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História

Conquista de Liberdade e Cidadania

História de: Anilton Clementino dos Santos
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Infância de muito trabalho na roça. Feijão, milho, batata… Aos sábados, vendia na feira. Casamentos com fartura, festas com forró, comida e pinga. Lembranças de Anilton até ser preso e transferido para Salvador. As primeiras letras com 21 anos. Oficinas do “Arte que Liberta”, transformado em Cooperativa e do qual se orgulha por ser visto como cidadão e não como ex-detento

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História completa

Instituto Wal-Mart - Memória dos Projetos Sociais Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de: Anilton Clementino dos Santos Entrevistado por Giselle Rocha e Márcia Trezza. Salvador, 20 de setembro de 2007 Código da Entrevista: IWM_HV013 Transcrito por ……………………. Revisado/editado por Paulo Rodrigues Ferreira Sou o mais velho dos nove filhos de Alfredo e Maria de Fátima dos Santos, dos quais estão vivos seis. Nasci em 1976 na fazenda Picapau, próximo a Senhor do Bonfim, Bahia, onde vivi até os 21 anos de idade. Com seis anos eu já trabalhava na roça cuidando do feijão, da batata-doce, do milho… E assim eu preferi continuar a trabalhar, para ajudar meus pais, em vez de ir para a escola. Só aprendi a ler com 21 anos, já em Salvador, preso, e fiz até a quarta série. Hoje sinto que devo continuar os estudos e estou me preparando para tal. Por algumas razões eu fui preso, lá em Senhor do Bonfim. Fiquei três anos e meio numa Delegacia e depois fui transferido para uma Penitenciária, na Capital. Fiquei outros três anos e meio. Estou em liberdade condicional até o ano que vem. Depois recupero, de vez, minha liberdade plena. Mas, voltando à minha infância, lembro que além de plantar, eu também ia para a feira, aos sábados, vender os produtos. Vendia melancia, farinha, milho, batata, feijão… “Ói o milho, ói o aipim, ói a batata…” E o povo ia passando e comprando. Lembro, também, da casa em que a gente morava, na roça. Era de adobe, quatro quartos, sala… Só não tinha banheiro. Era público, como se dizia lá. Brincava com primos, vizinhos, uma média de 20 meninos e meninas. Tinha a brincadeira de ‘cai no poço’… Ah, e havia, também, as festas: São João, Rende-Porta… E os casamentos, que eram muitos. Casamento na cidade e festa na roça. O importante não era o casamento, era a fartura. Vinha gente de fora, gente do local… Não era convidado não, vinha quem tinha vontade. A outra festa - Rende-Porta – reúne um grupo de pessoas que escolhem uma casa e vão “invadindo”. Carregam galinha, depenam ali mesmo, vão cozinhar no terreiro, acendem o fogo e vão comer com pinga. E cantando: “Ó de casa, ó de fora, abre a porta que chegou a hora”. E foi numa festa de São João que eu conheci a minha primeira namorada. Ela com 12, eu com 13 anos, fizemos ali o primeiro filho. Uma menina, na verdade. Hoje com 11 anos. Ficamos juntos até por volta dos meus 19 anos, até eu ser preso. Aí ela estava grávida de novo. O menino, no entanto, foi dado a uma tia dela que o registrou como seu. Da menina, eu tenho lembrança de passear com ela, bem novinha, amarrava o carrinho na bicicleta e ia levar uma novilha de estimação que eu tinha, para pastar. A gente ficava sentado no terreiro, de manhazinha, o sol nascendo na serra. A menina hoje não se lembra de mim. A mão disse para ela que eu morri. Ou fui para o inferno. De fato, eu não morri mas fui para o inferno: logo que fui preso, passei 90 dias na Delegacia apanhando. Ora dos presos, ora da polícia. Isolado, diziam para minha família que eu havia sido transferido, quando estava lá mesmo, dormindo no chão e apanhando. Depois, descobri que tinha leucemia. Ou anemia aguda, dá quase no mesmo. Curei-me com suco de beterraba, mastruz com leite, couve… Os missionários da igreja evangélica levavam para mim. Tornei-me evangélico. Até que um dia, já na Penitenciária, convidaram-me para trabalhar em um projeto chamado “Arte que Liberta.” Comecei como ajudante de serralheiro. E fui participando de oficinas desse projeto. Eram diversas e eu trabalhava com velas e ferro – fazia o suporte das velas, fazia móveis de ferro, qualquer um que me mandassem o modelo, o desenho. Sempre trabalhando com e sempre apoiado por Chico Maia e patrocinado pelo Instituto Wal-Mart. Hoje, tendo conquistado (ou quase, porque estou na condicional até o ano que vem) a minha liberdade, participo e me mantenho através de uma Cooperativa – “Faz Cidadão” [Para a Liberdade com Cidadania – Uma Cooperativa de Egressos]. Constituí família com a irmã de um colega de prisão, trouxe minha mãe para morar comigo e me orgulho do trabalho nesse projeto, que me restituiu a dignidade – hoje volto para a prisão de cabeça erguida porque vou lá para ensinar e ajudar pessoas que estão, de certa forma, na situação em que eu já estive. Considero-me reincluído na sociedade, pois não sou visto como ex-detento, mas como cidadão comum. Sonho um dia ter o meu próprio negócio. Mas jamais deixarei de reconhecer a importância desse projeto. ************************* TRANSCRIÇÃO CORRIGIDA (REVISÃO) P/1 – A gente queria que você começasse falando seu nome completo. R – Anilton Clementino dos Santos. P/1 – O local e a data do seu nascimento. R – Senhor do Bonfim, 25 de abril de 1976. P/1 – Anilton, voltando bem lá atrás, fale dos seus pais, os nomes deles. R – O meu pai se chama Alfredo Clementino dos Santos e a minha mãe, Maria de Lourdes Conceição dos Santos. Meu pai é baiano e minha mãe é pernambucana. P/1 – E onde eles se conheceram? R – Aqui mesmo na Bahia, lá mesmo em Senhor do Bonfim. Minha mãe veio com os pais. Porque os pais dela eram tipo cigano. Saíram pulando de cidade em cidade, aí chegaram num lugar que se chama Uburana. O meu pai ia para esses negócios de roça, que tem trem de porta, essas coisas assim, se encontraram e acabaram se conhecendo. O pai da minha mãe expulsou minha mãe de casa porque não queria que minha mãe ficasse com meu pai, e o meu pai levou minha mãe e se juntaram os dois. P/1 – Eles eram bem novos? R – Eram bem novos, meu pai tinha assim uns 19 anos. Minha mãe a mesma idade, que é tudo uma idade só, os dois. Minha mãe tem 53 e meu pai 53. P/1 – E eles se casaram, tiveram quantos filhos? R – Nove filhos. É, tiveram nove. Morreram três e têm seis. P/1 – Vocês viveram muito tempo lá? R – Bastante. Eu vivi lá no interior até os 21 anos, que foi a época em que eu tive que vir para cá. P/1 – O que você lembra de lá, da infância? O que você fazia? R – Trabalhava, lembro muito de trabalho. Porque a minha infância foi toda puxada para o lado de trabalho. Nos meus seis anos eu já trabalhava na roça: limpando feijão, plantando feijão, plantando milho... Essas coisas assim de roça. Então, eu acordava às cinco horas da manhã e já ia para a roça, ficava até cinco da tarde na roça. Estudar, nada, porque eu não queria estudar. Porque na roça, nessa época, tinha uns colégios, mas eu não poderia deixar de trabalhar para ajudar meus pais e ir para o colégio ao mesmo tempo. Então tinha que optar entre um e outro. E eu optei por trabalhar. P/1 – Todos os irmãos trabalhavam? R – Todos, são três mulheres e três homens. P/1 – Vocês moravam nessa roça? Como é que era? R – É um interior que se chama Fazenda Picapau, fica já pertinho de Senhor do Bonfim. P/1 – O seu pai tinha uma plantação? R – É, a gente tinha roça, a gente plantava. Tinha roça, uma faixa de 400 hectares de terra. A gente trabalhava lá, bastante. P/1 – Você ajudava a vender também? R – Também. A gente produzia, fazia farinha. A gente vendia mais farinha, batata – essa batata doce - ou feijão. A gente colhia e colhia bastante, não dava para todo mundo comer, a gente vendia uma parte e ficava com a outra parte. P/2 – Como era o dia de vocês? R – O dia... O dia era puxado. Um dia comia, outro dia não comia, outro dia saía de casa... Eu mesmo costumava sair de casa sem tomar nem café. Tinha vez que passava meio dia e eu não comia também. Porque estava na roça e tinha preguiça de descer lá de cima da serra para vir para cá, uns seis, sete quilômetros andando para depois voltar. Optava por ficar na roça mesmo. Chupava uma melancia, assava um milho, e o dia passava. P/1 – Sua mãe ficava em casa? R – É, minha mãe ficava em casa e meu pai trabalhava. O meu pai é pedreiro. O meu pai saía da roça para ir para a cidade, para Senhor do Bonfim, trabalhar. Ele saía de manhã e só voltava às seis da tarde. P/1 – Você aprendeu a ler quando era pequeno? R – Não, eu aprendi a ler agora, com 21 anos. Foi na época... Aconteceram algumas coisas e eu fui preso. Fiquei lá durante três anos e meio na delegacia lá de Senhor do Bonfim. Fui transferido aqui para Salvador e quando cheguei aqui em Salvador é que eu tive a curiosidade de aprender a ler. Eu busquei a necessidade. Porque eu sempre tive vontade, mas como eu não tinha tempo, apesar de estar preso eu achei o tempo. Não fazia nada, não tinha nada para fazer. Fui convidado, me chamaram para estudar. Eu disse: "Eu vou, claro." Estudei até a quarta série. Aprendi a ler e a escrever um pouquinho. Não aprendi o bastante, mas o suficiente para me manter, me virar. P/2 – Como foi para você, assim, quando você começou a ler? Você lembra? R – Foi uma sensação gostosa. No começo, eu ficava perdido. Porque você não sabe ler, você não sabe nada e colocam aquele quadro imenso na sua frente, a professora pede para você ficar falando letra por letra: a, b, c, e tal... Muitas vezes uma letra eu acertava, outra não sabia, porque não conhecia. Ela passava, me colocava para fazer desenho. Eu tinha que desenhar uma árvore, eu nunca tinha desenhado, fazia um desenho doido lá, ela dizia que estava ótimo, sempre elogiando. E eu criando mais vontade ainda. Também estava no lugar onde estava, com os amigos todos, apesar de estar todo mundo preso, mas todo mundo se considerava amigo. Então me senti à vontade. Foi rápido, acabei pegando gosto. Não continuei porque eu tive que trabalhar nesse projeto, fui convidado para trabalhar. Eu gostei, precisava ocupar a mente com alguma coisa, porque apesar de estar preso eu queria sair de lá e voltar para a sociedade e não mais ser preso. Foi muito gostoso. P/2 – E hoje? R – Hoje eu tenho necessidade ainda do estudo. Porque agora eu não posso estar estudando e trabalhando ao mesmo tempo, a não ser à noite. Eu já tirei todos os meus papéis para estudar à noite, mas como eu também arrumei um serviço para fazer à noite, eu trabalho à noite e durante o dia. Só vou estudar agora no ano que vem. P/1 – Você falou... Você foi criado então num lugar que devia ser enorme e com uma vista, você andava sete quilômetros. R – Bastante P/1 – Você conviveu durante toda sua infância nesse... R – Na roça. P/1 – Na roça. E quando vocês saíram de lá, o que aconteceu para a sua família? Sua família migrou para cá, como foi? R – Na verdade, minha família não. Hoje eu tenho só minha mãe aqui, que eu trouxe. A minha família nunca saiu de lá da roça. Porque, em conseqüência do que aconteceu comigo, quando eu ia trabalhar e tal... Então, em conseqüência dos acontecimentos, a minha família teve que mudar da roça, teve que ir para a cidade, para Senhor do Bonfim, que fica próximo, pertinho. Então vendeu tudo por causa do que aconteceu comigo, fui preso e tal. Tiveram que vender tudo, então ficaram sem ter onde morar. Alugaram uma casinha em Senhor do Bonfim para ficar. Hoje eu não tenho ninguém na roça, mora todo mundo em Senhor do Bonfim. E minha mãe, que eu trouxe agora para ficar comigo. P/2 – Seu pai... Você disse que trouxe sua mãe para cá para ficar com você. E seu pai? R – Meu pai é separado da minha mãe há quinze anos, ele é homem de várias mulheres. Meu pai não se conformava apenas com minha mãe, ele tinha três mulheres, com a minha mãe. Então, eram duas a mais. Eles se separaram. Minha mãe não gostou, minha mãe se juntou com outro homem também, aí se separaram, os dois... Ficou cada um para um lado, não ficaram inimigos, mas ficaram separados. Minha mãe, como eu fui criado praticamente com minha avó, então nunca... Nasci na casa de minha avó e me criei na casa dela, mas as casas eram próximas. Era mesmo que estar... Tanto fazia estar na casa de meu pai como estar na casa de minha mãe. Que era questão só de sair de um terreiro e ir para o outro. Porque na roça... Lá chama de terreiro, as casas. Aquele campo limpo, grande, coloca o nome de terreiro. Saía de um para o outro, era tudo a mesma coisa. Mas, na verdade, quem me criou foram meus avós e com a separação deles, minha mãe foi morar com outro homem. Depois se separou do outro homem e foi morar comigo, estava grandinho já. Eu tinha essa firmeza de querer minha mãe pertinho de mim. Não queria minha mãe longe, perdida. Então, ela foi morar comigo, na casa de minha avó. P/2 – E você tem lembranças assim do seu pai, de quando você era criança? Coisas que ele falava, coisas que fazia com você? R – Tenho bastante, bastante. Lembro que ele falava muito que os jovens tinham que trabalhar, tinham que estudar, tinham que obter algo para quando crescessem não virassem criminosos, não se tornassem do mundo do crime, não ficassem perdidos, não fossem burros. Ele sempre tocava nisso, apesar dele também não ter lá essas qualidade, mas ele tinha vontade que os filhos sempre tivessem um estudo. Eu não estudei porque não... Porque foi opção minha de não querer estudar. Porque eu achava necessário ajudá-lo também. Porque eu trabalhando, também o estava ajudando. Apesar de ser separado de minha mãe, eu tinha que ajudar minha mãe e eu sentia obsessão de ajudá-lo também, porque três famílias... São 16 filhos, nove só por parte de pai e mãe, hoje seis - porque morreram três - e tem mais o restante, todos só por parte de pai. No total, são 16 - tem mais dez fora. P/2 – Você morava próximo a esses irmãos que não eram de sua mãe? R – É, questão de oito quilômetros, nove quilômetros de um lugar para outro. Tudo próximo, em volta mesmo de Senhor do Bonfim. P/1 – E lá na roça, nessa cidadezinha, tinha alguma coisa para fazer? Vocês iam para a cidade mais próxima de vez em quando? R – No sábado. A gente ia sempre no sábado porque era a feira da cidade. A gente ia todo sábado. A gente ia vender as coisas que colhia da roça. Colhia as coisas e ia vender na cidade porque na roça não tinha lugar para vender. Porque todo mundo planta, todo mundo tem. E é assim, tipo fartura. Aí, a gente saía para a cidade para vender: vendia melancia, vendia o milho, vendia a batata, vendia o feijão, o andu, que lá sai bastante - é o mais vendável. P/1 – Que é andu? R – Andu é aquele feijão que parece soja. Ele é do mesmo tipo, só que a soja dá o óleo, e o andu não dá o óleo. O andu é de... A gente come, cozinha como o feijão, bem gostoso. P/1 – Vocês saíam cedinho e partiam de casa em casa ou montavam uma barraquinha? R – Não. A gente ia para a feira, apanhava a lona na feira, ficava ali com as sacolinhas, enchia aquelas sacolinhas de alça, enchia e ficava gritando no meio da rua: "Ói a batata, ói o aimpim, ói o milho, ói a…", seja lá qual for a fruta. E o povo ia chegando, passando e comprando. P/1 – Do que você mais gostava quando ia para a cidade? R – Eu gostava mais? Eu gostava assim da parte de estar vendendo algo, de estar em contato com o povo. Porque sempre estava conversando com alguém, sempre estava brincando. Tirava brincadeira com um, brincava com outro, que você tem que ser tagarela nesses lugares, senão você não vende nada. Sempre gozava da cara de um, gozava da cara do outro e o dia ia passando. Eu gostava muito dessa parte. De estar no meio do povo, da multidão P/2 - Queria perguntar se você lembra assim de alguma história dessa época aí, que tenha acontecido, que ficou marcado na sua memória, nessa feira. P/1 – Um caso engraçado, uma coisa esquisita que aconteceu... R – Eu lembro de um acontecimento que teve na feira, próximo de onde eu estava com barraca. É que vinha um rapaz passando e meteu a mão na bolsa da madame e carregou a bolsa da madame. A madame correu atrás gritando: “Pega o ladrão, pega o ladrão!" E ele na frente também gritando: "Pega o ladrão, pega o ladrão!" [risos]. A polícia, em vez de pegá-lo, passava por ele e ia correndo atrás dos outros que iam correndo mais na frente, entendeu? E ele conseguiu escapar, foi embora. Eu fiquei com isso na mente, eu gravo isso direto, sempre eu lembro. Às vezes eu estou passando em algum lugar... Porque hoje você vai andando na rua, sempre tem algum atrevidinho ali que está metendo a mão na bolsa de um, está tomando na marra. Quando eu vejo isso, vem essa cena na mente, eu lembro da frase. P/1 – E na sua casa, era uma casa grande, com todo mundo no mesmo cômodo ou como era a divisão na casa? Eram seis irmãos nessa época ou ainda eram nove? R – Não, eram seis porque os pequenos morreram muito pequenos. Foram gêmeos e um acho que morreu logo, morreu com seis, oito meses. Mas a casa... Assim... A casa do meu pai era grande. Essas casas que a gente faz esses ‘adobão’ na roça, na forma, e a casa de meu pai tinha quatro quartos, cozinha, sala... Não tinha banheiro porque na roça ninguém tem banheiro. O banheiro é público mesmo, entendeu? Mas era grande mesmo, cada um tinha seu "quartozinho". Dormia dois, três em cada quarto. P/2 – E as brincadeiras que vocês tinham? Você lembra? R – Tinha. Tinha, lembro muito que eu saía de casa, à noite, a gente ia para outra casa, da minha tia, que é próximo, pertinho, do outro lado. A gente ia brincar com as meninas de cair no poço. Era uma brincadeirinha que a gente ia amarrar um cordão no olho, sai, vai batendo, caçando, aí escolhe alguém, e aquela pessoa que você escolhe, você tira o pano do rosto e beija aquela pessoa. A gente brincava muito, essa brincadeira era boa [risos]. P/1 – E eram seus primos que brincavam? R – Eram os primos, os vizinhos que moravam... Os vizinhos. Mas juntava uma turma grande de 20, 30 pessoas. Dois, três homens e o resto de mulheres [risos]. E eu brincava sempre no meio. P/2 – E as festas? Tinha festa na roça? R – Tinha muita festa rende-porta... Essas coisas de roça mesmo. Festa de roça. Casamento tinha bastante. Mas eu não ia muito para casamento não e nem para rende-porta porque o meu pai não deixava. E, como eu morava com minha avó, minha avó não permitia que eu saísse e passasse das dez. E essas festas começavam às doze horas e amanheciam o dia. Eu não poderia ir. Se eu fosse, dez horas eu tinha que estar em casa. Eu não ficava fora de casa não. P/2 – Como é essa festa? R – Rende-porta. Rende-porta junta um monte de gente em outra casa vizinha, aquele monte de gente se dirige a uma casa próxima, com tambor, com bumba, pife, essas coisas. Aí vai juntando, vai todo o pessoal. Quando chega lá, o pessoal invade a casa. O que você tiver dentro de casa não é seu. Você não tem nada, é de todo mundo que chega. O povo vai diretamente aos poleiros de galinha, chega logo matando as galinhas, depenando ali mesmo, acende o fogo no meio do terreiro e manda o bumba para dentro. O forró come no centro, as mulheres começam a dança, a poeira começa a levantar, a gente comendo galinha e tomando pinga. Chama rende-porta. P/2 – Mas vai entrando numa casa, ou depois que terminou aquela entra em outra? R – Não, é só naquela. Digamos, é por mês. Cada mês tem uma casa, você escolhe uma casa. Eles vão estudando qual é a casa que tem mais coisa, a casa que tem mais criação, tem mais essas coisas. Então, eles vão direto. Descobrem, digamos, a casa de fulana, a casa de Joaquim, a casa que tem bastante movimento, é grande, cabe bastante gente e sai convidando. E silencioso, porque a pessoa, o dono da casa não pode saber. É no silêncio. Quando dá na faixa de 12 horas, que está todo mundo dormindo, chega uma multidão. Quando chega a multidão, chega batendo na porta, chega cantando: "É hora de abrir a porta, oh de casa, oh de fora". O pessoal tem que acordar. Ou acorda ou o pau come na porta até você acordar. Você se abusa e abre a porta. P/2 – Você lembra da música toda, da fala toda? R – Não. Eu lembro mais da frase que o pessoal cantava: "Oh de casa, oh de fora, abre a porta que chegou a hora." Aí invadia. P/1 – Tinha outras festas religiosas tipo folia de reis nessa região? R – Não. Eu só lembro desses tipos, de rende-porta. Lembro de casamento. Casamento era o que tinha bastante, o pessoal gosta bastante de casar na roça. P/1 – Aí levava o padre lá? R – Tem igreja. Na roça tem igreja, próximo tem padre, tem tudo. Tem mês que, quando tem casamento, alugam um caminhão grande, enche de gente, aquele pau-de-arara e se dirigem para aquela cidade onde tem igreja. Fazem o casamento e retornam para a roça de novo, que é onde tem a festa. O casamento é na cidade e a festa é na roça. Começa assim por volta de umas cinco horas da tarde e termina no outro dia, meio dia, duas horas da tarde. Bastante comida, fartura. Porque casamento na roça, o negócio de casamento na roça, o importante não é o casamento, o importante é a fartura. Vem gente de fora, gente do local... Não é convidado de ninguém específico, vai quem tem vontade. Sabe onde tem o casamento, então se dirige para lá. Multidões. É como um comício. P/1 – Tinha só plantação ou tinha boi, cavalo? R – Tinha tudo. Animal, cavalo, jumento, boi, cabra, tinha de tudo. P/1 – Você sabe cavalgar? R – Sei sim, sei fazer...De roça sei fazer quase tudo. P/2 – O que mais você gostava de fazer na roça? R – Do que mais eu gostava de fazer na roça? Eu gostava de plantar. Porque eu tinha assim... Uma coisa que o meu avô sempre colocou na minha mente é que eu nunca deveria passar na roça dos outros e atravessar um arame para pegar nada de ninguém. Então, eu gostava de cultivar a minha terra e ter o meu para quando eu passasse na dos outros eu lembrasse que na minha também tinha. Eu ia direto para a minha. Tudo que tivesse naquela roça vizinha, a minha do lado também tinha. Eu gostava mais dessa parte, entrar na roça e ver a fruta, ver uma melancia ali, ver milho verde, ver uma abóbora, ver o feijão verde. Eu gostava quando eu via o lugar amplo, todo verdinho, cheio de verdura, essas coisas. Eu gostava bastante. Dessa parte era o que eu mais gostava da roça. P/1 – Você sabia a época de cada coisa, de cada fruta? R – Sabia, sabia. Sabia a época do inverno, que era época quando você planta o feijão de arranca, esse feijãozinho normal. Sabia a época das trovoadas, que é a época quando você planta o feijão-de-corda, que o povo chama de fradinho - lá a gente conhece como feijão-de-corda. A trovoada lhe dá o fradinho, a abóbora, a melancia, o milho verde. No inverno dá o feijão-de-arranca, a melancia, mas a melancia já é bem “migrada”, porque melancia não aguenta água. Na época do inverno, o milho também, que sai bastante na época do inverno, e a mandioca. Que a mandioca é verão, entra verão e sai verão, ela dá. Você planta na chuva e ela prossegue. P/2 – Você entende bastante da terra. R – Bastante, é. Eu me criei na roça, fiquei muito tempo na roça, aprendi tudo. P/2 – Tinha festa junina nessa região? R – Tinha a festa de São João, que lá é uma festa bastante falada, em Senhor do Bonfim. É a festa mais falada que tem, é São João. São 30 dias de forró na cidade, todo São João, todo ano - que é no mês de junho - a gente ia da roça e ia para a cidade, ia para a festa. São 30 dias de forró. Começa no dia primeiro de junho e termina no dia primeiro de julho. P/2 – Mas sempre foi assim? R – Sempre foi assim, toda vida. P/2 – E quando é que vocês iam para a festa? Fim-de-semana ou todo dia? Como é que era? R –Não. A gente ia mais quando caía no sábado. Porque eu acho que quando começa lá a festa, é feriado. É decretado feriado nacional, direto, a cidade toda. Trabalha quem quer. Quem não quer trabalhar, vai só curtir. Quem tem dinheiro, curte do primeiro até o final. Quem não tem dinheiro, trabalha na roça, durante a noite está na festa, durante o dia está na roça. Se aguenta trabalhar com sono, vai trabalhar. Se não aguenta, deita debaixo de um pé de árvore, arma uma rede numa árvore e vai dormir. P/1 – Você dançou quadrilha ou você só participava das barraquinhas? Como é que você fazia? R – Não, eu não vendia, eu não gostava de fazer barraca para vender no São João, não. Porque o pessoal vendia mais bebida, licor, essas coisas assim. Então eu não ia, eu não vendia. Eu ia mais para curtir, me divertir, distrair a mente, ia para dançar. Eu gostava muito de dançar com as meninas. Tinha muita menina bonita, aí saía para dançar. Dançava até no outro dia. No outro dia estava com os pés cheios de calo, do sapato. Os pés doendo, não aguentava voltar para a roça. Ficava na casa de minha tia, que morava próximo a Senhor Bonfim, que é um lugar que chama Ladeira do Capote. É uma ladeira bem grande. Só tem casa, minha tia morava nesse local. Eu saía de Senhor do Bonfim na época do São João e ficava na casa dela. Quando era noite, eu voltava para a praça de novo. P/1 – Falou das meninas... E as namoradas dessa época? Você era muito namorador? R – É, na verdade tinha bastante. Não tem como você, na juventude, não ser namorador. Você tem... Hoje, a maioria é mulher. O homem tem muito pouco. Ainda nessa época, até hoje, a maioria dos homens gosta mais da parte de se envolver no crime, se envolver com droga, essas coisas erradas. É raro encontrar uma pessoa que não use nada, que goste mesmo só de brincadeira, só da farra. Como eu não usava nada, eu gostava só da farra, sempre tinha. E o pessoal da roça gosta da pessoa que trabalha, eles colocam nome de trabalhador, não é preguiçoso. Acho que as meninas ficam todas doidas. As meninas, quando não ficam doidas, os pais jogam as meninas para cima. P/1 – Você lembra de alguma que foi mais especial, de que você gostou mais? R – É, tinha uma menina lá que eu sempre tinha uma afinidade maior, era mais... Ela não queria nada comigo, porque a gente era considerado como irmão, até hoje. A gente é como irmão. Considero ela como irmã. Mas também hoje... Por exemplo, agora mesmo ela está morando comigo aqui, em Salvador. Ela veio trabalhar aqui, não tinha nem onde ficar, eu levei para casa. Mora comigo em casa. Mas é minha irmã hoje. Hoje eu considero ela como irmã. Naquela época eu gostava dela, ela casou e tudo, fiquei chateado porque ela casou, mas eu tinha que me conformar com aquilo. Eu gostava, ela não gostava. Eu gostava dela de um jeito, ela gostava de mim de outro, então eu tenho que ficar conformado. P/2 – E a primeira namorada, você lembra? R – A primeira namorada, eu tenho dois filhos com ela. Ela tinha doze anos e eu tinha treze quando a gente... Até numa festa de São João mesmo na roça. Teve um quebra-pote, a festa de São João, durante o dia, o pessoal no quebra-pote monta uma árvore grande, com pé-de-pau, doze escoras de um lado, com um pau atravessado no meio. Pega um pote grande, enche de moeda, bombons, de balas e coloca um gato dentro. Tampa a boca e amarra ele no pau. Colocam um cordão na sua cabeça e você tem que sair caçando até você achar o pote. Você acha o pote, quebra o pote com o gato dentro e cai tudo no chão. Depois que termina isso tudo é que é um tal de pau-de-sebo, que é uma árvore muito grande, pau reto, liso. Coloca dinheiro em cima, outros colocam bebida, você tem que subir. Tudo aquilo lá para cima, para tirar. Se você conseguir subir tudo aquilo lá e tirar, o dinheiro é seu. Depois que termina tudo, tem a festa. E a festa amanhece o dia, a festa. Foi onde eu conheci essa menina, a gente... Até através de minha irmã. Minha irmã, doida para namorar também, mas ela andava comigo, que não dei força, minha irmã tem que ir comigo. Eu era o mais velho de todos, das mulheres e dos homens, então qualquer lugar que entrava meu pai só deixava ela sair se saísse comigo. Minha irmã, doida para namorar, gostou de um rapaz lá para namorar. Eu era mais quieto, ela arrumou essa menina para mim para ela poder namorar. Ela caçou um meio de me entreter, de tirar minha atenção. Foi onde a gente começou a namorar. Eu comecei a gostar da menina e a gente foi vendo... Quando vi a mulher estava de barriga, a menina. Com 12 anos, fazendo 13 anos, já estava de barriga. Eu não queria, eu queria largar ela lá com barriga, com tudo, porque eu era muito novo. Não queria história de casamento, mas meu pai me fez colocá-la dentro de casa. Eu não me casei, mas coloquei dentro de casa, tive que assumir. Fiquei com ela até uns 19 anos, ela tem dois filhos - um homem e uma mulher, um casalzinho. P/1 – Como eles chamam? R – O homem se chama Nilson e a mulher se chama Jaiane. A mulher está fazendo 11 anos e o homem está fazendo dez. Eu não vejo nenhum dos dois hoje em dia. P/2 – Mas quando você convivia com eles, que lembranças você tem dessa época? R – Eu tinha mais lembrança da criança, que nessa época eu tinha uma novilha de estimação, esse gado nelore, eu criava no cabresto. Eu trabalhava na fazenda, aí o senhor me deu, a mãe da novilha morreu e ele me deu aquela bezerrinha pequenininha para criar na mamadeira. Eu comecei a dar o leite na mamadeira e ela cresceu, ficou uma novilha grande. Eu criava, todo canto que eu ia essa novilha tinha que ir atrás. Eu pegava a menina, botava naqueles carrinhos, amarrava no guidão da bicicleta, colocava a menina pequenininha, saía andando, e a novilha saía atrás. A gente ia pastar na vizinhança e sentava no terreiro, de manhãzinha cedo, quando o sol está nascendo, nascente do sol na serra. Ficava brincando com a menina e a novilha brincando do lado. Eu lembro mais dessa parte, é a única lembrança que eu tenho da menina. P/2 – E o menino? R – O menino, eu não convivi com ele. Porque o menino já foi agora, na época em que eu fui preso. Quando eu fui preso, a mulher estava de barriga, tinha oito meses de barriga, então estava para ter neném. Quando a mulher teve o neném, eu já estava preso, então não tive o direito de vê-lo. De ver nascer e nem de cuidar dele. Ela deu para as tias dela, para as tias registrarem. Registraram o menino como filho. Eu não tive esse direito. Eu vi, no fim, depois que eu fui solto, que eu fui lá. Vi de longe, nem de perto eu não fui, porque ela não permite que eu chegue nem perto. Nem ela nem as tias... A mulher. P/2 – Ela é aquela primeira namorada? R – Exatamente. A gente não se dá. Ela não gosta de mim, ela me detesta. Tanto ela como o pai. Eu andei fazendo algumas coisas erradas e eu dou razão dela não gostar de mim. Também não forço a barra Se ela não quer que eu chegue perto, também não chego. Ela ganhou a guarda na Justiça, ela tem a guarda da menina, ela tem todo direito de proibir. Eu tenho direito também de ver minha filha. Eu tenho necessidade de ver, mas eu vejo de longe. Vou lá, olho... P/2 – A menina também é...? R – É, a menina não fala comigo agora não. Acho que ela não tem nem lembrança de mim. A lembrança que tem é que quando ela perguntava para a mãe: "Cadê o pai?" A mãe dizia que eu tinha morrido, outras vezes dizia que eu estava no inferno, era sempre assim, é mais essa lembrança que tem. Eu não a vejo não. P/2 – Quanto tempo você ficou preso? R – Sete anos. P/2 – Sete anos? R – É. Fiquei três e meio no interior e três e meio aqui na Capital. Sete anos. [pausa]. Sete anos de tranca. Sem direito de ver o sol. Só saí uma vez. Durante sete anos, eu tive oportunidade de trabalhar na oficina do Chico Maia e eu trabalhava com maquita, fazendo acabamento de solda de ferro. Você dá a solda, eu tinha que dar o acabamento, com a maquita. Fui posar, teve uma revista da Petrobras que foi fazer... Aí o menino pediu para eu tirar foto lixando e eu esqueci de colocar a máscara. Suspendi a máscara, comecei a lixar sem a máscara. Voou uma faísca de ferro, entrou no meu olho. Eu fiquei com o olho inchado, o rosto inchado, passei dias. Aí Maia correu atrás, até quanto foi possível, pediu uma autorização para o juiz, porque lá não é permitido que saia ninguém. Também para você sair, para ir para o médico, é aquela maçada. Se tiver que morrer, morre. Porque eles, na verdade... Eles não levam. Eles enrolam, enrolam, enrolam. Se você melhorou... Se não melhorou, fica com aquilo mesmo. O Maia conseguiu autorização, me tirou e eu saí aqui para a rua. Foi a primeira vez que eu saí em Salvador. E a primeira vez que eu vi o mar. Que foi a primeira coisa, quando saí na rua, perguntei logo sobre o mar. Disse: "Onde é que fica o mar?" O Maia: "Vamos passar pertinho." Quando a gente passou ali num lugar - chama-se Jardim de Alah - ele parou, desceu, tomou água-de-coco. Aí eu vi o mar. Foi quando eu vi. Mas ele me levou direto para lá de novo, para eu ficar lá. Logo, logo também fui solto. Questão de seis meses. Depois de cinco meses que ele me tirou de lá para vir na rua eu ganhei minha liberdade. P/2 – E qual foi sua sensação quando você viu o mar pela primeira vez? R – Eu tinha vontade de pular dentro. [risos] P/1 – Você sentiu o cheiro, do carro? R – Eu senti o cheiro da terra, aquele cheiro molhado assim, muito gostoso. Porque quando Maia e o Almeida - que é um agente penitenciário - quando eles me trouxeram de lá, não me trouxeram assim com uma farda - porque lá usamos uma farda amarela. Eles não me trouxeram com a farda, trouxeram assim com roupas comuns, sem algemas. Daí eu vim à vontade, eles me deram esse... Conseguiram esse privilégio, que, para mim, foi um privilégio, uma raridade. Porque ninguém sai. Não é permitido. Ninguém tira ninguém a não ser a militar que consegue lhe tirar. Senão você tem que ir algemado para trás, com a mão para as costas, algemado, aquela embalagem toda. Uma vez eu saí, que até eu mesmo fiquei assustado. Parecia que era assim, uma pessoa que tinha matado um senador da República. Eu fui num médico, justamente com esse problema do olho também, em outra clínica. Quando chegou lá, entraram assim uns trinta. Uns dez na frente, uns dez atrás e eu no meio, algemado para trás, com farda amarela, e os caras todos com arma na mão. Quando entrei no escritório todo mundo ficou assombrado, abismado. O pessoal pensou que tinha uma rebelião, que estavam invadindo aquilo ali. Eu me senti numa vergonha “arretada” de habitar ali. E o Maia não, o Maia conseguiu me tirar sem precisar de nada disso. Cheguei, até a médica mesmo me confundiu, ela não entendia se eu era um preso ou se não era. E ela: "Ô, você não falou que ia trazer um detento?" E ele falou: "Pô, é um detento." "Mas o detento não anda algemado, anda de farda?" "Mas ele não anda, é especial." Eu me senti mais, assim, como numa oportunidade. Eu disse: "Agora eu ganho minha liberdade. Eu não estou mais aqui, não sou considerado um preso perigoso." Porque, nesse dia, parecia que era o Fernandinho Beira Mar que estava chegando no consultório. P/1 – Você só fez a consulta nesse dia ou você dormiu fora? R – Não. Eu fiz a consulta e retornei para o presídio. Não pode dormir fora não. Para dormir fora é o maior sacrifício. Terminou a consulta, eu voltei para dentro. Saí de lá eram quatro da tarde e voltei nove da noite. A consulta foi rapidinha. Mas como a gente passou no Jardim de Alá, quebrou para ir, aí o Maia me deixou à vontade. Eu fiquei contemplando o mar, fiquei olhando. E eles tomavam água-de-coco, eu só aguentei tomar um copinho só de água-de-coco, só um coco. A vontade mais era só de olhar a água. Muito bonito, aquele marzão imenso, sem fim, eu só pensava em ter uma máquina ali para tirar foto, mas a gente não tinha, que tinha sido uma coisa assim em cima da hora, na pressa. P/2 – Mas qual foi esse outro lugar que você precisou ir com tanto segurança? R – Foi aqui mesmo, no Hospital das Clínicas, aqui em Salvador. P – Seu olho não melhorou? R – Não. Melhorou não. Porque chegando lá, eles só fizeram passar um soro. Um soro para... Só para aliviar a dor. Mas, na verdade, eu tinha uma filipina de ferro - ainda tenho - que eu tenho essa manchinha branca aqui no olho. E essa manchinha, é que ela penetrou na córnea do meu olho. Então eu não posso tirar. Se eu tirar, eu fico... Perco o olho. Optei por ficar com ela. Eu sinto dores assim, em redor, tem vezes que dói. Eu tenho que estar sempre tomando dicofenac para inflamação, essas coisas... P/1 – E não atrapalhou a visão? R – Não, eu acho que ficou mais forte. [risos] Acho que ela ficou mais forte. Tem coisas que eu vejo muito longe que até dói, eu sinto que dói a vista. Eu tenho um óculos, reduzido, 25, o óculos é 25, mas ele é reduzido, só serve para mim. É difícil de encontrar. Até que eu o quebrei, não estou nem usando, tentando me habituar sem óculos, que eu não gosto muito na verdade de andar com esse negócio de óculos de grau, não é muito minha praia não. P/2 – Esta história está sendo registrada, gravada. Então, se você quiser registrar algumas coisas que aconteceram antes de você ficar preso... Ou então a gente já conta a história quando você já estava lá na penitenciária, coisas que você gostaria de contar, de lembranças. A gente não vai ficar perguntando, conte o que você quiser contar das coisas que você lembra. R – Da época em que eu estava preso? P/2 – Ou antes. R – Na época em que fui preso, logo quando cheguei, no interior, foi uma coisa assim que eu vi que a vida do crime não tinha recompensa, era uma vida que você entra nela... É uma vida isolada, você não tem consideração de ninguém, nem de quem já lhe conhece. Porque quando eu fui preso, quando cheguei na delegacia, as pessoas que eu tinha visto serem criadas comigo, pequenininho, que a gente brincava na juventude, foram os primeiros a quererem me espancar dentro da penitenciária. Porque, quando eu cheguei lá, a delegada queria que eu desse fulano de tal, queria que eu entregasse beltrano, queria que eu desse quem era o mais criminoso, quem era o mais valente, quem eram... Queria que eu entregasse todo mundo. Como eu aprendi... Porque a gente sempre convive... Na juventude, você convive com quem não presta, você está dizendo quem é fulano e quem é beltrano não presta. Hoje você entrega uma pessoa, o pessoal chama o “cacoete” [alcaguete], você morre. Depois que sai dali, eles vão atrás, matam sua família, matam todo mundo, e é aquilo tudo. E eu tive que apanhar, ocultar o que sabia. As informações que sabia, tive que ocultar para mim mesmo, não pude contar para o delegado. A polícia... Eu passei por uma sequência, apanhei dos presos e apanhei da polícia. Que todo dia me tirava para tomar meu café, eles chamavam de café. Eu tomava bolo e porrada de manhã cedo, era bolo e porrada meio-dia e bolo e porrada para dormir. Então eu passei 90 dias sendo espancado, sem minha irmã saber, sem meus pais saberem, sem ninguém saber. Quando meus pais me procuravam, eles diziam que eu tinha sido transferido para outra cidade, quando eu estava ali, dormindo no chão, numa pedra. Isso tudo foi uma coisa que me ajudou, hoje, a ser quem eu sou. Porque quando eu estava em casa, dormia em minha cama quentinha, hoje ter que dormir numa pedra dessas aqui, com tanto pernilongo me mordendo, amanhecendo outro dia todo mordido. E todo dia levando uma surra, que eu nunca levei de meu pai, meu pai nunca me bateu, nem minha mãe. Meu pai gostava muito de puxar minha orelha, mas bater ele nunca bateu. E eu todo dia ter que apanhar. E aquilo ali eu fui botando na mente. Eu disse: "Se Deus quiser, no dia em que for solto daqui, eu nunca mais piso na cadeia para ser algemado. Ser preso, nunca mais." Como hoje, eu fui solto, graças a Deus, vou para lá para dentro, mas já vou de cabeça erguida, que não vou mais como preso, eu vou como visitante, vou ensinar às pessoas que já estão lá dentro. Isso foi uma coisa que eu trouxe desde o começo. E fiquei chateado por essa parte. P/2 – E os presos te batiam também por quê? R – Porque, eu acho que como eu não falei nada para a delegada, a delegada armou com todos os presos que era para me espancar. Na verdade, ela queria que me matassem lá dentro. Não era para eu ser solto, era para morrer lá dentro. Mas, como eu conhecia todo mundo, eu saía conversando com um, conversando com outro, aí chamei todo mundo para brigar. Já me senti na vontade de desafiar . Eu disse: "Eu também não vou só apanhar. Eu tenho que bater em alguém.” Porque lá dentro, se você apanha, só apanha, você dá como covarde. Na verdade, você vira mulher dentro da cadeia, você vira tudo. Você tem que lavar roupa dos outros, você tem que fazer tudo. Então, não pensava nesse ponto para mim. Eu disse: “Essa vida não é minha. Já que eu tenho que ficar, já que estou preso, tenho que ficar como todo mundo está. Na posição de todo mundo.” Então, como queriam me bater, já não tinha jeito mesmo, eu tinha que apanhar, eu disse: “Já que vocês são homens como eu sou, faz uma fila e vem um por um. Quem for mais forte vence o mais fraco.” A gente brigou, brigou, brigou.... Eu apanhei - não ia ganhar para 42 homens. Apanhei, passei dois meses internado, só tomando soro, tomando injeção - porque eu fiquei com muita cicatriz no corpo, muita marca. E além disso, na saída, logo que eu fiquei melhor, a polícia começou a me tirar, a me espancar de novo. Tive que voltar para o hospital de novo. Levei uma coronhada de rifle em minhas costas rachou essa... A pá, eu tenho ela rachada, ela é bem assim.... Rachou da coronhada que pegou, então tinha que fazer cirurgia. Nunca fiz, que é caro para fazer. Não tenho condições também de pagar uma cirurgia para fazer. E pelo SUS também é.... Você conhece as... Na verdade, eu não gosto de ir nem no posto médico. Minha mãe quer ir, quando eu vou levar minha mãe ao médico, eu mando a mulher. Disse: “Leva, que eu não vou não.” Ela: “Não, vai comigo.” Disse: “Eu não vou lá não.” Não gosto de ir lá. Porque eu tenho, assim, muita lembrança ruim de médico. Eu acho que eu tive anemia aguda. Eu estava em pé dentro da penitenciária, dentro da igreja - porque lá tem igreja - já aqui em Salvador, eu estava em pé, só que eu caía, desmaiava. Me levavam para o médico. Uma vez que me levaram para o médico, a médica pegou nas minhas unhas, apertou, não tinha sangue, era branco. Você podia apertar assim, não via nada. A médica falou: “Ah, você está com leucemia.” E eu sabia que leucemia era uma doença crônica, que não tem cura. Aquilo ali foi mesmo que ter me matado. E eu fui me jogando no desprezo. Fui me jogando. Eu disse: “Já que é leucemia, não tem jeito mesmo, não tem cura, eu vou fazer o quê? Vou morrer.” Fiquei naquele medo, tive que fazer transfusão de sangue. Quando me colocaram na mesa de cirurgia para fazer transfusão de sangue, como era evangélico, ia para a igreja direto... P/2 – Era o quê? R – Eu ia para a igreja, era evangélico, batizado. Eu disse: “Eu não vou trocar o sangue não. Não quero sangue de ninguém. Eu sei lá o que vai vir no outro sangue para ficar em mim? Eu vou continuar com o meu. Se tiver que morrer é porque tenho que morrer. Se não morrer, eu saio daqui.” Dei a testa, na hora de fazer a transfusão de sangue, com toda a aparelhagem já, com aquelas bolsas de sangue do lado, eu fiquei já com medo. De tanto ver lá dentro da penitenciária, briga de um, briga de outro, tem vezes que um pegava o outro esfaqueava lá dentro. Eu ficava olhando aquele montão de sangue. Quando eu vi aquelas bolsas do lado, eu disse: “Aonde! Quero nada! Pára por aí.” Dei a testa, também eles não podiam me colocar sangue sem minha permissão. Porque não tinha minha irmã, não tinha o pai, não tinha ninguém aqui em Salvador para permitir, então só quem tinha que permitir era eu. Eu assinei um termo que não queria que fizessem transfusão de sangue, não fizeram a transfusão. Eu coloquei na mente que a médica estava mentindo. Porque o pastor sempre falava que o médico mentia, dizia que você tinha uma doença, na verdade você tinha outra. Botaram na cabeça que eu tinha anemia aguda, que é praticamente quase como uma leucemia, mas não mata, tem cura. O missionário levava para mim couve, leite, só a maior parte, fruta. Eu passei a me alimentar de fruta, essas coisas. Todo dia eu batia mastruz com leite e tomava. P/2 – Lá mesmo? R – Lá mesmo, lá dentro mesmo. A missionária é quem levava para mim. Porque lá não tinha mas ela conseguiu uma autorização, toda semana levava, levava aquele pacotão de couve, batia junto com leite, de manhã tinha que tomar. Ruim que só, mas tinha que tomar. Aí disse: “Se for para ficar curado disso, eu tomo.” Foi quando passei a tomar, fui acreditando que eu não estava com leucemia, era apenas uma ilusão da minha cabeça. E o pessoal dizia: “Mas você está com leucemia?” Eu disse: “Eu não, quem está com leucemia? Você é que está com leucemia”. “Você está ficando maluco?” “Não estou com leucemia não, meu irmão, eu apenas... Meu sangue é que está fraco." E fui indo assim, fazia aqueles sucos de beterraba, grossão, tinha que tomar, era meu alimento. E depois eu, na verdade, quando... Depois que fui solto, ainda tinha aquilo na mente. Depois, quando cheguei, fui logo contar para o meu pai. Meu pai: “Mas rapaz!” Eu disse: “É, meu pai, o médico falou que eu estou condenado à morte, tenho leucemia. E diz que leucemia é uma condenação, praticamente: ‘Você está, é crônico’.” Aí ele: “Ah, é nada, é conversa”. Mas a gente brincando, eu fui cortar uma cana, meu pai tinha uma soqueira de cana lá no quintal dele. Eu disse: “Vou tirar uma cana para chupar... Um bocado de tempo sem chupar uma cana.” Quando eu cortei a cana, a cana estava amarrada em cima e eu puxei aquilo. O facão acompanhou, entrou no meu braço, eu fiz essa cicatriz. P/2 – Nossa! R – Cortou bastante. Começou aqui assim. Vazava sangue até falar chega. Oxe, foi bastante sangue, que aqui foi fundo. O pessoal que estava ali, ficava: “Vamos para o médico, vamos para o médico.” Eu não queria médico. Eu, em vez de ir para o médico, eu ficava por lá: “Glória a Deus, Glória a Deus”. Só por causa do sangue que eu estava vendo, entendeu? Que tinha um tempão sem ver sangue. Ninguém acreditou. [risos] P/1 – Você tinha uma rotina lá na cadeia? Tipo, você ficava na cozinha, fazia esse tipo de serviço ou não tinha muita coisa para fazer e aí você começou a pensar? R – Não, quando eu estava no interior eu tinha um certo privilégio porque, pelo que eu tinha passado e tal, tipo, lá dentro ter sofrido, minha irmã... O juiz pegou uma afinidade comigo, porque ele mandou fazer um levantamento da minha vida toda fora e viu que, como eu não tinha envolvimento com nada, não tinha envolvimento com crime nenhum, era uma pessoa que vivia só do trabalho, trabalho para casa, tinha sido uma conseqüência de ter acontecido o que tinha acontecido. Então ele deixou que eu ficasse varrendo lá dentro, apanhava toda a sujeira, ia jogar fora, ele me conseguiu assim a oportunidade de sair da delegacia. E eu ia jogar o lixo fora, lavar o carro do delegado, lavar o carro da delegada. Que você tem que fazer, você é obrigado, apesar de eu não gostar muito dessa profissão de lavar carro, eu tinha que ir. Sempre eu tinha essa confiança. Quando cheguei aqui em Salvador, eu não tinha muita... Muito lugar para sair. Porque aqui é restrito. Chama-se penitenciária, então tinha que ser... Não pode sair. É muito, assim, a oportunidade de sair para um lugar que chama farda azul, é um privilégio que você vai para o lado de fora. Só que farda azul é pior do que você estar dentro, porque a farda azul tem muitas armações, muita contenda. Eu não, eu nunca gostei desse negócio de contenda, sempre fiquei mais atrás. Foi quando Jordão, que era de lá de onde eu morava também, de Senhor do Bonfim, veio transferido de lá também para cá, tinha acontecido crime com ele, ele veio para cá, a gente se conheceu. Ele era soldador, trabalhava com Francisco Maia, soldando ferro, tal. Ele chegou um dia e perguntou para mim - era umas cinco... Mais ou menos umas cinco horas da tarde, eu estava pegando água para tomar banho, não sei, era de noite, umas cinco horas da tarde, quando ele passou de lá para cá, falou: “Você quer trabalhar?” Eu disse: “Pô, mas é claro que eu quero trabalhar. Ficar aqui dentro só olhando para o teto, olhando para as paredes, não ter nada para fazer…”. Apesar de que eu fazia artesanato, casinhas com palitos de picolés, casinhas, porta-jóia, caneta, esses tipos assim, quadro, porta-quadro, eu comprava, assim, esses quadro de Sandy e Júnior, os dois juntos. Aí eu acrescentava, se ele tivesse trinta centímetros eu colocava mais dez do lado, de papelão, e "espalitava" todo com palito de fósforo. Fazia aqueles detalhes, uns desenhos bem feitos. Até tem algumas em casa. Ainda talvez eu tenha lá na casa de minha mãe, no interior. Ela guarda como uma escultura, para ela ali é uma raridade. Então, quando ele me chamou para ir trabalhar lá, eu gostei. Eu disse: “Pôxa, para mim é uma boa.” Contando como era o projeto, eu disse: “Oxe, estou nele.” Aí me ligou: “Só que você vai ter que serrar ferro. Você vai entrar serrando ferro. Você vai trabalhar me ajudando.” Eu disse: “Eu não quero saber em que eu vou trabalhar. Eu quero saber que eu vou fazer algo que vai deter minha cabeça. Eu vou passar o tempo, parar de pensar besteira.” Porque eu pensava muito em vingança. Estava lá dentro, eu pensava muito assim: “Pô, mas aqueles caras fizeram o que fizeram. Depois disseram que eu é que mandei fazer, sem eu ter mandado, sem ter cometido nada. E eu ter que passar essa cadeia toda preso e eles na rua, gozando a juventude, gozando a brincadeira. E eu perder a minha toda aqui dentro? No dia em que eu for solto, eu vou ter que matar um por um.” Eu pensava muito nisso. Mas quando ele me chamou, me convidou para o trabalho, eu já mudei minha mente. Eu disse: “Eu vou com essa mente de trabalhar e pensar coisas positivas. O trabalho vai me ajudar.” Quando cheguei lá, conheci Chico Maia, ele conversando comigo e tal, me passando as coordenadas e tal. Eu percebi que ele tinha assim um certo amor pelas pessoas que trabalhavam ali com ele, entendeu? Eu olhei assim, o modo dele conversar com você, brincar, eu disse: “Esse rapaz, parece que ele está tratando esse pessoal como filho.” P/2– Quem ele é? R – Chico Maia. R – Eu gostei do tratamento dele para com as pessoas. Você sentia... Eu sentia que alguém, além da minha família, que ia me ver, me tratava assim como se não fosse um preso, como se fosse de igual para igual, ele tratava a gente. E até hoje trata assim. E eu fui trabalhar com ele, passei... Porque você tinha que fazer um período de três meses no teste, aí eu passei no teste de serralheiro, ajudante de serralheiro. Eu não gostei muito porque eu acho que tinha vezes que eu ficava muito parado. Eu cortava tudo que tinha que cortar, todas as armações e ficava lá, tinha que ficar olhando. O cara soldando e eu olhando. Aí eu ia para a parte de vela. Num dia era fazer a vela. Quando Maia chegava, ele me achava fazendo vela. "Mas você não trabalhava no ferro? Por que você está aqui?" Eu disse: "Não tem nada para eu fazer lá, eu vim para cá." Passei a fazer embalagem e outras coisas. Não tinha nada para fazer, eu ia fazendo limpeza, ele foi gostando. E eu fui também gostando ainda mais da opinião dele do trabalho. Foi onde eu peguei mais, mudei minha mente. Do que pensava, já passei a pensar mais em sair de lá de dentro, chegar aqui fora, continuar trabalhando, esquecer o que eu tinha passado. P/1 – Mas tinhas essas oficinas dentro da penitenciária aqui em Salvador? R – Aqui? Tem. Tem uma oficina com várias... A do Chico Maia, que é de vela; tem de plástico; tem de piaçava; tem de móveis, onde faz armário, essas coisas assim de madeira e tem outra, que é de rodos e vassouras. E tem uma que é riscagem de pano, onde faz a estopa. Então, tem para várias opiniões. Hoje, a maioria… Olha, eu acho que 50% dos detentos hoje trabalham na penitenciária. P/2 – Mas a do Chico era mais a de vela e de ferro? R – É. As de Chico são vela e ferro. E hoje trabalha com piaçava também. Faço prato, faço bandeja. Ele faz as luminárias também, umas luminárias bonitas, que a gente trança toda com a piaçava e acende uma lâmpada dentro. Fica, assim, aquele abajur muito lindo. A gente faz muitas coisas hoje. P/2 – E esse projeto do Chico, como é que chama? Esse é que é o ‘Arte que Liberta’? R – É. Chama projeto ‘Arte que Liberta’. Antes, ele era conhecido como ‘Salomão’, depois que ele cresceu, mudou o nome - colocou projeto ‘Arte que Liberta.’ Teve uma votação, ele sugeriu na mente, porque ele é uma pessoa... Artista plástico, ele pensa, só que ele não faz só, ele pensa, lê, aí vai lá e pede a sugestão de todo mundo, todos aqueles que estão ali, que trabalham com ele, dos detentos, que você sugira um desenho, uma coisa. E ele sempre está pedindo opinião, sempre está colocando você para cima. A gente sempre na obrigação de estar criando junto com ele. Ajuda a pessoa a crescer. P/1 – Só uma linha do tempo e tal, você tinha quanto anos quando foi preso? R – Vinte e um. Estava passando 22. P/1 – E você ficou sete anos... R – Sete anos. P/1 – Então você saiu agora. R – Saí agora, 2005. P/2 – E a sua juventude? Você tinha as crianças, morava com... R – Com o meu pai. Tinha a menina, a menina só. Era. Na época eu estava só ... Quando tinha a mulher, tinha só a menina. Quando a mulher ficou de barriga, com oito meses, foi a época em que eu fui preso. Então, a menina eu vi até os três anos de idade. Mas o menino, vi agora. P/2 – E a sua juventude? Esse período que você ainda estava lá na sua cidade, como era? Você trabalhava ainda na roça? Como foi a sua juventude? R – É, depois que eu me juntei com essa mulher, passei a morar junto com ela. Já não trabalhei mais na roça porque o trabalho de roça, na verdade, ele não lhe ajuda assim financeiramente, o limite para você sustentar uma família, ter que comprar leite todo sábado, ter essas coisas. Do jeito que o leite é caro... Apesar de que na roça tem o gado, tira leite do gado, mas de qualquer maneira você tem que comprar. Comecei a trabalhar como ajudante, com o meu pai. Meu pai, ele trabalha como pedreiro, aí passei a trabalhar como ajudante com ele. Não como ajudante, praticamente. Eu ia mais para fazer, porque essa mania de ajudar os outros, eu gostava de eu mesmo pegar e fazer. Eu sempre estava “armengando”. Pegava um bloco, meu pai me ensinou como tirava um prumo, como batia uma liga. Depois já passei, eu mesmo, a trabalhar por conta própria, trabalhava como pedreiro. Acertava bloco, fazia reboco, acertava a cerâmica, fazia tudo, até pouco tempo. Ainda hoje, de vez em quando, eu faço alguma coisa. Às vezes não tem trabalho no projeto, estou em casa, sem ter o que fazer e um amigo me chama: “Vamos fazer isso?” Eu digo: “Bóra. Já estou lá.” Já é um extra que eu tiro. Então eu tenho essas duas profissões. A Cátia até me colocou nome de Severino, porque ela disse que eu faço de tudo. [risos] Eu aprendi de tudo um pouco. P/2 – Quem pôs seu nome Severino? R – Cátia. P/2 – Quem é essa pessoa? R – Cátia é a ... Hoje é a diretora financeira do projeto ‘Arte que Liberta’, é irmã de Maitê. Ela toma conta do projeto aqui todo. Maitê fica em São Paulo com Chico Maia, e ela é responsável aqui. Aqui, a gente anda, ela me considera, pelo menos o que eu vejo, assim, o modo dela me tratar, ela me trata assim como se fosse um irmão. Ela não vai... Todo canto que ela vai, eu tenho que ir. Se eu for para um canto, ela vai para tal lugar, chega lá tenho que ligar para ela para avisar que eu já cheguei. Ela tem medo de que eu me perca em Salvador, porque eu não conheço ainda muito bem Salvador. Apesar de ter dois anos aqui, solto já, andar, porque eu ando que só aqui em Salvador, ela me coloca para andar, me dá um monte de responsabilidade. Eu tenho que ir, tenho que fazer e voltar para ela. P/1 – Agora que você terminou sua pena? R – Não, ainda respondo condicional. Termino em junho de 2008, agora. Ano que vem. Ano que vem eu passo.... P/1 – Você tem que ficar em Salvador, não pode sair da cidade? R – Eu não posso sair assim... Eu não posso sair fora, digamos, passar além de três meses. Mas dentro dos três meses eu posso ir, aqui em volta da Bahia, para qualquer lugar. Mas já para eu passar mais de três meses, tenho que conseguir uma autorização do Juízo, para que eu possa fazer e me apresentar no lugar aonde eu estiver, no estado, seja lá onde for. Mas aqui mesmo eu posso sair. Eu vou para o interior, ia ver meu pai, minha mãe, sempre eu... Três em três meses. Eu assino... Por exemplo, eu assino hoje e amanhã eu posso ir. Quando está dando o período de voltar, trinta dias antes de assinar, eu retorno para não ocorrer algum imprevisto. De repente, eu estou lá longe, ocorre um imprevisto, eu estou lá longe, não tenho como chegar, aí me complico de novo. Então, sou pontual para não retornar mais para lá. Na verdade, eu não faço quase nada que permita dar um lugar de dizer: “Não, você errou, vai ter que voltar.” Eu tenho muito medo disso. Porque eu estou há dois anos solto. Às vezes, a pessoa... Eu saí de lá devendo três anos. Porque eram dez anos e dois meses, eu tirei sete, então fiquei devendo três anos e dois meses. Eu estou respondendo dois, já fora, solto. Eu ser preso de novo... Vou ter que perder esses dois anos e pagar os três anos de novo? É nunca! [risos] P/1 – Quando você falou que teve a vontade de aprender a ler foi dentro da prisão? E foi lá que você teve as aulas com a…? R – Ó, lá no interior tinha a professora da Igreja Adventista, que ela ia e fazia o discipulado. Ela me comprou um caderno. Ela levava o caderno lá para dentro, fazia as provas e dava para que eu fizesse na cela. Tinha um rapaz, que era boliviano, tirava na cela comigo, ele tinha bastante estudo, um grau avançado, era químico, ele sempre estava me ensinando. Sempre me ensinava como fazer o desenho, copiar as palavras. Quando eu cheguei aqui em Salvador, foi onde eu tive oportunidade de ir para um colégio, realmente. Porque você sai, tem um colégio dentro, você sai de carro e vai para o colégio. P/2 – Dentro da unidade? R – Dentro da unidade, você só se desloca. P/1 – É um supletivo? Como é que funcionava? R – Como assim? P/1 – Lá tinha aula todo dia? R – É, todo dia pela manhã. Turno da manhã e turno da tarde. Do 1º ao 2º anos. P/1 – Português, Matemática e... R – Tudo. Você tem a professora de Português, professora de Matemática, outra... São três professoras. Comecei na parte alfabética e terminei; já na 4ª série eu tinha passado pelas três professoras. Na última professora, professora Ana, que ela que... Quando eu ia estudar com ela é que fui trabalhar com o Chico Maia. Deixei de estudar, fui trabalhar. Não vou dizer assim: “Não quero mais estudar.” Eu tinha vontade, na verdade, de fazer as duas coisas. Mas lá dentro eu tinha que optar: ou estudava ou trabalhava. Eu achei que trabalhar era mais importante, apesar do estudo ser muito importante, mas tinha vontade. “Mas já aprendi a 4ª série, depois que eu chegar na rua, dou continuidade. E o trabalho aqui dentro, eu vou aprender uma coisa diferente, que eu nunca vi e não sei fazer.” Sempre eu tive vontade de ter algo assim estranho, diferente, sempre tive vontade de aprender a fazer. Porque, digamos assim, numa hora você está num lugar, se você não encontra uma coisa para fazer, você faz outra. Você vai saber fazer, você não está perdido. Então, em tudo você se encaixa. Eu tinha vontade de aprender coisas novas. P/1 – Você ficou participando dessas oficinas. E como foi a notícia quando falaram que você ia ser solto? R – Quando falaram que eu ia ser solto... É porque, na verdade, eu não trabalhei nesse dia. Eu fiquei na oficina só andando, a ansiedade era muito grande. A ansiedade e, ao mesmo tempo, tipo, como dizer, [pausa] se sentir rejeitado. Porque eu acho que era para eu ser solto, que eu fui embaixo de um... Chama CRC, eu fechei sete anos. Eu tinha que tirar seis anos e oito meses. E eu tirei sete anos sem reclamar. Só quieto. Disse: “Se tem que tirar dois terços da pena, não vou reclamar de nada. Quando vencer meus dois terços, vou encher o saco de todo mundo.” Quando completei os dois terços, eu disse: “Não, vou me manter na minha posição, se eles não me soltarem, vou começar a zoar.” Completei sete anos e nada. Eu continuava preso. Eu disse: “Agora é minha vez.” Comecei a encher o saco de um agente, encher o saco de outro, aí ele me levou no CRC. Quando chegou no CRC, que foi ver meu processo, a assistente social falou que eu tinha que tirar quatro meses. Eu disse: "Oxe, se eu tenho que tirar seis anos e oito meses, eu estou tirando sete, por que eu tenho que tirar mais quatro?" “Não, porque você passou quatro meses preso e esses quatro meses não conta.” Porque foi... Disse que eu estava preso provisoriamente. Foi na época em que eu estava só apanhando. Então meu processo não desceu para o Fórum, ficou só na delegacia. Depois dos quatro meses foi que meu processo desceu para o Fórum. Então, aqueles quatro meses ficaram nulos, eu perdi. Segundo eles, eu estava solto. Eu disse: “Como é que eu estava solto, se eu estava apanhando, quatro meses apanhando, como é que eu estava solto?" A minha irmã fez um levantamento, puxou, do dia em que eu tinha sido preso até o dia que o processo desceu para o Fórum. Trouxe para cá e fez o levantamento todo, e consegui encaixar. Mas mesmo assim, ele não queria me soltar. Eu tinha que tirar os quatro meses. Como eu já tinha dois anos trabalhando com Chico Maia, eu consegui minha remissão de pena. Na remissão de pena eu consegui quatro meses. Eu ganhei quatro meses a menos na pena, justamente os quatro meses de que eu precisava. Eles não tiveram por que me segurar, tiveram que soltar. No dia em que eles... Eu não estava nem esperando, estava fazendo um (reichou?) que Maitê pediu para eu fazer, não era nem um (reichou?). Seiscentos. Maitê pediu para eu fazer, eu tinha que fazer no dia, naquele dia. Eu tinha que fazer seiscentos (reichou?). Era uma coisinha simples, pequenininha, que você faz rapidinho. Eu estava no meio, fazendo, aí o agente chegou: "Anilton, desça lá que é para você pegar seus documentos porque você vai embora amanhã." [risos] Eu não quis história com (reichou?) nem com nada! [risos] E saí doido. Quando desci , ele já não foi comigo, mandou eu ir sozinho. Eu disse: "Oxente, estou solto mesmo. Permitiu que eu vá lá embaixo sozinho!" Fui lá, peguei meu documento, quando voltei já pedi logo minha passagem para dentro do corpo. "Quero ficar mais aqui não, vou para dentro do corpo, vou arrumar minhas coisas e vou-me embora." [risos] P – Para dentro de onde? R – Do corpo, porque a oficina era separada. Você sai daqui, se desloca para o outro local. Eu pedi minha transferência logo, não fiquei mais no setor de trabalho, voltei logo lá para dentro, deixei endereço, telefone, tudo em cima da mesa lá do escritório do Maia, voltei para o corpo. No outro dia, cedinho, seis horas da manhã, me tiraram. Fui solto. Fui para a Vara de Execuções. E ainda aconteceu algo incrível, que quando eu cheguei na Vara de Execuções, sempre tinha alguma coisa me puxando para que eu não saísse. Eu fui sozinho para a Vara de Execuções. Apenas eu e os agentes. Quando cheguei lá, o juiz olhou para a minha cara: “Não, você vai voltar de novo.” Eu disse: “Espera aí, não me venha com esse negócio não, que você vai me deixar doido." Ele: "Não, você quer sair só?" Eu disse: “Eu não quero nem saber como é que eu vou sair, mas se eu vou ser solto, não importa como eu vou sair. Importa que eu vou sair. Chegando lá fora, alguém vem me buscar." Como eu tinha mulher, que eu consegui dentro da penitenciária, do sistema, não ia ter problema. Então eu disse: "Daqui a pouco a mulher vem me buscar. Ela não vai me deixar sozinho aqui.” Mas ele: “Não, você vai ter que voltar, dormir lá dentro, que amanhã você vai ter o privilégio de sair junto com você mais cinco.” Eu disse: "Ah, então não vou voltar para ser preso, vou ser solto..." Ele: "Você vai só voltar para buscar os outros." Eu disse: "Ah, está bom demais, não faça isso não, o importante é ser solto." Dormi mais um dia lá dentro. No outro dia é que fui solto. Era para ser solto no dia 16, só fui solto no dia 17. Fomos soltos, eu e mais cinco pessoas. Quando eu saí de lá, quando chego do lado de fora, liguei para todo mundo. Todo mundo vírgula, para Maia e para Maitê. Eu queria dinheiro para ir embora, liguei para Maitê, para Maia, eu disse: "Agora eu quero dinheiro para ir para o interior." P/2 – Quem é Maitê? R – Maitê é a esposa de Chico Maia. Com ela é que eu sempre tive mais afinidade. Tinha mais afinidade com ela do que com Maia. Maia tinha afinidade, mas só de compromisso de trabalho mesmo. Maitê, sempre ela brincava comigo, a gente brincava, com a irmã dela a mesma coisa. Mas eu me achava assim... Quando eu queria pedir algo, eu ia mais a ela, porque ela me deixava mais à vontade do que Maia. Maia é homem, homem, você sabe como é, sempre tem que manter o pulso forte ali, não pode dar brecha. Porque ele era o patrão e a gente era o empregado, então ele tinha que ter a divisão. Mas já com Maitê não. Maitê brinca com todo mundo. Ele também brinca com todo mundo, mas tem já esse... Eu me sentia também com vergonha de pedir as coisas a ele, eu não gostava de estar pedindo nada a ele. Mas já Maitê, eu pedia. Eu pedia na cara de pau, não estava nem aí [risos]. Eu liguei logo para ela: "Eu quero é dinheiro para ir para o interior". Aí ela: "Não, consigo dinheiro e você passa aqui e pega." Consegui, fui solto, passei lá, ela me deu meu dinheiro, passei no escritório, peguei o dinheiro. No outro dia, no mesmo dia de noite, eu me mandei para a rua, para a roça. Passei 15 dias na roça, fui olhar a... P/2 – E essa chegada lá? R – Na roça, quando eu cheguei na roça, foi assim uma emoção. Foi grande porque, na verdade, eu não fui direto para a casa de meus pais, fui direto para a casa de minha irmã. Minha irmã morava... Cada um mora no seu lugar. Minha irmã hoje é casada, tem sua família. Então eu fui para a casa de minha irmã. Quando eu cheguei na casa de minha irmã, eu cheguei era umas quatro horas da manhã, ninguém dormiu mais. Foi aquele... P/2 – Eles sabiam que você ia chegar? R – Não. Minha irmã sabia porque tinha um rapaz no Fórum, na Vara de Execuções, que ligou para ela e falou que eu estava sendo solto. Ela imediatamente pegou o ônibus lá e veio me buscar cá também. Em vez de eu sair só com minha mulher, eu saí junto com as duas, com minha mulher e minha irmã. Minha mulher queria que eu ficasse com ela. E minha irmã queria que eu fosse com ela para o interior. Eu fiquei dividido. Eu disse: "Não tem outra opção, vai você comigo para o interior, vai a carga toda." Aí ela veio, mulher com filho - que a mulher tem dois filhos - carreguei. Ela tem quatro, mas dois são casados e dois moram com a gente. P/1 – A sua mulher? R – É, hoje ela tem dois filhos. Dois moram com a gente e dois são casados, têm suas famílias. Ela também não podia sair daqui e deixar dois filhos pequenos, porque um tem 15 anos e o outro tem 13. Eu disse: "Leva os dois." Um não quis ir, ficou. O outro foi. A gente se ‘picou’ para a roça! P/2 – Onde você a conheceu? Você começou a contar e passou... R – Eu a conheci dentro da penitenciária. É irmã de Charles. P/2 – De? R – Charles. Trabalha com Chico Maia lá em São Paulo. Ele trabalha numa loja com Chico Maia. A gente tinha afinidade na igreja e tal, e ela tinha... Ela visitava outro rapaz lá dentro. Esse rapaz foi solto e quando o rapaz chegou aqui fora, quis bater nela, aquela agonia e tal, aí se separaram. Como eu tinha lá uma amizade com Charles, parecíamos dois irmãos lá dentro, era unha e carne... A gente tinha mais amizade, mais afinidade, eu sempre brincava com ele: "Pô, velho, sua irmã, negona bonita, vou casar com sua irmã." Ele começou a encher o saco. Quando a irmã vinha vê-lo, ele sempre botava no ouvido da irmã. Eu tive a curiosidade de conhecê-la, a gente começou a conversar, trocar ideia... Foi indo, foi rolando, até quando a gente ficou junto. E está até hoje. Tenho vontade de ficar sempre, ficar velhinho, não penso em trocar não. P/1 – Mas você passou 15 dias na roça, voltou para Salvador e já foi trabalhar com Maia? R – Foi. Quando eu saí de lá... P/1 – Aí, você fala do Projeto. R – Quando eu fui solto, Maitê falou logo: "Você vai para o interior, mas quando você voltar - você não fica lá - você volta para trabalhar com a gente.” Eu disse: "Não, mas eu vou trabalhar com meu pai." Ela: "Não, você vai trabalhar com a gente aqui, ou você não quer trabalhar?” Eu disse: "Claro que eu quero." Quando eu voltei, cheguei num dia, no outro dia já tive que fazer entrega de uma mercadoria em Salvador, sem saber nada de Salvador. Ela pediu que eu entregasse umas velas numa cliente que fica lá perto do Hospital Salvador. Eu não sabia nem para que lado ficava. Eu disse: “Como é que eu vou chegar lá?” Ela me deu o endereço, tudo direitinho. Eu perguntava ao cobrador, porque eu não conhecia nada, tinha que perguntar ao cobrador onde é que ficava o lugar. Saía perdido. Em vez de gastar um transporte, eu gastava cinco, seis, porque eu descia nos lugares errados. Mas consegui fazer. Continuei trabalhando com ela. Foi nessa época...[pausa] Assim… Ela me dava o transporte: “Você vai para tal lugar.” Eu não sabia onde era, não sabia como chegar, eu tinha que procurar. Ela me dava o endereço, eu procurava o cobrador. Tinha vez que o cobrador me ensinava certo, tinha vez que o cobrador me ensinava errado. Eu descia num ponto, ficava perdido: "Será que é aqui mesmo?" Procurava a pessoa mais idosa, porque eu sei que o jovem não gosta de informar a ninguém o lugar certo... Procurava os idosos, via um idoso, falava assim: "Aquele vai me dar o endereço certo." Ia lá, procurava, aí ele: "Não, fica em tal lugar." Eu saía do local e acertava o lugar, fazia a entrega e voltava para dentro. Foi onde ele conseguiu uma autorização para eu entrar para a oficina. Porque não é permitido o ex-detento sair de lá e retornar para lá, para dentro. Então, no Código Penal não existe essa lei que permita que um ex-detento retorne para o setor de trabalho. Você pode trabalhar fora, mas lá dentro você não pode mais. Chico Maia conseguiu uma autorização, eu entrava até a oficina e ficava trabalhando lá junto com os outros presos. Eu trabalhava na rua, fazia todas as entregas e voltava para a penitenciária. Ia trabalhar lá dentro. Até tinha muita gente que gozava da minha cara. Muitas vezes, no ônibus, quando eu falava: "Mas você foi solto, você retorna, não tem medo, não? Você vai fazer o quê lá dentro?" Eu dizia: "Eu não. Antes eu estava lá dentro algemado, hoje eu entro como visitante, para mim é um orgulho. Para mim é um orgulho poder ter sido solto e estar ajudando; hoje ajudo aos outros.” Até porque eu me sentia, assim, na posição de um ex-detento que foi solto e entrava lá para trabalhar com os presos. Eu sentia que estava incentivando. O preso também tem vontade de sair para ter a oportunidade. Como hoje é aberto, várias pessoas que são soltas têm a oportunidade de entrar lá. Mas o primeiro a conseguir esse privilégio fui eu, que o Maia conseguiu e eu entrei. P/1 – Você, das oficinas lá na Penitenciária... Quais são? Tem artesanato de que tipo? R – Tem artesanato de plástico, tem artesanato de pano, quando faz as estopas, vassouras, móveis, e essa, de Chico Maia, que é de velas. P/2 – A que você trabalha com o pessoal... R – É oficina de velas com ferro. Faz a vela e faz o suporte também, onde coloca a vela. Então a gente faz as duas coisas junto, produz um e, ao mesmo tempo, produz o outro. Ou produz cadeiras, sofás, mesas, estantes e qualquer móvel que a pessoa preferir. É só fazer o rascunho e mandar para lá e a gente produz do mesmo jeitinho que você quiser. P/2 – De ferro? R – De ferro, tudo de ferro. Essas cadeiras, assim, de ferro. P/2 - A oficina “Arte que Liberta” é só dentro da unidade penitenciária ou tem fora também outra? R – Hoje temos a Cooperativa, nós estamos fazendo a Cooperativa, patrocinada pela Wal-Mart, que vai dar apoio a todos aqueles que passaram dentro do projeto ‘Arte que Liberta’ lá dentro. Sendo solto, tem o local, que é a Cooperativa, que é onde ele vai trabalhar na Cooperativa, para fora. Então a gente vai dar prosseguimento ao mesmo trabalho que fazia lá dentro, a gente vai dar prosseguimento cá fora. Mas não mais com o nome de ‘Arte que Liberta’, mas sim com o nome de Cooperativa. Chama-se “Faz Cidadão [Para a Liberdade com Cidadania – Uma Cooperativa de Egressos]”. É o projeto ‘Arte que Liberta’ quem apoia, nos dá toda assessoria e toda a coordenada do que deve fazer, do que não deve. Empresta-nos um pouco da sua sabedoria, nos dá seguimento. P/2 – Vocês já formaram a Cooperativa? R – Está formada já. Só não estamos funcionando ainda porque acho que tem que tirar CNPJ etc., essas coisas. Mas já vai abrir. Na semana passada, Chico Maia já voltou para São Paulo, já voltou com CNPJ, ele já deu entrada no Alvará de Funcionamento. Só estamos esperando sair agora o Alvará de Funcionamento para abrir as portas. Mas já tem o local, feito reforma, já temos algumas máquinas dentro. Já fizemos também algumas velas, lá dentro da Cooperativa também, já fizemos alguma coisa. P/2 – Para estrear. E essas máquinas vieram como? R – As que tem foram compradas aqui, temos outras... P/2 – Mas com que recurso? R – Com recurso do patrocínio do Wal-Mart, porque é o Wal-Mart que nos patrocina, com todo recurso. A gente compra e ela fornece aquele dinheiro. A gente compra toda a mercadoria e presta conta de tudo aquilo que gasta e do que não gasta. P/2 – E quem faz parte hoje da Cooperativa? P/1 – Quantas pessoas? R – Que já estão soltos? P/1 – Isso. R – Eu não sei o número de todos. Hoje já trabalhando tem: eu, Anildo, Ataíde e Geraldo, que foi solto agora. Mas já tem outras pessoas, tem algumas no Lafaiete. Tem outros que já foram soltos, que transformaram para voltar. Somos uma turma de 20, na verdade. Não estão todos os 20 fora, mas tem umas oito, nove pessoas já soltas. P/2 – A ideia é de que quando eles saírem já vão para a Cooperativa? R – Já vão se integrar na Cooperativa. Já foi relacionado, feito um contrato, todo mundo assinou, todo mundo colocou nome. Já tem o nome de todos os cooperados. São 20 cooperados, todos os 20 já têm sua parte. Então, todos esses que seriam... Os outros podem ir para o seu interior, para onde for, mas vão caçar um meio de trazê-los do interior para ficar com a gente cá. P/2 – E você trabalha com as velas e com as peças de ferro? R – E com a parte de piaçava também. P/2 – O que você mais gosta de mexer? Qual é a sua especialidade? R – A minha especialidade? É difícil, [risos], porque eu faço um bocado de coisa, eu fico sem ter uma coisa específica. Mas a parte boa mesmo, a parte boa mesmo que eu sei, que é gostoso fazer, é a parte da vela. Que é a parte que você tem aquele processo, que você vai pegar aquele litro, colocar numa forma, ela vai esfriar, depois você vai passar um ferro, fazer todo aquele acabamento, embalar e ela fica prontinha. Depois dela pronta, eu faço uma pecinha de piaçava bem pequenininha, chama-se petisco. Maia criou agora. Aí colo na vela e amarro. Então, eu gosto mais de fazer a parte de vela e a parte de piaçava. A parte de piaçava é, praticamente, uma terapia muito grande. Eu vou ter que costurar, ponto por ponto, com a agulha. Na verdade, eu não trabalho muito na vela. Hoje a minha posição mais é na parte da piaçava. Que eu vou ter que dar aula para as pessoas, fazer curso e tal, então meu trabalho é mais puxado para a parte da piaçava. P/2 – E na vela vocês fazem aquele desenho sempre ou tem alguma criação em algum momento que vocês desenham? R – Tem vários tipos de desenhos. O Maia é quem cria. Ele tem a ideia, cria os desenhos e pede para a gente... É a gente que vai fazer o desenho, a criação dele. A formalidade, formar aquele desenho já é nosso trabalho. Ele só tem a criação. Cria, passa para o papel e a gente passa para a prática. P/2 – Anilton, pensando em tudo que você contou, qual é a importância desse projeto na sua vida, desde a oficina lá na penitenciária até agora na Cooperativa? R – A importância é que esse projeto me dá oportunidade de conhecer pessoas diferentes. É estar sempre envolvido no meio da sociedade. Não ser visto como um ex-detento, mas visto como um cidadão comum. Então, isso para mim é muito importante. Eu me sinto com uma parte de orgulho porque eu vejo assim: eu ter sido preso, por um lado foi ruim, mas por outro lado, para mim, foi bom. Talvez se eu não tivesse sido preso, eu não existiria, poderia ter morrido, acontecido alguma coisa. Como eu fui preso, eu aprendi algo diferente e algo que me levou para dentro da sociedade. E quando me levou para a sociedade, me levou assim como um tiro, de uma vez. Que hoje eu tenho contato com umas pessoas que, antes, eu nem sonhava ter. Visito os lugares, vou a palestras, vou para tudo que tem, eventos, aniversário da Petrobrás, é uma coisa e outra que tem. Sempre que Maia e Maitê vão, eles me levam junto. Então me senti assim... um tiro, de uma vez, fui de uma vez. Me senti importante. R/1 – E os outros companheiros seus, como é que você vê esse trabalho? Porque você está indo junto com Maia, com Maitê, está próximo deles. E para os outros? R – Eu vejo como uma oportunidade, porque do mesmo jeito que eu tenho essa oportunidade de sair com eles, que estou aqui solto hoje, eles também têm. Como um outro que saiu agora, geralmente ele vai... Vamos a feiras, a depender do artesanato a gente vai para a feira, vai vender. A gente vende o produto, conversa bastante com pessoas diferentes, pessoas que nem falam a mesma língua que você, eu nem sei o que estão dizendo. Mas enrola, fica ali no meio, então, para mim é importante. A importância é essa, é o crescimento. Eu fiquei com problema de garganta...[pausa]. Que foi na época em que eu estava preso, minha mãe caiu de uma bicicleta e ficou com glaucoma. Ela ficou internada e eu tomei metanol, gasolina, aquele álcool, resina. P/2 – Por que? Você ficou chocado com a notícia? R – Eu me senti culpado. Eu não vi outra opção, aí tomei. Foi ruim...[longa pausa] Perdi a voz legal, daí quando ela caiu da bicicleta, eu não pensei outra coisa. Eu pensava em tirar minha vida. A única opção que eu achei foi essa. Na verdade, eu não bebi para morrer, bebi para esquecer um pouco. Só que morreram duas pessoas e eu quase vou, quase que fui a terceira. Comeu as cordas, que eu perdi uma parte. Às vezes esquenta muito, arde. P/2 – Acho que você já contou bastante coisa da sua história, porque senão coça muito. R – Não, porque essa parte é uma parte que me emociona mesmo quando eu vejo. É uma parte que eu deixo isolada, não gosto muito de tocar. Porque hoje, se ela está do jeito que está, eu carrego tipo uma culpa. Se ela não fosse me ver, não caía da bicicleta, hoje ela não estaria cega, ela enxergaria. E por causa de mim hoje ela não tem visão, fico...[pausa]. É ruim [pausa]. E por causa disso, eu fiquei com esse problema aqui, não tive condições nem de fazer tratamento. P/1 – Já que você falou tanta coisa bonita que acontece, você tem um sonho? R – Tenho. Eu sonho em um dia ter o meu próprio negócio, meu mesmo assim. E sonho em ver minha mãe enxergando de novo. Então, sonho em poder levá-la para fora, fazer o tratamento especial para ver se ela enxerga, não normal como a gente, mas, pelo menos, através de óculos. Esse é o sonho, posso até não realizar, mas eu creio que realize. P/2 – E como foi para você participar desta entrevista? Porque a gente já está terminando... R – Pela história que Maia me contou lá, eu fiquei pegando por alto. E por eu estar aqui com vocês, eu me senti como se estivesse conversando, assim, com os amigos. A gente estivesse dividindo um pouco da vida. E, na história, eu me senti, assim, uma parte de orgulho que é saber que vou ter algo meu que vai ficar ali gravado para sempre na memória e isso é muito importante. P/2 – Muito obrigada. P/1 – Obrigada. R – Obrigado. Desculpe se eu... P/1 – Imagina. FIM DA ENTREVISTA
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