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História

Como o interesse por letras góticas é capaz de unir duas famílias

História de: José Antonio Lopes Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

A história de José Antonio, mais conhecido por Barbosinha ou Barbosa, está diretamente ligada à história da Rhodia, no Brasil, especificamente em relação às embalagens dos produtos fabricados por esta indústria. Sua trajetória de vida tem muita influência de seu padrinho, Cássio Queiroz, que foi amigo de seu avô. Começou a trabalhar ainda garoto, tendo aprendido seu ofício de representante comercial de embalagens para produtos farmacêuticos com seu pai e, principalmente, com seu padrinho. Acompanhou a evolução dos equipamentos de impressão gráfica no Brasil e, neste contexto de indústria gráfica, compartilha não só lembranças, mas também experiências sobre comprometimento profissional e dedicação para cumprir e honrar a confiança creditada e acreditada.

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História completa

P1 - Eu queria pedir para o senhor começar se apresentando: seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Eu nasci em 1938, no dia 28 de maio.

 

P1 - Onde?

 

R - Na Pro Matre.

 

P1 - Em São Paulo?

 

R - Em São Paulo.

 

P1 - Como se chamavam seus pais e seus avós?

 

R - José Inácio Machado Barbosa e Maria de Lourdes Lopes Barbosa.

 

P1 - E seus avós paternos e maternos?

 

R - Meu avô paterno chamava Stanislau Machado Barbosa, e minha avó era Olga Machado Barbosa. Agora, minha avó materna era Alice Lopes, e meu avô eu não lembro.

 

P1 - A origem da família o senhor sabe?

 

R - Toda de São Paulo.

 

P1 - Toda de São Paulo?

 

R - Toda, toda.

 

P1 - E qual era a atividade profissional de seus avós e de seus pais?

 

R - O meu avô paterno era um funcionário público de alta patente.

 

P1 - O que ele fazia?

 

R - Ela trabalhava na área financeira do Governo do Estado de São Paulo. Minha avó era de prendas domésticas, minha avó materna também. Meu avô eu não sei porque nunca vi.

 

P1 - Como era a São Paulo da sua infância?

 

R - Perto da minha casa tinha 19 campos de futebol.

 

P1 - Que bairro era?

 

R - Vila Mariana.

 

P1 - Como era lá?

 

R - As ruas eram de barro, era uma delícia. Todo mundo brincava na rua. Para você ter uma ideia, a chave da porta da frente da minha casa, que era muito grande, uma das maiores casas da Vila Mariana... meu pai quebrou a chave uma vez, ficou um ano sem chave, só fechava no trinquinho, nunca entrou um ladrão. E tinha um portãozinho dessa altura assim, de 80 centímetros. Então, à noite, era muito engraçado, porque nós éramos pequenos, tinha o futebol de rua e as mães ficavam sentadas na frente, punham as cadeirinhas na frente e ficavam vendo a gente jogar futebol. Nós jogávamos futebol, taco, pião, tudo o que nós tínhamos direito, bolinha de gude... Não tinha ladrão, era uma delícia viver.

 

P1 - Quem morava na sua casa nessa época?

 

R - Meu velho padrinho, que foi o primeiro fornecedor da Rhodia.

 

P1 - Como ele se chamava?

 

R - Cássio de Queiroz. Meu pai, minha mãe, eu e meu irmão. Éramos nós cinco.

 

P2 - Como era o ambiente?

 

R - A casa era muito grande. Meu padrinho... Eu preciso voltar um pouco atrás. 

 

P1 - Pode voltar.

 

R - Meu padrinho, quando ele começou, quando ele já era conhecido do meu avô, ele era diretor da Companhia Litográfica Ipiranga, que era a maior gráfica que existia na América do Sul naquela época; era maior que o Estadão, inclusive - não tinha nem Estadão nem Editora Abril, perto da Litográfica Ipiranga. E ele estava precisando de alguém para ajudá-lo. Como ele era amigo do meu avô, ele pegou meu pai. E meu pai foi ser auxiliar dele na área comercial.

 

P1 - Da gráfica?

 

R - Da gráfica. Então, ele tirou meu pai do “Biológico” ...

 

P1 - Até então, seu pai trabalhava como desenhista?

 

R - Microscopista.

 

P1 - Do Instituto Biológico.

 

R - Aí ele tirou meu pai de lá e pôs meu pai para trabalhar com ele.

 

P1 - O que seu pai fazia com ele?

 

R - Começou na área comercial, a vender. Inclusive, começou com a Rhodia. Nesse tempo, meu pai conheceu minha mãe, namoraram, noivaram e se casaram. Mas meu pai era meio curto de dinheiro, então eles foram morar em uma casinha pequena. E o meu padrinho, que depois virou meu padrinho, comprou esse casarão lá na Rio Grande e falou para o meu pai: "Eu vou precisar de um quarto para eu ficar e um escritório para mim."

 

P1 - Ele era solteiro?

 

R - Era solteiro. "E você vem morar aqui comigo." E meu pai acabou aceitando. A casa era muito grande, tinha oito quartos, não tinha fim aquilo. Aí, eu nasci. E ele simplesmente, como nunca tinha tido um filho na vida, nem nada, ele me adotou. Eu era dele.

 

P1 - O senhor é o primeiro filho?

 

R - Sou o primeiro filho. Então, ele montou o escritório da Companhia Litográfica Ipiranga na minha casa. Tinha um salão lá que era só dele. Então, lá tinha o som dele, porque ele não passava sem escutar música clássica, sem ler em francês aqueles troços todos. E eu, pequenininho, ficava brincando embaixo da escrivaninha dele.

 

P1 - Ouvia música em gramofone? Como era?

 

R - Não, era... Eu acho que o normal, mas não tinha estéreo, não tinha nada. Então, eu ficava brincando embaixo da escrivaninha dele. Como ele era o principal fornecedor da Rhodia, ele levava para casa os cartuchos para testar, ele levava de caixa, montes de cartuchos e eu ficava brincando com aquilo, fazia castelo, fazia casinha, fazia um monte de coisa com cartucho da Rhodia.

 

P1 - E ele fabricava o que para a Rhodia nessa época?

 

R - Cartucho.

 

P1 - Embalagem? Do que?

 

R - De toda a parte farmacêutica.

 

P1 - Quando o senhor fala 'cartucho' é a caixa?

 

R - É, isso aqui. 

 

P1 - Tá, entendi.

 

R - Ele fabricava os rótulos, a parte promocional, as bulas. Agora, o começo dele com a Rhodia é que é interessante. Em 1919, quando ele era diretor da Litográfica Ipiranga, ele ficou sabendo que a Rhodia ia ser implantada aqui. Como ele gostava muito da França e lia muito, falava muito bem francês, quando ele soube que ia ser implantada a Rhodia no Brasil, em 1919, ele foi para Santo André de trem e encontrou lá o doutor Henri Sannejouand, que foi o primeiro presidente e o cara que implantou a Rhodia. E acabaram, imagine você, acabaram fazendo amizade. Só tinha um bar: era em frente da estação. Eles foram comer um sanduíche, os dois juntos, foram a pé. E a Rhodia estava demarcando a área dela. Você sabe que a Rhodia tem a maior área de Santo André. Se você computar a Química, Têxtil, Farmacêutica, é a maior área de Santo André. Tem a avenida que chama doutor Henri Sannejouand. Ele me carregou no colo, se você quer saber. Eles fizeram uma tremenda amizade e o doutor Henri Sannejouand falou para ele: "Eu vou implantar o lança-perfume aqui." Ele falou: "Então isso aí vai precisar de caixa, vai precisar de rótulo..." Ele falou: "Vai precisar". Aí nasceu a amizade e ele começou a fazer todos os rótulos, todas as caixas. Tudo o que tinha de lança-perfume era do meu padrinho.

 

P1 - E era tudo em litografia?

 

R - Você sabe o que quer dizer litografia?

 

P1 - Sei, sei. Na pedra.

 

R - Até algum tempo atrás eu tinha uma pedra. Aquilo era gravado à mão, na pedra. Então, era uma dificuldade incrível. Tinha uma tremenda má qualidade que não é brincadeira. O que nós fazemos hoje não tem nada a ver. Então começou aí a amizade do meu padrinho com a Rhodia. E ele continuou como diretor da Companhia Litográfica Ipiranga. 

 

P1 - Certo. Agora, na sua casa, nessa casa da sua infância, era o escritório dele. Aí, num outro local havia a produção litográfica, é isso?

 

R - A gráfica não tinha nada a ver.

 

P1 - Ficava onde a gráfica?

 

R - Na rua dos Gusmões, no centro da cidade. Era a maior gráfica do Brasil, maior da América do Sul. Não tinha nada igual. A Companhia Litográfica Ipiranga era o suprassumo. Apesar de que, se você pegar um impresso daquela época e comparar com o de hoje, você vai até chorar porque não tem nada a ver. Os registros que têm hoje, o que se pode fazer hoje não é brincadeira. Mas aí continuou a coisa.

 

P1 - E aí o senhor cresceu __________.

 

R - Aí eu nasci e morreu o presidente da Companhia Litográfica Ipiranga, que era o doutor Alfredo Rachembach, e assumiu o irmão, que não se dava com meu velho padrinho. Então, teve uma briga, ele como diretor e o outro, como presidente, era dono. Aconteceu que o meu padrinho se desligou da Companhia Litográfica Ipiranga. Quando ele se desligou, a Rhodia foi tão honesta com ele - uma coisa que não existe -, chegou para ele e falou: "Você sai, mas os pedidos que nós vamos fazer saem em nome de Cássio de Queiroz, e não da Companhia Litográfica Ipiranga. E você vai dar para quem quiser." Isso durou 50 anos. Os pedidos saíam em nome de Cássio de Queiroz; depois ele colocou o nome do meu pai embaixo: José Inácio Machado Barbosa. Aí depois ele me colocou. Mas ele foi me moldando, desde pequenininho, para lidar com a Rhodia. Ele foi me ensinando tudo. Eu, quando tinha sete anos de idade, sabia todos os nomes dos produtos da Rhodia, sabia tudo...

 

P1 - Quais eram os produtos da Rhodia quando o senhor tinha sete anos?

 

R - Ih, meu Deus do céu. Pasta Cetilarzan, Gardenal... Nossa! (Escoruciline?)... Nossa Senhora! Tinha tanta coisa. Então, ele foi me ensinando tudo isso e um dia... Eu não tinha previsto que ele estava me preparando para assumir o lugar dele, mas ele foi fazendo a coisa... Ele tinha muita cabeça, era muito culto, muito inteligente. Quando chegou um dia, ele falou: "Filho, você vai começar."

 

P1 - Que idade o senhor tinha?

 

R - Quinze anos.

 

P1 - E o senhor tinha estudado em que escola, como foi?

 

R - Eu estudei no Colégio São Luís. Inclusive, duas semanas atrás, nós tivemos um almoço dos ex-alunos, dos 50 anos. Foi uma tremenda bagunça. Eu era o mais pobre do Colégio... porque lá só tinha rico.

 

P1 - E foi o seu Queiroz que possibilitou...

 

R - Não. O meu pai tinha um irmão, tio Paulo, que era padre, e foi reitor do colégio. Então, por isso, eu tive acesso ao Colégio São Luís, que era a nata da sociedade de São Paulo. Então, não tinha ninguém... não tinha jeito, eu entrei no colégio. Tanto é que eu fui agora no almoço deles, eu fui de táxi. Deixei meu carro em casa porque lá só Mercedes, BMW, segurança; então eu falei: "Eu vou de táxi porque fica muito mais bonitinho." Ah, Matarazzo...

 

P1 - E o senhor estudou lá?

 

R - Estudei lá. Aí eu comecei. Ele tinha combinado com um diretor da Rhodia que me desse uma trombada. Foi tudo combinado e eu não sabia, depois fiquei sabendo. Esse diretor da Rhodia chamava André (Ramonoulu?), que se tornou depois o meu melhor amigo, melhor amigo. Ele foi diretor superintendente de todas as “Rhodias” e se tornou o meu melhor amigo. Quando eu cheguei na Rhodia, com 15 anos, eu não tinha prática, não tinha... Eu cheguei com aquela vivenciazinha pequena do que eu escutava no telefone, do que escutava ele falar, ele chegou e me veio com uma lista de produtos que as empresas que nós trabalhávamos estavam atrasadas para entregar e eu não sabia o que fazer. Eu tomei o maior ralo da vida, fiquei verde, mas não abaixei a cabeça. Eu respondi para ele: "Olha, eu vou ver o que vou fazer para o senhor e lhe trago essa resposta ainda hoje."

 

P1 - O senhor começou a trabalhar na Rhodia?

 

R - Com a Rhodia.

 

P1 - Com a Rhodia, mas com o seu padrinho?

 

R - Isso. Sempre com ele, mas a Rhodia era dele. Aquilo era dele, ele era o primeiro fornecedor da empresa e aquilo ele não largava de jeito nenhum, então eu tinha que trabalhar para a Rhodia.

 

P1 - Então a Rhodia fazia para o seu Queiroz o pedido de que embalagens precisava, e ele ia procurar as gráficas?

 

R - Exatamente. Para você ter uma ideia: ele teve na mão uma Rhodia durante 45, 50, 60 anos. Ele poderia ter feito, se fosse um homem desonesto, ele poderia ter feito uma fortuna incalculável porque era ele que punha o preço. Quando ele morreu, deixou a única casa que comprou na vida e 200 mil réis na carteira. Ele deixou a casa para mim. Foi a única coisa que ele deixou, mais nada. Ele podia ter tido uma vida de Nababo e ele me ensinou isso.

 

P1 - Então, o primeiro trabalho, o senhor tinha 15 anos e uma lista para resolver. Foi isso?

 

R - Aí eu voltei para as gráficas - eram seis gráficas que ele representava.

 

P1 - O senhor lembra os nomes?

 

R - Tinha a Brasil Gráfica, Indústria Brasileira de Impressão, Companhia Litográfica Ipiranga, Nicolini, Arruda Castelões e tinha a Gráfica Relevo São Paulo. Ele fazia, inclusive, os cartões da diretoria da Rhodia, aqueles cartões de relevo, antigos. Eram seis gráficas, mas eu corri no mesmo dia as seis gráficas, dei ralo em todo mundo. Do mesmo jeito que eu tomei ralo de manhã, dei ralo em todo mundo. Peguei tudo por escrito, no dia seguinte eu cheguei... o doutor (Ramou?) não atendia. Imagina, o doutor (Ramou?) atender um moleque de 15 anos. Eu cheguei: "Eu quero falar com ele." Nesse tempo, quem era a secretária dele era a dona Vilma, que depois se tornou esposa dele. Ela falou: "Mas, Barbosinha, eu não posso fazer isso." Eu falei: "Mas a senhora tem que dar um jeito". Ele escutou e falou: "Manda esse moleque entrar aqui!" Eu entrei, levei tudo para ele. Ele se levantou da mesa dele e falou: "Parabéns. Gostei de ver isso aí. Garoto, tu tem futuro. Continua assim." E aí começou.

 

P1 - E aí o senhor começou a trabalhar...

 

R - Direto.

 

P1 - E aí o senhor estudava uma parte do dia, como era?

 

R - Estudava uma parte do dia...

 

P1 - Onde?

 

R - No São Luís, depois eu saí e fui para o Santo Agostinho. Já não era mais aquele ambiente, era um colégio bem mais inferior. Aí começou a engrenar demais, entrou Rhodia Têxtil, Rhodia (Merier?), Rhodia Isso, Rhodia Aquilo. Era o dia inteiro. Eu cheguei para o meu pai, para o meu padrinho e falei: "Vou parar. Eu vou ficar só com o trabalho." Meu padrinho e meu pai falaram: "Você que sabe. Só que tem uma coisa: daqui por diante, você assume tudo." 

 

P1 - E o seu pai trabalhava com o seu padrinho?

 

R - Trabalhava, inclusive junto comigo. Mas ele estava louco para passar a bola para mim. O negócio dele era pescar em Mato Grosso. Ele tinha um bruta de um rancho lá e o negócio dele era pegar a varinha, o barco dele e ir pescar. Então, os dois resolveram passar a bola para mim. Passaram a bola e eu assumi tudo. Quando eu assumi, eu tirei as outras cinco gráficas.

 

P1 - Isso em 1954?

 

R - Isso. Quando eu assumi de vez, mais ou menos em 1955, que eu já tinha autonomia de tudo, aí eu tirei a Brasil Gráfica, tirei as outras gráficas todas e fiquei só com a Nicolini.

 

P1 - Por que o senhor fez isso?

 

R - Porque a Nicolini tinha o melhor padrão de qualidade, não mentia nos prazos de entrega, me atendia, me ouvia. Aí eu fiz amizade com os donos da Nicolini, e muita amizade com um dos donos dela, que foi, meu Deus do céu, um dos melhores amigos que eu tive. Tudo o que era da Rhodia, que era meu, trabalho meu, era atendido. Então, a Rhodia era paparicada. Quando teve uma fase, por exemplo, que não é do tempo de vocês, é claro, a fase difícil do papel e do cartão, ninguém - Fontoura, Bayer, todos os outros laboratórios, Pfizer... começaram a parar porque não tinha embalagem. E nós, para a Rhodia, criamos um estoque e a Rhodia foi redondinha. Tanto é que... Vocês entrevistaram o doutor João Domingues, né? O doutor João Domingues... Eu cheguei para ele e falei: "Doutor João, faz um programa para um ano porque nós vamos escorar essa paulada." Ele falou: "Vou fazer o levantamento já." Em três dias ele deu o levantamento do ano da Rhodia, a Rhodia não ficou um dia sem receber material.

 

P1 - Eu queria falar um pouco com o senhor sobre que cara tinha esse material. Antes de o senhor entrar adolescente, ele era colorido, quem desenhava, como era?

 

R - Era engraçado. Não tinha um padrão como tem hoje. A Rhodia, por exemplo, hoje é o azul internacional da Rhodia, o vermelho, que é obrigatório brasileiro e, de vez em quando, tem a tarja preta, mas o que vale é o azul. Naquele tempo, não. Tinha um cartucho vermelho, um amarelo, um cor-de-rosa, um verde, que era a pasta (Certilarzan?), que era a melhor pasta de dentes do mundo... eu não sei como é que a Rhodia tirou isso de linha.

 

P1 - Nós achamos os displays da pasta. Tá em uma vitrine.

 

R - Não teve pasta igual não vida. Não sei como é que a Rhodia tirou isso. O custo era tão alto porque o produto era tão bom, não tinha competitividade. A Colgate e a Kolynos açambarcaram.

 

P1 - E esse material, quem desenhava era alguém de dentro da Rhodia ou isso estava entre as suas atividades? Como era?

 

R - A maior parte desse material era feito dentro da Nicolini, inclusive meu pai.

 

P1 - Claro, porque ele tinha sido desenhista.

 

R - Eu já sou um metido a desenhista, só que eu não podia desenhar perto do meu pai porque me dava vergonha. Perto dele eu era uma porcaria. Mas ele criou muita coisa para a Rhodia.

 

P1 - O senhor se lembra de alguma coisa que ele tenha criado?

 

R - Na parte do lança-perfume tinha um desenho de um... Eu não me lembro bem, mas parecia um anjinho com um lança-perfume, que foi ele que fez. Aquilo ficou marcado. O doutor Henri Sannejouand olhou aquilo: "Gostei." E ele fez por fazer, não foi encomendado para ele. Ele tinha mania de sentar-se à noite, pegar a cervejinha dele, os bicos de pena...

 

P1 - Ele fazia a bico de pena?

 

R - Fazia a bico de pena, tela, lápis, tudo. Ele era muito bravo, como desenhista. Agora, como representante comercial, ele deixava muito a desejar. Tinha um troço marcado, ele falava: "Eu acho que agora eu não vou." E não ia. Se os amigos dele resolvessem dar uma pescaria, ele ia mesmo. Largava tudo para trás. Ele não se importava muito, não. Por isso eles fizeram questão que eu assumisse. Tanto é que eu estou há 45 anos na Nicolini, eu nunca tive férias. De vez em quando eu saio cinco dias, seis dias, mas nunca tirei aqueles 30 dias que todo mundo tem.

 

P1 - Então, o seu contato com a Rhodia, pelo menos nesse primeiro período, a parte da criação estava por conta disso também. A Rhodia pedia uma embalagem, mas que cor ia ter, que jeito ia ser, vinha da gráfica?

 

R - De vez em quando... Naquele tempo a Rhodia... Era dito pelos franceses para os brasileiros: "Vocês não levantem a crista porque a Rhodia é dos franceses." Brasileiro não tinha vez. Só tinha francês em tudo quanto era lugar: chefia, gerente, diretorzinho, diretorzão. Era só francês, não tinha brasileiro. Depois de algum tempo que os brasileiros começaram a mostrar o nariz lá. Eles inventavam alguma coisa e admitiam sugestões. Aqueles franceses eram pessoas maravilhosas. Eu me lembro no meu tempo de garoto, na minha casa, as reuniões, as festas, só tinha francês, era tudo da Rhodia, tudo da Rhodia: doutor Henri Sannejouand, doutor (Blanc?), doutor (Vingnon?), du Bois, (Ramou?), era só francês. Meu padrinho falava muito bem francês, então era aquela francesada na minha casa, que eu vou te contar. E eu era pequenininho, eu ficava no meio deles. 

 

P1 - E as festas que tinha na Rhodia, por exemplo, convescote e tal, o senhor ia? 

 

R - Ia.

 

P1 - Como era?

 

R - Eu ia pela mão do meu padrinho.

 

P1 - Ele levava o senhor.

 

R - Para começar, quando eu era pequenininho, bem pequenininho, o escritório central da Rhodia era na Benjamin Constant. Era um escritorinho mixuruquinha. E o meu padrinho falava: "Eu vou te comprar uma camisa, você vai comigo e fica sentado no banco, esperando." Eu de calça curta, pequenininho e ele entrava para falar com os diretores da Rhodia. E eu me lembro, naquele tempo, tinha acabado a Segunda Guerra Mundial, eu levava no bolso o meu soldadinho de chumbo. Eu ficava brincando ajoelhado no chão, em cima do banco. Ali eu conhecia as velhas senhoras da Rhodia, os velhos diretores, todo mundo vinha conversar comigo porque eu ficava ali brincando.

 

P1 - Então, para eles, o senhor vai ser sempre o Barbosinha?

 

R - Ah, eu nasci Barbosinha e ficou, não tem papo. Quer parar?

 

P2 - Não, está saindo _______ dele.

 

R - Ah, tudo bem, então deixa ele paradinho aí.

 

P1 - Então a gente estava falando da criação. Quer dizer, eles tinham ideias, mas aceitavam as ideias...

 

R - Aceitavam. Eles eram muito abertos, os franceses, muito abertos. Nesse ponto, eles eram muito abertos, muito livres.

 

P1 - E essas festas que o senhor participava, tinham que cara, como eram?

 

R - Eram aquelas festinhas antigas. Aquelas festinhas antigas em que iam os chefões, os diretores e o único catatau metido à besta que ia era eu porque meu padrinho me levava. 

 

P1 - Mesmo o convescote não era uma coisa de se levar a família?

 

R - Não era. Era só marmanjada. Os franceses não levavam as mulheres.

 

P1 - E baile do 14 de julho, o senhor lembra algum?

 

R - Eu lembro, mas... Já faz tanto tempo. Não lembro, não. Aliás, eu não participei. Mas do resto eu participei de tudo. Tudo quanto era evento da Rhodia, tava lá, o moleque metido à besta.

 

P1 - Os eventos, em geral, marcavam o que?

 

R - Marcavam a inauguração de um galpão, de uma área. Tem uma fase até engraçada. Foi em 1960, se eu não me engano.

 

P1 - O senhor tinha vinte e poucos anos. Já tinha assumido.

 

R - Eu tinha 20 anos, eu estava recém-casado. A Rhodia estava construindo o laboratório novo da Farma, que era um monumento para aquela época, para o Brasil.

 

P1 - Por que?

 

R - Porque era um monumento, o suprassumo, para a época. Eu estava na sala do doutor (Ramou?), doutor André (Ramounulou?), tratando de um assunto dele. Isso era quase meio-dia. Ele falou: "Vamos na inauguração do laboratório." Eu falei: "Não estou sabendo." "Vai inaugurar agora, meio-dia, vai ter coquetel. Tira o paletó, põe no carro, tira a gravata e vamos para lá." Estava um calor danado. Eu cheguei lá com ele. Naquele tempo até office boy usava gravata, para você ter uma ideia. Ele chegou, olhou para todo mundo, do meu lado, olhou para todo mundo e disse: "Mas que história é essa de todo mundo usar gravata nesse verão? Vocês não estão na França. De hoje em diante está abolida a gravata na fábrica. É ordem minha." Não teve um que não arrancou aquilo. No dia seguinte, todo mundo de camisa esporte, todo mundo bonitinho de camisa esporte. E eu estava junto nesse dia. Esse dia foi histórico para mim porque ele aboliu a gravata. Na usina, ninguém mais usou. Aliás, o doutor João Domingues já vinha sem gravata. Pode perguntar para ele. Eu falo isso na frente dele. Ele foi o primeiro a ficar sem gravata lá: doutor João Baptista Domingues, que se tornou um grande amigo meu também. 

 

P1 - Voltando ao momento em que o senhor optou pela Nicolini. Só a Nicolini ficou prestando todos os serviços de gráfica para a Rhodia, é isso?

 

R - Só a Nicolini.

 

P1 - Conta um pouco como é essa empresa Nicolini, qual é a história dela?

 

R - Bom, para começar eu gostaria que vocês fossem fazer uma visita lá.

 

P1 - Com muito prazer, nós vamos.

 

R - Bom, a Nicolini, hoje, para você ter uma ideia, no campo de embalagens farmacêuticas, não tem ninguém que bata. É top de linha, não tem igual. Inclusive, é aqui pertinho. Eu faço questão de fazer um convite para vocês.

 

P1 - Com muito prazer.

 

R - É uma... Como é que a gente pode falar? Eu, com 45 anos de profissional, posso te dizer que é uma senhora gráfica. É a mais respeitada do Brasil, é uma empresa que preza pela qualidade, pela pontualidade. É por isso que está na Rhodia até hoje e tem clientes como a Bayer, que não larga, Pfizer, Schering...

 

P1 - Como era a Nicolini na época do seu padrinho? Como nasceu essa empresa?

 

R - Eu tenho a história dela para você, se você quiser. Ela começou como uma tipografiazinha pequenininha, com uma maquininha só. E foi crescendo, crescendo, crescendo, crescendo, aos pouquinhos, foi comprando uma máquina, o seu Luis Nicolini, que eu conheci muito também, era o presidente. Ela foi indo, foi indo, foi indo, foi comprando máquina, aí resolveu partir para a parte de embalagem.

 

P1 - Nessa época, a técnica era tipografia e lito, é isso?

 

R - Só. Não tinha outra coisa. Hoje você faz tudo no computador. Hoje você me dá isso aqui, eu ponho no computador, eu ponho em uma máquina, daqui meia hora eu estou imprimindo. 

 

P1 - Então ela partiu para essa parte de embalagem e era uma das empresas que fornecia para a Rhodia, é isso?

 

R - Isso. Da minha parte, eu fiquei só com ela.

 

P1 - Foi uma decisão sua? O senhor ainda era um menino, tinha entrado.

 

R - Eu cheguei em casa, chamei meu pai e meu padrinho e falei: "Olha, eu decidi que eu vou colocar tudo na Nicolini." Meu padrinho olhou para mim e disse: "Mas, filho, não é uma temeridade eles ficarem..." "Não. Eu não vou ficar à mercê desses caras. São todos mentirosos, prometem e não entregam. Onde eu tenho pontualidade e qualidade é na Nicolini. E eu vou passar." Meu pai virou e falou: "Eu topo." Meu padrinho falou: "Se você decidiu, tá decidido." 

 

P1 - O senhor tinha o que, 16 anos?

 

R - 16 para 17. Aí ele já estava com problema de andar, um problema na perna esquerda. Ele telefonou para o senhor Luis Nicolini, que era o dono da gráfica, e mandou ir lá em casa e explicou: "Barbosinha vai assumir tudo e ele quer mandar tudo para você. Você escora isso?" Ele falou: "Escoro." Ele falou: "Parabéns, Barbosinha. Daqui por diante você vai ver o que nós vamos fazer por você." E são 45 anos.

 

P1 - Além da embalagem, já existia material de propaganda?

 

R - Nossa!!!

 

P1 - Como é que era esse material?

 

R - Tudo. Por exemplo: eles iam lançar um produto novo, tinha os promocionais, era uma maravilha. E naquele tempo se usava muito - não tinha esferográfica, era tudo à caneta hidro, então se fazia o mata-borrão, que era distribuído nas escolas, tudo. O Vitaminer, por exemplo, se fazia sete, oito milhões de mata-borrões por mês para distribuir nas escolas.

 

P1 - O mata-borrão tinha marca de produtos Rhodia?

 

R - Tinha. Na parte da frente tinha o produto, as indicações, as coisas e, atrás, a criança usava como mata-borrão.

 

P1 - E tinha que formato isso?

 

R - Era mais ou menos 10 cm x 30 cm. Era isso aqui.

 

P1 - E era um rolo?

 

R - Não. Era uma folha, como uma folha de papel, aberta, como essa folha que está no seu colo.

 

P1 - O que vinha escrito?

 

R - A propaganda do produto.

 

P1 - Tinha figura?

 

R - Tinha, tinha crianças brincando, uma porção de coisas.

 

P1 - E isso era distribuído para o médico, para quem?

 

R - Esse, especificamente, era distribuído para as crianças nas escolas. O que era produto pediátrico, ia primeiro para as escolas, e para os médicos também.

 

P1 - Que outros produtos foram para as escolas? Eu vou lhe perguntar muito porque, da nossa pesquisa, tudo indicava que os materiais eram praticamente para os médicos. Então, esse fato que o senhor está contando para nós...

 

R - Tinha o Fenergan pediátrico.

 

P1 - E aí distribuía na escola, a propaganda?

 

R - Distribuía porque o Fenergan era um antialérgico pediátrico, que a criança tomava de colherinha. A Rhodia nunca teve muita coisa na linha pediátrica, nunca teve. Era o Vitaminer, o Fenergan pediátrico, o Gardenal pediátrico, que não ia para a escola porque o Gardenal é para epilepsia, então só ia para os médicos. Depois veio o Flagil, que era para as meninas, para uso vaginal, ginecológico, que também não ia para as escolas. Mas aí já é bem para cá. 

 

P1 - Tá. Isso do Vitaminer nas escolas era nos anos 60?

 

R - O Vitaminer nas escolas é de antes de 60.

 

P1 - Antes de 60. E era um mata-borrão?

 

R - Era mata-borrão, tinha folhetos, encartes, de todo jeito.

 

P2 - O (Certilarzan?) também tinha esse mesmo material?

 

R - Tinha, tinha. Só que a pasta (Certilarzan?) não era uma pasta popular. Ela não era uma pasta que... Era por receita médica, praticamente, que o pessoal comprava. O dentista falava: "Usa pasta (Certilarzan?)", porque as outras eram muito fracas perto dela. Eu, por exemplo, passei toda a minha infância só usando pasta (Certilarzan?); eu tenho todos os dentes, ó. Tudo meu. Eu não sei se foi a pasta (Certilarzan?), mas eu acredito que sim. E eu estou com sessentinha, né?

 

P1 - Tem esses produtos de distribuição direta ao público, à criança. No início, na época em que o senhor ainda era criança e na sua entrada, como era o material para médicos? O que o senhor se lembra?

 

R - Do que a Rhodia distribuía para os médicos?

 

P1 - É. Que cara eles tinham? Tinha desenho? Como era?

 

R - Eram as campanhas de amostra. Por exemplo: você tem esse cartucho aqui, que é de venda. O de amostra era todo desenhado, cheio de rococó. Esse aqui tem 20 cigarros, o deles tinha 20 comprimidos, mas o de amostra tinha dois comprimidos. Isso ia totalmente para a rede médica. Toda a rede médica.

 

P1 - E a amostra era mais desenhada e tinha mais coisa que o próprio produto?

 

R - O produto para venda tinha uma, duas corres; o de amostra tinha cinco, seis.

 

P1 - Isso é porque já existia uma legislação que impedia fazer coisas muito coloridas no produto médico?

 

R - Não.

 

P1 - Ainda não tinha tarja, nada disso?

 

R - Não. 

 

P1 - Era escolha da Rhodia fazer...

 

R - Aliás, todos os laboratórios usavam a parte de amostra toda cheia de rococó, parecia um cosmético. Para o médico olhar aquilo e gostar, para ver se influenciava o médico, coisa parecida. Era assim.

 

P1 - Mudou alguma coisa na cara, no tipo de embalagem? Por exemplo, depois da transformação do (Depesp?) na Rhodia Farma? Ou, no que diz respeito aos produtos gráficos, sempre foi meio parecido?

 

R - Essa parte toda gráfica não para, tem uma evolução impressionante. De tempos em tempos, de repente, muda completamente.

 

P1 - Que mudanças o senhor acha que foram marcos desse desenvolvimento?

 

R - Em 1973, 74, a Rhodia resolveu pôr uma cara nova em todos os medicamentos. Então, eles nos deram a incumbência de criar. E nós criamos. 

 

P1 - E o que vocês criaram?

 

R - Nós criamos uma embalagem que tinha o azul, o preto e uma tarja ouro. Então, mudou completamente a fachada da coisa, mudou tudo, não tinha mais nada a ver. Levamos para eles, eles aprovaram e nós tocamos em linha. Depois de uns tempos, a coisa começou a ficar difícil porque o custo de uma cor a mais é 10% no preço do cartucho. Então, eles começaram a puxar o freio de mão. "Vamos ver se cortamos uma cor." Tiramos o ouro. Continuou como estava. Aí apareceu gente nova na Rhodia, gente de marketing, gente querendo inventar...

 

P1 - Já é anos 70?

 

R - Aí a Rhodia começou a inventar. Para você ter uma ideia, no nosso estúdio, nós tínhamos 27 desenhistas.

 

P1 - Na Nicolini?

 

R - Na gráfica. Por causa dessas mudanças que houve nos laboratórios, em que todo mundo começou a criar o próprio, simplesmente esse setor da Nicolini desapareceu. Nós tínhamos craques de desenho. Nós tínhamos homens, ali, que não era brincadeira. Gente de tirar o chapéu para o mundo.

 

P1 – Então, era comum que laboratórios e outras empresas entregassem para a gráfica inclusive a parte de criação, até os anos 70?

 

R - Aí começou a aparecer as empresas que fazem fotolito, de arte-final etc. Eles já faziam tudo. Aprovavam com a Rhodia, a Rhodia mandava em uma empresa de fotolito, era feito o fotolito, e já vinham os filmes prontos para nós. Quando chegava na minha mão, o filme estava pronto. 

 

P1 - Até quando que foi litografia?

 

R - Ah, faz muitos anos. Eu acredito que em 61, 62 já não tinha mais.

 

P1 - E aí começou o processo de fotolito?

 

R - Tinha, tinha, mas não se usava. Você não tinha registro. Você via aquelas impressões, mas parecia que você estava de fogo.

 

P1 - Aí passou a ser fotolito. A Nicolini passou a fazer fotolitos?

 

R - Aí ela criou o setor de fotolitos. Hoje ela tem o maior do Brasil. Nós temos uma máquina hoje que nem o Estadão nem a Veja têm; chama-se computer to plate. A máquina fica em um lugar que dá quatro salas dessa daqui. É uma máquina relativamente pequena, mas ela tem 39 terminais de computador. Eu tiro uma foto dele ali, dou para ela, acabou o problema. Agora, se eu quiser tirar uma ruguinha dele ou uma pinta, tem 39 caras ali. "Tira. Melhora. Puxa um pouco o olho dele." Faz o que quiser. "Acabou? Tá pronto? Tá aprovado? Tira uma cópia." Vai para a chapa. A chapa... As chapas normais de todas as gráficas são planas. Essa entra na vertical, é virada, volta, entra em uma câmara escura, dá a volta, sai prontinha. Uma chapa pronta leva, no mínimo, uma hora para ficar pronta. Nós levamos dois minutos. Pronta, perfeita. Só que não tem erro. Não existe erro. Por exemplo: você tem uma retícula... Você sabe o que é retícula? A cor da blusa dela...

 

P1 - Tem tanto de azul, magenta e amarelo...

 

R - Isso, então você vai pôr 10%, 20% etc. Aquilo sai exatamente igual ao que você quer.

 

P1 - Então, quando houve essa mudança, a Rhodia passou a ter um departamento, uma área que fazia a criação?

 

R - Exatamente.

 

P1 - E aí ela começou a ter mais um serviço que ela contratava que era de fotolito, ou a Nicolini assumiu essa parte também?

 

R - Hoje em dia, o fotolito é feito na Nicolini.

 

P1 - Tá. Mas, na época, nesse primeiro momento...

 

R - Tinha vários fornecedores.

 

P1 - Nos anos 70, justamente coincide com o que a gente vem levantando, houve uma área que produzia, desenhava, injetava e teve alguns materiais que ficaram famosos, como, por exemplo, as reproduções do Masp e algumas outras coisas, coisas desenhadas pelo Ziraldo, e tal. Como eram esses materiais? O que o senhor se lembra disso?

 

R - Isso era feito tudo fora. Era encomendado. A Rhodia não participava; ela pagava, só.

 

P1 - Ela pagava para alguém criar.

 

R - Exatamente.

 

P1 - Aí entra uma agência de propaganda?

 

R - Ah, não tenha dúvida. Entrava agência de propaganda, entrava desenhistas, pesquisadores. E a Rhodia pagava, não queria saber de nada. Aí, na hora de imprimir, ela passava para a gente e nós imprimíamos. Quando estava tudo pronto, tudo montado, vinha para nós. Nós não participávamos, só da produção.

 

P1 - Nos anos 70, quando vieram essas mudanças, o que mudou na cara do material, como ele era? 

 

R - Nos anos 70 começou a época do cosmético na Rhodia. Pega um cinzeiro para você ali. Cinzeiro é o que não falta nessa casa porque eu fumo três maços por dia. Três, não digo, mas dois, eu fumo. Em 70 começou uma época áurea da Rhodia no campo da embalagem, que foi o cosmético. Naquele tempo, quem começou o cosmético foi o doutor (Barbe?), doutor (Valfre?), que eram chefiados pelo doutor (Ramou?). Então, ele me chamou e me disse: "Assume todo o cosmético. Não quero ninguém fornecendo aqui." Eu o chamava de seu Rhodia, de tão amigo que ele se tornou; era um pai para mim. Eu falei: "Seu Rhodia, pode deixar comigo, eu vou assumir." Então, aquilo era uma loucura. Você tinha que fazer... Olha, é uma frase fácil de falar... Das tripas, coração, para conseguir sobreviver ali, para fornecer para a Rhodia.

 

P1 - Porque muda muito rápido, né?

 

R - Eles tinham um sistema que se chamava Demo, era Demonstração. Eles tinham 47 mil vendedoras. Cada vendedora levava 20 cartuchos. Faz a conta. Para demonstração.

 

P1 - Dá 800 mil, mais ou menos.

 

R - Cada lançamento era três, quatro milhões de cartuchos. Cada lançamento. E ela tinha que fazer em 15 dias. E não era um cartucho como o do campo farmacêutico, era de quatro, cinco, seis cores, (hot stamping?), relevo, cartão laminado - que você não pode imprimir rápido, a máquina tem que ir muito lenta porque o cartão laminado não passa. E era a cada 15 dias. A cada 15 dias tinha um Demo. Aconteceu um fato muito engraçado. Eles fizeram um Demo de uma loção de barbear, que era um cartucho com o formato de uma granada. Era uma granada. O produto ia dentro de uma granada, só que era de vidro, claro, e o produto ia dentro. Era uma loção de barba e o lançamento foi feito... Nossa! Foi um troço. E a parte externa, que era o cartucho que eu fazia, era cor de madeira. Fizemos três, quatro milhões de cartuchos, entregamos. O troço deu tão certo, a venda foi tão grande que, depois de uns dez dias, a Rhodia falou: "Repete." E nós tocamos na máquina. Acontece que deu uma reversão na tinta com o verniz e o cartucho normal começou a passar no verniz e ficava verde. Nós, com quatro milhões de cartuchos prontos, para jogar fora, né? Eu falei: "Apronta uns 50 para mim, eu vou levar para a Rhodia para mostrar para eles que não é má vontade, que não é nada de errado. Aconteceu, deu um problema. A tinta e o verniz deram esse bode." Eu cheguei na Rhodia, chamei o doutor (Barbe?), doutor (Valfre?) e falei: "Olha, o que aconteceu." Expliquei tudo. O doutor (Barbe?) virou para mim e falou: "Sabe que eu achei mais bonitinho? Pode entregar." Eu falei: "Não acredito." "Quantos cartuchos você tem prontos lá?" "Quatro milhões." "Pode entregar." "Não acredito." Telefonei para a Nicolini e falei: "Põe esses cartuchos no caminhão e vem embora." Ninguém acreditou. Foi de cor de madeira para verde e a Rhodia topou porque achou que ficou bonitinho. Você vê, tem essas coisas na vida da gente, né?

 

P1 - As embalagens, o material de propaganda da Rhodia, eram parecidos com os das outras empresas farmacêuticas? Ele tinha diferença?

 

R - Eram parecidos. Todos são muito parecidos. Você pega um produto da Rhodia, da Johnson, da Bayer, só muda um pouco o tom do azul de um e de outro. É tudo muito parecido. Dentro do campo farmacêutico, hoje em dia, está tudo muito parecido.

 

P1 - E sempre foi assim?

 

R - Não.

 

P1 - Como era antes?

 

R - Era tudo diferente. Um era uma coisa, outro era outra. Era completamente diferente. A Rhodia, por exemplo, da Bayer, do Fontoura, não tinha nada a ver. O Fontoura era marrom, a Rhodia era vermelha. Agora não, agora foi padronizando. A Rhodia, hoje, está com 90% da área farmacêutica com uma cor só; aboliram, inclusive, o preto. Nós estamos fazendo a parte impressa dos dizeres, por exemplo, xarope Fenergan pediátrico, está indo em azul, quando antes vinha em preto. 

 

P1 - E esse material que acompanha o medicamento sempre foi assim ou sofreu modificações?

 

R - Vou te falar: medicamento não para de mudar.

 

P1 - Como é que é?

 

R - Por exemplo, nós estamos fazendo, hoje, o material de todos os laboratórios. 70% dos laboratórios do Brasil estão conosco. Vai mudar tudo agora. Agora vai entrar o nome genérico, vai mudar tudo. E agora vai ser obrigado ter a raspadinha, por causa da falsificação. Agora, pergunta para mim o que eu acho da raspadinha.

 

P1 - O que o senhor acha da raspadinha?

 

R - Eu vou te falar uma coisa: nós temos, lá, uma impressão no verso com uma tinta invisível, que você raspa e vai descobrir o logotipo. Nós temos uma impressão que você coloca o produto dentro da geladeira e ele aparece; temos a raspadinha. Acontece que os caras falsificam nota de 100 dólares, eles não vão falsificar uma porcaria de um cartucho? Então, não adianta nada. O que adianta é a fiscalização, as farmácias não comprarem de quem não dá nota, de fontes boas...

 

P1 - Quer dizer, na verdade, todas essas regras estão atingindo em cheio a embalagem do produto farmacêutico, só isso.

 

R - Olha, por exemplo: você vai fazer uma raspadinha em um cartucho desses... Ele é leigo, ele diz: "Eu quero um Free." O cara dá um Free para ele, ele compra. Agora, ele vai raspar para ver se... ele não vai saber nem onde. Vai ser uma segurança, talvez, para o laboratório que fabrica, ou então para mim, porque eu vou fazer minha, escondida de todo mundo. A minha, ninguém vai ver onde está. O cara vai falar: "Escuta, a Rhodia está vendendo Fenergan com cartucho falsificado." Ele vai trazer e falar: "Está aqui." Aí eu vou raspar onde está a minha marca. Aí eu vou mostrar: "Esse aqui é meu, esse não é meu." E já falsificaram cartucho meu, lá no Nordeste, e foi do Fenergan, inclusive. O produto tinha água, açúcar e farinha. Só que, quando abriram, viram que não era nosso. Aí é uma segurança para o produtor do cartucho e para a indústria farmacêutica, mas para ele não, para você não, para mim não. 

 

P1 – Mas, para mim, vai sair mais caro.

 

R - Vai sair mais caro. A raspadinha é uma besteira que o senhor Serra fez, que não tem tamanho.

 

P1 - Seu Barbosinha, então vamos voltar aqui para a Rhodia.

 

R - Escuta, dá uma paradinha aí, vamos pegar uma cerveja para a gente tomar.

 

P1 - Eu queria falar um pouco sobre o material promocional para médicos e para a amostra grátis. Como é que era isso antigamente? Isso mudou, isso continua igual? Como era esse material que é enviado ao médico?

 

R - É a mesma coisa que era. Mesma coisa, não mudou nada. Por exemplo: você tem um lançamento de produto, uma novidade, a indústria farmacêutica tem uma novidade, então ela coloca tudo no promocional, e o PV - Propagandista Vendedor - vai até o médico e demonstra. Lá ele deixa aquele promocional e deixa umas amostras. É isso que ele faz.

 

P1 - Mas o que acompanha essa informação, mudou com o tempo, não mudou?

 

R - Não mudou muito, não, porque não tem como sair.

 

P1 - Mas foi uma moda, por exemplo, fazer gravura do Masp, dar esse tipo de brinde. Os brindes mudaram?

 

R - Mas aí você já entrou em outro campo.

 

P1 - Então vamos falar desse campo. O que mudou no que se presenteava?

 

R - Essa parte de brinde não está muito ligada no promocional da área farmacêutica. Eu vou procurar, vou achar e vou emprestar para vocês... A Rhodia tem um promocional que foi a coisa mais cara e mais linda que se fez no Brasil até hoje.

 

P1 - O que era?

 

R – Chamava-se "Lendas Brasileiras". Eu tenho uma guardada aí, mas quando nós mudamos para cá, eu e minha mulher colocamos tudo em caixas.

 

P1 - Nós tivemos acesso a um do Eduardo Valente Simões, um exemplar dele, das Lendas. É quase quadrado, é isso?

 

R - É grande.

 

P1 - Ah, não, a gente tem o pequeno. Conta para nós sobre esse grande.

 

R - O grande tem duas versões: tem a versão clássica das lendas, feita pelo Nelson de Moura, que era nosso desenhista, e a moderna, que era feita pelo Fred Jordan, que é o cara que faz as nossas folhinhas, que, aliás, vocês vão levar uma, cada um, hoje. Então, por exemplo, uma das lendas em um tipo e outra, no outro. Tá aqui. Então, são 12 lendas. É dessa grossura e desse tamanho. Tudo feito em relevo. Foi o trabalho mais caro que a Rhodia já fez até hoje. Nós levamos quatro meses fazendo.

 

P1 - E isso era distribuído para os médicos?

 

R - Não só para os médicos. Foi distribuído para muita gente e foi para o mundo inteiro.

 

P2 - Eram desenhistas da Nicolini?

 

R - Da Nicolini. Foi criado dentro da Nicolini.

 

P1 - O que mais o senhor se lembra de coisas desse tipo?

 

R - Eu me lembro de tanta coisa que não é brincadeira.

 

P1 - Então vamos falar, porque é o senhor quem sabe essa história e vai contar para nós.

 

R - Esse das Lendas Brasileiras é...

 

P1 - A gente chegou a ver um pequeno.

 

R - Esse é grande. Eu vou achar e vou emprestar para vocês, se vocês quiserem fotografar, eu vou emprestar para vocês. Eu tenho que procurar. Outro dia eu precisei de um livro aí... Nós estamos fazendo um museu na Nicolini sobre as artes gráficas. Posso contar uma historinha curta?

 

P1 - À vontade. O senhor pegou alguém que adora esse assunto: sou eu.

 

R - Meu avô tinha mania de fazer letras góticas. Ele gostava de escrever em letras góticas. Ele era do governo e teve um amigo que foi para a Europa. Isso foi no outro século, viu? E foi e viu um conta-fios. Sabe um conta-fios? É uma lente para você ver a retícula. Minha mulher chegou.

 

P1 - Boa tarde.

 

R - Bem, senta aqui. 

 

P1 - Então vamos lá. Como era o conta-fios?

 

R - Então, esse senhor, que era amigo do meu avô, comprou o conta-fios. É o menor conta-fios que eu já vi na minha vida. Ele é desse tamaninho, ele arma e fica desse tamaninho, uma belezinha. Ele veio, trouxe e falou para o meu avô: "Toma, de presente para você. Eu sei que você não tá enxergando mais direito. Toma o conta-fios para você." Ele pegou e ficou com o conta-fios. Como ele era muito amigo do meu velho padrinho, Cássio Queiroz, depois de um tempo, não estava mais fazendo as letras góticas. Ele falou: "Você, que trabalha com gráfica, toma o conta-fios de presente." O conta-fios é de 1890. Aí, meu padrinho ficou com ele, andava com ele no bolsinho da calça. Ele andou, acho que, uns 50 anos com aquilo. Um dia, ele chegou para mim e falou: "Filho, toma, é seu." Eu falei: "Ôpa!" Perfeitinho, não estraga, né? E agora eu dei de presente para o (Helmut?), que é o presidente da Nicolini, o dono da Nicolini. Eu dei de presente para ele, para o museu que nós estamos fazendo. E eu tinha aqui guardado, o do doutor (Vignon?), que era diretor superintendente da Rhodia Têxtil, muito amigo do meu padrinho. Ele foi para a Europa e comprou em uma exposição de arte dois livros sobre as artes gráficas. Mas são dois livros dessa grossura, desse tamanho. Chegou aqui no Brasil e entregou de presente para o meu padrinho. Ficou guardado em casa e ele falou: "Esses livros são seus." E agora eu dei para o museu. Se você quiser fotografar, quiser ter acesso, eu garanto para vocês que eu abro para vocês lá. O (Helmut?) é muito meu amigo. 45 anos de Nicolini, já viu, né?

 

P1 - Em algum momento, o senhor, que representava mais de uma gráfica, escolheu só a Nicolini. Houve um momento em que o senhor foi contratado pela Nicolini e passou a fazer parte do quadro?

 

R - Nunca.

 

P1 - Nunca. O senhor sempre foi representante?

 

R - Sempre fui autônomo, sozinho. Nunca tive ninguém mandando em mim.

 

P2 - O senhor manteve o escritório do _________...?

 

R - Mantive. Mas aí depois a Nicolini cresceu muito, mudou, expandiu. Aí, construíram um baita de um escritório para mim. Eu tinha a minha sala com ar condicionado, o escambau todo lá.

 

P1 - Outros materiais, que o senhor acha importante a gente pontuar nesse seu depoimento, que a Rhodia fez? O senhor falou do Lendas Brasileiras. Que outros a gente poderia falar, que é importante?

 

R - Mais importante é o das Lendas Brasileiras. As Lendas Brasileiras é o mais importante que a Rhodia fez na história. O que a Rhodia fazia a cada dois anos era o memento.

 

P1 - Ah, isso é importante. A gente viu alguns.

 

R - O memento médico, éramos nós que fazíamos para a Rhodia. Teve um deles que a Rhodia quis sofisticar tanto, que quiseram fazer em papel-bíblia. Nós tivemos que importar esse papel. Quando chegou aqui, nós recebemos, estocamos, mas deu problema na Rhodia e a Rhodia não pode continuar com o memento. E nós ficamos com o papel-bíblia. Nós íamos fazer o que com aquilo? Só ia servir para aquele memento. A Rhodia falou: "Espera um ano, porque nós vamos fazer esse memento. Quanto custou o papel?" A Rhodia pagou, ficou estocado na Nicolini, escondido sobre lona, para ele não amarelar mais, então ele ficou no escuro. Aí, depois de um ano, a Rhodia fez o relançamento. Só que eu tinha todos esses mementos guardados em uma caixa que estava na minha sala e me roubaram. Ninguém sabe por que roubaram. Me roubaram todos. Eu tinha todos os mementos guardados.

 

P1 - Nós vimos dois ou três.

 

P2 - É de capinha marrom, não é?

 

R - Teve de capa cinza, nós fizemos com capa plástica, com capa vermelha...

 

P1 - Esse de capa plástica a gente chegou a ver. Nós estamos com um lá no Museu.

 

R - Os meus todos estavam guardados, todos numeradinhos, um em cima do outro, dentro de uma caixa, com os cartuchos antigos, dentro de uma caixa, guardados, não faziam mal a ninguém. Um dia, um cara arrombou o meu armário e levou tudo embora.

 

P2 - ____________.

 

R - Levou a caixa. Agora, qual é o motivo?

 

P2 - As outras publicações da Rhodia, a Nicolini fazia? Rhodia Jornal?

 

R - Rhodia Revista. A Rhodia Atualidades era nossa, nós que fazíamos.

 

P1 - Especialidades Médicas, Especialidades Farmacêuticas?

 

R - Tudo!

 

P1 - Para a gente ter uma ideia do alcance desse material, qual era a tiragem, por exemplo, de um Lendas Brasileiras?

 

R - Lendas Brasileiras, que eu tenho certeza absoluta, a primeira tiragem foi 30 mil de cada. Tinha a capa, em relevo, 24 encartes dentro, impressos em papel cuchê, relevo, tudo encapado, fechadinho com trava. Foram 30 mil. Deu tanto sucesso, foram feitos mais 40 mil. Olha, deve ter muita gente, muita casa que você for, você vai ver quadro das lendas brasileiras.

 

P1 - Um daquele da reprodução do Masp, por exemplo, que tiragem teve?

 

R - Não foi muita, não. Foram 30, 40 mil. Não foi mais que isso. Agora, essa não fomos nós que fizemos.

 

P1 - Não foi a Nicolini que fez?

 

R - Não, não, foi uma editora. Eu tenho uma aí, tenho uma guardada.

 

P2 - Em termos de experiência, teve algum momento em que a Nicolini fez embalagem, aí não deu certo? Teve algum tipo de experimentações que a gráfica participava, fazia exemplos, demonstrações?

 

R - Nós sempre fizemos criações. Agora, quando nós criávamos, era tudo dentro da linha de produção, era coisa que tinha que funcionar. Não adianta um desenhista fazer um troço que não funciona. É muito bonito para inglês ver. Agora, você chega na máquina, vai fazer 80 mil por hora, e não funciona?! Por exemplo, para você ter uma ideia, hoje, nós temos nove máquinas de colagem e fechamento. Cada uma delas fecha 80 mil cartuchos por hora. Então, você veja, por hora, o que se fecha de cartucho. Nós estamos fechando uma base de 90, 95, 97 milhões de cartuchos/mês. Só para você ter uma ideia, para a ___________, que faz o chiclete, nós entregamos 10 milhões de cartuchos por dia!

 

P1 - A compra da _______ pela Rhodia, por exemplo, houve alguma mudança? A embalagem da _______ passou a ser feita pela Nicolini?

 

R - Passou, uma boa parte. Só que a embalagem da _______ é diferente da Rhodia. Ela é cinza, meio cor de laranja e preta. A Rhodia, não, a Rhodia é azul e só.

 

P1 - O fato dos remédios no Brasil ficarem com preço controlado tanto tempo, qual foi o impacto disso nas empresas de embalagens de medicamentos? Simplificou alguma coisa, como foi?

 

R - Olha, eu acho que só atrapalhou porque as empresas fazem uma coisa hoje, pensando que não vai durar seis meses, porque daqui a pouco o governo vem e muda tudo. Você vê. Tudo o que está feito hoje, amanhã acabou, porque o senhor Serra quer a raspadinha e o nome genérico. Se você pegar qualquer embalagem farmacêutica de qualquer indústria, você vai ver lá, por exemplo, Fenergan, embaixo está escrito o genérico, na bula está escrito o genérico, no rótulo está escrito o genérico. Fenergan é nome fantasia, mas o nome genérico está lá. Agora, eles querem que coloquemos o nome genérico em cima e o nome fantasia embaixo. Já imaginou a perda? Agora, você sabe quanto vai custar a raspadinha para os laboratórios? 20%, no cartucho. E tem laboratórios que querem fazer a raspadinha e querem fazer o verso. Vai para 40%. Quem vai pagar essa conta? Você! Você que vai pagar porque vai todo mundo repassar. Ou você pensa que eu posso engolir esse preço? Não tem como. Para começar, nós temos duas máquinas para fazer a raspadinha. Para fazer para todo mundo, nós temos que importar mais 20. A matriz tem que ser feita na Alemanha. Você faz um rabisco para fazer o seu logotipo, aí nós temos que mandar para a Alemanha, aí a Alemanha faz e ela te manda a matriz. Ninguém mais pode mexer porque a Alemanha não deixa. Só que os caras aqui vão fazer igual. Eles vão copiar e vão fazer igual. Meu chapa, depois que falsificaram nota de 100 dólares, para mim não tem papo. Eu tenho 45 anos de gráfica. Eu vi uma nota de 100 dólares falsificada que, sem querer, o presidente da Nicolini comprou para fazer uma viagem e, no meio da viagem, no meio da compra, veio uma nota falsa que ele, pelo amor de Deus, hein, ele me chamou na sala e falou: "Barbosinha, vem ver um troço."

 

P2 - Ele que identificou a nota falsa?

 

R - Não, foi no banco. Eu fui na sala dele, ele pôs 50 notas de 100: "Barbosa, vê se você vê alguma diferença aí." Eu olhei, olhei, olhei, peguei na nota e não vi nada. "Tó, essa aqui é falsa." "Não acredito." Aí, depois, você pegando muito, uma com a outra, você chega lá. Mas quem é que vai descobrir isso como um leigo? Quem vai descobrir? Continua, eu estou falando muita bobagem.

 

P1 - Havia alguma influência da moda nas cores e no tipo das embalagens dos medicamentos?

 

R - Não. 

 

P1 - Isso não aparece?

 

R - Na área farmacêutica, não, mas na área de cosméticos tinha, e muito. Tinha muita influência. 

 

P1 - O senhor se lembra de alguma coisa especial?

 

R - Nos anos 70, por exemplo, teve uma fase do ano que estava na moda o cor-de-rosa. O que tinha de embalagem cor-de-rosa, você não acredita. Era tudo cor-de-rosa e branco, tudo cheio de rococó cor-de-rosa, principalmente para mulher.

 

P1 - Da relação com a Rhodia, que o senhor viu o seu padrinho ter, para a relação que o senhor tem hoje, o senhor acha que mudou? O que mudou na relação da Nicolini, fornecedora da Rhodia, em todos esses anos que o senhor manteve esse relacionamento?

 

R - Bom, para começar, a Zilda e quase todos morreram, daquela época. Então, aquilo era outra geração, aquilo parecia uma família.

 

P1 - Por que parecia uma família?

 

R - Porque era diferente. Hoje você é número. Por exemplo, a parte que eu sempre fiz a vida inteira foi cuidar de tudo da Rhodia. Por exemplo, eu chegava lá e precisava dar dez informações para a Rhodia, então eu corria em máquina, corria no setor de fotolito, de acabamento, de fechamento, de colagem. Hoje, não, hoje eu chego na Nicolini e falo: "Quero saber como é que está o Fenergan." A menininha faz assim, ó: "Tá no fechamento." "Vê quando entrega." "Amanhã, às quatro horas." Então, eu não entro mais, eu não vou mais. Tanto é que, hoje, quem faz essa parte do peão para mim é a Elaine. Se você quiser, eu telefono para ela vir aqui para você conhecer. Ela trabalha comigo, ela que visita a Rhodia. Eu vou só para resolver. Eu vou para os almoços, para os jantares, coquetel. E chega.

 

P1 - O que ela faz? Como é o cotidiano dela e como era o seu cotidiano? Que diferença tem?

 

R - Bom, o dela, ela faz a parte do peão, que eu sempre fiz, e a parte do empresário.

 

P1 - Qual é a parte do peão? O que faz o peão que fornece...

 

R - Você leva prova, traz prova, busca isso, dá informação, tem que correr para cá, correr para lá. Para você ter uma ideia, eu corria 200, 220, 230 quilômetros por dia, de automóvel. 

 

P1 - O senhor ia a Santo André?

 

R - Ia, voltava, ia, voltava.

 

P1 - O senhor levava a prova do...

 

R - Levava isso, levava aquilo, chegava aqui, tinha mais prova pronta, tinha coisa urgente para entregar depois de amanhã. Então, é isso que ela está fazendo hoje, ela é que está passando o aperto.

 

P1 - Há um cotidiano que permanece igual, mas o senhor falou que não é mais essa relação familiar. Era uma relação de confiança?

 

R - Totalmente. Totalmente de confiança. E tenho certeza de que a Rhodia nunca se arrependeu disso. 

 

P1 - Hoje, quando o senhor diz que: "Ah, mas é só um número", o que mudou nessa relação?

 

R - Hoje em dia o homem não é mais como antigamente. Hoje o relacionamento é muito barrado. Antigamente, não. A gente saía, todo mundo se abraçava, ia para o bar tomar chope. Tanto é que eu passei a minha vida inteira, os meus melhores amigos eram da Rhodia. Eu não tinha amigo fora, tinha um ou dois, o resto era tudo da Rhodia. Eu vou mostrar um álbum para vocês daqui a pouco...

 

P2 - Da GDB?

 

R - Não, da GDB, não. Quem fundou a GDB fui eu.

 

P1 - O que é GDB?

 

R - Gerência de Bebuns. Quem fundou a GDB fui eu, não sei se o Albino falou. (riso)

 

P1 - Eu não fiz a entrevista do Albino.

 

R - Fui eu que fundei. Então, todos os meus amigos eram só da Rhodia, eu só convivia com eles. A gente ia para o Itamaraty - naquele tempo todo mundo tomava chope -, de repente, embalava e falava: "Vamos todo mundo lá para casa?" Eu tinha um tremendo som: "Vamos escutar um Frank Sinatra, um clássico, qualquer coisa?" "Vamos." Iam 12, 13, 14. Minha mulher estava acostumada. Para ela não fazia diferença, ela subia com as crianças, ia dormir, eu fechava a porta, ela não escutava o som, mas ela estava acostumada. Chegavam 12, 15 caras em casa. Era comum isso. Não passava uma semana que não acontecesse. Agora, o chopinho era todo dia. Às seis horas, ninguém combinava nada com ninguém, eu era o primeiro a chegar no Itamaraty. Chegava, sentava, falava para o garçom: "Escuta, pode aumentar a mesa aqui." "Sim, senhor, seu Barbosa." Já começava a encostar as mesas, dali a pouco chegava um, chegava, outro, outro, outro. Eram 13. Um dia, eu aprontei uma para eles: eu era muito amigo do doutor (Ramou?), e um dia ele chegou para mim e falou: "Onde que vocês vão depois das seis horas da tarde?" Eu falei: "Nós vamos no Itamaraty, nós somos pobres, né, patrão?" Ele falou: "Quero ir junto, quero tomar um chopinho lá com vocês." Eu falei: "Tudo bem, mas não é um restaurante para o senhor." Ele falou: "Não quero saber. Passa aqui às cinco para as seis e me pega." Eu cheguei na Líbero Badaró às dez para as seis. Ele tinha oito secretárias, todas elas eram minhas amigas. Uma delas falou: "Barbosa, ele está te esperando, já está de paletó, de boina e tudo." Avisou, ele veio na porta, falou: "Vamos?" "Vamos." Saía da Rhodia e ia a pé. Eram 150 metros. E o pessoal já tinha chegado.

 

P1 - Essa sede na Líbero foi em que época?

 

R - Essa é antiga.

 

P1 - Ficou um período não muito grande?

 

R - Ôpa! Meu Deus do céu. Não! Muito grande.

 

P1 - Quanto tempo?

 

R - Exatamente, eu não sei te dizer.

 

P1 - Mais ou menos.

 

R - Foi de 60 até 84, 85, quando veio para cá, para o centro empresarial.

 

P1 - Eu interrompi: o senhor passou, pegou o senhor (Ramou?) e fez o quê?

 

R – Levei-o comigo. Ele queria tomar um chope. Menina, eu entrei no boteco, os caras todos lá, tomando chope. Eu entrei com o patrão - ele era chamado de seu Rhodia; eu que apelidei -, mas não tinha cara que não batesse continência. Ficava tudo assim. "Ô Barbosa, o que é isso? O que você fez?" "O que é?!?! Ele quer tomar um chope conosco, pô." Ele falou: "Vamos sentar, todo mundo, vamos sentar." Todo mundo se sentou: "Pô, Barbosinha, não apronta mais dessas sem avisar a gente. Ele vai pensar que nós somos todos bêbados." "Vai pensar nada, ele está cansado de saber. Ele não vai pensar, ele está cansado de saber."

 

P1 - O contato, no princípio seu, do seu padrinho, era com esses diretores. Com o tempo, houve uma área que... Hoje é uma área específica. É com a área de propaganda, é isso?

 

R - Não, hoje eu não tenho mais nada com a área promocional. Hoje eu não faço mais...

 

P1 - É só a parte de embalagens?

 

R - A Nicolini foi se transformando numa indústria somente de embalagens. Então, ela não faz mais - ela pode fazer, mas não tem preço. O maquinário nosso hoje é todo voltado para a área de embalagens.

 

P1 - A parte promocional a Nicolini, assumiu até mais ou menos que tempo?

 

R - Olha, foi até 80. Nós fizemos muita coisa promocional. Depois começamos a sair fora porque entraram gráficas que são totalmente especializadas nisso.

 

P1 - Houve, nesse mercado de gráficas, uma especialização, então?

 

R - Houve. Por exemplo, hoje, na Rhodia, tem um fornecedor que faz só rótulo; eu saí fora.

 

P1 - Entendi.

 

R - Tem o fornecedor que só faz bula; eu saí fora. Tem os fornecedores que só fazem promocional; nós saímos fora. Em compensação, na parte de embalagens, nós estamos fortes. 

 

P2 - Foi uma especialização da própria Nicolini. 

 

R - Foi, foi. Cada um foi caminhando para um segmento. Para você fazer dois segmentos, hoje, você tem que ter duas gráficas.

 

P1 - Porque o tipo de material é completamente diferente?

 

R - Não. Por exemplo, se eu colocar, Zilda, uma máquina de um milhão e 800 mil dólares para virar 50 mil rótulos, quanto vai custar? Então, eu preciso virar dez milhões de cartuchos nessa máquina. Então, as maquininhas pequenas, aquelas que a gente tinha, foram indo embora. Apesar de que nós mantemos uma parte, apesar de pequena, para atender. Se a Rhodia tiver uma dor de barriga, precisar de dez mil rótulos, eu vou fazer, só que eu não vou cobrar. Como é que eu vou cobrar? Fica de presente. Se eu cobrar, a Rhodia fala: "Você está louco! Leva o prédio." É outro mundo.

 

P1 - Quer dizer, o mercado foi se especializando?

 

R - Foi se especializando. Por exemplo, se eu me meter hoje a fazer panetone - que é uma embalagem -, eu tomo um nabo bonito dos caras que são especializados nisso. 

 

P1 - Então, hoje, o cliente da Nicolini, quem é?

 

R - A indústria farmacêutica e de cosméticos, e uma parte da alimentícia. Mas se começar a inventar, nós estamos fora. O nosso negócio é a farmacêutica. 

 

P1 - E há diferença entre o que pede uma Bayer, uma Pfizer de uma Rhodia, ou é tudo meio parecido?

 

R - Tudo parecido. Tudo parecido: Ache, Squibb, tudo parecido.

 

P1 - Tem alguma especificidade, a embalagem de produto farmacêutico? Qual é? Que tipo de produto a Nicolini tem que produzir para essa turma toda?

 

R - É tudo igual, tudo parecido.

 

P1 - Mas tem um tipo de papel específico, em função do produto...?

 

R - Vai tudo no cartão 300 gramas, uma, duas cores, fechamento normal. Quando tem uma embalagem sofisticada...

 

P1 - O que é sofisticada?

 

R - Por exemplo, uma embalagem pequena, mas que tem muito peso. Então, você tem que mudar o fundo do cartucho. Não pode ser o cartucho do tipo slick lock, que você abre assim e fecha. Você tem que fazer ou semiautomático, que trava, ou automático, que já vem colado. Você pega nele assim, ele monta. Então, o conteúdo não cai. Aí muda um pouco, mas o resto é tudo com slick lock, normal, com aba tipo fechamento normal, tudo igual.

 

P1 - A liberação dos preços trouxe alguma modificação para o tipo de embalagem que se faz na indústria farmacêutica?

 

R - Não.

 

P1 - Não? Eles continuaram nas duas cores, 300 gramas etc.?

 

R - Acontece que, hoje em dia, os laboratórios estão puxando o freio de mão no custo. Eles estão com o freio de mão puxado, tranquilo. Você pede 2% de aumento, já começa todo mundo a chorar, é uma choradeira desgraçada, não é possível. 

 

P2 - Não é muito a área do senhor, mas nessa trajetória, o senhor acabou pegando todas as mudanças de logomarca da Rhodia, lá de trás até hoje?

 

R - Tudo. Desde que eu conheço a Rhodia, ela já mudou de logotipo umas quatro vezes. 

 

P1 - Os primeiros que a gente andou pegando... Eu peguei uma embalagem de (Kelene?), que era escura, tinha um rótulo meio esverdeado e uma letra muito rebuscada. Essa era a primeira?

 

R - Era a primeira. Depois ela passou para o azul comum.

 

P1 - Passou para o azul comum. Aí teve um momento em que eles juntaram o logo com a serpente e aquele butano enrolando um negócio de têxtil, é isso?

 

R - Aí, depois veio o elefantinho.

 

P1 - Depois veio o elefante.

 

R - A embalagem... É o elefantinho. E agora tem a (Rorer?), que a Rhodia comprou. Então tem Rhodia, (Roni Poleique Rorer?). Então, tem o “errezinho”, o elefantinho... Agora, essa vai ser definitiva, até a fusão com a Hoescht. Então, agora deve aparecer alguma coisa nova por aí.

 

P2 - O senhor ainda não teve nada, nenhuma...?

 

R - Por enquanto... Eu só sei que vai mudar tudo agora. Nós já estamos prontos.

 

P1 - 'Já estamos prontos' significa que vai ter que parar tudo e preparar matrizes...?

 

R - Não, simplesmente a gente vai ter que jogar tudo o que existe fora.

 

P1 - Como jogar tudo? Vocês trabalham com estoque enorme?

 

R - Não, os estoques não. Os filmes, os disquetes, vão tudo, tudo, tudo para o lixo.

 

P2 - Quanto tempo demora para uma empresa se adaptar a uma mudança dessas?

 

R - Nós, 24 horas. É só nos dar a matriz; o resto nós fazemos.

 

P1 - A Nicolini atende também pequenos laboratórios?

 

R - Não. Atendia, antigamente. Deixe-me pegar mais cerveja para nós. 

 

P1 - Da atividade que o senhor aprendeu com o seu padrinho, que mudanças ocorreram na atividade profissional?

 

R - Em que sentido?

 

P1 - O senhor sempre foi representante?

 

R - Casei, criei meus filhos e continuei trabalhando...

 

P1 - Fazendo sempre um trabalho parecido?

 

R - Só que hoje eu não faço mais o que eu fazia. Hoje eu faço uma assessoria.

 

P1 - Coordena alguém que faz.

 

R - Exatamente. Inclusive eu a deixei de sobreaviso lá na gráfica. Ela está aqui pertinho, se você precisar fazer alguma pergunta para ela, ela vem até aqui.

 

P1 - Como é o seu cotidiano hoje? O que o senhor faz?

 

R - Olha, eu durmo bem, acordo muito cedo - sempre acordei, então não tem jeito; 6h15, 6h30, eu e minha mulher estamos de pé -, leio meu jornal, tomo meu banho, corto a barba, vou para a gráfica, aí ela precisa de alguma coisa de mim porque ela não faz a parte de cima, ela faz a parte pequena. "Precisava conversar com Fulano...", aí eu ligo, marco um almoço, pego o carro, saio, vou almoçar, ficamos conversando, resolvo, volto para a gráfica e volto para casa. 4h30, cinco horas eu estou aqui.

 

P1 - Quem é o seu interlocutor na Rhodia, hoje? Com que área o senhor se relaciona?

 

R - Com toda a área farmacêutica.

 

P1 - É com a área de compras?

 

R - Ah, o _______, (Palela?), o Volpi, a Ercília, o Evandro, o Edwin, a Vilma, todo mundo.

 

P1 - O senhor continua trabalhando com carga total, o seu cotidiano é esse?

 

R - O que precisar, eu estou lá.

 

P2 - Faz parte desse trabalho de representante comercial buscar novos clientes?

 

R - Eu não quero mais. Hoje eu tenho três clientes apenas.

 

P1 - Quem são seus clientes?

 

R - A Rhodia, Niasi e Organon.

 

P1 - A Niasi é de cosméticos e a Organon é uma farmacêutica...?

 

R - É, mas é uma farmacêutica totalmente virada para a área de mulher. É a maior fabricante de anticoncepcional do mundo. Ela é virada totalmente para a área feminina, e fabrica o Ormigrein, que é para enxaqueca, que é o melhor do mundo.

 

P1 - E a sua vida familiar? A gente começou perguntando da sua família, mas logo a sua família tinha tudo a ver com a Rhodia, a gente entrou na Rhodia rapidamente, então a gente deu um pulão. O senhor tem filhos? O que eles fazem?

 

R - Eu tenho uma filha mais velha, que é fonoaudióloga de vários hospitais, inclusive da prefeitura, que me deu dois netos.

 

P1 - Que idades eles têm?

 

R - Um está com 13, da minha altura, e outro tem 11, jogador de bola. E meu filho que trabalha com automóvel, na empresa dele.

 

P1 - Ele também trabalha no comércio, como o senhor?

 

R - É, ele tem o comércio dele, ele tem a loja dele que, por sinal, é aqui pertinho.

 

P1 - E hoje vivem o senhor e a sua esposa?

 

R - É. Só nós dois aqui.

 

P1 - Se o senhor pudesse mudar alguma coisa da sua trajetória, o que o senhor mudaria?

 

R - Eu acho que nada.

 

P1 - O que o senhor ainda tem vontade de realizar?

 

R - Olha, ter paz, tranquilidade, tomar minha cervejinha tranquilo e ver meus filhos e netos crescerem, irem para frente.

 

P1 - Esse é o seu sonho?

 

R - É.

 

P1 - O que o senhor achou em ter contado a história da sua vida e a história da Rhodia para um projeto de memória como esse?

 

R - Gostei muito.

 

P1 - Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de contar, que o senhor acha importante que a gente saiba?

 

R - Tem tanta coisa, tem tanta coisa que a gente vai... Em um contato só a gente não vai lembrar de tudo. O que eu quero é mostrar para vocês alguma coisa que eu tenho aí, para vocês verem. Mas, nessa trajetória de 45 anos de trabalho aconteceu tanta coisa que você não acredita. Teve - eu não vou citar o nome -, teve um engano de um comprador da Rhodia, uma falha - eu não vou citar o nome, de jeito nenhum, apesar de que ele já não está mais na Rhodia. Ele tinha recebido uma encomenda de um gerente dele, de uns rótulos. Era um produto que a Rhodia fabricava para matar baratas. Era um troço que as latas já estavam todas prontas. O gerente falou: "Encomenda isso." Ele pôs na gaveta e esqueceu. Ficou entre uma folha e outra, e ele esqueceu. No dia seguinte, ele abre a gaveta e acha. Ele me ligou e falou: "Barbosa, estou na rua. Venha aqui." Eu peguei o carro e fui para lá: "O que foi?" "Barbosa, pelo amor de Deus, eu esqueci esse troço, não ficou na minha frente. Não sei o que faço. Preciso disso para hoje." Eram três horas da tarde. "Me dá isso aqui." De lá, eu liguei para o diretor comercial da Nicolini, Nenê Nicolini, que era muito meu amigo. Falei: "Fica todo mundo aí. Não tira nenhum impressor daí porque eu tenho um negócio para resolver." Cheguei lá, copiou a chapa, tocamos na máquina, aquilo virou, tocamos no secador, senão aquilo ia borrar tudo, tocamos no secador de cabelo - naquele tempo não tinha os secadores que tem hoje. Os lotes iam saindo e secando no gogó, comprado na última hora, no cabeleireiro do lado. Refilamos aquilo. Liguei para ele e falei: "Onde você quer isso?" "Tem que estar em Santo André, Barbosa." Falei: "Nenê, vamos comer uma pizza em Santo André?" Nenê Nicolini, hein, um dos donos da gráfica. Ele falou: "Tem pizza boa lá?" "Tem. Então, vamos embora, vamos levar esses rótulos lá." Cheguei na hora, entrei com o carro - eu tinha o selo, era o único fornecedor que tinha o selo, sabia?, selo de “rhodiano” -, entrei com o carro direto, fui lá no setor da produção, falei, está aqui. "Cadê a nota?" "Não trouxe. Acho que saiu pelo vidro do carro, não sei onde está. Você não queria trabalhar? Fica com isso aí." No dia seguinte, o gerentão chegou lá: "Puxa, tudo rotulado, chegou na hora, que coisa boa." Esse cara me telefonou e falou: "Barbosa, você é milagroso! Você faz milagres, desgraçado." (riso) Ah, você perguntou uma coisa que eu lembrei. Em 1967, 68 foi lançada a obrigatoriedade da etiqueta de preço. Lembra disso? Todo produto tinha que colocar etiqueta de preço. Doutor (Ramou?) me chamou e falou: "Eu tenho 38 produtos Barbosa. Eu preciso sair na frente dos outros laboratórios." Isso era cinco horas da tarde. "O senhor tem todos os preços, tudo direitinho?" "Tudo aqui." Falei: "Sim, senhor." Liguei para a gráfica, falei para o Nenê Nicolini: "Segura a gráfica inteira aí. Não é só um, é a gráfica inteira", e ele segurou. Cheguei lá, falei: "Tem isso aqui." Eram 22 milhões de etiquetas de preços. Tinha que etiquetar o Brasil inteiro, todas as farmácias, tudo. Não podia vender. 

 

P1 - Isso era uma obrigação do laboratório?

 

R - É. Falei: "Vamos tocar isso aí?" E, naquele tempo, a etiqueta tinha que ser feita em tipografia, não dava para pôr nos offsets. Os caras começaram a montar aquilo e nós lá: sete horas, oito horas, nove horas. Dez horas começou a rodar. E nós lá. Compramos um litro de uísque, sentamo-nos e ficamos lá, nós dois. Quando foi meia-noite eu falei: "Nenê, o pessoal deve estar com fome. Estão com uma boa vontade do tamanho de um bonde." E as etiquetas rodando, imprimindo tudo. Saímos nós dois de carro. Ele tinha uma Mercedes, eu fui guiando, paramos em uma lanchonete, compramos, acho que, uns 150 sanduíches, Coca-Cola, Guaraná. Enchemos o porta-malas da Mercedes, voltamos, entramos com o carro dentro da fábrica, ele falou: "Para um pouco agora. Vamos comer." Seis horas da manhã estava tudo pronto. Aí, foi o carro do meu pai, o meu carro, o carro do Nenê Nicolini, mais dois carros de diretores da fábrica, uma caminhonete e uma pick-up.

 

P1 - Levar as etiquetas...

 

R - O doutor (Ramou?) chegou na Rhodia, me viu e falou: "Como é que estão as etiquetas?" Falei: "Não sei, não sei. Daqui por diante, não é mais meu problema." "Como você fala isso?!" Falei: "Porque está tudo aí." "Não acredito." "Tá tudo aí. Já descarreguei." Ele viu os carros, viu meu pai e falou: "Vocês são loucos. Conta a história aí." "Nós passamos a noite na gráfica tomando uísque, ué. E as etiquetas estão prontas."

 

P1 - Por outro lado, dentro da empresa para a qual o senhor trabalha, o senhor assistiu grandes mudanças de tecnologia.

 

R - Nossa!!! Nem me fale! 

 

P1 - Então, vamos falar um pouco disso? O Museu tem um projeto nessa área.

 

R - É uma coisa impressionante.

 

M - Vocês aceitariam um café, ou preferem mais cerveja?

 

R - Eu quero uma cerveja.

 

M - E vocês?

 

P2 - Eu quero uma cerveja.

 

M - Você quer água?

 

P1 - Por favor. A primeira gráfica que o senhor viu funcionar tinha tipografia e litografia.

 

R - Só.

 

P1 - Muito bem. Depois o que foi aparecendo?

 

R - Offset, né?

 

P1 - Foi a primeira...

 

R - A primeira gráfica que trouxe essa evolução para o Brasil foi a gráfica Lanzara, que hoje é uma sucata.

 

P1 - É verdade. Acabou.

 

R - Não tem investimento, não tem nada. Acabou. Eu conheci o velho Lanzara, fui ao enterro dele, inclusive. Ele foi o primeiro a trazer para o Brasil, da Itália, as primeiras offsets da América do Sul. Todo mundo falava: "Isso é uma loucura!" Eu escutava meu pai e meu padrinho falarem: "O que será que está acontecendo." "É, mas é uma evolução." Ele começou e passou a ser a primeira gráfica do Brasil, com as offsets dele. Eram italianas. Ele foi para a Itália, viu e trouxe. Aí começou uma evolução. Todo mundo começou a importar.

 

P1 - Máquina de offset.

 

R - Offset, offset, offset. A maioria eram máquinas alemãs. As alemãs pegaram no breu. Aí mudou tudo. Da tipografia, da litografia para a offset. Aí todo mundo entrou na offset. Houve uma evolução, melhorou muito a qualidade de impressão, mas ainda tinha o problema do registro de máquina. Naquele tempo, você, para acertar - e isso eu vou mostrar para vocês na gráfica, quando vocês forem -, para acertar uma chapa... Vamos falar em uma bem simples, uma bicolor: para acertar aqui e aqui, um castelo de cor aqui e um castelo de cor aqui, você tem 60, 70, 80 parafusos, para o cara acertar a chapa, para dar o vermelho em cima do verde, o amarelo em cima do azul... Então, cada acerto de máquina, naquele tempo, se levava - eu estou falando de bicolor -, se levava quatro horas para um acerto de máquina ficar mais ou menos. Precisava ser um acertador de primeiríssima ordem, de primeiríssima linha para ficar 100%. Aliás, 100% não saía nem com os bons. Isso foi durante 20 anos assim, ou talvez, mais de 20.  Quando vocês forem nos visitar, vocês vão ver que essas quatro horas e esse tempo do acertador de máquina não existem mais.

 

P1 - Aliás, não existe mais nem a pessoa que é acertadora de máquina.

 

R - Não, não tem o acertador mais. Você põe no computador...

 

P1 - Quando é que o computador entrou na sua gráfica? Foi melhorando a offset até que o grande passo foi a entrada da informática?

 

R - Ah, sim. Todas as nossas máquinas hoje têm um terminal de computador. Todas. E elas têm, cada uma, um computador próprio. Se você olhar para uma máquina nossa hoje, você fala: "Eu não vou mexer nisso, nem que a vaca tussa" porque tem 500 botões na sua frente. E não tem mais os caras em cima da máquina, olhando, está tudo aqui.

 

P1 - Mudou completamente.

 

R - Por exemplo: a chapa chegava, colocava na máquina, aí começava o acertador...

 

P1 - E era um processo fotográfico, né?

 

R - Bom, eu estou falando já da chapa pronta. Então, o cara começava a acertar aquilo, ele rodava: "Solta a máquina." Roda. Estava fora de milímetro, um décimo de milímetro. Volta tudo. Solta tudo, prende de novo, volta, acerta. "Solta a máquina." E assim ia. Hoje, a chapa chega, a máquina faz assim: 'schuppp'. Ela engole a chapa. Não tem um parafuso para apertar. Aí, você aperta um botão, ela faz assim: 'hummm, hummm, hummm, hummm, plim." Tá em cima do registro. Ela está lendo o registro. Ele acerta outra. Leva dois minutos e meio, três minutos. Acertou, roda: 'zummm'. "Pega o densidômetro." A própria máquina tem o densidômetro, que vê a densidade da cor. "Tira 3%." Pim, pim, pim. "Roda. Tá no ponto. Roda": 'zummm'. 12 mil folhas por hora. Acabou.

 

P2 - O senhor sempre acompanhou, gostava de ficar...

 

R - Ah, eu sempre gostei. Eu nasci nisso, é minha vida.

 

P2 - Ficava vendo o processo todo da máquina.

 

R - Ah, eu não sou um entendedor. Eu não vou dizer que vou chegar na máquina e pilotá-la.

 

P1 - Mas o senhor sabe como ela funciona e sabe do que ela é capaz?

 

R - Ah, sei. Isso eu sei. Mas pilotar eu não sei e nem quero. De vez em quando eu monto em cima de uma máquina lá para dar uma olhada. Quando me dá vontade. Agora eu não tenho nem tido vontade. 

 

P1 - Então tá bom. Então a gente quer ver o seu material e quer agradecer de novo por essa oportunidade.

 

R - Tão rápido? Só isso? Eu tinha guardado...

 

P1 - Interessa para quem... O João Domingues...

 

R - Do cosmético? Chamava Fantastic. Foi a embalagem mais sofisticada que a Nicolini fez na história da Nicolini. Fui eu que fiz. Ela tinha sete cores, mais verniz, baixo relevo, alto relevo e era em laminado.

 

P1 - Impressionante.

 

R - Roubaram tudo. Não ficamos com uma.

 

P1 - Entrevista com José Antonio Barbosa. A gente está voltando a gravar. Hoje é dia 21 de janeiro de 1999. A gente está retomando essa conversa... Vamos falar um pouco do seu padrinho, Cássio Queiroz, que foi o primeiro fornecedor da parte gráfica da Rhodia. Qual é a origem dele?

 

R - Ele é paulista, nasceu em Amparo, interior de São Paulo, era filho de juiz de Direito, tinha uma cultura extraordinária, sabia tudo. Era um homem bastante simples e carismático e muito sofisticado.

 

P1 - Ele foi educado onde? Onde ele aprendeu essa sofisticação?

 

R - Olha, ele aprendeu com a escola da vida, de tanto que ele lia.

 

P1 - Ele lia.

 

R - Demais. Ele lia em francês, lia em espanhol...

 

M - Vocês querem mais cerveja? Mais água, Coca-Cola?

 

P1 - Não, não quero nada, quero que o senhor conte a história.

 

R - Ele tinha uma cultura dele, própria. Era uma coisa impressionante. Ele chegou a pedir para traduzir livros de alemão para português, para entender. Ele foi o primeiro que recebeu o livro Mein Keimpf, do Hitler. Ele lia inteiro aquilo, leu umas três, quatro vezes.

 

P1 - Como é que ele conheceu o seu avô?

 

R - No campo gráfico. O meu avô gostava daquelas coisinhas e tal.

 

P1 - Das letras góticas?

 

R - É. E eles se cruzaram um dia em um bar. Se conheceram, bateram papo, pá-pá-pá. Meu avô convidou ele para... Meu pai... Eram 12 irmãos, eu tinha 11 tios. Ele convidou um dia o meu padrinho para ir almoçar na casa dele. Imagina aquela mesa com 12? E ele gostou muito do meu avô, da minha avó. Eles eram muito católicos. Meu avô era muito católico, tanto é que eu tive um tio padre. Todos falecidos, já. Não tem ninguém vivo. Eu acho que tenho uma tia viva, ainda, mas os homens, todos morreram. E essa amizade continuou, eles se encontravam, falavam sobre gráfica. Meu avô gostava muito de coisa impressa, e ele era o homem que sabia tudo, então ele dava informações e o meu avô gostava daquilo. Ele tinha um papo que não era brincadeira. Ele te envolvia, te envolvia tranquilo. É nessa parte que eu quero chegar. Aí, depois que eu tinha assumido todo o comando da coisa etc, me casei. E ele adorava essa aqui, porque é a mesma mulher ainda, vai fazer 40 anos. Ele a adorava. E ela (descia?). Ele já não andava mais. Já estava com problema na perna.

 

P1 - Só voltando um pouquinho: o senhor sempre morou com ele?

 

R - Sempre. 

 

P1 - Ele veio morar na casa do seu pai? Não, seu pai foi morar na casa dele e teve os filhos...

 

R - Certo. Isso. Aí, quando eu me casei, minha mãe tinha falecido. E ele me pediu, falou: "Filho, fica aqui. Eu não vou ficar aqui sozinho nesse casarão. Você tem toda a parte de cima para você. Fica para você e sua mulher. Faz o que vocês quiserem lá, destrua, construa, reforma. Faz o que quiser." Eu falei com minha mulher, ela falou: "Ah, não vamos deixar ele sozinho. Vamos ficar." E ficamos nós três. E ele era encantado com ela, mas a perna esquerda já não mexia, a mão direita não abria mais, e ele ficava... Ele mandou eu pôr a cama dele do lado da escrivaninha. Ele já não vestia mais roupa, não saía. Ele só ficava de pijama e com o roupão. Ele sentia muito frio, ficava com aquela boininha, ou com aquelas toucas de amarrar aqui assim, ficava lá, quietinho. Aí, nasceu minha filha. Ele se encantou. Ela começou a crescer e se ligou muito nele porque ele era muito esperto, sabia encantar. Ela se encantou com ele, pequenininha. Ele falou para ela: "Agora você é minha secretária." Então ele abria as gavetas e ela o ajudava a arrumar as gavetas. Arrumava tudo. Acabava de arrumar, ele falava: "Então, agora eu vou comprar um brinquedo para você. É o seu trabalho." Então ele me chamava, falava: "Filho, você vai, compra aquela boneca lá na Sears para trazer para ela." Lá ia eu. Aí nasceu o moleque, o Cássio.

 

P1 - Aí o senhor o homenageou dando o nome ao seu filho.

 

R - Não tenha dúvida. Foi homenagem a ele. Aí o Cássio começou a crescer. Só que secretário ele não era coisa nenhuma. Ele era assim... Eles tinham a mesadinha deles, os dois tinham.

 

P1 - Do avô ou do Cássio?

 

R - Do vô Cássio. Meu pai já não morava mais em casa. Então, ele juntava aquelas notinhas de... não sei como é que era naquele tempo... Ele juntava um, dois, três, quatro, cinco e falava: "Vô, quer trocar comigo?" "Troco." "Olha, tem cinco notinhas aqui. Me dá uma dessas aí." Era uma de dez. O avô se fazia de bobo e trocava. Ele sempre se fez de bobo. O outro pegava e ia para o cofrinho. Passava uma semana, dez dias, ele fazia tudo de novo. Agora, que eu ia contar para vocês é o seguinte: com o meu envolvimento com a Rhodia, esse negócio ia até, às vezes, duas, três, quatro, cinco horas da manhã. E era pelo menos três, quatro dias por semana. Era nós 10, 12, 13, 15, e todo mundo ficava. Então, eu chegava em casa manguaçado, né, mas estava trabalhando. Estava com o meu time, estava com a Rhodia... Ele não dormia. A minha casa era muito grande, ele me escutava abrir a porta da frente. A casa tinha uma sala aqui, outra lá, outra aqui, e era um baita corredor. Quando eu chegava na metade do corredor, acendia o abajur. Ele falava: "Filho." "Oi! Tá acordado, velho? Foi bem. Tomei uísque até não aguentar mais. Tá louco." "Senta aí." Eu me sentava na frente da cama dele. Ele tinha uma estante que está até aqui. Eu vou mostrar depois, qual é essa estante. Ele tinha uma estante que tinha, no meio da estante, um barzinho. E ele tinha um cálice que ganhou do diretor do Quitandinha, por causa do Queiroz, que era com 'Q'. Ele falava: "Põe um uisquinho para mim aí e põe um para você. Senta aí." Eu me sentava, contava o que tinha acontecido, contava como foi a noite, como foi o dia. Aí ele falava: "Pode guardar, filho. Agora me cobre porque eu vou dormir", porque ele não podia puxar a perna. Ele podia sair, mas voltar não dava. Então eu puxava, cobria, prendia o cobertor, o edredon, puxava a touquinha dele. Ele falava: "Você apaga a luz?" "Apago." Seis e meia da manhã eu já tinha que levar os meus filhos para a escola. Isso já era cinco da manhã. Você imagina como é que foi a vida. Eu levantava, ele falava: "Filho, eu não sei como é que você está aguentando." "Deixa, deixa comigo, a gente aguenta." Aí, ele chamava a minha mulher e falava: "Não sei como é que ele está aguentando." E ele era isso. Virava e mexia...

 

P1 - E ele tinha família?

 

R - Tinha, tinha uma irmã que era mais velha que ele. Eu a adotei para mim. Trouxe-a para minha casa.

 

P2 - Mais velha que ele?

 

R - Mais velha que ele. Ela era muito esperta. A velhinha era um doce de coco. Você precisa vê-la indo em feira. Velhinha, velhinha mesmo. O cabelinho não tinha um fio preto. Com uma força física que não era brincadeira. E ela cuidava dele. Ela que tirava o pijama dele, lavava ele com álcool porque ele não podia mais entrar no chuveiro, não tinha mais jeito. Essa perna dele travou, a mão travou. Não tinha jeito. E aí começou a dar o problema. Ele foi o maior fumante que eu conheci. Seis maços por dia.

 

P1 e P2 - Seis?!!?

 

R - Sem filtro.

 

P2 - Nossa!!!

 

R - Ele fumava Elmo. Você conheceu essa marca? Era um cigarrinho pequeno assim, grosso. Ele estava fumando assim, ele batia a última, pegava outro, virava na boca e fazia: 'uuuffff'. Dez, 12, assim, seguido. Sem parar. Cigarro sem filtro. Ele teve um problema, quando era moço, aí começou a dar um edema pulmonar. Não tinha outro jeito de não dar. 

 

P2 - Apesar de que naquela época tinha menos química do que agora.

 

R - Não tinha química.

 

P2 - É verdade.

 

R - Aí ele começou a usar o balão de oxigênio. Ele não parava mais com aquilo no nariz. Teve um domingo... O fornecedor do oxigênio era a uns 300 metros da minha casa. Você já tentou carregar um balão de oxigênio? Só que eu pesava 91 quilos e fazia alteres, naquele tempo. Eu era forte para cachorro. Ele telefonava, mas quebrou o telefone do... Ele não podia para aquilo. Dava um desespero nele, que você não faz ideia. Ele falou: "Filho, está acabando, está acabando." Eu fui a pé lá e trouxe o balão de oxigênio. Para trazer, você vai rolando. Eu trouxe. E para subir a escada? Meu Deus do céu! O que eu passei aquele dia, você não acredita. Mas eu pus o balão de oxigênio do lado dele, no finzinho, quando estava acabando o outro. Ele falou: "Ô filho, como é que você trouxe isso? De caminhão?" Eu falei: "Deixa comigo." Mas que sacrifício que eu fiz! Aquela foi brava. Aquela eu não esqueço mais. Aí, logo depois ele... Um dia ele me chamou e falou: "Filho, olha, agora tá acabando." "Que tá acabando o quê? Fica quieto aí." Aí, eu tinha ido almoçar na casa do meu sogro, tinha deixado ele com a irmã, fui até lá. Eu não sei o que me deu. Eu falei: "Vou voltar em casa." Era um domingo. Quando eu cheguei, a dona Edith, irmã dele, falou: "Filho, ele está morrendo." Eu corri lá para o quarto dele. Ele deitado, olhou bem para mim e fechou o olho. Eu dei um soco no peito dele, para ele voltar. E ele voltou. Ele fez assim para mim. E aí não voltou mais. Mas que ele foi importante para Rhodia, foi. 

 

P1 - E para o senhor também.

 

R - Para mim, nem se fala. Tinha vezes que eu tinha, por exemplo, um ímpeto de ficar bravo, ficar nervoso, coisa parecida. Se eu encostasse nele, era o fim. "Filho, vem cá. Pensa um pouco. Não vai ficar bravo. Ele é menor que você. Ele é muito mais mixuruca que você, você sabe muito mais que ele, você é muito mais bonito que ele, você é muito melhor que ele. Para que é que você vai brigar? Para que é que você vai ter essa encrenca? Você vai dar força para o inimigo. Larga mão, meu filho. Você é maior que ele, mais forte, mais bonito, mais superior. É tudo." Eu murchava e obedecia. Não tinha papo. Ele era fantástico. Agora, perante a diretoria da Rhodia, ele foi um ídolo. Você vê um diretor superintendente mandar da França uma carta dessa... Vê quem assinou aqui. O doutor Henri Sannejouand. Esse foi o primeiro superintendente de todas as Rhodias. Ele que mandava em tudo. Olha aí: "Monsier Cássio de Queiroz, 57 - que era o número da minha casa -, rua Rio Grande, São Paulo, ao bon ____ de la Rhodia”. Esse era o dono da Rhodia. E a carta está aqui: 25 de julho de 1964. Doutor Sannejouand já estava deixando a Rhodia, já estava se aposentando. Se você quiser, eu peço para alguém traduzir isso para você.

 

P1 - Não, não: "A sua amável carta me causou um grande prazer. Ela me fez lembrar das lembranças longínquas e dos momentos agradáveis." É o jeito de dizer que ele reconhece... "Eu fico muito sentido e emocionado de não (ter nos esquecido?). Acredite, meu bom Cássio, a minha fiel amizade."

 

R - Esse cara tem nome de rua em Santo André. Esse foi o cara que implantou a Rhodia no Brasil. Olha quando ele estava no fim...

 

P1 - O que é isso?

 

R - Olha, aqui ele já estava…

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