da prefeitura e a parte que é de outro dono que é o Milton Machine, que é onde eu moro, que é essa pequena parte, está na mão da justiça para nós ganharmos a escritura, a nossa parte, o resto é um contrato de 90 a 90 anos que a Prefeitura fala, e os outro é tudo contrato pela Emhap, tem essa divisão que vai ter e as casinha também que é mesmo da Emhap, construído por elas, tem essa divisão sim.



P/1 – Dona Leda, eu vou começar a encaminhar a entrevista para uma parte mais final, eu queria que a senhora nos contasse, se a senhora puder escolher, uma história marcante desse seu tempo de Capuava, alguma coisa que tenha ficado muito forte com você, uma conquista, conte-nos.



R – Uma história, ai meu Deus, acho que a conquista é mais fácil.



P/1 – Pode ser.



R – A conquista foi nós conseguirmos toda essa urbanização, certo, nós conseguirmos conquistar o direito de ter a nossa casa própria. A conquista para mim foi ótima, maravilhoso e ter dentro do núcleo creche, essas coisa, foi uma conquista muito boa. Só ainda faltando conquistar o posto de saúde dentro do núcleo e também muitas coisas para crianças, que nós ali não temos nada, não tem nem onde uma criança brincar, mas essa conquista ainda vai chegar e vai ser rápido, se Deus quiser. Então isso eu conquistei muito, o direito de nós termos tudo ali que nós temos, que nós temos loja, nós temos farmácia, foi uma conquista que eu não esperava isso, te juro, eu nunca esperei nada disso do núcleo, era muito devagar, hoje em dia você olha, tem de tudo ali dentro, então já é uma conquista, muito, muita coisa.



P/1 – E o que significa para a senhora morar em Capuava?



R – Significa muito porque eu não, eu não tenho coragem de trocar Capuava por outro lugar, porque ali tudo é mais fácil para mim, perto do centro, tudo, tudo ali, sempre, e onde meus filhos, bem dizer, nasceram, perto de muitas firmas, significa para mim vantagem, muita vantagem, tudo ser mais fácil, tem gente que gostaria até de mudar para Capuava, porque é perto de firma, é perto de tudo, para mim hoje é ótimo.



P/1 – E qual foi o maior desafio da senhora durante todo esse tempo, o que foi mais difícil de lidar?



R – O mais difícil de lidar foi lutar pela essa urbanização, isso foi difícil. Foram muitos e muitos, conquista nossa lutando com a participativa do PT, ali nós lutamos muito mesmo, pedimos e, foi o mais difícil, que nós não pensávamos em chegar onde estamos hoje, porque foi pesado ali, esperar, esperar, ver tudo ali que você olhava, tudo barraco, tudo. Hoje eu olho que conquista ver tudo bonito, ainda não está, mas já está chegando a isso. 



P/1 – E antes de começar o processo de urbanização, quando vocês estavam lutando por ele, a senhora lembra como vocês se organizaram? Como que vocês foram lá atrás, tem alguma história desse período?



R – Tem, as participações nas, tudo começou nessa urbanização quando ali onde são as casinhas hoje em dia, houve uma confusão muito grande, derrubaram todos os barracos, mandaram derrubar todos os barracos que estavam ali, subindo a Ayrton Senna. Ali foi gente desmaiando, foi gente perdendo as suas coisas, o Jorge sabe bem te contar isso, foi horrível ali, todo mundo ficou na rua, não tinha onde, não tinha.



P/1 – Nós estávamos falando da luta pela urbanização, dos barraquinhos que tinham sido demolidos, da confusão.



R – Todo mundo ali ficou sem saber onde morar, teve gente que se acabou no meio da rua, gente que perdeu geladeira, perdeu tudo, os tratores passaram por cima, foi horrível, gente, horrível mesmo. Isso ficou marcado até hoje para nós todos, não foi a nossa parte, foi a parte de cima, o que aconteceu? Nesse tempo onde o PT entrou lá dentro, o finado Celso Daniel, e nos deu uma força medonha, nossa, ele veio com tudo, mandou parar e ali já foi começando a se interessar pela urbanização, foi onde nós entramos e pedimos tudo isso que nós estamos tendo hoje. Foram 12 anos, ele lá, e os 12 anos nós adquirimos tudo isso, agora está tudo parado, gente, pelo amor de Deus, tudo parado, tudo parado.



P/1 – Dona Leda, pensando já em todas as suas conquistas, em todo esse tempo, o que a senhora espera para o futuro da comunidade, quais são seus sonhos para Capuava?



R – Meu sonho mesmo é quando eu vir muita quadra de esporte, as pessoas terem uma, um período de aula integral para tirar todas essas criançada das mães que não podem trabalhar o dia inteiro e deixar os filhos jogado, certo. Enquanto eu não ver uma escola integral em cada escola nos bairros, tendo os seus horários, atividade para as crianças, quando eu ver tudo isso realizado, as criança terem onde ficar o dia inteiro para não ficarem na rua. Eu acho que nós conseguimos bastante coisa daquilo que nós queríamos, só isso que está precisando mais ali, esporte, educação para as crianças e para os pais também, porque tem muitos pais que a criança aprende na escola, mas quando chega em casa desaprende, porque a mãe não está nem aí. Então eu acho que tem que ter aquela consciência de trazer para os filhos e para mãe, ou, digamos, ou um orientador ambiental para tudo ali, tanto para criança ter, digamos, uma sede que você chega e se informa: “Como é que isso aqui? Vamos fazer isso para ver se dá certo.” Trazer mais pessoas até mesmo para formar uma sociedade, uma associação para moradores para nós termos onde recorrer, que nós não temos, estamos só esperando isso.



P/1 – E a senhora falou do meio ambiente, dessa importância, fale-nos um pouquinho dessa coisa de conscientizar as pessoas de lixo, assim, de mudar a cabeça das pessoas. Como que é na região, como que foi antes da urbanização, depois?



R – Olha, para ser sincera está quase a mesma coisa, porque pode ter urbanizado as pessoas, mas as mentes delas estão do mesmo jeito, começando pelas coleta de lixo, e olha que não é falta de aviso, precisamos o que? Levar até a comunidade pessoas para fazer visita aos aterros sanitários, não só eu que sou da, digamos, sou da liderança, eu faço, participo da prefeitura, alguma coisa, porque eu já sei, precisamos dos outros moradores, porque indo lá e vendo como está a situação dos aterros, talvez nós adquiríssemos alguma coisa para as famílias terem: “Poxa, o que eu vou colocar nessa sacola de lixo aqui para ir paro aterro eu posso tirar, aproveitar para dar a uma pessoa que vai precisar mais tarde.” Isso nós não temos, outra coisa também, até quando levar, uma caixa de leite aonde eu vou colocar, eu mesmo tô sem saber, aonde eu vou colocar uma caixa de leite que eu esvazio na minha casa, vai para o lixo, aquilo me corta muito, porque nós não temo orientação onde deixar, esses copinhos de Danone ninguém recebe na reciclagem. Então nós colocamos no lixo, mas não temos orientação, óleo de comida, eu junto, está lá tudo cheio para dar às pessoas para fazer sabão e aquelas outra aonde vai? Então, isso que nós queremos, um educador para começar a passar orientação para nós, mas não temos isso lá.



P/1 – Só vou fazer mais três perguntinhas para a senhora, primeiro eu queria saber se a senhora vai de vez em quando para Fortaleza, a senhora visita a sua cidade natal?



R – Faz uns quatro anos que eu não vou, estou pretendendo ir esse ano, inclusive eu estava para ir mês de agosto do ano passado para, um acidente que aconteceu com o pai dos meus filhos, mas não deu por causa da guarda desse menino, não dava para levar ele, mas minhas duas filhas foram e eu não, agora em dezembro eu estou fazendo os planozinhos para eu dar uma viajada com ele.



P/1 – Como que é quando a senhora volta, as vezes que a senhora voltou?



R – É uma alegria quando eu chego aqui, mas é uma tristeza porque eu deixo lá, tenho uma filha, duas netas, ainda tenho família lá, minha mãe mora aqui perto, mas ainda tem, mas são as praias, as coisas de lá.



P/1 – Dona Leda, eu esqueci de perguntar para a senhora, deixa eu perguntar, a senhora tem um auxílio acidente, a senhora sofreu algum acidente?



R – Sofri trabalhando na distribuidora de bebidas Belco, ficava aqui na Avenida das Nações. Trabalhava de limpeza lá e na hora que eu fui abrir uma torneira, que eu tava na parte de cima, ia me agachar para, aí eu caí e quebrei esse braço e até hoje tenho dois pinos aqui, depois de muito tempo foi que eu fiz a cirurgia, ficou desgastando, desgastando, nesse pedaço aqui. Então eu recebo um seguro acidente, um auxílio acidente de 380 reais, agora esperando fazer os 60 para eu me aposentar.



P/1 – Dona Leda, agora conta o que a senhora acha desse projeto, de nós fazermos a história do bairro escutando a história dos moradores.



R – Acho importante, porque é uma história que nunca deve morrer, e se nós não fizermos isso, isso vai morrer porque hoje em dia, com a história do computador, dessas coisas toda, a nossa imagem de história e de museu quase ninguém visita, porque tudo é fácil no computador, vai lá, puxa tudo, e a nossa história de vida estando garantida lá dentro vai passar de pai para filho, para neto, bisneto e vai continuando. É como, digamos, é como eu vou contar a minha história de vida e vão colocar dentro de uma garrafa, como tem muitos aí na televisão, e jogar dentro no rio, alguém lá na frente vai ler ela, você entendeu, é assim que eu penso.



P/1 – E como que foi para senhora então contar a sua história aqui, sentar na cadeira?



R – Agora que eu tô relaxando porque está no final, mas foi muito bom, muito bom mesmo, espero que tenha agradado.



P/1 – E tem mais alguma coisa que a senhora queira nos contar, acrescentar?



R – Não, não tenho, não.



P/1 – Então, Dona Leda, em nome do nosso projeto da Braskem e do Museu eu agradeço muito de novo a participação da senhora.



P/2 – Obrigada.



R – Eu que agradeço, espero que eu tenha ajudado em alguma coisa.



--- FIM DA ENTREVISTA ---




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