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História de: Daniela Campos de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/05/2011

Sinopse

Infância no Brooklin, São Paulo. Educação básica no Instituto de Educação Beatíssima Virgem Maria. Mudança para uma escola estadual. Início da carreira na área da Educação. Curso de Magistério e faculdade de Pedagogia na PUC. Trajetória como professora e ingresso na Escola Cidade Jardim/PlayPen. Casamento e maternidade. Trabalho na administração escolar e atividades extracurriculares da PlayPen. Conquistas pessoais e profissionais.

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História completa

P/1 – Daniela, então para começar...

 

R – Estou me sentindo na Globo (risos).

 

P/1 – (risos) Queria agradecer a sua presença aqui no Museu, e para você repetir pra gente o seu nome completo, o local e a data de nascimento... 

 

R – Daniela Campos de Almeida, eu nasci em São Paulo, no dia 25 de julho de 1970.

 

P/1 – Certo. E qual é o nome dos seus pais?

 

R – José Luiz Campos de Almeida e Maria Ecilda Campos de Almeida.

 

P/1 – E você sabe de onde eles são?

 

R – A minha mãe nasceu aqui em São Paulo e o meu pai nasceu no interior, em Araraquara.

 

P/1 – E como é que eles se conheceram, você sabe?

 

R – Eles se conheceram... – Se não me falha a memória, né? – Eles se conheceram em uma festa, na casa da minha mãe. A minha mãe é de uma família grande, de muitos irmãos. E sempre foi uma casa que foi muito festiva, assim, com muitas festas. E meu pai... Acho que foi em uma dessas festas, eles acabaram se conhecendo e aí começaram a namorar e casaram.

 

P/1 – E qual é a atividade deles, o que eles fazem?

 

R – Meu pai é cirurgião dentista e a minha mãe é professora.

 

P/1 – E ela é professora de quê? De alguma turma, de...?

 

R – Hoje em dia ela está aposentada, né? Mas ela sempre foi do Ensino Fundamental. Ela sempre trabalhou em escola do Estado.

 

P/1 – E você sabe dos seus avôs? O nome deles? Um pouco da origem da família?

 

R – A família da minha mãe é... Na verdade, o meu avô é italiano, né, o nome dele era Walter, ele era médico. A mãe da minha mãe chamava Ecilda. Ela nunca teve uma profissão. Ela estudou, e como eram muitos filhos, ela ficou sendo “do lar”, né? Mas ela era de uma família francesa. E do lado do meu pai; era José o nome, ele era médico também. E a minha vó, (Horavia?), e também estudou, mas nunca trabalhou. E eles sempre moraram no interior, em Araraquara e tinham fazendas, enfim, viviam lá.

 

P/1 – Certo. E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho duas irmãs. As duas são advogadas. Tem uma que é a Andréa, ela é... Nem um ano, onze meses de diferença entre eu e ela, a gente fica quinze dias com a mesma idade. Ela é casada, tem duas filhas, a Beatriz e a Lara. E o marido dela do primeiro casamento tem outra filha, que se chama Marina, que praticamente mora com ela. E a Renata, é advogada, trabalha junto com a Andréa. Elas são sócias no escritório. Namora há muito tempo e vai casar no ano que vem.

 

P/1 – Olha só! E você está em que altura nessa escadinha?

 

R – Eu sou a do meio.

 

P/1 – A do meio?

 

R – É, tem a Andréa, a Renata tem trinta e cinco e eu tenho quarenta.

 

P/1 – Certo. E como é que foi a infância de vocês em São Paulo? Em que bairro você morava?

 

R – A gente sempre morou no Brooklin. A gente mudou de casa uma vez só, né? Quando nós nascemos, a gente morava em uma casa ali no Brooklin mesmo, em uma ruazinha assim... Uma infância de rua, naquele tempo que dava para se brincar na rua, né? Ficar à noite com os amigos. Tinha muita criança que ficava ali fora. E, quando a Renata nasceu, depois de cinco anos mais ou menos, a gente mudou para outra casa ali mesmo e... E a gente tinha muitos amigos, né? Ali em volta, nas ruas, né? Ali perto. E... A gente sempre ficava... Saía, assim... Meus pais sempre foram muito amigos dos nossos amigos, então a gente tinha liberdade, às vezes, para sair com eles. Às vezes, tinha um ou outro que era mais velho, que já tinha carro, então meu pai sabia quem é que era, né, já conhecia. Então para gente sempre foi muito tranquilo isso. Eles ficavam muito dentro da minha casa, então, a nossa infância e o começo da adolescência, assim, foi bem tranquilo.

 

P/1 – E do que é que você gostava de brincar?

 

R – Na infância? Ah, brincadeira de rua. Eu ficava muito assim... Não tinha muito esse negócio de brincar de casinha e de boneca, a gente brincava muito assim, de bola, na rua, aquela mãe da rua, esconde-esconde, alerta, sabe? Mais brincadeira de bola e... E daí com o tempo vai mudando né, aí você vai ficando mais velha. Daí começa a... Continuar na rua, mas não mais brincando, e sim conversando, né? Então, eu, quando tinha dezesseis; de quinze para dezesseis anos, eu já comecei a trabalhar como auxiliar em uma escola, né? Então eu já trabalhava assim meio período e estudava outro meio período. E quando eu tinha dezesseis anos eu já comecei a namorar, né? Então... Eu namorei dos dezesseis aos vinte e um. Então para mim limitou essas saídas, o conhecer... Então, para mim, eu sempre fui de uma vida mais tranquila, assim...

 

P/1 – E como é que era o cotidiano na casa de vocês? Quem que morava? Como é que vocês sentavam à mesa? Vocês sempre jantavam juntos...?

 

R – Sempre! A gente... Era uma coisa que os meus pais sempre fizeram questão, da família... Durante o dia, como cada um tinha um horário, então à noite a gente fazia refeição juntos, nós cinco, independente... Eles não abriam mão disso. Às vezes, tinha novela para assistir, e era aquele horário do jantar, e ele falava: “Não, vamos jantar todo mundo juntos. Que é o único momento em que a família se reúne, e tal”. Mas a gente sempre ficou assim muito junto, a gente sempre se deu muito bem. Nós, com o meu pai e com a minha mãe, e nós três também, como irmãs, né? Então, assim, não tinha desavenças, nada disso. Sempre era assim um clima gostoso!

 

P/1 – E da infância, nessa sua... Tem algum fato marcante que você traz com você, que você sempre lembra?

 

R – Na infância? (pausa) Ah, eu lembro muito, assim, eu tinha... Quantos anos? Ah, que tenha acontecido comigo não. Eu lembro muito quando a minha irmã menor nasceu, né, a Renata. Assim, que eu guardo a lembrança. A minha tia que mora fora veio para ficar comigo e com a minha outra irmã em casa. São coisas que a gente... Eu já tinha uma idade que já lembrava. Ela nasceu em 1975, eu tinha cinco anos. Ela é cinco anos mais velha do que eu. Teve... Acho que teve isso. Uma vez que eu fui passar... Que eu guardo assim, um Carnaval... Eu devia ter o quê? Uns doze anos. Que eu fui para uma cidade de interior também – com uma prima minha – chamada Adamantina, não sei se vocês já ouviram falar. E daí teve um desfile em um desses carros alegóricos, mas que para gente, naquela época, desfilar... Era um momento supergostoso, né? Nesse tempo assim que eu ia muito para o interior! Ah, deixa eu ver o que mais? Foi isso... (pausa) Acho que quando a gente ganha a primeira bicicleta também, né? Vocês se lembram daquela Caloi Ceci? Que era... No Natal todo mundo ganhava, vinha com a cestinha e tal! Aí eu lembro que meu pai fez a maior surpresa, assim, colocou na sala, sabe aquela expectativa? Aí, nós acordamos no dia seguinte, eu e a minha irmã, e as bicicletas lá, iguais, aquela coisa de criança, né? Porque a gente andava muito de bicicleta! Nossa, muito! Uma coisa que hoje em dia é superdifícil, né? Eu vejo pela minha filha. E... Que mais? E tem também, assim, não era uma... Mas as festas de aniversário, assim, até uns seis anos, que eu me lembro... Como a família da minha mãe morava em uma casa muito grande ali na Vila Mariana, então a minha mãe geralmente fazia as festinhas lá. Então... E como eu faço aniversário perto da minha outra irmã, então a gente sempre comemorava meio que junto, então eu lembro dessas festinhas e a minha mãe montando, e tal. Eu tenho boas recordações, assim!

 

 P/1 – E seus avós continuavam morando em Araraquara?

 

R – É, eles moraram bastante tempo, e daí eu não lembro exatamente quando eles vieram para cá. Mas eu acho que, quando o meu pai casou com a minha mãe, eles já estavam aqui. Minha mãe e meu pai, quando é que eles se casaram? Se eles fizeram quarenta anos de casados no ano passado, eles casaram... Em 1968, isso! Eles casaram em 1968, então eles já moravam aqui. Na verdade, desculpe, a minha vó, porque o pai do meu pai faleceu antes dele casar, então ele nem chegou a vir para cá. Agora, a família da minha mãe sempre morou aqui em São Paulo.

 

P/1 – E qual é a primeira lembrança que você tem da escola? Qual a primeira escolinha em que você foi? 

 

R – Ah, tinha uma escola ali do bairro mesmo, que nós fizemos acho que o Jardim e o Pré. Nossa, como é que chamava a escola? Pirilampo, uma coisa... Uma escolinha, assim, uma casinha. A gente... Eu e a Andréa estudamos lá, o Jardim e o Pré. Mas era uma coisa gostosa, eu lembro assim de brincadeiras em salas, de jogos, esses pedagógicos. Eu lembro de coisas que nós fazíamos lá, de pintar parede, sabe, umas coisas assim. Mas foram dois anos só, aí depois eu já fui para uma outra... No primeiro ano eu já fui para escola de freira, ali, chama Beatíssima, não sei se vocês já ouviram falar ali na Avenida Morumbi. Que tinha o Beatíssima e o Meninópolis, um era só de mulher e o outro era só de homem. Então eu estudei a minha vida inteira depois lá.

 

P/1 – E como é que foi essa mudança, sua irmã foi primeiro?

 

R – Foi. A Andréa foi primeiro, depois, no ano seguinte, eu fui para lá. E daí... Gozado, da escola em si, eu não tenho... Nunca foi uma escola que a gente adorasse, assim. Tanto é que eu tenho só uma amiga do tempo de escola, assim, para você ver que não era... Que a gente não gostava muito de estudar lá. Nem eu e nem a minha irmã. Mas naquela época a gente não tinha muita opção, meu pai falava que era lá, e era lá e acabou. E quando terminasse a oitava série a gente poderia escolher para onde a gente quisesse ir, dentro das possibilidades. E eu acho que por ser só de mulher, sabe? Tinham “n” coisinhas assim, que a gente sempre questionava, né? Mas, assim, os professores gostavam muito – isso eu lembro – os professores gostavam muito de mim e da minha irmã, assim né? Tanto é que tem professor até hoje que fala comigo e com ela, eles ligam para conversar com a gente, saber como é que a gente está, se a gente casou... Eles gostavam muito dos meus pais. A gente via que tinha uma relação bacana, assim. Acho que eles viam, assim, o tipo da família, aquela coisa... Eu nunca fui excelente, excelente aluna. De nós todas, eu era a que menos gostava de estudar, então, acho que todos os anos eu passava raspando. Mas eu acho que por eles me conhecerem, meu jeito de ser, ali, pai, mãe, sabe aquela coisa? E eu sempre ia para conselho e acabava passando, porque de comportamento eu sempre fui boa. E a minha outra irmã já gostava um pouco mais de estudar. Mas, assim, o tempo em que estava na escola, o que mais me marcava eram os sábados esportivos assim, sabe? Que tinha jogo contra outras escolas, de handebol, basquete... Eu sempre participei, porque eu sempre gostei muito de esporte. Então, o que eu guardo de lá são essas oportunidades que eu tive, né? Eu acordava cedo no sábado e ia jogar, saía de lá meio-dia, ia para outras escolas jogar. Agora, da escola em si, não! Assim, tem um ou outro professor que eu me lembro, assim, do terceiro ano, que era uma professora que eu gostava muito, Doralice, que sempre ia na minha casa...

 

P/1 – Professora de quê?

 

R – Do terceiro ano.

 

P/1 – Mas de quê...?

 

P/2 – Geral...

 

R – Ela dava tudo, é, ela era geral. Chamava Doralice, ela ia muito em casa, assim, quando tinha aniversário ou quando a gente comemorava alguma coisa. Esse Márcio, que ele dava religião, até no ano passado ele veio... Ele mora no interior... Ele veio para cá e quis marcar um encontro com nós três, para ver como a gente estava. Então a gente saiu uma tarde e foi super... Ele ficou atrás para saber como é que a gente estava. Então eu guardo, assim, isso, e uma amiga que ficou. Assim, não ficou... Eu tinha muito mais amigos, até hoje, da escola da frente, que era onde só tinham os meninos e chamava Meninópolis. Porque no final, na hora da saída todo mundo se encontrava, né? E daí eu tenho amigos de lá até hoje. E tanto eu quanto a minha irmã, entendeu?

 

P/1 – Como é que é que vocês iam para escola?

 

R – Meu pai levava. Levava a gente todos os dias e a gente voltava de ônibus. Assim, no começo, até... Eu não lembro, mas tinha uma época que minha mãe ia buscar, porque não dava para vir, de ônibus, acho que até o quarto ano ela buscava. Acho que depois, quando a gente foi para o Ginásio, a gente começou a voltar de ônibus, tinha um ponto ali perto que parava perto de casa, dava até para ir a pé, se você quisesse. Era uma longa caminhada, mas dava para ir. Mas meu pai levava todos os dias de manhã.

 

P/1 – E você lembra do uniforme? Tinha?

 

R – Tinha (risos). Tinha e tinha que ir certinha. Era aquele azul royal, sabe, aquela listra branca aqui do lado, não sei se vocês lembram... Horroroso! Era camiseta branca, assim, tinha um... Não, não tinha nada! Tinha as letras escritas “Beatíssima”, e tinha aquela saia de prega, azul-marinha, que você só podia usar com aquele sapatinho preto boneca com a meia soquete. E de Educação Física, aquela sainha franzidinha, assim, de ______ (?), sei lá como é que chama aquilo. Que era horrível! Horrível, horrível! Aquele azul royal dava vontade de chorar todo dia. E ficava uma pessoa olhando na porta, que se você não estivesse com uniforme, você tinha que tirar ou você tinha que voltar para casa. Aquela coisa “gostosa”! (risos).

 

P/1 – E como é que era estudar só com meninas?

 

R – Olha, eu nem posso te dizer o contrário, porque eu nunca estudei com homem na sala, por incrível que pareça. Porque, depois, eu saí de lá e fui fazer o Ensino Médio, e os três anos do Ensino Médio eu caí em sala de mulher. Tinha dezoito salas na escola, e três só de mulher; eu consegui cair nessas três. E depois fui fazer Pedagogia e só tinha mulher! (risos). Então eu nunca estudei com homem na sala! Então... Mas não era um problema assim! Eu não via isso como um problema, não. Eu imagino, né? Lógico! Hoje em dia a gente vê, né, homem, mulher e tal. Deve ser bem mais divertido do que só mulher. Porque mulher... Você faz bagunça com mulher e é uma coisa meio sem graça, assim, não tinha muito que... Então, não era um grande problema para mim não, o fato de eu não gostar muito da escola não era porque só tinha mulher. Era do contexto da escola, o pessoal que trabalhava lá... Tinha muita freira, aquelas bem chatas, entendeu? E de vez em quando tinha que ir lá para capelinha rezar, sabe? Aquela coisa... Era uma linha mais severa, assim. Então, qualquer coisa, aquele silêncio no corredor, sabe? Então era disso que a gente reclamava. A gente via amigos que estudavam no Objetivo... Não que a gente quisesse aquilo, mas um meio termo ali. Então para gente não foi... Eu não tive uma lembrança muito boa.

 

P/1 – Você lembra, assim, de algum material que você usava que ficou característico, que você se lembra de ter usado ou guardado por um tempo, que aquilo foi importante...?

 

R – Da escola? Algum material?

 

P/1 – É. Tipo um livro... Ou então alguma coisa que você sempre gostava de ter; a mochila, o estojo...?

 

R – Olha... Do tempo da escola... Acho que eu não tenho nada guardado, nada! Eu tenho um boletim. O boletim está guardado, assim, mas fora esse registro, eu não tenho não, nada. Caderno, apostila ou alguma coisa que eu realizei lá, que falei: “Ah, ficou superbacana, vou guardar”. Não tenho não. 

 

P/1 – Você se lembra de alguma história que vocês leram, ou que as professoras contaram?

 

R – Não. Não tenho, assim, de história, teatro... Não tenho assim... Nunca... Não, tsc, tsc, tsc. 

 

P/1 – E, durante os recreios, o que é que vocês faziam?

 

R – Ah, a gente jogava. Porque tinha quadra, e tinha um grupo de amigas que gostavam de jogar ali, porque nós éramos esportivas, esportistas. Ou a gente ficava conversando, assim, fazíamos roda, assim, né? A escola é supergrande, tem aqueles pátios imensos, então a gente ficava lá conversando em roda, ou perto da cantina – tinha cantina! Mas só isso, assim, de ficar conversando ou jogando, assim, mais nada.

 

P/1 – E ficava só um período na escola?

 

R – Só meio período.

 

P/1 – E como é que era o cotidiano? O que é que você fazia de tarde, tinha outras atividades?

 

R – Então, a gente estudava de manhã, aí à tarde a gente fazia esporte, quase todas as tardes, por um tempo. Tinha um clube que a gente era... Primeiro a gente fez naquele do Círculo Militar, ali perto, acho que ali no Ibirapuera. Aí eu lembro que minha mãe nos deixava... E depois ia buscar no final da tarde. Que tinha iniciação esportiva, depois balé, ginástica rítmica. Então eu lembro que a gente passava de duas a três horas lá. Aí depois nós íamos para casa para fazer lição, né? E depois de um tempo a gente parou de ir, porque acho que a gente foi crescendo e tal; a gente não quis mais. Aí a gente ficou sócia do Clube São Paulo, que nós íamos de vez em quando. E daí a rotina... Nós íamos para escola, e à tarde sempre tinha ou esporte lá no São Paulo ou em academia ali no bairro mesmo, de ginástica. Eu sempre fiz muita ginástica em academia, minha outra irmã não, ela fazia aula de violão, ela fazia outras coisas. Eu não fazia não, só praticava esporte, assim, depois da escola. 

 

P/1 – E depois, quando você passou para o Fundamental dois, que tem mais matérias, você lembra de ter sentido alguma diferença, de ter mais professores?

 

R – Ah, é sempre uma novidade, né? Ainda mais que eu mudei de escola. Tem uma escola ali no bairro, que até é do Estado, que chama Oswaldo Aranha, não sei se vocês já ouviram falar, ali na Avenida Portugal. Na época, era uma escola muito boa, e quase todos os nossos amigos estudavam lá. E eu lembro que foi uma luta para o meu pai deixar a gente sair do Beatíssima para ir para uma escola do Estado, assim, né? Ele não via... E daí, de tanto que nós insistimos, ele deixou. Desde que fosse no período da manhã, que ia fazer um teste, enfim, nós fomos, eu e a Andréa. A Andréa acabou terminando lá, eu fiz só o primeiro ano, porque depois eu quis fazer o Magistério e lá não tinha. E na mesma rua tinha outra escola, chamava Ennio Voss, não sei se vocês já ouviram falar também. Era uma superboa também, do Estado. Essas que você tinha boa... Naquele tempo, né? Hoje em dia eu não sei como é que está. E eu acabei indo estudar lá, que era na mesma rua, porque eu fui fazer o Magistério e só tinha lá, que eram quatro anos. E aí, desse tempo eu... Na verdade, assim, o primeiro ano que eu fiz nesse Oswaldo Aranha; como era só colegial, então só tinha pessoas mais velhas, né? Então as pessoas, os professores, o andamento da escola era mais bacana! Quando eu fui fazer o Magistério nessa outra escola, tinha desde o primeiro ano. Aí muda um pouco o foco da escola, né, porque aí recreio era todo mundo misturado, aquela coisa... É... Mas aí eu terminei lá. Nessa época eu já namorava, então para mim era super... Eu ia para escola, fazia o que tinha que fazer, e voltava para casa, sabe aquela coisa? Então... Mas os professores eram superbacanas! Eu tenho amigas desse tempo que eu fiz o Magistério, e que depois por uma razão ou outra, a gente se distanciou e acabamos nos encontrando na faculdade, depois de dois anos, sabe aquela coisa? Cada um estudava em um período, depois acabava todo mundo passando para o período da noite, e aí acabei encontrando uma ou outra. Mas para mim foi tranquilo. Mas o que eu guardo mesmo, que foi bacana, foi quando eu fui para o Oswaldo Aranha, que era homem e mulher e era todo mundo mais velho. Ah, muda completamente, né, de um colégio de freira ir para um do Estado! Então... E lá a gente conhecia muita gente também, né? Além dos nossos amigos que estudavam lá, a gente fez muita amizade lá! A minha irmã... Tanto fez tanta amizade que fez formatura, teve festa, sabe aquela coisa? E eu nem fiz assim, porque era só mulher de novo, aquele grupinho querendo fazer formatura... Eu falei: “Ai, não! Tô fora, vou prestar faculdade...”. Então foi uma coisa assim, eu não tive formatura porque eu não quis, porque eu não participei, sabe aquela coisa? Então foi uma opção minha, na época.

 

P/1 – E deixa eu voltar um pouquinho. Na época da escola tinha uma matéria que você gostava mais, que você se dedicava, achava mais bacana?

 

R – Ah, eu sempre gostei de Português, né? Era uma matéria que eu gostava, que eu ia bem. Artes eu também gostava. E... E só, assim. Que fossem marcantes, né? Tinha Química e tal, mas quando eu fiz no primeiro ano. Depois, quando eu mudei para o Magistério tem algumas matérias que você deixa de ter pela opção que você fez. E tinha aquela aula de Didática, não sei... Acho que era esse o nome, né? Que você aprendia uns conceitos para ser professora, sei lá, enfim. Acho que era Didática o nome da aula, que era com uma professora que eu também gostava. Tinha muito trabalho em grupo, então eu lembro que eu gostava. Chamava até... Odila era o nome da professora. E era uma aula supermovimentada, você fazia um monte de coisas, não ficava aquela coisa sentada, lendo. Então dela eu me lembro bastante, da aula.

 

P/1 – E de quando você era pequena, você se lembra se você tinha em mente alguma coisa que você queria fazer quando crescesse, se você já tinha um plano, assim?

 

R – É, eu acho até que pela minha mãe ser professora, eu sempre tive uma vontade de ser professora, né? Então, eu lembro que quando eu estudava nesse colégio, o Beatíssima, de freira, de vez em quando eu ficava à tarde na escola, eu ficava ajudando as professoras da Educação Infantil. Tinha uma professora que era muito amiga da minha família, que dava aula lá, e às vezes, de tarde, ela pedia para eu ficar com ela para ajudar lá na sala de aula. Então, quando criança eu sempre gostei muito, assim, de dar aula! Então acho que isso sempre foi muito bem resolvido na minha vida. Acho até que um pouco por influência da minha mãe, né, então um pouco eu já sabia o que era. Então foi isso que eu sempre pensei em fazer. Aí eu fui fazendo o Magistério, gostei. Tanto é que eu comecei sem ser Magistério, aí eu passei para o Magistério, e eu vi que era isso mesmo que eu queria! Nesse tempo eu já trabalhava como auxiliar em uma escola, depois fui para outra escola nesse tempo também, mudei de uma escola e fui para outra. Aí nessa outra eu já trabalhei dez anos. Porque eu gostava. Aí eu já fui engrenando, acho que as coisas foram aparecendo, e quando eu prestei vestibular e entrei em Pedagogia e Psicologia. Aí eu optei pela Pedagogia. Acho que uma coisa foi levando à outra, né, eu gostar... E acho que as coisas foram aparecendo e tomando um rumo, e como eu já era auxiliar, essas coisas, então eu acho que isso até foi um... Para eu chegar na PlayPen, quando cheguei na PlayPen mudou um pouco a história. 

 

P/1 – Deixa eu só... Que eu fiquei curiosa. A sua mãe levava as coisas para fazer em casa? Prova? Como é que você via isso?

 

R – Eu ficava sempre com ela ajudando a passar as coisas no diário. Naquele tempo não tinha computador, tinha que usar aquela folha... como é que chamava? Com estêncil, lá... Que você copiava e saía do outro lado...?

 

P/1 – Carbono.

 

P/2 – Carbono?

 

R – Carbono, né?! Que no meu tempo tinha outro nome. Então eu lembro que ela ficava passando, porque eram várias cópias, sei lá. E daí eu ajudava, porque eu já tinha letra... Aquela letra de professora! De caligrafia! Fiz tanta caligrafia que eu tinha aquela letra redondinha. Então eu ficava muito com ela, assim. Ou passando a nota, ou corrigindo com lápis, falava: “Mãe, deixa eu corrigir?”. Então ficava muito com ela, assim, nesse sentido.

 

P/1 – E você se lembra dela contando histórias de como era para ela dar aula?

 

R – Olha, ela sempre gostou muito, assim, ela sempre contou... Sempre comentava como era o dia a dia, né? Porque dar aula no Estado nunca foi uma coisa muito fácil. Ainda mais que ela começou com primeiro ano, depois pegou terceiro, quarto, né? Era uma coisa que exigia, exige muito ali, a aula no Estado, que são muitos alunos, então... Ela sempre falava: “Lá nunca dá para fazer nada, tem que fazer sempre em casa, porque eles não param um minuto e você tinha que levar tudo pronto”, né? Então... E como a gente morava ali no bairro, no mesmo lugar que ela dava aula, então vira e mexe tinha um ou outro aluno que aparecia por lá para falar com ela, tocava a campainha e tal. Então eram relatos, assim, do dia a dia, alguma coisa que acontecia, ou ela comentava. Mas era uma coisa que ela gostava muito também de fazer! E era bom. Ela sempre gostou. Uma época ela deu, daí ela parou de dar aula. Foi quando eu e a minha irmã nascemos. E como a gente nasceu muito perto, ficou inviável na época para ela voltar a trabalhar. Aí ela só voltou quando a Renata – minha outra irmã menor – nasceu, acho que quando ela tinha o quê? Uns dois, três anos; aí ela voltou a trabalhar. Ela ficou um período desligada, e aí ela voltou.

 

P/1 – E você estava falando que optou pelo Magistério. Como é que foi a reação na sua casa? Eles tinham alguma pretensão que você seguisse algum tipo de carreira?

 

R – Não, sempre foi supertranquilo. Meu pai sempre quis que uma de nós fosse cirurgiã dentista (risos), mas ninguém foi seguir a carreira dele. Ele nunca se opôs a isso, assim, mas a gente via que ele tinha um desejo de que alguém seguisse a carreira dele. Mas, desde o princípio, para ele foi claro que ninguém seguiria isso, né? Então, lá sempre foi muito à vontade para o que cada uma quisesse né? Para mim foi muito rápido, para Andréa, minha irmã mais velha, foi. A Renata que ficou um pouco perdida por um tempo. Eu acho que hoje ela é advogada, assim, até não por uma opção dela; ela levou um tempo para perceber o que queria. Aí ela fez a faculdade, e no meio da faculdade não sabia se era isso que queria. Aí ela ficou um tempo sem seguir a carreira, e foi prestar a OAB. Então, é a que eu acho que demorou um pouco, e foi mais porque ela começou a ficar mais velha, sem muita opção, entendeu? Aí a gente falou: “Escuta, alguma coisa você tem que fazer!”. Mas hoje eu acho que ela é superfeliz! Mas eu acho que o dela não foi de livre e espontânea... Acho que teve que ter um empurrãozinho da família. Agora, eu e a Andréa não. Foi uma coisa que veio com o tempo, conversando, eles já sabiam... Foi tranquilo.

 

P/1 – E como é que eram as aulas no Magistério?

 

R – Do Magistério? Ah, assim, que eu me lembre, tinha muita aula, muito trabalho em grupo, muita aula expositiva em que você tinha que falar, muita troca, né? É... Acho que a gente trabalhava mais em grupo do que individualmente, que eu me lembre. Eu lembro que tinha que me reunir fora, ou chegar mais cedo na escola, para apresentar trabalho. E não era uma coisa assim, individual, só você. Lembro muito das aulas de Artes, assim... Dessa aula, que eu acho que chamava Didática, que já começava essa preparação para você ingressar como professora nas primeiras séries iniciais. De fichas, de o que é que você tinha que ensinar para as crianças. Sabe essa noção de...? Então, eu gostava muito dessas aulas de preparação, de preparar o material, porque aí você preparava uma apostila para entregar para professora; se aquilo tinha a ver com o objetivo, se os exercícios que você estava propondo tinha a ver com a proposta. Então, dessas aulas assim... Mas, eu gostava mesmo era de trabalhar! E aí, eu acho que quando foi no último ano do Magistério eu pedi para ir para noite. Eu fui para noite, porque também já estava mais velha, e aí eu trabalhava o dia inteiro. No último, no quarto ano, na mesma escola. Como eu já tava lá há um tempinho, e surgiu essa oportunidade, aí eu fui. Então, meu último ano eu fiz à noite porque eu já trabalhava o dia inteiro.

 

P/1 – E como é que foi a opção por fazer a faculdade depois do Magistério? Foi logo em seguida?

 

R – Foi logo em seguida. Terminei o Magistério, aí eu fiz... É... Eu não lembro se foi logo em seguida... Eu prestei o vestibular e entrei na faculdade. É, foi isso mesmo. Eu lembro que entrei na PUC, FMU – tinha essas mais conhecidas, PUC, FMU – e qual outra que eu prestei? Enfim... Aí, de cara eu já tinha falado que eu queria a PUC, porque já tinha aquela fama de ser uma faculdade boa, né? Enfim... Até, na época, meu pai falou: “Ah, faz FMU!”. Porque era mais perto de casa, Santo Amaro, sabe aquela coisa? “Tá aqui. Vai lá para Perdizes? Não sei o quê...”. Aí eu falei: “Ah, não, eu quero lá! Eu quero lá”. E aí fui. Acabei indo para lá, e fiz lá todos os anos, à noite, na faculdade. 

 

P/1 – E como é que foi entrar na faculdade, como é que eram as aulas?

 

R – Ah, aí muda mais ainda, né? Completamente. Então... Ainda mais à noite, né? À noite é outro... Eu lembro que tinha amigas que estudavam de manhã, e acho que as aulas eram mais certinhas. Tinha aula todos os dias, não faltava nenhum professor, aquela coisa. Ainda um pouco escola, assim, né? E à noite era mais descontraído, eu sentia que os professores eram mais diferentes, mesmo porque eu acho que o pessoal trabalhava o dia todo, então assim, os trabalhos que tinha que fazer eram todos dentro do espaço de aula, que eles davam para você elaborar. Mesmo porque você tinha que encontrar com colegas fora daquele horário e ficava supercomplicado. Então... Mas, assim, sempre tinha aula, todos os dias. Todo mundo ia, era uma coisa que todo mundo levava realmente a sério, todo dia à noite. Mas eu gostava do jeito que era. Tanto é que uma vez, uma amiga minha foi me encontrar à noite e falou: “Nossa, parece outra faculdade”. Sabe aquela coisa? Porque ela falou: “De manhã todo mundo senta em carteira, uma atrás da outra”, ela contando. Aí depois ela até acabou passando para noite. Mas era um clima, assim, supergostoso! As minhas amigas de hoje são todas assim, da faculdade, que ficaram do tempo que estava todo mundo estudando. Então ficou uma só do Beatíssima, que eu falo, aí do Ennio Voss não ficou nenhuma, nenhuma! Do Oswaldo Aranha, que eu fiz eu tenho quase todos os meus amigos, que eu falo, homem, mulher, eu ainda tenho... E na faculdade eu tenho a Gabriela... A Gabriela coordenadora, eu conheci lá, na faculdade, a gente ficou superamiga! E tinha a Isabela que trabalhava, que já trabalhou lá na PlayPen conosco, que nós somos amigas até hoje. E tem mais duas que nos falamos de vez em quando, somos assim amigas, mas não tão próximo, a gente fala por e-mail, por telefone... Mas as que mais ficaram foram a Gabi, que eu tenho muito contato, e a Isabela, que não trabalha lá, mas a gente fala com ela sempre.

 

P/1 – E nessa época você trabalhava, estudava, e como é que vocês se divertiam? Tinha tempo? Para onde é que vocês iam?

 

R – É, então, na verdade, eu trabalhava o dia inteiro e ia para faculdade à noite. Nessa época eu já tinha saído de uma escola. Trabalhava meio período em uma escola e já tinha ido para outra, que era a Augusto Laranja, que eu trabalhei. Trabalhei lá dez anos. Na primeira vez trabalhei dez anos e na segunda dez anos. E aí ia para faculdade à noite, e namorava aquele menino do primeiro ano, que eu namorei ele um tempão. Então elas não tinham namorado; tinha namorado uma vez ou outra... E eu saía mais com os meus primos que tinham as namoradas. Então eu saía mais sexta-feira, porque durante a semana eu ficava supercansada. Às vezes ele ia, e ficava lá em casa um pouco, porque durante o dia nem dava, né? Porque eu saía, voltava, tomava banho, e ia para faculdade. Ainda mais que era longe, pegava trânsito na marginal e tal. E às vezes ele ia em casa, assim, mas sair a gente saía mais de final de semana e sexta-feira, que era mais tranquilo. E como a gente tinha uma turma muito grande... Então tinha os meus primos, que eu saía, que eles namoravam também. E tinha um grupo de solteiros, assim. Então, muitas vezes quando a gente viajava para praia ia aquela turma grande, sabe aquela turma de praia? No Litoral Norte e tal. Então, a gente sempre foi muito para lá com esses... Casados, não casados, com namorados, sem namorados. Enfim, era uma turma grande. E aí, depois, quando eu terminei com esse meu namorado, eu fiquei uns dois anos sem namorar. Então acho que foi a época que eu mais aproveitei assim, que eu saía. Até, não sei se a Gabriela contou, mas a gente saía muito para esses pagodes da vida, que você se diverte, ia para praia quase todo final de semana, para Maresias. Então acho que foi a época da minha vida que eu mais aproveitei. Porque a maioria das minhas amigas não estava namorando, né? Tinha um monte de amigos homens, que a gente sempre teve muito mais amigo homem do que mulher. Então todo mundo ia para praia de fim de semana, então foi uma época muito gostosa! E uma época em que o Litoral Norte não estava ainda tão cheio de gente, não tinha shopping, não tinha nada disso! Ainda eram aquelas estradinhas de terra. Então esse tempo, para mim, foi o melhor da minha vida! Eu vou para lá hoje em dia e falo: “Meu Deus, que pena que acabou”! Sabe? Porque as pessoas vão tomando seus rumos, casando, uns ficam, uns vão, outra turma, aí... Ficaram alguns, mas esses encontros, essas coisas de final de semana vão perdendo, né? Alguns separaram, eu também separei depois que eu me casei. Aí vai dificultando. Não que você não fale, mas você conhece outro grupo de amigos, sai... É... Não dá para reunir todo mundo, né, mesmo porque não combina ali e tal... Eu ainda falo com muitos deles, de vez em quando eu saio, mas não é aquela coisa mais de toda hora, de todo final de semana... Entendeu? De viagem juntos... Mas essa época foi bem bacana!

 

P/1 – E vamos falar um pouquinho da parte da faculdade: tinha algum professor marcante? Alguma linha pedagógica que você conheceu e estudava mais? Que você achava...?

 

R – Olha, professor... Tinha uma professora que a gente gostava... Que era assim, era mais... Que para mim ficou mais marcante, que era a Maria Emília. Que era uma aula supergostosa, que passava super-rápido, uma pessoa que falava e envolvia as pessoas, né? Com o conteúdo de sala de aula, enfim... Que ninguém queria faltar, sabe? Aquela aula que todo mundo queria estar presente. Às vezes ela não ia, e ficava todo mundo superchateado. E eu gostava muito dela, assim, eu acho que eu aprendi muito! Se não me engano, ela dava aula de Metodologia do Estudo, acho que era esse o nome... E... Foi aí que a gente ficou conhecendo a Emilia Ferreiro, Piaget... Daí, acho que vieram todos esses conhecimentos, né, Construtivismo e tal. Então o foco maior para mim ficou nela, dessa matéria, de aprendizagem mesmo. Ela dava palestras fora, ela convidava sempre a gente para ir, nós íamos, às vezes era até dentro do horário de aula dela, marcava em outro lugar. Às vezes fazia visitas em outras escolas, marcava, e nós íamos... Assim, final do dia, nós íamos, para conhecer. Tinha alguns trabalhos que ela pedia para gente realizar, de curso, que você tinha que passar por várias escolas de diferentes metodologias... Então acho que tudo isso que é na prática, você aprende melhor do que ficar ali, né? Então, eu lembro que era uma aula supermovimentada, que tinha muita participação das pessoas. As outras eram mais tranquilas. Eu lembro que a dela foi, para mim, a que marcou mais, assim. Que a gente levava mais a sério, e fazia... Sabe? Na boa, porque era gostoso. “Vamos entregar”. E ela deixava também super à vontade, perguntava, dava telefone da casa, sabe aquela coisa? Bem familiar. Tanto é que, no fechamento, ela convidou os alunos para um jantar na casa dela. Então ela era superbacana! Então eu me lembro muito dela na faculdade. Depois eu me encontrei com ela fora da faculdade! E de vez em quando ouço falar dela por aí, ela está sempre na PUC dando palestras e tal.

 

P/1 – E você falou que começou a trabalhar bem novinha, como é que foi a decisão de começar a trabalhar? Você lembra como é que foi, como é que foram seus primeiros dias de trabalho?

 

R – Então, eu fui porque tinha uma amiga minha, que era um ano mais velha, ela também fazia Magistério... Não fazia Magistério, mas assim... Não, já estava no Magistério. Ela começou a fazer o Magistério, e trabalhava ali em uma escola que chamava Pequenópolis, que acho que nem existe mais. E ela falou para mim: “Ai, Dani, estão precisando de auxiliar, você não quer ir trabalhar?”. Aí eu conversei com meus pais, porque eu tinha quinze anos! E aí... Na hora eles falaram: “Olha, faz uma experiência, né? Se você conseguir conciliar as duas coisas e tal... Eu acho que para profissão que você escolheu, você ter essa vivência, é superimportante!”. E aí eu fui, e no fim me dei superbem, fiquei lá um ano só, nessa escola. Porque tinha uma outra escola ali no bairro que era superbacana, superbem procurada. E me chamaram para uma entrevista, e aí eu fui. Aquela coisa de salário, já pagava mais. Aí você já fica empolgada, né? E aí eu fui, trabalhei lá também em meio período, acho que durante dois anos, mais ou menos. E aí, depois ela me ofereceu período integral. Chamava Criem. Era lá na rua Pensilvânia. E aí fiquei lá trabalhando um tempão, trabalhava tempo integral. E aí, foi quando eu entrei na faculdade. Eu continuei lá um ano, e aí pedi para sair meio período, porque o Augusto Laranja me chamou para trabalhar meio período. Acho que vai crescendo, sair da escolinha, aí vai para escola maior, né? Aí eu fui para o Augusto Laranja como auxiliar. Fiquei como auxiliar acho que um ano ou dois, e logo me deram uma sala. E aí, quando me deram sala como professora, eu larguei o Criem e fui trabalhar lá. E aí fiquei de manhã como professora e à tarde como auxiliar, e aí no ano seguinte eles me ofereceram dois períodos para trabalhar como professora.

 

P/1 – E no Criem suas atividades eram com o quê? Educação Infantil?

 

R – Com Educação Infantil, era só Educação Infantil. Eu sempre dei aula para Educação Infantil.

 

P/1 – Aí você tinha turma? Ou era assistente? Quais eram...?

 

R – No Criem eu comecei como assistente, passei por todos os ciclos: Maternal, Jardim um, Jardim dois e Pré. E aí, quando eu assumi sala, eu sempre foquei em Jardim um e Jardim dois. Então devo ter dado três anos no Jardim um e dois no Jardim dois, que era pré-alfabetização. E quando eu fui para o Augusto Laranja, eu comecei também nessa mesma faixa etária que era Jardim um... Jardim dois, desculpe. E aí me colocaram no Pré, que era alfabetização. Aí fiquei lá também dez anos. Quando eu ia completar dez anos eu pedi demissão, porque a PlayPen já tinha me chamado para trabalhar. Aí eu ainda fiquei um ano no Augusto Laranja, à tarde, e na PlayPen de manhã. Mas aí começou a ficar muito puxado para mim. Primeiro porque a distância era completamente diferente. E aí eu pedi para sair e fiquei na PlayPen meio período.

 

P/1 – Então antes da gente começar a falar da PlayPen, conta um pouquinho como que é o processo de alfabetização, como é que é...? O que é que é ser professora de crianças nessa fase?

 

R – Então, parece que para mim foi superfácil lidar com isso, né? Acho que quando você vem de uma formação... Não foram muitas escolas, foram três, né, até chegar assim, digamos, no Augusto Laranja. Mas muito tempo em cada uma. E eu tive oportunidade, acho, de ir pelos ciclos, né, ir vendo. Então, para mim sempre foi... Eu acho que eu sempre gostei mais da Educação Infantil, esses cinco, seis anos, que alfabetizam, do que das crianças mais velhas. E eu fui descobrir isso depois. Eu acho que no dia a dia, ali, você com a criança, o ensinar a escrever; embora fosse completamente diferente como eu alfabetizo no Augusto Laranja... Porque o método de cartilha, né, com letras, foi bem diferente de quando eu fui para PlayPen, assim, que era outra linha pedagógica. Então ali era o “a” e o “b”, bem aquela coisa do meu tempo, né? Mas para mim era superfácil lidar; essa ligação com a criança, essa paciência que você tem que ter. Acho que eu era uma pessoa muito criativa em sala de aula, e eu via que na linha de ensinar eu fui criando até o meu jeito, né, de ser. Do que eles colocavam como o que tinha que ser, entre aspas. Então as turmas que eu tive, eu consegui... Todas foram alfabetizadas, nenhuma teve problema nesse sentido. Eu estou lembrando das mães, as mães me adoravam. O dia em que eu fui embora de lá... Fiquei lembrando agora de uma mãe falando comigo... Então para mim, sala de aula, o criar, o ensinar, o alfabetizar; eu tinha muitas ideias bacanas! Eu lembro que prendia a atenção das crianças, e que para mim o ensinar era fácil, não era um saco, nada disso! Então para mim foi muito difícil o dia em que eu fui embora de lá. E já conhecia um pouquinho da PlayPen, que não era mais Educação Infantil, ali era primeiro grau. Então para mim ali foi muito difícil. Mas aí a proposta lá da escola para mim era melhor, era uma escola bilíngue, completamente diferente. Então eu também não queria perder essa oportunidade.

 

P/1 – E como é que foi a sensação da primeira turma que você assumiu? A primeira assim, a primeira turma...?

 

R – De professora?

 

P/1 – Enquanto professora.

 

R – Então, foi no Criem. Sempre dá um medo. Acho que no dia a dia, com as crianças, não. Mas a primeira reunião de pais, o que você vai falar, o que eles vão te perguntar... Eu lembro que dava um friozinho na barriga para você se expor. Mas eu sempre... Embora eu não gostasse muito de falar em público, eu sempre me saía muito bem (risos) nas reuniões. Mas o meu primeiro ano é aquela coisa, você faz tudo certinho, você tem aquele pique para fazer tudo, não quer pular nada do planejamento. Faz as coisas com o maior capricho. Então eu acho que a oportunidade do primeiro ano é a mais gostosa. É lógico que depois você vai aprendendo outras coisas, vai relaxando assim: “Ai, é tranquilo, eu dou conta”, né? Então, tanto no Augusto Laranja quanto no Criem, eu tive a sorte de ser muito solicitada quando tinha algum evento ou alguma coisa extra para fazer. Eles sempre me chamavam. E no Augusto Laranja também, por ser uma escola grande, todo mundo me conhecia: “Ah, a Daniela da unidade do Campo Belo”. Quando tinha qualquer coisa eles chamavam, então eles deviam reconhecer o meu trabalho ali dentro, entendeu? E das duas eu saí, assim, supertranquila, uma coisa até contra do que elas queriam, mas as duas sentiram muito. Mas para mim foi de uma forma tranquila. Porque aí eu acho que a gente vai buscando outras coisas, né?

 

P/1 – E você já tinha ouvido falar da PlayPen antes?

 

R – Eu tinha, porque a Isabela, que estudava comigo lá na PUC, já trabalhava na PlayPen, né? Então ela contava um pouco da escola. E a Gabriela uma época foi fazer um estágio lá, esses para conhecer outras escolas. Ela acabou indo na PlayPen, e aí ela falava um pouco o que a Isabela falava: “Ah, uma escola superbacana, supergostoso o jeito de trabalhar, enfim...”. Então... Mas, assim, eu fiquei... Sabe assim, meio desligada? Eu estava tão bem ali no meu cantinho, né? Foi o ano em que eu saí do Augusto Laranja, em 1995... 1995 eu saí de lá. Eu ia casar em 1996. Então para mim em 1995 foi um ano assim, que eu dava aula lá o dia todo, estudava, mas eu estava mais envolvida com o meu casamento, sabe? Aquelas coisas do meu casamento. E aí, nesse ano a Isabela falou para mim... Acho que chegou em meados de junho, ela falou: “Dani, eu não vou mais continuar na PlayPen, porque tá mudando um monte de coisa – ela morava na Zona Norte –, tá muito longe para mim, eu sei que tá precisando de professor, você não quer fazer uma entrevista, tal”?. Aí eu lembro, sabe, na época falei: “Ah, vou né, se for só para uma entrevista, então eu vou, não sei o quê...”. E aí eu lembro que a gente brincava: “Ah, mas quanto vai pagar?”. Aquela coisa de professora, né? (risos). E aí ela falava... Eu falei: “Ah, quase a mesma coisa, mas eu vou para entrevista e tal”. Aí acabei indo em setembro para entrevista, quem me entrevistou foi a Guida. E aí eu lembro que fui, fiquei lá um tempão conversando com ela, assim, e ela falou: “Olha, eu tô entrevistando um monte...”. Ela estava mudando toda a equipe dela porque estava voltando a ter o Fundamental um, porque tinha só Educação Infantil e foi quando ela estava retomando o Fundamental. Ela tinha trocado a coordenadora, que a Ana Maria já tinha ido embora, já tinha entrado a Márcia. A Márcia estava lá há dois, três meses, sei lá. E aí eu falei: “Então tá bom, então qualquer coisa você me liga”. E aí ela me ligou, assim, depois de um mês, falando se eu realmente não gostaria de ir. Porque eu não tinha experiência em Fundamental, a minha vida toda eu trabalhei em Educação Infantil, e ela falou: “Se você acha que é fácil para você...”. Tanto é que eu entrei como professora do primeiro ano, porque era bem perto de alfabetização, né, no Pré, tal. E aí eu fui para lá. E isso foi em 1996... Que eu fui para lá... E aí fiquei lá, e fiquei no Augusto Laranja à tarde, durante dois anos. Durante dois anos eu fiquei assim. Dois anos não... É, dois anos! 1996 e 97. Aí em 1997... Não, peraí... Eu fiquei no Augusto Laranja, eu não saí em 1996, eu saí em 1997, um ano depois que eu casei.

 

P/1 – E como é que foi encontrar aquelas crianças bilíngues em uma escola diferente, para alguém que tinha...?

 

R – Tudo diferente! O primeiro ano foi difícil assim para mim. Mas como toda equipe era nova... Todos! Mesma coisa é começar em uma escola nova, e todo mundo que entrar vai estar no mesmo barco que você. Então... A coordenadora era nova, então estava todo mundo ali acho que aprendendo junto, né? Então, acho que foi meio difícil por um lado, mas por outro você foi construindo com eles também, que estavam ali, aprendendo também né? E acho que quando você gosta da profissão, e está afim de aprender novas coisas, né... Porque aí foi a Márcia que entrou; ela trabalhava com projetos, né, então não tinha livro, não tinha nada. Eram fichas que você criava, o tema que você escolhia dentro dos conteúdos que você tinha que abordar em cada ano. Então, assim, tinha muito trabalho. E num lugar novo, com a coordenadora nova, com os colegas novos... Mas foi muito gostoso, assim, eu acho que a gente foi muito bem acolhida pela Guida, pela própria Márcia. Acho que o tempo que eu fiquei lá, em que ela era coordenadora... Até o tempo em que eu fiquei dando aula, né? Eu acho que foram os anos em que eu mais aprendi. Porque, além disso, ela gostava muito desse trabalho de formação de professor, né? Então ela era uma pessoa que sempre inovava as questões pedagógicas, sempre... Você estava lá para aprender mesmo, para ler livro, para falar... Não sei... Era formação mesmo, entendeu? Então às vezes a gente reclamava um pouco, era muito trabalho, muita coisa, muita coisa para aprender, cada hora uma coisa... Mas no fim eu acho que, para todos nós daquela época... Porque aí acho que só ficou de professora eu, porque as outras saíram. A Rosana saiu, a Maria Laura que está lá, mas agora ela é professora do Fundamental dois. A Dani Bahia saiu... É, só ficou eu! E a Kika, que era desse tempo também e saiu ano passado da escola. E... Mas para mim, o primeiro ano lá foi desafiador, vamos dizer assim, sabe? Eu não sabia, assim, no final do ano... Sabe aquela coisa: “Ai, será que eu continuo? Será que eu volto ali para o mais prático?” Aquela coisa que vem tudo pronto? Que era o Augusto Laranja – encadernação de... Vinha tudo pronto, você não precisava falar com ninguém lá, vinha o planejamento que você tinha que dar e a forma que você tinha que dar, aquela coisa... E a PlayPen tinha que fazer tudo!

 

P/1 – E como é que era conciliar esses dois tipos de trabalho?

 

R – Ah, era uma loucura, por isso que eu tive que optar: “Ou eu fico em um, ou eu fico em outro, né?”. Porque mesmo para mim... Eu precisava saber um pouco o que eu queria da minha vida, né? E aí acabei optando pela PlayPen, porque... eu não sei se você vai criando mais afinidade com essa faixa etária. E eu adoro Educação Infantil, na PlayPen eu vivo lá embaixo na Educação Infantil. Mas eu acho que, no dia a dia na sala de aula, com criança um pouco mais velha, você fala e a resposta às vezes vem de imediato. Acho que essa relação é gostosa. Então... E acho que fora isso foi a coordenação da Márcia, sabe? Uma pessoa que dava vontade de estar ali todo dia com ela, sabe, aprendendo? Era tudo, assim, novo, então eu acho que o que me prendeu, o que me fascinou lá, foi isso. Eu acho que depois que passou o primeiro ano, que foi um supersucesso; a finalização, os trabalhos desenvolvidos, a apresentação do que foi feito para os pais... Aí você vai se aprimorando nas coisas e vai ficando mais bacana, então os anos seguintes só vieram a confirmar os trabalhos realizados. E... E acho que o clima ali da PlayPen tinha uma coisa meio familiar, que às vezes pega um pouco do que... como o Augusto Laranja era muito grande, então parecia uma empresa, né? Você bate o cartão, faz o que você tem que fazer, e vai embora para casa. Bate o cartão e vai embora. Não tinha um pouco aquela coisa de acolhimento. Sabe aquela coisa mais humana? Então, para entrar na sala da coordenação era cheio de cerimônia, sabe aquela coisa? Então eu falei: “Ah, não, não sei. Eu acho que não é isso. Minha linha não é muito essa!”. E daí eu fui, porque era uma escola menor, a PlayPen. A Educação Infantil não, mas a Fundamental era. Uma sala só, tinha poucos alunos. Aí tinha a Márcia, tinha a Marinalva... Então, aquela coisa pequenininha, aconchegante! O lugar era pequeno, então as salas... A sala era aberta e todo mundo escutava ou via você dando aula, entendeu? Aquela coisa... Então... Aí eu fui ficando, fui ficando... Fui aprendendo, aí você faz amizade... E a Guida sempre foi muito próxima, nesse tempo. Acho que por a escola ser menor, então ela ficava muito próxima das professoras. Então, vira e mexe ela estava presente, todo mundo conhecia... Sabe aquela coisa? Então... E, assim, desde o dia em que eu a conheci, a gente sempre teve uma ligação forte. Tanto é que das professoras daquele tempo, eu era a que mais conversava com ela. Eu tinha uma certa intimidade de passar por lá e conversar: “Oi, tudo bem?”. Ela sempre perguntava de mim, do meu marido, enfim, a gente tinha uma amizade entre aspas, um pouquinho fora dali. E aí, com o tempo ela... A gente começou a ficar um pouco mais amiga, sair de vez em quando para jantar. Daí começou realmente uma relação de amizade. E aí isso me atraía, porque como eu me dava muito bem com ela, com a Márcia, com o trabalho... Daí eu acabei ficando, daí fui ficando... (riso).

 

P/1 – E quem era esse aluno da PlayPen? Que você encontrou lá?

 

R – Olha, os alunos, assim, eram de uma classe social completamente diferente. Acho que em termos de disciplina, esse começo foi meio difícil, assim, porque a maioria era de uma classe social muito alta, e eles achavam que você era a empregada deles. Era um pouco assim. Hoje em dia não é, mas acho que por um tempo foi. Eles vinham de uma escola, que era o Ponto Ômega – não sei se vocês conhecem – que existe ainda aqui, em uma travessa da Rebouças. E... Então foi duro nesse sentido, né? Até acho que teve um começo, assim, do ensinar para eles quem você é, do respeito que tinha que ter por você, e separar. Porque tinha uns que falavam: “Não, eu não tô afim de fazer isso agora”. Era bem assim, lá. Então, foi uma série de coisas que eu também tive que aprender, porque eu também não estava acostumada com isso. E de conhecer melhor um pouco esse aluno, essa mãe que nunca estava... Aí você vai ver o histórico, né? Era a mãe que nunca estava presente, era a babá, o motorista, o segurança. Eu tive que lidar um pouco com esse mundo que não era o meu, do meu dia a dia. Mas aí, eu acho que conforme as coisas vão acontecendo e conforme vai fluindo, você vai... Eu acho que você tem que ter muito jogo de cintura ali, né? Então para trazer o grupo para você, para eles te respeitarem, para você dar aquilo que você planejou, o objetivo que você tem ali no final do ano e tal... Então acho que os dois primeiros anos para mim foram um pouco mais difíceis. Aí acho que depois engrenou para mim, mas eu tive um tempo que para mim isso foi muito difícil, né? Não sei se também pela minha idade, falta de experiência... Eu acho que também do mesmo jeito que tinham uns alunos assim, tinham outros que também não eram. Uns dois, três... Eram poucos, mas tinham. Então, ali você vai fazendo uma troca entre eles, e cada um no seu mundo, e eu acho que depois eu aprendi a lidar melhor com isso. Aí é a hora que você vai se colocar em uma sala de aula no outro ano, e você vem diferente, porque aí você já tem uma bagagem. Porque, às vezes, você não tinha fala. Sabe, aquela coisa de a criança te pegar e achar que pode fazer o que quer? E não é pondo para fora, tem que ter outro jeito de trabalhar. Não é pondo para fora, gritando, que vai resolver aquilo. E isso, eu acho que a gente vai aprendendo, e com o tempo vai melhorando. Então, acho que depois que passou essa fase para mim, acho que foi mais tranquilo. Acho que foi primeiro o susto com esse grupo, com os alunos que tinham um pouco do Fundamental um né, do jeito que eles eram. E depois um pouco do trabalho ali, né, do jeito da Márcia trabalhar, da metodologia de projetos que a gente teve que ir atrás, que para mim era nova. A gente teve que estudar muito o que ela queria. Enfim... Então acho que depois do terceiro ano ali é que eu... Você se sente mais tranquila, né, no que você está fazendo. Mas era um constante aprendizado, você sempre tinha que ir atrás de coisas novas, porque as coisas não eram sempre aquelas... Cada hora aparecia um projeto, cada hora as crianças se interessavam por uma coisa e que você tinha que ir atrás. Então, por um lado é bacana porque você não se acomoda, mas por outro você não para nunca. Então eu me lembro das reuniões pedagógicas. Eram depois do horário de trabalho, no final do dia, então era das seis às nove da noite, durante a semana. E aí sempre acabava passando, porque você se envolvia com o trabalho, e como era um grupo pequeno, então às vezes saíamos dez da noite... Para fazer o que nós fazíamos, preparar o material para workshops... Porque também tinha aos sábados, que nós fazíamos. Então, às vezes, nós tínhamos que preparar, entendeu? Ela dava os temas, e nós tínhamos que ir atrás. Então além dos trabalhos dos alunos, tinham os workshops, então era um aprendizado atrás do outro. Você tinha uma carga horária, assim, bem grande.

 

P/1 – E só uma pergunta, teve algum projeto desses que você lembra mais, que te marcou mais, e que teve resultados legais com as crianças?

 

R – Ah! Tiveram vários assim! Era tão... Você apresentar no final... Teve um que eu fiz, de Ciências, que foi superbacana, como chamava? A gente fez através de um livro... Como chamava o livro? Era como se fosse a volta ao mundo, e englobava várias matérias. Era o céu, a terra, os quatro elementos, o Sol... E cada grupo tinha que trabalhar em cima de assuntos divididos pelos capítulos dos livros. E no final, a gente fez que cada sala de aula era – tinha até na escola, devia ter trazido – era o que o grupo tinha preparado. E deu um trabalho, assim, do cão, de eu ficar uns vinte dias na escola, assim, todo dia, sabe? Para fazer com eles e tal. Mas, assim, fora esse... Porque teve a apresentação, os pais foram, a Guida foi e tal... Mesmo os pequenos sempre tinham um resultado final, e sempre tinha uma apresentação para os pais, entendeu? Então alguma coisinha você tinha que fazer. Então, acho que todos eles, e foram tantos. Mas sempre teve um gostinho do “quero mais”. Porque não é que você fala assim: “Agora eu preciso montar...”. Não! O trabalho vinha, e no final você nem precisava fazer tanta coisa. Claro que tinha o trabalho de montar: “Você vai pôr isso e tal”. Mas quase todas as professoras... Tendo ou não que apresentar para os pais, você gostava de mostrar, porque você via resultados nas crianças, as crianças envolvidas e com vontade de mostrar, entendeu? Então... Ai, foi muito... Acho que todos os trimestres, e os anos, tiveram coisas bacanas! Eu não me lembro de nada que eu tenha ficado frustrada, que não deu certo. Tinha um, lógico, que tinha mais envolvimento, outros menos, mas assim... Por isso, quando vocês foram na escola aquele dia... É uma pena, porque eram os books, né, porque a quantidade era imensa, a cada trimestre tinha dois livros com todas as fichas, com tudo... Então chegou uma hora que a gente falou: “Vamos escolher alguns, porque não dá para ficar”. A gente até perguntou: “Vocês querem levar para casa?”. Alguns dá até para levar, agora não dá para levar todos, né? Um tempão como professora lá, cada trimestre com dois books... Muito papel, né? Mas foi um tempo bem bacana! Aí depois ela foi embora, né, a Célia entrou, mudou completamente... A escola também mudou, então... É... Mas foi acho que... 1996 até 1999... Não, 1996 até 2003! Que foi assim, bem bacana!

 

P/1 – E você se lembra de alguma história como professora de algum aluno confundindo Inglês com Português na sala? Como é que você lidava com isso, se isso acontecia?

 

R – Não, acontecia bastante. Acho que, assim, misturar o Inglês com Português sim, na fala, na escrita, em redação, né? Na hora em que a criança está ali se expressando, que é o momento dela, então aparecia muito, porque estava muito misturado. Mas para mim o aprendizado maior foi quando... Porque sempre tiveram coreanos, assim, uma vez ou outra, que estudavam lá. E nem o Inglês eles tinham. Então, uma vez ficou um na minha sala que ele não falava Português, nem Inglês, só o Coreano. Então era mímica. Porque nem o Inglês e tal. Mas como eles são superinteligentes, né, é um outro jeito de você ensinar. Ele começou a ter aula particular de Inglês e de Português fora da aula. Ele era ouvinte de manhã, mas sei lá o que é que ele ouvia, eu ainda falava: “Gente, esse menino dentro da sala...”. E para gente foi uma surpresa, porque esse menino saiu de lá, e aprendeu Português, aprendeu Inglês, e era um dos melhores alunos! Ele e todos que entraram até hoje. É uma coisa impressionante como eles pegam com facilidade. Mas, os primeiros meses, eu olhava para ele e falava: “Meu Deus, imagina o contrário!”, né? Então isso foi outra coisa que eu tive que aprender ali. E às vezes a gente falava: “Será que ele vai aprender?”. Mas, a Guida... com a experiência que ela tinha, né, e a Márcia começando e: “Não, eles vão aprender”... Lógico que tinha o reforço, extra e tal, e as crianças ajudavam e tal. E no final do ano o menino saiu, e, quando você olhava, ele falava Português, Inglês e Coreano... Pena que eles não ficam, né, porque os pais trabalham nessas multinacionais, então cada hora eles estão em um lugar. Mas, para mim mais o Inglês do que Português, que tem muito né, eles vêm... Então eles entram na nossa sala, eles começam com Português e terminam com Inglês (risos) e fazem uma bagunça, assim, na fala, as crianças nem percebem. Para mim eram os coreanos, assim, que precisavam se expressar, né? Até quando estavam com dor, sabe aquela coisa? Às vezes me angustiava, assim, um pouco. Então... Mas é uma lição, né? Você vê o quanto é possível, né, isso acontecer. Então para mim foi mais um aprendizado com isso. E acho que foi do Inglês, de trabalhar lá, do bilinguismo da sala de aula, essa troca, que você tem que aprender, né? Embora você seja professora de Português, você não pode esquecer que é uma escola bilíngüe, então... Tinha o que só falava Inglês e estava lá o dia inteiro, tinha o coreano que não falava nenhum dos dois; mas é aprender a lidar com a situação, né? E aí você vê que é possível mesmo, em nenhum momento até hoje, sei lá, eu me lembro de ter uma coisa que não tenha dado certo, entendeu? A gente imaginou, mas não deu, entendeu? Eu acho que não. Então eu acho que esse fato dessas crianças... Como dessas crianças especiais, né, que também foram estudar lá. As que passaram, as que já foram, enfim. Eu acho que o dia a dia das crianças de lá, é um aprendizado, não é? Porque você aprende a conviver. E a criança tem outro olhar, quando aparece faz aquela carinha: “Ahn!” Parece que é um ser do outro mundo. E a gente foi vendo que quanto mais casos tivessem lá... É lógico que tem um número limitado, um por turma, porque a gente tem que dar conta, né? Mas a gente viu que a relação das outras crianças com essas começa a fazer parte do dia a dia e ser uma coisa normal, né? Então até essa que está lá até hoje, que todo mundo trata ela de igual para igual, ninguém fica parado olhando, sabe aquela coisa? Então acho que a escola veio se preparando, né, mesmo agora que chegaram outros coreanos lá. Então eu vejo que os alunos... você não precisa falar, já faz parte do dia a dia deles receber essas crianças, porque eles sabem que lá tem, e ajudá-los na adaptação, ou ajudar uma pessoa que é deficiente, né? Ou mesmo com a Ana Clara, deles conversarem, para _______ (?) sentado e conversando do lado dela. Sem ter essa tiração de sarro, sabe? Ou ficar olhando, nada. Então isso para mim sempre foi uma coisa muito tranquila, e por outro lado bacana, porque são poucas as escolas que te dão a oportunidade de seu filho viver aquilo. E os pais às vezes ligavam lá e: “Gente”! Preocupados em saber o que ela tinha, né, os pais novos. E por outro lado contar um pouco a relação só de olhar das crianças com ela, né? Que sempre foi muito bacana, né? Então... Acho que esses pontos assim na PlayPen são coisas que para mim particularmente foram um aprendizado, né? Que eu vi que é possível, nunca tinha vivenciado e que o resultado é positivo, né? Então valeu a pena! Eu acredito nisso!

 

P/1 – Daniela, conta um pouquinho para gente como foi, do seu ponto de vista, o crescimento da escola. Como é que foram acontecendo as mudanças, que quando você chegou ainda era uma casinha...?

 

R – É, então, os primeiros anos era uma casinha, uma escolinha, né? Meu Deus, uma coisa horrorosa, eu falava para Guida. Umas salas de aula que eu falava: “Guida do céu, não sei como é que você conseguiu ter a sala de aula daquele jeito”. Não tinha ventilador, a cortina rasgada, sabe aquela coisa? E um monte de alunos na sala, aquela classe social, porque a escola tinha nome, né? Primeira escola bilíngue, né… Então todo mundo procurava, e quando abriu o Fundamental um monte de gente quis ir, outras escolas queriam fazer convênio para ir e tal. E acho que esse comecinho, como eu falei, acho que teve esse movimento da equipe nova, o crescimento com os alunos... E a equipe que se formou, né, que eram poucos professores mas que se davam muito bem, né? Com a Márcia, entre nós, entre os funcionários, porque era uma coisa pequena, né? Tinha a Rosana que trabalhava lá já há um pouco mais de tempo e quando... Acho que depois de dois anos ou três, que concretizou assim um pouco a equipe, e que a Guida quis continuar com o sexto ano, foi quando ela construiu... Construiu não, ela comprou a casa ao lado. Então ela tinha uma casa, e aí ela quebrou o muro, simplesmente quebrou o muro, e se adequou à outra casa exatamente como ela era. E também com poucos alunos. Aí os professores que foram entrando também tinham uma ligação, sabe? De todos os professores, acho que por ser uma escola pequena, tinha uma sala de cada turma, né? E só tinha até o sexto ano, depois foi para o sétimo, oitavo e o nono... E então as pessoas eram muito unidas, era uma coisa gostosa, você ia com prazer dar aula lá! Tinha a Marinalva, a Dona Conceição, que faziam o almoço... A Marinalva, a Marinalva, ela era... Ela servia o almoço, ela já tinha sido cozinheira, a Marinalva. Mas na época que eu entrei ela servia e a Dona Conceição fazia. Só que a Marinalva morava lá... Sabe aquela coisa assim? A casa dela, que você via da janela da sua sala. Ela tinha um galo lá que cantava todas as manhãs. Parecia que você estava na fazenda, sabe aquela coisa? E aí, quando a escola começou a crescer, a procura dos alunos foi um pouco maior, e aí começou a questão do espaço, né? Porque ela foi comprando e foi quebrando as paredes sem fazer grandes reformas, então tinha um terreno imenso e supermal aproveitado, porque as salas tinham que ser maiores, mais lugar para as crianças brincarem... Enfim, o espaço completamente mal utilizado. E foi aí que ela começou a pensar em construir outra... Na verdade era reforma, né? Em reformar... E eu lembro, assim, que a princípio ela chamava um pouco a equipe para participar daquilo que ela estava pensando, junto com os arquitetos, a construtora, e para palpitar também, né? “O que é que vocês acham?” Acho que isso tinha muito a ver com a Márcia, né? O jeito da Márcia trabalhar: “Poxa, tudo bem, a escola é sua, você quer construir, mas quem está ali no dia a  dia são os professores, e acho que as necessidades do dia a dia, eu acho que eu tenho que escutar um pouco eles ali”. Então eu lembro que ela começou a fazer várias reuniões, assim, com os professores, reuniões pedagógicas, mostrar planta, como que ia ser... Então acho que esse movimento com os professores e com ela tinha essa aproximação, dela conosco, né? E por ela estar lá também direto, sempre! Era uma coisa nova, um negócio novo dela, enfim, então ela sempre estava lá! E um pouco antes disso acontecer... Porque ela começou a pensar nisso, eu acredito que tenha sido em 2000 mais ou menos. Ou não? Antes, em 1999 acho que ela começou: “Vou começar a mexer meus pauzinhos e tal”. Aí em 2000 acho que ela bateu o martelo: “Não eu vou fazer, tal, não sei o quê...”. E aí ela chamou os arquitetos, tal, e nesse tempo tinha uma moça que trabalhava... Não que trabalhava lá, mas ela pagava para ela assinar pela escola, porque a Guida não tem a formação de Pedagogia, né, então... entre aspas, ela não assina pela escola, porque ela não tem formação de pedagoga, de nada relacionado à Educação. E aí como eu tinha terminado a faculdade, e depois fiz a especialização em Administração Escolar, ela perguntou se eu não queria trabalhar de manhã e à tarde, duas tardes, para ficar na escola na parte administrativa para... Para assinar pela escola, diário de classe, aquelas coisas, plano escolar... Regime... E eu lembro que tinha acabado de voltar de licença maternidade; ela até me chamou antes, se eu não podia voltar... E aí eu voltei e já comecei a trabalhar lá nessa área duas vezes por semana. E eu fiquei 2000, no final de 2000 e 2001, que foi quando a gente saiu de lá. E daí quando chegou no final de 2001, ela falou para mim: “Eu acho que a gente tem que optar entre uma coisa e outra. Eu queria muito que você viesse trabalhar na parte administrativa” – não ser assistente dela, mas nessa parte administrativa – porque acho que ficar com as duas coisas, para o volume de coisas que vão vir pela frente...”. E daí eu falei para ela que para mim tinha sido... Que eu gostava de dar aula, mas que essa outra função me atraía também. Então eu deixei de ser professora, foi o último ano, em 2001 nessa casa. Daí foi quando a gente mudou para lá. E aí o que é que aconteceu? Nesse meio tempo, a Renata, que era assistente dela, foi embora. A gente teve uns problemas lá com ela, lá, na escola, com o filho que também estudava lá, com indisciplina, enfim... Ela acabou saindo no finalzinho do ano, e, quando a gente começou na outra casa, a Agda falou: “Você não quer vir trabalhar junto comigo também?”. Eu lembro que era o período até às três horas da tarde, que durou pouco, depois já era até às cinco. E dali para cá a nossa relação começou, né? Porque aí eu trabalhava diretamente com ela, e teve o problema todo da obra, esse movimento dos professores. A casa, que nós mudamos e que não tinha nada, que... Eu lembro que eu fiquei trabalhando todas as férias, fiquei sem tirar férias, até que um dia a gente foi olhar e tinha oitenta e nove dias de férias acumulados, porque eu fiquei um tempão sem tirar. E aí começou essa batalha, né? E a equipe, quando nós mudamos para essa outra casa, ainda permanecia a mesma. Eram aqueles mesmos professores que tinham entrado, que ajudaram na questão das assinaturas na outra casa. Porque você se adaptar ali era superdifícil, né? Imagine uma coisa meio que improvisada durante um ano. Então foi bem difícil, bem difícil! Daí quando embargou, piorou ainda mais. Porque... E quando a gente mudou para essa casa, não sei se alguém já contou para vocês, mas nos finais de semana ela era buffet. Então quando a gente mudou, a gente arrumava a sala de aula; a gente fotografou todas as salas de aula, e tinha um álbum, porque na sexta-feira às cinco horas desmontava tudo, todas as salas, porque tinha festa de casamento sexta, sábado e aí no domingo eles montavam... Ficavam os desenhos assim, nas paredes de cada sala e eles punham tudo no lugar, os cartazes... Imagina uma escola, desmontar inteirinha? Cartaz, mural, brinquedo, tudo! E domingo à noite eles montavam tudo! Então... Uma loucura! Uma loucura! Aí as mães começaram a reclamar:  “Ai, será que é limpo mesmo direito? Os banheiros”. Até sobre drogas, entendeu? Ah, drogas no jardim, muito rato... E aí essa casa também... Quando foi julho de 2002, que nós estávamos lá, a obra tinha sido embargada, não por causa da escola, mas por causa das festas que não tinham alvará. Então a gente passou uma semana com tudo embargado sem saber nem o que ia acontecer. Nossa, baixou polícia, você não sabe, uma coisa de louco! E depois eles deixaram abrir para continuar a escola, né, porque era assim finalzinho de julho, imagina, voltando? A Guida falou: “Agora, danou-se!”. E aí voltamos, e uma embargada e a outra funcionando assim, sem saber. E os alunos indo embora, assim, todos, a grande maioria. Quando chegou dezembro de 2002, ficaram pouquíssimos, falando: “Olha, se voltar bonitinho...”. E aí, quando desembargou que foi finalzinho de dezembro, daí que começa férias coletivas, aquele monte de coisa. Voltou mesmo no ano seguinte, que foi 2003. Então eles só voltaram a nos procurar depois que a gente passou um semestre lá, em 2004, que aí começaram alguns pais a retornar para escola. Eles esperaram ainda a gente voltar, e sempre essa equipe mesmo de professores, né? E depois que a gente mudou para cá, quando foi? A Marta, acho que saiu de lá no meio de 2004, ou de 2005? Acho que foi final de 2004, que ela saiu. Mas esse ano já saiu um pouco do grupo que eles estavam desde 1996, e aí começou a entrar uma equipe nova. Teve a entrada da Célia, a do Lyle.. Aí a Gabriela, que eu sempre falava com ela, e ela estava morando no Rio... Eu acabei trazendo ela lá para escola, né, fui eu que trouxe ela de volta. Porque ela trabalhou um tempo como auxiliar junto com a Isabela, foi embora, e depois voltou. E trabalhou um tempinho com a Márcia até entrar a Célia. Aí foi assim, aí foi indo, aí foi enchendo a escola, aí começou uma procura muito grande. Acho que teve um pouco aí de quando a Márcia saiu, né, que... Acho que a energia dela já tinha dado o tempo ali na escola, né, então ela queria ficar cada vez mais fora da escola, e a gente via que não dava, né? E aí quando veio a Célia, que foi bacana também, acho que o começo dela na escola... Ela tinha uma experiência nessa parte administrativa, na pedagógica não, quase nenhuma. Esse negócio de falar da escola, de mostrar o que ela tem de bom nas reuniões e mostrar firmeza, acho que nisso ela foi atraindo os pais, né? Então a escola realmente começou a encher, acho que também por mérito dela. Que é uma característica que a gente não sabia que ela tinha! Mas por outro lado a gente começou a enfrentar outros problemas com ela, de relação, né? Que foram muito difíceis. De todo esse tempo que eu tenho de escola, eu acho que em 2006 e 2007 – que foi logo quando ela entrou – foram os mais difíceis, lá na escola, de ninguém aguentar. E foi um período que a Guida ficou mais ausente da escola, ela viajou muito, ela casou. O marido dela, o namorado dela morava na Alemanha, então ela viajava muito para lá. Então, entre aspas, ela delegou muita coisa para Célia e para o Lyle, e começou a sair um pouco de cena. Então acho que o foco – eu vejo assim – mudou um pouco, então deixou de ser ela e de repente viraram os dois. E como a equipe também tinha já mudado um pouco e, quando eles vieram, trouxeram gente, né, professoras que eles já conheciam. Então eu acho que eles ficavam ainda para elas uma figura marcante, né? Que eles não tiveram oportunidade de conhecer a Guida, também porque ela não apareceu, culpa dela, ali entre aspas. Culpa não, mas por ela estar em outro momento da vida dela ali, enfim. Então eu acho que com essa troca agora, novamente, ela trabalhando como ela nunca trabalhou, parece os tempos de quando eu entrei, em 1996, de estar todo dia, de estar cedo, e essas pessoas que estão vindo e ela entrevistando as professoras. Eu acho que já vai dando outra relação para equipe que deve montar, né? Outro dia eu falei para ela, eu até liguei para ela, que ela saiu de lá muito triste, né? Porque acho que são tantos anos e ela tá revivendo um pouco o que ela viveu com a saída da Ana Maria lá, que para ela foi um choque. Não que agora está sendo um choque, com a saída do Lyle e da Célia, mas a saída dos dois ao mesmo tempo, aí então... Mas eu acho que agora ela está voltando no dia a dia dela, né? As professoras que estão vindo, ela que está entrevistando; então eu acho que ela está tomando conta de novo da casa, sabe aquela coisa? E eu acho que talvez assim, as professoras conheçam ela um pouco melhor, criem um vínculo maior com ela, que eu acho que faltou nesse tempo que a Célia ficou lá, entendeu? Que foi difícil, assim, para todos os setores, né? Lógico que um pouco mais para Gabriela que é do pedagógico, mas para o administrativo, a equipe da limpeza... Ninguém pode olhar, sabe? Perderam até o respeito já, ficou uma coisa chata, sabe? Mas foi uma pena, porque teve um lado que foi superbom, mas teve outro que faltou, então... Mas eu estou bem confiante, eu acho que agora nesse próximo ano, embora ainda fiquem pessoas da equipe que estão aí, que vieram da Célia, acho que é um ano de experiência, assim, vai ficar quem realmente gosta da escola, veste a camisa, está afim, né? Porque aí quem não estiver, com a Fernanda entrando, vai acabar indo embora no ano que vem, eu acredito nisso. E aí quem sabe não é uma nova etapa aí, né? Um outro momento da escola. Eu falei para Guida, esses dias: “Ó, já passamos por momentos tão difíceis aqui, que acho que esse é para tirar de letra”. O que eu acho é que ficou um foco muito grande nos dois diretores, então parece que a escola só funciona se eles estiverem lá, sabe aquela coisa? E o resto que está lá batalhando todo dia, a Dona (Eleonardi?), Gabriela, eu, Edson, né? Soraia... Então nada adianta, então parece que saiu... Eu ainda brinquei com ela: “Não pode mais deixar o foco numa pessoa só, tem que sair um pouco porque é uma equipe, né?”. É um corpo diretivo, todo mundo trabalha junto, fulano, sicrano, não importa quem. O que importa é alguém ali para te atender, não ficar só assim em uma pessoa assim, marcada. Então vai ser uma surpresa. Eu acho que vai dar tudo certo, né, mas... Eu acho que esse ano está sendo um pouquinho difícil, está sendo difícil esse finalzinho assim, sempre dá um medo do que pode vir a acontecer. Mas acho que quem está lá acredita mesmo, acho que a proposta da escola continua a mesma. A escola não foi vendida, a Guida continua lá, acho que isso é o principal, né? Acho que quando a escola é vendida ou faz parceria com outra escola, né...? Que várias fizeram essa fusão, né? Eu acho que os pais podem ficar um pouco preocupados, mas eu acho que nesse caso não. Ela está ali ainda, né? Então, no que ela acredita, acho que vai continuar. Acho não, vai.

 

P/1 – E como é que foi para você deixar a sala de aula e assumir uma parte mais administrativa?

 

R – Olha, no começo eu fiquei bem em dúvida se eu faria isso ou não. Mas como eu sou uma pessoa assim, superorganizada, superprática para lidar com essas coisas, e como eu já estava nisso alguns dias da semana né, meio período, eu resolvi. Falei: “Ah, já fiz tantas mudanças aqui dentro, mais uma assim...”. Era uma coisa que me atraía também. E quando a Renata saiu e ela falou: “Ah, eu quero que você fique comigo!”... Para mim também foi uma coisa que era... Era uma coisa nova, mas que eu... Como é que se fala? Eu acho que eu tinha que tentar, era uma oportunidade que eu estava tendo, que sei lá quando ia surgir de novo, poder trabalhar ali ao lado dela. Então eu acho que deu supercerto. Eu acho que tem que se dar bem com a pessoa, acho que a gente tem um monte de afinidades ali, eu e ela sempre tivemos... Acho que desde o primeiro dia em que ela me entrevistou a gente tem isso, e... É lógico, como qualquer um que a gente trabalha, é óbvio que não é todo dia que é tudo maravilhoso. A gente briga, a gente discute, vou embora chateada, mas a maior parte do tempo a gente tem essa liga. Eu consegui captar em pouco tempo o que ela gosta, como ela gosta, o jeito dela, né? É... Ou quando eu acho que pode entrar um pouco o que eu acho, né, ali, e poder falar, ter essa liberdade de poder estar falando algumas coisas. E acho que é uma coisa que veio dando certo, então, lógico que eu sinto falta, mas também não deixo de lidar com a criança no dia a dia. Vocês estão lá e vocês sabem, né, vira e mexe eles entram lá, para falar comigo, me perguntam em sala de aula... Mas acho que eu me dei melhor onde eu estou. Eu acho que eu gosto do que eu faço, acho que sou respeitada ali dentro, né, por todos eles. Nunca tive problema com nenhum funcionário. Acho que tem uma equipe, né, que é de segurança, limpeza, cozinha, que às vezes é um pouco mais difícil lidar com eles, que nem sempre eles entendem aquilo que você quer. Então, às vezes, você tem que ser um pouco mais dura, para lidar com eles ali. Mas a equipe que está lá, pelo menos desde o dia em que eu assumi, estão lá há muito tempo. Então eu acho que isso é uma coisa bacana, porque eu acho que o trabalho ali desenvolvido, né, as oportunidades que a escola oferece, o dia a dia... Até a liberdade no jeito deles trabalharem, acho que vai ficar. Acho que eles vão ficando, né? Eles fizeram até... Não um movimento, mas vieram me falar que eles eram os últimos lembrados – até foi esse ano – na questão salarial, que o salário era baixo e não sei o quê. E aí eu lembro que eu fui falar com a Guida por isso e ela falou: “Ai, imagina, tá muito bom!”. Mas passou duas semanas e ela foi lá e aumentou todo mundo! Nossa! E aí agora que eles estão com um sorriso daqui até aqui, estão achando... E eu acho que eles têm que ser valorizados, porque é uma equipe que toda vez que a Guida pede, ele estão ali; quando tem evento eles estão ali, nunca largaram ela na mão, quando tem congresso a gente pergunta e todos eles vão... Então você vê que eles gostam mesmo! Não estão ali só para ganhar, bater o cartão. E tem essa questão das crianças ali, porque eles estão diretamente também ali, né? Banheiro... O que faz, o que fala, como que brinca, né? Acho que tem todo esse preparo com eles que você tem que ter, né? Imagina, né? Responder, falar com uma mãe, às vezes, a mãe está ali no banheiro... Acho que desde o segurança, até... Então eu acho que a equipe que tem lá foi difícil, assim, mas a gente conseguiu, né? Falei para Guida outro dia: “A gente conseguiu montar!”. E você vê que eles estão felizes e é bem bacana. E às vezes eles falam: “Vou embora, vou embora!”. Mas ninguém vai embora, passa o ano e está todo mundo lá dentro (riso). Mas aí você mostra o jeito da escola ser, né? Quando sai e entra muito funcionário, você fala: “Ah, tem alguma coisa de errado!”. Agora quando ficam muitos anos, e a grande parte deles estão lá há muito tempo. Então você vê que a administração ali, o jeito da escola ser, é bacana com eles também, né? Porque sem eles a escola também não funciona, né? Tem os professores, lógico, que vêm em primeiro lugar, tem um monte de gente que vem na frente, mas eles também fazem um papel importante, eu sempre falo isso para eles. Então, para mim foi gostoso, assim, porque eu também me identifiquei, viu, Fernanda, e está dando certo até hoje! Então... a nossa relação ali... Porque eu brinco e falo que todo mundo tem ciúmes às vezes, né? Porque... Ah, além do trabalho ali, falam... Ela fala que eu sou a filha que ela não teve, porque ela só teve filho homem. Então ela casou ano passado, e eu participei de todo esse movimento do casamento dela, eu montei, fui em Parati, nossa! Trabalhão! Ter que levar tudo para lá. Foram quatro dias de festa. Além disso, tive que organizar tudo com ela! Desde o vestido de noiva... Teve um tempo que eu esqueci a PlayPen, as meninas me olhavam... Nossa, o trabalho que deu! Não vou nem falar para vocês, foi uma loucura! Mas eu fiz... Né? “Ah, você fez porque é sua chefe”. Não! Não é porque ela é minha chefe, eu fiz porque eu gosto, porque eu tenho o maior respeito por ela, aprendi muito com ela. Acho que as oportunidades que eu tive, muitas eu devo a ela. Mesmo na minha vida pessoal, os momentos que eu passei... Eu tive minha separação que foi superdifícil, ela me acolheu ali, foi supe bacana... Minha mãe teve um câncer superforte em 2003, ela também me acolheu, me deixou super à vontade, para eu ir nos dias em que eu precisasse, sair... Enfim... Então eu acho que é uma troca. Eu acho que tem todo o lado profissional, que eu acho que a gente tem que levar a sério. Eu lembro que às vezes a gente saía à noite e voltava às quatro da manhã, e ela falava assim para mim: “Não, pode trabalhar às dez e meia amanhã”. E sete horas eu estava lá, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. E eu lembro que ela chegava e falava: “Eu não falei para você vir mais tarde?”. E eu falava: “Não, eu sou uma funcionária como outra qualquer, o horário de trabalho não tem nada a ver o que eu estava fazendo à noite. Você sim pode chegar. Mas eu não, mesmo porque eu sou exemplo ali dentro também, né?”. E acho que tudo isso que fez com que eu estivesse lá, porque eu podia ser uma folgada e falar: “Então eu vou às dez e meia lá”. Mas eu não sou assim, eu sou supercaxias. Eu... Vocês não vão acreditar, eu tenho quatro faltas desde o dia em que eu cheguei lá. Minha licença maternidade, que eu só tive dois meses, que depois eu voltei a trabalhar, então... Eu vou porque eu gosto mesmo, não invento desculpa... Sabe aquela coisa? Então eu levo a sério mesmo meu trabalho! Então acho que é por isso que eu estou lá há bastante tempo e do lado dela também, porque eu acho que eu soube separar as coisas. Sou companheira dela, sou profissional, temos uma relação de amizade, temos uma relação profissional ali dentro da escola, e ela sabe ouvir, né? Às vezes você está certa, às vezes você não está, às vezes ela não está, e, por mais que ela seja a chefe, você tem que ter um jeitinho ou outro para estar falando. Mas eu também não deixo de falar, porque eu acho que eu tenho liberdade com isso. Então eu acho que as coisas foram levando por esse caminho. Sou superamiga dos filhos dela, dos dois, eles gostam muito de mim, agora da família toda. Depois desse casamento, quem eu não conhecia acabei conhecendo, porque a família dela é de Minas. Então, eu acho que é isso. Eu gosto realmente, gosto muito de lá! Acredito muito nas coisas que ela faz, entendeu? Acho que ela tem os tropeços dela, como todo mundo tem, e as falhas também, que ninguém é perfeito. Então... Mas eu acho que é ir tocando, para ver o que é melhor, entendeu?

 

P/1 – E qual você considera a sua principal realização na PlayPen?

 

R – Realização de alguma coisa que eu fiz ou... Assim no geral, assim?

 

P/1 – Acho que de algo que você fez, que você tenha participado...

 

R – Acho que... Realização específica eu não sei. Eu acho que são... Não sei se voto de confiança, não sei se eu posso falar assim... Da carta branca, vamos dizer, né, que ela me dá. E que eu consigo não me causar nenhuma frustração, né, assim, tem algumas coisas que ficaram sob minha responsabilidade; hoje em dia eu tenho... Eu não preciso de permissão dela para mandar um funcionário meu embora, nada disso. Se eu achar, eu tenho carta branca. Então eu acho que essas conquistas do dia  a dia, esses... Por exemplo: a festa junina! É um evento que sou eu que faço. Então ela nem quer saber. Então eu vou atrás de tudo, organizo tudo, faço tudo... Então acho que esse voto de confiança que ela vai dando... e que no fim ela reconhece e acaba agradecendo, né? Então acho que de realização pessoal, acho que assim... Eu me sinto privilegiada, hoje, né? Lógico, pela oportunidade de eu estar lá com ela até hoje, dessas conquistas que eu tive com ela, do dia a dia. Porque você acaba delegando para ela fazer e tem coisas que eu nem preciso falar para ela. E eu acho, assim, fora a festa junina, que sou eu que faço, a coordenação dela é minha, acho que todos os eventos que tem na escola eu estou atrás, né? Porque ela brinca sempre no discurso dela que, se não fossem os bastidores, eles não aconteciam, né? Então eu não apareço ali na frente com o nome, enfim, mas se não fosse eu lá atrás com a equipe que eu montei, também não sairia ali. Então eu me sinto realizada quando ela me diz nesses momentos, desses acontecimentos... Isso, eu acho... Então... Eu acho que é mais ou menos isso.

 

P/1 – E você disse que tem uma filha, qual é o nome dela?

 

R – Julia!

 

P/1 – Julia! E ela estuda lá na PlayPen?

 

R – Estuda.

 

P/1 – E como é que foi a decisão de colocar ela lá na PlayPen?

 

R – Ah, na verdade eu já trabalhava lá, né? Então, eu casei em 1996 e a Julia nasceu em 2000. E quando ela tinha um aninho, um ano e quatro meses, ela foi para PlayPen. E a Julia sempre foi muito tranquila, lá dentro da escola. Por eu trabalhar lá, né? Acho que sempre, desde pequenininha, conseguiu separar isso: “Eu sou sua mãe, mas é meu emprego e você tem que me respeitar”. Né? E a Julia sempre adorou muito a escola, muito, muito! Ela sempre se deu muito bem, sempre. Graças a Deus, até hoje sempre foi uma excelente aluna, nunca deu problema de disciplina. Ela está indo para o sexto ano agora, né? Ela é apaixonada pela escola, mas apaixonada mesmo, assim, pelos amigos. Por ela, ela fica até às cinco da tarde todos os dias, mesmo não fazendo nada, o negócio dela é ficar lá dentro. Aí eu falo para Guida: “Ela vai ser minha assessora”. Fala da escola, assim, ela enche a boca para falar! E quando ela tinha quatro anos, foi quando a gente mudou lá para escola nova, né? E eu lembro que era tão pouquinho aluno... De manhã já era pouco, mas à tarde então, era um marasmo, você não escutava nem voz de criança, porque à tarde sempre a procura foi menor. E aí eu lembro que a Guida pediu para quem tinha filho, né, os funcionários, que deixassem as crianças semi-integral; para encher um pouco as salas da tarde. Porque às vezes vinham mães conhecer a escola e falavam: “Ai, só tem esse pingo de alunos?”. E ela falou: “Deixa os filhos de vocês aqui, pelo amor de Deus!”. Então, desde os quatro, a Julia ficava, e quando não precisou mais ficar, ela: “Mas eu quero ficar!”. Então desde os quatro anos ela fica lá até às três e meia. E depois, conforme foi mudando para o Fundamental, ela fica porque ela gosta de fazer esportes, que a escola oferece depois do horário. E fala Inglês fluente. Então, assim, graças a Deus, eu não tenho problema nenhum, até agora. Agora ela está entrando em uma fase meio de adolescente, então não sei... Mas, assim, de falar: “Tenho o privilégio de minha mãe estar aqui, então posso fazer o que eu quero”. Nunca, nunca, nunca! Sempre respeitou os funcionários. Acho que mesmo se eu não continuasse lá por algum motivo, com certeza eu a deixaria lá, né? Porque eu sei que ela se deu bem, tem criança às vezes que não dá, por ser bilíngue. Às vezes tem públicos que estudam na escola meio período. Ela não, adora a escola, adora, adora, adora! Foi muitas vezes capa daquele Guia Escola, de propaganda e tal. Os fotógrafos normalmente punham ela na capa. E ela adorava também! Então, ela durante uns quatro, cinco anos foi garota propaganda do Guia Escola da PlayPen, porque adora, adora!

 

P/1 – E você podia contar para gente algum fato pitoresco, assim, que aconteceu? Que você se lembra, com os alunos...? Do dia a dia da escola.

 

R – Ai, deixa eu pensar...

 

P/1 – Bom, também tem o folder qualquer coisa...

 

R – Vocês pegaram os folders?

 

P/1 – A gente vai buscar ainda, um dia! Então...?

 

R – Eu preciso pensar um pouco... Porque também foi tanta coisa que eu vivi lá dentro (risos).

 

P/1 – Então você podia falar para gente quais foram os seus maiores aprendizados na PlayPen?

 

R – Ah, acho que eu até já disse, né, um pouco. Acho que foi ter a oportunidade, assim, de trabalhar o dia a dia com esses estrangeiros, né? Um pouco que eu te falei. Com essas crianças especiais... No tempo em que eu era professora, que foi na gestão da Márcia, para mim foi de grande aprendizado, que foi a Pedagogia de Projetos. Acho que a minha relação com a Márcia também sempre foi muito boa, né? E acho que ela sempre falou muito de mim para Guida. Aí eu brinco com ela e falo... Ela falava que a gente era muito parecida. Então acho que se eu estou hoje um pouco nessa minha função, acho que tem um dedinho aí da Márcia, entendeu, de falar para Guida: “Ai, convida a Dani, que a Dani tem tudo a ver com você, ela é superorganizada, superprática, vai dar certo, não sei o quê...”. É... Então eu acho que é isso, num todo é mais ou menos isso. Eu acho que todo mundo que entra lá, que às vezes eu sinto, mesmo com a entrada da Célia, depois do Lyle, acho que como eles me viam como assistente da Guida e a pessoa mais antiga da escola, então o foco fica muito em cima de mim, assim, de querer saber, né, as coisas da Guida, de saber coisas da escola, do dia a dia. Daí eu brinco: “Agora vou começar a cobrar” todo mundo que entra, e já começava... Aí, eu falava: “Ai, vamos marcar uma reunião que eu acho que eles querem saber algumas coisas do dia a dia”. “Você é antiga, né? Trabalha diretamente com a Guida, né?”. Então, eu brincava assim. Mas eu acho que eles gostam muito de saber um pouco, até como ela é no dia a dia, então às vezes eles brincam: “Hoje eu posso pedir alguma coisa para ela? Como é que ela tá?”. Eles falam para mim. E eu falo: “Ah, pode ir lá que hoje tá tudo bem!”, eu brinco. Mas eu acho que de realização é isso! Acho que essas aprendizagens... E eu me sinto, assim, hoje, lá, como se a escola fosse minha, sabe? Eu acho que eu cuido – que isso é superimportante, né – que independente de ela estar lá ou não, eu cuido da escola como se ela fosse minha, sabe? Acho que desde coisas bobas, assim, que você vê no dia a dia. Acho que de gastos também, sabe? “Pode?”, “Não pode?”... Às vezes ela está viajando, precisa fazer uma decisão e tal... E acho que tudo isso também eu fui aprendendo um pouco com o jeito dela ser, né? Então acho que tem coisas que ela vai falar: “Tudo bem”, ou tem coisas que eu falo: “Melhor não”. Então eu acho que eu fui aprendendo muito com esse dia a dia dela, e que para mim foram muito importantes assim, né, para chegar onde eu estou. Então eu realmente gosto demais, lá! Então, até hoje eu brinquei com ela, eu não sei quem estava lá na sala, que foi um dia que ela me... Que eu mandei um torpedo para ela, que esses dias ela andou muito triste, e aí eu mandei um torpedo para ela e falei: “Como você tá? Achei que você foi embora da escola muito triste. Mas não fica assim, já vai passar...”. Uma coisa assim. E aí ela respondeu para mim: “Eu não tô triste, eu tô muito triste”. E ela falou que a hora que ela leu, parecia que eu estava lendo os pensamentos dela, porque ela falou que ela chorava, na casa dela! E aí, no dia seguinte eu não aguentei, aí eu falei... Tinha uma mãe lá, a mãe não entendeu nada, né? E eu falei: “Guida, para com isso! Não sei o quê...”. Fui lá, dei um abraço nela, falei: “Vai dar tudo certo! Eu amo você!”. Aí hoje eu já estava vindo para cá, e ela me chamou... Já estava atrasada e eu falei: “Gente, daqui a pouco eu não saio daqui!”. E aí ela falou: “Ai, esqueci de te falar uma coisa”. “Fala”, eu falei. “Esqueci de te falar que eu também te amo, viu?”. Daquele jeito... Então, essa relação que é gostosa! Que te deixa à vontade, que me faz cada vez mais me confirmar que eu estou no lugar que eu gosto, entendeu? Independente das outras coisas. Tem dia chato também, que você vai embora mal humorada, né, irritada. Não quer mais voltar... Aquela coisa, né? Mas eu acho que a maior parte é mais o lado bom do que o ruim, né? Então... E essa liberdade de poder falar, né? A gente nunca brigou, mas, assim, falar se gostou, se não gostou, você ter essa abertura... Então eu tenho, e para toda relação isso é bacana!

 

P/1 – Você acha que tem que fazer mais alguma pergunta? 

 

R – É que a outra... e já são três e meia, né?

 

P/2 – O que eu acho que ficou faltando falar foi das Bienais, que eu acho que é importante. 

 

R – Ah, se vocês quiserem a gente marca um outro dia.

 

[Parte 2]

 

P/1 – Então, Daniela, a gente estava conversando da outra vez, a gente falou bastante das suas atividades e tal. Agora, a gente queria retomar e pedir para você contar um pouquinho de como é que funcionavam as Dormidas na escola? Porque a gente conversou com vários alunos, agora a gente vai ter uma perspectiva um pouquinho diferente. Como é que eram essas Dormidas?

 

R – Então, na verdade, as Dormidas, elas começaram na casa antiga. Eu não lembro se a escola fazia antigamente. Mas, enfim, quando nós entramos se implantou os acampamentos e a Dormida. Então, o combinado era que um ano tinha a Dormida na escola, e um ano as crianças saíam para o acampamento. Então, assim, tinha toda uma programação no dia da Dormida, né? As crianças geralmente não saíam, e as Dormidas eram no dia da semana das crianças, que era uma das programações, e... Então as crianças iam para casa, enfim, e voltavam para escola. E tinha um monte de brincadeiras durante a noite, né? Que os professores faziam, né? Então, tinha desde peças de teatro, que era o professor que elaborava e que fazia para os alunos; caça ao tesouro com lanterna, porque tinha um playground grande... Então eram várias atividades feitas pelos professores, então isso sempre foi... Todas as Dormidas que fizeram, não tinha essa coisa de contratar teatro ou alguém de fora, sempre eram atividades dos professores para os alunos. E a gente sempre fazia, até para trabalhar um pouco esse negócio da autonomia, de dormir ou de montar a cama, ou de levar o colchão ou o colchonete lá, né, quando eles levam... E montar a cama. E dormiam as meninas em um quarto, os meninos no outro, faziam o desfile do pijama. No jantar, a gente sempre fazia cachorro-quente ou pedia pizza. Sempre uma coisa diferente, né? Mas foi uma coisa que a gente fez uns seis anos, a gente chegou a fazer nessa casa nova também, uns seis anos seguidos, direto. O último até foi aqui, logo que a gente mudou. Ainda era um grupo pequeno de alunos, né? E aí, no dia seguinte tinha o negócio do café da manhã, de arrumar as coisas. Aí tinha mais uma atividade no dia seguinte, premiação, enfim. E depois eles iam embora umas dez horas. Até era uma coisa que a gente estava conversando outro dia de voltar. Lógico que... Nós fazíamos antigamente do primeiro até o oitavo. Que o Fundamental dois tinha um grupo pequeno. Aí a gente já viu um ano lá; sexto ao oitavo não dava, porque à noite os pequenos dormem e os grandes não, né? (riso). Mas até o primeiro e segundo ano, eu acho que é uma experiência bem bacana para criança, e acho que dá para segurar o grupo, dá para você aproveitar, eles curtem as brincadeiras, né? Qualquer apresentação que você fizer ali, vai interagir com o grupo e eles... É esse negócio, né? “Eu vou dormir na minha escola e vou pôr o colchonete na sala”. É uma coisa que eles curtem, né? Então acho que para primeiro e segundo ano é uma atividade bem bacana!

 

P/1 – E como é que foi para você estar lá, como professora, em um dia como esse, de pijama também... Como é que era? 

 

R – Então, nessa época da primeira vez eu ainda era professora, depois eu não fui mais e acabei coordenando, né? Ah, sempre é uma experiência diferente, porque eles te veem como se você não trabalhasse lá, né? Porque muda o estilo da roupa, você como pessoa, você está ali brincando junto, né? Então é uma coisa que eu sempre acreditei de estar fazendo. Porque, por outro lado é uma coisa supercansativa também, né? Porque tem criança que chora à noite, a professora nunca dorme a noite inteira. Fica em atividade o tempo inteiro, né? Porque eles ficam supereufóricos, né? Até você acalmar o grupo, por mais atividades que você faça, de correr e tal. Então você acaba não dormindo a noite inteira. Mas eu acho que é uma atividade que, embora dê trabalho, é supergratificante. Porque você vê a criança chegando na escola superfeliz e aproveita. Tem aqueles que nunca tinham dormido fora, então é a primeira vez. Então essa conquista da criança que você vê, de tentar, e estar ali com todos os amigos. Então, acho que tudo que você foge um pouco da sala de aula, do dia a dia, do horário, e que você dá oportunidade para criança de estar vivenciando, embora dentro da escola, mas em um outro período e a professora com outro olhar, eu acho que vale a pena, né? Até eles ficavam surpresos, porque as professoras desciam de pijama, eles ficavam olhando e falavam: “Nossa, a professora de pijama!”. É uma coisa, assim, que para eles... “Quando que eu ia ver a minha professora de pijama, né?” E tomar o café junto, né? Então eu acho que vale muito a pena! Eu sempre gostei, assim, sempre... Acampamento e dormir dentro da escola, sempre foram umas coisas que eu sempre acreditei. Mas aí depois a escola foi crescendo, assim, e a gente foi... O acampamento continuou porque é uma coisa fora, mas a Dormida nós cancelamos por um tempo, porque é muita criança. Umas vinte e cinco na sala. A não ser que a gente faça primeiro e segundo ano, que acho que é a idade que mais aproveita com essa experiência, né?

 

P/1 – E você tem alguma história marcante, assim, dessa Dormida?

 

R – Dessa Dormida... Na verdade, assim, não sei se foi a última ou a penúltima que... Marcante não, mas que surpreendeu as professoras que estavam. A gente tinha uma professora lá, uma professora auxiliar, que patinava. E ela quis fazer uma apresentação para os alunos, né? Mas sabe coisa de primeiro mundo? Ela fez tudo sozinha, era a apresentação dela, então assim, ela estava com um collant todo iluminado. Ficava escuro, o pátio, e ela entrou, assim, patinando – acho até que era a história do Peter Pan e da Sininho – e a luz dela brilhava e ela patinando, assim. Foi uma coisa que os alunos ficaram... E nós também, que nós nem sabíamos que ela patinava. Então eu lembro que esse dia foi assim... das Dormidas, de apresentação dos professores, né? Foi que era uma professora superquietinha e de repente ela foi... E depois, no dia seguinte, ela ficou conhecida e aí os alunos queriam todos ficar com ela... Sabe aquela coisa? Então eu lembro que foi uma apresentação bem bacana, que as crianças ficaram enlouquecidas com a fantasia que ela estava, enfim. Queriam saber quem era, se era ela mesmo... Sabe aquela coisa? Então eu lembro que teve esse dessa apresentação, e teve uma de um aluno, assim, que foi um pouco isso que eu te falei, que nunca tinha dormido fora. Então as crianças foram para escola no dia da Dormida no horário normal, e ele, desde de manhã sofrendo, porque ele queria e ao mesmo tempo não queria, né? E aí a gente conversou com a mãe, e ele foi à noite, e tal. Menina, mas ele chegou com um colchão e tinha um urso. Sabe esses ursos grandes que tinham antigamente? Que tinha no quarto dele. Ele meio que montou em volta dele como se fosse o quarto para ele tentar dormir, né? Que eu achei... Então, a hora em que ele chegou, a gente olhou ali... as professoras, as coordenadoras, e falaram: “Meu Deus do céu!”. E aí ele foi, levou tudo isso, foto da mãe embaixo do travesseiro. Isso porque eles chegavam seis e meia, sete horas, e nove da manhã do dia seguinte a gente já mandava embora, porque o negócio ali era intenso e a gente também... Aí ele ficou um tempo, e quando foi na hora do jantar os pais voltaram lá, porque era um combinado, enfim, que tinha e tal... E aí, no fim, na hora de dormir, ele foi, dormiu, e ainda tive que ligar para mãe à noite para falar: “Olha, tá tudo bem”. Ele falar com a mãe de lá, e tal. E aí, no dia seguinte ele acordar e não acreditar que tinha dormido, sabe? Aí a gente combinou que a hora em que ele acordasse, ia ligar para o pai e aquele movimento todo. Mas foi uma criança que sofreu acho que desde o dia em que saiu a circular. A mãe falava... E uma mãe superparceira da escola e tal, mas você via o sofrimento dele a semana inteira. Daí, teve um dia que a gente virou e: “Então você não precisa. Você vem, brinca, faz as atividades e na hora de dormir você vai embora, né?”. E não, ele queria, queria, queria. À noite a gente até falou... Caiu umas lágrimas ali, né, porque... Mas de ele ter conseguido, ali. Então, foi uma coisa que marcou ali na escola. Porque a escola estava com um número pequeno de alunos, então a mãe estava lá o tempo inteiro, desde o momento em que saiu, e ele foi, foi, foi até o fim. E acabou conseguindo, né? Mas o mais engraçado foi a cena do urso, eu nunca mais vou esquecer, saí olhando no quarto... Porque a gente fala: “Quer levar um ursinho que você dorme, levar uma foto para por embaixo do travesseiro, ou um travesseirinho que você dorme...?”. Enfim, né, cada um deles dorme com uma coisa, né? Mas não um urso daquele, né? Parecia mais um hóspede, mais um acampante lá dentro da sala, né? Já não tinha espaço... Fora o que teve de gente que espirrou com aquele urso imenso! Mas que eu me lembro, foram esses dois. E dessa professora também, que foi muito bacana! Muito, assim... Nossa, eles ficaram... Então vamos ver se a gente consegue fazer voltar a acontecer com os menores.

 

P/1 – Então, aí nos anos que não tinha ia para o acampamento. E você chegou a acompanhar alguma das saídas? E como é que era ficar fora da escola com um grupinho de alunos?

 

R – Então, o acampamento nós fizemos desde 1996, né? A PlayPen não fazia esse tipo de acampamento, até quando eu entrei lá eu dei essa dica. Teve um professor de Educação Física, o Ricardo, e aí ele também conhecia um pouco esses acampamentos e nós começamos a ir um ano sim, um ano não, né? Que era para o Sítio do Carroção, que é superconhecido, né? Então, desde 1996 até hoje, nós fomos praticamente todos os anos. Tiveram dois anos que nós fizemos um ano a Dormida, um ano o acampamento. Dois ou três anos. Aí parou a Dormida e o acampamento todo ano. Até a gente começou a fazer o acampamento no princípio do ano, no mês de março, porque a gente via que era um momento em que as crianças já tinham voltado para escola, e que era um momento de integração entre o grupo, integração com a professora. E a cada ano a gente foi vendo que fazer no princípio do ano, para as crianças se conhecerem, para esse contato com a professora fora da escola, em um outro ambiente de atividades, né, o dormir, o acordar... A criança tomar banho... Lógico, a professora ali do lado. Mas estar vinte e quatro horas, né? A gente ficava três dias fora com as crianças. Sempre teve... As avaliações sempre eram positivas, assim. E de criança que nunca tinha saído para viajar fora, ou nunca tinha dormido a não ser na casa de vô e vó. Dormir fora... Então acho que isso também foi uma conquista, né? E lá também, assim, desde a mala que chega na escola, vão chegando no acampamento, essa autonomia da criança, né? Levar a mala para o seu quarto, arrumar a cama dela... Tem toda uma sequência de atividades, do que a criança vai vestir, então ver aquela que é organizada, aquela que ajuda a colega, aquela que presta atenção naquilo que você fala e coloca a roupa que... Dizer, né, maiô com shorts, camiseta e shorts... Se a criança realmente seguiu. Então, assim, foram várias coisas que tem em um acampamento, né, que a gente foi vendo que entre eles tem os laços de amizade, de ajudar o outro, de estar junto, da criança que chora à noite e o outro está ali do lado. Então a gente vê que começava o ano; na volta desses acampamentos as crianças voltavam completamente diferentes. Até davam uma amadurecida, enfim. Nós que somos da coordenação... Eu, por exemplo, que sempre vou, em todos os acampamentos. Então fico superconhecida deles por causa do acampamento, né? Porque é a hora que eles mais me veem ali, estão comigo dia a dia, porque... a Gabriela está junto no pedagógico, e eu não fico de sala em sala toda hora. Mas até esse vínculo a gente via que sabia o meu nome, quem era, né? Principalmente os novos. Então é uma atividade que a escola nunca deixa de fazer, e sempre as professoras acompanham também. Então vão acompanhando o grupo das crianças. Então, esse ano agora... esse ano não... Desde o ano passado, o que é que nós fizemos? Era só o Sítio do Carroção, e aí começou a ficar muito repetitivo. E aí nós separamos um pouco os grupos. Ficou primeiro e segundo ano, eles vão para o Carroção. Porque a gente acha que uma vez só para eles irem não é o suficiente, pois são muitas atividades, né? Não sei se vocês conhecem lá. Mas, assim, tem atividades que acho que a criança tem que voltar depois, porque o jeito que ela age ali, frente às atividades, vai mudando conforme o ano. Aí eles vão avisando os pequenos, o que é que vai acontecer, como que era e tal. E terceiro, quarto e quinto, a gente começou a ir para o RepLago, que eu acho que a estrutura já é para receber as crianças um pouquinho maiores. Nós nunca tínhamos ido, fomos no ano retrasado pela primeira vez. Eu não conhecia o acampamento, elas falavam muito, e aí eu fui conhecer e acabei levando esse grupo para lá, que também foi muito bacana. Acho que tem atividades focadas mais para os alunos mais velhos, né? E o Carroção eu acho que é para primeiro e segundo ano, eu acho perfeito. Pelo tipo de atividades, a fala do monitor ali que está com as crianças, enfim... Mas qualquer um deles gosta do Carroção, impressionante, né? Agora no ano que vem nós vamos de novo, já está marcado em março.

 

P/1 – E você tem alguma história desses acampamentos? Que tenha marcado, que ficou?

 

R – Desses acampamentos? (pausa) Não... Deixa eu pensar, assim... (pausa) Sabe, sempre é tudo tão tranquilo nesses acampamentos, as crianças aproveitam tanto. Elas são tão diferentes quando elas não estão com pai e mãe, né? Até na questão de autonomia, você fala uma vez e parece que todo mundo obedece. Sempre foi tudo tão tranquilo, assim, de disciplina e de obedecer, que... Eu acho que o que mais fica para mim são as crianças... Que nem na Dormida na escola, né? Lógico que em um grupo grande de cem crianças que você leva, a grande parte fica tranquila. Já foram para acampamentos, estão acostumadas a dormir fora... Eu acho que o marco principal, assim, são essas crianças que querem muito, têm o desejo, e têm ainda essa insegurança, né? Se vai conseguir, se vai sentir saudade da mãe, né? E acho que aí vai o lado da escola de acolher essa criança e fazer uns combinados, para que ele vá e que possa ligar ali para mãe. E que se sentir saudade ele vai poder voltar, a mãe vai poder ir buscar, né? Porque se a gente vai em um grupo de cem crianças, não dá para todo mundo ligar para mãe nesses três dias, senão não faria outra coisa que não ficar ligando para mãe, né? Mas sempre tem um ou outro que a gente deixa. Então, para mim o marcante é isso, essas crianças que se esforçam e vão, e acabam ficando. Tem ali o choro da primeira noite um pouco, que não vai aguentar, enfim. E que depois acaba dormindo ao lado da professora, ou ao lado do amigo que mais gosta, né? E na segunda noite a gente vê que não tem problema nenhum, que aí acho que já vem o cansaço, né? Porque direto em atividade, eles vão dormir tarde, acordam cedo. Não querem perder um minuto! E tudo com água, praticamente, ali! Você caminha bastante, no horário livre correm para todos os lados. A gente brinca que na segunda noite eles nem lembram da mãe, quem liga para as mães somos nós, porque tem um combinado, né? Então eu acho que é essa conquista, assim, que eu vejo, que vale a pena. E a mãe acaba também se orgulhando e agradecendo a escola, né? Porque a gente podia falar simplesmente: “Então não quer, não quer, então não vai, porque é mais um trabalho para nós”, né? Mas só que para nós é o contrário disso. São esses que não querem ir, assim, por uma insegurança, que a gente batalha para eles irem. Então geralmente o quórum das crianças é assim... sei lá, de cem, três ou quatro não vão. Aí, não vão acho que é mais a mãe, porque a mãe não está preparada em estar mandando, às vezes você vê até que o filho está, que está querendo, mas ela fala: “Não, eu não consigo”. E aí, quando é a mãe, não tem muito como convencer. Acho que a mãe tem que estar preparada e segura para estar mandando. Mas geralmente vão todos os alunos, todos! E nunca aconteceu nenhum acidente, sabe, assim, de ficar ruim, ou de machucar e tal. Nada disso! Sempre foi supertranquilo!

 

P2 – E você como mãe, na escola, sua filha deve ter participado de todas essas atividades; Dormida, esses acampamentos. Como é que era você estar junto com ela, assim?

 

R – No começo era bom, né... Eu pensei que eu tivesse desligado meu telefone, mas eu... Não, eu só queria... No primeiro e no... Quando minha filha estava no primeiro ano e no segundo, eu ia, mas não ficava. Lá tem a divisão, né, menino e menina, e aí eu acabava ficando no quarto em que ela não estava, porque, afinal de contas, ela também tinha que viver um pouco esse acampamento sem a mãe dela, né? E quando ela foi para o terceiro e para o quarto, que foi a primeira vez que nós fomos para o RepLago, eu também fui acompanhando, porque era a primeira vez, e quem coordena os acampamentos sou eu. Eu fiquei em uma ponta e ela ficou na outra, porque ela falava para mim... Ela: “Ah, porque não é justo, porque não vai mãe nenhuma, porque só vai você!”. Eu falei: “Não, mentira, porque tem professora que tem filho ali e acaba indo”. Mas a gente deixa com outro professor e trata como se fosse um acampante normal. Mas sempre foi tranquilo para ela. Mas ela brinca que ela nunca conseguiu viajar para nenhum lugar até agora sem a presença da mãe, e já chega aqui na escola e a mãe está lá dentro, né? E agora, no ano que vem, ela vai para o Canadá, e aí eu falei: “Não”. E eu acompanho o grupo, já acompanhei o grupo do Canadá duas vezes, né? Aí eu falei para ela assim: “Não, o ano que vem eu não vou, acho que é um direito seu”. Até falei para Guida: “Guida, se você, quiser eu vou qualquer outro ano, mas no ano que vem eu não posso ir porque é a primeira viagem internacional, nunca foi mãe, não pode, as professoras quando têm filhos não vão, não são escolhidas”. E aí eu brinquei com ela outro dia: “Não, para o Canadá eu não vou, você vai sozinha mesmo!”. Mas eu nunca tive... Assim, com a Julia – ela estuda lá desde um ano e meio – eu nunca tive nenhum problema com ela dentro da escola, de misturar um pouco essa relação. Então se ela se machuca é outra pessoa que atende, se ela está com problemas é outra pessoa... Então sempre mantive essa relação. E nos acampamentos também. Elas falam, mas no fim, quando você está lá, é a primeira a te procurar, né, aí eu olho: “Não, você vai procurar outra pessoa, porque eu não sou sua mãe aqui”. Mas é tranquilo, porque... Ela está com dez anos, e ela foi se envolvendo já tanto com isso que já faz meio que parte do processo dela, ver a presença, a figura da mãe dela. Mas ela nunca foi de ficar muito em cima de mim, ela só brincou do Canadá agora, ela falou e eu falei: “Não, não vou para o Canadá com vocês, pode ficar tranquila”. Então é isso.

 

P/1 – E para gente voltar um pouquinho para época que a escola era menor, que aconteciam as Olimpíadas; como é que eram essas Olimpíadas, se envolviam todo mundo, como é que era a sua participação?

 

R – Era do tempo em que eu era professora ainda e eu acho... Não me recordo agora quantas nós fizemos... Não sei, mas foi quando a gente ainda estava na casa antiga. E, que eu me lembre, não teve mais, posso estar... Então, assim, quem coordenava era o professor de Educação Física; era uma experiência que ele já tinha vivido em outra escola. Então a gente parava mesmo... Se não me engano, também era na semana da criança. Que como tinha essa semana do saco cheio... Mas era uma semana em que a gente parava um pouco com o conteúdo pedagógico e fazia outros tipos de atividades também com o aprendizado ali. Então, assim, era desde o desenho da camiseta, né? O primeiro ano, eu lembro que o professor levou até aquela tela de silk screen, né, que fala? E as crianças que faziam a camiseta e escolhiam símbolos, né? Os símbolos eram a bola, o círculo e o triângulo. Então eram os três times e misturavam as faixas etárias, né? O futebol tinha desde a criança do primeiro ano até do quarto ano, porque era do primeiro ao quarto. E tinha também esse objetivo da integração, né, dos maiores com os menores. O jogo, o desfile da apresentação... Então, tinha toda uma programação, mas o bacana era isso, que o professor envolvia os alunos desde o princípio. Então tinha desde como ia ser feita a camiseta, a confecção. Não tinha professora de Artes naquele tempo, então nós é que fazíamos junto com o professor... Os treinos que ele fazia... Então, assim, começava desde cedo, então tinha lá a escala de quem ia jogar com quem. Mas era uma coisa muito gostosa! Quando o grupo é pequeno, então fica tudo muito fácil de você estar fazendo, né? Então, eu lembro que era a semana inteira e as modalidades. E tinha também as inscrições para as crianças escolherem aquilo que ela tinha mais habilidade, enfim. E depois tinha a premiação, a Guida sempre estava presente nesse dia! Aí tinha umas crianças dos mais velhos, as mais velhas, que faziam apresentação lá de cheerleaders, de torcida, antes e depois, um concurso também que fazia parte. Mas era uma coisa assim bem interna, que era só os profissionais da escola e nós, né? E aí nos outros anos eu acho que foi ficando mais... A camiseta a gente já mandou fazer fora... Foi incrementando... Eles fizeram o desenho, aí as camisetas já foram feitas fora e... O que é que teve de diferente também? Que eu falei: “Nossa, cada ano a gente faz uma coisa diferente!”. Desse ano acho que foi a camiseta que foi fora, no outro ano a gente convidou uma escola para estar vindo participar, e... É, iam acontecendo as coisas naturalmente. Mas era uma semana supergostosa, que as crianças curtiam muito! Às vezes dava briga, aquela coisa de time, e que também fazia parte estar junto ali trabalhando isso. Porque como não pode brigar, né? Teve uma vez, assim, que teve uma briga superfeia, aí os dois saíram, perderam pontos... Porque tem toda uma pontuação. Eu lembro que ficaram, assim; uma turma ficou superchateada! Mas você via que era uma coisa que a gente levava a sério, não era só porque era jogo, que conversava, não! Que era assim: “Que tinha regras assim, tinha que se comportar, que tinha os pequenos... Que discutir no jogo fazia parte, mas agressão física não”... Então eu lembro que ficava uma tabela no refeitório – porque o refeitório era superpequenininho – com todas as pontuações, né? E se tivesse advertência, alguma coisa, se tirasse ponto. Porque é que tirou, ou se a equipe se comportou demais e estava lá a quantidade de pontos, enfim, que eles iam acompanhando a semana inteira. Então foi uma época, assim bem gostosa, que você via que eles gostavam muito!

 

P/1 – Eu não sei se você vai lembrar, mas a gente estava falando dessas atividades: da Dormida, das Olimpíadas, dos acampamentos... E como é que era? Era em Português, Inglês ou tinha atividades...?

 

R – Na verdade, assim, nos acampamentos sempre foi em Português. A escola uma vez fez o acampamento, daí quem coordenou foram as professoras do Inglês. Era um acampamento que se chamava English Camp. Que até não foi um acampamento que a escola traz boas recordações, que deu “n” problemas lá, então foi um único ano e não teve mais. Porque a ideia era ser um ano em Português e um ano em Inglês. Só que aí, como já não tinha dado certo esse, ficou uma coisa que o Português liderava, coordenava, né? Então sempre foi em Português. A Dormida na escola também era uma atividade do Português, e que nós convidávamos as professoras de Inglês, né? Então eu acho que duas vezes elas fizeram uma apresentação para eles em inglês, o resto era sempre em Português. O que elas mais faziam e se empenhavam era com o Halloween, que aí ficava só uma coisa do Inglês. Teve uma época que foi durante o dia, que tinham atividades do Halloween dentro da escola. Teve uma vez que nós fizemos à noite, e foi muito bacana! A escola contratou uns malabaristas com fogo, e as crianças foram com aquelas fantasias superiluminadas! E tudo isso foi o Inglês que coordenava, então a gente começou a separar um pouco. Então a gente via, assim, que o Halloween... Deixa eu ver se tem mais alguma coisa que o Inglês coordena... Ficava o Halloween com Inglês e Dormida e acampamentos com Português. E de um tempo para cá, a preferência é pelas professoras do Português no acampamento, mas a gente faz um convite também para as do Inglês para aquelas que querem ir. Então, hoje em dia vai muito misturado, assim Português e Inglês. Porque o que é que eu faço? Eu dou preferência para as professoras do Português, depois para as professoras do Inglês, e aí vão entrando as auxiliares, quando a gente precisa. Então, hoje está um pouco integrado esse acampamento, de irem as duas, mas lá em si, o acampamento é em Português, não é em Inglês. Tem o NR que as crianças do Fundamental dois vão, que até esse ano era o (Mister French?) que comandava. Porque tem uma semana no NR que é de esportes, que só vai o Fundamental dois, e eles jogam contra outras escolas. É um evento bilíngue, porque tem escola internacional, escola brasileira, enfim. Os monitores são bilíngues lá, então eu sei que tem muito mais o Inglês ali do que o Português. Eu nunca fui nesse evento, nunca. Então agora é capaz de eu começar a ir a partir do ano que vem. E é uma semana inteirinha lá no NR. E que seria um acampamento do currículo do Inglês, entendeu? (pausa) É, eu acho que é isso.

 

P/1 – E aí, no pátio da escola antiga tinha aquela famosa jabuticabeira. Você tem alguma história para contar que envolva ela, ou que tipo de energia, ou sei lá... Simbolismo...?

 

R – Na verdade, tudo que nós fazíamos de diferente, nós fazíamos em volta da jabuticabeira. Então, no princípio do ano, quando começavam as aulas, né, para todo mundo se apresentar, os professores, os alunos, a gente sempre fazia uma roda em torno da jabuticabeira. Sentava, e ali era feita a apresentação dos professores, alunos, de como seria o ano, as metas do ano, sempre em volta da jabuticabeira, parecia que era o ponto referência ali da escola. E na casa antiga, não sei se vocês viram alguma foto, ela ficava bem... As salas de aula ficavam aqui, e ela ficava ali, então todas as janelas davam para jabuticabeira. Teve uma vez que a Guida... Foi o aniversário da Guida, e nós contratamos aqueles Trovadores Urbanos, né? E aí, eu lembro que foi em volta da jabuticabeira, eles cantaram ali, as crianças ficaram em volta. Então eu falo que essa jabuticabeira tem tanta história para contar, porque tudo acontecia... Então, o aniversário de alguém, assim... a Marinalva, ou tinha a Conceição, que era uma cozinheira antiga... A gente se reunia em volta da jabuticabeira. Reunião pedagógica dos professores, ou algum workshop que nós fazíamos, às vezes, aos sábados, muitas vezes a gente se concentrava em volta da jabuticabeira, ou punha as mesas ali, ficava trabalhando ali em volta mesmo. E quando ela dava fruto também, nossa, era uma briga, porque todo mundo olhava e tinha até um rodízio, né, que as crianças que iam pegar. E aí, quando a gente mudou para casa teve toda essa história da jabuticabeira, porque não podia tirar ela do lugar. Então a gente precisou pedir autorização para tirar, para remover. Então foi uma luta para ela ir. Quase que ela não foi para cá, para escola nova, porque foi assim, deu muito trabalho! para tirar ela do lugar com autorização. E a gente já era pouco visado diante de tudo que aconteceu, né? Então, qualquer coisa errada que nós fazíamos, né? Então, eu lembro que foi uma coisa que a gente batalhou muito, para não perdê-la, né? Porque se a gente não conseguisse, talvez ela nem fosse estar lá, né? E ela está lá! Tanto é que, quando a Márcia foi tirar foto lá, ela falou: “Ah, onde que você quer tirar?”. E eu falei: “Ah, vou tirar na jabuticabeira”. Porque, assim, os alunos antigos lembram muito dela, as crianças ficam muito em volta dela, acho que é por isso que eu falei que ela está viva. E quando ela dá jabuticaba, eles comem, eles falam para escola inteira, então é uma coisa, assim, parece um símbolo da escola. E a Márcia Plessmann, sempre quando vai nos visitar, ela fala, entra, conversa e, na hora de ir embora, ela fala: “Ah, vou dar um beijo lá na jabuticabeira”. Porque ela é apaixonada pela jabuticabeira. Então acho que por um tempo foi um ponto de referência ali. Até quando a gente mudou para o prédio novo, em 2003, eu lembro que o primeiro encontro nosso ali no pátio não tinha aluno, nada... Não dá para fazer a roda em volta dela, ela está em um cantinho e não dá, mas eu lembro que ficou todo mundo concentrado perto dela, porque também foi uma luta para ela ter ido para lá e ter ficado ali. Então foi... Tá lá! Vamos ver por quanto tempo ainda. 

 

P/1 – Aí você chegou a comentar um pouquinho do Halloween agora... Quais eram as festas, assim, marcantes da escola fora o Halloween? Como é que elas aconteciam?

 

R – Então, festa, festa, assim, tinha... Algumas comemorações, né, assim... Que eu vejo que ainda acontecem um pouco. No princípio do ano tem Carnaval, né, que as crianças vão fantasiadas, então isso é uma coisa que sempre acontece na escola. Daí tem o Halloween, a festa junina... São coisas que acontecem todo ano! Nós não fazemos festa de Natal, assim, de encerramento, não tem, a escola não faz. E antigamente tinha o dia dos pais e o dia das mães, aí virou o dia da família. E aí, ano passado, faz uns dois anos que a gente não consegue... Que deixamos, na verdade, de fazer esse piquenique, porque o espaço ali da praça em frente à nossa área de lazer começou a ficar pequeno. E aí, até esses dias a gente foi retomando umas coisas que a escola deixou de fazer e que eram bacanas, e uma delas foi esse piquenique que independente de... Nunca vão todos os pais, né? Mas independente disso, acho que algumas coisas teriam que voltar, né? Então era esse do dia da família e da Dormida, que seria só para primeiro e segundo ano. Mas eu acho que festa, festa tem isso! E tem a formatura, né, que não é uma festa, assim, mas é um evento da escola, dos alunos do nono ano, que nós começamos a fazer... Antigamente era só a entrega do diploma, uma cerimônia simples, e com o tempo ela foi incrementando, e hoje em dia os alunos... É... A gente contrata um buffet, porque, depois da cerimônia, eles ficam com as famílias ali na escola, tem a elaboração de um convite que eles fazem. Eles escolhem um professor para ser homenageado, paraninfo. Então foi criando uma outra cara, né, a formatura. Que antigamente não tinha e eles começaram a pedir. Então, acho que é a formatura, a festa junina, o baile de Carnaval, o Halloween... Eu acho que são essas que acontecem bastante. Tem um que é do dia das avós, o Chá das avós, que isso também é muito bacana, né? Se não me engano, é com a sala do segundo ou do terceiro ano, que é uma atividade que elas fazem. É um livro de história voltado para as avós, e no final acho que é um livro que fala de brincadeiras antigas, brincadeiras atuais, e eles tem que fazer toda uma pesquisa com os avós, do que eles brincavam, e tem essa troca. Então os avós vão para escola e trazem um brinquedo da época deles. E aí eles fazem uma roda, e explicam para o que é que era, o que é que era, o tempo em que eles brincavam. E isso também ficou uma coisa que sempre acontece na escola, que os avôs até esperam: “Ai, que ano que é que os avós vão?”. E aí acabam indo todos os avós, e depois nós fazemos um chá para eles. Mas é só no terceiro, acho que é segundo ou terceiro ano. Então isso é uma coisa que também acontece sempre. Olha, que eu me recorde é isso. E a semana da criança é uma coisa que acontece mais em um foco maior na Educação Infantil. No Fundamental, na verdade a gente não faz atividade durante a semana. Eles têm um almoço diferente, que é na sexta-feira, aquele almoço: hambúrguer, batata frita, sorvete. E a Gabriela deixa agora, para o final de dezembro, fazer uma semana diferente com eles. Então tem um show de talentos, que é uma coisa que há dois anos acontece e que, assim, vem dando resultados surpreendentes para nós. Porque a criança se inscreve e apresenta para escola, né? E é muito engraçado, tem criança que canta, que dança... Mas, assim, é muito elaborado! Depois, até o dia que for eu convido vocês para ir, que vai ser agora seis e sete, vocês não vão acreditar no que vocês vão ver lá! E aí é show de talentos mesmo! A criança incorpora o que ela quer e vai, mas, assim, a gente fica impressionado como eles curtem! Então eles já estão ali nos ensaios, até hoje era o dia da inscrição. Então eu estou vendo que isso é uma coisa que tá crescendo na escola. Então já está mais sofisticado, agora já tem... Antigamente não tinha nada, só recebia no dia da apresentação. Agora já tem show de talentos, uma faixa imensa lá. Tem as inscrições que não tinham. Enfim, tem todo um figurino que eles pedem e a escola ajuda, a mãe liga... Mas é um evento interno ainda, a gente não abriu para os pais. Então, nessa última semana de aula acontece isso para eles, como se fosse uma semana das crianças que não acontece, né? O amigo secreto... A gente sempre contrata um teatro, alguma coisa diferente para eles... E a Educação Infantil, ela tem aquela semana que um dia pode ir de fantasia, um dia toma um sorvete, um dia vai de pijama, enfim... Tem aquela semana deles diferente. Então elas seguem, o Fundamental não. 

 

P/1 – E mudando agora um pouquinho de assunto, e as Bienais? Você chegou a participar enquanto professora de alguma Bienal?

 

R – Eu participei da primeira, que foi da Tomie Ohtake, que era a época em que a Márcia coordenava. E que não tinha professora de Artes ainda na escola, então essa eu participei, como professora. E tinha toda uma preparação, desde os workshops daquilo que você ia trabalhar com seu grupo... Primeiro tinha um aprendizado para a professora, né, do conhecimento, das obras, de como você ia fazer, e depois cada uma, dentro do seu grupo, tinha que achar ali um fiozinho para ver onde ia entrar e como você ia fazer e de onde você ia partir para estar trabalhando com seus alunos. A escola sempre adotava o livro do artista, né? E essa foi muito bacana porque ela foi no dia da Bienal, né? Foi ali na escola mesmo, mas ela emprestou uns quadros, então junto com as obras dos alunos tinha uns quadros dela. Então foi superbacana! Eles foram visitar ali a casa dela, ela morava ainda ali no Campo Belo, não sei nem se ela mora lá ainda. Então todas as salas foram visitar. Então eu peguei essa, que foi bem marcante. Foi a primeira. A escola nem acreditou em tudo que fez, porque foi a partir dos professores com a coordenadora, não tinha uma pessoa especializada, uma assessora de artes, enfim. Nós fomos estudando e fomos fazendo, e acabou dando tudo certo. Então foi muito... Tem até uma foto dela chegando na PlayPen, cortando a fita para entrar, o livro... Não sei se a Gabriela chegou a mostrar esse livro das Bienais, de todo mundo que visitou... Então, a gente tem um livro ata que todo mundo faz os registros, de todas as Bienais, e está guardado lá na escola. Então talvez alguns depoimentos de pais, do próprio artista quando é vivo, enfim... Tem esse livro lá guardado, então foi...

 

P/1 – Só para gente entender melhor, como que surge a ideia da Bienal, você lembra? Em que momento... Porque não tinha professor de Artes, daí...?

 

R – Como começou? Agora você me pegou... Eu não sei, né? Posso até estar enganada, mas pelo que eu me recordo, eu acho que foi uma coisa que começou com a Márcia, uma coisa que ela acreditava muito, essa questão da Arte. Eu acho que por não ter a professora de Artes, em algum momento você tinha que estar trabalhando ali com os alunos, né? E aí a gente... Eu não lembro... Foi um ano de Bienal também, no Ibirapuera – porque a gente faz junto com as Bienais. Eu não... Gozado, eu não sei dizer de onde surgiu para fazer a Bienal, mas... Eu não sei se ela trouxe da outra escola, enfim... E... Mas eu acho que foi, pelo que eu me recordo, eu acho que foi por causa disso mesmo. Primeiro por causa de uma coisa que a escola acredita, nesse trabalho da criança estar conhecendo vários tipos de artistas, vários tipos de obras, vários... E ir em Bienais, várias exposições. Acho que tem um pouco essa preocupação cultural, da criança estar sabendo... Hoje mesmo eles foram à Bienal, o primeiro e segundo... A Gabriela chegou quase com o cabelo assim em pé. Falei: “Gabriela, só você para levar cento e cinquenta alunos de uma vez na Bienal de Arte!”. Ela falou que nem sabia o que fazer, ela chegou lá exausta. E a Gabriela adora, né? Arte é com ela mesmo! Então, acho que pelo que eu me lembro foi isso, a Márcia tinha alguma experiência e não tinha professor, e a gente começou a trabalhar entre nós. E aí surgiu isso de a gente escolher sempre um artista para homenagear, e adotar esse artista, fazer workshop com os professores, estudando, e depois discutindo com os alunos os diferentes tipos de obras, né? E, enfim, aí acho que começou, aí ficou a primeira. Aí, acho que a Guida conhecia uma pessoa ali que tinha conhecimento da Tomie Ohtake... E aí foi. No outro ano não teve, depois no outro ano nós voltamos, que acho que foi... Não lembro a sequência agora das Bienais... Não sei se foi Lasar Segall logo em seguida... E aí, quando a Márcia saiu, a Gabriela assumiu. A formação dela é voltada para isso, então ela assumiu. Aí começaram as Bienais a ficar maiores, ela é a curadora, enfim. Só que agora tem assessor de Artes, tem as professoras de Artes, enfim... Mas é uma coisa que, para escola; acho que quando os pais ficam sabendo, eles não têm noção daquilo que eles vão ver. Porque é uma coisa que envolve desde as crianças de um ano e meio, até o nono ano. Então você vai falando, você vai falando... Um dia antes não tem aula, porque quando é feito na escola tem toda uma montagem. E acho que quando os pais chegam, eles não imaginam que é tudo aquilo, sabe? Tem pai que fala: “Ah, um trabalhinho de Artes...”, né? Uma coisa assim... E não é, tem uma abertura, às vezes a gente consegue do artista estar lá, os quadros dos artistas que às vezes a gente consegue e ficam expostos... Enfim, tomou um rumo, assim, bem com aquilo que a escola acredita, gosta. E para os pais também, eles falam: “Nossa, esse conhecimento, essa aprendizagem do aluno, essa valorização que a escola dá para isso é muito bacana”, né? Porque tem escola que às vezes nem leva em Bienal, não faz nada, né? E aí coincidiu de ser junto com os anos das Bienais. Esse ano só que não teve, porque a princípio seria os trinta anos da... Primeiro ia ter um artista, aí depois a Guida falou: “Melhor não, vamos fazer os trinta anos da escola”... Era para estar acontecendo agora no final do ano. Não ia ser Bienal, mas ia ser a história da escola. Então foi o primeiro ano, que na verdade foi só adiado, para o ano que vem. E acho que também eu não daria conta de fazer as duas coisas, a história da escola mais em cima de um artista, o trabalho, enfim. Mas deu uma outra cara. Foi o primeiro ano, todos os outros foram bem interessantes. Eu fico mais nos bastidores: montagem, material, o que é que precisa, visitar o ator... O ator, né, o artista, quando ele está vivo. Ir no ateliê, agendar para as crianças irem lá; que às vezes não são todos que recebem, mas às vezes algum recebe, às vezes algum recebe uns poucos alunos e a gente faz uma seleção, um sorteio. Mas é uma coisa que no fim acaba envolvendo todo mundo, né? Desde o pessoal da limpeza, que acaba trabalhando no dia, conhece um pouco mais da arte, ajudam com as crianças... Porque a escola fica mais suja, né? Tinta, né? A sala de Artes não fica limpa nunca. E aí, acho que tem um pouquinho ali de cada um, e no dia todos trabalham. Do Edson, nos orçamentos, que chegam e ele deve ficar de cabelo em pé, do material que pedem, enfim, é um movimento da escola, eu acredito, que é um movimento da escola toda, para estar participando. Então é bem bacana.

 

P/1 – E qual você acha que é a importância de um evento como esse, que envolve todo mundo, que discute a Arte?

 

R – Ah, eu acho que é... Na verdade, é um dos eventos bem fortes e marcantes, né? Lógico que de todas que tiveram, eu acho que umas, as crianças se envolvem mais, dependendo do artista, né? Eu acho que quando o artista é vivo, para as crianças estarem conhecendo... Eu nem posso dizer, assim, que o trabalho fica mais bacana, mas para eles é bem mais interessante, porque aí eles sempre estão lá na escola, veem os trabalhos dos alunos, aí eu vejo um envolvimento maior. Agora, eu acho uma riqueza, fora o que a criança aprende, eu vejo até pela minha filha. O jeito que ela fala, que ela retrata a ele, o estilo da obra, né? Quando eu vou à Bienal, fora da escola, a explicação que ela dá... Enfim, eu acho que é uma oportunidade única para eles, né? Aprenderem... Porque ali nem sempre todos os pais, sei lá, de repente fazem atividades culturais e levam os filhos em determinados lugares. Acho que chega final de semana e muitos não têm paciência para fazer mais nada. Então, acho que é uma coisa que a escola proporciona e que vem dando resultado, né? As crianças já pedem, tem um envolvimento delas, e acho que como aprendizado também, porque você pergunta sempre... Geralmente as exposições são feitas dentro da sala de aula, e eles ficam lá para explicar, e aí você vê que tem uma aprendizagem, que a explicação é coerente com aquilo que a escola passou durante o ano inteiro trabalhando, que é uma coisa que começa no começo do ano e termina. Então, é uma coisa que dá trabalho, a gente fica de cabelo em pé, mas vale a pena. Porque no final, tanto da parte do conhecimento, como também do resultado artístico, é bem bacana! Teve um ano que os pais queriam que leiloassem os quadros das crianças. Tinham uns que pareciam obra de arte mesmo! E eles falavam assim: “Mas vocês não vão ver quem quer?”. Sabe? Uma coisa de louco mesmo! Então você vê que as crianças ficam superempolgadas, super, super, super! Então acredito... E acho que é uma oportunidade única para estar trabalhando. Acho que por envolver todo mundo, pelo aprendizado que causa em todos e que você vê que o resultado final dá certo, não é uma coisa... E só isso.

 

P/1 – Teve alguma, fora a primeira que você falou, da Tomie, que você participou como professora e que te marcou? Que você lembra de ter visto no corredor algum negócio bacana, ou que o tema...?

 

R – Das outras Bienais? Teve uma que eu não sei... Acho que foi do Lasar Segall, que tem o desenho de um barco, não sei se vocês já viram? Tem até na escola... Eu não sei se foi em 2000, eu não sei... Mas tinha... Que foi muito forte, que foram as crianças que fizeram, né, que ficou uma perfeição, assim... Eu lembro direitinho dele pronto, e eu subindo com a Guida para ver, e no fim ele acabou até ficando na recepção, ali atrás do balcão da entrada, tal. Então, foi uma das Bienais também que as crianças curtiram muito, do Lasar Segall. Acho que depois teve o Guilherme Farias que também foi... Eu não me lembro, assim, de ter tanto envolvimento das crianças... Aí, depois teve... Nem eu lembro mais de todas as Bienais que tiveram, mas enfim. Eu acho que marcante para mim foi da Tomie e do Lasar Segall, que eu lembro que foi a obra lá do barco, que tem até um nome, o nome do quadro. Barco... 

 

P/2 – Das cores?

 

R – Das cores... É, uma coisa assim... Isso mesmo... Que ficou supermarcado! Já está sabendo mais que eu... É que é tanta coisa! (riso) Que foi bem bacana assim!

 

P/1 – E você comentou da viagem para o Canadá. Como é que foi a sua primeira viagem para o Canadá com um grupo de alunos?

 

R – Ah, foi uma experiência (risos) nova, bem marcante. Porque assim, eu nunca tinha viajado... Eu tenho experiência de viagem com aluno, sou supertranquila, assim, com criança, para viajar. Se acontecer alguma coisa, não entro em pânico, nada disso. Mas você ir com um grupo para fora, para o exterior, aí acho que a responsabilidade aumenta um pouco mais, né? Então nesse primeiro ano, como estava no começo, o Lyle acabou indo junto também, né? Ele foi no primeiro ano e no segundo. Só que aí depois ele veio embora e eu fiquei com o grupo lá mais uns dez dias e voltei com o grupo sozinha. Mas olha, foi uma experiência tranquila. Lógico que é primeiro ano e você fica nervosa, não conhece todo mundo, não sabe como... Não dos procedimentos, mas tem todo um esquema de visitação das famílias, entrega das famílias, né? As atividades que eles fazem fora da escola, então, foto que você tem que tirar, o e-mail que você tem que mandar para o pai todo dia daqui do Brasil, né, porque eles querem ter notícia. E das crianças lá, em si, né, das casas. Se estão comendo, se estão tomando banho, se estão trocando de roupa... Sabe aquela coisa? Como é que está o quarto? Se estão ajudando dentro da casa... Enfim... Se estão levando lanche para escola... Às vezes, acho que são detalhes, assim, muitos detalhes, que acho que só você vivenciando ali, acho que você sabe. E no fim, como tudo, dá tudo certo, todo mundo fica adaptado, a volta sempre supertranquila. Às vezes... Nessa primeira vez que eu fui, um aluno perdeu o passaporte na hora de voltar, tem essas coisas, né? A mala de um que não chega, se você perdeu o próximo vôo, porque ficou procurando a mala, aí você tem que pôr todo mundo no outro vôo, sabe essas coisas? Mas eu acho que é experiência válida para você também, né? Porque no fim acaba todo mundo te atendendo, né? Porque você mais quinze crianças, todo mundo quer que você vá embora rapidinho, né? Porque o auê que é né? Então, a primeira vez foi super. Agora, o ano passado, quando eu fui de novo, aí eu fui com uma professora que nunca tinha ido, então para mim já foi mais tranquilo, porque eu já conhecia todo mundo, já sabia o esquema. Dessa vez teve uma criança que deu um pouco de trabalho, de adaptação lá. Então tive que ficar muito, assim, com ela, porque foi difícil nos primeiros dias, na casa. E sempre com meninas às vezes é um pouco mais difícil, porque o menino vai se interagindo, né? Quando tem menino na casa às vezes fica mais fácil. Mas eu falo que eles chegam, e todas as casas tem um quarto. Você vai lá visitar o quarto da criança, é superarrumadinho, a cômoda para estudar... Aí, depois você volta na casa, a criança não está nem mais lá no quarto, o colchão dela já está no quarto do irmão canadense, né? Eu vejo que, assim, brasileiros... Os alunos; acho que brasileiro em si, e os alunos, né, é um pessoal muito afetivo, não gostam muito de ficar sozinhos. Então, nenhum deles gosta muito de ficar sozinho, acho que depois de uma semana que ficam com aquela intimidade, você vê que já fica todo mundo em um quarto só. Então é uma coisa... Eu falei outro dia para Guida: “Guida, é impressionante, eles não ficam sozinhos. Eles sempre estão em algum outro lugar da casa, junto com alguém, porque acho que não gostam de ficar”. Mas eu acho, assim, que é uma experiência riquíssima! Tanto na escola, a gente é superbem recebido ali, os alunos em sala de aula. As crianças de lá estarem com um grupo de brasileiros, né? É uma coisa que a cidade – como é uma cidadezinha muito pequenininha, a cidade inteira espera a turma chegar. Então sai no jornal. Quando nós vamos... Geralmente tem aquele jogo de hockey à noite, que vão as crianças, então eles põem a camiseta do Brasil. Então sai no jornal também, porque eles vão assistir, acabam ganhando aqueles tacos para trazer, para ir embora, enfim. Então, assim, em todos os lugares em que você vai eles já sabem que vocês são os brasileiros. Quando nós vamos para estação de ski, aquele grupo imenso, daquelas crianças... Então imagina ele recebendo doze crianças. E põe a roupa, e põe a bota, tem criança que nunca esquiou, nunca fez snowboard, enfim... Então eles já esperam, tem os professores... Mas, assim, é muito gostoso para criança e também para quem está acompanhando, porque aí você acaba indo nessas atividades, nesses esportes de inverno todos os dias com eles à tarde. De manhã eles vão para escola e você acaba encontrando com eles na escola. E cada dia da semana tem uma atividade diferente para eles estarem fazendo. E aí uns acabam... Né? Patinar no gelo, tem um que é aquele cross country, que é aquele que... Como se fosse... Não sei se vocês sabem como é, que é o mesmo do ski, só que maior, e você tem que andar com ele na neve. Você faz um esforço terrível! No dia seguinte ninguém anda, que sua coxa dói, assim... Tem o curling que é aquele jogo que é feito no gelo, com as pedras, né, de marcar os pontos. Que é tudo novidade, eles não têm isso aqui, né? E tem o hotsprings que é a piscina de água quente lá, que é aberto, em lugar aberto. Então, fora é menos vinte e dentro é quarenta graus. Que é uma delícia, assim, sai fumaça, é num lugar, numa montanha, que eles adoram! Que é supergostoso! Então, assim, coisas que não tem aqui, né? E das casas, assim, em si, tudo sempre foi supertranquilo, nenhuma criança nunca voltou desde o dia que começou o programa. Acho que o difícil é você ir, pôr todo mundo na casa... Aí você fica tranquilo. E depois a volta, até você trazer todos, e entregar aqui no Brasil. É a hora de mais aperto, que você fica com o coração mais... Mas no fim dá tudo certo!

 

 P/1 – E o intercâmbio para Suíça você ainda não participou?

 

R – Não, não participei. E agora mudou também, né? Ela tirou o da Suíça, agora vai começar o da Alemanha, até chegaram os prospectos hoje. Que é para o nono ano, eles vão no mês de julho. E é o primeiro ano agora, vai acontecer agora. Agora não, em julho, em 2011. Então, não sei como vai ser. Agora, teve um ou dois anos só, da Suíça, mas que as crianças gostaram muito! Não foram muitos, acho que foram três ou quatro, mas que gostaram! Mas é uma outra proposta, é num lugar fechado, é como se fosse um colégio interno. Então não são todos que querem ir. Então não sei como vai ser na Alemanha agora, né?

 

P/1 – Para qual cidade da Alemanha? 

 

R – Fica perto de Frankfurt, uma coisa assim. É uma cidadezinha pequena também, mas você olha a foto e parece um quartel, sabe? Com aqueles muros altos. A gente até brinca que ninguém consegue nem pular. Mas a proposta é bem bacana, assim né, fora, as atividades... Tem muito estudo, mais voltado para isso, né? Então tem uma ou outra atividade, aí dentro da proposta tem para eles estarem saindo e conhecendo outros lugares. Mas o foco principal mesmo é o estudar a língua, né? Então... Que no Canadá tem isso também, mas tem todo o lado do esporte à tarde, e as crianças são menores também. Então não dá muito para comparar. Mas vamos ver... Para Suíça eu não fui, mas para Alemanha, quem sabe, eu vá acompanhando o grupo... Estou torcendo aqui!

 

P/1 – E para gente pensar a escola agora de outra perspectiva, como é que você vê a PlayPen daqui uns cinco anos?

 

R – Olha, eu imagino, assim, né, como eu gostaria. Eu acho que o número de... Eu acho que vem bem ao encontro daquilo que... Ela está chegando no ponto daquilo que ela sempre quis, assim, desde o princípio, né, que seria uma escola de seiscentos e oitenta alunos, mais ou menos. Nós estamos hoje com quinhentos e vinte e cinco mais ou menos. Ela está conseguindo a meta dela, que é ter duas salas de cada segmento. Hoje, de algumas turmas nós temos três. Porque o Fundamental dois só tem um, mas porque a gente está indo para ter essas duas de cada e a gente já começou a diminuir aqui. A gente fez uma planilha aqui outro dia, diminuindo o comecinho, dessas que nós tivemos três, para estarem virando duas, né? Então, eu vejo assim, a escola com esse número de alunos. Eu acredito que essa equipe nova que vá entrar, que é uma coisa que eu estava acreditando e estava... Não demorando para acontecer, porque eu acho que as coisas acontecem na hora em que precisam, né? Mas dessa necessidade de ter uma equipe de coordenadores maior, para estar trocando mais, dividindo mais. Então acho que a escola está indo para essa linha, que era uma coisa que eu já vinha pensando e acreditando que seria assim, né? E eu acredito, assim, que o espaço físico dela – não sei se é um sonho – mas eu acredito que em breve o terreno ali, a área que nós temos ali, se amplie, porque eu acho que é uma coisa que falta hoje nela. Que é de ter um pouco mais do verde, para as crianças de Educação Infantil... Uma quadra coberta! Imagino que se a gente conseguir esse espaço, essa quadra coberta, um ginásio, que acho que faz falta em todas as escolas, principalmente quando você tem Fundamental dois. Mas eu acho que a cara dela vai ser muito do que está ficando esse ano, dos profissionais que trabalham lá dentro, das pessoas que... Acho que dos professores que estão lá, eu acredito muito que esses que estão saindo agora, é porque estão um pouco fora do perfil do que a escola acredita. A Guida sempre foi uma pessoa superpresente na escola, e eu acho que durante esse período de dois anos, três anos, eu acho que ela se afastou... se afastou um pouco das coisas da escola, não que ela não estivesse lá, mas até mesmo por ela ter duas pessoas superfortes lá dentro tomando conta, ela meio que delegou um pouco. E aí, hoje eu vi, diante da situação que a gente passou um pouco nesse final de ano, eu vi o quanto ela ainda é uma pessoa superforte, né? Nessas três reuniões que nós tivemos, os pais confiam muito nela, então o que ela falar é aquilo que eles acham que realmente vai acontecer. Então, eu acho que ela está voltando aos pouquinhos. E é nisso que eu acredito. Porque, quando eu entrei lá, ela era muito presente. Em reuniões de professores... Não que ela ficasse o tempo todo, mas nas reuniões de professores, em algumas saídas, às vezes ela participava, ia junto. Então tinha um elo. E acho que isso foi se perdendo um pouco. Então, acho que o futuro é voltar para o que era enquanto a gente estava naquela casinha. Lógico que em uma proporção maior, porque o número de funcionários aumentou, o número de alunos aumentou... Mas ela não vai deixar de ser uma escola pequena! Se você for comparar, seiscentos e oitenta alunos, você ainda conhece todo mundo, você chama a criança pelo nome, você conhece todos os pais, motorista... E acho que vai ser assim! Eu acredito que mesmo daqui uns cinco anos, ou futuramente, ela não vai ser além disso. A não ser crescer no espaço físico, porque acho que isso falta um pouco ali na escola, e ela tem batalhado para isso! E da equipe, que acho que como todo lugar que aumenta o número de alunos, você tem que aumentar um pouco o número das pessoas que trabalham ali com você.

 

P/1 – E como é que você se vê nesse cenário?

 

R – Olha, eu me vejo ali... Eu continuo me vendo trabalhando ali ao lado da Guida, eu não me imagino saindo dali. Mesmo porque ali eu gosto, e eu acho que eu estou assumindo outras coisas, né, que não cabiam muito, assim, a mim. Como a viagem ao Canadá, que a gente acabou trocando um pouco, e ela falou: “Ah, vou deixar você direcionando”. Como eu sou uma das mais antigas e já fui duas vezes, então os pais sempre têm um pouco mais de confiança nessa pessoa que já foi, que já conhece, tem contatos... Enfim. Esse outro acampamento que tem... Então, tudo que é de fora, eu me vejo assumindo mais, essas coisas que levam para fora. As viagens... Tem agora as atividades extracurriculares que acontecem. Como sou eu que coordeno também, então eu me vejo também tanto assim, desse lado de colocar coisas diferentes, inovando também, que é uma coisa que é muito procurada pela escola, e também estando ali do lado da Guida, porque seriam essas coisas que também caberiam a ela pela parte administrativa. Então eu me vejo fazendo isso e trabalhando ali, do lado dela. Não me vejo em nenhum outro lugar, se me perguntar, né? Em outro departamento, fazendo alguma outra coisa, não me vejo. Me vejo nessa posição mesmo.

 

P/1 – E aproveitando que você falou das atividades extraescolares, como é que elas são escolhidas? E qual é a participação dos alunos? Elas são mesmo fora? Tem alguma dentro?

 

R – Então, sou eu que coordeno, quem vai atrás das atividades sou eu. A grande maioria acontece na escola. Esse ano a gente tem duas que acontecem fora, que é a natação, que sempre aconteceu, porque nunca teve piscina na escola; e ginástica olímpica também. Teve uma época em que acontecia na escola, e agora a gente foi para uma academia ali perto. Porque as aparelhagens, enfim, não estava dando certo no espaço que nós tínhamos. Geralmente é esporte, então esses esportes: balé, judô, tênis... é... kung fu, capoeira. Esse ano eu coloquei Robótica, porque às vezes as crianças pedem: “Olha, você não pode ver um professor de Robótica? Tá tendo tal aula...”. Então eu escuto muito o que eles falam para mim. Então eu fui atrás desse professor de Robótica. Esse ano eu coloquei esse Cheerleaders, que é líder de torcida. Que uma mãe que veio de fora, falou que na Argentina tinha e a filha fazia. Aí eu fui atrás de uma empresa que fazia e trouxe para escola. Ahn... Então, assim, eu sempre estou indo atrás para ver se tem um diferencial, uma coisa nova, que não fique sempre as mesmas, né? Teve esse ano que eu pus um curso que chamava Popstar, que era Canto, Música, Percussão e Teatro. São vários módulos, né? Teve um número grande de alunos inscritos. Então, eu vou atrás e vou vendo, o que eu acho que vale a pena... Mas que tenha um fundamento, que também tenha um aprendizado ali, né? Tudo bem, o esporte é gostoso, o tênis, o futebol, o balé, o judô, que são os tradicionais, eu acho que tem que ter. Mas também você trazer uma coisa nova. Um curso de Fotografia para os mais velhos, um curso de Maquiagem... Até um curso de Maquiagem eu fui ver, porque era uma coisa que as meninas mais velhas estavam pedindo. Lógico que sempre com o foco educativo, nunca: “Ah, vou trazer um curso de Maquiagem, vem aqui...”. Não! Tem que saber o porquê, para que fazer, eu tomo muito cuidado, assim, com o que é que está vindo... Então, quando eles me pediram a Robótica, que eu acho que é uma coisa superbacana, então eu fui na Lego, para ver se eles podiam fazer uma parceria conosco. Para ser uma coisa legal, de qualidade. Não só: “Ah, vamos pôr uma Robótica aí e acabou”. E ver no perfil do professor se cabe ali na escola, com os alunos no dia a dia, na aula. Acho que você tem que tomar todos esses cuidados. E fora isso, tem os cursos de línguas, que a criança pode fazer depois da aula, que é o Francês, o Espanhol e o Mandarim. Tem um grupo pequeno que faz, porque depois... Até às três da tarde só estudando, são poucos os que querem ir para uma aula de Francês. Mas tem um grupo fiel ali, que está bastante tempo fazendo. Que isso a Guida sempre falou, que era para manter, né? Para colocar, porque tem criança que gosta, está lá e gosta de aprender, enfim... Então, eu acho que isso foi crescendo, e eu fui vendo a necessidade também dos pais, que acho que a cada ano que passa... A vontade que eles fiquem em período integral na escola, até às cinco horas, fazendo alguma coisa dentro da escola, ao invés de estar em casa, com babá, enfim, era um pedido que você via nas reuniões de pais. E aí, antigamente, tinha só para o Fundamental um e agora a gente começou a ampliar um pouco para Educação Infantil, para crianças de quatro e cinco anos. Porque, às vezes, já tem um irmão que está lá no Fundamental, e aí a mãe não quer que um vá embora às três e meia e o outro às cinco. Então, a gente começou a colocar alguns cursos voltados para Educação Infantil até às cinco horas, que são para as crianças que já ficavam até às três e meia. E eu coloquei também, que foi um pedido das mães: aula de Catequese. Para aqueles que querem fazer a Primeira Comunhão, para um grupo, então é o quarto ano que tem. Tem uma professora que vai lá, e depois tem a Primeira Comunhão, que geralmente é ali na São Pedro e São Paulo, do lado da escola. E Cultura Judaica. Foi bem para um outro grupo de mães, que veio me pedir, então fui atrás de uma escola, e é feito lá na escola também, que aí você vai atendendo as demandas. Então é isso, sempre ir um pouco atrás. Sei lá, você trabalha no meio de Educação, você sempre vê outras escolas, coisas que aparecem, coisas que vêm de fora, né? Então, sempre um curso novo, às vezes, ou trocar um pelo outro. Acaba chamando atenção da criança, é um jeito de você segurar ali a criança até mais tarde. Às vezes, um pedido de uma mãe, né? Então a gente sempre vai vendo com o espaço que a gente tem, onde tem que ser feito, porque isso também é uma coisa que a gente tem que levar em conta lá. Porque embora seja depois das três e meia que os alunos vão embora, mas nem sempre dá para ser em uma sala de aula, então tenho que ver a questão do espaço. 

 

P/1 – Certo, Daniela, agora indo para uma parte mais pessoal sua, retomar para a gente ir encaminhando para um final, vou perguntar... Você é casada?

 

R – Ah, (pausa) não, eu só fui casada (risos)... Eu pensei que você fosse perguntar mais alguma outra coisa. É... Eu fui casada durante doze anos, aí eu me separei já faz quatro anos. Tenho uma filha só, a Julia, que estuda na PlayPen desde um ano e meio. Quando eu casei foi o ano em que eu entrei na PlayPen, né, assim que eu entrei eu casei. E tenho um namorado hoje em dia, já vai fazer três anos. Não sei se eu vou casar de novo, mas pretendo morar junto ano que vem, né? Ele nunca foi casado e não tem filhos, então eu acredito que ele vá querer casar. Acredito não, já me falaram, a família já me falou que vai querer casar. Porque é o único filho, e o resto são quatro mulheres, e as quatro são casadas, menos ele, então dessa eu não vou conseguir... (risos). É... Mas me dou muito bem com o meu ex-marido, ele está sempre ali na escola, todo mundo conhece. Somos muito parceiros com relação à Julia, né? E é isso, acho que a vida é assim, né? Quando não dá, não dá, cada um vai tomando seu rumo, vai atrás das suas metas, né? Enfim... E o importante é que seja de uma forma tranquila, eu acredito, né? Eu acho que, não sei se por eu trabalhar no meio da Educação, eu brinco, que eu falo: “Esses casais separados, essa briga. Para quem vai? Com quem vai embora? Esse monte de mala...”. O dia em que eu me separei, eu falei: “Eu vou querer tudo, menos isso: essa mala para cá, essa mala para lá, não aguento...” (risos). Então brinquei, eu sempre brinco com meu ex-marido: “Não, vou montar o quarto dela lá, mando a roupa, uniforme, já fica tudo lá, então como se fosse... Que é a casa dela, né?”. Então para mim isso é muito tranquilo. É isso.

 

P/1 – E como é que foi para você ser mãe?

 

R – Olha, eu sempre gostei de criança, né, lógico! (risos). Mas é até engraçado, porque eu demorei quatro anos para ter filho depois que eu casei. Todo mundo até brincava. Porque a minha irmã nunca foi ligada em criança, casou um ano depois que eu e já ficou grávida. Então eu não sei ali por que... O Osvaldo adora criança também, mas acho que foi o andamento das coisas, foi na época em que eu mudei de emprego, eu estava em uma escola e fui para PlayPen. Então acho que tinha um pouco desse meu cuidado, em estar ali no meu trabalho primeiro. Eu já tinha casado, eu falei: “Imagina se no final do ano já estou grávida!”. Então foi uma coisa que eu sempre pensei muito e aí falei: “Não, vou esperar um pouco”. E aí a minha sobrinha nasceu, e tomava todo o meu tempo ali, trabalhava meio período, toda aquela coisa. E aí, quando eu falei: “Vou ficar grávida”. Aí fui para período integral, então falei: “Ah, vamos esperar mais um pouquinho, porque eu tô indo para uma função nova”, aquela coisa... Mas aí depois chegou uma hora em que eu falei: “Não, agora eu preciso ter... Tá na hora de ter uma filha, mesmo porque eu adoro filho dos outros, cuido, tenho minha sobrinha, preciso ter a minha, né?”. Mas foi uma gravidez supertranquila, trabalhei até uma semana antes da Julia nascer, e quando ela tinha dois meses eu já voltei para o trabalho, porque a Guida tinha me pedido se eu não queria voltar antes. E a Julia sempre foi uma criança muito tranquila, ela nunca me deu grandes... De tomar seu tempo ali, ter que ficar, assim, do lado dela. E chorar, e não dormir à noite, sabe aquela coisa? Não, ela sempre foi supercalma, sempre dormiu a noite toda, então minha vida sempre foi um pouco tranquila nesse sentido. De trabalhar e ter uma criança pequena. Lógico que eu tinha toda uma estrutura dentro de casa. Mas tem uma coisa assim, como eu tinha... Nós temos, uma fazenda fora, que é em Bonito, então desde os quatro meses; eu às vezes não podia ir, mas o meu marido levava ela junto com a babá para fazenda e ficava às vezes quinze dias lá com ela, com quatro meses! E eu deixava eles irem. Eles iam de avião, ele ia de carro, ela de avião, ele pegava ela lá. Então, acho que ela também foi acostumada com isso. Então ela viajava, daí ela voltava, ficava. Lógico, aqui, assim, mas ela teve sempre essa relação de não ficar só comigo o tempo todo, grudada. Por isso que eu acho até que ela é um pouco mais despachada. Então, para o meu trabalho, para minha vida, se ele queria ir, não era aquela coisa assim: “Eu preciso sair um pouquinho. Eu preciso ir”. Não, ela sempre ficou muito bem com ele. Viajava... E para minha profissão, às vezes, também era bom, porque eu podia dar mais de mim aqui nesse começo na PlayPen e tal. Não que não desse saudade, eu morria de saudade. Mas para mim foi sempre muito tranquilo, assim, essa relação com ela, dela nunca me dar trabalho de exigir muito a minha presença, e da escola, assim, porque às vezes as pessoas falam: “Você nem curtiu sua filha, porque você voltou logo...”. A Gabriela fala muito isso para mim: “Depois de dois meses você voltou! E a sua filha?”. Eu falo: “Gente, ela tá ótima em casa! Eu venho um pouquinho aqui de manhã e tô voltando pra casa!”. Eu sou assim, né? Não sou aquela coisa de ficar em cima vinte e quatro horas porque o filho nasceu, de ficar o tempo inteiro com ele. Ela é minha filha, nos momentos em que eu precisar estar eu vou estar ali, e tal. Quando ela for viajar, eu acredito muito nisso, que ela tem que viajar, desprender um pouco, ficar com pais... ter essa oportunidade... A gente nunca sabe o dia de amanhã! E aí ela brinca lá comigo: “Você não tem coração!”. É como ela fala: “Filho da gente tem que ficar embaixo da asa”. Eu falei: “Ai, Gabriela, imagina, filho meu tem que ficar embaixo da asa? Fica nada! A gente tem que criar eles para o mundo!”. Não que eu não tenha, lógico, esse lado afetivo, tem sim, ela é supergrudada comigo, mora comigo, a gente tem uma relação superbacana! Hoje ela já está mais velha, está dando trabalho com outras coisas. Mas eu sempre... Não sei, acho que é uma coisa minha, de separar... Não de separar, mas de criar ela dessa maneira, né? E, sei lá, talvez a vida depois me explicou... Porque eu ia me separar, e separação, por mais que seja bem resolvida, é uma coisa difícil, ali, para todo mundo. Você vê a criança dividida, e para o pai, em alguns momentos, ela falava: “Mas eu quero vocês dois juntos e eu nunca mais vou ter!”. Eu falei: “Não, vai. Quando você quiser a gente vai estar aqui junto com você! A gente não mora mais na mesma casa, mas vamos estar em muitos momentos nós dois com você!”. Então, sempre que ela precisou desses momentos a gente estava junto também. Então acho que isso para criança vai... E ela também é uma confiança, um jeito de ser que ajuda também, né? Então ela fala que hoje é resolvido, assim, em relação a isso.

 

P/1 – E como é que foi a decisão de colocar ela na PlayPen?

 

R – Olha, a princípio foi por eu estar lá, né? Eu acho que uma coisa ali leva à outra, né, se você acredita na proposta da escola, se você já está lá há algum tempo... Eu já estava lá há quatro anos... E gostava muito do trabalho da Educação Infantil, né? Você fica um pouco assustada quando... Assustada assim, né? Mas preocupada porque só tem o Inglês, né, na Educação Infantil... Até na época, o meu marido falou assim: “Mas como só o Inglês? E o Português e tal?”. Falei: “Ah, Osvaldo, isso é automático, o Português nós falamos em casa. É para ter o Inglês... E depois o aprendizado, a alfabetização é sempre a língua materna primeiro. Os resultados que eu vi foram ótimos!”. Então, foi por eu estar lá, por eu acreditar, então a Educação Infantil dela foi supertranquila.Teve, lógico, uma adaptação, como toda criança tem, de ficar lá alguém de plantão. Porque não é fácil, e acho que depois, quando ela foi para o Fundamental, foi tranquilo. Ela sempre foi uma boa aluna, nunca foi uma criança indisciplinada. É... Sempre foi supercuidadosa com os funcionários, com os amigos, nunca tive problema com ela dentro da escola, com relação a nada! Agora ela está indo para o Fundamental dois, está naquela idade, indo para os onze anos, sexto ano, então eu falo: “Agora que os problemas virão”, sabe, aquela coisa? Que não é nem uma coisa nem outra, eu falo para ela. Então falo: “Se é que eu vou ter algum problema, vai ser daqui para frente na escola (risos), porque essa idade...”. Eu vejo o Fundamental dois lá, às vezes, eu tenho vontade de chorar! Eu olho ainda e falo: “Ai, será que ela vai ser assim?”. Ai, pior é que vai, né? Aquelas brincadeiras, que você olha e não tem graça nenhuma e que eles acham o máximo! Vou passar por isso também. Fico olhando e falo: “Vou e vamos ver o que vai acontecer”. Então... Mas ela adora a escola! Independente da minha presença lá, ela sempre gostou muito! Então, desde os quatro anos ela já pedia para... Ela! Para ficar o dia inteiro na escola! Ela queria ir para natação com o grupo de amigos que ficava. Às vezes eu falava: “Gente, muita coisa eu não preciso. Eu tenho uma estrutura em casa para ela ir”. Ela não queria, ela queria ficar na escola! E até hoje, em dia que ela vai embora às três e meia porque ela não tem atividade, nossa, quando chega três e quinze ela começa a pedir para alguém me chamar lá em cima, porque ela quer ficar lá conversando com alguém da escola, ir embora às cinco horas. E ela conversa com todo mundo, ela quer ficar ali, eu falei: “Para vender a escola é ótimo, é só pôr ela ali na recepção, porque ela vai falar bem da escola, não quer ir embora nunca”. Então ela é muito feliz lá dentro, muito feliz mesmo! Então, isso para mim me conforta! Porque mesmo eu trabalhando lá, se eu visse que não desse certo, ou, tem crianças que você vê que não podem ficar período integral ou não conseguem aprender as duas línguas ao mesmo tempo, é puxado, enfim... Com certeza teria tirado e colocado em um outro lugar, mas não foi o caso. Então, eu estou supertranquila com a minha decisão. Tanto é que consegui pôr a minha sobrinha lá. A pequenininha, a mais velha não foi, mas a menorzinha foi! A gente vê, né? O rendimento da Julia, o inglês dela! Ela fez Francês! Então eu falei para minha irmã: “Coloca a pequena lá que você não vai...”. E é superbem adaptada! Adora a escola também! Então você vê que vale a pena o investimento ali que faz! Então, com isso eu estou tranquila! 

 

P/1 – Indo agora mesmo para uma parte final mais avaliativa, como é que você avalia a sua passagem pela PlayPen?

 

R – A minha passagem? (pausa) Na minha vida?

 

P/1 – É, na sua vida pessoal, profissional...?

 

R – Olha, eu te digo assim: Como eu entrei lá com vinte e quatro anos, né? Vinte e quatro? Não... É, vinte e quatro, estou com quarenta... vinte e quatro para vinte e cinco talvez... Então, assim, a grande aprendizagem que eu tive de conhecer pessoas, dos cargos, foi minha experiência como professora de Fundamental. Trabalhar com equipe de coordenação, ser assistente de direção. Então, assim, a minha trajetória profissional, que deu maior ênfase foi nesse período que eu estou lá, que eu tive as oportunidades para minha vida, né? De estudar fora, de acompanhar os alunos, de fazer cursos que a gente fez em workshops, quando a gente foi para Santo Antônio... Algumas oportunidades que foram aparecendo e que eu era convidada para participar, eu sempre ia, né? Então, eu acho que se, sei lá, se um dia eu sair de lá por alguma razão, enfim, eu acho que a minha grande formação é ali dentro, nesse espaço que eu fiquei, de poder passar, de aprender a trabalhar em uma escola bilíngue, né? De entender esse processo do bilinguismo. Então, eu acho que para o meu crescimento profissional, minha grande bagagem é ali dentro. E esse contato que eu tive maior com a Guida, que eu acho que se eu fosse só professora, talvez eu não tivesse tanto dessa aprendizagem toda dela, de tudo que ela passou. Uma parte eu estava junto, outra não, mas fiquei sabendo de toda história. Então, eu acho que para minha vida, né, foi e tem sido, né... Acho que daqui para frente é um grande aprendizado e bagagem. Acho que se eu for para um outro lugar... Porque eu não penso em sair de lá também, eu penso em continuar sempre lá. Mas não sei, eu me sinto muito bem lá dentro, muito mesmo! Muito à vontade! Vou trabalhar superfeliz todos os dias, então acho que o que vale é isso também. A avaliação que eu tenho é essa, dessa bagagem que eu carrego comigo, o que eu posso vir a acrescentar futuramente, o que eu espero. E eu acho que ela é uma guerreira, que daqui para frente as coisas vão melhorar e a escola vai tomar o rumo do que ela sempre acreditou, né? Aí eu espero estar lá para acompanhar.

 

P/1 – E quais foram os seus maiores aprendizados, em toda essa carreira, com toda essa bagagem que você está falando, que está trazendo da PlayPen?

 

R – Para minha vida você está falando também? (…) Ah, de bagagem, isso que eu falei para você. Eu acho que tanto esse conhecimento de uma escola bilíngue, de eu estar lá dentro e das coisas que ela me proporcionou de eu participar. Acho que também um pouco da experiência que eu vivi também, eu acho que é uma troca, né? De eu ter vivido um pouco fora, e que eu acabei levando para escola também, e que eram coisas que não tinham, e que talvez eu tenha acrescentado lá. Essa Dormida na escola, esse acampamento, essas outras coisas que a escola não era aberta e que eu acabei colocando lá dentro. Eu acho também que foi uma troca, mas, assim, acho que tiveram coisas que eu tinha e que coloquei. E a maior parte do que eu vivi lá, com as coisas que foram aparecendo, com os profissionais que eu fui conhecendo foram me enriquecendo. Eu acho que mais ou menos isso, a mesma coisa da outra pergunta. Não sei se você queria saber mais alguma coisa...?

 

P/1 – Não, tipo isso mesmo... E agora, as duas últimas perguntas: o que você acha da PlayPen comemorar os trinta anos da sua história assim, a partir da história de vida de alguns dos colaboradores...?

 

R – O que é que eu acho? 

 

P/1 – É.

 

R – Ah, eu acho que foi uma ideia fantástica, assim, que apareceu. Até a Guida quis, depois ela não quis levar muito à frente, né, e a gente ficou no pé dela para ela não desistir. Várias vezes ela quis desistir, a gente não deixou, acho que pelo momento em que ela estava vivendo agora. E eu acho que é a primeira vez que a escola vai ter um registro dos anos da escola. Porque era tudo muito vago, tudo muito solto. E é uma escola que tem uma história, não que as outras não tenham, mas uma história com... Como é que eu posso me expressar? Uma história com marcos, assim, com momentos difíceis. E acho que desde a trajetória dela, de como ela começou, e que veio crescendo, e que a hora em que não dava mais e que ela se sentiu pressionada em estar crescendo, e sempre com um pé atrás. Com medo, lógico, como qualquer empresário... Só que eu acho que essa garra que ela tem, esse envolvimento que ela tem com os professores e com essa equipe que sempre trabalhou com ela, isso ela tem um diferencial, que eu vejo das pessoas que passaram por lá, o quanto gostam de trabalhar lá. Às vezes, você escuta as pessoas indo para lá e falando assim: “Nossa, eu nunca me senti tão bem numa escola, parece que eu já fui contratada!”, sabe uma fala assim? Então acho que isso é um pouco o que a escola transmite. No dia a dia dela, seja para quem está visitando, seja para uma entrevista. Só que aí eu cheguei para ela e: “Não, acho que tem uma hora em que você tem que parar e pegar todas as informações. Não só você contar, colocar numa página, em uma agenda”. “Olha a minha história é essa: uma paginazinha ali.” Acho que é muito mais que isso, né? Então, por isso que a gente insistiu muito, e no começo até nós falamos, começamos a contar e a levantar para ver se animava ela para estar acontecendo. Então, acho que isso vai ser muito importante para vida da escola, de ter ali o registro, e dela mesmo, de tudo que ela conquistou. Ela sempre foi, entre aspas, sozinha, assim, os filhos nunca participaram muito desse processo. O Marcão trabalha hoje em dia lá, como contador de histórias, mas não se envolve muito com essa parte toda administrativa, essa conquista da escola, o de crescer, você não vê ele muito junto dela, né? Então... E o Daniel trabalha fora, num outro lugar, completamente diferente. Então, acho que precisou da gente como equipe falar para ela: “Não, tá na hora de parar, vamos fazer, vamos escrever, vamos guardar esse livro, vamos fazer uma festa, é um motivo de comemoração, você tem tanto para contar!”. E ela brincava assim: “Nossa, só de pensar me dá uma preguiça!”. Ela falava. Eu falei: “Então eu começo a contar, faço uma parte, depois você continua”. Mas aí depois ela foi se empolgando e a gente levou... Levei o livro, né, da Escola da Vila, a Gabriela levou o do Pueri que tem... Teve alguma outra escola também que alguém levou o livro para ela. Daí ela falou: “Ah, não, então vou escrever o livro agora, preciso pôr esse registro”. Porque senão, as coisas vão se perdendo também. Aí, a hora em que você vai... Hoje em dia para gente lembrar de tudo... Até você resgatar, às vezes, você nem lembra, né? Então, acho que o ano que vem vai ser assim, especial, com essa data, esse livro, esse momento... Dele estar pronto, dela ver o produto final, acho que para ela vai ser bem bacana! Dá trabalho, né? A gente sabe, mas... Acho que vai valer a pena, sim! Eu, por exemplo, não vejo a hora disso acontecer! Ela já queria desmarcar um monte de coisa, a entrega do dia do livro que é em abril, né? Falei: “Não, você não vai desmarcar nada! Vai ser exatamente como a gente combinou!”. E eu acho que ela vai ficar surpresa. Por isso que aquele dia que eu liguei para vocês eu perguntei: “Quem tá indo? Alguém tá desmarcando?”. Que o medo, acho que no fundo surge o medo assim: “Será que as pessoas vão querer? Vão falar? Será que elas vão atrás? Vão aparecer?”. Falei: “Lógico que vão!”. Todos que eu liguei vieram, quiseram, então você vê que foi marcante para várias dessas pessoas que vieram aqui. Então, de vez em quando ela me dá uma perguntada para saber como é que está. O dia em que falei que a Udi (Maria de Lourdes Gonçalves Costa) estava aqui com a blusa das olimpíadas, ela começou a chorar. Ela: “Ai, eu não acredito!”. Porque acho que ela não acredita do funcionário aparecer aqui. Eu falei: “Guida, para você ver como a escola foi marcante para pessoa, que ela gostou”. Se não tivesse significado nenhum, ou não iria, ou apareceria lá de qualquer jeito. Eu mesma não tive a ideia de aparecer com uma blusa da escola, ou com uniforme antigo! E ela, que foi secretária por anos lá, me aparece daquele jeito, aqui. E aí fui contando para ela... E ela: “Ai, meu Deus, eu não acredito...”. E eu falei: “Para você ver como você se surpreende com as pessoas”. E aí você vê, ela vai se animando, conforme ela vai ficando sabendo, né?! Então eu fiquei superfeliz, eu acho que ela precisa disso, para ela, nesse momento. Mesmo porque, eu acho que ela está em um momento de mudanças, ali, de novo, né? De equipe, diretor... Então, eu acho que ano que vem começa uma nova era ali naquela escola. Eu acho que para melhor, então eu acho que vai casar tudo, o momento da escola com isso.

 

P/1 – E o que você achou de sentar aí e contar um pouquinho da sua história para gente?

 

R – Eu não sou de falar muito, né? Na verdade eu recebo vocês lá, falo, conto as coisas, (risos), mas na verdade você vem muito sem saber: “O que é que elas vão perguntar? Será que eu preciso levar alguma coisa? Será que eu vou lembrar?”. Então, eu nunca tinha passado por isso. Então, eu estou em uma situação diferente, assim, gostosa; faz você lembrar, às vezes deixa você um pouco confusa, às vezes meio sem resposta, porque você fala: “Ai, para onde foi mesmo?”. Porque é tanta coisa! Mas, acho que por nós termos nos conhecido um pouco antes, eu me senti mais confortável de estar vindo. Mas é difícil, assim, você lembrar, não é tudo... Tanto é que quando ela me mandou e-mail: “Não, deixa eu sentar aqui e pensar um pouco das coisas, para ver se eu vou lembrar ou se tem alguma coisa que eu tenho que falar...”. Aposto que eu tenho quinhentas coisas que se você me falasse: “Me fala uma situação...”. Às vezes é difícil lembrar, né? E, às vezes, você vai embora, e você vai ver, daqui uns dois meses você fala: “Ai, como é que eu pude esquecer de contar aquilo? “. Mas a vida é louca mesmo, tem horas em que você lembra, tem horas que você... Enfim... Mas me senti tranquila, assim, porque... Mas eu acho que, às vezes, para você resgatar a coisa é superdifícil, né? De estar aqui falando e tal. Mas o dia em que eu cheguei aqui, sentei e olhei, falei: “Gente, o que é que é isso? Essa poltrona, essas duas viradas para mim, o que é que eu vou falar?” (risos). E pior que todo mundo que já tinha vindo; a Gabriela acho que veio antes também, sei lá, a gente perguntava: “Ah, mas como foi?”, sabe coisa de escola? E ninguém respondia. Daí o dia em que eu vim para cá, eu falei: “Gente, eu não acredito, já veio o Lyle, a Célia, a Gabriela, eu perguntei para os três e eu não me lembro de nenhum dos três ter respondido para mim: “Ah, tranquilo, você senta lá e não sei o quê... Mas é engraçado, né? Daí hoje eu falei: “Não, deixa eu levar essas sacolas, esses uniformes...”. Mas, foi tranquilo para mim, falar, mas é que na hora pega um pouco a gente de surpresa, né? E para vocês deve ser engraçado, né? O que vocês devem ter escutado a mesma história várias vezes, né, vocês não devem estar acreditando, porque acho que muitas coisas as pessoas falam, né? De um determinado assunto... A casa nova, por exemplo, a construção, acho que todo mundo fala! A jabuticabeira! Acho que tem pontos marcantes, assim, né? Que imagino que todo mundo tenha falado... Mas é isso.

 

P/1 – Então, Daniela, a gente do Museu gostaria de agradecer sua presença aqui e a sua entrevista!

 

R – Tá bom, obrigada, viu?

 

P/1 – Obrigada.

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