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História

Conhecimento traz independência

História de: Pietro Carlos Mônaco
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Pietro ingressou cedo no mercado de trabalho após incentivos de seu pai que o indicou o concurso em uma empresa petrolífera. Cursou engenharia e passou algum tempo estagiando na empresa até ser contratado. Passou por diversos setores e ouviu algumas vezes, ao ser recebido, o que fariam com ele naqueles setores. Narra sua trajetória de vida que está vinculada aos muitos anos de dedicação ao trabalho, inclusive um de seus colegas se tornou seu grande amigo e é seu compadre. Conta sobre os avanços que presenciou na empresa e em como a instalação de um setor de pesquisa contribuiu com este avanço, pois, segundo ele, o conhecimento traz independência.

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História completa

Projeto Memória Petrobrás

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Pietro Carlos Mônaco

Entrevistado por Márcia de Paiva 

Rio de Janeiro, 09 de março de 2005 

Código ____

Transcrito por Susy Ramos

 Revisado por Izadora Telles

 

P/1 – Bom dia! Gostaria de começar a entrevista pedindo que o senhor nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Bom, meu nome é Pietro Carlos Mônaco, eu nasci em 1 de junho de 1951, em Niterói, Rio de Janeiro. Trabalho na Petrobrás desde 1974, bastante tempo.


P/1 – Ingressou no ano de 1974? O senhor pode contar para a gente como foi o seu ingresso? Foi por concurso? Como foi?


R – Na verdade, quando eu me formei, em 1973, nós tínhamos algumas opções para entrar na carreira de engenharia química.


P/1 – O senhor se formou em engenharia por qual faculdade?


R – Engenharia química da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Então nós tínhamos na época algumas opções, uma delas era a Petrobrás. Tinha na época o BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social], Companhia Estadual de Gás, havia uma oferta maior de oportunidades. Hoje praticamente é só a Petrobrás. Eu fiz concurso para as três, optei pela Petrobrás, diria mesmo que eu não optei, meu pai optou por mim e me aconselhou a entrar na Petrobrás e eu acho que foi uma boa opção, foi uma decisão correta.


P/1 – E dessas três por que teve essa opção? Por que a Petrobrás era tida, desses três exemplos que eram também outras empresas, BNDES que era um banco forte... Qual era a imagem da Petrobrás? 


R – A imagem. Na visão do meu pai eu era engenheiro e engenheiro tinha que trabalhar em uma empresa de engenharia ou de petróleo, não tinha sentido eu ir para um banco. A visão dele era essa, claro, uma visão muito limitada, ele é uma pessoa muito simples. A Companhia Estadual de Gás pelo próprio tamanho, comparada à Petrobrás e ao BNDES, essa que foi a razão dessa opção.


P/1 – A Petrobrás também tinha essa idéia de um emprego muito seguro também.


R – Não tanto quanto hoje. Quer dizer, em termos salariais, eu me lembro na época que o salário do BNDES era até melhor inicialmente, mas não era essa imagem que tem hoje. A empresa hoje é reconhecidamente uma empresa forte, reconhecidamente uma empresa internacional, uma empresa vencedora, na época era uma empresa que ainda, não me lembro bem, mas devia estar produzindo algo em torno de 200, 300 mil barris de petróleo. Era uma grande empresa, como sempre foi, mas não como hoje.


P/1 – Entrando na Petrobrás o senhor, onde o senhor foi trabalhar?


R – Na época, nós éramos admitidos como engenheiro estagiário, na categoria estagiário. O curso, fomos fazer um curso de dez meses, eu me recordo que éramos 53 engenheiros ou alunos, não sei qual seria o termo correto, e no final de dez meses, ficamos só em 42 porque foram alguns eliminados. A cada período, eram quatro períodos, havia uma verificação de notas, então quem tinha abaixo de sete era eliminado.


P/1 – Esse curso era aqui no Rio?


R – Era no Rio, lá no Edise [Edifício Sede da Petrobrás], na época era no Edise. Nem me recordo qual era a sigla, não sei se era Universidade Coorporativa, não existia Universidade Coorporativa, não me recordo agora qual era a sigla, mas foi feito todo no Edise.


P/1 – Aí depois, então?


R – Depois de dez meses nós fizemos a escolha. Era muito interessante porque ela era em função da nota final que era na verdade uma classificação. No quadro-negro – ainda era quadro-negro – eram colocadas as vagas e os locais e chamavam assim: “Quem ficou em primeiro lugar? Você quer ir para onde?”, a pessoa chegava lá e escolhia.


P/1 – Podia escolher?


R – Podia escolher.


P/1 – Os melhores?


R – É, os melhores classificados, os primeiros classificados escolhiam os melhores, os locais que interessavam. Não preciso dizer que o Rio de Janeiro era disputadíssimo porque a maior parte da turma era do Rio de Janeiro, embora tivesse muita gente do Rio Grande do Sul, São Paulo, mas eles acabavam voltando para o local de origem. Assim foi feita a escolha.


P/1 – O senhor escolheu para?


R – Eu escolhi para ficar no Rio de Janeiro na engenharia, na época a gente chamava de Serviço de Engenharia. Foi interessante porque depois da escolha havia um estágio, a necessidade de ter um estágio nas refinarias, então eu, por exemplo, tive que ir para a Reduc [Refinaria Duque de Caxias], só que quando eu me apresentei no Serviço de Engenharia eu descobri que eu tinha sido trocado porque o Serviço de Engenharia devia uma vaga de engenheiro para o Departamento Industrial, antigo Depin, que hoje é Refino. Eu costumo dizer que eu já entrei na Petrobrás brigando, hoje eu não brigo mais, mas, na época, já entrei brigando. E eles me disseram: “Não, você não vai.”, porque da turma que tinha escolhido Serviço de Engenharia eu era o terceiro colocado embora muito bem colocado na turma, entre os cinco ou seis primeiros lugares, eu estava nesses, eu era o terceiro colocado, então alguém tinha que ir para o Departamento Industrial. O Departamento Industrial, naquela época, a imagem que a gente tinha era de fábrica, macacão, coisa desse tipo, tinha nada a ver com engenharia, aí não preciso dizer que eu briguei, mas não teve jeito.


P/1 – Teve que ir?


R – Tive que ir. Foi quando eu ouvi uma frase muito interessante, acho que foi em 1974. Eu vi um comandante, eu não sei se ele era superintendente adjunto, não vou citar o nome, não sei nem se ainda está vivo, e ele disse assim: “Você vai porque nós estamos mandando!”, eu falei: “Eu não vou, por que eu vou? Eu escolhi, dei um duro danado para escolher, escolhi Serviço de Engenharia.”, falou assim: “Meu filho, manda quem pode, obedece quem tem juízo!”.


P/1 – [Riso]


R – Eu muito novo, devia ter, em 1974 tinha 23 anos, menos de 23 anos, falei: “Isso é papo de militar!”, eu muito novo. Ele disse assim: “Mas quem é que está mandando?”, eu falei: “Eles!”, “Eles não, nós! Então você vai!”.


P/1 – E você não sabia que ele era um militar?


R – Eu fui. Não sabia que ele era comandante, tinha sido comandante na Marinha, coisa desse tipo. Estava ocupando um cargo, naquela época na Petrobrás tinham muitos cargos ocupados por militares ou reformados. Interessante que eu me apresentei, fui me apresentar ao Departamento Industrial chateadíssimo dizendo: “Nessa empresa não fico mais! Sou obrigado a ficar dois anos.”, porque senão, a gente tinha uma cláusula que se a gente quando terminasse o curso, porque o curso era muito caro, a Petrobrás gastava muito dinheiro para dar esse curso, nós tínhamos uma obrigação de ficar no mínimo dois anos senão tinha que pagar, eu me lembro que era algo em torno de 50, não lembro se era 50 mil, 50 milhões, não me recordo, mas era um dinheiro altíssimo. Para você ter uma ideia, meu salário era 3217, até hoje eu lembro. Aí eu tinha que pagar acho que 50 mil, falei: “Vou ficar dois anos e vou embora dessa empresa que recebe a gente desse jeito!”.


P/1 – Mas você ficou assustado quando o comandante disse também que era militar?    


R – Não, eu não fiquei assustado porque, na verdade, quando eu estava na faculdade, eu peguei um pouco ainda o finalzinho daquela época da ditadura, coisas desse tipo, e a Escola de Química era uma escola muito ativa nesse negócio. Quando eu entrei para a Escola de Química, a Escola de Química ainda era na Praia Vermelha, e era interessante que todos os oficiais...


P/1 – Você chegou a se envolver?


R - ...tinham medo, não lá na Praia Vermelha, mas na Ilha do Fundão, sim, na Cidade Universitária, sim, porque no segundo ano a escola passou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, quer dizer, ela foi para a Ilha do Fundão. Na minha época, por exemplo, a Escola de Química, o vestibular era separado, não era Cesgranrio, depois eles unificaram, então nós fazíamos vestibular separado só para a Escola de Química. Mas as forças policiais tinham um certo receio da Escola de Química porque o pessoal jogava ácido na polícia, então o pessoal contava, os mais antigos, que bastava puxar um vidrinho que os caras se apavoravam, não sabiam o que tinha dentro.


P/1 – Podia até ter água, mas já dava um susto!


R – Então, para mim não foi, não tinha esse medo. Era muito novo, a gente muito novo é meio inconseqüente, ainda bem! Já chega o medo da velhice, a velhice dá um certo medo na gente, deixa a gente mais seguro. Eu fui para o Departamento Industrial e, chegando lá, fomos recebidos pelo superintendente na época que era o Alberto, uma pessoa muito austera e, naquela época, superintendente era quase Deus, lá pelas tantas fez aquele discurso de boas vindas, sangue-novo, aquelas coisas que a gente fala normalmente, aí alguém perguntou se alguém queria falar alguma coisa. Eu levantei a mão e falei assim: “Eu não escolhi para vir para cá.”, aí aquela festa acabou, botei água no chope porque, já pensou? Chegar lá no meio do superintendente, tinha um que era o superintendente e outros adjuntos, naquela época tinha o superintendente e os adjuntos, tudo pessoal antigo, e eu disse: “Eu não escolhi vir para cá! Estou vindo obrigado!”, aí eu contei a história e ele falou: “Não, senhor, não quero ninguém obrigado aqui. Você vai voltar para o Serviço de Engenharia.”, “Agora eu estou morto quando encontrar esse comandante de novo” [risos], mas eu finalmente acabei indo para a refinaria porque eu tinha que ficar na refinaria, fiquei dois anos na refinaria, na Reduc, acabei estagiando na parte de operação, gostei. 


P/1 – Você então se manteve ligado a esse Departamento...?


R – Ao Serviço de Engenharia.


P/1 – Você voltou então?


R – Voltei para o Serviço de Engenharia.


P/1 – Não teve problema com o comandante?


R – Eu nem sei se ele soube, mas eu sei que quando encontrava com ele no elevador, eu dava um jeito de me esconder. Depois a gente acaba, são momentos na vida da gente, não tenho nem mágoa disso, conseguimos superar. 


P/1 – Da engenharia?


R – Aí eu fui para o Serviço de Engenharia, fiquei dois anos, mas cheguei no Serviço de Engenharia, na obra, o chefe da obra do Serviço de Engenharia era o Jonas, uma pessoa fantástica, um engenheiro de processamento também, e ele virou para mim e disse assim: “O que eu vou fazer com você aqui?”, só tinha terraplanagem, só tinha máquina, ele falou: “Engenheiro de processamento vai fazer o que aqui? Vai contar a quantidade de estacas que a gente vai estar fincando aqui no chão?”, ele disse assim: “Você queria ir para a operação, estagiar lá? Eu arranjo.”, porque o superintendente da Reduc, o Skinner, era muito amigo dele, foi da turma dele, então ele falou com o Skinner que estava com essa situação e se poderia me dar o estágio na operação. Eu fui, e foi aí que eu comecei, mas continuei lotado nesse Serviço de Engenharia, depois do estágio eu voltei para o Serviço de Engenharia para um grupo que estava tentando criar o que se chamava engenharia básica, e ela seria criada no Serviço de Engenharia. Acabou que depois foi criado um Centro de Pesquisa da Petrobrás. 


P/1 – No CENPES?


R – No CENPES. Eu voltei para o Serviço de Engenharia, para esse grupo que era um núcleo, um embrião, uma futura engenharia básica, e o Diretor Leopoldo criou a engenharia básica no CENPES e nós então não tínhamos mais razão da existência nossa ali, então nós fomos todos para o Centro de Pesquisa, quando em 1977 eu fui parar na engenharia básica. Praticamente fui um dos primeiros da engenharia básica do CENPES, que foi uma decisão acertadíssima de ter sido criado lá.


P/1 – Pietro, eu queria retomar a parte desse estágio que você fez na Reduc. Como foi chegar na refinaria, trabalhar em uma refinaria para você? Garoto novo, entrar em uma refinaria, como foi esse trabalho?


R – Foi minha segunda decepção. Quando eu cheguei na refinaria, agora na operação, alguns colegas meus de turma, do curso, escolheram Departamento Industrial e foram para a Reduc fazer estágio, eles já foram direto para a Reduc. Eu fui para a Reduc indiretamente, como já contei, quando nós chegamos lá eu fui para um setor, e era interessante que era assim: era o setor, tinha um engenheiro, tinha um técnico de operação e esse setor era responsável por duas unidades, na época eram duas unidades. E quando eu cheguei lá não tinha lugar para sentar, fui recebido pelo chefe do setor, uma pessoa já muito antiga, dizendo assim: “Mas o que vou fazer com você?”.


P/1 – [risos]


R – Poxa!


P/1 – Outra vez essa conversa!


R – Outra vez essa conversa. Eu contei a história toda e falei: “Eu estou a fim de aprender, eu vou dizer para vocês que eu vou ficar só dois anos, tá? A hora que acabar esses dois anos, essa minha algema porque eu tenho que ficar dois anos, eu vou-me embora porque eu não quero... Mas eu quero aprender já que vou ficar dois anos aqui não vou ficar à toa na refinaria.”. Aí então nós fizemos um acordo, eu me sentaria na mesa do TO quando o TO não estivesse presente.


P/1 – TO é o técnico de operação?    


R – Técnico de operação. Então ele ficava muito mais tempo na unidade do que na sala, eu ficava na sala sentado, quando ele chegava eu me levantava para dar o lugar a ele. Eu digo: “Poxa, para que vocês querem a gente então?”, e foi assim que eu fui recebido. Depois de alguns dias naquela sala, ninguém me levava para a unidade, aí eu fui perdendo a paciência e, não chegou a ser uma briga, mas tipo assim um pouquinho mais áspero: “Me diz onde é a unidade que eu vou andando, deve ser fácil chegar lá.”, aí eu acho que eles entenderam que eu estava a fim mesmo de aprender ou de trabalhar e acabou que eu me integrei à refinaria, depois acabei sendo convidado para continuar, o TO é padrinho do meu filho [risos], muito meu amigo.


P/1 – Como é o nome dele?


R – É o Peregrino, Sérgio Flávio Peregrino, pessoa excelente. Hoje ele é meu compadre, padrinho do meu filho. Meu filho já tem 25 anos para vocês terem uma ideia.


P/1 – Mas esse trabalho na refinaria você começou a se interessar também por essa parte toda do refino?


R – Eu não sei, eu já fui esquecendo essa questão dos dois anos, eu fui gostando, era o que eu realmente me interessei, acabou, depois quando foi, quando eles precisaram de mim no Serviço de Engenharia porque estavam criando esse núcleo de engenharia me chamaram de volta, porque eu fui ficando, foram me esquecendo e eu fui ficando lá. Era para ter sido um estágio de um ano e eu fui ficando, ninguém me chamava, também ia ficando lá, até que finalmente me chamaram para ir para esse grupo, aí voltei, quer dizer, fui para o Serviço de Engenharia lá no Edise, na época era no Edise.


P/1 – O Centro de Pesquisa funcionava...?


R – Não, o Centro de Pesquisa era no Fundão, eu fui para a engenharia.


P/1 – A engenharia!


R – Fiquei alguns meses nesse núcleo e depois houve a decisão de criar a engenharia básica, logo depois então todos nós fomos, inclusive meu chefe...


P/1 – Para o CENPES?


R – Para o CENPES.


P/1 – A criação dessa engenharia básica, você lembra mais ou menos qual foi o ano? 


R – Ela foi em 1976. 1975, 1976, por aí. Na verdade, oficialmente eu não lembro, eu me lembro das discussões, das negociações, nós tínhamos que ir para lá porque o Serviço de Engenharia queria criar a engenharia básica então havia toda uma, não vou dizer disputa, uma certa negociação, mas eu acho que a criação oficial foi em 1976, já não me recordo.


P/1 – E essa engenharia básica para trabalhar também com projetos e pesquisas?


R – É, a ideia, na verdade, era, porque todos os projetos, estou falando sempre na área de refino, todos os projetos de refino eram feitos no exterior, quando feitos aqui, por empresas do exterior, empresas que vinham e faziam o projeto aqui. Então havia um sonho do pessoal da Petrobrás, de algumas pessoas da Petrobrás, de ter uma verdadeira engenharia, de nós sermos os donos dos nossos caminhos, das nossas decisões. Por isso que foi criado esse núcleo e uma das pessoas que eu gostaria de citar, até como uma homenagem, que eu considero um dos maiores, um dos melhores engenheiros de processamento que eu conheci,não vou dizer o melhor porque estaria sendo injusto, mas um dos melhores foi o João Batista, que foi meu chefe e ele brigou para criar essa engenharia, engenharia básica. Nós não sabíamos, nos primórdios que qualquer decisão nós tínhamos que perguntar às empresas estrangeiras o que tinha que fazer, como fazia, como não fazia, aí todo esse sonho criou a engenharia básica no CENPES, e por que no CENPES? Por que o Centro de Pesquisa, na verdade, o que é a pesquisa e desenvolvimento a não ser a geração de dados? A engenharia, ela que dá o corpo, ela que cria a parte física, ela que transforma todos aqueles dados em algo, digamos assim, que não é virtual. Transforma aquilo em físico. Por isso que eu disse que a decisão foi acertada ter sido colocado no Centro de Pesquisa. Com isso então nós fomos, era muito pouco, ainda na criação da engenharia básica, a engenharia básica foi criada com pessoas oriundas da área principalmente do Departamento Industrial, nós não tínhamos muita experiência nessa parte de engenharia de projetos, e começamos lentamente, com algumas transferências de tecnologias, algumas cópias, fazendo tudo que se pudesse pensar. Como éramos muito novos, essa é a grande vantagem quando junta novo com antigo, é que o novo é meio impetuoso, ele acha que tudo pode, e o antigo, com a experiência, com o conhecimento, então junta esses dois dá uma mistura fantástica! 


P/1 – Dá um equilíbrio.


R – Dá um equilíbrio fantástico. Nós então começamos a dizer que fazíamos os projetos e a Petrobrás começou a acreditar, claro que com muita dificuldade, você imagine, a gente contratava empresas estrangeiras de alto nível e, de repente o Centro de Pesquisa com a garotada lá, chamo de garotada no sentido não só da idade, mas a experiência, dizendo que fazia um projeto desse. E nós fizemos!


P/1 – Você se lembra mais ou menos a partir de que momento vocês pararam de contratar esses projetos estrangeiros?


R – Na verdade, eu diria que nós começamos, porque houve uma época em que a Petrobrás, na área de abastecimento, na área de refino, reduziu muito seus investimentos, se deslocou mais para a área de produção, exploração e produção.


P/1 – Isso quando mais ou menos?


R – Isso foi na década de 1980. Quer dizer, o que aconteceu? Houve também a questão do choque de petróleo, o que chamam de choque do petróleo. Em 1973 teve o primeiro choque, para vocês terem uma ideia, o petróleo naquela época estava na faixa de 2 a 3 dólares o barril, no primeiro choque que deu em 1973 ele passou para algo em torno de 12, valores médios, passou de 3 para 12, 73. Em 1979, que teve o segundo choque, ele passou de 12 para algo em torno de 30, algo mais ou menos assim. É um absurdo, hoje está em 54 dólares, mas para nós da área de refino foi um desafio violentíssimo. Você imagina uma situação em que o preço do petróleo dispara, a demanda interna cai porque os preços dispararam e nós começamos a ter excesso de derivados, principalmente o óleo combustível. Aí que eu digo que o conhecimento é um fator diferencial. Com a criação da engenharia básica, nós já estávamos no meio, então ela foi criada em 1976, 1977, em 1979 teve o segundo choque, nós já tínhamos um conhecimento muito grande porque nós já conhecíamos as nossas unidades, embora elas tivessem sido projetadas por outras empresas, pessoal de fora, nós já conhecíamos como elas funcionavam. Com essa geração de conhecimento, em 1979 nós tivemos um grande problema, nós nos deparamos com excedente de óleo combustível. Nós tínhamos que refinar petróleo porque nós tínhamos a demanda de diesel e de gasolina, GLP, mas o óleo combustível teve uma queda no mercado muito grande, tanto que para vocês terem uma idéia, nós usamos navios para estocar óleo combustível. Só que com o nosso conhecimento nós criamos alguns programas, eu costumo dizer que os programas, primeiros programas, eu não vou dizer só tecnológicos, foram criados na área do Departamento Industrial que eram os programas de minimização de óleo combustível. Nós pegávamos, por exemplo, com o nosso conhecimento nós pegávamos uma unidade que era o Departamento Catalítico, que gera a gasolina, onde tinha que ser uma carga super, o pessoal chamava de filé mignon, aquele negócio assim, e a gente botava praticamente o óleo combustível nela, uma loucura, o pessoal: “Esses caras vão destruir tudo!”, mas nós fizemos, com isso nós nos tornamos um dos principais conhecedores desse processo. Mas voltando com a questão do choque do petróleo, nós tivemos a nossa prova de fogo. Acho que nesse momento quando nós fomos, não chamados, nós entramos, nós fomos lá e dissemos: “Nós temos a solução, pode ser paliativa, mas temos a solução. Vamos ganhando passo-a-passo, vamos conseguindo passo-a-passo”, e com isso, quando nós conseguimos e mostramos que éramos capazes, acho que aí que foi o verdadeiro reconhecimento da nossa competência e eu digo nossa, não digo só do pessoal da engenharia básica porque na verdade foi todo um trabalho da engenharia básica, o pessoal da engenharia do Centro de Pesquisa, pessoal do Departamento Industrial, porque o mérito não é só da engenharia básica, o mérito é de todo mundo. Pesquisa e Desenvolvimento, todos têm o seu dedinho ali, um pouquinho mais de um, um pouquinho mais de outro, mas todos têm, todos estavam envolvidos.Com isso houve o reconhecimento, e a partir daí então nós tínhamos que fazer algumas modificações, então voltando, nós tínhamos praticamente 90% do investimento da Petrobrás é na área de produção e exploração. Por que isso? Porque com o choque de petróleo a empresa viu que tinha que ser auto-suficiente, e com isso direcionou seus investimentos de forma correta – na época eu fiquei chateado porque eu era do Departamento, era da área de abastecimento, tinha pouco investimento na nossa área –, todo para essa questão da exploração e produção, tanto que nós conseguimos a Bacia de Campos com esse esforço do momento. Com isso nós ficamos fazendo modificações nas nossas unidades, nas unidades que nós não tínhamos projetado a ponto de hoje dizer o seguinte: praticamente todas as unidades das nossas refinarias nós modificamos.


P/1 – Vocês refizeram? Foram refazendo?


R – Nós fomos refazendo, ampliando, mudando, atualizando. Começaram a aparecer alguns investimentos, aí eu vou para a questão da água profunda, o que aconteceu com a questão da água profunda? Com a descoberta desses petróleos novos desafios foram aparecendo para a área de refino, eu só gostaria de fazer um parêntese que o refino é desafiado desde o primeiro dia que foi criada a Petrobrás porque as refinarias não eram da Petrobrás e eram todas projetadas e muitas operadas por, quando eu falo operadas digo o pessoal que tinha um conhecimento...


P/1 – Técnico?


R - ...Não é o pessoal operador. Era operada por estrangeiros, e a gente foi dizer o seguinte: “Nós temos que adquirir esse conhecimento!”, foi quando então foi criado o curso de engenharia de processamento, que na época se chamava Cemap (?), o Centro de Pesquisa da Petrobrás não era Centro de Pesquisa, era CENP [Conselho Executivo das Normas-Padrão], coisa desse tipo, Centro de Engenharia de Petróleo, ainda na Praia Vermelha, e com isso nós fomos adquirindo e fomos vencendo desafios. A Petrobrás começou com a área de refino, o Centro de Pesquisa era da área de refino, praticamente não tinha quase nada de exploração e produção. A área de refino, o Departamento Industrial, na época se chamava Departamento Industrial, o tempo todo desafiava, esse foi o desafio do primeiro choque, do segundo choque do petróleo, depois com a questão da Petrobrás investir pesadamente nessa questão da exploração e produção doméstica, nós começamos a descobrir petróleos, petróleos que tinham características diferentes daqueles...


P/1 – Pois é, isso que eu queria chegar. Qual é a diferença do óleo vindo da, o que mudou com o óleo vindo da Bacia de Campos? Era um óleo diferente? Isso eu queria que você me explicasse um pouco.


R – Vou explicar. Nas nossas unidades foram projetados petróleos que naquela época eram mais comuns, digamos assim. Era o árabe leve, petróleo leve, que era 34 ATI (?) e um árabe pesado, que era 27 ATI. O que significa isso? Eram petróleos que tinham enxofre alto, muito enxofre, e produziam pouco óleo combustível quando a gente compara com os petróleos nossos descobertos na Bacia de Campos principalmente, então eram unidades projetadas para essa característica. À proporção que a Petrobrás foi descobrindo petróleo, e esse petróleo, o que ele tinha de diferente? Ele tinha uma vantagem, ele tinha menos enxofre, porém ele tinha um complicador, ele tinha uma acidez, então nós precisávamos mexer nas nossas unidades, porque ele destruía as nossas unidades, é como colocar o ácido dentro de um ácido. Nós tivemos que fazer um trabalho violentíssimo de adaptar as nossas unidades para processar esse petróleo com teor mais alto, teor do ácido naftênico do que o petróleo que era o petróleo que a gente processava na época que era o árabe leve e o árabe pesado. Ele tinha mais metais e com isso ele trazia problemas em algumas unidades nossas, catalisadoras com esse tipo. Com o nosso conhecimento nós começamos a adaptar as nossas unidades para esse petróleo.


P/1 – As unidades que foram adaptadas para esse petróleo foram quais?


R – Principalmente as unidades de destilação a vácuo, a primeira unidade. Porque na refinaria é assim: o petróleo vem, ele normalmente vem com sal e ele sofre uma ‘dessalgação’ para a retirada desse sal, porque senão esse sal destrói as unidades de destilação, e depois ele vai para a destilação onde ele é separado em diversas correntes, então sai a nafta que vai para a petroquímica, sai o diesel, não sai gasolina porque a gasolina sai inclusive por outra unidade, sai o óleo combustível, sai o gás óleo que a gente manda para a unidade para a produção de gasolina.


P/1 – Isso tudo nessa primeira...


R – Nessa primeira unidade que é tudo destilação, que é o processo físico, ali não há quebra de molécula, há só separação das moléculas em cortes, que a gente chama de corte que é o diesel, a nafta, a destilação direta, o gás óleo.


P/1 – É um primeiro processo?


R – Primeiro processo. E depois cada um vai sendo enviado para as outras unidades para tratamento, remoção de enxofre, tratamento do gás óleo para a geração de gasolina, GLP. O resíduo de vácuo a gente manda para uma unidade de retardado que na verdade é a unidade que retira o carbono para gerar óleo diesel, quer dizer, é uma forma de você valorizar mais o petróleo. Isso tudo trazia problemas quando começaram a aparecer os petróleos da Bacia de Campos. 


P/1 – Esse óleo de Campos é um óleo mais pesado?


R – Ele é um óleo mais pesado do que o petróleo árabe leve, árabe pesado, ele tem mais ácido, ele é mais ácido.


P/1 – Tem menos enxofre?


R – Tem menos enxofre, que é uma coisa boa, por um lado.


P/1 – Hoje em dia?


R – Mas hoje em dia, mais ou menos enxofre, as especificações de combustíveis estão tão restritivas que o fato de ter muito enxofre, pouco enxofre, não altera muito a questão, porque de qualquer forma a gente tem que ter unidades para remoção desse enxofre. O petróleo nacional também tem um nitrogênio elevado que faz com que a qualidade dos produtos, ela tenha uma estabilidade menor e também tem que ser removido, sem contar que influencia as outras unidades da refinaria.


P/1 – Pietro, esse petróleo de Campos está sendo refinado em que refinaria? Ele começou indo para qual refinaria? Alguma especialmente?


R – O que acontece, na verdade ainda bem que as coisas foram lentas e graduais. Na época eu me lembro que a gente falava do petróleo Cabiúnas e achava horroroso o petróleo Cabiúnas [Terminal Cabiúnas], eu acho que é na faixa de 25 ATI, ele tem um teor de ácido em torno de 0,6, 0,7 e nós achávamos uma coisa horrorosa. Depois começamos a descobrir petróleos piores, mas nós já tínhamos passado por uma experiência com o Cabiúnas que foi uma experiência que nos permitiu, quer dizer, as coisas foram, não começou do pior para o melhor, começou do mais fácil para o mais difícil, então nós tivemos todo esse, tivemos tempo de ir treinando, mudando.


P/1 – Um aprendizado?


R – Exatamente, um aprendizado. Hoje praticamente, quer dizer, todas as nossas refinarias processam petróleo nacional, tem petróleo hoje...


P/1 – Mas o da Bacia de Campos mesmo?


R – Tem vários petróleos. Tem o petróleo Marlim, que é um petróleo que tem um teor ácido maior.


P/1 – Ah, eles se diferenciam de campo para campo?


R – De campo para campo se diferencia. Tem o de roncador, quer dizer, tem petróleos muito pesados, cada vez mais pesados. O que significa petróleos pesados? Significa que a parcela de óleo combustível no petróleo é muito grande. O que isso é um complicador? É um complicador porque com a entrada do gás natural ele está substituindo o óleo combustível, então com isso por um lado você produz mais óleo combustível, por outro lado o mercado está diminuindo, então são dois efeitos nesse sentido que se somam, cumulativos. Com isso nós tivemos que investir pesadamente nas nossas refinarias em unidades que quebravam a molécula do óleo combustível para gerar diesel que era o nosso carro-chefe, que é o nosso carro-chefe. Esse é o caso do petróleo pesado que cada vez mais está se achando petróleo pesado, está nos obrigando a investir em novas tecnologia, muitas inclusive mudando de tipo de tecnologia, a tecnologia que nós tínhamos já não é suficiente, nós estamos desenvolvendo outras tecnologias.


P/1 – O que foi a maior mudança dessas tecnologias para receber esse petróleo, ao longo desse aprendizado? Olhando retrospectivamente, o que foi uma grande mudança que vocês tiveram que fazer, marcante?


R – A primeira grande mudança foi a acidez naftênica, essa foi a grande mudança.


P/1 – Vocês terem que tratar essa acidez?


R – Na verdade nós tivemos que mexer nas unidades, nós tivemos que mudar o interno dos equipamentos e estudar onde que essa acidez afetava mais e nós fomos mudando com, eu digo fazer manutenção em um avião com ele em vôo, então na proporção que as unidades iam parando para fazer manutenção, nós íamos mudando essas unidades. Felizmente a curva de descoberta do petróleo foi lenta, não foi aquela coisa violenta, então deu para a gente ir misturando com os petróleos que eram importados e nós a partir das misturas controlávamos essa acidez. Para mim foi o primeiro grande desafio. O segundo grande desafio foi a questão do petróleo pesado que fez com que nós tivéssemos que investir em uma nova tecnologia e a Petrobrás optou pelo retardado que era para pegar aquele excedente de óleo combustível e transformar em algo mais nobre, nesse caso específico era o diesel. Foi o segundo grande desafio. O terceiro desafio nosso está sendo da seguinte forma: o mercado de gasolina está caindo tremendamente, no caso do Brasil, por exemplo, toda gasolina brasileira tem que ter no mínimo 22% de álcool então significa 22% a menos de mercado de gasolina, isso então já reduziu. Com a entrada do gás natural, o gás natural está substituindo violentamente a gasolina, então está reduzindo mais ainda o mercado de gasolina.


P/1 – Isso vocês já estão sentindo?  


R – Nós já estamos sentindo há algum tempo, não só nós, o mundo todo. O carro a gasolina está tendo uma redução muito grande, não é só no Brasil, é no mundo. Eles já estão partindo para carros movidos a diesel, antigamente diesel era muito usado só para carro de...


P/1 – Caminhão.


R – Caminhão, ônibus, carro que precisava de potência, não de velocidade. Com o advento do motor turbinado, coisa desse tipo, e também eles conseguiram reduzir o ruído do motor porque o motor a diesel era muito barulhento, trepidava muito, então não era para carro de passeio. Mas na Europa eles conseguiram, então praticamente hoje quem compra um carro novo está comprando um carro a diesel. Com isso o mercado de gasolina no mundo está reduzindo drasticamente.


P/1 – E a gente ter diesel é melhor ou não? Qual a diferença do nosso óleo?


R – A questão do diesel é que nosso perfil de demanda, a nossa matriz energética ela é distorcida, era muito focada em diesel, já na época era muito focada, então nós quando comparávamos o nosso perfil de demanda com outros países, eram países comparados com a Índia por exemplo, que também tem uma demanda de 40 e tantos por cento, quase 50% de diesel. O petróleo não produz essa quantidade de diesel, então você tem que investir em unidades que transformem as outras correntes em diesel. Agora, por que isso? Isso tudo porque houve uma decisão no passado de acabar com o transporte ferroviário, aí tudo é feito por caminhão, e com isso houve uma distorção da matriz energética. Quando eu falo distorção é comparando com os grandes países. Paralelo também, quer dizer houve outro, então nós temos esse desafio que é a questão do mercado de gasolina agora. Um outro desafio que a gente tem e é permanente é essa questão ambiental, então cada vez mais produtos com exigência, especificação mais restritiva, aí exige que a gente coloque mais unidades, mais investimentos porque nós temos que tratar essas coisas, temos que tirar o enxofre. A questão, o petróleo nacional, por exemplo, tem essa questão como eu disse do nitrogênio, essa questão do enxofre, embora ele seja baixo teor de enxofre, mas não adianta muito porque a gasolina está partindo, está quase com enxofre zero, daqui a pouco a gasolina, o diesel não vai ter mais enxofre, e com isso você tem que cada vez mais investir. Isso nós do Centro de Pesquisa, na Petrobrás, nós estamos cada vez mais buscando desenvolver novas tecnologias, decidindo quais aquelas que são estratégicas de desenvolver e quais aquelas que a gente pode comprar fora porque a grande vantagem nossa é o conhecimento. Eu gosto de contar uma história muito interessante.


R – Voltando à questão, eu gostaria de contar essa história porque eu acho que ela muito importante, ela é muito elucidativa. Eu há alguns anos atrás estive na França, em um seminário lá em Paris, e nós fomos visitar o Instituto Francês de Petróleo, e no carro, junto com o presidente, acho que na época ele era diretor, hoje ele é presidente, eu perguntei: “Quem foi que criou o Instituto Francês de Petróleo?”, que é o equivalente ao Centro de Pesquisa da Petrobrás, digamos assim. E ele disse: “Foi o General  De Gaulle”, “Interessante um General criar um Centro de Pesquisa, acreditar em tecnologia”, ele disse: “Ele não acreditava em tecnologia, ele acreditava em independência”, ou seja, o conhecimento te traz independência. Eu acho que essa história é importante. Então o Centro de Pesquisa em uma empresa a geração do conhecimento traz independência. Você sabe, em um momento de crise, qual caminho tomar, o que fazer.


P/1 – E no momento das mudanças também como foi com tudo que vocês tiveram que implementar com o petróleo novo na Bacia de Campos.


R – Em tudo, né? Até com águas profundas foi um negócio reconhecido no mundo que nós somos vencedores, a Petrobrás é vencedora também nesse campo. Tem o conhecimento e o mais importante de tudo, coragem, também tem que ter coragem.


P/1 – Pietro, e o aumento também? Houve um aumento bem significativo com o petróleo novo de Campos quando começou a produção toda. Isso até que ponto pesou para o refino, para vocês se adaptarem a atender essa demanda?   


R – Na verdade nós, nos primórdios, como importávamos petróleo, nós importávamos aquela cesta de petróleos chamados petróleos variados que, digamos assim, fosse a melhor para aquelas nossas unidades. À proporção que foi entrando petróleo nacional e nós não tínhamos opção de escolher petróleo, quer dizer, foi diminuindo a escolha do petróleo importado, foi nos trazendo dificuldades a ponto – claro, essas dificuldades vão sendo vencidas com o tempo, por isso que eu disse foi importante que essas coisas tenham sido bem lentas, digamos assim, não foi tudo de uma vez só. Aí nos permitiu conhecer e modificar as unidades, claro que criou problema, então nós hoje fazemos um planejamento de onde colocar esses petróleos porque não é só Bacia de Campos, dentro da Bacia de Campos nós temos diversos petróleos, temos inclusive petróleos muito bons, mas a gente em função das instalações que a gente tem, do que a gente tem, a gente faz um planejamento para ver qual a melhor mistura de petróleo para colocar ali, tem tudo isso. É claro que quanto mais, à proporção que a gente vai atingindo a auto-suficiência, a gente vai ficando com mais restrições, as variáveis vão diminuindo. A gente continua importando algum tipo de petróleo, até pouco tempo atrás nós importávamos o árabe leve, que é um petróleo que passou a ser muito valorizado, para fazer lubrificante na Reduc. Então dentro da Petrobrás nós passamos um projeto de pesquisa de substituir esse petróleo por petróleo nacional, aí tem toda uma identificação do petróleo, qual o melhor petróleo, tem que fazer a destilação dele, verificar que lubrificantes que dá, todo um trabalho, e nós já estamos substituindo parte desse petróleo na Reduc por petróleo nacional, valorizando mais ainda o petróleo nacional. Alguns petróleos, por exemplo, a fábrica de lubrificantes lá, naftênicos, lá em Fortaleza, até pouco tempo atrás era petróleo importado da Venezuela, hoje, praticamente, é só o nosso petróleo. Claro que teve todo um trabalho de pesquisa, anos de pesquisa, de testes, coisas desse tipo, mas a gente continua importando algum petróleo até por questão às vezes de oportunidade de negócio, questão de logística, coisa desse tipo, na verdade a gente maximiza tudo.


P/1 – Infelizmente vou ter que ir terminando a entrevista, Pietro, queria saber se você queria deixar alguma outra coisa registrada. Algo que tenha te marcado...


R – Não, na verdade eu, a gente quando chega nesse tempo, depois de 31 anos de Petrobrás, a gente tem que olhar para trás. É muito tempo, é uma vida, e eu costumo dizer que dediquei minha vida muito mais à Petrobrás do que a mim mesmo no final das contas, e não me arrependo disso. Fui extremamente feliz, a empresa de alguma forma me facilitou tudo isso, a empresa me reconheceu, se eu não me capacitei mais foi porque eu não quis porque é uma empresa fantástica, ela realmente acredita na capacitação, acredita em tecnologia, acredita no conhecimento, então acho que essa é a grande virtude dessa empresa. Olhando para trás eu tenho muitos momentos de tristeza, mas tenho também muitos momentos de bastante satisfação, bastante alegria, e na vida da gente o que vale é o saldo, não existe totalmente bom, totalmente ruim, mas eu digo o seguinte: felizmente, graças ao meu pai que me obrigou a entrar para a Petrobrás, eu entrei para a Petrobrás, embora em um primeiro momento tenha sido tratado de uma forma que não me parecia correta, mas depois de alguns anos, e foi interessante porque quando eu vi o pessoal recebendo aquele escudinho de dez anos, eu disse: “Poxa, eu vou ganhar esse de dez!”, depois chegou o de dez, eu falei: “Eu vou ganhar o de 20!”, e ganhei o de 30 agora em janeiro, um pouco atrasado, mas ganhei. De qualquer forma é uma empresa fantástica, uma empresa que dá oportunidade para todo mundo, é claro tem que haver o comprometimento.


P/1 – Pietro, a gente queria agradecer a sua participação e a sua colaboração, você ter vindo do CENPES até aqui para colaborar com a gente.


R – Eu agradeço a oportunidade de reviver 30 anos em 40 minutos, não sei exatamente quanto foi, eu é que agradeço essa oportunidade. Muito obrigado!


P/1 – Imagina, obrigada!


--FINAL DA ENTREVISTA--

 

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