Busca avançada



Criar

História

Conduzindo a vida da melhor forma possível

História de: Regina Maura de Godoy Cicolo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/06/2020

Sinopse

Nessa história Regina conta sobre as diversas atuações que teve no hospital Albert Einstein ao longo dos anos que esteve presente, além de relatar um pouco o sobre o funcionamento e estrutura do hospital. Narra também como sua vida se modificou após o divórcio, tendo de se dividir entre o estudo, o trabalho e a cuidar do filho.

Tags

História completa

(Troca de fita)

 

R -  ...subgerente, para me ajudar. Aí eu voltei para o departamento de compras, como subgerente. E nesse meio tempo eu já tinha sido auxiliar de compras, assistente de compras, “bebebé”, “bebebé”, até que eu era chefe de importação. De chefe de importação eu passei para subgerente de compras e importação. Aí eu continuei na importação. Voltou  de novo a unificar. Ficou o departamento de importação, só que com a mesma gerência. O mesmo gerente que era de compras era de importação, e eu fiquei como subgerente dos dois departamentos. Aí eu voltei para o departamento, e aí não comprava nada específico, mas eu coordenava toda a compra do departamento, na qualidade de subgerente. E aí o esquema era mais ou menos este. As solicitações de compras eram feitas, de medicamentos, através dessa comissão, que tinha padronizados todos os departamentos. Eu vou buscar um livrinho que é super interessante, para vocês verem quais são os medicamentos, inclusive da Rhodia, que são padronizados aqui. Continuou-se comprando alguma coisa fora de estoque e tal, mas o sistema de compra é o mesmo. Só que agora é tudo informatizado. Começou a informatizar em 1987, 1988. É tudo informatizado. Coloca os dados no computador, ele já solta a quantidade. Essas coisas todas que é normal da informática. E era ____ a mesma coisa. A requisição vinha agora no computador, não vinha mais no papel, mas já direcionada: "isso é para comprar da Rhodia, isso é para comprar de outro." Os medicamentos que são permitidos fazer concorrência tinham uma sessão especial: "Olha, esses daqui vocês podem fazer concorrência só com esses, os medicamentos que fazem concorrência são só esses."

 

P/1 - Na concorrência, o que era levado em conta era o preço?

 

R -  Dentro daqueles escolhidos, sim, era o preço. Era o preço porque os três ou quatro laboratórios já eram comprovadamente de qualidade, não eram de fundo de quintal.

 

P/2 - E aí quem fazia esses testes era a parte de farmácia?

 

R -  Isso, era a farmácia que escolhia quais eram as pessoas, claro, nessa comissão, com os médicos. Eles que escolhiam isso.

 

P/1 - E como era a relação com o laboratório? Por exemplo, vocês compravam os remédios da Rhodia. Quem vinha entregar, como era?

 

R -  Era simples. No tempo do meu caderninho, eu punha o telefone aqui em cima, ligava para o laboratório e dizia assim: "Você pode mandar, por favor, o representante?"

 

P/1 - O representante...

 

R -  Que é o propagandista. Mas para mim ele não fazia propaganda nenhuma, então eu chamava de representante. Aliás é até hoje. Não me acostumo. "Você pode mandar, por favor, o representante?" Aí o representante vinha. Aí eu sentava com ele, com o caderninho, ele tirava cópia do pedido - não sei se ainda existe isso -, ele assinava, conferia tudo direitinho, assinava a cópia do pedido dele, me deixava uma via e levava a via para o laboratório. Em cima daquele pedido, da cópia que ele deixava para mim, eu fazia um documento interno meu, aqui, com a quantidade e o preço que a gente havia combinado, para, no recebimento da mercadoria, eles conferirem. Aí mandava uma cópia desse pedido para o almoxarifado, para receber. Aí o laboratório, não sei se através de transportadora, porque tem grande parte dos laboratórios que são no Rio, mesmo os que são aqui em São Paulo era por transportadora. Aí vinha, entregava no almoxarifado, o motorista, sei lá quem. E a gente já tinha deixado uma cópia lá, a pessoa conferia, se estava em ordem, recebia.

 

P/1 - E o pagamento?

 

R -  Nós sempre tivemos um departamento de contas a pagar. O almoxarifado preparava um relatório, mandava uma cópia para a gente, para a gente dar baixa no pedido, que tinha chegado, para não reclamar no laboratório. E uma cópia desse relatório e a nota fiscal iam para o departamento de contas a pagar e eles efetuavam o pagamento.

 

P/1 - Para o representante?

 

R -  Não, acho que direto na cobrança, alguma coisa. Ou o próprio... não sei se é o representante mesmo que vinha receber. Porque tinha um caixa no departamento, que eles pegavam o cheque aqui. Agora, de uns tempos para cá, muito tempo até, os pagamentos são feitos direto no Banco Safra. Nós temos uma agência do Banco Safra aqui dentro. Então o departamento manda a relação das coisas que tem que pagar para o Safra, e quando o cobrador vinha, que eu não sei se era o representante, o cobrador vinha, já ia direto no banco e já recebia. Quando era no caixa era a mesma coisa. Só que essa parte, compras não tinha nada a ver com isso. A gente não sabe nem se ia receber no prazo, se não vinha. Eu sei que o hospital sempre pagou em dia porque a todo mundo interessava vender para o Einstein, porque uma das coisas boas era que o Einstein nunca atrasou pagamento.

 

P/1 - E teve algum produto que marcou a senhora, desde o tempo que você está aqui, tipo assim, por algum motivo, pelo preço, porque tenha dado algum problema?

 

R -  A gente sempre sabe dos medicamentos - sabia naquele tempo, agora é mais difícil de saber -, dos medicamentos que eram mais caros. Mas, assim, com problema mesmo, da Rhodia, com certeza eu não me lembro, não deve ter tido nada de especial. Mas eu acho que não tem.

 

P/1 - Alguma coisa engraçada, curiosa. Não precisa ser necessariamente só da Rhodia.

 

R -  Eu me lembro de um medicamento que era muito caro na época, que era o RhoGam. A concorrência, nesse tempo, era o RhoGam, o Matergam e o Partogama. Não sei se vocês conhecem o que é o RhoGam. Quando a mãe tem o RH negativo, na hora do parto, tem que tomar uma ampola desse negócio aí, para o bebê sobreviver. Eu não me lembro como é direito a história. É um negócio de sangue lá. E esse medicamento era muito caro. Era muito caro. Eu não tenho noção de proporção, mas era um dos medicamentos mais caros que eu comprava aqui. E depois tinha também, quando começou o antibiótico de terceira geração. Aí também começou a aparecer aqueles antibióticos caríssimos, que agora eu também não me lembro os nomes, mas eu lembro que tinha antibióticos caríssimos, que a gente geralmente tinha concorrência desses aí. E tinha alguma coisa que não tinha concorrência. Você tinha que comprar daquele preço caro, o quanto fosse, e pronto. E a gente fazia programação de entrega. Quando era medicamento que era sujeito a falta, a gente fazia programação de entrega. A gente fazia o pedido: "Eu quero novecentas ampolas. Você me entrega trezentas no dia 05 de Janeiro, trezentas em 05 de Fevereiro..." Entendeu? Já deixava a programação, porque era medicamento que era sujeito a falta. Tinha alguns casos. Eu não sei se tinha alguma coisa que era da Rhodia, mas tinha alguns medicamentos que era isso. A gente tinha problema mesmo de entrega. Talvez, se eu olhasse uma lista de preços da Rhodia, eu lembrasse de algum produto especial da Rhodia. Eu não me lembro. Assim, de cabeça, eu não lembro.

 

P/1 - Da sua época, tinha Nootropil, Flagyl, Fenergan, Gardenal.

 

R -  Eu me lembro.

 

P/1 - Amplictil. 

 

R -  Mas eu acho que não tinha nada de especial com eles. Não me lembro nem se tinha algum que era concorrente. Puxa vida! Não consigo me lembrar. Mas eu acho que não aconteceu nada de especial com a Rhodia que eu pudesse me lembrar. Porque eu comprei muitos anos. Eu tenho um problema de memória. Eu não me lembro de coisas... Se você me perguntar o telefone de uma firma que eu usava há 20 anos atrás, eu me lembro. Mas muitos fatos, inclusive da minha infância, eu não me lembro muito. O período que eu estive casada eu não me lembro nada, nada, nada. Passei uma borracha, bloqueou, e eu não me lembro nada. Então eu não saberia te dizer alguma coisa de especial.

 

P/1 - E aí você acabou saindo da sessão de compras?

 

R -  Então, aí eu fiquei mais até... agora é 1999? Eu fiquei até Dezembro de 1997. Em 1998 fez um ano.

 

P/1 - Nesse período todo que você ficou, quais foram as principais mudanças? Mudou muita coisa nesse setor de compras?

 

R -  Mudou, mas, dentro do que mudou, eu sempre acompanhei. O tempo que eu estava lá eu sempre acompanhei todas as mudanças, tudo que ia acontecendo, participava de todas as comissões, tudo, sempre fui mudando. Aí, quando foi a mudança que eu imagino que tenha sido radical, foi agora que eu saí. Quando eu estava lá, não aconteceu nada de mudança excepcional. As políticas de compras... 

 

P/1 - Esse caderninho começou a ser instituído quando?

 

R -  O meu?

 

P/1 - Esse de padronização.

 

R -  Olha, não faz muito tempo, não. É a segunda edição que eles fizeram agora. Tem uns três anos? É pouco tempo, é pouco tempo. Então, sabe, mudou assim: uma época a política de compra era "ah, vamos comprar estoque para três meses", depois "ah, não, tem problema de faltar, vamos comprar para seis", aí "ah, não, o estoque está muito alto, agora baixa a compra para 60 dias, o estoque para 60 dias." Então, isso tudo é coisa mais recente, que eles estão se preocupando mais com isso, em manter estoque, abaixar e tal. Com a crise... Todo mundo acha que o Einstein tem muito dinheiro, mas o dinheiro que tem... Eu não sei se vocês sabem, mas o Einstein não tem dono, é uma sociedade beneficente. Então, todo o dinheiro, toda a receita do hospital é revertida aqui dentro do hospital só, para a compra de equipamentos, para pagar funcionários. Só aqui dentro. Ninguém tira um real daqui de dentro, ninguém. Tanto que até o superintendente... Do superintendente para baixo é remunerado. Do superintendente para cima, não são remunerados. São todos como voluntários. Esse grupo de pessoas que chegou um dia e resolveu montar um hospital... Então, esse hospital foi construído todo com doações, todo com doações. Quando a gente tem um projeto grande para comprar um equipamento, uma tomografia, uma ressonância magnética, coisas desse tipo, a gente consegue doadores até do exterior. 

 

P/1 - E é o hospital mais bem equipado, né?

 

R -  É. Uma coisa é certa: fora o pessoal do superintendente para baixo, fora isso, ninguém tem nenhum lucro com o hospital. Então o dinheiro é todo revertido aqui dentro. Todo, todo. Nem sei porque comecei a falar isso.

 

P/1 - Você estava explicando como funciona a estrutura.

 

R -  Isso, então, aí muda a diretoria... 

 

P/1 -  A gente estava falando da política de estoque.

 

R -  Então vai mudando, conforme vai mudando. Aí, com o tempo foi crescendo muito. Isso aqui era uma coisa muito empírica, muito familiar. Aí foi crescendo, crescendo e virou uma empresa, efetivamente uma empresa, com a estruturação gerencial... Quando acabou o cargo... A pessoa era diretor, só que ele recebia, então ele não poderia ser diretor do hospital. A diretoria do hospital não ganha. Então mudaram o cargo e ele virou gerente. Aí começaram a fazer a estruturação. Aí tinha um diretor hospitalar e um diretor de obras. Tinha um diretor que cuidava da parte de obras e um diretor hospitalar que cuidava do resto todo.

 

P/1 - Quando foi fundado o Albert Einstein?

 

R -  Você diz a pedra fundamental? Deve ter sido em 1958, alguma coisa assim. O início das atividades foi em 28 de Julho de 1971. Aí eu já estava aqui. Eu entrei antes, um pouco. Eu já estava aqui. Então, depois de um tempo, desses dois diretores, agora eu acho que são 14 gerências. Tem gerência de tudo aqui. Então eles subdividiram, vai mudando e tal. 

 

P/1 - E você foi crescendo na carreira porque você foi aprendendo na prática?

 

R -  Claro, claro. Vamos voltar um pouquinho então. Eu fiquei oito anos casada. Nesse tempo eu só fiz uns cursinhos de Inglês esporádicos por aí. Quando eu me divorciei eu voltei a estudar. Eu entrei na faculdade, eu fiz letras com habilitação em tradutora intérprete. Aí, de lá para cá, eu nunca mais parei de estudar [risos]. Aí eu fiz um curso de pós-graduação em gramática da Língua Portuguesa, aí eu fiz um curso de comércio exterior, na GV [Getulio Vargas], de pós-graduação. Aí fiz um curso, também na GV, de administração de materiais, de compras e materiais. Que outro curso eu fiz na GV? Eu fiz três cursos na GV. De administração. Fiz os três cursos e nunca parei de estudar. E agora eu ainda estudo. Estou fazendo Inglês. Inglês você nunca termina na vida. E Espanhol. Faz dois anos que eu estou estudando Espanhol também. 

 

P/1 - ________ no hospital? Você precisa para o seu cargo?

 

R -  O Inglês, atualmente, ainda estou usando, mas eu usei muito quando eu estava na importação porque você tem que conversar com o fornecedor externo. Fax, correspondência toda vem tudo em Inglês, então você tem que saber. E eu sempre gostei muito de Inglês, então eu já estava no meio, continuei mexendo. E agora, com essa certificação da (Joint Commission International?), que nós estamos conseguindo... Eu não sei se você sabe o que é isso, mas é bom dar uma passadinha. (Joint Commission International?) é um órgão tipo... Não é ISO 9000. É uma coisa mais ou menos similar, mas que atesta só hospitais, é específico para hospitais. E nenhum hospital tem na América Latina isso daí. E o Einstein está tentando conseguir. Então nós estamos nesse processo faz um ano e meio, que é praticamente o tempo... Não faz um ano e meio ainda porque é praticamente o tempo que eu estou na coordenação médica. E o coordenador médico, doutor (Nelson Hamerschlak?), é quem é o coordenador desse projeto da (Joint Commission International?). Essa ____ é uma certificação muito, muito especial. É tudo de qualidade, mas em hospital, específico para hospital. Em tudo, tudo, tudo, tudo, até no elevador, no tipo da cadeira que você senta, no medicamento que você fornece. Tudo, tudo, tudo eles analisam na hora da certificação. Então nós estamos trabalhando para isso, para essa (Joint Commission International?). E isso é assim: eles vêm fazer visitas a cada seis meses. Na realidade fica três porque vêm duas pessoas. Cada uma vem a cada seis meses, então ficam três. Vem um grupo. Vêm duas pessoas. Então eu que coordeno a visita deles aqui, quando eles vêm. Se você não falar Inglês, também não consegue nada. E nós temos uma americana, que veio dos Estados Unidos - doutor Nelson trouxe ela - só para trabalhar nesse projeto. Ela sabe como que é a certificação nos Estados Unidos e ela estava mudando para o Brasil, então o doutor Nelson falou: "Olha, você vai ajudar a gente a conseguir essa certificação." Aí, quando nós começamos a trabalhar junto, em Janeiro do ano passado, ela não falava uma palavra em Português. Eu que tive que ensina ela a falar Português. O doutor Nelson falou assim: "Olha, Regina..." Eu falei: "Bom, então eu vou aproveitar. Vou treinar meu Inglês com ela e ela aprende Português." Mas aí não dá porque ela tem mais necessidade de aprender o Português do que eu o Inglês. Mas agora ela já está falando bem. Mas para eu poder ajudar ela a montar as coisas todas, eu preciso saber o Inglês porque ela tem que traduzir as coisas e não consegue. Então eu uso bastante o Inglês. Agora, o Espanhol não, Espanhol é só porque eu gosto mesmo [risos].

 

P/1 - E você tem filhos?

 

R -  Eu tenho. Eu tenho um filho, ele fez 25 anos ontem.

 

P/1 - Com aquele seu primeiro marido?

 

R -  É. Primeiro e único.

 

P/1 - Não quis namorar?

 

R -  É o primeiro marido, e não quis outro. Atualmente eu tenho namorado, mas só que é...

 

P/1 - Você mora com o seu filho?

 

R -  Moro com meu filho, mas meu filho foi criado praticamente com a minha mãe porque, quando eu me divorcie ele tinha seis anos e eu tinha entrado na faculdade. Então não tinha jeito. Eu precisava estudar. Aqui no hospital tem creche, porém só tem agora, de 1981,1982 para cá. Então eu não tinha onde deixar. Então ele ficava com a minha mãe. Aí, quando eu comecei a fazer a faculdade à noite, eu passava na casa da minha mãe, mas não tinha coragem de tirar ele dormindo, levar para casa para trazer cedinho de novo. Então ele foi ficando. Minha mãe que criou ele, praticamente. Mas nunca deixei de... Mesmo quando estava estudando, mesmo que fosse meia-noite, eu passava lá: "Mãe, eu quero ver." E ele já se formou, é engenheiro elétrico, na área de elétrica.

 

P/1 - Vocês moram juntos?

 

R -  Não, com a minha mãe, não.

 

P/1 - Ele mora com você, na sua casa.

 

R -  Ele mora comigo, na minha casa. Fica muito do tempo na casa da minha mãe. Minha mãe, até hoje, paparica ele de um jeito... Eu sou a única filha, ele é o único neto, então você imagina... O meu pai tem loucura por esse meu filho que você não acredita. Se ele passa um pouco de tempo a mais na minha casa que na casa da minha mãe, meu pai já fica louco, já fica ligando para chamar ele de volta. Então ele fica dividido. Tem dois quartos, dois tudo, na minha casa e na casa da minha mãe. Tem duas casas, tudo. Aí, como eu continuei estudando, ele foi crescendo mais na casa da minha mãe. E ele está trabalhando já. Ele só foi estudar no último ano da faculdade porque ele fez Engenharia no Mackenzie. Em qualquer lugar a Engenharia é período integral. Só no último ano, que ele só estudava à noite, ele começou a fazer estágio. Aí começou a fazer estágio, se formou na metade do ano passado, e na própria firma efetivaram, no dia seguinte. Ele se formou, no dia seguinte efetivaram. Agora ele é engenheiro de aplicações. E a firma é uma firma de automação de sistemas e presta serviços para grandes empresas. Então, logo que se formou, ele já foi viajar para o Rio Grande do Norte, para o Ceará, para todo lugar. Na Cosipa [Companhia Siderúrgica Paulista], na Petrobrás, ele presta serviço para essas empresas. E está super bem no emprego, graças a Deus. Super lindo. Nem deixa eu começar a falar dele, senão até meia-noite é pouco [risos]. Essa menina que veio agora falar comigo é a namorada dele. Ela tem 22 anos só, mas já faz uns quatro anos que estão namorando. É claro que não vão casar já porque ela também está estudando. Ela está fazendo Psicologia. Ela trouxe uma canetinha para mim, olha [risos]. E eu tenho um relacionamento muito, muito bom com o meu filho, com os amigos dele. Saio com eles para tudo que é lugar, eles estão sempre na minha casa. Já falei, não vou falar muito dele, senão eu vou babar [riso].

 

P/1 - Deixa eu te perguntar uma coisa. Tem alguma coisa na sua trajetória de vida, desde a sua vida pessoal, relação no trabalho, aqui no Einstein, que você mudaria? Tem alguma coisa de que você se arrepende, que você faria de outra forma? 

 

R -  Olha, (exatamente?), não. A única coisa que eu fiz na minha vida que eu acho que não fiz bem foi ter me casado muito jovem, como eu me casei [risos]. E eu, efetivamente, não conhecia o meu ex-marido de verdade. Não era isso que eu queria, só que eu só fui saber tarde demais. Mas nem disso eu posso dizer que me arrependi porque eu tenho, como fruto, o meu filho, que é a melhor coisa dessa vida. Então, se eu não tivesse me casado eu não teria o meu filho. Então, nem disso eu me arrependo. Eu sempre conduzi a minha vida da melhor forma possível. Eu sou uma pessoa... Se eu disser para você que um dia eu falei "hoje eu acordei de mau humor", isso é mentira porque eu acho que mau humor não existe. Você é quem faz o mau humor, não é? Eu fico impressionada de ver uma pessoa dizer para uma criança de cinco anos: "Ah, mas você acordou mau humorada hoje!" O que é isso?! A menina vai crescer com isso na cabeça. Para o resto da vida vai ser mau humorada. Eu nunca na minha vida acordei de mau humor. O que é isso?! Dormi tão bem, vou acordar de mau humor pra quê? Aí eu chego no trânsito, já fico nervosa no trânsito, quando chego aqui já passou o mau humor do trânsito. E é assim com tudo. Todos os meus problemas aqui dentro do Einstein eu nunca levei para casa, e de casa também nunca trouxe para cá. Passei maus momentos no meu período de separação, mas nunca misturei nada, nunca, nunca. Então eu não tenho mau humor... Eu acho que eu sempre conduzi a minha vida do jeito que eu quis e acabei fazendo. Eu sempre gostei de estudar. Não pude estudar naquele período em que eu fiquei morta [risos]. Eu fiquei morta lá, não estudei e tal. Aí depois disso eu sempre continuei estudando, faço o que eu gosto. Aqui no hospital eu sempre gostei muito do meu serviço, muito, muito, tanto que eu não sei nem porque... Eu já estava na área de Comércio Exterior, não sei porque eu não fiz na graduação Comércio Exterior, mas eu gostava muito de Inglês, e Português eu também gosto, então acabei fazendo Letras. Mas também não por causa disso. Aí eu fiz curso de pós-graduação em Comércio Exterior. E aqui no Einstein eu sempre gostei muito de trabalhar. No começo era muito por comodidade, porque eu morava aqui pertinho. Você acaba se acomodando. Eu gostava. Aqui eu sempre tive muita liberdade de trabalhar. Mesmo no tempo que eu não tinha cargo de chefia, ninguém nunca ficou no meu pé, cobrando serviço. E eu, como eu disse, eu aprendi muito cedo, desde que eu entrei aqui, a fazer as coisas muito direito. Para mim, tem que ser perfeito. Eu tenho mania de perfeição. Eu acho que é até defeito isso, porque, se tiver um defeitinho no que eu estiver fazendo, eu refaço. Então eu não deixo para a frente. Então, por isso que ninguém nunca pegou no meu pé aqui. E se eu fiquei todos esses anos aqui no hospital é porque provavelmente eles gostavam do meu serviço. E eu continuei aqui porque eu também gosto muito daqui. Então ninguém nunca pegou no meu pé, eu sempre tive muita liberdade. E quando eu assumi cargo de chefia eu sempre tive um excelente relacionamento com os funcionários. Todo mundo me respeitava, não porque eu era chefe, mas porque todos gostavam de mim, porque eu sempre tive relacionamento muito bom com todo mundo. Eu não sei. Na minha vida afora não tem nada que eu quisesse mudar, não. Sou muito feliz assim. Eu tenho só o que agradecer. Não tenho nada para reclamar.

 

P/1 - Você tem algum sonho? Alguma coisa que você queira realizar ainda? Ainda, não. Deve ter muitas...

 

R -  Olha, para ser sincera, agora que eu mudei de departamento - eu estou há um ano e meio nessa coordenação médica -, e este doutor Nelson, que é o coordenador médico, é a melhor pessoa que eu já conheci aqui nesse hospital. Ele é uma pessoa muito especial. Ele é médico, ele é hematologista e faz transplante de medula. Então ele tem uma especialidade muito ruim, mas ele é o melhor na especialidade dele, como médico. Vem gente de todo o Brasil consultar com ele aqui. E depois que ele assumiu esse cargo - ele foi eleito, esse cargo dele é eletivo, não foi escolhido porque tem padrinho, não, ele foi eleito para esse cargo de coordenador médico... Então ele é muito carismático, sabe? Não podiam escolher pessoa melhor para administrar a coordenação médica. Olha ele aí [risos]. Nunca mais vai morrer [risos]. Eu estou falando bem do senhor, nesse instante. Estou dizendo... Ele é uma gracinha, gente. Vocês não imaginam. Ele é muito, muito especial. Então eu estou muito satisfeita de trabalhar com ele. Eu faço tudo o que ele me pede. Aliás, ele pede para todo mundo para fazer as coisas para ele, e todo mundo faz porque ele é muito, muito bonzinho. Então, além da minha obrigação, eu faço muito mais do que ele me pede. Então, voltando para o que eu ia dizer do sonho. Daqui a um ano eu me aposento. Até uns dois anos atrás eu não pretendia parar de trabalhar. Eu também não ia sair aqui do Einstein porque depois de vinte e tantos anos de Einstein e com a minha idade, sair para fazer carreira fora? Não vou. Começar a fazer mestrado a uma hora dessa também já não quero mais, já não vou fazer [risos]. Não vou, não vou mais estudar uma coisa para... Uma pessoa jovem, de 25, 30 anos, que tem que fazer carreira... Então eu acho que tem mais é que estudar muito mais. Então eu não pretendia sair aqui do Einstein, até uns dois, três anos atrás. Agora eu mudei um pouco a minha ideia. O doutor Nelson, no final do ano, tem nova eleição. Se ele for reeleito, o que ele diz que não quer - ele diz que não vai se candidatar, mas eu duvido que vão deixar -, se ele for reeleito, eu vou continuar trabalhando com ele, se ele quiser, claro, mesmo depois de aposentada eu vou continuar trabalhando com ele mais um período que ele ficar aqui, mais dois anos, sei lá quanto. Se ele, porventura, não for reeleito porque ele não se candidatar, aí quando eu me aposentar eu vou parar de trabalhar. Vou parar de trabalhar e vou ver se faço alguma coisa mais light. Eu sou professora também porque eu fiz Letras e fiz licenciatura plena. Aliás, dei aula durante sete anos, à noite. Trabalhava aqui e dava aula...

 

P/1 - Onde?

 

R -  Num colégio estadual e num colégio particular que tem perto da minha casa. De 1983 até 1990 eu dei aula. Aí eu saía daqui correndo às seis horas, ia direto para a escola, dava aula até onze e meia da noite, para adulto, da periferia. Você imagina que loucura. Aí, no final de semana eu ficava no meio daquele monte de prova, corrigindo, aquele monte de coisa. E financeiramente não compensa. Mas, de qualquer forma, eu gosto muito de dar aula. Nossa! Eu me realizo quando entro numa sala de aula. Você precisa ver como eu gosto. Eu gosto muito. É claro que eu não pretendia fazer do Magistério uma carreira. Naquele tempo já não compensava eu largar o meu emprego aqui no Einstein só para dar aula, certo? Financeiramente não vai para lugar nenhum. Não adianta. Então eu tinha que continuar trabalhando aqui e fazendo o que eu gostava à noite. Só que, depois de sete anos, eu estava muito cansada, muito cansada. Era muito correria, muita coisa para fazer, e não dava. Mas foi bom porque nesse período - não era muita coisa, mas eu consegui juntar um dinheirinho - eu fiz uma viagem para a Europa, fiz um curso de Inglês de três semanas com essas bolsas de estudos, que é "bolsa", mas que, em todo caso, você paga uma importância irrisória e fica em casa de família e faz o curso. Aí eu aproveitei que estava na Europa, peguei uns dias a mais aqui e fiquei 17 dias passeando. Então foi uma chance que eu tive de conhecer alguns países e que, de lá para cá, não deu mais. Meu filho, ano passado, ficou três meses nos Estados Unidos estudando. Quer dizer, ele agora pode, agora eu, não deu ainda para voltar [risos]. Para ele a gente faz um sacrifício. Então também isso foi uma experiência muito boa. Aprendi muito. Não Inglês, porque em três semanas não dá muito para aprender [risos]. E depois, voltei de lá falando que era uma beleza, cheguei aqui e não usei muito, já perdeu. Mas, como experiência de vida mesmo, conhecer outras culturas. Pouco tempo, mas foi uma viagem muito boa. E essa do meu filho também ele aproveitou muito. Ele viajou para tudo o que é lugar. Ele aproveitou muito. E fala Inglês atualmente melhor do que eu, com três meses que ele ficou lá, e eu faz 20 anos que estou estudando e também a idade... [riso]. Então eu pretendo, daqui a um ano, me aposentar. Vamos considerar então que eu vou me aposentar. Aí eu quero fazer realmente alguma coisa...

 

P/1 - Algum plano especial de aposentadoria ou só Inps[Instituto Nacional de Previdência Social]? 

 

R -  Não, Inps só. Então eu vou receber mil cento e poucos reais. É claro que eu não vou conseguir viver com isso, então eu vou ter que fazer alguma coisa. Mas eu não queria mais uma coisa de compromisso, levantar cedo, fazer as coisas... É muito cansativo. Muitos anos. Eu acho que, quando eu sair daqui, eu vou ter que amarrar o meu carro lá em casa na garagem, se não eu venho todo dia para cá. Acredita? 28 anos levantando e vindo para cá? 28, não, tem 29 ____ me aposentar. Como é que pode? Eu acho que eu não consigo. Eu acho que eu vou ficar rodando aqui em frente, em volta do hospital [risos]. Não é possível. Eu não consigo me imaginar sem trabalhar aqui. É uma coisa que faz parte da minha vida. Eu não consigo, não consigo. Mas tem um ano para eu me acostumar com essa idéia de não ter que vir para cá todos os dias. Então, em brincadeira, mas que eu acho que eu estou levando a sério, eu queria ir embora para Fortaleza, comprar jet ski e alugar na praia, certo? Não vou ganhar muito dinheiro, mas eu vou ganhar um pouco e vou ficar. Aí o meu filho diz que vai também porque, é lógico, sem meu filho eu não vou. Meu filho vai também. Eu estou fazendo planos para levar ele, a namorada, meu pai, minha mãe, todo mundo [riso]. Eu nasci grudada com eles. Não tem jeito. Não fico [risos]. Então, se eles não forem, meu plano vai por água abaixo. Minha mãe e meu pai também, se eu falar que vou, tudo bem, agora, se meu filho falar que vai, eles vão junto também, na hora. Inclusive ele já foi trabalhar em Fortaleza. Tem a Antarctica lá. Ele está mandando currículo para lá. De repente ele arruma um emprego lá. Eu falei para ele: "Você não vai estudar tantos anos para ficar alugando jet ski comigo na praia. Nem pensar. Eu posso porque já trabalhei muito então eu vou ficar lá" [risos]. Então eu tenho as minhas idéias de ir embora de São Paulo. Eu nunca saí daqui de São Paulo para morar. Sempre morei aqui. Mas agora está de um jeito a violência aqui em São Paulo, que você não consegue imaginar. Não vou dizer que em outro estado não tem. Tem também, mas eu acho que aqui está pior do que o Rio de Janeiro. As estatísticas estão mostrando que está pior do que o Rio de Janeiro. Na semana retrasada entraram ladrões na minha casa de praia, com o meu filho e os amigos dele lá. Ficaram 40 minutos, quatro homens armados com eles dentro de casa.

 

P/1 - Onde é a sua casa?

 

R -  Em Mongaguá. Quarenta  minutos com eles lá. Graças a Deus, não fizeram nada com eles. Olha, nem dá para acreditar. Os quatro armados. Mas simplesmente levaram tudo. Tudo o que você sonhar: televisão, aparelho de som, roupa de todo mundo, tudo, tudo, som do carro, celular. Nós ficamos muito assustados porque a gente ouve falar, mas na casa da gente, a gente nunca vê. Então eu pretendo mesmo sair daqui de São Paulo. Não sei se vou alugar jet ski em Fortaleza, mas alguma coisa eu vou fazer nesse sentido [risos]. Não sei. Se eu ficar aqui em São Paulo, eu vou dar umas aulinhas...

 

P/1 - Vamos ver, né?

 

R -  Quem sabe? Mas, assim, sonho alto eu não tenho nenhum. Eu acho que eu já realizei tudo. O importante para mim foi o meu maior projeto, que é o meu filho, está pronto [risos]. Só que agora ele já está cuidando da vida dele. Até um ano atrás eu ainda tinha que dar dinheiro. Quer dizer, agora eu tenho que ajudar um pouquinho, mas pelo menos ele já está podendo fazer as coisas dele, já trocou o carro com o dinheiro dele, então já está bem independente. Então...

 

P/1 - Para encerrar, Regina, eu gostaria de perguntar o que você achou da experiência de ter dado esse depoimento para um projeto desses.

 

R -  Olha, eu gostei, me senti à vontade. Foi bom. Não esperava que fosse uma coisa assim. Achei que fosse uma coisa mais dura. Mas foi realmente muito leve, não teve problema nenhum. E eu tenho um defeito: quando eu começo a falar, não paro mais. Então vocês não precisam perguntar nada. Eu falo sozinha [risos]. Acho que vocês nunca fizeram uma entrevista tão fácil, né? [risos]. Não precisa perguntar nada, eu falo tudo, até o que vocês não querem ouvir [risos]. Eu não sei porque eu falo tanto, mas eu tento procurar me controlar para não falar tanto.

 

P/1 - Imagina... 

 

R -  Realmente, meu filho é igualzinho a mim. Fala também mais do que a boca. E minha mãe já não é assim. Eu não sei de onde é que eu peguei isso [risos]. Vai ver que é do meu pai, tadinho, que morreu muito cedo e eu não sei como ele era direito porque eu não me lembro bem. Mas eu falo até sem ser perguntada. Eu tenho problema [risos].

 

P/1 - Foi ótima a entrevista. Eu queria te agradecer.

 

R -  Obrigada. Espero que sirva para...

 

P/1 - Então, a gente vai precisar fazer duas coisas agora...

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+