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História

“Como é que Deus ainda me deixa viver?”

História de: Maria Mikaelian
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/03/2019

Sinopse

Maria Mikaelian é filha de imigrantes que vieram da Síria para o Brasil em um navio de carga no início do século XX. Nascida em São Paulo em 1929, viveu sua juventude no centro da cidade. Ela relembra o sofrimento vivido pela família, que passou fome e necessidades antes da travessia. No Brasil seu pai foi engraxate de sapatos na Praça da Sé e sua mãe costureira de sapatos, teve sete irmãos. A família viveu na região da 25 de março junto da colônia armênia. Maria foi casada, teve dois filhos, Cristina e Marcos. Enfrentou problemas de saúde do seu filho quando era mais novo e deseja pra toda sua família, filhos, netos e sobrinhos, muita saúde.

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História completa

P/1 – Maria, você fala pra mim o seu nome inteiro e onde você nasceu também.

 

R – Maria Mikaelian. Sou... posso falar o nome do meu pai, da minha mãe?

 

P/1 – Primeiro só fala que dia que a senhora nasceu.

 

R – Dia dez de outubro do ano de 1929.

 

P/1 – Você nasceu em São Paulo mesmo?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – E o seu pai?

 

R – Meu pai veio da Síria. Meu pai, minha mãe, a minha irmã e meu irmão vieram de navio porque passaram muita necessidade, meus pais sofreram muito, filho.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Era que nem imigrantes, né, filho? E sofreram muito, muito. Depois vieram aqui no Brasil, não tinham nem parentes, nada. Depois o libanês pegou eles, o Rizkallah Jorge, ele tinha um galpão. Colocou toda a colônia armênia dentro do galpão que ele tinha na Rua 25 de março e cada um fez um quarto com cortina. Cortina, meu filho! Sabe? E depois foi nascendo, a cada dois anos nascia um filho porque naquela época não tinha pílula, não tinha nada, não tinha nada! E minha mãe trouxe oito filhos, oito.

 

P/1 – Na viagem?

 

R – Não, depois que veio aqui no Brasil.

 

P/1 – Fez oito filhos. Da hora que ela estava vindo do Líbano pra cá tinha a minha irmã, a Dikranuí e o meu irmão Manuco, os dois estavam com minha mãe, eram pequenininhos quando vieram pra cá. Mas vieram como imigrantes, sabe filho? E sofreram muito, muito. Meu pai contava o que eles passaram. Mas vieram aqui no Brasil, não tinha serviço pra fazer, nada, não tinha. Meu pai ia lá na Praça da Sé pra engraxar sapato, naquela época tinha condes, nós falávamos de conde. Eles vinham, meu pai engraxava e ganhava um dinheirinho pra trazer dinheiro pra nós comermos.

 

P/1 – Qual o nome do seu pai?

 

R - Hovsep Komerian. E a minha mãe Nectar Komerian. Minha mãe sempre trabalhou, sempre. Ela costurava sapato, que nem pra estampadeira, sabe filho? Depois eles arrumaram uma casa na Rua Pajé, conhece, né? A Rua Pajé, perto da 25 de março. Arrumaram uma casa na Rua Pajé e moravam lá. E como não tinha dinheiro, cada um ficou com um quarto, toda a colônia armênia, moravam em oito famílias numa casarona. E lá embaixo meu pai abriu fábrica de sapato com meu tio Pedro.

 

P/1 – E eles falaram pra você o que exatamente acontecia na Síria, no Líbano, pra eles virem pra cá?

 

R – Sofreram muito, filho. Sofreram muito. Porque mataram. Minha mãe tinha um irmão, mataram ele e mataram o pai também, os turcos. Os dois. E uma irmã da minha mãe, os turcos roubaram ela. Eles passaram muita fome, muita! Agora o que nós estamos vendo na televisão, essas coisas que estão acontecendo no Líbano, minha mãe passou a mesma coisa. Sofreram muito. Depois que vieram aqui no Brasil que eles viveram a vida. Meu pai falava: “Eu sou brasileiro porque aqui é uma terra abençoada”. Aqui ele viu. Depois os filhos cresceram, todos, meu irmão casou, o mais velho que o nome dele era Manuco. A minha irmã mais velha que eu, a Dikranuí casou muito bem com meu cunhado, foi um homem ma-ra-vi-lho-so. E ela teve uma família, olha meu filho, Deus que abençoa a família da minha irmã. E ela foi mãezona pra nós, essa mulher, ela morreu faz pouco tempo, faz 40 dias que ela morreu. Ela foi uma mãezona, essa minha irmã. E ela tem um filho, parece que ele caiu do céu. Que menino! O nome dele é Agop. Ele não tem igual, não tem, meu filho, Deus que abençoe esse menino. Depois casou as minhas irmãs, todas casaram. Meu pai teve problema de coração porque naquela época não tinha operação do coração, sabe, não tinha. E ele morreu do coração. Depois a minha mãe também ficou doente, ela teve aquela coisa de Alzheimer.

 

P/1 – Doença de Alzheimer.

 

R – É, Alzheimer. Ela teve também, morreu a minha mãe. Depois eu perdi um neto de 13 anos, desastre de carro. Sabe como, filho? Estava atravessando a rua pra comprar sorvete de palito. Na hora que ele ia atravessar pra comprar sorvete de palito a moto pegou ele. Não durou uma semana, morreu meu neto. Aquilo me abalou. Agora quem me abalou é minha irmã, minha irmã me abalou muito, meu filho, porque ela era uma mãezona. E dá muita falta. Nem acredito às vezes que ela morreu, filho.

 

P/1 – Quantos anos ela tinha?

 

R – Oitenta e nove. Mas sabe como é que é, filho? Está certo, a morte existe pra nós todos, mas é duro quando a pessoa é muito boa demais. Quando é boa é duro. Quando é ruim sabe o que eles falam? Já morreu tarde. Mas quando é boa, não dá pra esquecer, não dá meu filho. Ela era muito amorosa. Muito. Era uma mãezona, não era minha irmã. E me dá falta, filho.

 

P/1 – Ela cuidava de vocês que eram mais novos?

 

R – Ela cuidava.

 

P/1 – O que ela fazia?

 

R – Tudo, tudo ela fazia. Ela ligava pra um, ligava pra outra. Ela fazia de tudo o que ela podia fazer. É viagens, ela mandava nós, ela junto. Ela era uma mulherona, viu, mulherona mesmo. Deus que ilumine essa minha irmã, é isso que eu peço de Deus, filho.

 

P/1 – E você tem quantos irmãos no total, dona Maria?

 

R – Morreram dois irmãos meus e agora essa minha irmã que morreu. Agora nós estamos em Suzana, Angelina, a Sílvia, eu e o João, porque morreram três dos meus irmãos, ficamos em cinco, é.

 

P/1 – Queria voltar lá pro comecinho quando você estava falando dos seus pais ainda. Quando eles chegaram no Brasil, eles falaram como é que foi a viagem?

 

R – Horrível.

 

P/1 – É?

 

R – Horrível, meu filho. Na hora que eles estavam vindo de navio, meu filho, era um navio de carga. Não tem esses navios de carga? Não é de passageiros. Sabe onde é que eles dormiam? Bem embaixo, onde faziam comida, lá embaixo. E pra comer meu irmão, esse que morreu, o mais velho, ele pegava uma tigelinha, ia na porta que eles faziam comida, esperava pra colocar comida na tigela pra eles comerem. Passaram muita fome, meu filho, muita fome! Mas graças a Deus os filhos todos saíram bons, graças a Deus! Os netos saíram muito bons. Eu tenho um sobrinho, que é o filho dela, que chama Agop, não tem igual, meu filho. Aquele menino caiu do céu, ele ampara toda a família.

 

P/1 – Quantos anos ele tem hoje mais ou menos?

 

R – Meu sobrinho? Pera, meu filho está com 65. Acho que ele está com 67 anos. Ele fez agora em abril, se não me engano.

 

P/1 – Ele ajuda todo mundo.

 

R – Ele? Ele recolhe toda a família! Não tem igual, meu filho. Deus que abençoe esse menino! Eu oro todo dia e rezo por ele, que Deus ilumine ele, meu filho. Não tem no mundo. Não estou elogiando porque ele é meu sobrinho, mas igual a ele não tem, meu filho. Está cheio de gente que tem mas não olha pra família. Ele não. Ele pensa muito na família, muito. Eu queria que você conhecesse ele. As irmãs também são um amor.

 

P/1 – Suas irmãs.

 

R – As irmãs dele. São muito, muito atenciosas, muito, minhas sobrinhas. “Tia Maria, Tia Maria”, me amam. Eu também amo eles, amo de coração, meu filho. É que a gente passou tanta coisa na vida, sabe filho? Tanta coisa. Aí, agora meu neto, meu neto diz que está com coiso, o quê?

 

P/1 – Dengue.

 

R – Dengue. Hoje. Já está no hospital. Cada ano que você passa, meu filho, sempre tem alguma coisa, não é filho?

 

P/1 – Problema.

 

R – É. Tem problema, meu filho. Graças a Deus não é problema ruim, mas sempre a gente fica pensando, não é filho? Eu tenho meus netos, minhas netas, tudo estudados. Quem pagou foi meu sobrinho, esse, o Agop, ele pagou o estudo das crianças, faculdade, tudo, ele que pagou. Existe isso, filho? Não, não existe, viu filho. Todo dia agradeço a Deus que ilumine esse menino.

 

P/1 – Mas dona Maria, a senhora me conta como era a sua infância? Você cresceu onde, onde você estudou?

 

R – Eu estudei na escola armênia, meu filho, no Externato José Bonifácio. Estudei lá, me formei só no primário, filho, todas nós, as irmãs formamos no primário. E naquela época meus pais não tinham dinheiro pra pagar estudos, meu filho. E nem trabalhamos fora, viu filho, nenhum dos filhos. Meu pai depois abriu uma fabriquinha de sapato, ele abriu e foi sustentando a família porque ele não tinha casa, era tudo alugado. Mas graças a Deus, meu filho, ele não deixou faltar nada pra nós. Nada! Deu de tudo meu pai.

 

P/1 – E você cresceu em que bairro, em que região?

 

R – Uma época nós moramos na Rua Pajé. De lá mudamos, fomos morar na Rua Cantareira. E de lá eu saí casada, meu filho, com meu marido.

 

P/1 – Mas antes da senhora casar a senhora trabalhava?

 

R – Nada.

 

P/1 – A senhora cuidava da casa.

 

R – Nós limpávamos a casa. Cada filha, cada um tinha o seu lugar pra fazer a limpeza pra mamãe. Porque naquela época minha mãe não tinha empregada, meu filho, sabe? A minha mãe cozinhava, cada uma das irmãs fazia um serviço. Porque a casa era grande quando meu pai alugou pra nós, porque eram oito filhos.

 

P/1 – Era grande mesmo!

 

R – É! E uma lavava roupa, outra passava, outra limpava a casa, outra ajudava a minha mãe. A nossa vida... Agora, não tem nada de descer na rua, não, era dentro de casa. Minha mãe nunca abandonou nenhuma de nós, como eu, como minhas irmãs, a mesma coisa. Criamos desse jeito nossos filhos e são todos maravilhosos. Meus sobrinhos, meus filhos, meus netos, todos. Eu me orgulho. Aonde eu vou, eu me orgulho de ver eles bem, graças a Deus.

 

P/1 – O que a sua mãe falava pra senhora fazer mais?

 

R – Como?

 

P/1 – Porque a senhora disse que todo mundo fazia algo em casa.

 

R – Eu limpava a casa.

 

P/1 – Você limpava a casa. E era uma casa muito grande.

 

R – Eu que limpava. E ai de um deles sujasse a casa.

 

P/1 – Você brigava com eles?

 

R – Eu brigava com eles.

 

P/1 – E você fazia o quê?

 

R – Nossa! Eu ficava louca! Eu falava: “Param! Limpei tudo”, eu fazia: “Quero limpo, hein, aqui”. E coitadas, elas me obedeciam. Elas me obedeciam. Minhas irmãs valiam ouro.

 

P/1 – Mas eu não entendi uma coisa. Nessa escadinha de irmãos a senhora está onde? É a mais velha?

 

R – Não.

 

P/1 – A mais velha é a sua irmã.

 

R – O mais velho é meu irmão Manuco. Depois vem a minha irmã Dikranuí. E entre a minha irmã Dikranuí e eu, nós duas, minha mãe perdeu um filho. Depois eu nasci. Por isso tem um pouco de diferença, sabe? Porque cada dois anos minha mãe trazia um filho, a cada dois anos minha mãe estava grávida! Um dia eu peguei e fiz assim pra minha mãe, quando nasceu minha última irmã, a Suzana. E ela teve em casa essa criança, a parteira veio em casa. E a outra, minha irmã Angelina, era pequena ainda, tinha dois anos. Quando acordei de manhã da cama, eu fui lá dentro do quarto, a minha mãe deitada com uma criança do lado, a minha mãe. Eu olhei assim: “Mãe, o que é isso? Da onde veio isso?”, porque ela não mostrava a gravidez dela. Não! Minha mãe usava avental para nós não percebermos que ela estava grávida. Quando eu olhei era uma menina que ela teve. Bonitinha, uma boneca ela era. Minhas irmãs são todas bonitas, todas, todas são bonitas, as minhas irmãs. E são mulheronas, meu filho! Dedicada em casa, sabe, criando os filhos, os netos. A minha mãe deu essa educação pra nós meu filho. É que nem essa minha irmã que faleceu, também foi uma mãezona. É pena que eu não trouxe a foto dela para você ver. Linda, linda! Ela estava linda quando ela morreu, nem parecia que estava morta no caixão. Parecia uma boneca a cara dela.

 

P/1 – E vocês também lá no bairro faziam como? Só tinha descendente de libanês, de sírio?

 

R – Como?

 

P/1 – No bairro tinha uma comunidade...

 

R – Tinha, tinha, tinha bastante gente libanesa. Onde nós morávamos na Rua Pajé, na Santo André. Um dia, filho, nós éramos meninas, pequenas, e meu pai tinha fábrica na Rua Santo André, onde tem a galeria, meu pai tinha a fábrica. Nós fomos na rua, brincando em frente à fábrica do meu pai, porque meu pai não largava nós. Quando nós olhamos: está entrando uma lambreta. Olha, meu filho, uma lambreta! De repente ele está indo na loja das Lojas Econômica, era o Silvio Santos! E a molecada, sabe o que eles falavam: “Óia o Peru, o Peru chegou!”. O apelido dele, o Silvio. Quando ele chegava nós chamávamos de “Peru, peru!" nós gritávamos pra ele. Eu nunca me esqueço o Silvio. Até um dia eu falei assim: “Nossa, bem que eu gostaria de ir no programa dele e falar com ele: ‘Silvio, você lembra que você vinha na Rua Santo André e nós gritando Peru?’”. Porque o apelido dele é Peru, não sei se você sabe. É. Eles chamavam ele de Peru.

 

P/1 – Mas por que é Peru?

 

R – Puseram o apelido. Acho que as Lojas Econômica eram do armênio, até tem o nome dele na Rua Pajé, o que é? É Kherlakian, que colocaram o nome deles. Rua Afonso Kherlakian, agora a rua dele lá, Pajé. Eles são muito falados, muito conhecidos.

 

P/1 – Mas o que o Silvio ia lá fazer com a lambreta dele?

 

R – Era muito amigo deles, muito. Porque naquela época o Silvio não era rico, ele andava de lambreta. Eu tenho a idade dele, é um ano de diferença. Ele tem 85 e eu tenho 86, ele é da minha idade. Nós íamos no rádio, cantávamos na Rádio Cruzeiro, lá na Praça do Patriarca, tinha a Rádio Cruzeiro e o meu irmão era locutor, esse meu irmão Manuco. Nós cantávamos lá e a colônia escutava no rádio cantar. A colônia inteira, quando chegava a hora armênia, era Melodias Armênias o programa. Quando chegava toda colônia estava em casa sentada do lado do rádio, porque não tinha televisão naquela época. Era um radinho, meu filho, não eram esses rádios. Era um radinho, não tinha nem som, nada, não tinha. Olha o que a gente pastou, meu filho. Mas graças a Deus agora a minha família está bem, graças a Deus, porque meus pais sofreram muito.

 

P/1 – Antes de passar pra essa parte que a família já está estabelecida, ok, o que a senhora cantava na rádio? A senhora se lembra de alguma música que a senhora cantava?

 

R – Tinha várias músicas, meu filho, tinha. E músicas bonitas, meu filho. Porque agora não é mais aquilo, antigamente era diferente a colônia. Sabe por que meu filho? Agora todo mundo cresceu de financeiro, cada um vai num lugar, um viaja, outro vai não sei onde, cada um tem o ritmo de sair. Mas antigamente como o povo não tinha muito dinheiro se uniam, uniam. Mas agora não é como antigamente, acabou meu filho. O padre faz programa, não sei se você já ouviu o Padre Alessandro? Ele faz um programa muito bonito, eu não perco uma de terça. Sabe o que ele falou? Quando eu era criança nós íamos na igreja e depois da igreja nós íamos pra casa, almoçava a família toda junto, se unia e nós cantávamos música sertaneja, a família inteira. Agora não tem mais isso, ele fez, acabou. Como ele falou isso eu me lembrei do nosso tempo. Porque minha mãe faleceu, acabou. Antes a gente se unia na casa da minha mãe todo domingo, os filhos, os netos. Morreu não tem mais. E depois, a minha irmã uniu a família, a Dikranuí, ela unia a família, sempre ela uniu a família, ela nunca largou a família, nunca! Agora ela morreu, um não vê ninguém, meu filho, acabou. Ela pegou o lugar da minha mãe, essa minha irmã. Mas ela, que menina que ela era! Ela era uma santa essa mulher. Acho que ela é santa, essa minha irmã, lá em cima. Muito pura, sabe? Não tinha maldade, não gostava de briga, não gostava de discutir, nada. Ela queria paz, sabe? Se alguém ofendesse ela, ela não levava pro mal, nada. Por isso que ela foi uma santa, essa minha irmã.

 

P/1 – Agora a senhora se lembra de alguma música que a senhora cantava que a senhora possa cantar pra gente agora?

 

R – É que tinha várias músicas, bonitas mesmo. Eu cantava no coro. Cantava na igreja, no coro. Mas agora não tenho mais fôlego. Eu gostaria de cantar, mas não está dando, filho.

 

P/1 – Entendi, não tem problema. Que pena, que pena, tudo bem.

 

R – É uma pena, meu filho, é uma pena.

 

P/1 – O que mais a senhora fazia? Você ia muito na igreja, como é que era?

 

R – Era coro. Porque na hora que o padre vai na missa o coro acompanha, meu filho. E tem a organista também. Por exemplo, na igreja, você entra em Aparecida, tá certo, na hora que o padre reza tem o coro que canta, não canta, meu filho? E nós éramos igual, até hoje existe na nossa igreja, tem ainda o coro na igreja.

 

P/1 – Qual é essa igreja? É a ortodoxa?

 

R – São Jorge. Ortodoxa, lá na Avenida Tiradentes. São Jorge Iluminadora, é lá que é a nossa igreja. A gente é ortodoxo, filho. Eu respeito toda religião, cada uma tem um tipo de religião, eu respeito, mas sou ortodoxa. E católico também eu gosto. Amo católico. Esse padre quando canta é católico. Eu amo reza.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – E a comunidade, o que mais vocês fazem? Vocês fazem festa, que festa que tem lá?

 

R – Não tem aquela festa mais, filho. Antigamente tinha muita festa, muita. É que nem aquele 28 de maio, é o dia dos mártires dos armênios, eles comemoram no clube. Mas não é mais como antigamente, viu filho? Antigamente era diferente. Você mesmo vê como está a vida agora, como mudou a vida das pessoas. Até a família está mudando a vida, não é filho?

 

P/1 – É verdade.

 

R – É, tá mudando, meu filho. Antigamente, nossa, as mulheres não tinham nada pra fazer, faziam visita de casa em casa, se lembra mais ou menos, sua mãe conta?

 

P/1 – Sim.

 

R – Eles iam lá tomar café, batiam papo.

 

P/1 – Vizinho.

 

R – Um via o outro, tá certo? Agora não tem mais, meu filho, acabou. Acabou, não tem mais.

 

P/1 – Como era São Paulo antigamente, o que tinha, o que não tinha?

 

R – Nossa, era um doce! Era um doce nosso São Paulo. Era uma maravilha, meu filho! Você andava na rua, não tinha ladrão, não tinha matança, não tinha roubar criança. Não tinha esse que quando assaltam no carro?

 

P/1 – Latrocínio?

 

R – Não. Não tinha drogado! Era uma maravilha, meu filho. Agora você tem medo de sair na rua. Você não tem medo, meu filho? Você sai de manhã, teu filho vai trabalhar, tua neta vai trabalhar. Você liga toda vez no celular: “Onde é que você está? Toma cuidado”. É essa a nossa vida agora.

 

P/1 – Antigamente era mais tranquilo.

 

R – Filhinho, antigamente você podia encostar o carro em qualquer lugar. Não tinha aqueles coisos de multa, ok?

 

P/1 – CET?

 

R – É, não tinha um CET, nada! E não tinha nem desastre, filho, nada! Eu nunca escutava que alguém matou alguém. Agora todo dia tem matança. O pai tá matando o filho, criança. Pai está matando e colocando na geladeira a criança. Isso é fim de mundo, meu filho! O homem está ganhando dinheiro pra quê? Pra viver a vida. Mas não está dando pra viver, o homem quer ir num lugar pra comer, num restaurante, é assaltado, meu filho!

 

P/1 – E o que mais tinha em São Paulo antigamente, que mudou? Tinha bonde?

 

R – Nossa, o que nós andávamos de bonde!

 

P/1 – Cinema também.

 

R – Cinema?

 

P/1 – Você assistia?

 

R – Eu ia no Cine Metro lá na São João. Tomava o ônibus João Ramalho com uma prima minha, Elisa, ela mora aqui em Pinheiros. Eu e ela, nós duas, tomávamos o João Ramalho, descia na esquina da São João e ia no Cine Metro. Ninguém mexia com nós, nada! Éramos meninas,  tínhamos o quê, 15 anos? Hoje em dia você não pode sair em nenhum lugar. De lá descia, saía do cinema, nós íamos na Kopenhagen comprar chocolate pra comer, nós duas. Agora não, eu tenho medo de sair de casa, filho. Meu filho fala: “Mãe, toma cuidado, mãe! Estão pegando até velhas”. Não é? São Paulo mudou, meu filho, não é mais aquilo nosso São Paulo, estragaram com nosso São Paulo. Nosso São Paulo era lindo, lindo. Não é de boniteza que eu estou falando, de viver. As coisas eram baratas, meu pai comprava tudo por caixas, tudo: tomate, cebola, banana, verduras, tudo ele mandava pra casa. Porque nós morávamos na Rua Cantareira e o mercado era na Rua Cantareira como agora. Ele ligava e falava: “Já estou mandando, o homem está vindo”, pra minha mãe. Minha mãe logo abria, porque era portão automático, era bonito o apartamento que nós morávamos. O homem carregava tudo pra cima, não era elevador, eram dois andares que nós morávamos. O homem não mexia um palito. Agora, meu filho, você coloca uma empregada e ela te rouba tudo. Fim de mundo. O mundo não tem graça. Você não tem liberdade. Você não pode nem ir no shopping, tudo ladrão.

 

P/1 – Mas em São Paulo você diz que ia no cinema. Você lembra de algum filme que você assistiu que te marcou? Ou algum programa de rádio também.

 

R – Nós assistíamos sabe o quê, minhas irmãs e eu? À noite tinha novela, faziam novela. Quando começava a novela nós sentávamos todas juntas assim, redonda, e punha o vidro pra escutar a novela. Não tinha televisão!

 

P/1 – E essas histórias eram bonitas, eram sobre o quê?

 

R – Era bonito, era bonito, meu filho. Não era como agora as novelas, era tudo discreto, era muito bonito, muito. Mas acabou, meu filho, acabou, acabou, não vale a pena hoje em dia. Eu não estou gostando desse jeito. Até as verduras não valem nada, é tudo remédio. Está crescendo de repente, você não está reparando? É tudo agro o quê?

 

P/1 – Agrotóxico.

 

R – É, meu filho, isso dá tudo doença, tudo.

 

P/1 – Mas pra namorar, pra sair no baile, vocês faziam isso?

 

R – Meu pai não deixava nós sairmos de casa.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Não.

 

P/1 – E os seus irmãos também não.

 

R – Meu pai segurava muito nós, a minha mãe também segurava muito, não deixava. Nós não éramos de namorar, nada.

 

P/1 – Os seus irmãos também não.

 

R – Também não. Meu pai e minha mãe eram muito rígidos. E nós obedecíamos meus pais. E não me arrependo, viu, meu filho? Valeu o que eles fizeram por nós. E nós pegamos o mesmo ritmo da minha mãe e do meu pai, todas as irmãs. E graças a Deus tivemos uns filhos maravilhosos, um melhor do que o outro. Agora esse da minha irmã, que eu falei, aquele caiu do céu, meu filho, é um menino abençoado a Deus. Ele pensa muito na família, pensa muito. Aquele não sai do meu coração.

 

P/1 – Agora antes de chegar nele. Você disse que foi casada, então a senhora conheceu como seu marido?

 

R – Ah, eu conheci como meu marido?

 

P/1 – Sim!

 

R – Nossa! Minha história é grande, meu filho.

 

P/1 – Fica à vontade pra contar.

 

R – Eu conheci sabe como? Como eu tinha vários pretendentes naquela época, não era namoro viu, filho? A colônia era assim naquela época. E eu tinha muitos pretendentes. Vinham os pais, a mãe pra pedir em casamento. Eu não abria a minha boca pra nada, meu pai e minha mãe que decidiam. Nisso, um dia meu pai veio em casa, ele pegou e fez assim pra mim: “Filha, eu já te dei”. Eu falei: “Pai, pra quem o senhor me deu? Não estou sabendo de nada”. “Ah, eu dei você pro Paulo. Você vai ficar noiva com ele”. Eu falei: “Ai pai, o senhor está brincando? Como é que o senhor está me dando?”. “Não filha, é boa família, é armênio também. São bons, trabalhadores”. Eu peguei e falei: “Tá bom”, o que eu posso falar pro meu pai naquela época? “Tá bom, pai”, eu falei. Depois eu saí junto com meu marido, com meu irmão e ele. A primeira vez que ele me levou pra jantar fora, foi meu irmão, ele e eu, nós três fomos. Quando eu sentei no restaurante eu vi o tipo dele de me servir, sabe, de me levar, o tipo dele. Eu olhei assim e falei: “Nossa, bom menino”. Porque nunca namorei, nunca, nem bati papo e nem telefone, meu filho. Eu olhei assim e falei: “Nossa, ele deve ser um bom menino”. Unhas limpinhas, o tipo dele de vestimento. “É bom”. Eu tinha 17 anos, ele tinha 19 anos. Mas era um homem muito inteligente, viu filho? Nisso eu vim em casa e meu pai perguntou pra mim: “Filha, o que você achou?”. Meu pai e minha mãe estão esperando minha resposta, né? Eu peguei e falei assim: “Pai, é esse mesmo”. Valeu, então, já pode fazer o compromisso. Porque antigamente, meu filho, quando você é comprometido eles colocam joia ou anel, já é comprometida com eles, sabe? Depois veio toda a família dele contente. Minha família, todos, vieram e fizeram o compromisso de nós dois, que eu já estou noiva dele, do meu marido. Em um ano nós casamos, um ano depois que eu fiquei namorando com ele. Mas ele me deu uma vida muito boa, foi um maridão. Fiquei viúva com 54 anos, ele morreu com 56 anos. Me deu uma vida muito boa, me levou muito bem, não me arrependo, mas infelizmente fiquei viúva muito logo. Mas graças a Deus meus filhos saíram muito bons, meu sobrinho me olha, o Agop me ajuda, meu sobrinho que me ajuda, tudo.

 

P/1 – E a família do seu marido fazia o quê? Eles eram armênios, mas onde eles trabalhavam?

 

R – Era armênio a família do meu marido.

 

P/1 – Mas eles trabalhavam com o quê?

 

R – Sapato.

 

P/1 – Sapato também.

 

R – É, sapato. Ele trabalhava junto com o irmão dele. Depois acabou tudo, meu filho, entrou em aperto, não deu certo.

 

P/1 – E o seu marido trabalhava com sapatos.

 

R – É, sapato.

 

P/1 – Mas o que ele fazia? Ele trabalhava na loja ou ele fabricava?

 

R – Não, não, não, ele nunca foi empregado de ninguém, meu filho. Nunca, nunca. Não. Nunca foi empregado, meu marido nunca gostou de ser empregado porque ele era muito inteligente. Mas acontece que essas coisas não deram certo, meu filho.

 

P/1 – Quando que não deu certo, o que aconteceu?

 

R – Ah filho, logo. Depois eu tive meu filho, o Marcos nasceu. Ele teve uma... porque eu tive meu filho lá na Pro Matre e o médico era o __, era um grande médico. Não é que ele me tirou a ferro meu filho? Não pode tirar a ferro porque machuca sabe, filho? E machucou as costas dele. Mal eu saí da maternidade ele teve um abscesso muito grande. Eu corri muito no médico pra esse meu filho, muito. Estava morrendo. Foi no hospital, ficou no Oswaldo Cruz e o médico veio e me fala assim, o doutor Vilhena, muito conhecido, e o doutor João Carlos Leite Bastos. Ele veio e falou assim: “Olha, dona Maria, de hoje pra amanhã teu filho vai morrer, não vai aguentar mais porque o abscesso dele foi muito grande, acabou com as costas. Essa pele acabou tudo”. Sabe o que eu falei pro médico? “Olha doutor João Carlos, eu tenho muita fé em Deus, mais que Deus ninguém faz”, falei pra ele. No dia seguinte ele está lindo, lindo, lindo. Quando você vê a cara dele você não acredita que ele está com abscesso, você não acredita, você pensa que aquele menino não tem nada. Mas está tomando sangue, vinha sangue do banco de sangue pra ele, meu marido comprava. Nisso ele está melhorando dia por dia, o menino. O médico olhou na minha cara: “Dona Maria, este menino, a senhora está recebendo uma graça muito grande”. Eu falei: “Graças a Deus. Deus é muito bom”. Mas filho, se você visse as costas dele daquele jeito, você não acreditava porque ele perdeu toda a pele, ficou tudo pus do machucado. Gastei tanto dinheiro nesse menino, meu marido, é nisso que ele caiu, sabe? Meu marido perdeu. Depois que esse meu filho melhorou, um dia ele está dormindo na cama, eu peguei e fui lá levantar ele, estava com dois anos e meio, três anos. Estou levantando ele, o menino não me levanta, filho! O pé. “O que foi pra esse menino? Paulo, levanta! O menino não está podendo pisar”. Os olhos parados assim, a mão, tudo paralisado. Peguei e socorri na Pro Matre, no médico do doutor João Carlos. Levei lá, o João Carlos fez assim: “Dona Maria, a senhora vai levar esse menino rapidinho no Hospital das Clínicas, é o único lugar que tem lá, não tem outro lugar”. Levei ele lá, meu filho. Quando eu levei ele lá, veio três, quatro médicos lá pra ver meu filho. Veio um, olhou, Branco Lefèvre era, muito famoso esse médico, morreu. Branco Lefèvre veio, ele olhou, olhou. “Vocês têm padre?”. Eu falei: “Temos, nós somos ortodoxos”, eu falei. Então trazem o padre, ele fez pra mim. Ligamos pro padre, o padre veio. O menino está lá sabe como, de observação, que vai morrer o menino. Nisso o padre está rezando lá no menino, no quarto onde eles colocaram. Está rezando e eu estou chorando no corredor. Estou chorando, meu marido chorando. Eu falei: “Ai meu Deus do céu, mais essa eu vou aguentar?”, estou falando, de repente o padre saiu lá fora. Quando ele saiu eu falei em armênio com ele: “Padre, como é que é?”. Ele olhou na minha cara: “Maria, não se preocupe”. “Como, padre?” “Veio uma luz bem grande em cima dele”. O padre está falando pra mim: “Não tenha medo, Maria, veio uma luz muito grande no menino”. O médico veio e fez assim: “Ele não está bom, de hoje para amanhã ele morre”, pra mim. Eu falei: “Não, meu filho não vai morrer, meu filho vai viver”, eu falei pro médico. Não é que eles levaram no pulmão de aço, você já ouviu falar isso? Pro pulmão trabalhar. Colocaram no pulmão de aço, meu filho assim deitado, só espelho para eu ver a cara dele, não posso entrar lá na UTI, é espelho. Olhei assim na cara dele e falei: “Meu Deus do céu, meu filho está no...”, porque só a cabeça está de fora, o corpo está todo dentro, sabe? Deixei ele lá, mas eu tinha direito a entrar o dia inteiro lá e eu ia todo dia, todo dia, todo dia. Quando chegou o sétimo dia, filho, ligaram do hospital: “Teu filho está livre, podem vir buscar o Marcos”. Nós fomos correndo lá, toda a família foi correndo pra pegar ele. Eu estou pensando que meu filho está andando. Quando eu fui pegar no colo o meu filho, tudo daquele jeito, paralisado, a mão, o pé, tudo paralisado. Só que o médico me falou: “Dona Maria, seu filho nunca mais vai andar”. Eu falei: “Doutor, meu filho vai andar. Meu Deus está no céu”, eu falei. Filhinho, você não vai acreditar. Ai meu Deus. Depois de um ano, um ano, eu grávida da minha filha, carregando ele no meu colo, levava no massagista, no Hospital Modelo na Tamandaré, levava pra fazer massagem, no médico na Rua Tamandaré, conhece Tamandaré, né filho? Tudo, tudo, tudo eu fiz. Tudo o que eu precisava eu fiz pelo meu filho. Mas não é o que eu fiz que salvou ele, não. Foi Deus. Se você ver ele agora, o único que ficou andando com paralisia foi o meu filho, único, lá no Hospital das Clínicas. E ele é um menino abençoado por Deus, é abençoado esse menino. Se você ver ele, as costas dele, você não acredita como é que ele se salvou disso. E fora a paralisia que ele teve. Eu sofri muito, meu filho, sofri muito. Ele é o amor da minha vida, esse menino.

 

P/1 – E ele está fazendo o quê hoje?

 

R – Ele agora é vendedor, mas ele tem um coração muito bom. É igual ao meu sobrinho Agop, ele quer recolher toda a família, os irmãos, pra ajudar os irmãos. Ele é muito amoroso, muito humano, não é ganância, viu filho? Porque a gente passa cada uma na vida, meu filho, cada uma. Isso é uma história. Até a mulher que trabalha na AACD, não tem a AACD? Ela é uma das grandes lá, essa mulher, e acontece que ela é sogra da filha do meu sobrinho, casou com o filho dela! A filha do meu sobrinho Agop casou com o filho dela. Quando ela viu as costas do meu filho Marcos, ela viu, ela falou: “Marcos, vai na AACD, eu quero você lá Marcos”. Isso é uma história da vida, sabe filho? Depois meu marido teve enfarte, corri pra ele no hospital pra operar o coração dele, o Adib Jatene operou meu marido. Eu passei muita coisa, meu filho, na vida. Muita. Às vezes eu falo: “Como é que Deus ainda me deixa viver?”. Corri muito, meu filho, e até hoje não paro. A vida da gente é uma história. Agora essa morte da minha irmã foi duro pra mim, foi duro. É pena que eu não trouxe a foto dela para você ver, uma santa, santa, ela era. A vida é assim, meu filho.

 

P/1 – O que você vê ainda hoje que? O que te prende hoje ainda pros problemas de hoje?

 

R – Não entendi, meu filho.

 

P/1 – O que ainda te prende nesses problemas que têm, o que você segura?

 

R – Eu vou levando a filha, meu filho. O que eu peço é que Deus dê saúde pra todos da minha família, que Deus ilumine todos eles. Meus sobrinhos, meus filhos, meus netos, minhas sobrinhas, minhas irmãs, toda minha família, que Deus dê bastante saúde pra todos eles, porque a saúde é em primeiro lugar. Eu vi o que minha irmã sofreu, eu vi o que meu sobrinho fez pela minha irmã, meu filho. Olha, ele está de parabéns. Cuidou muito bem, muito. Antes dele morrer ele falou pra ela, ela estava nas últimas. Ela fez assim pra ele, pro filho: "Obrigada, meu filho, o que você fez por mim”.

 

P/1 – E ela estava sofrendo de Alzheimer?

 

R – Não, meu filho, complicou tudo, tudo. Não adiantou nada. Fizeram de tudo, de tudo pra ela. Às vezes eu falo: “Graças a Deus que não deixaram faltar nada pra minha irmã. Nada!”. As filhas, ele, todos. Isso é uma grande benção, né filho de Deus? É uma benção, graças a Deus.

 

P/1 – Queria só voltar um pouquinho também pra lhe perguntar do seu casamento. Você foi morar onde quando você casou?

 

R – Ah, quando eu casei? Eu fui morar lá na Rio Bonito, lá no Brás. A casa era do meu marido e do irmão dele. Morei junto com minha cunhada, era dos dois. Antigamente tinha isso.

 

P/1 – E foi bom, deu certo?

 

R – Não, não dava certo, meu filho. Eu gostava muito dela, do meu cunhado, do meu sogro, mas sabe por que meu filho? Depois que nasce os filhos muda. Porque eu adorava a família do meu marido, até hoje adoro, mas não dá certo morar junto. Nem com a mãe dá certo morar junto. Quem casa, quer casa. Todos os meus filhos casaram, minha casa é grande onde eu estou, é muito grande, mas eu não quis nenhum deles na minha casa, eu quero que cada um tenha a tua casa. Sabe por que, meu filho? Sempre tem alguma encrenca, não é? Sempre tem alguma coisa. Pra que eu vou estragar a vida do casal? Não, eu não quero estragar a vida do casal. Porque cada um tem um jeito de viver, não é filho? Eu tenho um jeito, eles têm outro jeito. Então cada um precisa ter a sua casa eu falava. Enquanto não tem casa não tem casamento, eu falava. E fiz bem, filho.

 

P/1 – Vocês se mudaram depois?

 

R – Quem casou teve a tua casa, ninguém morou comigo.

 

P/1 – Não, estou dizendo quando a senhora morava com seu marido, não deu muito certo no Brás e aí vocês se mudaram.

 

R – É, venderam, eu mudei num apartamento pequeno de dois quartos e a minha cunhada foi morar no outro perto de onde nós morávamos. Mas sempre nos demos muito bem, sempre. Não, eu nunca briguei com minha cunhada e nem com meu cunhado, respeitei sempre eles. É uma família da gente, não é filho? Não, não, não posso ter queixa, de jeito nenhum. Era que nem uma mãe também, mas não dava certo. Hoje em dia se uma filha mora com a mãe o que acontece? Não dá certo, não dá. Eu tenho uma casarona, está tudo vazio os quartos, modo de falar. Mas pra morar comigo eu não quero ninguém, quero morar sozinha, quero comer pão com queijo, mas não quero ninguém do meu lado. Eu estou certa, não estou? Não dá, meu filho. Não, quero paz.

 

P/1 – Depois que vocês se mudaram, vocês ficaram com uma casa pra vocês. Aí os seus filhos foram crescendo aí, é isso?

 

R – Não, eu fui morar no apartamento do meu pai, que eles tinham um prédio, fui morar no apartamento do meu pai.

 

P/1 – Então seu pai já tinha melhorado.

 

R – Já estava melhorando.

 

P/1 – Com o quê, comércio?

 

R – É, toda a minha família melhorou, todos melhoraram. Passaram muita necessidade, mas graças a Deus todos melhoraram, todos. A minha irmã casou e foi morar no Rio, essa que morreu. Faltava pão aqui em São Paulo naquela época, ela mandava de avião pão pra minha família. A minha irmã foi mãezona, não foi irmã, não.

 

P/1 – E além do Marcos você teve mais algum filho?

 

R – Uma menina depois do Marcos.

 

P/1 – Quem é ela?

 

R – A Cristina. Uma menina eu tive.

 

P/1 – Como ela é?

 

R – Sabe como é que é? Ela casou a primeira vez, teve uma menina. Depois não deu certo o casamento dela. Depois eu peguei ela de volta pra minha casa com a criança, com a menina. Eu criei a menina dela. O pai não dava nada, um real ele não dava de pensão. E a menina também não quis mais saber do pai porque não valia a pena, viu filho? Não foi pai ele, tá certo? Eu criei ela. Agora ela é formada advogada.

 

P/1 – Sua neta?

 

R – Minha neta. Está com 28 anos. Ela trabalha.

 

P/1 – E a sua filha está morando onde, como ela está?

 

R – Ela casou depois com outro rapaz, muito bom menino, muito bom menino, cuida bem dela e ela tem um filho dele, bonito o menino. E está levando a vidinha dela. Pelo menos ela está na casa dela, estou sossegada. E a menina está namorando, essa minha neta, é com um armênio.

 

P/1 – Também.

 

R – É. Ele é engenheiro mecânico. E vai casar esse ano se Deus quiser.

 

P/1 – E os seus parentes que deram bem, conseguiram crescer na vida, o que eles estão fazendo?

 

R – Todos estão bem, graças a Deus.

 

P/1 – Mas qual é a profissão deles? O que eles fazem?

 

R – Sabe o que é, meu filho? A maioria morreu. Os maridos das minhas irmãs morreram, da Silvia, da Suzana, o meu morreu. Mas graças a Deus eles deixaram bem elas, meus cunhados, graças a Deus deixaram muito bem. O único que não deixou bem foi o meu. Quem cuida de mim é meu sobrinho, o Agop, só. Ele cuida de mim. Porque meu marido não deu tempo de fazer nada, filho, não deu.

 

P/1 – Com o que ele estava trabalhando quando ele morreu?

 

R – Sabe o que é, filho? Eles tinham uma companhia de investimentos, Invest, o irmão e ele, os dois. Estavam trabalhando bem, estavam indo muito bem. Não sei o que aconteceu, não deu certo a companhia. Ele que dirigia, meu marido era o crânio, ele fazia muito coisa com o Olavo Setúbal, porque eles também têm banco. E estava indo bem, tudo bem, mas sabe o que é, filho, sociedade não dá. Tem gente que dá, tem gente que não dá. E meu marido falou: “Olha, irmão, assim não dá. Não adianta eu trabalhar que eu não estou podendo comprar uma casa pra minha mulher”. Ele pegou e saiu do serviço, não quis mais trabalhar. Depois que ele saiu meu cunhado vendeu pras Casas Bahia, pro Samuel. Você entendeu, filho? E meu marido ficou duro, duro, duro, sem dinheiro.

 

P/1 – Quando ele morreu?

 

R – É. Não me deixou aposentadoria, não me deixou nada, nada. E quem me cuida é meu sobrinho.

 

P/1 – Agora o seu marido morreu como?

 

R – Enfarte. De nervoso. Ele teve um enfarte. Era um homão forte. O __ sabe como ele era: forte, inteligente. Mas, infelizmente, né, filho?

 

P/1 – Como é que foi o dia do casamento de vocês?

 

R – O meu casamento? Maravilhoso! Eu não posso falar nada, é pecado se eu falar, meu filho. Ma-ra-vi-lho-so. Não era aquela riqueza, mas era uma união bonita, era família, tá certo, filho? Era isso a nossa vida. Graças a Deus, mas eu fiquei viúva com 54 anos de idade. E tenho cinco maridos, três filhos e duas filhas eu tenho. E me orgulho.

 

P/1 – E agora pra você quais são seus sonhos?

 

R – Meu sonho? Sabe o que é meu sonho, meu filho? Eu quero que meus netos, meus filhos, meu sobrinho, a família dele, do Agop, as minhas irmãs, que Deus dê bastante saúde, eu quero isso, meu filho. Em primeiro lugar, eu quero saúde pra todos eles. O que eu posso pedir mais que isso? Não. Estou com 86 anos, meu filho. Não é? Eu não sei o dia de amanhã, o que vai me acontecer. Eu quero saúde pra todos eles porque eu vi o que a minha irmã sofreu. A saúde não há dinheiro que pague. Tinha um homem muito rico, muito rico, diz que ele veio na fábrica do meu pai, na Pajé, e meu pai fabricava sapato. Ele andava com camisa toda manchada sabe por quê? Porque limpava o sapato assim, na barriga, pra vender pros fregueses, quem vinha na fábrica. Era porta também de vender sapato. E meu pai fazia assim e mostrava o sapato pra eles comprarem. E o rico veio perto do meu pai, o milionário, ele tinha prédios lá perto do Mercado, esse homem, armênio. Diz que ele fez assim pro meu pai, porque o nome do meu pai era Hovsep, ele fez assim: “Hovsep, você quer dar tua saúde pra mim e eu dou a minha pra você e a minha fortuna?”. O homem era doente, não podia comer nada, não podia respirar direito, estava mal, mal: “Me dá sua saúde pra mim e eu te dou tudo o que é meu”. Sabe o que meu pai falou? “Não, meu filho, vai com Deus, eu prefiro passar o sapato aqui na minha barriga e ter saúde”. O rico está falando isso, filho, que a saúde do meu pai. Você vê o que vale a saúde, né? Não há dinheiro que pague. Nossa, pelo amor de Deus, eu não quero ficar na cama, não meu filho, eu peço toda noite a Deus, que não me deixe na cama. Vou morrer? Que eu morro na cama, não quero dar trabalho pra ninguém. Porque eu vi, a minha irmã sofreu muito, deu dó dela, deu dó da minha irmã, ela não podia nem andar. E você vai dar essa fita agora pra mim? Puta que te pariu! Ai meu Deus do céu. É, filho...

 

P/1 – O que você achou de conversar com a gente agora?

 

R – Quando o meu marido operou do coração lá na Beneficência, ele operou na Beneficência, eu fiquei com ele à noite. Quando era de manhã, filho, eu tomava um banho lá no quarto, me trocava, pegava a sacola na mão, sabe onde é que eu andava, filho? Saía da Beneficência, ia andando até na Avenida 23 de maio. Você sabe a caminhada que tem. Andava. Quando chegava na 23 de maio eu tomava o ônibus. Sabe onde eu ia? No Mercado Municipal pra comprar coisas pros meus filhos, pra fazer comida pra jantar, com a sacola. Eu pegava as coisas, tomava o ônibus Jardim Brasil, descia na esquina da minha casa com sacola. Fazia o almoço, a janta, corria na Beneficência de novo pra dormir com meu marido. Essas pernas andaram muito, meu filho. Andei muito, meu filho. E nunca tive preguiça. E até hoje se eu puder eu ando, mas eu tenho medo de cair. E se eu caio e quebro a minha perna? Agora não dá mais. Corri muito, filho, corri. Mas valeu, né, filho? Valeu. Os médicos se espantavam comigo. O __, o doutor Jatene, ele olhava, olhava pra mim e fazia assim: “Mas que mulher que a senhora é, né, dona Maria” “É, Deus tá me dando muita força, doutor”, eu fazia. “Só que não tenho dinheiro pra te pagar”. Ele não operou o coração do meu marido? Paguei só o hospital, não paguei o Jatene. “Não tenho dinheiro, da onde eu vou dar dinheiro, doutor Jatene?”, eu falei. Ele fez assim: “Vai embora, Maria, pode ir embora”.

 

P/1 – Obrigado, viu, dona Maria, foi ótimo.

 

R – Tá, filho.

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