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História de: Sátiro de Araújo Grama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

Sátiro de Araújo Grama, nasceu em 1922, em Uberlândia, interior de Minas Gerais. Nessa entrevista ao Museu da Pessoa, conta sobre as brincadeiras da infância, o que mais marcou em sua escola e a necessidade de largar os estudos para trabalhar. Relembra todos os empregos em que já trabalhou, de varredor, estoquista, até chegar à posição de guarda-livros em uma loja de tecido. Fala também sobre sua atuação no Exército Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial e narra a feliz coincidência de reencontrar um amigo dos tempos de guerra, quando já trabalhava na Companhia de Telecomunicações do Brasil Central, onde trabalhou por mais de trinta e cinco anos, na área de administração contábil e jurídica.

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História completa

P/1 – Por favor, diga seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Sátiro de Araújo Grama, nascido em Uberlândia, em 3 de julho de 1922

 

P/1 – Nome do seu pai e de sua mãe?

 

R – Meu pai, Sátiro José de Araújo, e de minha mãe, Maria Cesária Grama

 

P/1 – O senhor sabe de onde vieram seus avós?

 

R – Não sei. Eu poderia até colher essa informação, posteriormente.

 

P/1 – Qual a atividade de seu pai?

 

R – Ele era comissário de gado, trabalhava sob comissão. Ele vendia gado recebendo comissão. Aqui em Uberlândia e na região toda... ia até Paracatu, João Pinheiro.

 

P/1 – O senhor chegou a acompanhá-lo em algumas dessas viagens.

 

R – Não.

 

P/1 – Ele contava alguma história para o senhor sobre essas empreitadas?

 

R – Não contava porque eu era menino nessa época. Meu pai morreu em 1938. Então eu não convivi muito com ele, não. Convivi mais com a minha mãe.

 

P/1 – E a casa da sua infância? O senhor poderia descrevê-la?

 

R – Era uma casa, aos moldes da época, uma casa simples, de construção antiga. Tinha oito cômodos. Não tinha nada de moderno, era antiga mesmo, o tipo de construção.

 

P/1 – O chão, como era?

 

R – Dos quartos, das salas de visitas e de jantar, o chão de madeira, de tábua, de ripa, e a cozinha era de ladrilho, ladrilhado.

 

P/1 – Quantas pessoas viviam nela?

 

R – Viviam nove pessoas: meus pais, eu e mais seis irmãs.

 

P/1 – Essa casa localizava-se aqui em Uberlândia? 

 

R – Em Uberlândia.

 

P/1 – Ela ainda existe? 

 

R – Não, não existe mais não.

 

P/1 – O senhor se lembra a rua onde ela estava?

 

R – Lembro, chamava-se rua Guarani, hoje é rua Pedro Bernardo, número 54.

 

P/1 – Ali o senhor passou toda sua infância? 

 

R – É, toda infância, até o casamento.

 

P/1 – E como foi sua infância ali, como foram as brincadeiras na rua?

 

R – As brincadeiras eram as mais humildes possíveis. Era jogar bola na praça, na Praça do Rosário. Na parte da tarde reunia a meninada, os meninos da redondeza... Foi uma infância bem simples, bem singela.

 

P/1 – O senhor tinha irmãos com idade próxima da sua?

 

R – Não. Da família eu sou o único filho homem. Somos eu e mais seis irmãs e eu sou o mais novo. Acima de mim tem uma irmã. Eu estou com setenta e sete e minha irmã está com oitenta anos. Depois vêm as outras com oitenta e quatro, oitenta e oito, e noventa.

 

P/1 – Uma família longeva! Como é que eram essas brincadeiras, senhor Sátiro, além do jogo de bola?

 

R – Brincava de arco, de bolinha de gude.

 

P/1 – Desculpa, de arco?

 

R – Era um arco que era conduzido num... hoje já não me recordo mais... não é da época de vocês, né?...  Tinha um aro, um círculo de ferro, que a gente conduzia ele na... esqueci o nome como se chamava... E tem a bolinha de gude, que também era um jogo. Um jogo muito comum na época era jogar pião.

 

P/1 – Tem alguma brincadeira dessas que o senhor se destacava?

 

R – No futebol eu me destacava. Outro dia tinha um médico aí, que jogou comigo na época, e ele estava comentando numa roda. Hoje não sou tão íntimo dele, doutor Macedo de Oliveira, mas ele comentou: “Esse aqui” – e apontou o dedo para mim – “na época de hoje ele estaria na seleção”.

 

P/1 – Modéstia à parte, senhor Sátiro?

 

R – Foi ele quem falou!

 

P/1 – Em que posição o senhor jogava?

 

R – Eu jogava de centroavante.

 

P/1 – O senhor chegou a pensar em adotar o futebol como prática de vida?

 

R – Não, não, nunca. Isso foi mais na parte da infância. Depois no colégio e no curso secundário, quando eu fazia Contabilidade, eu joguei também no time da escola, da Academia de Comércio, joguei no time da escola. Mas eu já mudei de posição, já era lateral.

 

P/1 – O senhor se lembra da primeira escola que frequentou?

 

R – Grupo Bueno Brandão, aqui em Uberlândia.

 

P/1 – O senhor lembra da sua primeira professora?

 

R – Minha primeira professora foi Dona Iolanda Mota, a diretora era Dona Judi Moreira.

 

P/1 – Como era essa escola?

 

R – Uai! Para época era uma escola boa, viu. Era onde está hoje aquele Instituto, lá na praça Tubal Vilela, pegado no hotel Zargo. A construção não é a mesma, mas era naquele local o Grupo Bueno Brandão.

 

P/1 – Em que ano o senhor entrou na escola?

 

R – Em 1930. E fiquei até 1934. Fiz o primário, saí em 34, e depois fiz o exame de admissão ao Ginásio. Me preparei para o exame de admissão e passei para o Ginásio Mineiro, que chamava.

 

P/1 – Onde ficava?

 

R – É naquele prédio do museu lá embaixo. Eu passei no exame, mas eu precisava trabalhar. Então eu desisti do Ginásio, porque o estudo era de dia, durante o dia. E aí fui estudar na Academia de Comércio, que tinha curso noturno. Então eu trabalhava durante o dia e estudava à noite.

 

P/1 – O que o senhor fazia de dia?

 

R – Trabalhava numa loja de tecidos. Era o boy, né? Entrei fazendo entrega, fazendo cobrança.

 

P/1 – Onde era a loja?

 

R – Em Uberlândia, na Avenida Afonso Pena 255.

 

P/1 – O que o senhor se recorda do seu primeiro trabalho? 

 

R – Foi meu primeiro trabalho. Eu gostava muito. Entrei no dia onze de março de 1935 e lá eu trabalhei durante dez anos e sete meses.

 

P/1 – Sempre fazendo a mesma coisa?

 

R – Não. Quando eu concluí o curso de comércio, de contador, na época eu era guarda-livros. Quando eu concluí o curso, eu passei a trabalhar na função de guarda-livros, lá da firma.

 

P/1 – Como é que era o trabalho do guarda-livros?

 

R – O mesmo trabalho hoje do contador. Da escrituração mercantil.

 

P/1 – Como se chamava a loja?

 

R – O nome de fantasia era O Mundo Elegante, loja de tecidos e calçados, e a firma tinha a denominação oficial era Abreu e Silva. Mas depois houve várias mudanças.

 

P/1 – O senhor tem alguma recordação especial desse período do Mundo Elegante?

 

R – A que eu tenho é o coleguismo, do convívio com os colegas. A maioria deles até hoje eu lembro, nominalmente.

 

P/1 – Quem eram eles?

 

R – Elton Cardoso, Sebastião Elias Silvino, Ernani Pires dos Santos, Jeferson Rodrigues... O Jeferson aposentou-se como gerente do Banco de Crédito Real, em Juiz de Fora. Ana Gonçalves... Ana não, Alda Gonçalves, Abigail Marques, Deocles Cardoso. Os patrões eram os primeiros dessa firma: Jercino Silva, Valter de Abreu, Benedito Castoriejo, Alcides Elon... foram os primeiros patrões de dentro dessa firma. Esse Jercino Silva, que já faleceu, por sinal é o tio de Dona Ilce.

 

P/1 – Como era sua relação com eles?

 

R – Muito boa, eu convivia muito bem com o pessoal. Eu era pequeno e eles viam assim um espírito de liderança. Então eu me relacionava muito bem com o pessoal, sabe.

 

P/1 – Essas pessoas que o senhor citou que tinham, como o senhor, contato direto com o público?

 

R – Tinham.

 

P/1 – E seu contato com o público, como é que era nessa época?

 

R – Era normal, bom. Um contato bom.

 

P/1 – O senhor nunca teve um contratempo?

 

R – Não, isso sempre ocorreu. Em todo serviço que eu trabalhei eu sempre convivi bem com os colegas, com os patrões; mas com todos eles sempre a gente tinha os momentos de atrito, não é? Mas eram coisas que logo passavam.

 

P/1 – O senhor adotou a contabilidade como uma necessidade de ter um tempo livre para poder trabalhar?

 

R – Exatamente. Mas depois eu tomei gosto pela contabilidade. Primeiro era a profissão que eu poderia alcançar, porque eu precisava trabalhar. Minha família é família pobre, meu pai trabalhava, foi comissário de gado, mas nessa fase que eu era menino ainda ele já deixou de trabalhar, pela própria idade. Então eu tive de trabalhar para poder pagar os estudos.

 

P/1 – Suas irmãs também tinham o mesmo procedimento? 

 

R – As mais velhas se iniciaram como professoras. As duas mais novas trabalhavam no comércio, trabalhavam naquela firma que existiu aqui, não sei se vocês se lembram, Resende & Cia. Era uma firma muito tradicional. Em 1925, 30, já existia essa firma.

 

P/1 – Como foi seu desenvolvimento dentro do Mundo Elegante, conforme os estudos iam evoluindo?

 

R – Me desenvolvi, viu! Foi bom. Fui mudando de função: comecei varrendo, levando mercadoria na rua para vender, fui galgando posição. Depois estoquista, depois funcionava também como vendedor e chegou ao ponto, então, o ponto máximo que eu cheguei, que era de guarda-livros, que é o contador hoje.

 

P/1 – Nessa função o senhor ficou quanto tempo?

 

R – Nessa de contador? Deve ter sido uns quatro anos, porque eu fui convocado para o Exército, tive que sair daqui.

 

P/1 – Em que ano o senhor foi convocado?

 

R – Em 1944, fui para São João Del Rei. Aí eu me vi forçado – forçado porque é o Exército que determinava – a fazer um curso no CRFG. Então eu fiz esse curso em dezembro de 1944, e em 8 de janeiro de 1945 eles me promoveram a sargento. Um dia depois me entregaram a divisa de sargento, e avisaram: “Amanhã cedo, às seis horas, você tem que pegar o trem para o Rio para integrar-se ao CRT de FEB.

 

P/1 – CRT, o que quer dizer?

 

R – Centro de Recompletamento de Pessoal.

 

P/1 – O que era isso?

 

R – Uai, é o centro para poder recompletar os quadros da FEB. Então eu saí de São João Del Rei e fui para o Rio lá eu me integrei à FEB, em janeiro de 1945. O último embarque para a Itália saiu no dia 7 de fevereiro, e eu não cheguei a embarcar nesse 7 de fevereiro. A minha roupa foi, mas eu acabei não embarcando. Depois, chegou em maio e a guerra acabou, mas eu permaneci lá até 9 de outubro, na Vila Militar. Eles começaram a aproveitar os conhecimentos da gente em alguma área. Eu fui escrivão de inquérito em vários casos, inquérito policial militar. Na hora em que estava terminando a guerra, eu era designado para receber feridos de guerra no aeroporto Santos Dumont. Então toda quarta-feira eu tinha um carro, um jipe, à minha disposição com motorista e tal. A gente ia para o aeroporto para receber feridos de guerra. Isso foi algum tempo, alguns meses.

 

P/1 – Em que consistia essa sua ação de recebimento de feridos? 

 

R – Era para encaminhar, quer dizer, receber os feridos e aqueles que precisavam ir para o hospital, a gente encaminhava para o hospital.

 

P/1 – Era uma função sua? Do sargento Grama?

 

R – Sargento Sátiro. Então eu levava o pessoal. Quando o estado de saúde não era bom, eu encaminhava para o hospital. Mas quando estava bom, estava em fase de recuperação, eles iam comigo até o quartel para se apresentarem.

 

P/1 – Onde é que ficava esse quartel?

 

R – Esse quartel ficava na Vila Militar.

 

P/1 – Em Realengo?

 

R – É para lá do Realengo. Ali é interessante, tem Deodoro, Realengo, por ali... Eles chamavam de Vila Militar. Fundo com o campo dos Afonsos né.

 

P/1 – Esses feridos vinham da Europa?

 

R – Da Europa.

 

P/1 – Por via aérea?

 

R – Via aérea.

 

P/1 – O senhor considerou efetivamente a perspectiva de embarcar?

 

R – Ah, sem dúvida, sem dúvida eu estava preparado para isso. Eu tive companheiros meus de batalhão que embarcaram. Eu não embarquei pelo seguinte: poucos dias antes eu baixei no hospital.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não estava me sentindo bem e aí me encaminharam para o hospital. Fiquei lá vinte e tantos dias. Quando saí, a minha roupa chegou a embarcar, e quando eu voltei a tropa tinha saído no dia 7. Eu ia me preparar para o outro escalão, o escalão seguinte, que seria o sexto. Aí chegou o dia 8 de maio e a guerra terminou.

 

P/1 – Como foi o dia 8 de maio, na sua lembrança?

 

R – Foi tenebroso viu, porque só nordestinos é que gostavam de guerra, porque eles queriam ser heróis, mas mineiro não estava querendo, não. O mais difícil é que a gente, às vezes, tinha que dar instrução para a tropa, para o pelotão, instruir, convencê-los, pôr na cabeça deles que aquele era um ato de bravura, que a gente deveria seguir na guerra. Mas a gente mesmo, intimamente, não estava muito disposto, não.

 

P/1 – Que tipo de instrução que o senhor dava? 

 

R – Instrução cívica. A não ser ordem unida de marcha e tal. Mas tinha as instruções também, de caráter cívico, de pôr na cabeça do soldado que ele estava cumprindo um dever de patriota, né? De preparar o espírito da turma para poder embarcar. Porque naquela época o navio, quando era para levar a tropa, o pessoal, às vezes, entrava no navio, saía e nem falava para onde ia. Saía, dava uma volta e voltava. No outro dia saía novamente, dava uma volta no mar e voltava. Mas teve um dia que eles entraram e foram direto, né? A estratégia era essa: fazia esse tipo de coisa e não ia. Além da preparação que havia do pessoal para isso né.

 

P/1 – O senhor diria que era uma espécie de manobra diversionista para enganar possíveis espiões?

 

R – Eu acredito que era mais para preparar a própria tropa, porque tinha aquela porcentagem que não se conformava muito com isso, não.

 

P/1 – Isso causava algum tipo de problema na tropa?

 

R – Não, para a tropa não, mas para o estado de espírito do pessoal. Eu tive colegas no meu batalhão, por exemplo, uns que foram, outros não, teve gente que morreu, foi e ficou, apesar de ter sido o último escalão. Teve também muita gente que vinha doente. Problema de tuberculose tinha bastante.

 

P/1 – Ainda aqui no Brasil?

 

R – É, de soldados que vinham e já vinham atacados. Chegavam e eu até ficava revoltado com aquilo e abria o bico, sabe? Eu dizia: “Puxa vida, em vez de internar os soldados vocês pegam e liberam eles, sabendo que vai morrer?”.

 

P/1 – Eram soldados que voltavam contaminados com a tuberculose?

 

R – É, por causa daquela friagem que a gente vê na zona de guerra, na zona de combate.

 

P/1 – Pegaram o inverno europeu inteiro.

 

R – É.

 

P/1 – E muita gente morreu por conta disso na volta?

 

R – Não. Depois que voltaram a gente ficou sabendo de algum caso de gente que morreu. Outros vieram com problema de neurose. Eu, às vezes, estava conversando com algum deles... Eu gostava muito de papo com esse pessoal. Eu era de estopim meio curto, mas eu gostava de papo com o pessoal. Então eu estava conversando com aqueles, os soldados que voltaram, e eles na mesma hora punham a mão na cabeça, se agachavam, e diziam que vinha aquele zumbido na cabeça. Era a consequência do ambiente da guerra.

 

P/1 – O senhor tentava ajudá-los de alguma forma?

 

R – Sempre.

 

P/1 – De que maneira?

 

R – Procurando dar assistência para eles, assistência médica, e dando amparo nos momentos daquela crise.

 

P/1 – O senhor disse que era um sargento de estopim curto?

 

R – Civil também.

 

P/1 – Como o senhor caracterizaria essa faceta do seu comportamento?

 

R – Toda vida, até hoje, quando sou provocado, eu tive minhas reações. Às vezes eu acho até que não me portei bem mas.... Agora, no Exército, não: eu tinha muita atenção com o pessoal da tropa, com o soldado, com o preso, procurava dar muita assistência aos prisioneiros, coisa que nem todos faziam isso. Levava eles ao médico, no dentista.

 

P/1 – O senhor subiu de posto?

 

R – Não, saí sargento, porque não foi muito tempo, foi uns dez ou onze meses.

 

P/1 – O senhor se lembra do dia em que chegou a notícia do final da guerra? Como foi?

 

R – Foi muito bom. Foi no mesmo dia 8 de maio. Acabou a guerra e já noticiou-se pelo mundo todo.

 

P/1 – Como é que foi esse dia?

 

R – O regozijo foi geral. Especificamente, no quartel, com a tropa, eu não estou lembrado, não. Agora, a fase mais preocupante, naquela época, que a gente teve, foi quando o Franklin Roosevelt morreu. Com o mundo conturbado como estava, durante a guerra, o presidente Roosevelt faleceu. Me parece que foi abril. A preocupação foi geral com o destino que haveria no curso da guerra. Depois entrou Harry Truman, mas não teve problema nenhum e ele deu prosseguimento ao plano de guerra.

 

P/1 – Qual era o receio que se tinha com a falta do Roosevelt?

 

R – Uai, que isso gerasse um fracasso no movimento da guerra.

 

P/1 – Talvez no refluxo?

 

R – É, de comando. Porque o presidente Roosevelt era muito habilidoso, então a preocupação era essa. O Truman também continuou fazendo aquelas conferências que Roosevelt fazia, com Churchill, com Stalin...

 

P/1 – E os chefes militares brasileiros, como era a imagem deles para as tropas que estavam aqui no Brasil? Mascarenhas de Morais, Cordeiro Farias, Castelo Branco?

 

R – Olha ambiente de soldado o senhor sabe como é... Havia alguma crítica. Mas aí não nos superiores, mas na tropa. Havia crítica sobre comportamento, que às vezes até podia ser infundadas.

 

P/1 – Por exemplo? 

 

R – Sobre o comportamento dos nossos comandantes. Sobre possíveis gafes em comando. Mas isso é coisa que não poderia acreditar e dizer que era verdade. Mas havia esses comentários de comando errado.

 

P/1 – Essas informações chegaram com os pracinhas que retornaram ao país?

 

R – Também... viu. Também.

 

P/1 – Que tipo de comportamento era criticado?

 

R – Dizia-se que teria havido um comando errado em tal fase da guerra.

 

P/1 – Isso era debatido pela tropa?

 

R – Conversado, comentado.

 

P/1 – O senhor ficou no Exército até quando?

 

R – Até 8 de outubro de 1945.

 

P/1 – Tinha alguma perspectiva, algum plano para assim que saísse da caserna?

 

R – Não. Eu tentei sair antes mas não consegui. Logo que terminou a guerra eu trabalhei para ver se conseguia deixar. Mas não consegui. Consegui no dia 8 de outubro. Mas essas críticas que eu falei aí não quer dizer que tinham fundamento sobre os militares. Eram comentários de tropa, igual comentários de colégio.

 

P/1 – Conversa de rancho

 

R – É, conversa de rancho.

 

P/1 – Com o final da guerra, com sua baixa, e aí? O que vamos fazer da vida?

 

R – A firma que eu trabalhava tinha encerrado as atividades, em 1945. Eu cheguei aqui no dia 8 de outubro e, em novembro ou dezembro, iniciou-se aqui a constituição de uma empresa de transportes, com a união de todos empresários da região, proprietários de linhas de ônibus. Resolveram então fundir-se em uma única empresa. Foi criado então o Expresso Triângulo Mineiro S.A.. E eu me candidatei a contador e fui contador da firma.

 

P/1 – Houve concurso?

 

R – Não, não houve, foi só por currículo. Eu entrei nessa firma no dia 14 de janeiro de 1946. Entre 1955 e 1956, essa firma achou que os resultados não estavam bons e começou a vender as concessões. Começou a vender as concessões e depois que venderam todas as concessões, eu saí. E montei um escritório de contabilidade, de sociedade com o hoje advogado Wilson Ribeiro da Silva, que hoje é advogado da Unimed. Então fiquei sócio do Wilson no escritório. Eu andei pegando alguns serviços e ele também, fizemos a sociedade e depois resolvemos nos separar – eu achei que estava trabalhando muito – e fui trabalhar sozinho. E peguei a escrita de uma empresa que estava começando, o Real Expresso. Eu ia lá umas, duas horas por dia. E peguei também a escrita da Transcol, Transportes Coletivos Uberlândia Ltda. Então fui para a Transcol, onde trabalhei e também ia lá uma ou duas horas por dia. Peguei outras empresas, também: atacadistas como Raimundo Martins, Construtora Triângulo. Nisso eu trabalhei uns três ou quatro anos. Depois o próprio Real Expresso me fez um convite para trabalhar tempo integral, e eu fui para o Real Expresso. Trabalhei no Real Expresso com tempo integral uns quatro ou cinco anos.

 

P/1 – Nós já estamos falando em que ano mesmo?

 

R – Nós já estamos na década de 1960. Aí houve uma mudança de proprietários no Real Expresso e eu fui para a Viação Estrela, também no ramo de transportes. Isso foi no ano de 1963. Quando foi em dezembro de 1963, eu recebi um convite do falecido Agenor Alves Garcia, que era gerente dos Irmãos Garcia. Ele e o doutor Luiz Alberto me procuraram e me convidaram para ir para o CTBC. Então eu deixei a Estrela e fui para o CTBC, no dia 20 de janeiro de 1964.

 

P/1 – Irmãos Garcia era uma empresa de?

 

R – Era uma concessionária Chevrolet. Ocupa um quarteirão, muito bem montada, bem instalada.

 

P/1 – Poderia dizer que o senhor já era um contador considerado na cidade?

 

R – Modéstia à parte, eu atingi um grau máximo que eu poderia atingir nessa profissão. Porque quando eu trabalhava nesse Expresso Triângulo Mineiro aqui existiam no máximo duas ou três sociedades anônimas. Essa firma era uma delas. A outra é a Companhia Telefônica do Brasil Central, que havia sido fundada em 1954.

 

P/1 – O senhor começou a adquirir um know how de trato com acionistas e de toda a legislação pertinente a esse tipo de sociedade?

 

R – Sem dúvida. Quando eu entrei em 1964 na Telefônica, eu fiz minha imposição: aceitaria trabalhar na CTBC mas com uma condição: eu não viajaria e não faria horas-extras, não trabalharia fora do horário. E nesses anos todos foi o que eu mais fiz. Trabalhava à noite e fim de semana ia viajar! Mas nunca me aborreci por isso porque o ambiente era muito bom para trabalhar. E eu acabei me acostumando a viajar e a trabalhar extraordinário.

 

P/1 – Suas primeiras tratativas foram feitas com quem? Doutor Luiz ou seu Alexandrino?

 

R – O seu Alexandrino eu já havia conhecido no Expresso Triângulo Mineiro, mas essas tratativas para entrar na CTBC foram com Agenor e doutor Luiz. Eu me lembro até hoje o dia que eles me procuraram para conversar sobre a possibilidade de eu ir para lá. Eu falei: “Podemos combinar, né?”. Aí eu avisei ao pessoal da Estrela : “Olha, o Luiz da CTBC e o Agenor me procuraram, estão me chamando para ir para lá”. Aí eles ouviram, só. Então, um dia, eu fui até à Telefônica, acertei os ponteiros, voltei e falei com eles, da Estrela: “Olha, eu já combinei com a CTBC. Vou entrar lá no dia 20”. E eles: “Ah, isso não. Não concordamos”. E falei: “Olha, agora eu não posso. Eu falei com vocês que eu estava combinando com eles e vocês não fizeram objeção nenhuma. Agora eu já dei a palavra lá. Eu, lamento”. Aí fui para a CTBC. Foi até bom porque a Estrela depois mudou sua sede para Goiânia e eu não gostaria de sair daqui.

 

P/1 – Onde foi o local da CTBC que o senhor foi trabalhar?

 

R – Avenida João Pinheiro 620, esquina com a Machado de Assis.

 

P/1 – No que consistia seu trabalho? 

 

R – Na contabilidade. Eu substitui o saudoso Acir Vieira de Andrade, que era um contador muito competente. Então eu entrei como um substituto dele. A diretoria, na época, era o presidente seu Alexandrino Garcia, vice-presidente o senhor Walter Garcia e diretor-gerente o doutor Luiz Alberto Garcia.

 

P/1 – O senhor comandava uma equipe ou trabalhava sozinho?

 

R – Quando entrei era só eu, e contava com a colaboração dos colegas que já estavam. Eram a Dona Ilce Fogarolli, Maria Adelaide Vieira, Doralice Vieira, Edna Morbeck, Vilma Saad, Rosa Maria Barbosa. Era com esse povo que a gente contava, era esse povo que colaborava comigo. Depois, à medida que o tempo passava, a gente foi ampliando. Depois entraram outros especificamente na contabilidade, como Violeta Curi, Nadir de Abreu. Agora veio vindo, o tempo passando e, alguns anos depois, em 1970, já foi admitido na CTBC, trabalhando comigo, o Geraldo Batista Caetano, que hoje é o diretor financeiro do grupo. Trabalhava comigo também o Osório Marques Ferreira Neto que é coordenador da área de controladoria, o Helio Calado – esse já saiu –, Valmiro Reis, que era economista, falecido em 1980. Então eu tenho uma grata lembrança desse povo com quem eu trabalhei. O Geraldo Caetano e o Osório ainda estão aqui, progrediram, mas são meus amigos até hoje.

 

P/1 – O senhor se reportava diretamente a quem? 

 

R – Ao Dr. Luiz e ao seu Alexandrino.

 

P/1 – Como era a convivência com o senhor Alexandrino?

 

R – Ah! Muito boa. Seu Alexandrino era um empresário espetacular. Foi um homem que não chegou a um título de curso superior mas era um profundo conhecedor da área do Comércio, como empresário. Um homem trabalhador ao extremo. Não é fácil de encontrar um homem daquela têmpera, até nos dias de hoje. Ele fazia de tudo. Era um homem de quase sessenta anos e até em poste ele subia. Deixava a mesa dele, fazia uma viagem e se precisava subir num poste para consertar alguma coisa, um isolador, ele subia. Foi um pioneiro, seu Alexandrino. E e doutor Luiz também. Doutor Luiz acompanhou os passos dele. Então nessa região toda aí, o desenvolvimento na área da Telecomunicação foi uma coisa espetacular. Na década de 1960, para se falar com Ribeirão Preto, você gastava aí até dias. Para fazer uma ligação se falava através de Varginha, dava uma volta. Eram só linhas físicas. Depois foi havendo o desenvolvimento, o aperfeiçoamento.

 

P/1 – O seu Alexandrino tinha essa visão do futuro? 

 

R – Tinha, ele trabalhava em cima disso. Olha, a Telebrás criou, no fim da década de 1960, aquele plano de expansão em que o usuário, o assinante, comprava o telefone e recebia ações como parte daquele pagamento. A CTBC, três ou quatro anos antes, o seu Alexandrino já tinha adotado isso aqui. Ele mais o doutor Luiz já tinham adotado esse autofinanciamento. Quer dizer a Telebrás veio a criar esse plano três ou quatro anos depois. Isso mostra que a visão deles era uma visão muito grande.

 

P/1 – É na verdade ampliava-se o quadro associativo da S. A. Qual era a vantagem disso?

 

R – A vantagem era a captação de recursos. Porque uma central já custava um dinheirão. Se fosse montar uma central nova, fazia-se o plano e o próprio assinante, ele promitente usuário, concorria com o empreendimento. Quer dizer, pagava, era o incentivo, e recebia parte de ações e ficava como acionista da empresa.

 

P/1 – Isso aumentava o seu trabalho.

 

R – É, aumentava. Mas nós tínhamos fases difíceis, especialmente as fases de incorporação de empresas. Porque no fim da década de 1960 e na década de 1970, o grupo foi comprando ações de determinadas empresas telefônicas que já existiam na região, ou comprava da própria prefeitura aqueles investimentos que já tinham sido feitos, geralmente em instalações inadequadas, já antigas. Então o grupo foi ampliando assim a sua atividade. Foi o Ituverava por exemplo, onde já existia uma empresa, a Telefônica de Ituverava S. A.. Então o grupo foi comprando as ações. Depois, quando foi fazer a incorporação, houve a reação de uma ala de acionistas da cidade, que não se conformavam da empresa passar para outra. Então a gente teve na época algumas assembleias tumultuadas. Até deu demanda judiciária, mas depois no fim nós ganhamos no foro de Ituverava, no tribunal de São Paulo.

 

P/1 – Como é que o seu Alexandrino reagia a essas demandas?

 

R – Ele era disposto. O que precisava ser feito, ele dava pleno apoio. E tinha as ideias dele também. Ele era um lutador, adorava essa área de telecomunicações. Ele estava sempre tendo ideias novas. “Vamos ver se pegamos tal lugar”, ele dizia. Ou “vamos pegar tal cidade, vamos lá conversar com o prefeito e com a Câmara para ver se juntava essas empresas à CTBC”.

 

P/1 – Essa estratégia de crescimento redundou na existência de uma série de companhias sob controle acionário da CTBC. E essas outras companhias não tinham o mesmo tipo de relação com os assinantes e com os acionistas que tinha a CTBC. Como era conjuminar tudo isso? Isto é, adequá-las aos procedimentos de gestão que já havia aqui?

 

R – Na medida que a CTBC tinha o controle, já punha somente administração nossa na empresa, punha administração do grupo. E o relacionamento que se fazia com o acionista sempre foi muito bom. Algum atrito, como foi esse caso de Ituverava que eu citei, era porque o sujeito tinha a empresa na cidade e, na cabeça dele, ficava parecendo que a CTBC ia tirar a empresa de lá. E não ia, é evidente que não ia. Ia mudar a administração. Então a mudança foi sempre para melhorar, como no caso de Ituverava, eu estive lá, melhorou consideravelmente. Ao passo que antes era um serviço arcaico. Eu me lembro uma ocasião do seu Alexandrino: eu estava preparando para ir à missa, às dez horas da manhã. Seu Alexandrino bateu lá em casa, minha mulher atendeu, e ele falou: “Sátiro, vamos dar um passeio?” “Onde, seu Alexandrino?” “Vamos dar um passeio lá em Conceição das Alagoas.” Era município perto de Uberaba, que tinha sido distrito de Uberaba. Eu falei: “Vamos, seu Alexandrino”. Então nós saímos daqui, passamos em Uberaba, pegamos um outro casal que era parente do prefeito e chegamos em Conceição. Almoçamos na casa do prefeito e foi feito aquele entendimento para instalar o serviço lá em Conceição. O seu Alexandrino era muito habilidoso, era muito competente e capaz. Então conversava sobre os planos da CTBC. Então acertou-se de fazer isso, como preliminar. Eu me recordo que naquele dia nós saímos de Conceição das Alagoas e viemos. Quando estava aproximando de Uberaba, o seu Alexandrino falou comigo: “Vamos dar uma chegadinha lá em Miguelópolis?”. Já é voltando para ir para São Paulo. Eu falei: “Vamos, uai”. Era domingo às seis horas da tarde. Então nós fomos para Miguelópolis e fomos lá na casa do prefeito. Miguelópolis já tinha um serviço, mas antigo. Seu Alexandrino conversou, acertou, fez planos e tal. Nós viemos chegar aqui eram duas horas da manhã, para amanhecer para segunda. Mas quando chegou no outro dia, às sete e meia da manhã, ele já estava lá no batente.

 

 P/1 – E com duas novas praças para explorar?

 

R – É, exatamente. Eu fiquei conhecendo muitas cidades do interior de São Paulo assim, trabalhando. Para quem não gostava de viajar.... Fiquei conhecendo Guaíra, Guará, Miguelópolis, Batatais, Brodosqui, Ribeirão Preto, Ribeirão Corrente, Aramina, Buritizal, Frutal, São Joaquim.

 

P/1 – Seu Alexandrino era chegado num trabalho de final de semana, não era?

 

R – Era. Mas justamente para não perder o dia de trabalho durante a semana. Ele e o doutor Luiz. Viajei muito com eles justamente no sábado e no domingo. Marcava viagens para os sábados de manhã e a gente ia.

 

P/1 – E no trajeto falava-se apenas de negócios ou também de amenidades?

 

R – Era conversa de um modo geral, mas mais de negócios. Era um assunto até agradável porque seu Alexandrino conhecia muito do negócio, e doutor Luiz também. Mas não conversava só isso não, coisas de lazer também, de bate papo. Eu me lembro que certa vez eu vinha com ele do interior de São Paulo e era umas seis e meia, já anoitecendo. Ele vinha que pisava no acelerador. Eu falei: “Mas seu Alexandrino, o senhor está andando depressa demais”. E ele falou: “É que agora mesmo é a hora da novela, ‘A Deusa Vencida’”. Estava passando essa novela, nessa época. Era uma novela boa....

 

P/1 – Para quem não queria viajar nem trabalhar fora do horário, o senhor deve ter tido uma grande decepção...

 

R – Mas, interessante, me habituei logo, viu?. Me habituei. Talvez fosse apenas a falta de costume. Até hoje, viajar para trabalhar, nunca fui aborrecido, não.

 

P/1 – Doutor Sátiro, de onde veio a vontade de estudar o Direito, depois de ser um contador já experiente? 

 

R – Uai, o meu pensamento era de desenvolver mais, de aprender mais – essa foi a minha ideia. Entrei na faculdade de Direito já com cinquenta e um anos. Foi em 1973 e formei em 1977. Quando foi em 1978, em janeiro, o senhor Alexandrino fez uma norma interna passando para mim a responsabilidade do departamento jurídico. A contabilidade ficou então com o Geraldo Caetano.

 

P/1 – Seu trabalho a partir de então consistia em acompanhamento jurídico e relação com acionistas?

 

R – A relação com acionista existia porque nesses planos de expansão sempre eu tive participação. Então a gente tinha contato com acionista, mas quando eu dirigi o departamento jurídico na CTBC – aliás, aí já era do Grupo Algar – foram surgindo essas novas empresas, foram constituídas, então chegou-se até sessenta e tantas empresas no grupo. Então era um trabalho bem pesado. Aí eu fui até 1989 nesse departamento, nesse setor.

 

P/1 –Já havia holding?

 

R – Já havia holding, foi no final da década de 1980 que constituiu-se a holding. No departamento jurídico eu fiquei de 1977 a 1989. Em 1984 eu passei para a ABC Empar, que era a empresa anterior à Algar. ABC Empar – Empreendimentos e Participações, que era a holding do grupo...

 

P/1 – Já aí era uma convivência mais direta com o doutor Luiz? 

 

R – É.

 

P/1 – Há quem diga que o seu Alexandrino era uma pessoa mais metódica e doutor Luiz mais impetuoso.

 

R – É, principalmente nos últimos anos. Antes era um trabalho conjunto, com seu Alexandrino no comando e doutor Luiz como vice-presidente. Depois, aos poucos, o doutor Luiz foi tendo uma atividade mais intensa. Era trabalhoso para ele essas visitas a Ministérios, ao Dentel, Contel – que eram o Conselho Nacional de Telecomunicações e o Departamento Nacional de Telecomunicações, o órgão fiscalizador do Ministério das Comunicações. Então viajavam muito, a legislação mudando... Naquele período em que a Telebrás estava muito atuante, nos primeiros anos, eles tinham verdadeira aversão às empresas privadas. Eles entendiam que queriam estatizar mesmo – a ideia do Governo era essa, estatizar. Então o senhor viu que todas as empresas privadas foram aderindo à ideia do Governo. Em Minas Gerais tinha empresa demais de telefonia privada. E no Brasil todo. Então foram aderindo ao plano do Governo e havia uma certa pressão do Governo para dificultar as coisas, demorando a conceder autorizações para expansão, para instalação de novos equipamentos. Então teve cidades aí, e empresas telefônicas, que foram aderindo ao plano do Governo e, aqui, o seu Alexandrino e o doutor Luiz resistiram. Eles pegavam empresas, pegava outra, pegavam mais uma. Seu Alexandrino e o doutor Luiz resistiram ao ponto que acabou ficando a única empresa privada de telefonia, a única. Tinha outra lá em Ribeirão Preto, mas também era empresa do Governo, do Governo Municipal.

 

P/1 – Como eles resistiram às pressões? Era uma briga de cachorro grande, não era?

 

R – Sem dúvida, sem dúvida. Foi uma resistência feroz. Apresentava-se pedidos de expansão, aprovação para instalação de novos equipamentos, e isso demorava, demorava muito! Precisava ir lá, em Brasília, para obter autorização para instalar equipamentos, para aumentar, para fazer o plano de expansão, para inaugurar novas linhas... Às vezes já estava instalado o equipamento e a autorização demorava a sair. Houve assim uma certa resistência, mas eles não entregaram. Tanto que permaneceu. Muitas empresas se precipitaram e entregaram logo.

 

P/1 – O que levava seu Alexandrino e doutor Luiz a baterem pé e não ceder às pressões estatizantes?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Teria sido muito mais fácil estatizar?

 

R – Ah, mas o seu Alexandrino sempre acreditou naquilo que fazia. Fazer o que ele fez com tanto amor, com tanta luta para depois pegar e entregar? Então a resistência era somente por esse motivo.

 

P/1 – E como é que a Companhia conseguiu sobreviver sofrendo esse tipo de pressão que o senhor relatou?

 

R – Com resistência, houve muita resistência. Depois, o senhor vê, tudo passa. Na própria área do Governo foi havendo mudança. Mudava-se ministros e, de um para outro, um, às vezes, era mais maleável e outros mais difícil de lidar com eles. Assim também no caso da Telebrás. Mas o tempo foi passando e as coisas foram chegando no lugar.

 

P/1 – O senhor se lembra de algum período que foi especialmente espinhoso nesse tipo de relação?

 

R – O período, eu não saberia agora especificar. Mas foi na época em que se precisava de autorização para uma coisa e para outra, e que não se conseguia. Ou demorava demais a conseguir. Tinha de lutar muito e ter muita persistência para poder conseguir que o Governo autorizasse expansão de linhas e ampliações de centros telefônicos. Aqui nós tivemos uma primeira central, depois veio uma segunda... E tudo isso dependia de autorização. 

 

P/1 – Na verdade era muito mais um mecanismo burocrático do que um empecilho de operação.

 

R – O relacionamento com os órgãos do Governo tinha esses momentos difíceis, mais também a CTBC sempre procurou ter bom relacionamento com esses órgãos. E havia boas pessoas ali, quer dizer, bem intencionadas, que compreendiam bem o plano do grupo de só prestar serviços – e bons. A CTBC era empresa que à ela tanto interessava instalar um serviço telefônico para dois mil habitantes, para cinco mil, para dez mil, para cinquenta mil, como interessava estar nos lugarejos onde tinha cinquenta ou cem assinantes. Também havia o interesse em servir aquela comunidade.

 

P/1 – Isso era uma coisa, estratégia do seu Alexandrino? 

 

R – Sim, sem dúvida. Ele achava que tinha que atender todos, todas cidades. Ele não escolhia, não. Empresas de Governo geralmente só se interessavam em pegar o filé, só onde havia grandes populações, para já começar prestando serviço rendoso. E a CTBC entrava em lugarejos, e na medida que precisava de ampliar, fazia ampliação.

 

P/1 – Mas e os resultados do negócio? Isso não causava prejuízo à operação?

 

R – Tinha aqueles que compensavam os que estavam deficitários. Mas o problema maior com relação ao déficit era a luta que a gente tinha que empreender para poder conseguir tarifas adequadas. Porque lá por 1950, o serviço telefônico era concedido pelo município: a concessão era do município, a tarifa era do município. Depois a tarifa passou para o estado, eu fui várias vezes a Belo Horizonte atrás de tarifa. Fazia processo para poder pleitear a tarifa, chegava lá e ia discutir.

 

P/1 – Com quem?

 

R – Em Belo Horizonte tinha um órgão chamado Telemig, um plano de expansão Telemig – mas não era a Telemig atual, não. Na época era a CTMG, a concessionária em Belo Horizonte, e esse órgão chamava Telemig e ele que concedia tarifas. Era até presidida pelo Doutor Paulo Gaetani, que ainda é vivo. Está bem velho, mas é vivo. Então meus contatos eram com ele. Mas havia também um Conselho: então eu fazia os estudos chegava lá e mostrava que nós estávamos precisando de um aumento, por exemplo, de sessenta por cento de tarifa. Aí eles se reuniam, faziam os estudos, e, às vezes, chegavam e diziam: “Não, vocês têm direito é a vinte por cento”. E a gente tinha que negociar muito para poder pegar uma tarifa melhor. Depois, de Belo Horizonte passou para o Rio, no Dentel. Com a criação da Telebrás, do Dentel e do Contel a concessão de tarifas passou para a área do Dentel, onde também eu fui várias vezes. É uma história mesmo, viu!

 

P/1 – Para defender os argumentos da companhia?

 

R – É, para defender os argumentos da companhia. Geralmente esses aumentos de tarifa sempre eram justificáveis porque isso ocorria na época em que se fazia acordos salariais, com o Sindicato de Trabalhadores em Empresas Telefônicas, de Belo Horizonte. Então esse estudo era feito para dar cobertura, inclusive, dos aumentos salariais. Então a gente fazia aquele estudo e levava. Nem sempre eu tinha o êxito desejado, mas a gente lutava.

 

P/1 – E não se tendo êxito havia a possibilidade de recurso?

 

R – Geralmente o que ocorria era o seguinte: era dada uma tarifa menor e a gente suportava até o próximo momento; até o próximo aumento de tarifa.

 

P/1 – Nós estamos falando de que época?

 

R – Entre os anos 1960 e 1970. Já em 1959 – nessa época eu não trabalhava na telefônica ainda, pois entrei em 1964 –, por exemplo, cabia ao município fazer esses aumentos de tarifa e dar concessões. Naquele ano, eu fui nomeado para uma comissão de que fazia parte o doutor Geronimo José Alves, falecido, que era contador e depois advogado, e também o Sr. João Batista de Queirós, que era contador da prefeitura. Nós fomos nomeados em comissão para fazer uma análise da contabilidade de CTBC para efeito tarifário. Eu me recordo de ter feito parte dessa comissão. Fomos lá fazer uma auditoria da contabilidade para essa finalidade, de aumento de tarifa. Concluímos o trabalho, entregamos, fizemos a entrega do processo ao prefeito, que era Afrânio Rodrigues da Cunha, o Afrânio passou para o estudo da Câmara Municipal, com as discussões e tal, e a Câmara autorizou o aumento. Mas no âmbito municipal, para se conseguir tarifa era mais difícil ainda. Isso porque sempre houve as injunções políticas, as questiúnculas por políticas em que tem oposição e tem situação. Então sempre tinha aquela corrente que era contra, para poder aparecer para o público. Eles são contra telefone, contra transporte, contra energia elétrica... Então, naquela época, o problema mais sério era esse – por causa da dificuldade de a Câmara Municipal aprovar.

 

P/1 – Quando passou para alçada federal os problemas diminuíram? 

 

R – Considero que diminuíram, mas é como eu disse: eu ia para Belo Horizonte e nem sempre a gente fazia o estudo chegando à conclusão de que precisava de X, tantos por cento de tarifa, e, chegando lá, eles analisavam e iam mostrar que não era aquilo, entendeu? Não concordavam com composições que a gente fazia. No âmbito federal também acontecia de nem sempre atenderam a tarifa que a gente pretendia. Mas depois isso aí foi normatizado e a tarifa ficou padrão. Eu não me recordo bem quando foi que começou, isso aí... Padronizaram-se as tarifas e quando davam reajuste para as tarifas do Governo, também dava para nós. A tarifa ficou padrão para todos, e aí acabou aquela luta que a gente tinha de estar correndo atrás de....

 

P/1 – O senhor se refere ao momento em que a tarifa ficou afeita ao CIP, a Comissão Interministerial de Preços?

 

R – Houve uma época que para poder fazer aumento de salário tinha um órgão – que eu não me recordo agora, um órgão do Ministério do Trabalho. Pode ser este aí... Era um órgão do Ministério que fica lá no Rio justamente para isso, para poder pleitear isso – que encaminhava o processo para eles aprovarem, aquele acordo que se estava fazendo com o sindicato.

 

 P/1 – Era o senhor quem preparava esses processos?

 

R – Eu também trabalhava neles. E depois que aprovava a gente preparava o processo de tarifa, juntando o trabalho já aprovado por esse órgão do Rio.

 

P/1 – Como era negociar tarifas num momento de inflação fora de controle?

 

R – Aí, no projeto que se fazia, a gente embutia uma previsão. Fazia um levantamento de todas as despesas que a empresa tinha, a previsão para um determinado período, de doze meses que seria o caso, algumas despesas que estavam sendo também previstas, algum plano, e fazia também um levantamento da previsão de receita. Tinha tantos mil terminais instalados, a tarifa de hoje é X e com essa tarifa a gente vai ter um prejuízo Y. Os telefones residenciais tinham uma tarifa, os comerciais tinha uma outra tarifa e também tinha a tarifa interurbana, que a gente fazia uma previsão. Considerava também o crescimento natural e vegetativo, o crescimento que vem naturalmente em consequência da previsão da inflação – e a mesma coisa com relação às despesas – para se chegar à conclusão que, para o tal período de doze meses, a previsão de receita é X. Calculava-se o custo do capital investido, doze por cento do capital investido ia também dentro do planejamento, e chegava-se então à conclusão sobre a tarifa que a gente entendia correta para poder manter os serviços. Mas geralmente chegava nesses órgãos e eles iam repassar isto tudo, olhar, examinar, fazer os estudos deles em comissão. Às vezes chamavam a gente lá para prestar esclarecimentos. Nessa época aconteceu um fato engraçado. Nós tínhamos um representante no Rio que tinha sido anteriormente diretor aqui. Era o senhor Boulanger Fonseca e Silva que nos representava no Rio. Certa vez eu preparei um processo de tarifas e foi encaminhado para ele protocolar no Dentel. Ele protocolou e, algum tempo depois, ele me telefonou. “Sátiro, esse processo está na mão de uma pessoa aqui que a pessoa não tem como chegar nele. É gente difícil e está me fazendo umas perguntas que eu não estou tendo elementos do processo de tarifas para responder a ele e esclarecer. Então eu acho que é preciso você vir para fazer contato com ele. Mas gente difícil demais! Não tem lado de chegar no homem, viu?”. Aí eu fui, preparei minha pasta, tudo, e cheguei lá no Rio. Aí ele me levou no Dentel e eu vi a pessoa sentada na mesa dele. Aquela pessoa não me era estranha... Pois então eu cheguei, sentei, ele me cumprimentou e aí começamos a falar. Começamos falando sobre o Exército, não sei por que ele tocou no assunto de Exército, e aí ele falou comigo: “O senhor serviu o Exército?”. Eu falei: “Eu servi em São João Del Rei”. Ele falou: “Eu também, uai!”. Eu falei: “Onde”. “No CRFG.” “Eu também fui do CRFG!” Aí foi chegando: “Em qual época?”. Era a época dele. “Qual era o seu comandante?” “Fulano”, que tinha sido o meu também. Aí nos reconhecemos! Era o Jair Paulucci. Aí ele liberou o Boulanger, foi para uma mesa lá dentro e me chamou: “Vem cá”. E me tratou muito bem! Achei interessante aquilo. Nós tínhamos sido colegas vinte e tantos anos atrás, lá em São João Del Rei. E ele abriu as portas para mim, viu! Foi muito bom. Ele é meu amigo até hoje. Depois, a mulher dele depois foi membro do Conselho Fiscal da CTBC, indicada pelo ministério. Ela veio para cá e quando participou da primeira reunião, falou: “Olha, Jair falou que o que você der para mim assinar eu posso assinar em branco”. Eu falei: “Que bom!”. E era esse Jair que eu encontrei no Rio.

 

P/1 – O homem de difícil trato!

 

R – Mas depois ficou fácil. Naquele nosso encontro no Rio, na hora em que estávamos trabalhando, o senhor Boulanger estava fora, e depois ele voltou: “Gente, vamos almoçar?”. E o Jair falou assim: “Você pode ir almoçar que eu mais o Sátiro vamos almoçar mais tarde”. O Boulanger saiu, ele falou: “Vamos almoçar!”. Aí nós fomos contar caso, contar história, contar como que estava a vida dele, a vida familiar... E eu a mesma coisa.

 

P/1 – O senhor Boulanger foi uma pessoa importante na Companhia. 

 

R – Ele foi o primeiro diretor. O presidente foi o seu Alexandrino desde o começo, desde 1954. Quando ele entrou como presidente, e entraram diretores. Eram quatro: seu Alexandrino, Élvio Cardoso, Francisco Caparelli e Elpídio Aristides de Freitas. E seu Alexandrino como presidente. Depois esses foram saindo. Havia eleições, o seu Alexandrino foi sendo reeleito e, numa delas, o seu Boulanger, foi eleito eu não sei vice-presidente ou se simplesmente diretor. Porque aí eu não estava aqui ainda. Quando eu entrei a direção já era do seu Alexandrino, seu Walter e doutor Luiz.

 

P/1 – Nesse tempo da Associação Comercial, os acionistas teriam um por cento apenas das ações, era bem pulverizado o controle, e depois quando o senhor Alexandrino assumiu o controle. O senhor tem notícia de como se deu o processo?

 

R – Quando começaram, estabelecia-se que o máximo que cada um iria comprar era um por cento. Isso era um acordo entre eles, porque a lei não previa isso, esse tipo de limitação de capital. Então foi feito isso. Mas à medida que os tempos foram passando, foi havendo compra de ações –não só do seu Alexandrino, mas de um modo geral. Um comprava, outro compra, outro compra. E foi aí então que, com o tempo, chegou a vez do seu Alexandrino ficar com o controle – ou com o controle, eu não me recordo, ou pelo menos com a maioria de capital.

 

P/1 – No período que o senhor já estava na CTBC, houve uma circunstância de renovação da concessão. Como é que se dava esse procedimento? 

 

R – Quando estava no âmbito municipal, elas não eram por prazo pequeno não: eram prazos de quinze anos, de vinte e cinco anos. Mas a penúltima renovação que houve, o prefeito aqui deu a concessão por um prazo menor. E era justamente o prefeito da mesma ala política do senhor Alexandrino.

 

P/1 – Que partido que era? 

 

R – Era UDN. Deu por um prazo menor, justamente ele que era correligionário. Depois entrou um prefeito de oposição, mas muito compreensivo, sempre foi, e deu uma outra concessão. Agora eu não lembro o prazo que foi. Sei que a concessão chegou a vencer, porque o outro prefeito firmou um novo contrato de concessão. Depois passou-se então para o âmbito federal. Agora no âmbito federal sempre foi negociado.

 

P/1 – O prazo, inclusive?

 

R – Quer dizer, negociado não. Era uma concessão no prazo que eles quisessem dar. Esse período mais recente é justamente esse que me falha a memória.

 

P/1 – Mas num contexto de pressões contra essa empresa privada, a renovação da concessão podia ser uma forma de retaliação?

 

R – É, também. Mas permaneceu. Deixa ver se me lembro aqui.... A concessão, a última renovação, ou a penúltima, foi na gestão do presidente Figueiredo.

 

P/1 – Foi uma negociação tranquila? 

 

R – Foi feito um trabalho nesse sentido, mas isso não quer dizer que se conseguiu o que se pretendia.

 

P/1 – O senhor estava envolvido nessa negociação?

 

R – Não nessa aí, não. Acompanhava, mas à distância. Como eu disse, eu atuei no Jurídico até 1989 e depois passei para ser o consultor. Antes a tarefa minha era global, depois eu tinha era tarefa específica de consultoria. Então, determinados assuntos a gente não acompanhava.

 

P/1 – Essa última negociação de concessão foi uma pendenga complicada, não foi? 

 

R – Demorou um pouquinho, demorou-se um pouco. Deu muito trabalho para eles, exigiu muito contato. Foi demorado. Inclusive, no processo constituinte que redundou na Constituição de 1988, teve um artigo que dizia que as telecomunicações seria um monopólio do Estado. Mas foi feito um trabalho para poder contornar isso aí. Então criou-se um outro artigo, nas Disposições Transitórias, garantido que aqueles que já tivessem a concessão, ela seria mantida. Me parece que é o Artigo 66 das Disposições Transitórias, se não me engano. 

 

P/1 – Que aliados os senhores tinham na Constituinte?

 

R – Pode ter gente envolvido que eu nem sei, porque eu não estava dentro do esquema. Esses trabalhos anteriores que eu citei, geralmente em todos eles, eu tinha participação direta. Nos problemas de tarifa, por exemplo, eu tinha participação direta e quase que liderava. Mas os mais recentes eu não acompanhei. Acompanhava à distância, e por isso eu não tenho tanto elemento assim para dar uma informação abalizada.

 

P/1 – E para o futuro, Doutor Sátiro? O que o senhor enxerga nesse horizonte próximo da CTBC?

 

R – Eu enxergo com muito otimismo. Mas prevendo que, como foi no passado, agora também vai ter que se lutar muito. Muita luta, muita concorrência, muita luta. Mas eu vejo isso com otimismo.

 

P/1 – O senhor acha que a companhia está preparada para encarar esse desafio?

 

R – Eu acho que está.

 

P/1 – Os associados estarão prontos para travar o bom combate?

 

R – Sem dúvida, sem dúvida. Agora, eu, à essa altura, estou carregando as chuteiras aqui nas costas. Eu lutava mesmo, nesse período todo. São trinta e seis anos, completados agora. Mas nos dez, quinze, vinte anos para trás, eu lutava. Hoje a disposição não é a mesma. Esses dias eu comentava com um colega meu, com o Osório. Certa vez nós trabalhávamos à noite, na parte contábil, não sei que serviço que era, mas era um trabalho demorado: eu, Geraldo Caetano, o Osório, o Hélio Calado, Violeta Curi. Nós estávamos trabalhando e eram mais ou menos onze e meia, quase meia noite. Então o Hélio Calado me perguntou: “Seu Sátiro, que hora que nós vamos embora?”. Então eu falei: “Olha, você presta atenção: na hora que eu abrir a boca nós vamos sair daqui”. Eu fui abrir a boca eram quase sete horas da manhã. 

 

P/1 – Abrir a boca com sentido de bocejar?

 

R – É, com sentido de bocejar. Eu lembro disso até hoje porque o Hélio não está aqui mais não. E eu lembro desse detalhe. Então a gente trabalhava com muito apego, muita disposição. Precisava trabalhar, então a gente trabalhava! Agora, hoje eu estou vindo aqui só uma parte da tarde. Eu fiz rescisão de contrato de trabalho em 1989, mas depois trabalhei mais alguns anos com expediente integral sob contrato, e depois modificamos o contrato e eu passei a trabalhar, de quatro anos ou cinco para cá, passei a trabalhar só na parte da tarde. Então a gente está com um ritmo mais suave.

 

P/1 – Não faz mais hora extra?

 

R – Não. Finalmente eu consegui.

 

P/1 – E hoje o senhor trata especificamente do quê, na holding?

 

R – Eu analiso esses processos de transferências de ações e faço os serviços que é preciso fazer. Como cuido agora, nessa fase, do inventário do seu Agenor Garcia. É um inventário que envolve muita gente, porque ele não deixou nem descendentes nem ascendentes. Não era casado, já não tinha pais, então os herdeiros dele são os colaterais: os irmãos e sobrinhos, filhos de irmãos falecidos.

 

P/1 – O que ele é do doutor Luiz?

 

R – Tio. Ele era irmão de seu Alexandrino. Ele deixou testamento também. Então é um inventário que envolve muita gente e por isso é muito trabalhoso. Outro dia terminei um do pai de um colega daqui. Mas esse eu dei entrada em janeiro e terminou agora, em novembro. Já o do seu Agenor Garcia, pelo fato de envolver muita gente, o juiz não pega aquilo. Fica pegando os serviços menores e vai deixando os serviços menores para olhar depois, e o tempo vai passando. E a gente fica numa situação aflitiva: o herdeiro cobra, outro cobra e a gente tem que estar explicando, mostrando como está o andamento do processo.

P/1 – O que senhor teria a dizer para um associado que estivesse agora se integrando na companhia? O que o senhor diria a ele?

 

R – Eu daria todo o estímulo para ele, porque ambiente melhor que esse para se trabalhar não tem. Mas ele tem é que se preparar para isso. Nós não podemos ser estáticos. Eu acho que nos dias de hoje eu estou estático. Mas a empresa, nessa fase que atravessamos, o associado tem que procurar se desenvolver. Procurar cultura, procurar qualidade, a qualidade total. Tem que atingir esse índice de qualidade. Então, um associado acomodado, no meu modo de pensar, ele não terá lugar, não. Eu passei quarenta e seis por cento da minha vida aqui, e é por isso que eu estou mais acomodado.

 

P/1 – Mas a sua experiência pode ser muito útil para outras pessoas.

 

R – Eu acredito que seja. Eu pensei já em parar, uns três anos atrás. O doutor Luiz ia para os Estados Unidos, eu o procurei e manifestei o meu desejo de parar, justamente no dia que ele ia para os Estados Unidos. Então ele quis que eu continuasse. Ele disse: “Não, você não vai parar não”. Então eu continuei. Ele é muito compreensivo: eu acho que ele quis com isso até procurar me preservar. A gente está cansado de ver os exemplos por aí, de pessoas que param, encerram a atividade, e só têm a perder. A pessoa se aposenta, se acomoda, então é terrível. Isso aí a gente vê sempre. E talvez por isso, querendo me ajudar, ele me segurou. Porque tendo atividade, eu terei mais saúde e mais disposição.

 

P/1 – E é isso que ocorreu.

 

R – Exatamente. Porque independente de ele ser patrão, doutor Luiz foi muito amigo, sempre foi, amigo, como era o seu Alexandrino. E em toda essa fase, a gente teve momento também de atrito. Mas quem não tem atrito? Mas as coisas são superadas.

 

P/1 – Teve algum que foi especialmente tenso?

 

R – Não, não foi tanto assim, não. É questão de ponto de vista, de discutir pontos de vista. O seu Alexandrino, então, era espetacular. Porque ele chegava no funcionário, às vezes ele ralhava, falava, chamava atenção, saía dali e depois de quinze minutos ele voltava já brincando com o funcionário. Ele não guardava ressentimento de forma alguma.

 

P/1 – Doutor Sátiro, alguma coisa mais que o senhor gostaria de dizer?

 

R – Não, não tenho lembrança não. Só se a gente começar de novo.

 

P/1 – O que o senhor achou?

 

R – Foi muito bom.

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