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História

Como uma rocha, suportar

História de: Murilo
Autor:
Publicado em: 15/10/2019

Sinopse

A história de Murilo deriva da de sua mãe, órfã que passou a vida em abrigos. Com apenas dois meses foi separado da mãe e levado ao orfanato, passando por vários destes até completar seus 16 anos. Mais do que sobre abuso e exploração sexual, a história de Murilo é sobre a superação que, através de projetos sociais como o ViraVida, pôde, dentre outras coisas, acreditar. Para viver e ultrapassar os obstáculos, diz, é preciso: “ser forte não como uma onda, que tudo destrói, mas como uma rocha, que tudo suporta”.

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História completa

Meu nome é Murilo, eu nasci no ano de 1992. A minha mãe teve cinco filhos, e eu sou o do meio. Já o meu pai, eu não tenho contato, já não o vejo há cerca de dois anos. A minha mãe é órfã, também morou em abrigo; ela levou choque na cabeça, apanhou, davam remédio. Além da questão financeira, após perder os filhos para o Conselho Tutelar, minha mãe ficou depressiva, foi internada. Eu tinha apenas uns dois meses de idade quando me tiraram dela, junto com meus dois irmãos.

O primeiro abrigo em que fiquei era um abrigo de adolescentes. Por ser mais novo em relação à maioria deles, os adolescentes de lá espancavam a mim e a outras crianças. Queriam que a gente fizesse as coisas para eles, queriam tomar de nós as coisas que ganhávamos. Mas eu não deixava, revidava, batia neles de volta.

A rotina lá era cheia de afazeres: levantar cedinho, por volta das seis horas da manhã, arrumar a cama, limpar o quarto, lavar as roupas; limpávamos todo o salão, o almoxarifado também. Fora dali, a única atividade que tínhamos era a escola. Não vou mentir, a escola não era uma coisa boa. Eu gostava de ir à escola, de estudar, mas era muita bagunça. Como não dava para estudar, comecei a bagunçar também. Passei por uma escola boa também, que tinha uniforme, caderno, tudo direitinho. Mas, quando me tiraram de lá, perdi o gosto pelos estudos. Essa fase, em que eu estava nessa escola, foi a melhor da minha vida, tanto que, quando me tiraram de lá, eu esperneei, não queria sair.

Em relação às brincadeiras, eu tentava me divertir como podia. Fazia muita traquinagem, também: pulava o muro e ia brincar no rio, ou jogar bola com os meninos que estavam jogando na rua. Entre os meninos, mesmo, havia preconceito: achavam que éramos bichos porque morávamos no abrigo, essa era a imagem que tinham da gente. Ali até tinha uma brinquedoteca, mas muitas vezes não podíamos brincar, porque algumas crianças destruíam os brinquedos. Criança não sabe o que está fazendo, não dá valor. E tudo isso era fruto de doações de pessoas de bom coração, nada havia sido dado pelo governo.

Mas tinham as partes boas também; as mães sociais, por exemplo, algumas eram realmente carinhosas com a gente, e nós precisávamos desse afeto, toda criança precisa. Doía quando as outras mães chegavam e não falavam nada, só mandavam fazer as coisas.

Mas o fato é que a gente se esquece das coisas boas; das ruins, jamais. Portanto, o melhor orfanato em que eu passei, foi também o que me rendeu um grande trauma. Eu tinha uns cinco, seis anos, na época, quando começaram a ir adolescentes para lá. Logo no comecinho, quando eles tinham acabado de chegar, fui abusado sexualmente. No dia seguinte, eu estava chorando na cama cheia de sangue. A mãe social que estava lá no dia percebeu, mas não comentou nada. Fizeram um Boletim de Ocorrência, tentaram falar comigo, mas eu estava mudo, não conseguia falar. Tive que conversar com assistente social, psicóloga...

Fiquei em abrigos desde bebê e até os meus 16 anos, mais ou menos, quando minha mãe conseguiu minha guarda e eu passei a morar com ela. Foi bom voltar para a casa da minha mãe, mas cheguei a passar fome lá, passamos dificuldades. Quem nos ajudou muito foi uma portuguesa, que na época do orfanato queria adotar crianças e acabou apadrinhando eu e o meu irmão. Ela nos ajudou muito, posteriormente também. Nessa época, surgiu um grupo de dança e eu rapidamente comecei a dançar. Mas eu gostava tanto, que acabava faltando na escola, o que me fez perder o apadrinhamento com essa moça. Com isso, tive que ir morar por um ano com a minha avó paterna, em outro estado. A convivência lá não era boa, eu apanhava.

Mas nessa época me lembro de ver as pessoas comprando coisas que eu não tinha, que eu não poderia ter. Eu os via indo ao shopping, fazendo compras... E eu sempre fui muito vaidoso, não queria ficar sem dinheiro. Então saía de casa para andar – às vezes só para andar mesmo –, passava uma pessoa de carro, me levava para longe... Foi aí que eu comecei a me prostituir.

Eu, homossexual, só fazia programas com homens, mas saíamos eu e minhas amigas, juntos, para bares, motéis.  E a exploração sexual é terrível, as pessoas te fazem acreditar que aquilo vai dar em alguma coisa, te prometem dinheiro e tudo o que você quiser. Inclusive, tentaram me convencer a ir para outro estado, mas eu não quis. Um amigo meu que foi – travesti –, pouco depois apareceu no jornal: tinha sido morto.

Eu me prostituía, ia até viajar com os homens com quem saía, mas a única droga que usei foi loló. Até que um dia me aconselharam a parar: “Não faça isso, não vá”. Foi quando eu conheci uma pessoa, um italiano. Convivi quatro meses com ele, com a promessa dele de me ajudar. Mas não ajudava em nada, só queria prazer. No começo foi bom, depois ele começou a me maltratar, não me deixar sair por causa de ciúme. Eu, revoltado, vi que ele havia ido ao shopping, peguei todas as coisas dele: videogame, celular; levei tudo. Mas ele era pedófilo, tinha foto das meninas que abusava no celular, então dei parte dele e ele foi deportado, foi assim que me livrei do roubo também.

Foi aí que o ViraVida apareceu para mim, e a partir dele, as coisas começaram a melhorar. Conheci o projeto pela internet, e a partir de então fui atrás. Eu queria ser cozinheiro, mas a vaga que surgiu era para design de moda. Fiz o curso e, no Trabalho de Conclusão de Curso, até realizamos um desfile, com duas peças feitas por mim. Fiz curso de manicure, informática e bombeiro mirim. Passei por jovem aprendiz e, observando, aprendi a cortar cabelo. É através desses bicos de cabeleireiro e manicure que consigo um dinheirinho.  O ViraVida me deu perspectiva, oportunidade, e, pelo tratamento que nos davam, faziam-nos sentir especiais.

Hoje eu estou totalmente transformado, até esteticamente. Antes eu tinha piercings, moicano... Depois do ViraVida, minha mudança foi de cem por cento. E o meu sonho, hoje, é principalmente arranjar um emprego e ajudar a minha mãe, ajeitar a casa da minha mãe.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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