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Competência e arrojo

História de: Isac Roffé Zagury
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Nascimento no Rio de Janeiro em junho de 1951. Formação em Economia pela PUC Rio. Mestrado em Administração de Empresas. Trabalha por 26 anos no BNDES e depois vai para a área econômica da Aracruz. É casado, tem uma filha. 

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História completa

P/1 - Bom dia, Isac. Primeiro quero agradecer em nome do Museu da Pessoa por essa entrevista que você vai dar para o Projeto Memória Aracruz. Então no primeiro bloco de questões, eu queria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Eu nasci no Rio de Janeiro, no dia 3 de Junho de 1951 e meu nome é Isac Roffe Zagury.

 

P/1 - E o nome dos seus pais e o nome dos seus avós?

 

R -O nome da minha mãe era (Gimol?) Roffe Zagury, o nome do pai, Eliézer Jacó Zagury, o nome dos avós por parte de mãe, Isac Jaime Roffe, Sara Roffe. E o nome dos meus avós do meu pai é Leon Zagury e Sara Zagury.

 

P/1 - Qual era atividade profissional dos seus pais e avós?

 

R -Meus avós eram comerciantes, meu pai era médico, pediatra e minha mãe era do lar.

 

P/1 - E qual é a origem da família?

 

R -A família, na sua origem, ela migrou do Marrocos, Tânger em Marrocos, para o norte do Brasil e se estabeleceu na região que é hoje conhecida como o estado do Amapá, e criou algumas raízes naquela região. Os meus tios e minha avó paterna desenvolveram uma firma chamada Irmãos Zagury, na cidade de Macapá que até hoje tem uma história bastante importante.

 

P/1 - E isso foi mais ou menos em que época?

 

R -No início do século passado.

 

P/1 - O senhor tem irmãos?

 

R -Eu tenho um irmão.

 

P/1 - Fale um pouco a respeito dele.

 

R -Meu irmão é um pouco mais velho, tem hoje 56 anos, é médico pediatra, seguiu a profissão de meu pai. Mora também no bairro em São Conrado e tem dois filhos.

 

P/1 - Agora eu queria que o senhor falasse um pouco sobre a sua infância. Queria que o senhor descrevesse a rua e o bairro onde morava quando era pequeno.

 

R -Eu nasci no bairro de Ipanema, na rua Almirante Sadoc de Sá e estudei num colégio muito próximo à minha residência. Mais tarde, com 12 anos, me mudei para o bairro de Copacabana, onde fiquei até praticamente a época do meu casamento.

 

P/1 - E como é que era a casa, ou o apartamento em que morava quando era pequeno?

 

R -Ah, era um edifício pequeno, de quatro andares, naquela época era muito comum se morar em edifício, em casas, era muito mais residencial o bairro de Ipanema. Então era um lugar assim,  que a gente podia brincar na rua, frequentar um colégio muito próximo da residência... Mesmo em Copacabana, quando me mudei para Copacabana na década de 1960, o local era muito aprazível. Quer dizer, tinha liberdade para as crianças, nós tínhamos um campo vazio em que jogávamos futebol, praticávamos esportes, próximo ao edifício que eu morava. Estudei no edifício Pedro Álvares Cabral que era do lado do meu edifício, então eu costumava quase que acordar no momento em que tocava o sino do colégio. (risos) Porque era uma distância muito curta, dava tempo de me preparar rapidamente para ir ao colégio.

 

P/1 - Como é que era Ipanema quando o senhor era bem pequeno?

 

R -Vocês podem imaginar o que era Ipanema 45 anos atrás, né? Era um bairro, assim muito simpático, praticamente sem edifícios, algo assim do Rio antigo, como era Copacabana também.

 

P/1 - E o senhor ia à praia?

 

R -Frequentava a praia, freqüentei muito a praia de Copacabana. Mudei para Copacabana quando tinha cerca de 10 anos de idade, então a minha infância e juventude foi mais vivida em Copacabana.

 

P/1 - Bom, então o senhor já me falou sobre a escola, o Pedro Álvares Cabral, e fez todo o primário lá?

 

R -Não, eu fiz o ginásio no colégio Pedro Álvares Cabral, e o científico no Colégio André (Morroe?). O Colégio André (Morroe?) é um colégio no bairro do Leblon.

 

P/1 - Quais são as lembranças marcantes que o senhor tem do período escolar?

 

R -Naquela época era muito comum se estudar em colégios, escolas públicas, então, as escolas públicas eram as melhores escolas do país, então era feito um esforço muito grande para ter acesso a uma escola pública, então, tanto o colégio Pedro Álvares Cabral quanto o Colégio André (Morroe?) eram colégios assim muito reconhecidos na ocasião.

 

P/1 - E havia na sua família algum incentivo para que seguisse alguma profissão determinada?

 

R -Eu vim de uma família de médicos. Meu pai era médico, meu irmão seguiu também medicina, alguns primos meus também seguiram medicina. Então nós temos uma tradição muito grande, principalmente a pediatria. Eu fui a ovelha negra, sempre gostei muito de economia, desde cedo, então me dediquei sempre às ciências sociais, ciências econômicas e nunca tive dúvida na escolha da minha profissão. Embora tivesse uma grande influência para seguir a carreira de médico, mas sempre optei por economia.

 

P/1 - Então foi estudar economia onde?

 

R - Estudei economia na PUC do Rio de Janeiro, então sou o chamado filho da PUC, né? Fiz o curso de economia, me formei em 1972. Na época fazia um estágio na Esso Brasileira de Petróleo. Fui convidado a continuar na empresa mas fiz a opção por fazer o mestrado na própria PUC do Rio de Janeiro. Então fiz o mestrado em administração de empresas durante os anos 1973 e 1974 e quando me formei fui trabalhar num grupo industrial chamado A.G.G.S., uma indústria gráfica pertencente ao grupo L.T.D..

 

P/1 - Mas eu queria que o senhor falasse um pouquinho mais sobre esse tempo da PUC.

 

R -O tempo da PUC foi um tempo maravilhoso. A PUC é uma das poucas universidades no Brasil que tem um Campus. Então, com todo aquele espaço, com todo o verde, com bibliotecas… Então a PUC foi realmente um lugar muito especial na minha vida. Passei seis anos, quatro de economia, dois anos de mestrado estudando na PUC e foi um momento muito especial, desenvolvi grandes amizades... A minha formação como profissional eu devo à PUC.

 

P/1 - E como é que era esse grupo de amigos que você tinha durante a faculdade? O que que faziam fora do horário de estudo? Se tinham diversões, passatempos.

 

R -Naquela época era muito comum se dedicar a esportes, Então nós tínhamos um grupo que frequentávamos o estádio do Maracanã, cada um torcendo pro seu clube, né? Tínhamos também uma atividade muito intensa social. De vez em quando alguém promovia uma festa, um encontro. Então era um Rio diferente, um Rio sem violência em que nós podíamos sair à noite, voltar tarde com total segurança.

 

P/1 - E qual é o seu time?

 

R -Eu sou um vascaíno histórico. (risos)

 

P/1 - Muito bem. Tem mais uma pergunta sobre esse tempo da juventude na PUC, sobre essa época, havia diferença entre os namoros de antigamente e os namoros de hoje?

 

R -Ah, totalmente diferente. (risos) Eu me lembro, durante o meu tempo de faculdade, eu namorei uma moça, e que normalmente o horário de chegada não podia ultrapassar meia-noite. Hoje eu vejo que minha filha e as amigas só saem de casa depois de meia-noite. Então é uma inversão de valores e de horários. (risos)

 

P/1 - Muito bem, Isac, você já falou um pouco sobre suas atividades profissionais mas eu queria que a gente retomasse isso. Qual foi então exatamente a sua primeira atividade profissional?

 

R -A minha primeira atividade profissional na realidade foi como pesquisador na própria PUC. Eu fazia o curso de mestrado e tinha um contrato de trabalho com a PUC de pesquisador. Então essa foi a minha primeira atividade profissional. Logo após a conclusão do mestrado, ingressei nesta empresa chamada A.G.G.S. como analista econômico-financeiro e trabalhava mais na parte de estudos econômicos e financeiros.

 

P/1 - Quais eram exatamente as suas atribuições nessa empresa, nessa firma?

 

R - Eu trabalhava numa gerência chamada de orçamento e de planejamento financeiro. Então me dedicava a estudos econômico-financeiros, elaboração do orçamento anual da empresa. Mas foi um período muito curto, eu permaneci na empresa aproximadamente durante um ano. É aí quando surgiu um concurso para a Petrobrás. Então a Petrobrás foi a minha segunda experiência profissional.

 

P/1 - Como é que foi essa experiência na Petrobrás?

 

R -Na Petrobrás também trabalhei na área de planejamento. Trabalhei durante dois anos. Foi uma experiência muito interessante, a Petrobrás é a maior empresa da América Latina. Na ocasião me dedicava também à atividade orçamentária. Então meus primeiros anos de vida profissional foram muito ligados à questão de orçamento. (pausa) E aí quando surgiu a oportunidade dos meus sonhos de trabalhar no BNDES. Como qualquer economista da minha geração, o sonho era trabalhar no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Era a famosa casa do economista. Então eu fiquei muito empolgado com a possibilidade de fazer um concurso para o BNDES. Fui aprovado. E aí em 1977 fui aprovado no Banco através deste concurso público.

 

P/1 - Por que que o BNDES era chamado a casa do economista? Ou era pensado dessa maneira?

 

R - O BNDES sempre se notabilizou como a casa do pensamento econômico no Brasil, o formulador, o apoiador dos grandes projetos de desenvolvimento. Na década de 1970 se vivia um boom da atividade econômica com taxas de crescimento superiores a 5, 6% ao ano, e o BNDES financiava os grandes projetos de substituição de importações, principalmente na área de bens de capital e de insumos básicos.

 

P/2 - Isac, qual é a sua análise na época sobre esses chamados grandes projetos?

 

R -Eram projetos fundamentais para o início da industrialização brasileira. O Brasil tinha tido um surto de desenvolvimento nos anos 1950 e 1960, principalmente na área de siderurgia, transportes. E na década de 1970 começaram os grandes investimentos na área de insumos básicos e bens de capital. E o BNDES foi o grande responsável pela implantação desses projetos. Naquela época os empresários até desconheciam as técnicas de planejamento e formulação de projetos, e o Banco teve um grande caráter de indução, caráter pedagógico na formulação desses projetos, ensinando e motivando os empresários a tratar a ciência econômica na formulação dos projetos, na alocação dos recursos, motivando a construção de cenários econômicos, e de fluxos de fundos e usos. Então todas essas técnicas que hoje são bastante comuns, bastante usuais a análise de projetos.

 

P/2 - Com o que o senhor foi trabalhar nessa época, no BNDES? A equipe com o qual o senhor trabalhou?

 

R - É uma equipe que hoje é bastante veterana no Banco. Então foram profissionais que ingressaram na década de 1970. O Banco naquela ocasião realizou vários concursos. Teve um grande concurso em 1973 que ingressaram mais de 100 profissionais no Banco. Depois teve o meu concurso que foi em 1976 com ingresso a partir de 1977 e que ingressaram também cerca de 100 profissionais. Depois um terceiro concurso na década de 1970, em 1978, em que ingressaram também uma grande quantidade de profissionais. Então foi a grande época de crescimento do BNDES. Tanto na atividade orçamentária – o orçamento do Banco cresceu consideravelmente em função do Banco receber recurso do PIS PASEP, então foi uma grande fonte de recursos que se adicionou ao orçamento do Banco, e o Banco foi obrigado então a contratar um grande número de profissionais para poder atender àquela demanda de projetos, aquela demanda de pleitos que eram necessários para o crescimento da economia.

 

P/1 - Na década de 1970 então qual era exatamente a sua área no BNDES?

 

R - Eu sempre fui ligado no BNDES na questão financeira. Sempre responsável pela parte financeira, parte de mobilização de recursos. Então na década de 1970, eu ingresse no Banco já ligado à captação de recursos, principalmente a parte internacional. Então durante a minha vida profissional no BNDES eu sempre fui uma espécie de interlocutor com a comunidade estrangeira. Era responsável em diversas fases da minha vida pela interlocução com a comunidade de bancos, investidores estrangeiros, a captação de recursos para o BNDES.

 

P/1 - E ficou no BNDES até quando?

 

R - Olha, eu passei praticamente a minha vida profissional no BNDES. Foram 26 anos, de 1977 até o início deste ano. Então tudo que eu conquistei na vida eu devo ao Banco.

 

P/1 - Então vamos voltar para a década de 1970 e eu vou lhe perguntar quando foi o primeiro contato que teve no BNDES com a questão do financiamento da Aracruz Celulose?

 

R - A Aracruz Celulose tem uma história que se confunde com a própria história do BNDES. O BNDES sempre apostou na empresa. O BNDES financiou praticamente todos os projetos industriais da Aracruz Celulose, tanto de implantação como de expansão. Então foi uma empresa que sempre foi apoiada pelo Banco, tanto com capital de empréstimo como capital de risco. O Banco até hoje é acionista da empresa, um acionista importante, faz parte do grupo controlador. Então a história da empresa se confunde com a história do Banco, e o Banco apostou nesse setor, é um setor em que o Brasil tem uma enorme vantagem comparativa. Eu sempre dizia no Banco: “Se o Brasil não der certo na indústria de papel e celulose não dará certo em nenhum outro setor.” Já que é um setor em que o Brasil tem uma enorme vantagem comparativa em termos de custo de produção, o Brasil consegue ter um ciclo de produção nesse setor de apenas sete anos, em função das características especiais do eucalipto, que é a fibra da produção de celulose. Então o Banco sempre apostou nessa empresa, e foi uma aposta vitoriosa.

 

P/1 - Mas você fazia parte, digamos assim, da equipe que analisou a questão do financiamento à Aracruz Celulose?

 

R - Eu não fazia parte da equipe que analisava diretamente os empréstimos da Aracruz Celulose, mas eu fiz parte durante muitos anos da minha vida profissional do Comitê de Crédito do Banco. Como superintendente da instituição, eu era membro do Comitê de Crédito durante praticamente mais de dez anos e participei de todas as decisões do comitê de crédito de apoio aos projetos, aos empreendimentos da Aracruz Celulose. Então todos os pleitos passavam por esse Comitê de Crédito, era o primeiro filtro que a instituição tinha em relação aos projetos. É um comitê tradicional do Banco, talvez o comitê mais importante da instituição, em que esses projetos da Aracruz eram analisados previamente, antes de serem submetidos à diretoria. Então eu participei de várias decisões de apoio financeiro à empresa.

 

P/1 - Havia alguma descrença, não me refiro dentro do BNDES, me refiro de uma maneira geral no setor econômico em relação a esse tipo de empreendimento?

 

R - Existe uma história famosa em que a I.F.C., International Finance Corporation, que é uma empresa do grupo Banco Mundial, se recusou, ou pelo menos não se motivou a financiar um projeto da Aracruz Celulose, achando que o projeto não seria um projeto vitorioso, não seria um projeto rentável. E o Banco, na mesma ocasião, resolveu apoiar a empresa. Então isso ficou uma espécie de folclore em relação à questão de financiamentos para a Aracruz Celulose. O BNDES, quer dizer, uma instituição brasileira, nunca teve dúvidas em relação à viabilidade dos projetos da empresa. Enquanto que um banco internacional, naquela ocasião, teria um receio em relação a esse empreendimento.

 

P/1 - Naquela época também havia uma grande preocupação com a implantação de indústrias de insumos básicos. Eu queria que o senhor falasse um pouco a respeito disso.

 

R - É, isso foi basicamente durante as crises do petróleo ocorridas na primeira e segunda metade da década de 1970. O Brasil levou um grande susto. O Brasil era dependente de petróleo. Mais de 80% do petróleo consumido no Brasil era importado, diferente de hoje que cerca de 85% do petróleo consumido é produzido no Brasil. Então o Brasil conseguiu reverter esse quadro energético de uma maneira bastante favorável, mas naquela ocasião o quadro era bastante negativo, o Brasil era dependente e nós tivemos naquela época uma quadruplicação dos preços do petróleo. E a balança comercial brasileira foi bastante afetada. Então juntamente com o petróleo, o governo também decidiu focar a produção de insumos básicos no Brasil. Petroquímica, papel e celulose, uma série de insumos que nós chamávamos naquela época de basic materials, quer dizer, materiais básicos, necessários ao país. Então o governo através do segundo plano de desenvolvimento na década de 1970 resolveu formular um projeto de desenvolvimento baseado na implantação de indústria de bens de capital e de insumos básicos. E o BNDES foi o grande motor desse fluxo de desenvolvimento, financiando esses grandes projetos. Na ocasião, o BNDES chegava a financiar cerca de 70 a 80% dos projetos de investimento. Então eram volumes consideráveis, quer dizer, o Banco financiava praticamente a totalidade desses investimentos. E em alguns casos, ocorreu um suporte extraordinário através de uma limitação na correção monetária. Então o Banco através de um apoio financeiro do Governo Federal limitava a variação da correção monetária. Então esse subsídio, esse incentivo financeiro, na ocasião foi importante, foi fundamental para que se implantasse, de uma maneira bastante eficiente, bastante bem sucedida, a indústria de bens de capital e de insumos básicos no Brasil.

 

P/1 - Por que que o BNDES resolveu ter uma participação acionária na Aracruz?

 

R - O BNDES na época tinha criado três empresas de participação de capital de risco, A Ibrasa, a Fibamec e a Fibase. A Ibrasa estava ligado mais à indústria de bens de consumo, a Embramec à indústria de bens de capital e a Fibase ligado ao setor de química, petroquímica e papel e celulose. Então eram empresas que atuavam sobre a forma de capital de risco participando nessas empresas através de ações, e o objetivo básico era iniciar a implantação de um mercado de capitais brasileiro. Ou seja, o Banco começava como grande investidor a participar dessas empresas, na sua fase de implantação, e depois, durante o período de maturação, essas ações seriam vendidas ao mercado de capitais, aos investidores, pessoas físicas, pessoas jurídicas, bancos, fundos de pensão, fundos de investimento. Para que então se desenvolvesse um mercado de capitais com bases mais sólidas. Então o Banco teve um papel muito pioneiro naquela ocasião iniciando o mercado de capitais através de participações em grandes empreendimentos no Brasil. Então na década de 1970,  e até no início da década de 1980, o Banco chegou a ter grandes participações acionárias não só no setor de papel e celulose como em diversos outros setores industriais. E depois com o tempo, o Banco passou a monetizar essas ações. No caso da Aracruz Celulose foi um exemplo típico, o Banco efetuou vendas de volumes bastante razoáveis de ações da Aracruz para o público brasileiro.

 

P/1 - Na época então, da implantação da Fábrica A, do complexo da Aracruz Celulose, o BNDES era acionista e credor. O BNDES acompanhava essa obra?

R - É, a tradição do Banco quando analisa projetos é de acompanhar a execução física e financeira do projeto. Então durante o processo de liberação de recursos para o projeto, o Banco sistematicamente envia seus grupos técnicos para acompanhar a execução, verificar se tudo que está sendo realizado está em conformidade com o projeto inicialmente aprovado pelo Banco. Então é uma prática usual e também aconteceu no caso da Aracruz.

 

P/1 - E era o senhor que ia?

 

R - Não, eram colegas meus. Eu como representante da área financeira em última instância era quem liberava os recursos para os projetos da Aracruz.

 

P/1 - Muito bem, teve algum contato com o engenheiro responsável, Doutor Ciro Guimarães, na ocasião da execução da obra?

 

R - Não, os meus colegas tinham contatos regulares com os engenheiros da Aracruz.

 

P/1 - Tem alguma lembrança, alguma imagem do tempo em que a região de Aracruz, Santa Cruz, todo aquele entorno, não tinha ainda fábrica, tinha as florestas de eucalipto, e depois como é que foi a mudança? Participou de alguma forma disso?

 

R - Eu acho que a Aracruz Celulose foi responsável pela modernização, pelo crescimento do estado do Espírito Santo. A própria história da empresa se confunde com a história econômica do estado nos últimos 30 anos. Aquela região, antes da Aracruz Celulose, era muito pobre, muito abandonada, e hoje é uma região próspera, uma região que gera empregos diretamente e indiretamente. Então a Aracruz teve um papel predominante na formação e na geração de mão de obra e emprego naquela região.

 

P/1 - E se lembra alguma vez naquela época do seu primeiro contato com o senhor (Lorensen?)?

 

R - O Banco como acionista da Aracruz sempre participou, sempre teve um acento aqui no Conselho de Administração da Aracruz Celulose. Então os meus colegas foram representantes do BNDES e participaram do Conselho durante esses últimos 20 anos. E o senhor (Lorensen?) sempre foi uma figura assim muito admirada, muito querida pelo Banco. Então todos o respeitavam, o admiravam como um grande empreendedor no Brasil.

 

P/2 - E qual é a relação do BNDES com os demais acionistas da Aracruz Celulose? Como se dava essa relação além de credor, como acionista e com os demais acionistas?

 

R - A relação sempre foi muito amistosa e de muita cooperação. É lógico que o senhor (Lorensen?)  fundador da empresa, uma grande figura humana sempre foi o ponto de contato do Banco em relação à empresa. O Banco sempre nutriu uma grande admiração pelo caráter empreendedor do senhor (Lorensen?). Mas em relação aos demais acionistas a relação sempre foi muito amistosa. Hoje os grandes acionistas da empresa são o Grupo Safra, que é um banco que tem uma relação muito produtiva com o BNDES, é um dos repassadores dos recursos da Finame. E o outro grupo empresarial é o Grupo Votorantim, que é o maior grupo empresarial privado do país e tem diversos projetos apoiados pelo Banco.

 

P/1 - Ainda nessa época, havia outras empresas que estavam começando a serem implantadas no país. O senhor participou desses estudos de viabilização de financiamento do BNDES?

 

R - É, naquela ocasião, na década de 1970, diversas empresas foram apoiadas pelo Banco, e o Banco foi responsável pela implantação desses grandes pólos industriais no Brasil. E o modelo de trabalho do Banco é um modelo de trabalho de consenso. É um sistema que a gente chama de sistema de japonês em que decisões são tomadas de baixo pra cima com base em pareceres técnicos até que a decisão final chegue à diretoria. Então são decisões colegiadas de consenso em que todos têm a participação. Independente daqueles que estão diretamente com o relacionamento com a empresa, as demais áreas também participam, opinam e principalmente a minha área que é a área financeira que tinha a responsabilidade final para a alocação dos recursos.

 

P/1 - E quando a Aracruz Celulose resolveu expandir e construir a fábrica B? O senhor participou disso? Tem alguma lembrança dessa época? Se era um grande desafio, como é que era isso? Como é que foi isso?

 

R - É, a fábrica B foi o grande desafio da empresa. A empresa teve que se endividar, ela chegou na época a ter um endividamento muito grande. Foi um projeto com um volume de recursos bastante elevado. Teve uma participação do BNDES fundamental. E mais tarde a empresa teve que fazer uma operação que foi um grande marco. A operação de A.D.R.. A empresa Aracruz foi a primeira empresa brasileira a lançar A.D.R. nível três no mercado americano, isso há 11 anos atrás. Foi uma operação muito importante. Do ponto de vista financeiro, eu me lembro que na mesma ocasião estava realizando um road show para o BNDES nos EUA e também fiquei surpreso, porque naquela semana estava ocorrendo uma crise financeira no Brasil em função de denúncias que estavam ocorrendo em relação ao governo Collor. Foi a famosa edição da Veja, a revista Veja, em que o irmão do então presidente Collor fazia uma série de denúncias, e essa matéria publicada pela revista Veja teve uma repercussão muito grande, tanto no Brasil como no exterior. E na época eu estava realizando um road show, uma operação de lançamento de títulos do BNDES, eu fui afetado, porque no meio do caminho eu tive que começar a contar para os investidores uma história que não estava prevista em relação à montagem inicial da operação. E naquela mesma semana a Aracruz estava realizando seu road show para o lançamento da A.D.R. nível três. E aí eu comentava com meus colegas: “Puxa, mas que azar da Aracruz, né? Uma bela empresa fazendo uma operação pioneira depois de um trabalho exaustivo de montagem, uma operação que exige uma engenharia financeira, uma engenharia jurídica sofisticada, ocorreu um evento totalmente fora do controle da empresa.” E naquela ocasião eu fiquei muito surpreso que a empresa teve muita confiança. Ela continuou com a operação mesmo naquele cenário de crise, ela foi adiante com a operação, até contrariando muitas opiniões de analistas financeiros que na ocasião julgavam que seria interessante a operação ser adiada ou cancelada. E a empresa teve muita coragem, muito arrojo, muita ousadia e foi adiante com a operação e a operação se tornou um símbolo na história das finanças de empresas brasileiras com acesso a recursos no exterior. Então a Aracruz foi pioneira e ela teve uma operação que ficou marcada na história do Brasil. E o Banco, como acionista da empresa naquela ocasião, ficou muito orgulhoso do sucesso e do arrojo da empresa.

 

P/1 - Seu trabalho no BNDES o levou muitas vezes ao exterior?

 

R - É, dezenas de vezes.

 

P/1 - Como é que é, do ponto de vista da comunidade financeira, como é que foi, como é que era, a imagem do Brasil? Muitas vezes o senhor teve problemas?

 

R - Diversas vezes. Eu praticamente participei dos últimos 25 anos desse processo de captação de recursos do Brasil no exterior. O BNDES sempre foi muito ativo nessa área, realizava cerca de cinco, seis operações de emissões de títulos, de empréstimos bancários no exterior a cada ano, e eu sempre participei com muita responsabilidade nesse processo. Então vivenciei muitas crises: a crise da década de 1980, a chamada crise da década perdida nos anos 1980 em que o Brasil teve praticamente o seu acesso aos recursos internacionais cortado; depois a volta do Brasil ao mercado internacional no início dos anos 1990, foi um período bastante interessante; e depois uma sucessão de crises, a crise do México em 1994 em que o Brasil foi afetado, depois veio a crise da Ásia em 1997 em que o Brasil também novamente foi atingido. No cenário de globalização, no cenário de vasos comunicantes do sistema financeiro internacional, toda vez que ocorria uma crise em algum mercado emergente, os demais países também eram afetados. Então tivemos a crise da Ásia em 1997, depois a crise da Rússia em 1998, a própria crise do Brasil em 1999, e assim sucessivamente com a crise da Argentina, e depois a própria crise entre aspas que ocorreu no segundo semestre de 2002 em que o acesso também de crédito por parte de empresas brasileiras foi prejudicado. Então eu vivenciei todas essas crises como captador de recursos por parte do BNDES. E eram momentos muito interessantes, que todos a crise tem as suas oportunidades, as suas lições também. Então a gente procura aprender, procura tirar proveito dos erros e dos acertos, de como enfrentar os novos desafios no futuro. Então foram períodos também interessantes.

 

P/1 - A imagem do Brasil na comunidade financeira ao longo dos anos 1980 e 1990, não se pode dizer que tenha em nenhum momento uma imagem sólida?

 

R - Ela teve altos e baixos. Quer dizer, ela foi muito afetada pela moratória da dívida na década de 1980. Aquela moratória custou muito ao Brasil, até hoje custa muito, né, porque os investidores com aquela imagem de uma decisão unilateral na memória, então aquilo custou bastante ao país e ainda continua tendo um peso considerável nas avaliações de rating do país por parte das agências de crédito e de rating. Então a imagem do país teve períodos melhores e períodos piores. E o BNDES também teve um papel muito importante, O BNDES sempre foi um grande agente de desenvolvimento econômico brasileiro. Então a gente tinha conhecimento bastante profundo da realidade brasileira, das empresas, dos diversos setores. Então durante esses 25 anos eu cansei de receber investidores estrangeiros que vinham ao Banco, visitavam o Banco apenas para ouvir do Banco uma opinião sobre a economia brasileira, sobre os diversos setores, sobre as diversas empresas apoiadas pelo Banco. Então o Banco sempre funcionou como termômetro em relação a essa visão da economia brasileira.

 

P/1 - E a decisão de colocar parte das ações do BNDES, da participação na Aracruz Celulose no mercado?

 

R - É, isso fazia parte da lógica de mercado de capitais que o Banco implantou na década de 1970 e também na década de 1980. Esse investimento através de capital de risco tinha um caráter temporário, não era um caráter permanente, e era uma iniciativa para um apoio inicial às empresas, um apoio ao mercado de capitais. Depois que as empresas se consolidassem, se tornassem mais maduras, começassem a ter mais independência em relação ao apoio do governo, a idéia era que então o Banco passasse a vender essas participações gradualmente, sem afetar os preços das ações nos mercados de capitais. Mas era um processo natural que ocorria não só com relação à Aracruz como diversas empresas. Então o Banco, a partir da segunda metade da década de 1980 passou a ser mais vendedor do que comprador de ações. Então passando a reduzir gradualmente sua carteira de participações societárias. Embora a própria valorização dos mercados de ações no Brasil fez com que a carteira hoje do Banco seja uma carteira em torno de 25 bilhões de reais. Ou seja, em muitos casos o Banco recebeu ações sob a forma de aumento de capitais por parte do Governo Federal somente na década de 1970 e essas ações de empresas estatais, na época, Eletrobrás, Petrobrás, Banco do Brasil, Vale do Rio Doce, algumas empresas que hoje são privadas como a Vale do Rio Doce, o Banco recebia essas ações como forma de aumento de capital por parte do Governo Federal. E na época essas ações não valiam nada. Nós tínhamos um mercado de capitais muito limitado, muito reduzido, os preços das ações eram muito inferiores aos patamares atuais. Então o Banco teve um ganho substancial ao longo dos anos com essa carteira de ações, e pode então vender essas ações gradualmente no mercado e com isso gerar novos recursos para a sua atividade principal que é prover financiamentos de longo prazo para as empresas no Brasil.

 

P/2 - Senhor Isac, o senhor falou sobre diversas crises que assolaram o país na década de 1970 até a década de 1990. E qual seria sua análise sobre essas crises no setor de celulose e específico no caso da Aracruz?

 

R - É, o setor de celulose é um setor atípico no Brasil. Como ele é um setor que tem uma vantagem comparativa muito grande a nível internacional, ele nunca foi afetado por essas crises internacionais, quer dizer, o setor de celulose sempre teve um apoio tradicional por parte do BNDES, tanto sob a forma de capital de empréstimo quanto sob a forma de capital de risco, o Banco tem participações acionárias não só na Aracruz Celulose como no Grupo Klabin, no Grupo Suzano, na Votorantim Papel e Celulose, quer dizer, nas grandes empresas do setor, e essas empresas sempre tiveram acesso a recursos internacionais. São empresas muito bem vistas na comunidade internacional, são empresas então que tiveram acesso a fontes de recursos internacionais. A Aracruz é uma empresa que nunca teve dificuldades de captação de recursos no exterior, mesmo nos momentos muito críticos em relação à acessibilidade do Brasil ao mercado internacional, a Aracruz é uma exemplo clássico de uma empresa que sempre foi tratada a parte. Uma empresa considerada como tripleway brasileiro, uma empresa realmente diferenciada.

 

P/2 - O chamado risco Brasil não chega a afetar essas empresas?

 

R - É lógico que afeta, né, o chamado risco Brasil acaba afetando a quase totalidade das empresas brasileiras. Algumas empresas no entanto conseguem se diferenciar, como é o caso da Aracruz Celulose, que consegue captar recursos através de operações estruturadas no exterior a custo até mais baixo que o próprio risco Brasil, risco soberano. Então a Aracruz por exemplo recentemente realizou uma operação de cerca de 400 milhões de dólares no mercado de capitais internacional com custo cerca de 300, 400 pontos abaixo do chamado risco soberano. Uma prova inconteste da qualidade do crédito da Aracruz.

 

P/1 - Consta, não sei se essa informação é correta, gostaria que o senhor me corrigisse se ela for incorreta. Parece que de 1991 a 1995, a Aracruz era a única empresa com ações negociadas na Bolsa de Valores, de 1991 a 1995.

 

R - De Nova York?

 

P/1 - É, e se isso é verdadeiro, porque então a Aracruz tendo lançado as ações em 1991 não se constituiu num modelo possível para outras empresas brasileiras nesse aspecto?

 

R - Na realidade, tem que contar os antecedentes desta história. A primeira empresa latino-americana a emitir A.D.R.s nível 3, quer dizer, registradas na Bolsa, foi a Telmex do México. Foi a primeira experiência de uma empresa latino-americana. A segunda foi a Aracruz em 1992, e a Aracruz procurou encurtar o caminho. Normalmente as empresas emitem o chamado A.D.R. nível 1, que é um papel ainda que é negociado no mercado de balcão, não é um papel registrado na S.E.C., na Bolsa de Valores. É um papel ainda negociado no mercado de balcão, e não se trata da emissão de capital novo. Existe o A.D.R. nível 2 que é um registro já formal na Bolsa de Valores em que a empresa é negociada diariamente na Bolsa de Valores de Nova York. E existe o nível 3, que também é uma emissão pública registrada em Bolsa de Valores de Nova York, mas de capital novo, de aumento de capital. Então normalmente o que que as empresas fazem? Elas percorrem o caminho natural. Fazem primeiro a emissão nível 1, para depois fazer a emissão nível 2, e mais tarde, nível 3. É um processo que demora alguns anos. A Aracruz foi mais arrojada, a Aracruz foi mais audaciosa, ela partiu diretamente para o nível 3. Então ela fez uma operação já de lançamento de ações novas registradas publicamente na S.E.C. americana e negociadas na Bolsa de Valores de Nova York. Então ela fez uma operação muito arrojada, muito pioneira na ocasião, isso é no início da década de 1980, em que as empresas brasileiras conheciam muito pouco do mercado de capitais internacional, então ela foi muito arrojada, foi muito audaciosa encurtando esse caminho já realizando uma operação de nível 3. As demais empresas brasileiras passaram a frequentar o mercado de capitais americano seguindo o modelo tradicional, como eu expliquei anteriormente, o nível 1, o nível 2 e o nível 3. Por essa razão é que se explica porque durante alguns anos a Aracruz foi a única empresa brasileira sendo negociada na Bolsa de Valores de Nova York.

 

P/1 - E hoje em dia, há muitas empresas brasileiras que negociam essas A.D.R. nível 3 na Bolsa de Valores de Nova York?

 

R - Não, hoje há dezenas de empresas brasileiras que têm seus títulos e ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York. Empresas dos setores de telecomunicações, energia, bens de consumo. Então hoje eu diria que grande parte do volume negociado diariamente de ações de empresas brasileiras, grande parte desse volume é na Bolsa de Nova York, o que provoca até uma ciumeira, uma reação por parte dos corretores locais, dos corretores brasileiros.

 

P/1 - Alguma vez quando estava no BNDES pensou que iria trabalhar na Aracruz?

 

R - Não, eu nunca poderia imaginar que hoje estaria trabalhando na Aracruz. É até uma história engraçada, porque eu sempre tive uma admiração muito grande pela empresa, então como eu sempre vivi a questão financeira de empresas brasileiras com acesso ao mercado internacional, essa história da Aracruz A.D.R. nível 3, esse arrojo, essa ousadia da empresa, sempre me impressionou muito como uma pessoa estudiosa do mercado internacional, talvez eu seja um dos brasileiros que mais acompanhou o mercado internacional durante esses 25 anos, então eu sempre tive uma admiração muito grande pela empresa. Então os meus colegas até brincavam no Banco: “Ah, o Isac toda vez que quer falar de uma empresa tripleway brasileira fala da Aracruz, é a referência dele.” Então, no Comitê de Crédito do Banco, sempre que tinha que mencionar uma empresa que era considerada assim referência a nível internacional, eu citava o nome da Aracruz. E isso era motivo até de brincadeira por parte dos meus colegas. E eu nunca poderia imaginar que um dia então viesse a ter esse convite pra trabalhar na Aracruz. Foi até uma experiência interessante, eu fui abordado por uma headhunter no final do ano passado e se eu tinha interesse em trabalhar no setor privado. A minha resposta na ocasião foi que eu tinha que concluir meu mandato no Banco, eu era naquela ocasião Vice-Presidente do BNDES, na gestão Fernando Henrique Cardoso, então o mandato terminava em dezembro, nós teríamos um governo novo e provavelmente teríamos uma diretoria nova. Mas que eu fazia questão de antes de ouvir qualquer idéia, eu gostaria de concluir meu mandato, fazer a transição para a nova administração, para o novo management do Banco. E depois então, tiradas umas férias merecidas, eu poderia ver quais seriam as oportunidades até de trabalhar fora do Banco. E o processo então se iniciou em fevereiro, um processo normal de entrevistas e seleção. E fui contratado pela empresa no final de maio. Então foi uma surpresa quando depois de algumas entrevistas anunciaram que o nome da empresa que estava procurando um Diretor Financeiro era a Aracruz Celulose. Então foi realmente um motivo até de surpresa, uma surpresa agradável, que eu teria a oportunidade de participar do processo seletivo para uma empresa que eu sempre tive muita admiração durante tantos anos.

 

P/1 - Mas conseguiu tirar as férias?

 

R - Consegui tirar as férias (risos)

 

P/1 - Quando o senhor estava no BNDES, voltando aqui um pouquinho à sua formação, fez a graduação e o mestrado na PUC, mas ao longo do tempo no BNDES, quis ou teve oportunidade de mais alguma especialização, algum doutorado, teve experiência?

 

R - Olha, o Banco oferece muitas oportunidades de treinamento e desenvolvimento aos seus funcionários. Eu fui até Diretor de Recursos Humanos nos últimos quatro anos do Banco, então eu sempre procurei priorizar a questão do desenvolvimento de recursos humanos como uma das metas prioritárias para a instituição. Eu acho que o que vale no Banco são seus ativos, são seus recursos humanos. O resto são papéis, carteiras de empréstimos, ativos financeiros, mas o grande ativo da instituição é o recurso humano, e o Banco sempre focou muito na geração do conhecimento. Eu diria que o BNDES hoje tem os melhores quadros do setor público e do Brasil como um todo. Dificilmente você encontra como o BNDES que tem mais de 500 ou 600 profissionais de alto nível, com mestrado e doutorado no Brasil e no exterior. Muitos de nossos colegas tiveram a oportunidade de passar três, quatro anos no exterior estudando por conta do BNDES com todos seus estudos pagos. Então o Banco sempre priorizou a questão da formação e desenvolvimento de recursos humanos. Eu tive algumas oportunidades, alguns cursos tanto no Brasil como no exterior de rápida duração. Nunca tive oportunidade de fazer um doutorado porque nunca me deram essa chance de me afastar do Banco durante tanto tempo (risos). Eu sempre fui meio workaholic e nunca me motivei de ficar muito tempo fora da instituição. Então fiz alguns cursos mas nenhum curso de longa duração.

 

P/1 - Você tem filhos Isac?

 

R -Eu tenho uma filha.

 

P/1 - E você queria que ela seguisse a carreira de economista?

 

R -Olha, eu até forcei, né? (risos) Eu estimulei muito ela ser economista. Ela chegou a cursar seis meses de economia no IBMEC. Mas depois não gostou de economia. E resolveu fazer comunicação, jornalismo. Então, ano que vem ela deve se formar em jornalismo. Ela fez até um estágio no BNDES de jornalismo, na assessoria de imprensa do Banco, gostou muito, é uma grande escola nessa área o BNDES. Mas hoje ela começa a se interessar por economia. Então a experiência que ela teve com assessoria de imprensa de área econômica, tem feito uma série estudos, de cursos de extensão na área de economia, então eu acho que provavelmente ela vai cursar a área de jornalismo econômico.

 

P/2 - Senhor Isac, o senhor poderia falar um pouco a respeito da aquisição da fábrica de Guaíba da Riocell e se esse projeto e esses projetos como o da Veracruz continuam tendo apoio do BNDES?

 

R - A aquisição da fábrica da Riocell, (Indaiguaíba?) hoje, foi muito importante para a história da Aracruz. Eu acho que ela marca um novo caminho para a empresa. A aquisição de empresas nesse setor é fundamental, que você consegue dar mais um sentido de disciplina na oferta de capacidade que é relevante num mercado de commodities. Então a Aracruz foi muito feliz em conseguir adquirir essa empresa com um valor da ordem de 567 milhões de dólares. E o funding para essa operação foi com base no mercado de capitais. Foi a operação que eu mencionei de 400 milhões de dólares em que a empresa levantou recursos no exterior através de uma operação chamada de (securitização?) de recebíveis, e o valor restante, os 167 milhões, foram complementados com a disponibilidade de caixa da empresa. Normalmente o BNDES só financia projetos de investimento, então operações de aquisição normalmente são financiadas através do mercado de capitais. Então a empresa teve muita agilidade para conseguir num prazo curto realizar uma operação de grande vulto no mercado de capitais e conseguir então o funding necessário para a aquisição da Riocell que é bastante importante. Ela aumenta em 400 mil toneladas a capacidade de produção da Aracruz Celulose. 

 

P/1 - Mas já participou, suponho eu, esse ano no projeto da Veracel junto com (Storaenson?)?

 

R -É, esse ano nós estamos participando do projeto da Veracel. O projeto da Veracel terá o apoio financeiro de três instituições internacionais, o European (Investor?) Bank, o Norick (Investor?) Bank, são instituições multilaterais européias que tem como objetivo também prover financiamentos de longo prazo para projetos de investimento, tanto nos países de origem como no exterior, e do BNDES. O BNDES será responsável provavelmente com um financiamento da ordem de 400 milhões de dólares para o projeto Veracel. Esses três empréstimos serão provavelmente assinados nos meses de dezembro de 2003 e janeiro de 2004. Então eles serão responsáveis pelo funding do projeto Veracel.

 

P/1 - A captação de recursos para investimentos no Brasil hoje se faz muito predominantemente em bancos europeus?

 

R - Para projetos de investimento de longo prazo, há a possibilidade de se conseguir recursos em bancos multilaterais. Aí eu diria o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Mundial, O Banco Europeu de Investimento, o Banco Nórdico de Investimento, o Banco Internacional de Reconstrução Japonês. Então existem algumas instituições multilaterais ou bilaterais que fornecem financiamentos, que fornecem recursos para projetos no Brasil. E a outra grande fonte de recursos é o mercado de capitais internacional. Então empresas como a Aracruz têm acesso a esse mercado de capitais, então elas conseguem levantar recursos através da emissão de títulos, chamadas emissão de bonds, que podem ocorrer através de operações estruturadas, ou chamadas operações clean, operações simples. Então a Aracruz tem tirado proveito dessa liquidez do mercado internacional de capitais e realizado operações até de médio e longo prazo. Por outro lado também, a Aracruz consegue recursos para suas operações de capital de giro, para o seu giro diário das operações, num mercado que nós chamamos de trade, o mercado de operações de comércio exterior, são chamadas operações de (atentamento?) de contratos de câmbio, ou de pré-pagamento, então a Aracruz é muito conhecida como uma empresa de muito acesso a essas operações de pré-pagamento e de ACC.

 

P/1 - Você agora é o Diretor Financeiro da Aracruz Celulose. Que grande desafio ou que grandes desafios você vê à sua frente?

 

R - Eu acho que o grande desafio da Aracruz Celulose hoje é tentar reduzir o custo do capital para a empresa. Porque a empresa tem uma vantagem comparativa enorme em relação ao custo de produção. O ciclo de produção da madeira é apenas de sete anos no Brasil, com isso o nosso custo de produção se torna extremamente competitivo quando comparado em relação às empresas internacionais de celulose e papel. A grande diferença que nos temos do ponto de vista negativo é que o custo de capital para empresas brasileiras é muito superior aos nossos chamados piers internacionais, aos nossos concorrentes internacionais. Então o grande desafio para as empresas brasileiras, especialmente a Aracruz hoje é tentar reduzir ao máximo essa diferença no custo de capital para a empresa brasileira aos seus concorrentes internacionais. E nesse sentido a Aracruz tem feito um esforço muito grande de contar sua história para os investidores internacionais, para as agências de rating no sentido de ter uma classificação melhor de rating e com isso conseguir acesso a recursos e condições mais favoráveis. Eu acho que esse é um grande desafio para a área financeira, para um diretor financeiro da Aracruz Celulose.

 

P/1 - Agora nós vamos nos encaminhando para o bloco final. Então, o que que significa para você hoje estar trabalhando na Aracruz?

 

R - Eu acho que é uma grande alegria. Após uma carreira de muitas alegrias, muitas felicidades no BNDES, eu sempre repito que eu devo muito do que eu conquistei ao Banco. O Banco foi minha grande escola profissional onde eu conquistei minhas grandes amizades, minhas realizações profissionais, mas hoje eu sou Aracruz Celulose, então estou vestindo a camisa da Aracruz Celulose, estou muito feliz de estar numa empresa em que o ambiente de trabalho é admirável, as pessoas são muito amigas, existe um ambiente de cooperação muito importante. A empresa tem desafios, a empresa tem metas a serem atingida, como eu mencionei anteriormente, a área financeira da Aracruz Celulose é uma área muito importante, ela tem seus desafios. Então eu estou muito feliz de participar de uma equipe muito unida, muito obstinada, de uma empresa que tem grandes metas, de uma empresa vitoriosa nesse país.

 

P/1 - Se você fosse definir a Aracruz em poucas palavras, que palavras você usaria?

 

R - Competência e arrojo.

 

P/1 - Como é que é o seu cotidiano hoje?

 

R - Bom, eu estou baseado no Rio de Janeiro, mas semanalmente tenho que visitar nossa fábrica no Espírito Santo e eventualmente também a nossa fábrica no Rio Grande do Sul. Algumas áreas que estão subordinadas à Diretoria Financeira estão localizadas na unidade do Espírito Santo, na unidade Barra do Riacho, então eu tenho que estar sempre em contato com esses departamentos na unidade Barra do Riacho. Mas a maior parte da semana eu fico aqui no Rio e vou eventualmente também a São Paulo, porque em São Paulo nós temos o mercado financeiro, os grandes bancos, os fundos de investimento, então temos que manter esse relacionamento, e os nossos sócios. Os nossos sócios Safra e Votorantim estão em São Paulo, então é muito importante para a área financeira ter um contato permanente com os sócios, os acionistas, ouvindo e informando com periodicidade todas as questões financeiras e econômicas da empresa.

 

P/1 - E sobra algum tempo para o lazer?

 

R - Sobra algum tempo para o lazer no final de semana, embora aqui na empresa, quer dizer, como Diretor Financeiro também temos que manter um relacionamento permanente com investidores internacionais. É até uma tradição da empresa realizar os road shows junto aos investidores que possuem ações da empresa, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, isso então toma muito tempo do dia-a-dia de um Diretor Financeiro.

 

P/1 - Mas tem algum hobby?

 

R - Eu tenho algum hobby. Gosto de caminhar no final de semana e também durante a semana. Gosto muito de esportes, como eu mencionei sou um vascaíno fanático, embora meu clube hoje não esteja numa posição muito especial, mas sempre acompanhei muito de perto. O pessoal brinca comigo que eu fui ao Japão ver o Vasco jogar, fui ao Equador. (risos) Então acompanhei meu clube em todas as partes do mundo. Então gosto muito de futebol, gosto muito de esporte, então é o meu grande hobby, eu diria.

 

P/1 - E qual é o seu maior sonho hoje?

 

R - Olha, o meu maior sonho é poder ajudar e contribuir para que o nosso país consiga mais uma etapa de crescimento e desenvolvimento, que a gente tenha um país com mais justiça social e que grandes empresas como a Aracruz cumpram seu papel na questão social, na questão ambiental, na questão  da sustentabilidade. Eu acho que em empresas como a Aracruz, cada um de nós tem um papel muito grande no sentido de tornar esse país mais justo e socialmente mais rico.

 

P/1 - Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R - Olha, se eu voltasse atrás acho que eu repetiria exatamente a minha trajetória de vida profissional e pessoal. Eu me considero muito feliz e muito realizado, tive as experiências importantes. Eu acho que a minha vida profissional de 26 anos no BNDES foi muito importante. Você numa instituição como o BNDES se sente servindo ao próximo o tempo todo, é uma oportunidade de você procurar cooperar com o país, cooperar com a gestão pública então foi uma experiência muito interessante. E hoje numa empresa como a Aracruz, embora uma empresa privada, eu acho que existe também um papel muito importante na promoção do desenvolvimento econômico e social.

 

P/1 - Para você qual é a importância de um trabalho como este de registrar a memória da Aracruz?

 

R - Olha, quando eu cheguei na empresa eu vi essa ideia e procurei dar muita força porque eu tive uma experiência muito feliz de participar dos 50 anos da história do BNDES. Ano passado nós comemoramos os 50 anos do BNDES. E fizemos o Projeto Memória e que foi um projeto muito interessante em que todos fizeram seus depoimentos. Eu tive também minha oportunidade de prestar meu depoimento. E depois, no dia do aniversário do BNDES nós tivemos a oportunidade de passar toda aquela gravação com todos os depoimentos, histórias interessantes, bem humoradas. Provavelmente nós vamos ter aqui no caso da Aracruz os funcionários contando histórias curiosas, histórias engraçadas e depoimentos de pessoas que fizeram, construíram essa empresa. Então eu acho que é fundamental se registrar a memória de uma empresa que é importante para todos nós, é importante para o país, é importante para seus funcionários. 

 

P/1 - E o que que você acha de ter participado dessa entrevista?

 

R - Eu acho que para mim é muito importante, embora com pouco tempo na empresa, ter a oportunidade de participar de um Projeto Memória. E eu sei da importância disso para uma instituição.

 

P/1 - Obrigada, Isac, mais uma vez obrigada por essa excelente entrevista.

 

R -Muito obrigada a vocês.

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