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História

Conhecendo os dois Brown’s

História de: Flávio Renegado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Na conversa, Flávio fala da família de sua mãe, vinda de São João de Matipó e de sua infância no Alto Vera Cruz, onde teve que cedo se cuidar e organizar sua casa. Descreve a geografia e a vida cotidiana do bairro e seu contato inicial com os dois Browns: James e Mano. Narra então a história de seus primeiros grupos de rap, sua vida de office boy no centro e como agente mediador da Prefeitura para crianças carentes, função que o fez cair de vez no mundo da música. Flávio fala de seu primeiro CD, De Oiapoque a Nova York e, em seguida, de sua carreira cada vez mais internacional e diversa. Termina a entrevista dissertando sobre suas expectativas para o futuro.

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História completa

Eu não ouvia rap. Ouvia tudo: pagode, ouvia samba... Sempre gostei mais de pagode e samba, antes do rap, na minha vida. Raça Negra, Exaltasamba, Só pra contrariar. Perto de casa, sempre rolava um pagode, meus vizinhos eram pagodeiros, então, os caras ouviam muito. Até tem uma parada legal. Nessa época - eu já tinha uns 13 ou 14 - e um ‘patrão’ lá da quebrada mudou para perto de casa. E aí, na sexta-feira, o cara colocava o som alto para caramba - sexta, sábado e domingo. O cara parava só domingo à noite. O som era muito louco, batidão, som, eu falava: "Que som é esse? Que coisa maluca!" Porque eu não conhecia. O cara colocava aquilo tão alto que o bagulho parecia que estava na minha casa. Eu ficava ouvindo aquilo, aquele som foi entrando em mim e eu já passava a semana esperando o cara pôr o som, tá ligado?. Uma vez, eu estava sentado num beco, perto do portão dele, ouvindo, ele passou e falou: "E aí, beleza?" Falei: "Beleza". "Pô, qual que é? Toda hora que passo, você está sentado no portão, qual que foi?" Falei: "Pô, mano, gosto do som que cê coloca, fico curtindo aqui". Falou: "Entra aí". Falei: "Pô, não posso entrar na sua casa". "Por quê?" "Minha mãe falou que se eu entrar, ela me arrebenta". Ele falou: "Pode entrar aí agora, se não vou dar um tiro no seu pé". "Firmeza". Fui e entrei. Lembro da cena até hoje: o cara tinha um paredão de som, tipo da Furacão 2000. Tinha um fluxo mesmo pesado de som. O cara tinha vários... Tipo engradados de cerveja, só que com vinil, vários assim. Ele pegou e colocou um vinil e falou. "Você sabe o que é isso?" Eu falei: "Não". "Mano, é o Brown". E eu falei: "Pode crer". Ele falou: "Mano…" . Deu até aquela filosofada de maluco assim: "O Brown é matéria, o Brown é som, é alma". Começou e me apresentou o James Brown. Ele tinha todos os discos do James Brown, todos os singles, todos os LPs, tudo. Eu ficava lá com ele. Ele ficava colocando som, porque pegava o vinil, gravava uma fita cassete e lacrava e guardava os bagulhos. Então, ele passou a vida inteira transpondo para fita cassete o bagulho. E aí, eu conheci James Brown. Nessa época, eu comecei a ir para as barraquinhas, dançava um soul, gostava, curtia.. O Alto Vera Cruz sempre foi uma comunidade muito efervescente, culturalmente. Então, era muito normal a gente ir para essas quermesses e ter vários grupos de dança. Era bem legal. Aquele som, um dançando de cá e outro de lá, então eu cresci naquela loucura ali também. Um dia, eu saí da capoeira e fui para casa desse amigo meu. A gente foi e começou a ouvir rádio. Ele falou: "Mano, descobri uma rádio irada". Sintonizou na rádio - Rádio favela, 104.5. A gente ouvindo uma rádio comunitária e, de repente, começa a tocar Racionais: Fim de Semana no Parque. Mano, eu fiquei em êxtase. Falei: "Que som é esse, mano? Que parada é essa? O cara está contando a minha vida ali". Acabou a música, tocou Racionais, depois na sequência, tocou Corpo Fechado, Thaíde. Falei: "Mano, quero cantar esse bagulho". O cara falou: "Isso é rap". Falei: "Bora cantar rap, então"

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