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História

Confiança no trabalhador

História de: Nildo Máximo Benedetti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância no bairro do Ipiranga. Brincadeiras de rua. Formação na Escola Politécnica. Ingresso na Votorantim em 1967, como engenheiro de minas. Onze anos depois, é promovido a diretor técnico, cargo onde se aposenta. Lealdade dos funcionários à empresa. É casado e tem três filhos. 

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História completa

P1- Senhor Nildo, primeiramente boa tarde!

 

R- Boa tarde.

 

P1- Minha primeira pergunta que eu vou dirigir ao senhor, eu gostaria de saber o seu nome completo, o local do seu nascimento e a data do seu nascimento.

 

R- Bom, meu nome é Nildo Máximo Benedetti. Ou se quiser para falar melhor Máximo Benedetti. Eu nasci em São Paulo no dia 29 de maio de 1936.

 

P1- Como chamavam os pais do senhor?

 

R- Meu pai era César Benedetti, era o nome dele já aportuguesado na verdade. O nome dele em italiano era muito mais complicado, Benedetti Giovanni César e Facone. E a minha mãe era Assunta, Assunta González.

 

P1- E os pais do senhor são, eles vieram para o Brasil?

 

R- Vieram para o Brasil. Meu pai veio em 1890, desculpa, 1905, meu pai. Chegou aqui no Brasil com 12 anos. E a minha mãe veio em 1897, com 45 dias.

 

P1- E eles chegaram, ficaram aqui na cidade de São Paulo?

 

R- Sim, sempre morando aqui em São Paulo. Lá no Brás, como era costume na época. 

 

P1- E qual era a atividade que eles exerciam?

 

R- A minha mãe sempre costurou. Ela era costureira, ganhava a vida costurando. Meu pai tinha um açougue, ele abriu um açougue aqui no Jardim América - que foi onde eu nasci. E ele, depois desse açougue foi, acho que uns três, quatro anos antes de eu nascer, aí ele perdeu um filho. Aí ele acabou ficando muito, ele perdeu um filho com 17 meses. E aí ele ficou muito abalado com a morte desse filho, voltou para a Itália, em 1934. Ficou até 1936, voltou para o Brasil em 1936, quando eu então nasci. E ele então, daí para frente ele trabalhou como operário sempre. Ele era operário de uma fábrica de sapatos que ficava lá na Rua Espírita, lá no Cambuci. Chamava-se Calçados Quarenta. 

 

P1- E o senhor nasceu no Jardim América?

 

R- É, lá na Joaquim Floriano.

 

P1- E o senhor morava em que local aqui em São Paulo?

 

R- Não, desculpa. Eu nasci em casa, como era a arte na época.

 

P1- E como era essa região quando o senhor nasceu? Como era a Joaquim Floriano nessa época?

 

R- Olha, eu...

 

P1- O que o senhor se lembra? As primeiras memórias da infância, dessa região?

 

R- É, eu saí de lá com dois anos de idade, um ano e pouco. E fui morar lá no Ipiranga. Olha, que eu não lembro de nada. Mas eu sei que é uma região muito, eu sei que pegava rã na rua nessa época. Na rua você tinha, na Rua Joaquim Floriano bem lá perto, no número 108. Era lá perto quase lá da Santo Amaro, ali já. Então a gente, meu pai falava que pegava a rã na rua. Pegava, ficava aquele barulho de sapo, etc. Eu me lembro bem do Ipiranga que foi onde eu morei. 

 

P1- Como era o Ipiranga?

 

R- Ah, o Ipiranga quando eu morei, eu morava lá na Rua Mil Oitocentos e Vinte e Dois. Era uma paralela da Manifesto, tem a Rua Silva Bueno, tem a Manifesto e embaixo tem a Mil Oitocentos e Vinte e Dois e eu morava quase na esquina com a Lima e Silva. Ali, a única rua pavimentada na época, era pavimentada com macadames, era a Rua Silva Bueno, porque passava o bonde. Todas as outras ruas, as paralelas e as transversais eram todas sem pavimentação nenhuma.

 

P1- Como era o cotidiano na casa do senhor?

 

R- Bom, minha mãe costurava. Minha irmã, minha irmã é mais velha do que eu. Eu tinha um irmão também mais velho. A diferença de idade entre eu e meu irmão são 14 anos e eu com a minha irmã são 12. Meu irmão entrou na Guarda Civil na época, depois foi para a Polícia Militar. E a minha irmã costurava junto com minha mãe. De modo que a rotina em casa, o meu pai ia trabalhar na fábrica, voltava. E em casa minha mãe e minha irmã costuravam e eu ajudava nas coisas da casa e eu estudava. As coisas da casa que eu cuidava, era questão de louça e a questão da limpeza da casa, toda essa parte. E eu ajudava também na costura. Minha mãe e minha irmã costuravam para a Força Pública, que chamavam antigamente, que hoje é a PM. Faziam túnicas para a Força Pública. Então elas iam buscar, as roupas eram todas cortadas e elas tinham que costurar. E eu então ajudava nisso. Eu fazia caseado, pregava botão, tirava fios, passava as túnicas, etc. E esse era o cotidiano, quer dizer, meu pai trabalhando fora e eu estudando o dia inteiro e à noite cuidando das coisas de casa, lavando a louça, etc. E depois, final de semana fazer a limpeza da casa.

 

P1- E tinha tempo para brincar? Como eram as brincadeiras nessa época?

 

R- Olha, eram brincadeiras, tinha campo de futebol em todo lugar. A gente brincava na rua, não tinha televisão, que eu acho que é uma grande perda nos dias de hoje. Era brincadeira de rua. O pessoal chegava, jogava malha na rua. Os adultos jogavam malha. As pessoas de idade saíam, sentavam. As crianças ficavam brincando. Os adultos ficavam jogando malha e as crianças brincando de esconde-esconde. Isso era o cotidiano. A gente ouvia rádio, todo mundo. Não tinha televisão e então tinha uma vida social muito mais ativa. 

 

P2- Esses eram, que ano era esse?

 

R- Isso eu estou falando...

 

P2- Do rádio?

 

R- Eu estou falando da década de 1940, 1950.

 

P1- O senhor se lembra dos programas de rádio que o senhor escutava?

 

R- Eu me lembro bem de um programa de... Bom, eu em 1940 tinha quatro anos. Mas eu me lembro bem quando eu tinha, um pouco mais velho, depois em 1945, 1950. Tinha uns programas de ópera, que eu ouvia ópera nessa época. Meu pai gostava e eu também ouvia junto com ele. E tinha a Rádio Gazeta, que apresentava ópera aos sábados. E depois tinha, poxa vida! Não me lembro do nome, viu? Tinha duas...

 

P2- O senhor ouvia o Nhô Totico?

 

R- Sim, claro. Era tarde, me lembro bem. Eu ouvia o Nhô Totico. Eu me lembro que era um, que era um programa assim, muito interessante. Tinha uma novela no rádio, que era uma novela de aventuras, “Martin Vai a Terra”. Eu me lembro que eu assistia essa novela, eu tinha uns nove, dez anos. 

 

P2- Como é que era o Nhô Totico? 

 

R- Ah, era muito interessante. Um programa muito engraçado para a gente. Eu, hoje em dia eu não saberia dizer se era tão engraçado assim. Mas eu me lembro que eu me divertia muito com o programa que tinha vários alunos. Só tinha uma pessoa que falava. E eu nem sabia. Eu pensei que fossem várias pessoas, sempre achei. Até que depois eu soube que era uma única pessoa que fazia tudo, que imitava tudo. Ele imitava uma classe - não sei se o senhor sabe como é que funcionava - mas ele era um professor e tinha vários alunos. E ele falava com o professor - com os alunos, desculpa. Ele era o professor, falava com os alunos e os alunos respondiam. E nestas brincadeiras, então tinha uma parte que tinha alguma coisa de ensino. E tinha uma parte que era mesmo brincadeira, que ele fazia. Piadas assim. Então tinha vários personagens...

 

P2- Cada aluno era filho de imigrantes?

 

R- De imigrantes, é, tinha uns. Eu não me lembro, tinha o...

 

P2- Tinha um japonês, tinha um italiano.

 

R- Tinha, tinha isso mesmo. Eu me lembro vagamente, é. Tinha um personagem italiano que eu até me lembro o nome, não está me, não está me ocorrendo o nome. Mas era bem interessante o programa. Era um programa que eu ficava esperando com certa ansiedade. Mas a gente fundamentalmente brincava muito na rua. Essa é a verdade. Um pouco só do rádio. Poucas horas, poucos minutos por dia, a verdade é essa. E a maior parte do tempo era na rua que a gente brincava. 

 

P1- O senhor citou um fato que eu acho que é muito interessante, a questão do idioma.

 

R- Sim.

 

P1- Os pais do senhor são italianos, chegaram aqui no início do século. Como é que foi para o senhor a questão do idioma?

 

R- Não, a gente só falava em italiano em casa. Quer dizer, não se falava português. E meu pai era um tanto radical, porque se eu falasse português com ele, ele não me respondia. Isso é um fato. Eu com seis anos tive que aprender a falar português para ir na escola. E essa época era a época da guerra. Foi de 1942, quando eu comecei a falar português. Até essa idade, já tinha três anos de guerra, e eu falava italiano. E acabamos tendo assim alguns problemas com vizinhança nessa época, o que é natural. E aí que eu acho que a gente tem que sentir orgulho às vezes do Brasil. E esse é um dos orgulhos que eu tenho. Porque  a gente vivendo como imigrante numa localidade que só tinha brasileiros, a gente, evidentemente tinha problemas, porque afinal de contas estava em guerra. Mas os acontecimentos todos que ocorreram na guerra, foram acontecimentos que a justiça brasileira demonstrou uma imparcialidade para mim surpreendente. Hoje, que eu analiso hoje, depois de tantos anos. Perto de casa tinha um senhor que ele era do exército e esse homem fez uma acusação da família, talvez para se promover, não sei, de que a gente tinha contatos com o Eixo. E eu me lembro um dia que eu estava com meu pai sozinho. Era um sábado a tarde, eu estava com ele trabalhando em casa. E aí chegam três ou quatro do Dops, suponho que fossem, e revistaram a casa inteirinha. Tudo que o senhor possa imaginar, até pé de cama, olhava embaixo, tudo. E aí teve um processo, um processo contra a gente. E eu me lembro até o nome, olha como é que essas coisas marcam. Tinha nove anos, dez anos, nem isso. Não, mas como, imagina! Tinha cinco, seis anos. Me lembro que quem conduziu o processo no Dops era um tal de Coronel Astolfo. Eu me lembro o nome dele até hoje. Eu nunca fui depor porque era muito criança. Mas a minha irmã que tinha 12 anos foi. 12, 14 anos tinha a minha irmã. E eu me lembro que ele foi totalmente imparcial. A gente não teve nenhum tipo de represália, algum tipo de condenação, nada. Tudo limpo, ele totalmente imparcial. E depois que a guerra acabou, esse homem que tinha feito essa acusação, um dia entrou na minha casa e pediu para falar com a minha mãe, sozinho. Falou com ela e pediu desculpa para ela. E falou que a vida dele depois daquele episódio, dentro do exército tinha ficado um inferno. Porque ele tinha feito uma acusação falsa. O que uma coisa que me orgulha muito. Ela falou: “Eu ouvi coisas do Coronel Astolfo que você não imaginar”. Ele falou para a minha mãe. Então é uma coisa que eu duvido que um outro país da Europa, um militar acusando alguém, se alguém tivesse alguma chance. Esse alguém estava danado. E aqui no Brasil tivemos o Coronel Astolfo que analisou calmamente tudo e imparcial e acabou, geralmente a gente não tendo nenhum tipo de problema. Teve um processo é lógico, se tem um militar acusando, tem um processo em andamento, tivemos um processo em andamento, mas sem nenhuma consequência.

 

P1- Senhor Nildo, sem dúvida isso é um fato extremamente marcante.

 

R- Marcante, é.

 

P1- Mas além desse fato, existe algum acontecimento, alguma coisa, alguma memória que marca a sua infância?

 

R- Bom, eu acho que a vida toda é marcada por uma série de acontecimentos assim, quando eu era pequeno. Eu vou lhe contar um fato aqui. Quer dizer, o problema da escola, que eu acho que hoje se discute tanto a questão da escola, tirar a criança de rua, tal. E eu acho que a gente teve uma solução fantástica já na mão, que foi aquela que eu usei, que foi usada para mim. Eu quando tinha 12 anos eu entrei em uma escola chamada Escola Técnica de São Paulo. Ficava aqui na Rua Comandante Salgado, que é perto da Glete aqui, da Nothmann, entre a Nothmann e a... Onde é hoje a Funarte, aquele prédio. Aquele quase que quarteirão. Essa escola abrigava ali uns 280 alunos, 250 a 280 alunos. E a gente entrava de manhã. Tomava café da manhã, estudava às quatro horas pela manhã. Tinha o almoço, estudava à tarde. Se de manhã a gente estudava as matérias de classe, à tarde fazia oficina. Isso nos primeiros quatro anos, que aqui equivaleria, naquele tempo, ao ginásio. Depois que passava para o colégio, invertia os horários, que era para poder aproveitar melhor as instalações de oficina e as instalações de sala de aula. Então com isso eu ficava na escola dez, onze horas. E voltava para casa. E eu então, evidentemente não tinha, não havia mais possibilidade da gente pensar em bobagem. Porque chegava, chegava em casa sete horas da noite e como eu falei, ia cuidar da minha vida lá dentro, arrumar as coisas de casa, etc. E essa escola dava, além do café da manhã e do almoço, dava uma muda de roupa. E dava macacão para trabalhar. E tinha, foi instituído depois um certo tipo de bolsa que era dado por nota. Três bolsas no que equivaleria o curso ginasial, e três bolsas no que equivaleria o curso colegial. E era dado por nota e eu então acabava trazendo para casa um salário que era quase o salário mínimo na época - que não era brincadeira, não é o salário mínimo de hoje. Então a gente teve soluções já na mão. Quer dizer, essas soluções todas elas são fruto ainda - essa escola era uma escola federal - era fruto de uma política federal de educação, que era baseado na formação do indivíduo, do cidadão. Então havia uma, era uma consequência daquele, daquelas indagações que houve na década de 1920, década de 1930 aqui no Brasil, sobre o Brasil, que rumo ele tomaria, se ele seria uma, que nação é esta? Esta nação vai ter futuro? Vamos dar em uma civilização ou não vamos? Que aparece em um monte de livros aí, do Gilberto Freyre, do Caio Prado Júnior, do Paulo Prado, etc. Então era consequência deste movimento de análise do Brasil, de questionamento do Brasil e correção do Brasil eventual e da análise de História do Brasil. Então um movimento muito vivo, muito rico que eu vivi em parte ele. Porque eu frequentei escola, as escolas dessa época. As escolas do Estado eram escolas boas. Existiam as escolas para as moças que eram as escolas religiosas, que era de um padrão também elevado. Mas quando era menino ir numa escola particular para homens era uma vergonha. Só tinha aquelas, ao menos que a gente fosse naquelas poucas escolas de alto nível. Ou a gente ia na escola do governo, aquelas escolas boas, ou a gente ia na escola de nome, como a Castelo Branco, coisas desse tipo. Ou então nesses colégios de Freiras para as moças. O Sacré Coeur, o São Luís, etc. Então a gente teve solução já na mão. A gente talvez tenha perdido essas soluções todas. Quer dizer, não tinha chance de ficar na rua, mesmo porque a gente ficava o dia inteiro na escola. E ficava aprendendo uma profissão, ficava aprendendo as matérias. Tinha...

 

P1- O currículo?

 

R- Isso, o currículo.

 

P1- O senhor acaba falando um pouco de sua formação educacional primorosa, e o que o senhor se lembra desse cotidiano da escola? Como que era esse cotidiano, a relação humana das pessoas?

 

R- Dentro da escola?

 

P1- Isso.

 

R- Bom, a escola era uma escola de classe média baixa. Evidentemente uma escola que a pessoa ia lá para aprender uma profissão. E como aconteceu na minha casa, eu me lembro o dia que meu pai chegou e falou: “Olha, tem uma escola que ensina, e dá comida, e dá roupa. Então é a escola que a gente vai mandar nosso filho”. Eu me lembro bem dessa condição. Portanto era uma escola de classe média baixa. Tinha muita gente que morava naquela época. A escola era aqui. Morava em Presidente Altino, morava em Osasco. Tinha gente de tudo quanto é lugar. E eu morava no Ipiranga, precisava tomar dois bondes. Precisava tomar um bonde que era o Angélica, que ia até a Praça João Mendes e depois tomava um outro que ia até o Ipiranga. Era o bonde Fábrica. Eu me lembro, era um todo, quer dizer, desculpa. Era assim, um nível de poder aquisitivo era muito baixo de todos os alunos que estudavam naquela escola. A escola tinha um rigor grande, que era um rigor que tinha todas as escolas do Brasil, eu suponho. Não era uma caso excepcional o rigor da minha escola. Mas a gente tinha aquelas obrigações. Tinha que cumprir as obrigações. Tinha o canto coral, a gente cantava, a gente... Eu gostava da escola que eu frequentava, viu? Eu achava que era uma escola, para mim foi uma escola importante, para minha formação. Eu me lembro que eu acabei ficando amigo de alguns professores que marcaram a minha vida nessa escola. Foi aí que eu peguei gosto por algumas matérias. Um gosto muito grande pelo professor que eu tive. Tanto que eu acho que valeu a pena, que foi uma escola importante e principalmente porque ela deixa a gente ficar o dia inteiro ocupado. Eu saía de casa seis e meia. Meu pai ia trabalhar na fábrica e eu ia com ele. Saía seis e pouco da manhã.

 

P1- Que fábrica? Seu pai trabalhava na fábrica de sapato?

 

R- Lá na Rua Espírita, que é uma rua do Cambuci, é uma travessa ali da...

 

P1- E o senhor nessa escola foi encaminhado para alguma profissão ou era um ensino livre e era aberto de todas as profissões?

 

R- Não, eles tinham: Mecânica de Tornearia, Fundição, Serralheria, Ajustagem, Mecânica de Ajustagem, Marcenaria e Cerâmica. São aqueles galpões que hoje tem lá na Funarte. A gente quando entrava na escola com doze anos, era a idade mínima. A gente ficava durante seis meses fazendo o estágio, que chamava. Passava por todas essas oficinas. E aí escolhia aquela que queria ficar, que tinha mais aptidão para ficar. Eu acabei ficando na Mecânica. Então acabei fazendo meu curso de Mecânica ali.

 

P2– Era só para rapazes essa escola?

 

R- Era só para homem. Mas no técnico tinha moças, tive amigas, colegas moças no curso técnico. No curso industrial eram só rapazes. Eu não me lembro de ter visto nenhuma mulher lá. E o que era normal naquela época. Quer dizer, quem estudava esse tipo de profissão, profissão de mecânico? Então eram homens, não eram mulheres.

 

P1- Senhor Nildo, junto à formação educacional, toda a questão da juventude, como era São Paulo na sua época? Como era São Paulo na sua juventude? O que o senhor fazia na cidade?

 

R- Bom, minha escola ficava aqui na Rua Três Rios. Aqui na, que é hoje o prédio da Fatec, acho - que era antigamente, a Politécnica era aqui. E eu vinha estudar aqui. E eu continuava morando no Ipiranga. Então era ir para a escola e voltar da escola. A gente tinha 40 horas, 44 horas por semana de aula, dependendo do ano, quer dizer, tinha aulas aos sábados inclusive. E era o cinema. Essa era a diversão, era o parque de diversões, que a gente ía nos parquinhos ver as meninas. Era o cinema. A gente passeava muito a pé, não tinha carro. Então a gente ia passear a pé com os amigos ou amigas, sei lá eu, ou namorava-se. E a vida era uma vida que... Não posso dizer se era melhor ou pior do que hoje. Era uma vida diferente. Era bem diferente. A gente exercitava muito mais essa comunidade. Esse espírito comunitário, porque se convivia mais com amigos e mais com pessoas. Um cinema em uma tarde em São Paulo de um Domingo... Eu morava no Ipiranga, tinha três cinemas ali perto, Dom Pedro, Samarone e o Anchieta. Mas eram salas de mil e tantas pessoas e ficavam todas cheias. Isto falando em 1955, 56, 57, 50. Estou falando de uma época que São Paulo devia ter dois milhões de habitantes, dois e meio.

 

P1- E a cidade já era agitada?

 

R- Não, não era agitada, porque ela era uma cidade tranquila ainda nessa época.

 

P1- Qual o caminho que o senhor mais fazia que o senhor lembra da paisagem?

 

R- Eu me lembro que, porque eu saía do Ipiranga e ia até o Parque Dom Pedro. Mas, desculpe. Aí dependia um pouco do caminho que se fazia. Mas normalmente, quando morava no Ipiranga - porque acontecia o seguinte: com 24 anos de idade eu acabei mudando para a Via Anchieta. Eu mudei lá para o Km 13. Mas eu saía de lá do Ipiranga, tomava o bonde. Ia até a Praça João Mendes e de lá você ia lá para a Politécnica. Ia a pé geralmente, que ficava lá na Avenida Tiradentes.

 

P2- O senhor fez vestibular para entrar para a Politécnica?

 

R- Fiz.

 

P2- Era difícil?

 

R- Para mim que tinha feito um curso técnico, era. Porque o curso técnico de qualquer maneira, vamos dizer assim, o que era mais importante no curso técnico eram as matérias técnicas. Então matemática, tinha três anos, mas português tinha um ano só, química tinha um ano só. E tinha matérias referentes à mecânica. Cálculo de engrenagens, um monte de coisa desse tipo. O curso era voltado para isso. Eu quando entrei nesse curso técnico, essa Escola Técnica de São Paulo não dava direito a prestar vestibular na universidade. Por coincidência ela deu o direito exatamente no ano em que eu me formei. Mas eu não era, a minha intenção não era continuar estudando. Eu quando me formei nesse curso técnico eu fui trabalhar no Aço Villares como desenhista. Comecei a trabalhar em janeiro, quando chegou o mês de abril, eu decidi fazer. Saiu a lei autorizando que podia fazer universidade, e eu então fui fazer cursinho para fazer vestibular.  

 

P1- E como era o vestibular nessa época?

 

R- Ah, eu acho ele muito mais interessante que hoje, viu? Ele era muito mais racional. Para o aluno que vai fazer engenharia, ele tinha desenho geométrico, física, química, matemática e português. E eram questões abertas, não era com o “xizinho”. E depois tinha o oral. Quer dizer, você fazia os cinco exames escritos, depois tinha os quatro orais. Não tinha oral em desenho geométrico. Tinha matemática, física, química, português, tinha oral. E portanto eu acho que ele era interessante, porque ele não colocava em um curso de engenharia, cadeiras como biologia, etc, que não tem muito a ver com engenharia. Eu gostava mais desse tipo de vestibular, achava muito mais adequado do que o que é hoje, porque ele realmente pegava, fazia uma seleção de quem tinha aptidão para aquela profissão. Na idade, já nos colégios já tinha uma escolha, a gente ia ou para o científico, ou para o clássico. Quem ia fazer letras, quem ia fazer advocacia, ia para o clássico já. Ia aprender outras línguas. Ia aprender latim, ia aprender acho que grego, também se aprendia.

 

P2- Latim.

 

R- Latim, é. Isso mesmo, Latim. E quem ia fazer engenharia, já ia para o científico, que era um curso chamado científico. Eu não fui em nenhum, eu fui em uma escola técnica, mas que tinha muito mais de científico, do que de clássico.

 

P1- Como era esse cotidiano na Politécnica? Como que era a Politécnica nessa época? 

 

R- Bom, a Politécnica nessa época era uma escola que era pequena. Porque era uma escola, entravam 180 alunos por ano. Evidentemente, mais uma vez, o espírito assim, era muito mais coletivo. A gente era amigo de todos dentro da escola. Porque se envolvia com todo mundo dentro da escola. Para mim foi um choque. Porque eu em 1978, 1979, 1980, eu dei aula lá na Politécnica, quando já era aqui na Cidade Universitária. E para mim era estranho aquilo. Uma pessoa aqui, uma, a cinco quilômetros. Para mim era uma coisa que não era muito interessante. Eu me lembro que a gente tinha muito mais, era um espírito comunitário, porque se vivia muitas horas por dia naquele prédio, naqueles quatro prédios ali, mas geralmente em dois deles ali tendo aula. Vivia ali, professor e aluno muito junto. Então se criava um espírito de, no meu entender, um espírito de corpo assim muito maior. Muito mais íntimo, muito mais fechado. Eu tenho grandes amigos do tempo da escola. 

 

P2- O senhor deve ter sido colega de pessoas famosas hoje?

 

R- Não, entrei depois. Eu na realidade, tanto Paulo Maluf como Mário Covas saíram antes que eu entrasse, que eu tivesse entrado. Eles se formaram em 1952, 1954, eu entrei em 1956 na escola.

 

P1- Senhor Nildo, quando o senhor termina a universidade, o senhor já está trabalhando durante esse período ou o senhor...?

 

R- Neste período eu trabalhava, mas eu fazia bico. Eu fazia o seguinte: eu trabalhava em topografia, de topografia para ruas, para pavimentação de ruas. Trabalhava para a Constran, que era uma empresa pequena naquela época. Eu com um colega meu de escola. Desde o segundo ano, terceiro ano eu comecei a trabalhar, ganhando minha vida assim: a gente trabalhava nos fins de semana, porque tinha aula durante a semana inteira. E bastante mais, e muito nas férias. E a gente então fazia o levantamento das ruas para efeito de pavimentação. Fazia o levantamento topográfico. Fazia um desenho e ganhava uma quantia bem interessante na época, para mim.

 

P1- Isso era em toda a cidade de São Paulo, o senhor fazia esse levantamento?

 

R- É, fazia em toda a cidade de São Paulo. E nas férias a gente fazia estágio. Os estágios eram remunerados naquela época. Então a gente ia fazer estágio. Eu nunca fiquei em casa nas férias. Sempre tive estágio para fazer.

 

P1- E os irmãos do senhor? Eles acompanharam também o mesmo caminho do senhor?

 

R- Não. O meu irmão entrou na Guarda Civil. Ele tinha 21 anos. Depois quando a Guarda Civil passou para a PM, ele foi ser PM. Ele se aposentou como PM, ele se aposentou como sargento da PM. A minha irmã só trabalhou como costureira mesmo, a vida inteira dela. Depois, evidentemente, quando eu me formei aí então eu mantinha ela. E ela então, de vez em quando viajava, tinha uma vida interessante que eu quis proporcionar para ela - e que ela muito mereceu, porque afinal de contas, eu acabei me formando pelo esforço dela. 

 

P2- E a sua esposa, o senhor é casado?

 

R- Eu sou casado.

 

P2- Nesse meio o senhor conheceu a sua esposa?

 

R- Isto. Eu conheci, na realidade eu conheci ela na casa de uma, eu já morava na Via Anchieta. E eu tinha uma amiga minha que fazia cursinho para medicina. E foi aí que conheci minha esposa. Minha esposa também estava fazendo cursinho, foi lá que eu conheci ela. Ela é maranhense. E ela tinha vindo naquela ocasião, poucos meses de lá do Maranhão. E eu então acabei começando a namorar e depois acabei casando. E já estou com 27 anos de casado.

 

P2- E o senhor tem quantos filhos?

 

R- Eu tenho três.

 

P2- E ela se formou?

 

R- Não. Ela acabou...

 

P2- Casando.

 

R- Casando, exatamente, casando. Como era de praxe. 

 

P2- E aí acabou?

 

R- E aí foi cuidar da família.

 

P2- Aí o senhor foi evoluindo em termos de trabalho. Em que momento o senhor começa na Votorantim?

 

R- Eu comecei na Votorantim em 1967. No dia 15 de janeiro de 1967.

 

P2- E como é que foi essa entrada na Votorantim?

 

R- Não, eu nessa época estava trabalhando na Cosipa.

 

P2- O senhor fazia o que na Cosipa?

 

R- Eu era chefe do departamento de... Desculpa, eu era chefe do Departamento de Produção de Calcário, que chamava. Era a mina de calcário daqui de Salto de Pirapora, tomava conta dessa mina. E a Votorantim fica perto daqui. A mina é perto. A Fábrica de Cimento Votoran é perto. Então acabei... Eu tenho uns amigos meus que estavam na Votorantim, prestavam serviço de geologia para a Votorantim. Então eles aconselharam a Votorantim a me admitir. E foi assim que fui admitido lá na empresa.

 

P2- E qual foi a impressão que o senhor teve da Votorantim?

 

R- Quando eu entrei na empresa? Quando entrei na empresa o que eu percebi assim, primeira coisa, não havia muitas pessoas formadas. Engenheiros, coisa assim, naquela época, não. Isso era uma coisa mais ou menos comum em todas as empresas. O número de engenheiros nas empresas era pequeno. O que eu percebi, uma coisa que eu percebi a vida inteira: o pessoal trabalhando muito. Muita gente de muitos anos de firma. E uma espécie de uma lealdade quase que assim, quase que de veneração pelos acionistas. Uma coisa que a vida inteira eu acabei presenciando isso aí dentro da empresa. 

 

P2- E por que seria? O senhor tem uma opinião sobre isso?

 

R- Não, acho que pelo contato que eles têm. Porque eu depois fui vendo durante toda a minha vida dentro da empresa, é uma empresa que tem muita confiança nas pessoas. A Votorantim tem uma confiança cega. Eu assisti casos do seguinte tipo, olha, por exemplo: doutor José Ermírio. O José Ermírio quando teve o Plano Collor, eu me lembro que ele chamou a diretoria para subir na sala, no sétimo andar do prédio aqui da Praça Ramos, com a televisão ligada ouvindo a Zélia falar sobre o plano. Então o doutor José ficou tranquilo. Então ele falou só que precisava separar trinta milhões de dólares para pagar salário. O resto tinha que negociar. Foi essa a ordem que ele deu. O salário dentro da Votorantim é uma coisa que não se mexe. Eu nunca soube até hoje que tivesse um dia de atraso de salário. Vamos dizer que todos os anos que eu fiquei na empresa eu nunca vi um dia de atraso de salário. Seja qual for, sejam quais forem as circunstâncias. Mesmo com uma inflação de um por cento ao dia não havia atraso de um dia. Não, ele sempre foi extremamente rigoroso na questão do salário. Então o doutor José, a primeira coisa que se preocupou naquela ocasião foi com o salário. Mandou separar uma parte do dinheiro para pagar salário, para não atrasar salário. E nem na época do Plano Collor a gente teve um dia de atraso de salário, nada. Mas o doutor José então era muito frio nesses aspectos. Assim muito, demonstrava uma segurança muito grande dentro de uma situação destas. Ele não se perdia e não se abalava. No entanto, em duas ocasiões eu soube de gente que acabou não merecendo a confiança dele, ele se abalava profundamente de ele ficar com olheiras. Porque a empresa funcionava na base da confiança. Então quando acontecia um caso desse, como aconteceu em dois casos que eu sei, dentro da empresa, ele ficava totalmente abalado. Abalado, ficava.

 

P2- Quando havia falha de um comportamento confiável?

 

R- Confiável.

 

P2- Mas foram casos extremos?

 

R- Não, foram casos assim de gente que, a empresa tem confiança, está ali há 30 anos, de repente a pessoa, percebe que a pessoa está, não está merecendo a confiança da empresa. E quando descobre o doutor José se abala. Ele se abalou profundamente as duas vezes que eu vi. Eu não convivo muito com o doutor Antônio, mas eu acho que não deve ser muito diferente. Eles são pessoas que são muito seguras - pelo menos foi o que eu senti com o doutor José. Nem o Plano Collor abalou. Mas uma pessoa que tem confiança, e depois mostra que não merecia aquela confiança, porque se corrompe... Então ele acha isso, ah, isso para ele é muito ruim, ele se abalava muito. 

 

P2- O que mais o senhor diria do perfil do doutor José?

 

R- Não, acho que é isso, uma pessoa que era um dono que se comportava como funcionário. Eu acho isso uma coisa interessante. Ele ficava discutindo... Por exemplo, se um diretor, podia ser eu, como qualquer outro diretor tinha um ponto de vista, e ele tinha outro, ele ficava discutindo como se ele fosse um igual dentro do trabalho e não como se ele fosse um chefe. Dizer: “Não, você vai fazer porque eu estou mandando”.

 

P2- Ele queria conquistar no argumento?

 

R- É, como argumento. Mas ele ficava, às vezes ficava nervoso. E xingava a gente. Uma vez ele falou para mim: “Você é muito teimoso”, ele falou para mim. E falava gritando: “Você é muito nervoso, não sei o quê. Muito teimoso, não sei o quê”. Mas não disse: “Você vai fazer porque eu estou mandando”.

 

P2- Mas prevalecia o ponto de vista dele?

 

R- Prevalecia o ponto de vista lógico. 

 

P2- O mais sensato?

 

R- O mais sensato.

 

P2- E ele abria mão do dele?

 

R- Abria mão, porque ele estava sabendo que eu estava fazendo aquilo pela empresa. Eu não estava fazendo aquilo por mim, para mim. Então ele tinha certeza que era feito para a empresa. Então é claro que ele sabia disso. Então, os diretores da empresa, eu convivi mais com o doutor José e mais com o filho dele - que é assim, que é jovem hoje, tem 40 e poucos anos.

 

P1- Como é que chama?

 

R- É o doutor José Neto. Então são pessoas que eles, a gente discutia na empresa que às vezes parecia que a empresa era da gente e não era deles. Porque a gente ficava discutindo, é uma situação, é uma coisa que eu não sei se existe em outras empresas. Mas da Votorantim senti muito isso aí. Quando você se percebe discutindo como se a coisa fosse sua. E ele fosse errado de querer fazer alguma coisa que você não está concordando. Às vezes a gente errava também. Claro que estava errado, aliás, frequentemente a gente estava errado. Mas era interessante porque a gente tinha esse direito. E ele dava esse direito de a gente ser mais realista do que o rei, dentro da empresa. Acho que isso aí é um dos fatores de sucesso. Então a gente ficava mais ou menos dono da empresa. A gente não... Eu, por exemplo, agora construí. Bom, a primeira coisa que eu falo para o empreiteiro lá na minha casa, é dizer para ele é que isso aí é cimento Votoran. Não quero saber do preço, se está mais caro ou mais barato. Isso para mim não faz diferença. Uma coisa que para mim é clara é isso aí. Não tem dúvida, não sei, acho que não passa pela cabeça entrar um cimento na minha casa que não seja Votoran.

 

P2- Agora antes de voltar um pouquinho para trás, eu queria só terminar o assunto. O senhor conviveu muito também com o José Neto?

 

R- Bastante.

 

P- Como é que era?

 

R- Ah, ele é muito acessível, muito, uma pessoa muito humana. Uma pessoa muito acessível. Muito comedida. Eu gosto muito de trabalhar com ele. Gostava muito de trabalhar com ele. E ainda gostaria de trabalhar com ele. Se eu estivesse trabalhando hoje na empresa eu gostaria de continuar trabalhando com ele. Acho que foi uma experiência bem interessante. Uma pessoa de uma dimensão humana muito grande. Tem muito do pai, acho. O pai era muito humano. Ele é uma pessoa interessante, que é também o doutor Antônio, viu? Os outros eu não convivi tanto. Convivi mais com o doutor José e com o filho. Mas são pessoas que têm o lado humano muito forte. Sem querer demonstrar que têm esse lado. O que é interessante, porque não é um lado humano que é feito para conquistar a simpatia das pessoas. É porque são humanas mesmo. 

 

P2- É intrínseco.

 

R- É intrínseco.

 

P2- Agora isso são valores dos acionistas, da família. Existem outros, que formem um conjunto de valores da Votorantim?

 

R- Eu acho que sim. Eu acho que essa capacidade de polarizar todo o esforço dos funcionários em favor da empresa era um dom. Porque é uma coisa diferente eu ser um funcionário de uma empresa achando que a empresa é minha ou que não é. A conotação que eles davam era muita, assim, era muita confiança. E muita autonomia. Eu vou dizer uma coisa para a senhora aqui: eu trabalhei na ativa mesmo 32 anos. Eu não posso dizer de maneira alguma que eu deixei de fazer alguma coisa por causa da Votorantim. Se eu deixei de fazer é porque eu fui omisso ou eu fui incompetente. Mas não pela Votorantim. Eu nunca tive essa rédea de dizer: “Aqui eu não posso me mexer, aqui eu não posso fazer”. Era uma confiança muito grande. Agora isso aí também evidentemente passa para a gente que é funcionário, tem uns desdobramentos interessantes. E um deles é que a gente assume esse papel de um jeito que a gente quer, sempre a gente acha que tem que estar atendendo as expectativas dessas pessoas. Então eu lhe digo: eu sou muito mais comedido e fui muito mais comedido com as coisas da Votorantim do que com as minhas mesmo. Por exemplo, com o dinheiro, por exemplo. Com o dinheiro eu sou um pouco relaxado. Minha mulher é que cuida da minha casa. Eu não faço nada na minha casa. Minha mulher é que põe dinheiro, até hoje põe dinheiro na minha carteira. Atingi o ponto mínimo que um homem pode atingir. (risos) Mas dentro da empresa você era extremamente vigilante em relação a salário, extremamente comedido e cuidadoso em relação a gastos, etc. E eu, evidentemente a gente assume quase que um compromisso com a empresa pelo fato de ter a confiança. Não tinha, não me lembro assim de ter tido fiscalização em cima de mim, nada. Tudo era confiança. Uma coisa que a gente dizia era sempre como uma coisa verdadeira.

 

P2- Porque a confiança então gera em cada funcionário, digamos, uma responsabilidade?

 

R- É, um comprometimento muito grande. Claro que tem aqueles que também acabam se desviando. Mas quanto a isso, o que eu sei são muitos poucos casos dentro da Votorantim.

 

P2- Mas voltando um pouquinho, porque depois nós passamos para os valores. Mas o senhor estava mais ou menos na época que o senhor estava entrando na empresa. O senhor entrou na empresa, em que ano era?

 

R- Entrei em 1967.

 

P2- Como é que foi o primeiro dia de trabalho, como é que foi para o senhor?

 

R- Bom, eu me lembro o seguinte: o que eu encontrei dentro da Votoran... Que eu encontrei o seguinte: existia uma situação dentro do Departamento de Mineração que era uma situação muito delicada, muito arriscada, muito de risco, em termos de continuidade da operação da fábrica. Então eu cheguei, quando eu cheguei na mina, na fábrica, o que eu percebi foi que existia uma crise de problema de minério dentro da fábrica. Crise de minério mesmo. Quer dizer, existia...

 

P2- Só para me esclarecer, desculpe, a Votoran fica aonde?

 

R- Ficava lá em Votorantim. No município de Votorantim. Lá em Santa Helena, aquela fábrica de cimento.

 

P2- Lá em Santa Helena. Desculpe a interrupção.

 

R- Não, mas...

 

P2- Aí o senhor encontrou um problema?

 

R- Não, eu vi assim uma possibilidade muito grande de uma crise grande de falta de minério. E a primeira coisa que o gerente local pediu para eu fazer foi um levantamento das máquinas que estavam disponíveis lá. Fazer um levantamento das máquinas. Então acabei fazendo. Acabei vendo alguma, alguns equipamentos, algumas máquinas que poderiam ser úteis para o meu trabalho. No começo, muita desconfiança, porque afinal de contas eu estava chegando. Existia o risco de uma fábrica, era a maior fábrica do Grupo. Então existia muita desconfiança. Mas com o tempo a gente acabou tendo assim uma facilidade, possibilidade de acabar fazendo um trabalho que foi interessante. Acabou colocando a produção da fábrica em um eixo normal. Eu me lembro que esse, eu posso dizer bem assim porque que essa experiência deu certo. Eu vou localizar bem clarinho para a senhora. Quando era para entrar na Votorantim, eu estava falando com um amigo meu, ele falou: “Ih, rapaz você vai para a Votoran? Tem um velho lá chamado Orestes que tem 40 anos de firma, que você não vai conseguir trabalhar com esse homem. Ele é analfabeto. É um homem que não vai deixar trabalhar”. Quando eu comecei a trabalhar lá, eu conheci o tal do Orestes. Ele tinha uns, nessa época, uns 60 anos, 60 e poucos anos, já. Quase 60 anos. Tinha exatamente 40 anos de firma. Não sabia escrever, ele assinava em cruz, em russo. E aí conversando com ele, depois de umas três horas de conversa, duas horas de conversa, eu verifiquei o seguinte: a primeira coisa, que ele era uma pessoa muito conhecedora do assunto, ele sabia muito bem fazer o trabalho dele, muito bem. Mas ele tinha uma outra virtude que ele era extremamente leal, extremamente correto. Era um homem com “H” maiúsculo, como se costuma dizer. Sabe esses homens, esses caipiras assim que tem uma noção de moral... E eu então comecei a trabalhar com esse homem e eu comecei a me dar tão bem com esse homem, mas tão bem, que depois ele já estava meio velho, ele falou: “Olha, eu preciso me aposentar”. Ele tinha umas vaquinhas que ele queria cuidar das vaquinhas. E eu então pedi para ele ficar mais um ano, eu me lembro ainda. Então ele ficou mais um ano. Ele arrumou depois para trabalhar uns encarregados que foram pessoas muito parecidas com ele, também. E aí o trabalho ficou extremamente facilitado. Primeiro, porque era um homem competente. Segundo, porque era um homem... Um homem. E tinha outra coisa que ele estava meio jogado para escanteio também dentro da mina. O que foi bom porque a gente coloca ele no lugar que ele merece e então ele começou a dar... Então realmente o trabalho... No fundo, no fundo, o meu trabalho era um trabalho mais teórico - embora eu tivesse experiência de mina também - mas a prática quem tinha era ele. Quando tinha, por exemplo, que abrir um buraco no meio de uma rua de Votorantim, para detonar rocha para fazer esgoto, não era eu que ia, era o Seu Orestes que ia lá. E Orestes não sabia fazer conta. Então eu falava para ele assim: “Seu Orestes, como é que o senhor vai fazer o furo aqui?” “Ah não, eu coloco o furo aqui, depois aqui”. Aí: “Quanto o senhor vai colocar de explosivo?” “Não, eu vou colocar um pedaço assim”. Mas ele não sabia falar por quê. Só que ele detonava e aquela pedra ficava ali mesmo, não ia quebrar nem um vidro. (risos) Era esse o homem que a gente estava precisando. Então eu conhecia a teoria, ele conhecia a prática, então pronto. Aí foi um época bem interessante que se conviveu com ele, e depois com as pessoas que ele acabou deixando. É muito comum a gente encontrar em fábrica, pessoas assim de muito caráter, viu? Muito leais, muito... Seres humanos assim muito humanos mesmo. Eu tinha esse outro homem que ele deixou como encarregado, um tal de Mingo. Chamava Domingos Pinto. Esse homem tinha um monte de filho adotivo. Enchia a casa de filho lá e ficava cuidando de um monte de crianças. Era uma coisa fantástica. Eram pessoas interessantes.

 

P2- E o seu dia-a-dia começou como? Com o senhor Orestes, sem o senhor Orestes? Começou como o seu dia-a-dia?

 

R- Não, eu comecei, eu ia para a mina, fazia a... Quer dizer, programava todo o trabalho, fazia o projeto. Essa era a minha função muito importante. E fazia o projeto de mina, fazia análise da geologia da mina. Porque ali eu era tudo, geógrafo, era tudo. Então fazia tudo. Fazia análise da geologia da mina. Existia uma empresa de consultoria que era de colegas meus também, que também ajudavam muito na parte de geologia. Tinha um geógrafo excelente. Tinha um engenheiro que era muito bom, que eu conversava com ele. Eram dois engenheiros até que eu conversava com eles bastante. De modo que era uma coisa assim que para mim teve muita ajuda em todas as partes, tanto na área prática, quanto na teórica. 

 

P2- O senhor mudou para lá? Como é que foi?

 

R- Eu mudei para Sorocaba. Eu era daqui, mudei para Sorocaba. E depois eu... Não, desculpa. Eu morava lá já, porque eu estava na Cosipa, lá. Eu já morava lá. E eu acabei, então mudei lá, fiquei e fiquei morando lá em... Desculpa, achou que eu estou... E fiquei morando lá me Sorocaba durante um ano e depois passei a morar perto da fábrica.

 

P2- Quer dizer, o emprego anterior a Votorantim foi a Cosipa?

 

R- Que era lá, também. Era lá em Salto de Pirapora.

 

P2- E ali foi que o senhor conseguiu passar para a Votorantim?

 

R- Para a Votorantim, é.

 

P2- E na Cosipa o senhor fazia o quê, mesmo?

 

R- Também estava no departamento, na mina de calcário deles lá em Salto de Pirapora. 

 

P2- Agora, foi assim o seu começo. Agora como é que foi o desenvolvimento da sua carreira, houve uma carreira? Depois desse passo, quais foram os outros? 

 

R- Bom, eu fiquei na verdade cinco anos desse jeito. Depois teve um projeto de mina subterrânea que teve que ser feito lá. Eu passei cinco meses lá na Finlândia fazendo um estágio. Minha mulher teve um filho lá, o meu terceiro filho nasceu lá. Porque minha mulher foi grávida para lá. E aí então eu tive esse período, mas cinco anos dentro da mina subterrânea foi um período muito interessante para a minha carreira profissional. E aí depois de, cinco ou seis anos depois. Aí então, depois de onze anos, dez, onze anos, eu acabei então passando para a diretoria técnica. 

 

P2- O que foi importante para sua carreira profissional e como é que foi para sua vida pessoal na mina?

 

R- Não, a mina, é um trabalho novo para mim e um trabalho novo também no Brasil, porque a mineração de calcário subterrânea era uma mina pioneira na época. E aí...

 

P2- Não havia outra?

 

R- Não, de calcário, aqui no Brasil, não.

 

P2- Então o senhor não tinha nem onde buscar uma...

 

R- Por isso que eu tive que ir para a Finlândia. E eu fiz estágio de cinco meses lá.

 

P1- E como é que foi essa passagem pela Finlândia? 

 

R- Ah, para mim foi uma experiência boa porque eu aprendi muito. Eu fui lá para aprender, então eu tive contato com pessoas que sabem bem o que estão falando. E foi bem interessante para mim. 

 

P2- E na sua vida profissional então lhe deu um deslanche?

 

R- Ah, me deu. Para mim foi muito importante...

 

P2- Depois disso o senhor foi nomeado diretor? É isso?

 

R- É, depois de seis anos. Quer dizer, eu passei para a diretoria em 1978, aliás 1977. Passei para a diretoria técnica. Isso porque o antigo diretor, ele teve, na realidade ele teve um problema no coração. Ele era um dinamarquês. Doutor Downsborg, extremamente competente, uma figura também muito, muito brilhante. E ele acabou tendo um infarto. Fez uma ponte de safena, que na época era novidade. Fez a segunda e na segunda ele durou poucos meses e começou a ficar muito doente. Então eu fui para o lugar dele. Eu vim para São Paulo para o lugar dele.

 

P2- Agora lá na mina, tinha todo aquele trabalho lá. Quais foram as principais dificuldades, os principais sucessos?

 

R- Bom, eu acho que as dificuldades são as dificuldades técnicas que ocorrem. Problemas às vezes difíceis de serem solucionados. Agora, as facilidades eu acho que vêm mais do pessoal, porque sempre... O ambiente de fábrica a gente sempre encontra pessoas que são assim dedicadas e são pessoas que têm, pessoas que se tornam seus amigos e que são leais, viu? Sempre se encontra isso em fábrica. Eu sempre tive muita sorte na vida profissional, de sempre deparar com pessoas de fábrica com quem trabalhei. Porque hoje o engenheiro de minas trabalha fundamentalmente com gente que são operadores. Eu tenho contato direto com os operadores praticamente, que é um pessoal que tem um nível de escolaridade baixo. Agora quando um homem de um nível de escolaridade baixa, às vezes, como o Seu Orestes, analfabeto, chega a um nível de chefia é que ele tem que ser extremamente inteligente. Senão ele não chega lá. Como é que pode chegar? Como que um homem analfabeto pode ser chefe de uma mina? Tem que ser uma pessoa extremamente inteligente. Quer dizer, é uma pessoa que tem que ter, tem que ser extremamente inteligente. É uma pessoa que não estudou. Então a gente esbarra com vários tipos de pessoa desse tipo. Com várias pessoas desse tipo na vida da gente. E são pessoas que tem às vezes caráter. Então a gente acaba sendo extremamente beneficiado pela competência e pelo caráter dessas pessoas. E a gente só pode fazer alguma coisa se essas pessoas estiverem dispostas a fazer alguma coisa. E elas estão dispostas a fazer alguma coisa, sim.

 

P2- Colaborar?

 

R- É. Então se me disserem assim: “Olha, você teve uma carreira, você subiu na empresa, foi para diretor e tal, você deve a quê?” Bom, eu vou dizer que primeiramente eu devo a esse pessoal que trabalhou comigo sempre, porque eu tinha contato direto com as pessoas de um nível mais simples de fábrica e são as pessoas melhores para se trabalhar também.

 

P2- E as principais dificuldades que o senhor teve? “Nossa, mas tal coisa e tal coisa foi muito difícil”.

 

R- Não, as dificuldades são sempre, bom, vamos dizer assim: primeira coisa, vem as próprias dificuldades técnicas, às vezes. Evidentemente também tem as dificuldades de pessoas, como sempre. Não se pode evitar a competição, não se pode evitar essas coisas e às vezes ela nem é tão leal. Esses casos são poucos também e nunca me perturbaram muito, viu? Nunca me abalei com isso, porque afinal de contas faz parte da vida.

 

P1- Doutor Nildo, o senhor assumiu a gerência técnica da Santa Helena, da Votoran, no final da década de 1970?

 

R- Não, eu passei para São Paulo para a diretoria técnica.

 

P1- Para a diretoria técnica no final da década de 1970. Ou seja, é um período de bastante crise, não é?

 

R- Isso.

 

P1- Advinda da crise do petróleo, dessa problemática. Isso chega a afetar muito a área do senhor nesse período?

 

R- Claro, tecnicamente sim.

 

P1- Como é que o Grupo lidou com essa situação? Porque a gente lê, por exemplo: lendo alguns relatórios do período, o Grupo está buscando alternativas. Para o senhor que viveu, como que o senhor relataria isso?

 

R- A gente vivia a alternativa de buscar... Desculpa. A gente vivia, o dia-a-dia nosso era buscar alternativas de combustíveis de tudo quanto é tipo, combustíveis baratos, combustíveis fáceis. Porque era, se tentava de tudo, se tentava carvão, se tentava lenha. Tudo que era possível. Qualquer porcaria a gente punha no forno para ver se conseguia fazer funcionar o forno. Tinha a crise do petróleo de fato. Mas se fazia muito contato com o governo, era um governo militar, de se criar alguns órgãos como a CAEB, por exemplo, que administrava a distribuição do carvão nacional. Então foram vários instantes da crise, mas que afinal de contas a Votorantim passou lisa. Porque afinal de contas ela está aqui hoje. Ela passou por essa crise, ela hoje está aí. Mas foi um período de dificuldade evidentemente porque foi uma crise de petróleo.

 

P1- E isso acabou tendo uma consequência prática na produção da fábrica? Diminuiu-se o número de funcionários ou teve que parar fornos?

 

R- É, essa questão é... O que teve realmente, teve momentos que teve fazer racionamento de quadros de funcionários, isso teve que fazer. O que é uma coisa extremamente difícil, viu? Isso eu posso garantir. Mas isso teve que fazer em várias circunstâncias. Mas a Votorantim sempre fez isso com muito critério. Quer dizer, dando, fornecendo condições que acho que nenhuma outra empresa teria oferecido. Lembro quando teve uma vez que teve que demitir 450 pessoas lá Votoran. Bom, mas a Votorantim pagou seis meses de salários e deu um monte de coisa. Que dizer, em uma época em que não havia tanto desemprego. Então a Votorantim acabou dando uma coisa, dando condições muito melhores do que qualquer outra empresa teria feito, isso eu tenho certeza. Foi negociado com o sindicato na época. Fui eu que negociei. Tanto que não teve, eu acho que essas foram fatais. Quer dizer, houve essas demissões e elas são sempre difíceis. Difícil porque a gente convive muito com o funcionário, depois tem que demitir - que é uma condição muito complicada. Mas essas demissões que houve na década de 1970, 1980 foram demissões que a gente acabou, que a Votorantim sempre deu condições muito boas, muito... E mesmo, o tempo inteiro que eu fiquei dentro da Votorantim foi assim. Hoje realmente não sei como é que é, mas suponho que seja a mesma coisa. Mas naquela ocasião eles tinham, as condições sempre foram as melhores possíveis. Mesmo quando a gente teve que mudar daqui de São Paulo para Santa Helena, ali. Mudar toda a área de cimento de São Paulo, Rio de Janeiro para lá para a Votorantim, teve que demitir gente aqui em São Paulo. Mas ela fez isso aí de uma maneira muito generosa, viu? Uma maneira muito generosa.

 

[pausa]

 

P2- Bom, retomando. O senhor estava falando sobre essa parte, uma avaliação do seu percurso na Votorantim.

 

R- Isso.

 

P1- O que o senhor acha que acrescentou em termos profissionais na sua vida, nesses anos todos? A Votorantim investiu no seu trabalho?

 

R- Sim. Não tenho dúvida. Como eu falei, eu tive essa oportunidade de viajar, ficar cinco meses na Finlândia para aprender a mina subterrânea. Eu tive, a própria lavra subterrânea teve uma consultoria finlandesa. Eu fiquei com essa consultoria, aprendi muito. Eu acho que todas as oportunidades possíveis que alguém pode ter dentro de uma empresa para aprender, eu tive. E como eu falei antes, eu acho que se não soube aproveitar, problema meu. Mas não é um problema da empresa. 

 

P2- Esse roteiro que o senhor teve na empresa, só enumerando, o senhor entrou como?

 

R- Engenheiro de Minas.

 

P2- Engenheiro. Depois?

 

R- Depois eu fui direto para a diretoria. 

 

P2- Ah, sim. 

 

R- É.

 

P2- Lá em...

 

R- Não, em São Paulo, já.

 

P2- Ah, lá em São Paulo.

 

R- Quer dizer, eu entrei como engenheiro de minas na fábrica de cimento Votoran, fiquei durante onze anos. Depois pulei para a diretoria técnica da empresa já.

 

P1- E o senhor permaneceu morando em Sorocaba?

 

R- Não, aí eu mudei para São Paulo.

 

P1- E o senhor foi morar aonde?

 

R- Voltei para São Paulo, vim morar aqui em Santo Amaro. 

 

P1- E aí o senhor ficou nessa posição na Votorantim até...?

 

R- Eu fiquei na área técnica, depois o setor de cimento do Brasil foi dividido em quatro áreas e cada uma delas tinha um superintendente. Então tinha um superintendente da área São Paulo - Rio, que cuidava não só da área técnica de cimento, mas também da área comercial, financeira, etc. E eu então fui ser o diretor superintendente dessa área, São Paulo - Rio.

 

P2- O senhor disse “tinha” porque agora não é mais?

 

R- Não, agora já foi centralizado. Teve algumas mudanças estruturais.

 

P2- E como é que é hoje?

 

R- Eu hoje não tenho...

 

P2- Ah não, aí o senhor já tinha saído.

 

R- É, eu tinha saído.

 

P2- Até o momento que o senhor saiu era...?

 

R- Tinha essas superintendências. Tinha uma Superintendência Sul, que pegava os estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Tinha a Superintendência Sudeste, que era São Paulo e Rio. Tinha a Centro-Oeste, que era Mato Grosso, Goiás, etc. E tinha o Norte-Nordeste. 

 

P2- O senhor saiu aposentado?

 

R- Aposentado.

 

P2- Quanto tempo? 

 

R- Faz cinco anos que me aposentei. 

 

P2- Agora, nós não falamos a sua visão sobre os empreendimentos na área comunitária e social da empresa. O senhor tem alguma coisa para nos contar?

 

R- Olha, tem uma questão aí que é o seguinte: a Votorantim é muito discreta nesse assunto, não? Eu por exemplo sei que aquele Colégio Rio Branco, que foi construído - que o Colégio Rio Branco você sabe qual é a história? Talvez a pessoa mais indicada para contar essa história seja o próprio doutor Antônio. Mas é que em 1942, se não me engano, o colégio estava em uma situação financeira difícil. E o doutor Moraes então comprou o colégio, se não me engano. A história que eu sei é mais ou menos esta. Quem me contou inclusive foi o doutor José, mas eu não estou me lembrando, se eu sei exatamente essa história. A Votorantim comprou o colégio e acabou dando para o Rotary administrar. Então o Rotary na verdade é que administra hoje em dia o colégio. O colégio nem é mais da Votorantim. Quer dizer, o Rotary Clube é que administra. E eu sei que, por exemplo, aquela escola lá daquela, lá na Raposo Tavares, como é que chama? Granja Viana. Tem uma escola grande lá da Rio Branco, do Colégio Rio Branco. Aquela lá foi construída pela Votorantim. Eu fui construir, por isso que eu sei.

 

P2 – Está bom, foi construído pela Votorantim para quem?

 

R – Para o Rotary.

 

P2 – Para daí fazer uma escola?

 

R – Que é a escola, que é o Colégio Rio Branco.

 

P2 – Foi uma doação?

 

R – Eu não sei direito. Porque isso aí é melhor talvez conversar com o pessoal, o pessoal mais indicado para falar isso aí é o próprio pessoal do doutor Antônio. Mas eu sei que eu na época, só sei uma coisa: eu que construí o colégio. Porque o doutor José me encarregou de eu supervisionar a construção do colégio, de modo que foi... Eu sei que a Votorantim que dava o dinheiro, porque todo o dinheiro saía da Votorantim, isto é certo. Como também saiu da Votorantim, que também estava envolvida neste projeto, a construção de um anfiteatro lá no Hospital do Câncer. E era dinheiro da Votorantim. Quem administrava, como eu falei, não sei se tinha a função de dono ou administrador, mas deve ser função de dono, é o próprio colégio, é o próprio Rotary Clube que tem. Então o colégio é administrado pelo Rotary Clube. Mas quem construiu o prédio foi a Votorantim. E a mesma coisa aí essas atividades de música que ela faz, de concertos. E na área de saúde. Isso tudo quem sabe. Porque a Votorantim é muito, como eu falei, muito discreta. A gente não fica sabendo muita coisa. Isso é uma coisa interessante falar com o doutor Antônio, viu?

 

P2 – E essa parte de projetos ambientais? O senhor trabalhava em uma mina e como é que funcionava, tinha alguma coisa, alguma iniciativa nesse sentido?

 

R – Ah, sim. Isso é uma coisa que acho que a Votorantim sempre teve essa preocupação viu? Por exemplo, para ter uma idéia - isso para estar falando como é a Votorantim, porque a gente toca a música de acordo com o acionista, porque é uma coisa cultural. Mas quando existia por exemplo um... Essas áreas que a Votorantim comprou, por exemplo, essa usina hidrelétrica que era da Light antigamente que passou para Votorantim aqui perto de Votoran. Essa, tem aquela barragem. Então eu sei que quando nós compramos, a primeira coisa que o doutor Antônio fez foi cortar praticamente ou diminuir drasticamente a pesca com tarrafas, essas coisas todas. Só pesca com vara. Quer dizer, eles têm uma área grande lá, ainda de Mata Atlântica aqui perto de Piedade, que é totalmente preservada. 

 

P2 – Mas essa usina hidrelétrica é de que lugar? Essa que o Ermírio mandou para a pesca?

 

R – Para a pesca com tarrafa que é uma pesca predatória.

 

P2 – Qual é essa usina?

 

R – Fica perto de Votoran. É, chama de Itupararanga.

 

P1 – Eu conheci essa barragem.

 

R – Conheceu? É pertinho. Ali antigamente iam jogar tarrafa. Ia um mundaréu de gente, uma sujeirada. Hoje em dia é muito cuidadoso com essa questão de ambiente. Então ele preserva, que o doutor Antônio é um preservador do meio ambiente eu não tenho dúvida. Isso acaba, a própria Votorantim acaba refletindo isso, essa idéia.

 

P2 – Agora o que o senhor acha desse projeto de memória de 85 anos da Votorantim?

 

R – Bom, eu... A senhora está falando com pessoa errada. Porque eu sou uma pessoa que gosta do museu, que gosta de história. Então para mim...

 

P2 – Então a pessoa certa.

 

R – Não, a pessoa errada. A pessoa que gosta de ter essas coisas documentadas. Então acho que uma pessoa muito parcial. Muito parcial. Eu diria, sinceramente, eu acho que, eu acho uma coisa muito, muito importante. E fico triste quando eu vejo se perderem memórias dentro da empresa. Documentos, coisas desse tipo. Antes de eu, uns sete, oito anos atrás eu estava com intenção de construir o museu mesmo da Votorantim. E acabei depois saindo da empresa. Acabei me aposentando. Mas eu estava com uma idéia de construir esse museu. E nós chegamos a contratar uma museóloga. E ela faleceu, essa mulher. Essa senhora faleceu, e ela... Aí eu acabei parando um pouco o projeto, depois acabei saindo. Mas ela tinha todo um projeto feito. Um projeto de se fazer esse museu na fábrica de cimento Votoran. Por exemplo, interativo, que era possível até utilizar, fazer usar máquinas, uma coisa assim.

 

P2 – Mas aí seria a história da Votoran?

 

R – Da Votorantim, não, mas teria documentos da Votorantim toda.

 

P1 – Como se chamava essa museóloga?

 

R – Sabe que eu não lembro o nome dela?

 

P2 – E esse trabalho que ela fez ainda está arquivado?

 

R – Não sei, isso aí eu não sei mais, não.

 

P1 – Isso ficou tudo nas mãos da Votorantim?

 

R – Nas mãos da Votorantim. Mas o doutor José tinha autorizado fazer esse museu. Um projeto que começou assim, depois ela faleceu, acabou também. Acabei largando mão. Mas é uma coisa.

  

P2 – Então agora estamos fazendo.

 

R – É. Eu acho muito interessante, viu? Tem muita memória aí e tem muito... Eu me lembro que eu ia na fábrica de tecidos, tinha ainda cartão, de ponto antigo, um monte de máquinas antigas, que eu achava interessante. Eu acho o projeto uma grande iniciativa para uma empresa - que é uma empresa, afinal de contas, importante. Não tem como não entrar, não ter uma memória. Então como eu estou falando, a senhora perguntou à pessoa errada porque eu sou uma pessoa que viajo pelo museu.

 

P2 – Agora o que o senhor está achando de dar esse depoimento para fazer parte dessa memória?

 

R – Eu acho interessante. Eu não sei se eu estou contribuindo muito. Mas o que eu acho é que, eu acho que é importante. Quer dizer, é uma parte interessante, não digo importante, mas interessante desse projeto. Mas vai ter outras coisas, que não é só isso o projeto. Mas eu acho interessante, acho importante, embora, como eu falei, a minha contribuição seja muito limitada porque eu fiquei restrito a uma área só, a área de cimento.

 

P1 – Senhor Nildo, eu tenho duas perguntas para o senhor. Primeiro eu gostaria de saber o que o senhor faz atualmente? O que o senhor tem desenvolvido? E a segunda pergunta é: atualmente qual é o seu maior sonho?

 

R – Bom, eu já estou aposentado há cinco anos e eu continuo trabalhando para a empresa. E a minha forma de trabalho já mostra como é que é a Votorantim. Eu recebo por hora trabalhada que eu marco. Digo as horas que eu trabalhei, pronto. Quer dizer, esse é o nível de relacionamento que o funcionário guarda com a Votorantim. Evidentemente de novo vem aquela história que eu lhe falei. Se eu esqueço hora, se eu tenho dúvida, eu não marco hora, evidentemente. E claro que cria um compromisso de quem, isso é uma coisa que é lógico isso aí.

 

P2 – O senhor trabalha de consultor?

 

R – Na minha casa. A Votorantim montou o meu escritório na minha casa. Colocou um computador, telefone, colocou tudo dentro da minha casa. E eu pego na minha casa, faço projetos na minha casa e recebo por hora que eu trabalho, que eu marco. E eu trabalho a hora que eu quero.

 

P2 – E o senhor faz projetos de quê?

 

R – Eu faço, na realidade eu faço várias coisas. Mas estou mais restrito à área de mineração e numa área que é, vamos dizer, desenvolvimento de modelos matemáticos para decisões estratégicas, de coisas do seguinte tipo: vamos colocar uma fábrica em tal lugar ou em tal lugar; qual é a repercussão que essa fábrica provoca em tal lugar ou em tal lugar; o impacto que ela tem para a empresa, para o concorrente. São coisas desse tipo. Eu faço trabalho, eu trabalho fundamentalmente com o computador. E faço os modelos assim, coisas de matemática, principalmente matemática que é uma coisa que eu gosto e me dá muito prazer. Então eu faço coisas que eu gosto e me dá muito prazer e mantém a mente ocupada. Bom, isso é o que eu faço para a Votorantim. E eu tenho também faço as minhas coisas pessoais também. Eu hoje em dia eu voltei a estudar - que eu tenho dado aula na Politécnica já. Mas eu voltei a estudar em uma outra área. Eu voltei a estudar nas Letras, na USP. Eu então, hoje em dia eu vou, dia oito agora eu vou fazer a minha qualificação do meu mestrado.

 

P2 – Parabéns!

 

R – Não me dá parabéns sem antes eu saber o resultado. (risos)

 

P1 – E o senhor está estudando o quê no mestrado?

 

R – Estou analisando duas traduções do Guimarães Rosa para o italiano, de um conto dele. E se me perguntar qual é o meu maior sonho é eu continuar estudando. Eu gosto de estudar, e tenho um prazer enorme em estudar. E eu, o meu maior sonho é não perder essa capacidade de estudar, minha capacidade que ainda... Mas devido às perdas naturais da idade, mas eu ainda mantenho alguma capacidade de retenção que eu não quero perder, porque eu quero continuar estudando.

 

P1 – E senhor Nildo, o senhor falou uma coisa que a gente acabou não explorando. O senhor chegou a dar aulas na Politécnica?

 

R – Cheguei.

 

P1 – Em que período foi isso?

 

R – 1976, 1977, 1978. Depois acabei indo, quando acabei indo para a diretoria, eu dava aula aos sábados. Mas depois acabei tendo trabalho durante a semana, acabei parando. Não dá para conciliar as duas coisas. Diretor da Votorantim, dando aula na escola, lá não teve...

 

P1 – Como é que é voltar para a Universidade depois de ser professor, como aluno?

 

R – Ah, interessante. Interessante porque eu vivi uma época na universidade muito diferente. Isso para mim é clara a mudança da época que eu cursei, depois da época que eu lecionei e depois da época que eu frequentei a escola, a diferença é muito grande. Diferença é muito grande em um aspecto. Eu vivi uma época, eu fiquei, eu frequentei a universidade de 1956 a 1960. Eu vivi uma época de muito questionamento. Era uma época que se questionava o Brasil, como eu falei antes. Então na mesma classe, você encontrava gente de extrema esquerda e de extrema direita na mesma classe. Convivendo e discutindo e debatendo. Encontrava as idéias as mais... Se encontrava um fascista ao lado de um comunista de extrema esquerda na mesma classe. Hoje em dia, na universidade, estou falando fundamentalmente a Letras, que eu sinto mais. A Letras da USP aqui.

 

P1- Eu era da História.

 

R- Era da História. Você viveu uma época recente. Você só tem uma cor política possível dentro de uma universidade hoje em dia. Você não tem o debate. Você não tem a extrema, a mesma, dois indivíduos tomando café juntos, um fascista e um comunista de extrema esquerda, você não tem mais isso aí. Só existe só uma cor. Você só pode se manifestar como uma cor política - que é uma cor de centro esquerda hoje em dia dentro da universidade. Essa foi a maior mudança que eu senti, a questão da perda da capacidade do questionamento. Isso é uma coisa que eu achei que foi mais marcante na minha volta agora como aluno. Como professor também senti porque eu já, foi em 1978, 1979 já era um período que... Um período vamos dizer assim, nós já estávamos em um período realmente já de mais, de menos possibilidade de questionamento, já. Em 1977, você não podia fazer política dentro da escola, pela repressão na escola. Então eu digo que houve essa mudança. Eu preferia, não eu seja um velho saudosista, mas eu preferia aquela possibilidade de diálogo que fazia, você tinha que ter, você tinha que ter a capacidade de argumentação. Você desenvolvia a capacidade de argumentação, porque você era constantemente questionado. Você tinha que ter uma posição política. Você não podia ser neutro. Você tinha que ter idéias políticas bem claras, sejam quais forem. Você tinha que ter uma posição. Então tinha gente de todas as cores. A gente percebia que as pessoas discutiam e debatiam porque estavam preocupadas com o Brasil, qual é o rumo que ia tomar. Era uma discussão palpitante. Muito debate. Hoje em dia não sinto toda esta movimentação dentro da universidade. Quer dizer, o assunto da política ocupava uma parcela importante da energia dos alunos na época que eu fiz a escola. Política, a economia. Se debatia sobre Brasília, se valia ou não valia a pena. Se devia entregar minérios para os americanos ou não, se os americanos...

 

P2- A indústria automobilística?

 

R- A indústria automobilística, o petróleo e todas essas coisas se discutiam, se debatiam. Tomar cuidado contra os americanos. Tudo isso fazia parte da discussão, da polêmica da época. Se valia a pena ou não valia a pena. Era época também de Guerra Fria. De modo que era uma época bem interessante. Hoje em dia eu sinto assim, e eu não diria que é uma apatia não, viu? Porque eu acho que é mais uma descrença, mais do que uma apatia. Acho que o jovem hoje ele tem um, a gente sempre tinha a idéia de que um político resolveria nosso problema. Essa era a sensação que eu tinha. A gente escolhendo grandes governantes, eles poderiam resolver o nosso problema. O jovem hoje em dia - eu acho fantástico o jovem de hoje, porque ele não acredita em político nenhum, não acreditando nas estruturas que governam e ele no entanto se empenha a fundo. Ele se esforça, estuda e faz um esforço grande ainda para fazer alguma coisa. A gente, na minha época, eu acho que a gente era muito, acreditava muito que o governo solucionaria o nosso problema. Não sei se vocês concordam, mas eu pelo menos, me dá essa sensação. A gente acreditava que era o Jânio Quadros ou o Lott, ou o Getúlio, seja lá quem for que acabaria resolvendo o problema nosso. Hoje em dia o jovem não pensa assim. O jovem sabe que não é Maluf, nem Lula que vai ajudar a ele. O jovem sabe que ele tem que fazer o esforço dele e pronto. Então isso que eu acho fantástico, porque ele luta assim mesmo. Mesmo desacreditando ele luta. 

 

P2- A gente está se encaminhando para o final da entrevista. Antes eu queria saber se o senhor tem alguma mensagem para deixar para o Grupo, para os funcionários da Votorantim, uma mensagem?

 

R- É que eu acho que a Votorantim tem que preservar aquilo que fez dela esse sucesso. Claro que as relações de trabalho mudam, mas eu acho que aqueles valores que fizeram a empresa ser o que é, devem continuar ser preservados e vão ser. Porque eles estão já encravados, incrustados dentro da mentalidade dos acionistas. Ela passou do doutor Moraes para o doutor Antônio, doutor José, e agora passa para essa geração. Eu acho que isso aí é uma empresa que tem cuidados. Não é uma empresa que ousa de maneira assim totalmente sem nenhum critério. Não se mete em aventuras. É uma empresa que é cuidadosa. Uma empresa que tem um profundo respeito pelo salário de seus funcionários, que é uma coisa importante que eu falei. De modo que eu acho que se eu tivesse que dar um recado eu ia dizer para preservar esses valores que fizeram a empresa aquilo que ela foi, que ela se tornou. E que eu acho que vai continuar porque afinal de contas essa juventude que hoje, essa nova geração é uma juventude fortemente influenciada pela anterior. Não tem dúvida.

 

P2- Então a gente agradece muito em nome da Votorantim e do Museu.

 

R- Muito obrigado.

 

P1- Obrigado, professor.

 

R- Muito obrigado.

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